Identidade roubada

Chevy Stevens · Capítulo 10 de 30

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Identidade roubada

O I T a V a S e S S Ã o

OITAVA SESSÃO

 

Tudo bem, doutora, estou começando a questionar minha própria atitude... sim, sim, eu sei que minha atitude não era das mel-hores. Mas agora ela está começando a atrapalhar as coisas. Você sabe, coisas como minha vida. Antes de tudo isso acontecer eu nunca fui muito simpática, e tinha bons motivos – irmã morta, pai morto, mãe alcoólatra, padrasto babaca –, mas ao menos eu tentava não descontar a merda no mundo inteiro. Hoje em dia? Cara! Parece que qualquer um me deixa irritada. Você, os repórteres, os tiras, o carteiro, uma pedra no meio do caminho. A bem da verdade, acho que a pedra não me irritaria. E o pior é que eu costumava gostar de gente. Que droga! Posso até dizer que eu era popular. Mas e agora?

Meus amigos, por exemplo... telefonam ou querem me visitar. Eles ainda me chamam para sair, mas eu logo começo a pensar que só querem saber como anda a investigação, ou que os convites são mo-tivados pela pena que eles sentem da pobre menininha. Daí, quando recuso, eles provavelmente ficam falando de mim. Sabe, é escroto e in-fantil pensar numa coisa dessas, quanto mais dizer isso, porque eu deveria ser agradecida pelo fato de as pessoas se importarem comigo e tentarem se aproximar, certo?

A verdade é que não tem muita coisa acontecendo na minha vida que eu queira compartilhar, e estou por fora da metade da merda sobre a qual eles conversam. Estou defasada em termos de filmes, acontecimentos mundiais, tendências e tecnologia. Por isso, se encon-tro alguém numa das minhas raras incursões ao mundo lá fora, per-gunto como a pessoa vai, ela se mostra aliviada e logo começa a tagarelar sobre problemas no trabalho, o novo namorado ou a viagem que vai fazer. Penso com meus botões que é um consolo saber que,

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embora minha vida esteja fodida, as pessoas continuam se levantando todas as manhãs e tocando a vida delas. Quem sabe um dia eu tam-bém não vou poder reclamar do meu emprego?

Mas, depois que nos despedimos e vejo essa pessoa seguir adiante na rotina normal, eu volto a ficar irritada. Odeio o outro por não estar sofrendo como eu, por conseguir se sentir feliz. E odeio a mim, por ter esse sentimento.

Consegui até me afastar de Christina, embora ela tenha resistido bravamente. Quando voltei para casa, ela se esfalfou, decorando os ambientes, trazendo móveis novos, providenciando luz e calefação. Chegou até a abastecer a geladeira. O jeito de gerente, sempre encar-regada de tudo, era uma das coisas de que eu mais gostava nela. Que droga! Antes, de muito bom grado, eu deixava Christina gerenciar minha vida. Mas quando ela começou a andar pela minha casa com um livro de feng shui, rearrumando as coisas para atrair energia posit-iva, e trouxe vários telefones de terapeutas – isso foi antes de eu con-hecer você –, eu fiquei cada vez mais intransigente e ela, obstinada.

Depois, começou uma verdadeira mania de querer conversar sobre o ocorrido, e ela passou a trazer garrafas de vinho e cartas de tarô. Christina espalhava as cartas e lia frases do tipo: “Você vem lutando sozinha há muito tempo. É hora de dividir o fardo com quem está perto de você.” Caso eu não entendesse a mensagem, cada frase era seguida de um olhar e uma pausa. Eu até estava conseguindo lidar com aquelas visitas, embora não gostasse muito, mas quando, um belo dia, Christina distribuiu as cartas e disse “Você nunca vai superar o problema se não começar a falar”, eu perdi a paciência. Devolvi com “Sua vida deve ser um saco, pois você precisa ficar curtindo minha merda, Christina”.

Magoada, ela fechou a cara. Murmurei um pedido de desculpas, mas ela logo depois foi embora.

A última vez que nos falamos, meses atrás, combinamos um horário para ela vir à minha casa trazer umas roupas... tentei escapar do en-contro, mas ela não desistiu, insistindo que aquelas peças usadas me

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deixariam feliz. Uma hora antes de ela chegar, minhas tripas pareciam que iam dar um nó, tamanhos eram minha raiva e meu ressentimento. Enviei uma mensagem cancelando a visita e dei uma volta de carro de três horas. Chegando em casa, encontrei uma caixa de roupas na soleira da porta. Imediatamente guardei a caixa no porão.

Quando telefonou no dia seguinte, não atendi, mas ela deixou um recado toda alegre e empolgada, perguntando se eu tinha gostado das roupas e dizendo que queria muito me ver com elas. Telefonei de volta, agradecendo a mensagem, porém nunca mais retornei as lig-ações da Christina.

O que há de errado comigo, droga? Por que estou tão puta da vida com todo mundo?

 

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Certa noite, tive certeza de ouvir o Maníaco dizer o nome de al-guém. O volume da voz não permitiu que eu entendesse, mas percebi que não era o meu. Eu não seria burra a ponto de perguntar que nome era aquele, mas fiquei atenta.

Em termos de sexo, ele era bastante conservador. Graças a Deus. Em se tratando de maníacos, acho que o meu não era dos piores. Por favor, não estou elogiando ele. Estou só dizendo que ele não tentava comer meu rabo nem me obrigava a chupar seu pau... provavelmente, desconfiava que eu tentaria cortar o pinto dele fora com os dentes. Eu sabia de cor o meu papel. Sabia onde e como tocá-lo, o que e como dizer. Eu fazia o que fosse preciso para acabar tudo o mais rápido pos-sível, e me tornei bastante eficaz.

Fisicamente, era mais fácil colaborar com ele, mas, emocional-mente, uma parte de mim se rendeu para sempre.

 

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Assim que soube que eu estava grávida, o Maníaco não fez mais questão de transar todas as noites, porém os banhos não foram

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suspensos. Às vezes, ele apenas descansava a cabeça no meu peito e conversava até pegar no sono. Num tom de voz sereno, ele expunha suas teorias sobre vários assuntos, das questões mais simples às mais complexas. No entanto os tópicos mais frequentes eram amor e so-ciedade. Por exemplo, ele dizia que nossa sociedade só quer saber de comprar e acumular: ele bem que tinha me comprado e me “acumulado”.

A ideia de que meus genes estavam se misturando aos dele para formar uma criatura me causava repulsa. A última coisa que eu queria era ter qualquer tipo de vínculo com aquele maluco, e à noite, deitada ao lado dele na cama, eu pedia ao meu corpo que abortasse. Eu dire-cionava ao monstro que crescia dentro de mim todos os pensamentos negativos possíveis e imagináveis, e visualizava a criatura sendo ex-pelida do meu corpo. Geralmente, eu acordava suando frio, depois de pesadelos com fetos horrendos que dilaceravam minhas entranhas.

Durante todo aquele inverno, minha mente se encheu de imagens de um parto assistido pelo Maníaco. Quando ele me fez ler em voz alta um livro sobre parto em casa, precisei arrancar cada palavra da gar-ganta. No passado, se visse uma cena de parto na TV, eu cobria os ol-hos, por não tolerar a visão de uma pobre mulher gritando enquanto aquela coisa era arrancada do seu corpo. Sempre pensei que, se um dia desse à luz, estaria sob o efeito de anestésicos, com um marido me incentivando enquanto eu me sentia grogue.

O bom humor do Maníaco em relação à gravidez durou poucos meses. Depois disso, um belo dia, ele afirmava que gostava das min-has unhas, e no dia seguinte me mandava fazê-las novamente. Às vezes, era permitido urinar às duas da tarde, outras eu era arrastada do vaso e obrigada a esperar até as três. Para uma grávida, que tem bexiga pequena, era uma tortura.

De manhã, eu vestia algo escolhido por ele. Depois, ao meio-dia, ele me obrigava a trocar de roupa. Se, ao inspecionar a louça, ele descobrisse uma sujeirinha, eu era forçada a lavar tudo novamente. Certa vez, eu me recusei a esfregar o banheiro, insistindo que já estava

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limpo, e ganhei um bofetão na cara e uma ordem para esfregar o chão do chalé inteiro. Aprendi a exibir um semblante de submissão total, forçando-me a manter o olhar baixo e os ombros caídos, como um cão que acaba de apanhar.

Uma manhã, perto do final de janeiro, tínhamos acabado de tomar café e eu lavava a louça. O Maníaco me observou por algum tempo e disse:

– Vou fazer uma viagem. – Era como se me dissesse que iria lá fora levar o lixo.

– Durante quanto tempo? Para onde? Você não pode me deixar soz-inha aqui nesta montanha...

– Eu dito as regras, Annie. – O rosto se mostrava impassível.

– Você pode me levar. Você pode até me amarrar no carro! Por favor!

Ele sacudiu a cabeça.

– Aqui você está mais segura.

 

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O Maníaco tirou alguns alimentos dos armários, sobretudo bebidas vitaminadas e proteína em pó, e deixou-os sobre o balcão. Nada de utensílios.

Geralmente, eu não tinha permissão para me aproximar da estufa, mas ele a destravou e retirou a tela. Em seguida, trouxe uma grande quantidade de lenha para dentro de casa e acendeu o fogo. Eu não tinha machado, jornal ou algo que pudesse utilizar para acender as chamas. Por isso, era preciso tomar todo o cuidado para que o fogo nunca apagasse.

Como ele não saía de casa havia alguns meses, concluí que estáva-mos precisando de mantimentos, e que ele iria até a cidade para com-prar. Eu não fazia ideia de onde ele guardava comida, e tudo o que ele trazia para casa vinha embalado em sacos plásticos, a fim de impedir que eu identificasse o nome de algum mercado. Mas eu acreditava que

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existisse um congelador num porão, ou galpão, lá fora. Torcia para o motivo da viagem ser a compra de suprimentos. Será que ele voltaria a ver a Christina? E se encontrasse alguma mulher mais interessante e se esquecesse de mim? Quanto tempo leva para alguém morrer de fome? Eu tinha mais medo de ficar sozinha naquela montanha do que dele.

Uma mulher sumiu de Clayton Falls alguns anos antes do meu de-saparecimento, e eu tinha pavor de encontrar o corpo dela no bosque quando saía para caminhar com Emma. Agora eu me perguntava se o mundo não estaria repleto de mulheres como eu. As respectivas famílias tinham tocado a vida. As mulheres já não eram notícia na primeira página. Estavam trancadas em algum chalé ou masmorra com algum maníaco, ainda esperando para serem resgatadas.

 

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A vez seguinte que marquei a parede, tentei não pensar em quanto tempo havia passado no chalé. Tentei me convencer de que a cada dia mais se aproximava o momento em que eu seria encontrada. Quanto mais tempo eu ficasse viva, mais tempo eu daria àqueles que me pro-curassem. Pensei no que aconteceria se fosse resgatada ainda grávida. Eu estava com quase cinco meses e, com certeza, era tarde demais para fazer um aborto, mas eu achava que não conseguiria realizar o procedimento, apesar dos meus sentimentos em relação ao bebê. Eu me perguntava como minha família e Luke reagiriam diante da minha gravidez. Luke dificilmente acolheria de braços abertos o filho de um estuprador. Até para mim seria difícil.

Você deve estar pensando que eu gostei quando o Maníaco foi em-bora, mas a cada dia eu ficava mais ansiosa. Esperando a porta abrir, rezando por esse momento. Eu o odiava, mas queria vê-lo. Eu de-pendia totalmente dele.

Sem saber quanto tempo o Maníaco ficaria fora, racionei a comida que ele deixara para mim. Como ele não estava presente e não podia

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determinar o horário das minhas refeições, tentei seguir o ritmo do meu corpo, mas eu sentia fome o tempo todo. Sei que muitas grávidas enjoam no começo da gestação, mas eu nunca passei mal. Só me sen-tia sonolenta e faminta.

Durante toda a minha vida, adorei atividades ao ar livre... no verão, nadava todas as noites, e, no inverno, esquiava nos fins de semana. Mas lá estava eu, entre quatro paredes. Eu costumava andar de um lado para outro pela lateral do chalé. Anos atrás, vi um urso num zo-ológico que não parava de correr ao longo da cerca, de um extremo ao outro da jaula. O bicho tinha aberto uma vala no chão. Lembro que na ocasião me perguntei se aquele animal não preferiria morrer a viver daquele jeito.

Quando não estava andando de um lado para outro, eu me encost-ava nas paredes e imaginava o que existiria do outro lado, ou então sentava no banheiro, olhando através do buraco na parede. Se o dia estivesse ensolarado, o buraco projetava uma nesga de luz na porta do banheiro, e eu passava horas observando o pequeno facho escorregar pela porta, até desaparecer.

Sem ele, não havia livros para ler. Então eu idealizava cenas de cinema. Imaginava minha mãe em casa, rezando para eu estar bem, falando com a polícia, implorando por minha volta na TV. Podia ver Christina e Luke vasculhando os bosques à minha procura, acompan-hados de Emma, que me buscava pelo faro. O melhor de tudo era ver Luke arrombar a porta do chalé e me abraçar.

Eu imaginava que minha mãe tivesse até parado de beber e fundado um grupo de mães em busca de filhos desaparecidos, como a gente costuma ver. Sonhava que ela teria uma epifania: dando-se conta do modo como havia me tratado a vida inteira, ela decidiria me recom-pensar. Depois que eu fosse resgatada, ficaríamos mais próximas.

Nunca pensei que sentiria falta das piadas idiotas do Wayne, ou do jeito como ele às vezes despenteava meu cabelo como se eu ainda tivesse 12 anos. Mas agora eu fazia pactos com Deus, prometendo que,

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se conseguisse voltar para casa, ouviria todas aquelas ideias bobas sobre enriquecimento rápido.

Eu passava bastante tempo alisando minha barriga e imaginando os traços do bebê. Alguns dos livros mostravam fotografias de fetos em vários estágios, e eu as achava simplesmente nojentas. Eu tinha cer-teza de que meu bebê seria bonito, mas, sendo filho do Maníaco, que tipo de criança ele seria?

 

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O Maníaco voltou depois de cinco dias intermináveis.

– Sente-se na cama, Annie – disse ele, no instante em que entrou. – Precisamos conversar. – Sentei de costas para a parede, e ele sentou ao meu lado, segurando minha mão.

– Fui até Clayton Falls e não me agrada ter que dizer isso... – Sacu-diu a cabeça de um lado para outro. – As buscas foram suspensas.

Não!

Com o polegar, desenhou pequenos círculos na palma da minha mão.

– Tudo bem, Annie? Sei que essa notícia foi um golpe e tanto.

Com a cabeça, acenei que sim.

– Confesso que fiquei surpreso ao ver sua casa à venda, mas acho que as pessoas entendem que é hora de seguir em frente.

O choque deu lugar à raiva, quando pensei em minha casa à venda: uma construção vitoriana de três andares, pela qual me apaixonei as-sim que vi as lindas janelas com vitrais, o pé-direito com três metros e o piso original de madeira maciça. Minha mãe faria uma coisa dessas? Ela nunca gostou da casa, em sua opinião, velha e fria demais. Será que o Wayne a tinha ajudado a fincar a placa “VENDE-SE” no jardim? Provavelmente, ele estava feliz por ter se livrado da enteada espertinha.

– Como ficou sabendo?

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– Não importa como fiquei sabendo. O importante é que me pre-ocupo o bastante para lhe contar. E fiquei sabendo de outra coisa tam-bém. – Fez uma pausa. Eu sabia que ele estava esperando que eu dis-sesse algo, mas eu não queria me deixar manipular. No entanto, eu precisava saber, logo, precisava perguntar.

– Que coisa?

O que vai fazer para me magoar agora, seu desgraçado?

– Algo muito interessante sobre o Luke...

Dessa vez me forcei a ficar calada. Passados alguns segundos, ele não se conteve.

– Parece que ele já cansou de esperar por você.

– Não acredito. O Luke me ama...

– Bem, quando vi o Luke com o braço nos ombros de uma linda loura, sussurrando no ouvido dela, não acho que estivesse dizendo que estava apaixonado por você, Annie.

– Você está mentindo. Ele não faria...

– Ele não faria o quê? Seja sincera, e me diga se você nunca se per-guntou se o queridinho do Luke não era bom demais para ser ver-dade? Ele é fraco, Annie.

Atordoada, fixei o olhar na parede oposta.

O Maníaco sacudiu a cabeça.

– Mas agora você está começando a perceber as coisas. Eu salvei vo-cê dele.

Seria possível que o Luke já estivesse namorando alguém? Uma re-cepcionista loura trabalhava no restaurante. Eu não me lembrava do nome dela, mas achava que ela dava em cima do Luke. Ele me disse que era bobagem minha.

Na véspera do meu sequestro, Luke não me pareceu entusiasmado com o convite para jantar. Ele estava no restaurante, e imaginei que estivesse ocupado, ou que achasse que mais uma vez eu precisaria desmarcar o encontro. Já existiria outra mulher àquela época? Não, era impossível. Luke nunca me disse que estava insatisfeito, e eu não conseguia enxergar nele um único sinal de traição.

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O Maníaco virou meu queixo, de maneira que fui obrigada a encará-lo.

– Agora você só tem a mim, Annie.

Ele estava mentindo. Tudo era apenas mais um lance naquele jogo doentio. Nada lhe causava tanto prazer quanto me perturbar. As pess-oas se preocupavam comigo. Muita gente se preocupava comigo. Eu sabia que não era a namorada perfeita, principalmente nas semanas anteriores ao sequestro, mas Luke não me substituiria assim, da noite para o dia. E Christina me adorava. Éramos amigas desde sempre, e eu sabia que ela não se esqueceria de mim. Minha mãe e eu tínhamos nossas diferenças. Ela e Daisy sempre foram mais próximas, mas ela ficaria arrasada com meu desaparecimento. Vender minha casa não significava nada – se aquela história da venda fosse verdade. Provavelmente, o dinheiro seria para um possível pagamento de resgate.

Mas e se o Maníaco não estivesse mentindo? E se as buscas tivessem sido suspensas? E se todos tivessem resolvido tocar a vida? Talvez Luke tivesse uma nova namorada, que não trabalhasse o tempo inteiro. Talvez minha mãe estivesse assinando um contrato de venda da minha casa naquele exato instante, e até Emma talvez já tivesse se esquecido de mim. Será que ela estaria morando com Luke e a tal loura? Todos seguiriam adiante com suas vidas, e eu ficaria presa para sempre com aquele estuprador sádico.

O Maníaco tinha feito a coisa parecer tão verídica... e que indícios eu tinha para provar o contrário? Ninguém havia me encontrado, não é? Eu queria discutir com ele e convencê-lo de que eu era amada, mas, quando abri a boca, não consegui dizer sequer uma palavra. Em vez disso, me lembrei do canil.

Eu trabalhava no canil municipal como voluntária, fazendo a limpeza e levando os cães para passear. Alguns animais tinham sofrido maus-tratos e mordiam qualquer pessoa que se aproximasse. Outros nem conseguiam receber carinho, e alguns deles se tornavam tão submissos que se mijavam quando alguém levantava a voz. E

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havia cães que pareciam ter desistido, que ficavam imóveis dentro dos cubículos, olhando para a parede sempre que um possível dono se aproximava.

Bubbles, um bichinho feioso, com problema de pele, estava no canil havia muito tempo. Mas, assim que alguém aparecia, ele corria para a frente do cubículo, como se fosse a criatura mais linda do mundo. Sempre esperançoso. Eu queria levá-lo para casa, mas naquela época morava num apartamento. Com o tempo, tive que deixar o trabalho voluntário por causa do emprego e não fiquei sabendo se alguém o ad-otara. Agora eu era uma cadela idiota, esperando que alguém me levasse para casa. Tomara que o Bubbles tenha sido sacrificado antes de descobrir que não iriam resgatá-lo.