Foco: A atenção e seu papel fundamental para o sucesso
Quinta Parte uma Prática Inteligente
QUINTA PARTE
UMA PRÁTICA INTELIGENTE
CAPÍTULO 15
O mito das dez mil horas
A Iditarod é talvez a mais extenuante corrida do mundo: cães a puxarem trenós competem numa prova de mais de 1700 quilômetros no gelo ártico, correndo durante mais de uma semana. Normalmente, os cães e o condutor andam o dia inteiro e descansam à noite, ou andam toda a noite descansando de dia.
Susan Butcher reinventou a Iditarod ao correr e descansar alternadamente em fragmentos de quatro a seis horas ao longo da noite e do dia, em vez de doze horas sim e doze horas não. Foi uma inovação arriscada — principalmente porque lhe dava menos oportunidade para dormir. Mas ela e os seus cães tinham treinado dessa forma e, desde a primeira vez que experimentara, Butcher sabia dentro de si que o regime alternado poderia resultar.
Perseverou e acabou por ganhar a Iditarod quatro vezes. Morreu de leucemia (de que já o irmão morrera, quando ela era criança) uma década depois de estar no auge. Em sua honra, o estado do Alasca proclamou o primeiro dia da Iditarod como Dia de Susan Butcher.
Butcher, médica veterinária, foi pioneira no tratamento benévolo dos seus cães, fazendo do cuidar e treinar da equipa uma ocupação do ano inteiro e não uma tarefa excecional. E estava intensamente atenta aos limites biológicos daquilo que os cães conseguiam suportar. Uma das principais críticas a esta corrida tem sido o fraco tratamento disponibilizado aos cães.
Butcher treinava os seus cães de forma muito parecida com a preparação de um maratonista para uma corrida, percebendo que o descanso é tão importante como correr. «Para a Susan, cuidar dos cães era prioritário», contou-me o marido, David Monson. «Ela encarava os cães como atletas profissionais durante o ano inteiro, providenciando-lhes cuidados veterinários, treino e alimentação da mais elevada qualidade.»
Além disso, havia a sua preparação pessoal. «A maioria das pessoas não consegue imaginar a complexidade de fazer uma expedição de 1700 quilômetros no gelo e na neve que pode durar até 14 dias», explicou-me Monson. «A temperatura varia entre 5 graus positivos e 50 negativos; fica-se à mercê das tempestades de neve. Tem de se levar estojos de ferramentas, comida e remédios para nós e para os cães e tomar as decisões estratégicas acertadas. E como preparar uma expedição ào pico do Evereste.»
«Por exemplo, há 150 ou 160 quilômetros entre os postos de fiscalização, onde se disponibiliza o abastecimento de comida e mantimentos para o segmento seguinte e é preciso um quilo de comida de cão para cada cão, todos os dias. Mas se, na área seguinte, houver uma tempestade de neve, será preciso mais comida e abrigo para os cães. E isso acrescenta peso.»
Butcher tinha de tomar esse tipo de decisões estratégicas além de se manter vigilante e atenta — num período em que dormia apenas uma ou duas horas por dia. Embora os cães descansassem tanto tempo quanto corriam, durante as pausas ela andava atarefada a cuidar e a alimentar os cães e a si própria, procedendo a quaisquer reparações que fossem necessárias. «Manter a atenção desperta durante um período muito cansativo e tenso exige ser metódico e experiente, para se poderem tomar as decisões corretas sob pressão», explica Monson.
Passava horas e horas a apurar as suas capacidades de condução, estudando as subtilezas da neve e do gelo e vinculando-se aos cães. Mas o mais relevante naquele regime de treino era a disciplina de si mesma.
«Ela tinha realmente a capacidade de se focar», comenta Joe Runyan, outro vencedor da Iditarod. «E era isso que a tornava realmente boa naquilo.»
A «regra das dez mil horas» — segundo a qual este nível de prática detém o segredo para grandes sucessos em qualquer área — tornou-se numa crença arreigada, repetida nos sítios eletrônicos e recitada como uma litania nas oficinas
experimentais sobre alto rendimento[186]. O problema é ser apenas uma meia-verdade.
Se você for um nabo no golfe, por exemplo, e cometer os mesmos erros de cada vez que tenta determinado swing ou putt, dez mil horas a praticar esse erro não melhorarão o seu jogo. Você continuará a ser um nabo, embora mais velho.
Um especialista como Anders Ericsson, o psicólogo da Universidade Estadual da Florida cuja investigação sobre mestria gerou a regra empírica das dez mil horas, disse-me: «Ninguém retira benefícios da repetição mecânica, mas sim do ajustamento da execução uma e outra vez, até se aproximar do
objetivo.»[187]
«É preciso ajustar o sistema por meio da insistência», acrescenta ele, «tolerando mais erros a princípio, à medida que se vão expandindo os limites.»
Tirando desportos como o basquetebol ou o futebol, em que características físicas como a altura e a dimensão física são vantajosas, diz Ericsson, quase toda a gente pode, com prática, alcançar os mais altos níveis de desempenho.
Os corredores da Iditarod desprezavam a princípio as hipóteses de alguma vez Susan Butcher ganhar uma corrida. «Nesses dias», recorda David Monson, «a Iditarod era considerada um desporto para homens tipo cobóis — rijos e tesos. Entrava-se na corrida porque se era duro. De início, os outros corredores diziam que a Susan nunca poderia ganhar — ela mimava os cães. Depois, quando começou a ganhar ano após ano, as pessoas perceberam que os cães dela estavam mais bem preparados para os rigores da corrida do que os outros. Isso mudou fundamentalmente o modo como as pessoas se preparam e como fazem agora a corrida».
Ericsson defende que o segredo da vitória está na «prática deliberada», em que um treinador especialista (essencialmente o que Susan Butcher era para os seus cães) nos guia durante meses ou anos num treino bem concebido e a que dedicamos a nossa completa concentração.
Horas e horas de prática são necessárias para um ótimo desempenho, mas não são o suficiente. A forma como os especialistas em qualquer domínio prestam atenção enquanto praticam é de crucial diferença. Por exemplo, no seu muito citado estudo sobre violinistas — o tal que mostrou que os de nível superior praticaram mais de dez mil horas — Ericsson verificou que os especialistas o faziam com concentração total, melhorando um aspeto particular
do seu desempenho, que um professor identificava[188].
Uma prática inteligente inclui sempre um momento em que se recebe de volta um parecer que permite reconhecer erros e corrigi-los — e é por isso que os bailarinos usam espelhos. Em condições ideais, esse retorno vem de alguém com um olhar experiente. Tanto assim é que qualquer atleta de estatuto mundial tem um treinador. Praticar sem esse retorno impossibilita chegar ao topo.
O retorno interessa, bem como a concentração. Não é só as horas que se pratica.
Aprender a melhorar qualquer capacidade requer um foco de cima para baixo. A neuroplasticidade, o fortalecimento de velhas redes de circuitos cerebrais e a construção de novas redes para uma capacidade que estamos a treinar exige prestar atenção: quando a prática ocorre ao mesmo tempo que nos estamos a focar noutra coisa, o cérebro não reconstrói a rede de circuitos relevante para essa rotina em particular.
O sonhar acordado dá cabo do treino; quem vai vendo televisão enquanto pratica exercício nunca atingirá os níveis cimeiros. Dar total atenção parece aumentar a velocidade de processamento da mente, fortalecendo as conexões sinápticas, e expandir ou criar redes neuronais para aquilo que estamos a praticar.
Pelo menos, a princípio. Mas, à medida que se vai dominando a forma de executar a nova rotina, a prática repetida transfere o comando dessa capacidade do sistema de cima para baixo do foco intencional para os circuitos de baixo para cima, que acabam por tornar essa execução em algo que não necessita de esforço. Nessa altura, não se precisa de pensar naquilo — pode realizar-se a
rotina suficientemente bem em modo automático[189].
E é aqui que os amadores e os especialistas seguem caminhos diferentes. Os amadores contentam-se, a certa altura, em deixar que os seus esforços se transformem em operações de baixo para cima. Após 50 horas de treino — quer seja a esquiar ou a conduzir — as pessoas atingem aquele nível de desempenho «suficientemente bom», em que conseguem repetir os movimentos mais ou menos sem esforço. Deixam de sentir a necessidade de uma prática concentrada, contentando-se em aproveitar o que aprenderam. Por mais que treinem neste modo de funcionamento de baixo para cima, o seu progresso será apenas residual.
Os especialistas, em contrapartida, continuam a prestar uma atenção de cima para baixo, contrariando intencionalmente o impulso do cérebro para automatizar as rotinas. Concentram-se ativamente nos movimentos que ainda têm de aperfeiçoar, em corrigir aquilo que não está a resultar no seu jogo e em refinar os seus modelos mentais sobre como jogar o jogo, ou focando-se nos pormenores da orientação de um treinador com experiência. Os que estão 110 topo nunca param de aprender: se, a determinada altura, começam a acomodar-se e interrompem essa prática inteligente, o seu jogo passa a funcionar de baixo para cima e as suas capacidades estagnam.
«O executante especialista», diz Ericsson, «contraria ativamente essas tendências para o automatismo, construindo e procurando deliberadamente um treino em que o objetivo estabelecido ultrapasse o seu atual nível de desempenho.» E acrescenta: «Quanto mais tempo um executante especialista é capaz de investir numa prática deliberada com total concentração, mais
desenvolvido e apurado será o seu desempenho»[190].
Susan Butcher treinava-se a si e aos seus cães para funcionarem como uma unidade de alto rendimento. Ao longo do ano, ela e os cães submetiam-se a um ciclo de 24 horas de períodos de corrida e descanso, depois descansavam dois dias não correndo o risco de os cães perderem velocidade por excesso de treino no modelo então habitual das 12 horas. Quando chegaram à Iditarod, ela e os cães estavam no pico das suas capacidades.
A atenção focada, como um músculo fatigado, também se cansa. Ericsson verificou que os competidores de classe mundial quer sejam halterofilistas, pianistas ou cães de corridas de trenós — tendem a limitar a prática esforçada a cerca de quatro horas por dia. O descanso e o restabelecimento da energia física e mental são incorporados no seu regime de treino. Procuram levar-se a si próprios e ao seu corpo ao máximo, mas não tanto que o foco diminua na sessão de treino. A prática ótima conserva a concentração ótima.
Fragmentos de atenção
Quando, nas suas deslocações mundiais, o Dalai Lama fala para grandes audiências, Thupten Jinpa, o seu principal tradutor de inglês, está frequentemente a seu lado. Jinpa escuta com enlevada atenção enquanto Sua Santidade fala em tibetano, rabiscando apenas ocasionalmente uma nota rápida. Depois, quando há uma pausa, Jinpa repete em inglês o que foi dito, na sua
elegante pronúncia de Oxbridge[191].
Quando dou conferências no estrangeiro com a ajuda de um tradutor, dizem-me para pronunciar apenas algumas frases antes de fazer uma pausa, para que o tradutor possa traduzir as minhas palavras. Caso contrário, teria de lembrar-se de demasiadas coisas.
Mas aconteceu-me estar presente quando este duo tibetano se dirigia a uma multidão de milhares de pessoas e o Dalai Lama parecia falar durante períodos cada vez mais alargados, antes de se deter para a tradução em inglês. Pelo menos uma vez, prosseguiu em tibetano durante quinze minutos inteiros, antes de parar. Parecia impossível que algum tradutor registasse um trecho tão longo.
Quando o Dalai Lama fez uma pausa, Jinpa ficou silencioso durante vários momentos, enquanto o público se agitava com evidente consternação em relação ao desafio mnemónico que ele tinha pela frente.
Em seguida, Jinpa iniciou a tradução, e também ele prosseguiu durante quinze minutos — sem hesitação, ou sequer uma pausa. Foi um desempenho de cortar a respiração, que levou a audiência a aplaudir.
Qual era o segredo? Quando perguntei a Jinpa, ele atribuiu a força da sua memória ao treino que tivera, quando jovem monge, num mosteiro tibetano no Sul da índia, onde lhe era exigido que memorizasse longos textos. «Começa-se com 8 ou 9 anos», contou-me ele. «Lidamos com textos em tibetano clássico, que não compreendemos ainda — seria como se um monge europeu tivesse de memorizar latim. Memorizamos pelo som. Alguns dos textos são cânticos litúrgicos — vê-se os monges a recitar esses cânticos completamente de cor.»
Alguns dos textos que os jovens monges memorizam têm até trinta páginas, com centenas de páginas de comentário. «Começávamos com vinte linhas que memorizávamos de manhã, depois repetíamos várias vezes durante o dia com o texto como auxiliar. Depois, à noite, recitávamos as linhas às escuras, completamente de memória. No dia seguinte, acrescentávamos mais vinte linhas e recitávamos as quarenta juntas — até conseguirmos recitar o texto inteiro.»
O perito da prática inteligente Anders Ericsson ensinou algo semelhante a estudantes universitários americanos, que, à força de pura persistência, aprenderam a repetir corretamente até 102 dígitos aleatórios (o que exigiu 400 horas de prática focada). Conforme Ericsson verificou, uma atenção concentrada permite que os praticantes descubram formas mais inteligentes de desempenho — quer seja no teclado ou no labirinto da mente.
«Quando se trata desta aplicação da atenção», confessou Jinpa, «é preciso alguma teimosia. É preciso persistência, apesar de ser aborrecido.»
Esta memorização inteligente parece expandir a capacidade da memória de trabalho, onde, durante alguns segundos, armazenamos aquilo a que estamos a dar atenção, enquanto o passamos para a memória de longo prazo. Mas esse aumento é funcional, não verdadeiramente uma expansão daquilo a que podemos dar atenção num momento em particular. O segredo é fragmentar — uma forma de prática inteligente.
«Enquanto Sua Santidade fala», contou-me Jinpa, «eu conheço o sentido geral daquilo que ele está a dizer e, a maior parte das vezes, conheço os textos em particular de que ele está a falar. Tomo nota dos pontos essenciais, embora raramente consulte as notas quando falo.» Esses apontamentos indicam uma espécie de fragmentação.
Herbert Simon, o falecido laureado com o prêmio Nobel e professor de ciência computacional na Universidade de Carnegie Mellon, disse-me há alguns anos: «Todo o especialista adquiriu algo do tipo desta capacidade mnemónica», dentro da sua especialidade. «A memória é como um índice; os especialistas possuem aproximadamente 50 000 fragmentos de unidades familiares de informação que reconhecem. Para um médico, muitos desses fragmentos são
sintomas.»[192]
O ginásio mental
Pense-se na atenção como um músculo mental que podemos fortalecer com exercício. A memorização trabalha esse músculo, tal como a concentração. O equivalente mental a levantar um haltere repetidas vezes é notar quando a nossa mente divaga e voltar a trazê-la para o alvo.
É essa a essência do foco num ponto na meditação, que, vista pela lente da neurociência cognitiva, envolve sempre o treino da atenção. É-nos pedido que mantenhamos a atenção numa única coisa, como um mantra ou a respiração. Tente-se isto durante algum tempo e inevitavelmente a mente divagará.
Por isso, são estas as instruções universais: quando a mente divaga — e reparamos que ela divagou — trazemo-la de volta ao ponto de foco e mantemos aí a atenção. E, quando a mente divagar de novo, faz-se o mesmo. E de novo. E de novo. E de novo.
Os neurocientistas da Universidade de Emory usaram ressonâncias magnéticas para obter imagens do cérebro de pessoas em meditação a
experimentarem este simples movimento da mente[193]. Há quatro passos neste ciclo cognitivo: a mente divaga, repara- —se que ela está a divagar, muda-se a atenção para a respiração e mantém-se aí a atenção.
Durante a divagação da mente, o cérebro ativa a habitual rede de circuitos mediai. No momento em que se repara que a mente está a divagar, surge outra rede de atenção, esta para a relevância. E, quando se muda o foco de novo para a respiração e se a mantêm lá, os circuitos do domínio cognitivo pré-frontal assumem o comando.
Como em qualquer forma de exercício, quanto mais repetições mais forte o músculo se torna. Um estudo descobriu que praticantes de meditação com mais experiência eram capazes de desativar a zona mediai mais rapidamente assim que notavam que a mente divagara; à medida que, com a prática, os seus pensamentos se tornam menos persistentes, vai sendo mais fácil largá-los e regressar à respiração. Havia mais conectividade neuronal entre a zona da mente
divagante e aquelas que desprendem a atenção[194]. Esta conectividade crescente no cérebro de praticantes de longo prazo de meditação, sugeriu o estudo, é análoga à dos halterofi- listas com peitorais perfeitos.
Os culturistas sabem que não se constroem abdominais definidos a levantar halteres — é preciso um conjunto particular de exercícios abdominais que trabalhem os músculos relevantes. Músculos específicos respondem a regimes de treino particulares. O mesmo se passa com o treino da atenção. A concentração num ponto do foco é o constituinte básico da atenção, mas essa força pode ser aplicada de muitas formas diferentes.
No ginásio mental, como em qualquer treino de preparação física, os aspetos específicos da prática fazem toda a diferença.
Acentuar o positivo
Larry David, criador das séries de sucesso Seinfeld e Calma, Larry, vem de Brooklyn mas viveu a maior parte da sua vida em Los Angeles. Numa rara estada em Manhattan para filmar episódios para Calma, Larry — em que se interpreta a si próprio — David foi ver um jogo ao Yankee Stadium.
Durante uma pausa no jogo, as câmaras enviaram a sua imagem para os gigantescos ecrãs Jumbotron. O estádio apinhado de fãs levantou-se para o aplaudir.
Mas, quando David se ia embora nessa noite, no parque de estacionamento alguém se debruçou para fora de um carro que passava e gritou: «Larry, não vales nada!»
A caminho de casa, Larry David estava obcecado com aquilo: «Quem seria aquele sujeito? O que foi aquilo? Quem faria uma coisa daquelas? Porque havia alguém de dizer uma coisa assim?»
Foi como se os cinqüenta mil fas não existissem — apenas aquele
sujeito[195].
A negatividade foca-nos num âmbito estreito — aquilo que nos perturba [196]. Uma regra empírica na terapia cognitiva defende que focarmo-nos nos aspetos negativos da experiência é uma receita para a depressão. Tratamentos de terapia cognitiva teriam encorajado alguém como Larry David a trazer à memória os sentimentos positivos que experimentou quando a multidão o saudou, e a manter aí o seu foco.
As emoções positivas alargam o âmbito da atenção; ficamos livres para absorver tudo. Na verdade, no auge da positividade, a nossa perceção muda. Como diz a psicóloga Barbara Frederickson, que estuda os sentimentos positivos e os seus efeitos, quando nos sentimos bem a nossa consciência expande-se do nosso habitual foco centrado no «mim» para um foco mais inclusivo e caloroso
no «nós»[197].
Focarmo-nos nos aspetos negativos ou positivos proporciona- —nos uma espécie de ferramenta para determinarmos a forma como o nosso cérebro funciona. Quando estamos com uma disposição acelerada, enérgica, a área pré-frontal esquerda do cérebro acende. A área esquerda alberga também a rede de circuitos que nos lembra como nos sentimos bem quando finalmente atingimos um objetivo há muito procurado — aquilo que ajuda um estudante universitário a não desistir numa assustadora dissertação.
No plano neuronal, a positividade reflete o tempo durante o qual conseguimos prolongar esta disposição. Uma medição técnica, por exemplo, avalia durante quanto tempo as pessoas mantêm o sorriso depois de verem alguém ajudar uma pessoa em dificuldades, ou depois de observarem um miúdo exuberante aos saltos por todo o lado.
Esta animada disposição manifesta-se nas atitudes: por exemplo, quando encaramos a mudança para uma nova cidade ou o relacionamento com outras pessoas como uma aventura que abre excitantes possibilidades — maravilhosos lugares para descobrir, novos amigos — e não como um passo a recear. Quando a vida nos traz um surpreendente momento positivo, como uma conversa calorosa, a disposição positiva dura e dura.
Conforme poderia esperar-se, as pessoas que experimentam a vida sob esta luz focam-se no horizonte brilhante, não apenas nas nuvens. O oposto, o cinismo, gera pessimismo: não apenas um foco na nuvem, mas a convicção de que, por trás dessa, há outras mais escuras à espreita. Tudo depende de onde nos focamos: naquele insignificante fã, ou nos cinqüenta mil que nos aplaudem.
Em parte, a positividade reflete a rede de circuitos cerebrais da recompensa em ação. Quando estamos felizes, o núcleo accumbens, uma região no interior do estriado ventral, no meio do cérebro, ativa-se. Esta rede de circuitos parece ser vital para a motivação e para a sensação de que aquilo que se está a fazer é compensador. Ricos em dopamina, estes circuitos fomentam os sentimentos positivos, a perseguição dos nossos objetivos e o desejo.
Isto combina-se com os opiáceos endógenos cerebrais, que incluem as endorfinas (os elevados neurotransmissores do atleta). A dopamina alimenta o nosso impulso e persistência, enquanto os opiáceos os marcam com uma sensação de prazer.
Estes circuitos mantêm-se ativos enquanto continuamos num estado de espírito positivo. Num estudo revelador que comparou pessoas com depressão com voluntários saudáveis, Davidson verificou que, depois de verem uma cena alegre, os deprimidos não conseguiam manter os sentimentos positivos daí
resultantes a sua rede de circuitos de recompensa fechou-se muito mais cedo[198]. A nossa área executiva consegue desencadear este circuito, tornando-nos mais capazes de sustentar a sensação positiva e de continuar em frente apesar dos desaires, ou apenas de perseverar em direção a um objetivo que nos faz sorrir quando imaginamos o que será atingi-lo. E a positividade, por sua vez, traz-nos grandes vantagens no que respeita ao desempenho, fornecendo-nos energia para nos concentrarmos melhor, pensarmos com maior flexibilidade, perseverar.
Eis uma questão: se tudo resultasse perfeitamente na sua vida, o que estaria você a fazer daqui a dez anos?
Esta pergunta convida-nos a sonhar um pouco, a considerar o que realmente tem importância para nós e como isso poderia guiar as nossas vidas.
«Falar acerca dos objetivos positivos e sonhos ativa centros cerebrais que abrem para novas possibilidades. Mas, se mudarmos a conversa para o que devíamos fazer para ficarmos bem, fechamo- —nos», explica Richard Boyatzis, psicólogo da Escola de Gestão Weatherhead, da Case Western Reserve University (e meu amigo e colega desde que nos conhecemos no mestrado).
A fim de explorar estes efeitos contrastantes no acompanhamento pessoal, Boyatzis e os colegas obtiveram representações imagiológicas dos cérebros de
estudantes universitários durante entrevistas[199]. Para alguns, a entrevista centrou-se em aspetos positivos como essa pergunta acerca do que gostariam de estar a fazer daí a dez anos e o que esperavam ganhar com os anos passados na universidade. As imagens cerebrais revelaram que, durante as entrevistas focadas nos aspetos positivos, havia uma maior atividade na rede de circuitos cerebrais da recompensa e nas áreas das boas sensações e das memórias felizes. Pense-se nisto como uma assinatura neuronal da abertura que sentimos quando somos inspirados por um sonho visionário.
Para os outros, o foco era mais negativo: se achavam muito exigentes os horários e os trabalhos, as dificuldades em fazer amigos e receios acerca do desempenho. Enquanto os estudantes lutavam com as perguntas mais negativas, as suas áreas cerebrais ativadas geravam ansiedade, conflito mental, tristeza.
Um foco nos nossos pontos fortes, defende Boyatzis, incita- —nos a um futuro desejado e estimula a abertura a novas ideias, pessoas e planos. Em contraste, concentrarmo-nos nas nossas fraquezas gera uma sensação defensiva de obrigação e culpa, fechando-nos.
O ponto de vista positivo conserva a alegria da prática e da aprendizagem — razão pela qual mesmo os atletas e executantes mais experientes continuam a desfrutar do ensaio dos seus movimentos. «E preciso um foco negativo para sobreviver, mas é necessário um foco positivo para nos desenvolvermos», diz Boyatzis. «Ambos são precisos, mas na proporção adequada.»
Será bom que a proporção tenda mais para o lado positivo do que para o negativo, à luz do que é conhecido por «efeito Losada», designação que vem de Marcial Losada, um psicólogo organizacional que estudou as emoções nas equipas comerciais de alto desempenho. Analisando centenas de equipas, Losada determinou que as mais eficazes tinham um rácio positivo/negativo de pelo menos 2,9 sentimentos positivos para cada momento negativo (existe um limite superior para a positividade: acima de um rácio de Losada de cerca de 11 para 1, as equipas tornam-se aparentemente demasiado frívolas para serem eficazes)
[200]. O mesmo nível de rácio aplica-se às pessoas que prosperam na vida, de acordo com a investigação de Barbara Frederickson, psicóloga da Universidade
da Carolina do Norte (e antiga investigadora associada de Losada)[201].
Boyatzis defende que este predomínio da positividade se aplica também ao acompanhamento pessoal — seja de um professor, um progenitor, um chefe ou um instrutor executivo.
Uma conversa que começa com os sonhos e esperanças de uma pessoa pode levar a uma «via» de aprendizagem que conduz a essa visão. Esta conversa poderá extrair alguns objetivos concretos da visão geral e descobrir depois o que seria preciso para alcançar esses objetivos — e que capacidades devemos trabalhar para lá chegar.
Tal contrasta com uma abordagem mais comum que se foca nos pontos fracos da pessoa — quer sejam as más notas, ou não alcançar os objetivos trimestrais — e o que fazer para os remediar. Uma conversa deste tipo foca-nos naquilo que há de errado connosco — nas nossas falhas e naquilo que temos de fazer para nos «consertarmos» ~ e em todos os sentimentos de culpa, medo, etc., que lhes estão associados. Uma das piores versões desta abordagem é quando os pais castigam um filho por ter más notas até ele melhorar. Na verdade, a ansiedade de ser castigado bloqueia o córtex pré-frontal da criança, quando esta tenta concentrar-se e aprender, criando maior impedimento ao progresso.
Nas cadeiras que ensina na Case para os alunos do MBA e para executivos a meio de carreira, Boyatzis tem aplicado, durante muitos anos, o método dos sonhos em primeiro lugar. Claro que apenas os sonhos não basta: é preciso praticar o novo comportamento em todas as oportunidades que ocorram naturalmente. Num dia, tal poderá significar entre nenhuma e uma dúzia de oportunidades para experimentar a rotina que se está a tentar dominar. Esses momentos são significativos.
Um dos gestores, um executivo aluno de um MBA, queria construir melhores relações. «Era formado em engenharia», contou-me Boyatzis. «Davam-lhe uma tarefa e tudo o que ele via era a tarefa e não as pessoas com quem trabalhava para a realizar.»
Então, o seu plano de aprendizagem foi «passar algum tempo a pensar como é que a outra pessoa se sente». Para obter oportunidades regulares e de baixo risco fora do ambiente do trabalho e dos hábitos que lá mantinha, foi ajudar a treinar a equipa de futebol do filho e tentou focar-se nos sentimentos dos jogadores, enquanto os treinava.
Com o mesmo intuito de aprendizagem, outro dos executivos dedicou-se a uma tarefa de ensinar, voluntariando-se numa escola secundária num bairro pobre. Usou esta oportunidade, explica Boyatzis, «para que o ajudasse a aprender a sintonizar-se melhor e a ser mais “gentil” ao ajudar os outros» — um novo hábito que transportou também para o local de trabalho.
Para obter dados acerca dos seus resultados, Boyatzis faz avaliações sistemáticas dos que passam pelos cursos. Colegas, ou outras pessoas que os conheçam bem, pontuam anonimamente os estudantes em vários comportamentos específicos que revelam esta ou aquela competência da inteligência, típica das pessoas com elevado desempenho (por exemplo: «Compreende os outros porque os ouve com atenção»). Depois, localiza os estudantes anos mais tarde e pede que aqueles que trabalham nessa altura com eles os classifiquem de novo.
«Até agora, realizámos 26 estudos longitudinais separados, localizando as pessoas onde quer que agora trabalhem», diz-me Boyatzis. «Verificámos que as melhorias que os estudantes realizaram na sua primeira avaliação duram até sete anos depois.»
Quer estejamos a tentar aperfeiçoar uma capacidade no desporto ou na música, a aumentar o nosso poder de memória, ou a ouvir melhor, os elementos essenciais de uma prática inteligente são os mesmos: idealmente, uma agradável combinação de alegria, táticas inteligentes e foco total.
Quando explorámos as três variedades de foco, ouvimos falar também de modos de fomentar cada uma delas. A prática inteligente atinge um nível mais fundamental, cultivando os aspetos básicos da atenção sobre os quais se constrói o triplo foco.