Foco: A atenção e seu papel fundamental para o sucesso

Primeira Parte a Anatomia da Atenção

PRIMEIRA PARTE

 

A ANATOMIA DA ATENÇÃO

CAPÍTULO 2

 

Aspetos básicos

 

Quando era adolescente, adquiri o hábito de ouvir os quartetos de cordas de Béla Bartók — que achava ligeiramente cacofónicos, mas que mesmo assim me agradavam — enquanto fazia os trabalhos de casa. De algum modo, afastar aqueles sons discordantes ajudava-me a focar, por exemplo, na fórmula química do hidróxido de amónio.

Anos mais tarde, quando comecei a escrever artigos com curtos prazos de entrega para o New York Times, lembrei-me daquele esforço anterior para ignorar Bartók. No Times, estava no meio da secção de Ciências, que naqueles anos ocupava uma cave do tamanho de uma sala de aula, apinhada de secretárias de cerca de uma dúzia de jornalistas científicos, mais uma meia dúzia de redatores.

Havia sempre um zumbido cacofónico do gênero de Bartók. Ali ao lado, poderiam estar três ou quatro pessoas a conversar; ouvia-se o lado de cá de uma conversa telefônica — ou de várias — enquanto os repórteres falavam com as fontes; os redatores gritavam do outro lado da sala a perguntar quando é que teriam um artigo pronto. Raramente, se é que alguma vez, se ouvia o som do silêncio.

E, contudo, nós, os escritores científicos, grupo em que eu me incluía, entregávamos sem falta o nosso texto pronto para editar a tempo, dia após dia. Nunca ninguém pedia «Toda a gente calada, se faz favor», para se poder concentrar. Limitávamo-nos a redobrar o nosso foco, desligando-nos do barulho.

Esse foco no meio do estrépito indica uma atenção seletiva, a capacidade neuronal para nos concentrarmos apenas num alvo, ignorando ao mesmo tempo um mar ondulante de estímulos, cada um deles um foco potencial. Era isto que William James, um dos fundadores da psicologia moderna, queria dizer quando definiu «atenção» como «a súbita tomada de posse pela mente, de forma clara e nítida, de um objeto ou linha de pensamento, de entre aqueles que parecem

simultaneamente possíveis»[10].

Existem duas principais variedades de distrações: sensoriais e emocionais. As distrações sensoriais são fáceis: enquanto o leitor lê estas palavras, está a eliminar as margens em branco que rodeiam o texto. Ou repare por um momento na sensação da vossa língua contra o palato superior — é apenas uma de uma infinda onda de estímulos recebidos que o cérebro exclui da contínua maré de barulhos de fundo, cores, sabores, cheiros, sensações e por aí adiante.

Maior desafio são os sinais emocionalmente densos, a segunda variedade de atrações. Poderá achar fácil concentrar-se em responder ao correio eletrônico no meio da algazarra do café do bairro, mas se ouvir alguém dizer o seu nome (ou seja, uma potente atração emocional), será quase impossível excluir a voz que o pronuncia — a sua atenção alerta-o reflexivamente para ouvir o que alguém está a dizer sobre você. Quem quer já saber da mensagem de correio eletrônico?

Porém, o maior desafio, mesmo para os mais focados, resulta do redemoinho emocional das nossas vidas, como por exemplo uma recente desavença numa relação próxima, que se introduz continuamente nos seus pensamentos. Estes pensamentos intrometem-se por uma boa razão: para nos levar a pensar até ao fim sobre o que fazer acerca do que nos está a preocupar. A linha divisória entre a ruminação inútil e a reflexão produtiva reside em se ser capaz de descobrir uma hipotética solução ou uma compreensão que permita abandonar esses pensamentos — ou de, por outro lado, nos mantermos obcecados com o mesmo círculo de preocupações.

Quanto mais o nosso foco for interrompido, pior ficamos. Por exemplo, um teste sobre como os atletas universitários são suscetíveis a que a sua atenção seja interrompida pela ansiedade correlaciona-se significativamente com o seu grau

de desempenho na época de exames[11].

A capacidade de nos mantermos fixos num alvo e ignorarmos tudo o resto opera nas regiões pré-frontais do cérebro. As redes de circuitos especializadas nesta área aumentam a força dos sinais recebidos em que nos queremos concentrar (aquela mensagem) e atenua aqueles que escolhemos ignorar (aquelas pessoas a tagarelar na mesa ao lado).

Uma vez que o foco exige que eliminemos as nossas distrações emocionais, as nossas ligações neuronais da atenção seletiva incluem as da inibição da emoção. Isso significa que aqueles que melhor se focam são relativamente imunes à turbulência emocional, mais capazes de se manter inabaláveis nas crises e prosseguirem num rumo determinado, apesar das ondas emocionais da

vida[12].

O fracasso em largar um foco e passar a outros poderá deixar a mente perdida em ruminações, repetindo círculos de preocupações, numa ansiedade crônica. Em casos extremos de carácter clínico, pode significar ficar perdido na depressão, em círculos de pensamento de desamparo, desespero e piedade por si próprio; ou em inúmeras repetições de pensamentos ou gestos ritualistas (tocar na porta cinqüenta vezes antes de sair de casa), quer dizer, distúrbios obsessivo-compulsivos. O poder de desvincular a nossa atenção de uma coisa e passar à seguinte é essencial para o bem-estar.

Quanto mais forte for a nossa atenção seletiva, mais fortemente conseguiremos permanecer absorvidos naquilo que estivermos a fazer: ser arrebatado pela cena de um filme, ou achar fascinante um excerto poético. Um foco forte permite que as pessoas se percam no YouTube ou no seu trabalho de casa a ponto de se tornarem inconscientes do tumulto que as possa rodear — ou dos pais a chamarem para o jantar.

E possível localizar as pessoas focadas numa festa: são capazes de mergulhar numa conversa, com os olhos presos na outra pessoa, completamente absorvidos nas suas palavras — apesar da coluna ali ao lado a fazer soar os Beastie Boys. Os que não se focam, em contrapartida, estão em contínua interação, com o olhar a gravitar em torno daquilo que os possa atrair, com a sua atenção à deriva.

Richard Davidson, um neurocientista da Universidade do Wisconsin, indica o foco como uma das várias capacidades essenciais da vida, cada uma baseada num sistema neuronal separado, que nos guiam pela turbulência das nossas vidas

interiores, relações e de todos os desafios que a vida nos traz[13].

Durante o foco concentrado, verifica Davidson, a principal rede de circuitos no córtex pré-frontal entra num estado sincronizado a que ele chama «fase de

encerramento»[14]. Se as pessoas premirem um botão quando ouvem determinado som, os sinais elétricos na sua área pré-frontal disparam precisamente em sincronia com esse som.

Quanto melhor se focarem, mais forte o encerramento neuronal. Mas se, em vez de concentração, houver um amontoado de pensamentos, a sincronia

desaparece[15]. E essa baixa na sincronia que indica as pessoas com distúrbio de

défice de atenção[16].

Aprendemos melhor com a atenção focada. Quando nos focamos naquilo que estamos a aprender, o cérebro cartografa aquela informação sobre o que já sabemos, realizando novas ligações neuronais. Se o leitor e uma criança pequena partilharem a atenção em relação a alguma coisa que o leitor nomeie, a criança aprende a palavra; se o foco dela vaguear enquanto o leitor a nomear, a criança não aprende a palavra.

Quando a nossa mente vagueia, o nosso cérebro ativa um conjunto de circuitos cerebrais que tagarelam sobre coisas que não têm nada que ver com aquilo que estamos a tentar aprender. Na ausência de foco, nenhuma nova recordação daquilo que aprendemos é armazenada.

As distrações mais poderosas são as nossas emoções; qualquer coisa acerca da qual tenhamos sentimentos poderosos atrai a nossa atenção. As pessoas que são mais focadas conseguem resistir a essa atração magnética e manter-se focadas noutra coisa.

 

Desfocagem

 

É agora altura para um teste rápido:

 

Qual o termo técnico para a onda de sincronia cerebral com um som que se ouve?

Quais são as duas principais variedades de distração? O que prevê o bom desempenho dos atletas universitários?

 

Se respondeu com facilidade a estas perguntas, esteve com atenção enquanto lia — as respostas estavam nas páginas anteriores (e podem ser encontradas no

final do livro [17]).

Se não sabe as respostas, então é provável que se desfocasse de vez em quando, enquanto lia. E não é o único.

A mente de um leitor, em geral, divaga entre 20 a 40 por cento do tempo em que percorre um texto. O custo para os estudantes, o que não surpreende, é que

quanto mais divagam pior é a sua compreensão[18].

Mesmo quando as nossas mentes não estão a divagar, se o texto deixa de fazer sentido — por exemplo, Temos de ganhar algum circo para o dinheiro, em vez de Temos de ganhar algum dinheiro para o circo cerca de 30 por cento das vezes os leitores continuam a ler durante um bocado significativo (em média 17 palavras) antes de se aperceberem.

Enquanto lemos um livro, um blogue, ou qualquer narrativa, a nossa mente constrói um modelo mental que nos permite apreender o sentido daquilo que estamos a ler e o liga ao universo daqueles modelos que já possuímos e que dizem respeito ao mesmo assunto. Esta rede em expansão da compreensão está no âmago da aprendizagem. Quanto mais nos desfocarmos enquanto construímos essa rede, e quanto mais cedo o lapso depois de começarmos a ler, mais buracos haverá.

Quando lemos um livro, o nosso cérebro constrói uma rede de caminhos que dá corpo a esse conjunto de ideias e experiências. Contraste-se esta profunda compreensão com as interrupções e distrações que caracterizam a sempre sedutora internete.

O bombardeamento de textos, vídeos, imagens e miscelânea de mensagens que obtemos em linha parece ser inimigo da compreensão mais total que resulta daquilo a que Nicholas Carr chama «leitura profunda», que exige concentração e imersão sustentadas num assunto, em vez de se saltitar de uma coisa para outra,

agarrando factoides desligados[19].

Na medida que a educação se desloca para formatos baseados na Web, surge o perigo de a massa multimédia de distrações a que chamamos internete dificultar a aprendizagem. Já nos anos 50, o filósofo Martin Heidegger avisava contra uma ameaçadora «maré de revolução tecnológica» que poderia «cativar, encantar, deslumbrar e seduzir de tal modo o homem que o pensamento

calculista poderá um dia tornar-se [...] a única forma de pensar»[20]. Tal aconteceria à custa da perda do «pensamento reflexivo», um modo de reflexão que ele via como a essência da nossa natureza humana.

Eu interpreto o aviso de Heidegger no sentido do declínio de uma capacidade no âmago da reflexão, a capacidade de suster a atenção numa narrativa contínua. O pensamento profundo exige a sustentação de uma mente focada. Quanto mais distraídos estivermos, mais superficiais serão as nossas reflexões; de igual modo, quanto mais curtas forem, maior probabilidade terão de ser triviais. Heidegger, se fosse vivo, ficaria horrorizado se lhe pedissem para twitar.

 

A atenção diminuiu?

 

Está uma banda de swing de Xangai a animar um salão onde decorre uma convenção de suíços, com centenas de pessoas andando de um lado para o outro. No meio da frenética multidão, de pé imóvel em frente a uma pequena mesa de bar circular, Clay Shirky concentra-se no seu computador portátil, teclando furiosamente.

Conheci Clay, um prodígio dos meios de comunicação social ligado à Universidade de Nova Iorque, há alguns anos, mas raramente tive oportunidade de me encontrar com ele em pessoa. Durante vários minutos, permaneço de pé a cerca de um metro de Clay, à sua direita, a observá-lo — posicionado na sua visão periférica, se ele tivesse alguma atenção de banda larga para me dispensar. Mas Clay não repara em mim até eu dizer o seu nome. Então, sobressaltado, levanta o olhar e começamos a falar.

A atenção é uma capacidade limitada: a concentração absorta de Clay preenche toda essa amplitude até passar para mim.

«Sete, mais ou menos dois» pedaços de informação tem sido aceite como o limite máximo do raio de atenção desde os anos 50, quando Neal Miller propôs aquilo a que chamou «número mágico», num dos artigos mais influentes da

psicologia[21].

Mais recentemente, porém, alguns cientistas cognitivos defenderam que

quatro é o limite máximo[22], despertando a atenção limitada do público (pelo menos por momentos), quando circulou o boato de que esta capacidade mental diminuíra de sete para quatro. «Descoberta do Limite da Mente: 4 Pedaços de

Informação», proclamava um sítio eletrônico de notícias de cariz científico[23].

Alguns interpretaram o presumível empobrecimento daquilo que conseguimos aguentar na mente como um indício do estado de distração da vida quotidiana do século XXI, denotando a diminuição desta crucial capacidade mental, mas estão a interpretar erradamente os dados.

«A memória de trabalho não diminuiu», disse Justin Halberda, um cientista cognitivo da Universidade Johns Hopkins. «A televisão não tornou a nossa memória de trabalho mais pequena — e nos anos de 1950 todos tínhamos um limite máximo de sete, mais ou menos dois, pedaços de informação e agora temos apenas quatro.»

«A mente tenta tirar o máximo proveito dos seus limitados recursos», explicou ele. «Por isso, usamos estratégias de memória que ajudem» — como combinar elementos diferentes, por exemplo, 4, 1 e 5, num único bloco, para obter o código telefônico para uma área, 415. «Quando realizamos uma tarefa mnemónica, o resultado poderá ser sete, mais ou menos dois, pedaços. Mas isso vai dar a um limite fixo de 4, mais 3 ou 4 que a estratégia de memória adiciona. Por isso, tanto os quatro como os sete estão certos, dependendo de como os medimos.»

Depois há o que muitas pessoas veem como uma «fragmentação» da atenção em multitarefas, o que a ciência cognitiva nos diz ser também uma invenção. Em vez de termos um balão de atenção para distribuir, temos um estreito e fixo oleoduto para direcionar. Em vez de a dividirmos, na verdade mudamo-la rapidamente. Essa mudança impede que a atenção se empenhe completa e concentradamente.

«A mais preciosa fonte num sistema informático já não é o processador, a memória, o disco ou a rede, mas a atenção humana», observa um grupo de

investigação da Universidade Carnegie Mellon[24]. A solução que propõem para este congestionamento humano consiste na minimização das distrações: o Projecto Aura sugere a eliminação das aborrecidas falhas dos sistemas, para que não se perca tempo com chatices.

O propósito de chegar a um sistema informático sem incômodos é louvável. Esta solução, porém, poderá não nos levar longe: não é de uma resposta tecnológica que precisamos, mas de uma solução cognitiva. A fonte das distrações não está tanto na tecnologia que usamos como no assalto frontal à nossa capacidade de focalização, devido à onda crescente de distrações.

O que me leva de novo a Clay Shirky, em particular à sua investigação sobre

os meios de informação sociais[25]. Embora nenhum de nós se consiga focar em tudo ao mesmo tempo, todos juntos criamos uma banda coletiva de atenção a que cada um pode aceder sempre que precisa. Veja-se a Wikipédia.

Tal como Shirky diz no seu livro Eles Vêm aí, a atenção pode ser vista como uma capacidade distribuída entre muitas pessoas, da mesma forma que a memória ou qualquer outra faculdade cognitiva. «O que está a dar» representa o índice de como estamos a distribuir a nossa atenção coletiva. Embora alguns defendam que a nossa aprendizagem e memória tecnologicamente assistidas nos embrutecem, poderemos também defender que criam uma prótese mental que expande o poder da atenção individual.

O nosso capital social — e alcance da atenção — aumenta quando aumentamos o número de laços sociais pelos quais acedemos a informação crucial, como por exemplo o conhecimento tácito de «como é que as coisas funcionam por aqui», quer se trate de uma organização, ou de uma nova vizinhança. Os conhecimentos casuais poderão ser conjuntos suplementares de olhos e ouvidos sobre o mundo, fontes essenciais de orientação de que necessitamos para operar em complexos ecossistemas sociais e de informação. A maioria de nós tem uma meia dúzia de laços fortes — amigos próximos, em quem confiamos — mas poderemos ter centenas de laços fracos (por exemplo, os nossos «amigos» do Facebook). Os laços fracos possuem um alto valor como multiplicadores da nossa capacidade de atenção, fonte de conselhos para boas

compras, possibilidades de emprego e encontros amorosos[26].

Quando coordenamos aquilo que vemos e aquilo que sabemos, os nossos esforços em conjunto multiplicam a nossa riqueza cognitiva. Embora, a qualquer momento, a nossa quota de memória de trabalho se mantenha reduzida, a informação total que podemos alcançar por meio dessa estreita amplitude torna-se enorme. Esta inteligência coletiva, a soma total daquilo com que toda a gente num grupo distribuído pode contribuir, promete um foco maximizado, a soma daquilo em que múltiplos olhos conseguem reparar.

Um centro de investigação no MIT sobre inteligência coletiva entende que esta capacidade emergente é fomentada pela partilha de atenção na internete. Eis o exemplo clássico: milhões de sítios eletrônicos apontam o seu holofote sobre nichos restritos — e uma pesquisa na Web seleciona e dirige o nosso foco de

modo a podermos recolher de modo eficiente todo esse trabalho cognitivo[27].

Eis a pergunta básica do grupo do MIT: «Como podemos ligar as pessoas e os computadores para que, coletivamente, ajamos com mais inteligência do que qualquer pessoa ou grupo isolados?»

Ou, como dizem os japoneses, «todos nós somos mais inteligentes do que qualquer um de nós».

 

Gosta do que faz?

 

Eis a grande questão: quando se levanta de manhã, sente-se feliz por ir para o trabalho?

Numa pesquisa conjunta de Howard Gardner, de Harvard, William Damon, de Stanford, e Mihaly Csikszentmihalyi, de Claremont, os investigadores centraram-se naquilo a que chamaram «trabalho bom», uma potente mistura daquilo em que as pessoas são excelentes, em que se empenham, e da sua ética

— aquilo que acreditam ser importante[28]. São vocações de alta absorção: as pessoas adoram aquilo que fazem. A absorção total naquilo que fazemos sabe bem e o prazer é o indicador emocional do fluxo.

As pessoas estão em fluxo de modo relativamente raro na vida quotidiana [29]. Numa recolha aleatória das disposições das pessoas descobre-se que, durante a maior parte do tempo, ou estão tensas ou aborrecidas, com períodos de fluxo meramente ocasionais; apenas cerca de 20 por cento das pessoas experimentam momentos de fluxo pelo menos uma vez por dia. Cerca de 15 por cento das pessoas nunca entram num estado de fluxo durante um dia normal.

Uma das chaves para um maior fluxo na nossa vida surge quando juntamos aquilo que fazemos àquilo de que gostamos, como no caso daqueles sujeitos cheios de sorte cujos empregos lhes dão verdadeiro prazer. Aqueles que têm um grande sucesso em qualquer área — pelo menos, os que têm sorte — acertaram nesta combinação.

Além de uma mudança na carreira, há várias portas de acesso ao fluxo. Uma delas pode abrir-se sempre que nos defrontamos com uma tarefa que desafia as nossas capacidades ao máximo — uma exigência «no limite» às nossas aptidões. Outra via de acesso surge por via daquilo por que somos apaixonados; a motivação conduz-nos ao fluxo. Mas, seja de uma ou de outra forma, a via comum final é o foco total: cada uma destas é um modo de fixar a atenção. Independentemente de como lá chegamos, é um foco preciso que desencadeia o fluxo.

Este estado cerebral otimizado para levar a que o trabalho se faça é marcado pela harmonia neuronal — uma rica interconexão entre diversas áreas

cerebrais[30]. Neste estado, os circuitos necessários para a tarefa em questão estão muitíssimo ativos, ao passo que os irrelevantes estão em repouso; o cérebro está perfeitamente afinado em relação às exigências do momento.

Quando os nossos cérebros se encontram nesta zona ótima, fluímos, desempenhando no nosso melhor o que quer que estejamos a fazer.

Os inquéritos nos locais de trabalho, porém, mostram que um grande número de pessoas se encontra num estado cerebral muito diferente: sonham acordadas, gastam horas a navegar na Web ou no Youtube e fazem o mínimo exigido. A sua atenção espalha-se em todas as direções. Esta falta de empenho e indiferença é uma praga, sobretudo em tarefas repetitivas e pouco exigentes. Fazer com que o trabalhador não empenhado se aproxime do nível do fluxo exige elevar a sua motivação e entusiasmo, evocando uma consciência de objetivo e acrescentando um pouco de pressão.

Por outro lado, um outro grande grupo encontra-se num estado a que os neurobiólogos chamam «exaustão», em que a tensão constante sobrecarrega os seus sistemas nervosos com torrentes de cortisol e adrenalina. A atenção fixa-se nas preocupações, não no trabalho. Esta exaustão emocional pode conduzir ao esgotamento.

O foco total abre-nos uma porta para o fluxo. Mas, quando escolhemos focar-nos numa coisa e esquecer o resto, estamos próximo de uma constante tensão — invisível, em geral — entre uma grande linha divisória neuronal, em que a parte superior do cérebro luta com a inferior.