Identidade roubada

Chevy Stevens · Capítulo 26 de 30

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Identidade roubada

V I G É S I M a Q U a R T a S e S S Ã o

VIGÉSIMA QUARTA SESSÃO

 

Sei que estou com uma cara horrível, doutora, mas tenho certeza de que, quando ouvir como foi minha semana, você vai entender. E também vai sacar por que pedi uma sessão mais longa.

Indo para casa depois da nossa última sessão, eu passei por um out-door na via expressa, anunciando o empreendimento que suposta-mente seria meu. O anúncio fica próximo à saída de acesso à casa da minha tia, e me lembrei de que ela ficava muito aborrecida quando minha mãe falava nesse empreendimento. Então me dei conta de que tia Val já não fica se gabando do sucesso da Tamara no ramo imobiliário.

Assim que cheguei em casa, visitei o site da Tamara. Ela tem alguns imóveis interessantes, mas muito menos do que costumava ter. Só por curiosidade, digitei o nome dela no Google e encontrei uma citação na página do Conselho Imobiliário, sob o item “Medidas Disciplinares”. Acontece que minha prima perfeita ganhou uma suspensão de 90 dias no ano passado. Ela representou uma firma na aquisição de um grande terreno comercial, sem informar que era a proprietária da área. Burrice.

Evidentemente, minha mãe não sabia... Se soubesse, eu já saberia, todo mundo saberia. Tia Val teve sorte, pois desapareci pouco antes de a suspensão ser anunciada no relatório mensal do Conselho. Então, tive uma luz.

 

v

 

Quando Gary telefonou, meia hora mais tarde, fui logo dizendo:

– Eu sei quem poderia ter se encontrado com o Maníaco.

Gary ficou calado por uns segundos, e disse:

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– Pode falar.

– Acabo de descobrir que minha prima teve a licença suspensa pou-co tempo depois que fui sequestrada. Mas ela devia saber que isso es-tava para acontecer, e minha tia nunca tocou no assunto. Minha mãe e a irmã adoram competir, e eu estava prestes a assumir um grande empreendimento...

– Annie...

– Escute, por favor. Você disse que era uma mulher de óculos escuros, certo?

– Certo, mas...

– Minha tia Val começou a usar óculos escuros logo depois da minha mãe. – Minha mãe usa óculos escuros porque acha que fica parecendo uma estrela de Hollywood, e ela ficou furiosa quando tia Val apareceu com um modelo igualzinho. – As duas se parecem bastante. Tia Val é um pouco mais alta, mas, de longe, podem ser con-fundidas. E era minha tia que costumava visitar o Dwight... ela pode ter levado as fotos para ele. Quando aquele cara me pegou, na semana passada, ela apareceu em questão de minutos, e...

– Nossos dados indicam que sua mãe visitou seu tio, Annie.

– Isso não é possível... ela nem fala nele!

– Annie, temos imagens gravadas e a assinatura dela no livro de visitantes.

– Minha tia poderia ter se vestido como ela, falsificado a assinatura. A letra da minha mãe parece de criança...

Gary suspirou.

– Vamos considerar essa possibilidade, está bem? Mas preciso lhe fazer mais perguntas. Enquanto esteve no chalé, você reparou em al-guma coisa cuja presença ali parecesse estranha? Qualquer coisa... por exemplo, a foto?

– O lugar era todo estranho... o que isso tem a ver?

– Talvez algum objeto que não parecesse importante, mas é possível que tivesse alguma característica que não fizesse muito sentido no chalé.

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– Já disse tudo o que sei, Gary.

– Às vezes, uma situação desconfortável pode reavivar uma lem-brança. Tente se lembrar do chalé.

– Não me lembro de nada.

– Alguma coisa no galpão, no porão...?

– Quantas vezes vamos ter que repetir isso? Ele tinha caixas, armas, muitas roupas, tinha um maço de dinheiro preso com um...

Rosa, era rosa. Respirei fundo.

– Que merda!

Ficamos os dois calados.

– Você se lembrou de alguma coisa? – perguntou Gary finalmente.

– O Maníaco tinha um maço de notas. Elas estavam presas com um elástico rosa. Quando estive na casa da minha mãe, outro dia, notei que dentro da gaveta do banheiro havia o mesmo tipo de elástico de cabelo, a mesma cor, rosa. Cheguei a prender o cabelo com um deles. Mas minha tia...

– Você guardou o elástico?

– Sim, mas eu disse que...

– Vamos precisar desse elástico, para análise.

Eu tinha que falar a ele sobre a droga daquele elástico rosa. Tive ânsia de vômito.

Muito ao longe, escutei Gary perguntar:

– Você se lembra de mais alguma coisa?

– O meio-irmão da minha mãe... talvez ele esteja envolvido. Posso tentar falar com o Wayne... descobrir se ele sabe alguma coisa. É pos-sível que minha mãe tenha dito a ele por que ela odeia...

– Não quero que você faça isso. Lembre-se, ainda não temos certeza do envolvimento da sua mãe. Para o seu bem, espero que ela não es-teja envolvida, mas, se estiver, é preciso tomar cuidado para não at-rapalhar a investigação. Na verdade, não diga coisa alguma a nin-guém, está bem? – Demorei a responder, e ele disse, num tom de voz oficial: – Estou falando sério.

– O que vocês pretendem fazer agora?

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– O mandado judicial deve chegar pela manhã, mas o banco ainda vai levar alguns dias para reunir e disponibilizar os dados. Enquanto isso, vamos recolher o máximo de provas que pudermos. Se nos pre-cipitarmos em interrogar sua mãe, corremos o risco de ela destruir provas, ou fugir.

– Não há por que interrogá-la... ela não fez nada.

– Escute – disse ele, num tom mais suave –, sei que tudo isso parece bastante confuso, mas prometo ligar assim que tivermos algo mais conclusivo. Enquanto isso, tente se manter isolada. Sinto muito por tudo que está acontecendo, Annie.

 

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Coloquei o telefone na base, mas o aparelho tocou assim que me afastei. Pensando que fosse Gary de novo, atendi sem olhar o número no visor.

– Graças a Deus! Fiquei tão preocupada com você, Annie querida! Deixei uma mensagem horas atrás, e depois do que aconteceu recentemente...

Minha mãe fez uma pausa para recuperar o fôlego, e tentei dizer al-guma coisa, mas minha garganta deu um nó.

– Annie? Você está me ouvindo?

– Desculpe por não ter ligado antes.

Minha vontade era alertá-la de que Gary estava em seu encalço, mas o que eu poderia dizer? “Gary acha que você está envolvida no meu se-questro, mas eu acho que foi sua irmã?” Não, provavelmente Gary es-tava equivocado, e se eu dissesse alguma coisa minha mãe acabaria pirando. Eu precisava ficar de bico calado. Apertei o telefone até minha mão doer e, encostada na parede, escorreguei até o chão. Emma saiu do lugar onde estava escondida e enfiou o focinho no meu peito.

– Então, a polícia descobriu mais alguma coisa sobre aquele sujeito horrível? – minha mãe perguntou.

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Ah, sim! A polícia descobriu muita coisa. Muito mais do que eu gostaria de saber.

– Nenhuma pista nova... parece que a investigação parou. Você con-hece os policiais daqui... não seriam capazes de encontrar nem o próprio traseiro, ainda que a vida deles dependesse disso.

Desmoronei, deitada de lado no chão. Minha respiração levantava tufos de pelo da Emma.

– Melhor assim. Você precisa se concentrar na sua recuperação. Talvez devesse tirar umas férias.

Apertei as pálpebras com força, a fim de conter as lágrimas mornas que se formavam, e mordi a língua.

– É uma ótima ideia. Sabe de uma coisa? Acho que vou acampar com a Emma por alguns dias.

– Está vendo? Sua mãe sabe o que é melhor para você. Mas não se esqueça de nos dar notícias. Nós sempre nos preocupamos com você, Annie querida.

 

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Depois que desliguei o telefone, olhei à minha volta e vi que a casa estava bagunçada e imunda. Arrumei meus livros em ordem alfabética e lavei as paredes com água sanitária. Passei o resto da noite de quatro, esfregando o piso. Nenhum centímetro da casa foi poupado. Enquanto meu corpo se concentrava na limpeza, minha mente tentava entender o que estava acontecendo.

O fato de alguém ter contratado o Maníaco no passado não invali-dava a possibilidade de meu sequestro ter ocorrido por acaso. Talvez alguma amiga o tenha visitado no hotel. E o fato de ele ter estado na prisão na mesma época que meu tio não significava muita coisa. A penitenciária estava repleta de detentos, e é provável que os dois ja-mais tenham se encontrado. Caso tenham se conhecido, provavel-mente o Maníaco ficou obcecado por mim ao ver as fotos da minha família. E não é difícil que tia Val não tenha mencionado a suspensão

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de Tamara porque estava aguardando a decisão final do Conselho. Então eu fui sequestrada e esse fato ofuscou todos os demais. Era bom mesmo que a polícia estivesse examinando a movimentação bancária da minha mãe, pois, quando não encontrassem qualquer coisa es-tranha, poderiam se concentrar na busca ao verdadeiro comparsa do Maníaco, se é que ele tinha um comparsa. Tudo acabaria bem.

Somente por volta das sete horas da manhã seguinte, quando final-mente parei com a faxina, percebi que estava com as mãos em carne viva e que não me alimentava havia mais de um dia. Consegui engolir um pouco de chá com torradas.

 

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Quando Gary telefonou naquela mesma tarde, dizendo que passaria na minha casa para pegar o elástico de cabelo e a foto que havia trazido do chalé, falei sobre a conversa com minha mãe, inclusive minha suposta viagem com Emma. Expliquei que precisaria ligar para ela ao menos uma vez, a fim de evitar qualquer suspeita. Ele concor-dou, mas recomendou que a conversa fosse breve.

Também sugeriu que eu contasse a Christina e Luke a mesma história, para que ninguém atrapalhasse nosso plano, e pediu que eu ficasse num hotel. Mas recusei: a situação já era bastante con-strangedora, estando eu dentro da minha própria casa. Combinamos que eu esconderia o carro nos fundos e teria um comportamento dis-creto. Luke e Christina me ligavam todos os dias desde a segunda tentativa de sequestro. Christina, tentando não ser insistente, me con-vidou para passar uns dias na casa dela, e aceitou meu “Não, muito obrigada” com um silêncio, um suspiro e as seguintes palavras: “Tudo bem, o que for melhor para você.” Mas eu sabia que ela estava bastante ansiosa, e os dois ficariam preocupados se eu não desse notí-cias. Portanto, enviei um e-mail aos dois dizendo que precisaria viajar por alguns dias, e que não havia telefonado porque não queria falar

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com ninguém: “Peço desculpas, mas estou passando por um momento difícil.”

Sem brincadeira.

 

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Passei os últimos dias escondida dentro de casa, com velas acesas durante a noite. O closet não tem sido um problema, pois não sei o que é dormir. Não saí nem para dar uma caminhada. Passo a maior parte do tempo abraçada com a Emma, chorando.

Uma vez, fui para dentro do carro, liguei o motor, telefonei para minha mãe pelo celular e fiz uns barulhos. Disse a ela que estava bem, telefonando da estrada, e que a ligação estava ruim, por isso eu não podia falar. Ao menos essa parte não era mentira: eu mal conseguia dizer “oi” sem gaguejar, resultado do esforço de guardar tanta coisa dentro de mim.

Quando olhei meu e-mail, Christina tinha respondido, dizendo que esperava que a minha “escapada” fosse proveitosa e que eu me sen-tisse melhor quando voltasse. “Estou com saudades”, escreveu ela. Mandou beijos e acrescentou o emoticon de um rosto sorridente.

No dia seguinte, vi o carro dela se aproximando da frente da minha casa e tapei o focinho da Emma, para que ela não latisse. Christina andou pela frente da casa por alguns minutos e depois se foi. Quando olhei para fora, percebi que ela havia recolhido os jornais que estavam na porta. Eu me senti uma idiota.

Gary telefonou para dizer que a investigação avançava e agradeceu minha colaboração. Eu me perguntei se ele estaria empolgado com o fato de o cerco se fechar em torno do “bandido”. Ele é policial por vocação.

Eu não disse que pretendia ir à terapeuta hoje, pois ele teria respon-dido que não fosse. Ainda bem que não desmarquei a sessão quando ele me ligou, por volta das oito da manhã, para dizer que a polícia havia finalmente localizado a outra camareira. E, sim, ela se lembrava

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da mulher de óculos escuros: o carro era tão grande e a mulher tão pequena que precisou fazer força para abrir a porta.

– Eu sei o que você está pensando, Gary. Mas deve haver... Que merda! Um minutinho, por favor.

– Sinto muito, Annie. Mas todos os indícios apontam para o envol-vimento da sua mãe. Só estamos esperando os documentos com a mo-vimentação bancária para interrogá-la. Enquanto isso, nós...

– Mas vocês não têm certeza se era ela a mulher que foi vista no hotel. Tudo bem, era uma mulher pequena, mas isso não quer dizer...

– Era uma mulher pequena e loura, Annie. A camareira não anotou a placa, mas o carro era bronze, como o do seu padrasto, e a camareira reconheceu a foto da sua mãe.

O sangue latejava nos meus ouvidos.

– Mas eu já disse: minha tia se parece com minha mãe, e o carro dela é um Lincoln da mesma cor do Cadillac. Talvez ela esteja em con-luio com o meio-irmão, e foi ele que tentou me sequestrar. Talvez ele esteja chantageando a tia Val... porra! Sei lá! E vai ver que ele ainda está por aí... e se você falar com o Wayne, ele vai dizer que minha mãe nada tem a ver com isso.

– No momento propício, vamos convocar o Wayne.

– No momento propício? Por que diabos vocês estão esperando... que eu desapareça novamente?

– Annie, eu entendo sua decepção...

– Eu não estou decepcionada, porra! Estou furiosa. Vocês estão indo por um caminho totalmente errado. Se vocês não vão fazer nada, então eu falo com o Wayne e vou...

– Estragar tudo? Isso seria de grande utilidade, não?

– O Wayne não vai fazer nada contra mim. Ele é um bobão, incapaz de fazer mal a uma mosca. Pode colocar um microfone em mim, se es-tá tão preocupado.

– Annie, não estamos num episódio da série Law & Order. Não colocamos microfones em civis, e você não foi treinada para isso.

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Basta dizer uma coisa errada e a investigação do caso que você tanto quer resolver ficará comprometida.

– Por favor, Gary! Durante um ano inteiro naquela montanha eu não pude fazer absolutamente nada para resolver minha situação. Eu preciso participar. Eu conheço o Wayne. Se minha mãe disse a ele qualquer coisa sobre o Dwight, eu vou conseguir arrancar alguma informação.

– Sinto muito, mas não dá para negociar. Você precisa ter paciên-cia. Agora, eu preciso ir até o tribunal. Ligo para você mais tarde.

– Tudo bem, tudo bem.

Olhei para o relógio. Oito e quinze. Em duas horas, Wayne estaria sentado sozinho na lanchonete que ele frequenta quando está sem tra-balho. Ou seja, quase toda manhã. Minha mãe nunca está com ele, porque geralmente está dormindo, curando a ressaca. Sim, claro, vou ter paciência: vou esperar uma hora e quarenta e cinco minutos.

 

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O corre-corre matinal na lanchonete havia acabado, mas o cheiro de gordura de bacon ainda estava no ar no momento em que me sentei a uma mesa em frente à janela.

Uma garçonete veio me atender, trazendo um bloco de papel e um lápis. O lápis tinha marca de dentes, e as unhas estavam roídas até o sabugo. Iguais às minhas. Eu me perguntei o que a deixava nervosa.

– O que vai querer?

– Por enquanto, só um café.

– Ah! Eu conheço você... você é filha do Wayne. Annie, não é? Como vai, fofura?

O gravador queimava no meu bolso. Que diabos eu estava fazendo ali? E se Gary estivesse certo e eu atrapalhasse a investigação?

– Vou bem, obrigada.

– O Wayne deve estar chegando a qualquer momento. Vou dizer a ele que você está aqui, querida.

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– Ótimo.

A garçonete trouxe o café e, assim que se afastou da mesa, escutei o sininho da porta. Embora não conseguisse enxergar sobre a divisória da mesa, eu sabia quem era.

– Como vai a garçonete mais bonita da cidade, Janie?

– Muito bem, gatão. Adivinhe quem chegou hoje antes de você?

Meu padrasto apareceu diante da mesa.

– Santo Deus, Annie! O que você está fazendo aqui? Sua mãe disse que você ia acampar.

A garçonete voltou trazendo mais um café. Wayne sentou à minha frente.

– Precisei falar com a polícia novamente – disse eu. – Por isso tive que voltar antes.

Ele assentiu e mexeu o café.

– Eles têm novas informações sobre o cara que me sequestrou.

Wayne suspendeu a colher, interrompendo o gesto.

– É mesmo? Que informações?

– Quem sabe a gente vai lá para fora? – sugeri. – Aqui dentro está quente como o inferno... por que não pegamos o café e vamos beber no parque?

– Não sei. Sua mãe vai acordar daqui a pouco, e prometi comprar cigarros para ela.

– A gente não vai ficar o dia todo. É que eu ainda não quero voltar para casa. Trouxe o baralho?

– Você quer jogar?

– Quero, mas vamos até o parque. Preciso sair daqui. Está um cheiro forte de torrada queimada.

Paguei a conta, Janie nos serviu mais dois cafés e atravessamos a rua, na direção do parque. Avistei uma mesa de piquenique à sombra, afastada das demais. Wayne embaralhou as cartas. Tentei me lembrar se já tínhamos feito qualquer outra atividade que não fosse jogar cartas.

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– Para ser sincera, Wayne, nosso encontro não foi por acaso. – Ele parou com o baralho nas mãos, pronto para dar as cartas. – Eu quero falar com você.

– É?

Espantei Gary da minha mente e mergulhei fundo.

– Os policiais estão achando que minha mãe teve algo a ver com meu sequestro. Alguém viu um carro parecido com seu Cadillac no es-tacionamento do hotel onde o cara estava hospedado, mas eu acho que...

– Muita gente tem carro parecido com o meu.

– Eu sei, mas parece que a descrição feita por uma camareira...

– Os policiais estão enganados.

Olhei-o fixamente. Ele encarou as cartas.

– Olhe para mim, Wayne.

– Pensei que você quisesse jogar...

– Mas olhe para mim.

Ele ergueu a cabeça lentamente e olhou nos meus olhos.

– Você sabe de alguma coisa?

Ele sacudiu a cabeça.

– Wayne, eles têm um mandado judicial. E vão examinar a movi-mentação bancária da minha mãe.

Ele ficou pálido.

Minha voz se manteve calma, mas meus ouvidos voltaram a latejar.

– Minha mãe tem algo a ver com esse caso?

Durante cerca de cinco segundos, ele tentou olhar dentro dos meus olhos. Em seguida, apoiou a testa nas mãos. Notei que tremiam.

– Wayne. Você precisa me contar o que está acontecendo.

– Está tudo ferrado... mais que ferrado. – E murmurou: – Que merda! Que situação...

– WAYNE!

Ainda com a testa apoiada nas mãos, ele sacudiu a cabeça para a frente e para trás.

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– Ou me conta agora, Wayne, ou eu vou ligar para os tiras e você vai ter que contar para eles.

– Sinto muito... eu sinto muito mesmo... nós não sabíamos que ele gostava de fazer mal a moças... eu juro. – Ele olhou para mim com um ar de desespero. – Eu teria impedido que ela... teria, sim... mas eu não sabia.

– Não sabia o quê?

– Você sabe... que sua mãe ia contratar aquele cara... para pegar você.

Não, não, não, não.

Do outro lado do parque, uma jovem mãe empurrava uma criança num balanço. A menina dava gritinhos e risadas. O som foi abafado pelo latejar nos meus ouvidos. Os lábios de Wayne se mexiam para cima e para baixo, mas eu só captava fragmentos de palavras e frases. Tentei prestar atenção no que ele dizia, mas eu só pensava nas en-grenagens do gravador, girando, girando.

Ele olhou nos meus olhos.

– Que merda, Annie! Parece que você... sei lá...

Encarei seu rosto, sacudindo lentamente a cabeça:

– Vocês. Foram vocês...

Ele se inclinou na minha direção e começou a falar rapidamente:

– Você precisa escutar minha versão, Annie. Deu tudo errado. Mas eu não sabia, eu juro que não sabia. Logo que você foi sequestrada, sua mãe ficou relativamente calma, entende? Aquele não era o jeito dela. Numa situação daquelas, ela deveria pirar. Mas como, depois de uma semana, você não voltou, ela perdeu o sono e começou a beber mais do que nunca. Na segunda semana, ela visitou seu tio três vezes. Então eu perguntei: “Em que enrascada você se meteu, Lorraine?” E ela só repetia: “Não foi minha culpa.” Ele engoliu em seco algumas vezes e pigarreou.

– O que não foi culpa dela? Você ainda não me disse o que ela fez!

– Era para você desaparecer só por uma semana, no máximo. Mas saiu tudo errado.

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Saiu errado. Só isso... saiu errado. Eu não sabia se ria ou gritava.

– Que merda é essa? Por que eu deveria ser sequestrada? O Maníaco estava chantageando o Dwight? Era isso? Ou o Dwight estava ameaçando minha mãe? Ela sempre visitava o Dwight? Porra! O que aconteceu, Wayne?

– Não sei qual foi a jogada com o Dwight... ela fica toda estranha quando eu falo nele. Mas não... ela viu um filme sobre uma garota que ficou dois dias sequestrada e, depois do filme, a família da moça foi entrevistada... você sabe... ela fica cheia de ideias, igual urubu em carniça.

Comecei a juntar os pontos.

– Minha mãe teve a ideia de me sequestrar depois que viu um filme?

– A Lorraine disse que você era bem mais bonita, e que, se desa-parecesse por uma semana, o caso valeria mais.

Demorei um instante para assimilar as palavras do meu padrasto.

– Valeria mais... você está me dizendo que ela fez essa merda pensando em dinheiro?

– Começou quando ela ficou sabendo que talvez você não ganhasse aquele empreendimento. A Val ficaria zombando dela quando soubesse... você conhece aquelas duas... mas e se você ficasse famosa? A Val teria que engolir pelo resto da vida.

– E você não fazia ideia dos planos dela?

– Não, porra! Juro que não sabia de nada. Ela disse que seu tio con-heceu um cara na prisão que faria o serviço. E ele também conhecia o agiota que emprestou 35 mil dólares para ela... eu também não sabia nada sobre isso.

– Trinta e cinco mil dólares! Foi esse o preço para acabar com minha vida?! Que merda de família eu tenho!

– Sua mãe não quis que fizessem mal a você. O cara não telefonou para ela, como tinha sido combinado... foi por isso que ela ficou tão nervosa, depois da primeira semana. Seu tio tentou descobrir o que

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estava acontecendo, mas ninguém sabia para onde o cara tinha levado você.

– Mas por que ela não ligou para a polícia quando eu não voltei para casa? Por que você não ligou? Vocês me deixaram lá... – Minha voz falhou.

– Assim que fiquei sabendo que algo estava errado, eu disse a ela que deveríamos informar a polícia imediatamente. Mas o cara que emprestou dinheiro disse que, se ela desse com a língua nos dentes, os tiras iriam atrás dele. Ameaçou retalhar a cara da sua mãe e quebrar minhas pernas. E ainda mandaria matar o Dwight na prisão. Promete-mos que diríamos à polícia que o pagamento tinha sido feito com nosso próprio dinheiro, mas ele fazia questão de receber o dele... e nunca receberia o dinheiro se sua mãe e eu fôssemos em cana. E, mesmo que acabássemos presos, ele comentou que nos pegava dentro da cadeia.

Eu me dei conta de que aquela talvez fosse a conversa mais de-morada que tive com meu padrasto, nossa primeira conversa franca, e o teor dizia respeito à minha mãe ter mandado alguém me sequestrar e me estuprar.

– Você não achou que o cara pudesse me fazer mal? Que eu pudesse ser assassinada?

O semblante dele parecia arrasado.

– Todos os dias, mas eu não podia fazer nada. Se tentasse ajudar você, acabaria prejudicando a Lorraine. Enquanto você esteve desa-parecida, ela enrolou o agiota, fazendo alguns pagamentos com o din-heiro da venda das suas coisas, e tentou conseguir alguém que se in-teressasse em fazer um filme... mas foi tudo em vão. Estávamos quase duros quando você voltou para casa.

Ele respirou fundo.

– Depois que vi você no hospital, fiquei muito abalado. Mas a Lor-raine disse que precisávamos seguir em frente e ser fortes, para o seu bem. E o agiota ainda estava no nosso rastro. A Lorraine disse a ele que nós ganharíamos dinheiro quando você vendesse sua história,

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mas você não colaborava. Ela fez tudo para manter a imprensa interessada.

Eu me lembrei das vezes que os repórteres sabiam exatamente onde eu estava e que, desde o começo, eles contaram com informações privilegiadas.

– Todo o dinheiro que a imprensa nos deu foi para pagar nossa dívida. Porém, mais ou menos um mês atrás, o cara disse que, se não pagássemos a dívida toda, ele acabaria com a gente.

– Espere um minuto... aquele sujeito que tentou me pegar na rua... foi o agiota, ou o Dwight?

Wayne fixou o olhar nos próprios pés.

– Vocês contrataram alguém para me sequestrar de novo?

– Não. – A voz dele estava tão baixa que eu mal pude ouvir. – Fui eu.

– Você? Deus do céu! Wayne, você quase me matou de medo... você me machucou!

Ele virou de frente para mim e começou a falar rápido:

– Eu sei, eu sei... sinto muito. Não era essa a minha intenção. Não era para você ter caído no chão... e eu não imaginava que você fosse lutar tanto. Sua mãe disse que a imprensa estava perdendo o in-teresse. Não tínhamos outra opção... estávamos ferrados, Annie.

– Vocês estavam ferrados? Não, Wayne... estar ferrado é ser es-tuprado quase todas as noites. Estar ferrado é ter que lutar, chorar e gritar, porque isso fazia o cara gozar mais depressa. É ter que mijar em horários estabelecidos. Sabe o que ele fazia quando me pegava mi-jando fora de hora? Ele me obrigava a beber a água da privada. Da privada, Wayne. As pessoas não deixam nem os cachorros fazerem isso. Isso é estar ferrado.

Com lágrimas nos olhos, Wayne concordou.

– Minha filha morreu, Wayne. – Estiquei o braço, peguei uma das mãos dele e virei com a palma para cima. – A cabeça dela não era maior que a palma da sua mão... e ela está morta. E você está me

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dizendo que minha própria família fez isso comigo? Vocês são as pessoas em quem supostamente eu devo confiar, e vocês...

Nesse momento, ouvi minhas próprias palavras e sucumbi.

Curvada, abracei minhas pernas, pois uma grande pressão se abateu sobre meu peito e minha cabeça parecia estar sendo espremida num torno. Tentei respirar fundo, enquanto Wayne batia nas minhas cost-as, repetindo várias vezes que sentia muito. A voz dele era de quem es-tava chorando. Minha visão ficou turva. Meu corpo escorregou para a frente.

Wayne me deu um abraço e me endireitou no banco.

– Que merda! Annie, por favor, não desmaie.

Passados alguns minutos, recuperei o fôlego, mas ainda tremia e tinha calafrios pelo corpo. Ergui a cabeça e me livrei dos braços de Wayne. Respirei fundo mais uma vez, me levantei e fiquei andando de um lado para outro diante do banco, envolta em meus próprios braços.

– Foram vocês que arrombaram minha casa, também?

– Sim... estava combinado que sua mãe entraria logo em seguida, para salvar você. Mas, quando cheguei no seu quarto, você não estava lá. Então o alarme disparou e eu fugi pela janela. E, quando sua mãe passou a noite na sua casa, você disse a ela que costumava correr de manhã...

A noite em que minha mãe me trouxe os cookies e minhas fotos. Eu precisei sentar.

 

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Ficamos sentados por algum tempo, olhando um para o outro, nada dizendo, tudo compreendendo. Ao menos eu compreendia tudo. Por fim, rompi o silêncio.

– Você sabe que vai ter que se entregar, certo?

– Acho que sim.

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Olhamos para a área dos brinquedos. Não havia nenhuma criança. O sol tinha desaparecido atrás de uma nuvem, e fazia frio à sombra. Uma brisa leve movia os balanços para a frente e para trás. O ar estava saturado do barulho das correntes do brinquedo e do perfume de uma tempestade que se aproximava.

– Eu amo sua mãe, sabia?

– Sabia.

Ele respirou fundo, e então guardou o baralho na caixa. Eu queria segurar sua mão, dizer “Vamos jogar pela última vez”. Mas era tarde demais. Tarde demais para tudo.

– Eu vou até a delegacia com você – ele disse.

Gary tinha acabado de chegar do tribunal e ficou irritado quando me viu acompanhada de Wayne. No entanto, assim que meu padrasto disse que queria fazer uma confissão, Gary apontou para mim e disse:

– Não saia daqui.

Em seguida retirou-se, levando Wayne consigo.

Passei algumas horas andando pela delegacia, folheando revistas e olhando para as paredes, contando rachaduras, manchas. A traição da minha própria família doía mais que qualquer outra coisa que o Maníaco havia feito comigo. A dor me atingia num local que ele jamais conseguiu tocar. Eu queria correr para bem longe daquela dor.

Finalmente, Gary apareceu.

– Você não deveria ter falado com ele, Annie. Se o tiro saísse pela culatra...

Entreguei a fita.

– Mas não saiu.

– Não vamos poder utilizar esta...

– Vocês não precisam, não é verdade? – interpelei. Eu não estava pedindo desculpas.

Gary balançou a cabeça e disse que, após falar com um advogado, Wayne tinha decidido fazer um depoimento detalhado e incriminar minha mãe, em troca de uma sentença mais branda. Já estava preso,

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acusado de cumplicidade em sequestro, extorsão e negligência. Ficaria detido até a audiência em que seria discutida a fiança.

Gary disse que os documentos enviados pelo banco deveriam chegar naquela mesma tarde ou na manhã seguinte. Na realidade, eles não eram mais necessários para o mandado de prisão a ser expedido con-tra minha mãe, mas ele queria verificar a autenticidade das de-clarações de Wayne antes de interrogá-la. Além disso, faltava o res-ultado do exame dos elásticos de cabelo. Mas o laudo talvez só chegasse na manhã seguinte. A polícia não achava que minha mãe pudesse fugir. Ela não tinha carro, nem representava um risco para a sociedade. Portanto, a menos que surgisse algum imprevisto, ela seria presa em menos de 24 horas.

Wayne foi instruído a telefonar para minha mãe e dizer que iria até o norte da ilha, a fim de ver um negócio promissor que estava à venda. Se ficasse muito tarde para voltar dirigindo, passaria a noite na casa de um amigo. Então, mencionou que tinha se encontrado comigo, e disse que eu já estava de volta à cidade, cansada de dirigir, e que iria direto para casa. Ela acreditou.

Mais tarde, Gary me acompanhou até meu carro.

– Está tudo bem com você? – perguntou. – Deve ter sido difícil es-cutar tudo aquilo.

– Não sei mais quem sou... é tudo tão... sei lá. – Sacudi a cabeça. – Você ouviu falar em alguma mãe que fez algo semelhante?

– Muitas vezes, as pessoas fazem coisas terríveis a quem amam. Qu-alquer crime que você puder imaginar foi praticado ao menos uma vez.

– Em todo caso, eu não estou me sentindo melhor.

– Vou tentar ligar para você assim que ela for presa. Quer assistir ao interrogatório?

– Meu Deus! Não sei se tenho estômago para isso.

– Eu sei que ela é sua mãe, e deve ser muito difícil entender o que ela fez. Mas preciso contar com sua coragem. Você só pode falar com ela depois que nós falarmos, está bem?

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– Acho que sim.

– Estou falando sério, Annie. Quero que você vá direto para casa. Eu não deveria ter dito tudo o que acabei de dizer, mas não me agrada deixá-la por fora das coisas. Talvez você seja tentada a avisar sua mãe, mas creio que você irá agir corretamente. Não me decepcione. Lembre-se do que ela fez com você.

Eu não precisava que me lembrassem.

 

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Bem, eu atendi em parte ao pedido de Gary. Segui direto para um determinado lugar. Mas não foi para minha casa, e sim para seu con-sultório. Pouco me importava se alguém me visse. Contrariando toda e qualquer lógica, eu tinha esperanças de que aquilo tudo não passasse de um grande engano.