Foco: A atenção e seu papel fundamental para o sucesso
Terceira Parte Ler os Outros
TERCEIRA PARTE
LER OS OUTROS
CAPÍTULO 9
A mulher que sabia demais
O pai tinha um temperamento explosivo e, quando era criança, ela andava sempre aterrorizada por ele poder estar prestes a rebentar. Por isso, Katrina (chamar-lhe--ei assim) aprendeu a ser extremamente vigilante, fazendo um esforço para se aperceber dos pequenos indícios — uma subida no tom de voz, o franzir das sobrancelhas carrancudas — que assinalassem que o pai estava à beira de novo acesso de cólera.
Esse radar emocional tornou-se mais sensível quando Katrina cresceu. Na universidade, por exemplo, pela simples leitura da sua linguagem corporal, percebeu que uma colega tinha dormido secretamente com um professor.
Ela via como os seus corpos se sincronizavam numa dança subtil. «Mudavam de direção juntos, moviam-se em uníssono», contou-me Katrina. «Quando ela se ria, ele ria-se. Quando vi que estavam intimamente harmonizados no plano físico, como amantes, pensei: “Oh, que arrepiante...”.»
«Os apaixonados não sabem que o fazem, mas tornam-se extremamente reativos um ao outro num plano primário», acrescentou ela.
Apenas meses depois a estudante confessou o caso clandestino a Katrina, que acrescenta: «O caso acabara, mas os seus corpos continuavam juntos.»
Sempre que está com outra pessoa, diz Katrina, «estou extremamente consciente de dúzias de fluxos de informação de que as pessoas em geral não se apercebem — coisas como o erguer de uma pálpebra ou o movimento de uma mão. É dilacerante — sei coisas a mais e isso dá cabo de mim. Sou excessivamente consciente».
Quando Katrina sente algo e o expõe não incomoda apenas os outros: isso pode perturbá-la também a si. «Cheguei atrasada a uma reunião e fiz com que todos ficassem à minha espera. Todos estavam a ser bastante amistosos no que diziam — mas o que me diziam com os seus corpos não era amistoso. Eu conseguia perceber pela sua postura e pela forma como não me olhavam de frente que estavam zangados. Senti uma onda de tristeza e um nó na garganta. A reunião não correu lá muito bem.»
«Estou sempre a ver coisas que não devia ver — e isso é um problema», acrescenta. «Meto o nariz em coisas privadas, sem querer. Durante muito tempo, não percebi que não tinha de partilhar todos esses indícios que capto.»
Depois de ter recebido reações das pessoas da sua equipa de que andava a ser demasiado metediça, Katrina começou a trabalhar com um orientador executivo. «O orientador disse-me que tenho um problema que consiste em revelar sinais emocionais — quando percebo essas coisas que não devia notar, reajo de uma forma que faz com que as pessoas pensem que estou sempre zangada. Por isso, agora tenho de ter também cuidado com isso.»
As pessoas como Katrina são socialmente sensíveis, muito sintonizadas com os mínimos sinais emocionais, com um talento quase sobrenatural para ler pistas tão subtis que as outras pessoas não as notam. Uma dilatação mínima da íris, um erguer de sobrancelha, ou uma mudança no corpo é tudo de que precisam para saber como os outros se sentem.
Tal significa um problema se, como Katrina, não conseguirem gerir bem esses dados.
Mas estes mesmos talentos poderão tornar-nos socialmente astutos, percebendo quando não devemos abordar um assunto sensível, quando alguém precisa de estar só, ou quando receberia bem uma palavra de conforto.
Um olho treinado para os indícios subtis proporciona vantagens em muitas áreas da nossa vida. Por exemplo, os jogadores de topo em desportos como o squash e o ténis, que conseguem pressentir onde aterrará o serviço do adversário, ao notarem subtis mudanças na sua postura, quando aquele se prepara para bater a bola. Muitos dos grandes batedores do beisebol, como Hank Aaron, viam repetidamente filmagens dos lançadores que iam defrontar no jogo seguinte, para descobrirem indícios denunciadores que revelassem o lançamento que viria a seguir.
Justine Cassell, diretora do Human-Computer Interaction Institute, da Universidade de Carnegie Mellon, aplica uma semelhante empatia bem treinada ao serviço da ciência. «Observar as pessoas era um jogo que fazíamos na nossa família», contou-me Cassell. Esse divertimento infantil foi refinado quando, já aluna universitária, passou centenas de horas a estudar movimentos de mãos em vídeos de pessoas a descreverem um desenho animado que tinham acabado de ver.
Trabalhando com os vídeos a 30 imagens por segundo, anotava a forma de uma mão quando esta mudava, bem como a série de deslocações na sua orientação, posicionamento no espaço e trajetória do movimento. E, para verificar a sua exatidão, trabalhava em seguida com base nas suas notas, a fim de ver se conseguia repetir com precisão o movimento da mão.
Cassell realizou recentemente um trabalho semelhante com os minúsculos movimentos dos músculos faciais, com o movimento do olhar, com o erguer das sobrancelhas e com o assentir da cabeça, tudo pontuado segundo a segundo e verificado. Fez isto durante centenas de horas — e continua a fazê-lo com alunos de mestrado no seu laboratório na Carnegie Mellon.
«Os gestos ocorrem sempre imediatamente antes da parte mais enfatizada daquilo que se está a dizer», explica Cassell. «Uma das razões pelas quais alguns políticos poderão não parecer sinceros é terem-lhes ensinado a fazer gestos particulares, mas não lhes terem ensinado os tempos corretos e assim, quando produzem esses gestos depois da palavra, transmitem-nos a sensação de que algo de fingido está a passar-se.»
O momento do gesto interpreta o seu significado. Se estiver fora de tempo, uma declaração positiva poderá ter um impacte negativo. Cassell dá este exemplo: «Se se disser “Ela é uma ótima candidata ao lugar” e se se levantar as sobrancelhas, se se fizer que sim com a cabeça e se se enfatizar a palavra “ótima”, tudo ao mesmo tempo, transmite-se uma mensagem emocional muito positiva. Mas se, ao dizer a mesma frase, a cabeça faz que sim e as sobrancelhas se erguem após um curto silêncio depois de “ótima”, então o sentido emocional muda para o sarcasmo — estar-se-á na verdade a dizer que ela não é nada de especial.»
Estas leituras das metamensagens em canais não verbais ocorrem-nos instantânea, inconsciente e automaticamente. «Nós não podemos não dar sentido a algo que alguém nos diz», diz Cassell, quer seja por palavras ou apenas gestos, ou ambos. Tudo aquilo em que reparamos noutra pessoa gera sentido a um nível inconsciente e a nossa rede de circuitos de baixo para cima lê isso constantemente.
Num estudo, havia ouvintes que se lembravam de ter «ouvido» informação que apenas tinham visto por gestos. Por exemplo, alguém que ouvira «Ele vem do fundo do cano», mas que viu a mão do orador formar um punho e deslocar-se
para cima e para baixo, disse que ouvira «e depois desce as escadas»[115].
O trabalho de Cassell torna visível aquilo que, habitualmente, passa por nós em microssegundos. A nossa rede de circuitos automática recebe a mensagem, mas a nossa consciência de cima para baixo perde grande parte dela.
Estas mensagens escondidas têm impactes poderosos. Os investigadores conjugais há muito que sabem, por exemplo, que se um dos parceiros, durante os conflitos, exibir repetidamente expressões faciais fugidias de repugnância ou
desprezo, haverá uma grande probabilidade de o casal não continuar junto[116]. Na psicoterapia, se o terapeuta e o paciente se moverem em sincronia um com o
outro, haverá maior probabilidade de resultados terapêuticos positivos[117].
Quando Cassell era professora no Media Lab do MIT, uma das formas pelas quais utilizou esta extremamente precisa análise de como nos expressamos foi desenvolvendo um sistema que orienta os animadores profissionais na arte do comportamento não verbal. O sistema, chamado BEAT, permite aos animadores digitarem um segmento de diálogo e obterem um desenho de uma pessoa automaticamente animado com os gestos adequados, movimento da cabeça e dos
olhos e postura, que podem depois retocar artisticamente[119].
Captar a «impressão» mesmo certa das observações, tom de voz e gestos de um ator virtual parece exigir uma compreensão de cima para baixo de processos de baixo para cima. Hoje em dia, Cassell está a construir desenhos animados do mesmo modo em que, diz ela, imagens de crianças «servem de colegas virtuais a alunos da escola primária, usando capacidades sociais para construir relações e, em seguida, usando essas relações para facilitar a aprendizagem».
Quando nos encontrámos num intervalo para café numa conferência, Cassell explicou-me como essas centenas de horas de análise de mensagens não verbais tinham afinado a sua sensibilidade. «Agora, noto isso automaticamente quando estou com qualquer pessoa», disse-me — o que, confesso, me pôs um tanto pouco à vontade (e ainda mais quando percebi que ela, provavelmente, também notara isso).