Identidade roubada
D É C I M a S e S S Ã o
DÉCIMA SESSÃO
Doutora, ontem à noite tive um momento de glória. Eu estava dor-mindo... na minha cama, fato que vai deixá-la feliz... quando acordei com vontade de fazer xixi. Então, fui tropeçando até o ban-heiro. Ao terminar, me dei conta do que tinha feito, e fiquei tão feliz que perdi o sono. Minha empolgação foi tanta que não preguei os ol-hos o resto da noite.
Era um velho hábito, ir ao banheiro no meio da madrugada, mas isso é bom, sinal de que as velhas rotinas estão voltando, certo? E talvez signifique que eu estou voltando. Não se preocupe, eu me lem-bro de que você me disse para aceitar que nunca mais serei quem eu era antes do sequestro. Mas mesmo assim já é alguma coisa.
Talvez a coisa tenha funcionado porque, dormindo, eu não pude nem pensar no que estava fazendo. Sempre gostei da expressão “dançar como se ninguém estivesse vendo”. Digamos que a gente está em casa, sozinha. O rádio começa a tocar uma música bem agitada. A gente começa a se mexer devagarzinho, feliz da vida, entrando no ritmo, curtindo o momento. A gente se empolga... é perna para todo lado, braços para cima, quadril rebolando. Mas basta estar em público que a gente começa a pensar que está sendo observada, julgada. Então se pergunta: será que estou rebolando demais? Será que estou no ritmo? Estão rindo de mim? Logo a gente para de dançar.
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Lá na montanha, eu era testada todos os dias. Quando ele estava fel-iz, eu tinha direito a algumas mordomias. Se não fizesse algo com a rapidez ou a perfeição esperada, o que não ocorria sempre, pois eu to-mava muito cuidado, eu levava bofetadas ou ficava sem as mordomias.
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Enquanto o Maníaco analisava meu comportamento, eu avaliava o dele. Mesmo após nossa conversa sobre a mãe dele, eu ainda não con-seguia perceber como manipulá-lo, e cada situação era um indício a ser recolhido e arquivado na memória. Interpretar as necessidades e vontades dele se tornou meu trabalho. Portanto, passei a estudar cada detalhe da sua fisionomia, cada inflexão da sua fala.
Os anos que vivi com minha mãe, cuja sobriedade eu tinha apren-dido a avaliar segundo o grau da queda das pálpebras, me ajudaram a desenvolver algumas habilidades. Mas na minha “escola de mães” aprendi também a lidar com o imprevisível, como acontece em relação aos tigres: a gente nunca sabe se vai ser um amigo ou a próxima re-feição. Tudo dependia do estado de espírito em que o animal se en-contrasse. Às vezes, eu cometia um erro e o Maníaco mal reagia. Out-ras, eu dava uma escorregadela e ele se descontrolava.
Por volta de março, quando eu estava mais ou menos no sexto mês de gravidez, ele entrou em casa, voltando de uma caçada, e disse:
– Preciso da sua ajuda lá fora.
Lá fora? Como... ao ar livre? Encarei o Maníaco em busca de algum sinal de que fosse brincadeira ou de que pretendesse me executar do lado de fora. Mas seu rosto não transparecia qualquer emoção.
Atirou um dos seus casacos e um par de galochas.
– Vista isso.
Antes mesmo de eu fechar o zíper, ele agarrou meu braço e me puxou para fora do chalé.
O cheiro de ar puro bateu no meu rosto como se eu tivesse me cho-cado contra uma parede, e meu peito se contraiu, surpreso. Tentei ol-har em volta enquanto ele me conduzia até a carcaça de um cervo, a cerca de cinco metros do chalé. Mas o dia estava ensolarado e a clarid-ade da neve encheu meus olhos de lágrimas. Só pude perceber que es-távamos numa clareira.
Meu corpo ardia por causa do frio. A neve cobria parte das botas que protegiam meus pés, porém fazia muito tempo que eu não saía de dentro de casa, e minhas pernas estavam descobertas. Meus olhos
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começaram a se ajustar à luz, mas, antes que eu pudesse registrar qualquer coisa, ele me obrigou a ajoelhar ao lado da cabeça do cervo. O sangue ainda jorrava de um buraco atrás da orelha do animal e de um corte na garganta, dando à neve uma tonalidade avermelhada. Tentei desviar os olhos, mas o Maníaco virou meu rosto para a carcaça.
– Preste atenção. Quero que você ajoelhe atrás do cervo, e, depois que virarmos o bicho de costas, você vai segurar as patas traseiras, en-quanto eu abro a barriga dele. Entendeu?
Entendi o que o Maníaco queria que eu fizesse. Só não entendi por que estava me pedindo que fizesse aquilo, pois ele nunca tinha feito algo parecido antes. Talvez quisesse apenas que eu visse o que ele era capaz de fazer, ou, para ser mais exata, o que ele era capaz de fazer comigo.
Mas assenti e, evitando o olhar vidrado do animal, me agachei na neve, diante da traseira do bicho, e agarrei as patas, já rígidas. O Maníaco, sorrindo e cantando, ajoelhou ao lado da cabeça do cervo e, juntos, viramos o animal de costas.
Mesmo sabendo que o cervo estava morto, a visão do bicho me in-comodava: indefeso e humilhado, de costas na neve e com as pernas arreganhadas. Eu nunca tinha visto um animal morto de tão perto. Talvez sentindo minha tristeza, o neném ficou bastante agitado.
Meu estômago revirou quando vi a ponta da faca do Maníaco cortar a pele do cervo, na altura da virilha, como se fosse manteiga. Meu nar-iz sentiu o cheiro metálico do sangue quando ele circundou a genitália do animal e fez um talho até a altura do estômago. Pude ver a imagem dele cortando minha carne, com a mesma expressão de serenidade. Meu corpo se contorceu, e ele me dirigiu o olhar.
– Desculpa – murmurei. Então trinquei os dentes por causa do frio e forcei meus músculos a ficarem sob controle. Ele voltou a cantarolar e cortar.
Enquanto ele se distraía, olhei em volta, avaliando a clareira. Estávamos cercados por pinheiros, os galhos cobertos de neve.
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Pegadas, rastros e algumas gotas de sangue desapareciam em torno do chalé. O ar tinha um cheiro de limpeza, de umidade, e a neve estalava sob meus pés. Eu havia esquiado em montanhas do Canadá, e a neve de outras regiões tinha um cheiro distinto, mais seco, e a própria sensação tátil era diferente. A pequena quantidade de neve, o relevo do terreno e o cheiro me deixaram esperançosa de ainda estar na ilha, ou ao menos em algum lugar no litoral.
O Maníaco falava comigo enquanto retalhava o cervo.
– É melhor comer os frutos da terra, comida pura, que não foi to-cada pelo ser humano. Comprei alguns livros novos na cidade, para você aprender a salgar carne e fazer compotas. Um dia seremos autos-suficientes, e nunca mais vou precisar deixar você sozinha.
Aquela perspectiva não era prioridade na minha lista, mas devo ad-mitir que fiquei animada com a ideia de fazer algo novo, não import-ando o que fosse.
Quando terminou de abrir o cervo e o estômago do bicho ficou à mostra, ele olhou para a carcaça e disse:
– Você já matou, Annie?
Como se a faca na mão já não fosse algo ameaçador, ele agora começava a falar sobre matar?
– Nunca participei de uma caçada.
– Responda à pergunta, Annie.
Encarávamos um ao outro, por cima da carcaça do cervo.
– Não, nunca matei.
Segurando a faca pela ponta do cabo, ele a balançava para a frente e para trás, como um pêndulo. Cada vez que a faca subia, ele repetia:
– Nunca? Nunca? Nunca?
– Nunca...
– Mentirosa!
Lançou a faca no ar, agarrou o cabo na queda e a cravou no pescoço do cervo, até o fim da lâmina. Assustada, soltei o animal e caí de cost-as na neve. Ele não disse uma palavra sequer enquanto eu tentava me sentar. Assim que consegui me ajeitar, agarrei novamente as patas do
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cervo e me preparei para um daqueles acessos de raiva. Em seguida, o olhar se desviou para o talho aberto no estômago do cervo, depois para minha barriga, e de novo para mim. Comecei a tagarelar.
– Atropelei um gato quando era adolescente. Não foi de propósito. Eu estava voltando para casa tarde da noite, muito cansada, ouvi um barulho e vi o bicho voar pelos ares. Vi quando caiu no chão e entrou no mato. Parei o carro.
O Maníaco me encarava e as palavras jorravam da minha boca.
– Caminhei pelo mato à procura do bicho, chorando e chamando... “gatinho, gatinho”..., mas ele tinha ido embora. Quando cheguei em casa, contei ao meu padrasto. Ele voltou comigo, com uma lanterna na mão, e procuramos durante uma hora. Mas nada do bicho. Ele me disse que provavelmente o gato estava bem, e que tinha corrido para casa. Mas de manhã olhei embaixo do carro e vi muito sangue e pelos numa das rodas.
– Impressionante! – exclamou ele, com um sorriso largo. – Não pensei que você fosse capaz.
– Não sou! Foi um acidente...
– Não, acho que não foi. Acho que você viu os olhos do gato reflet-indo a luz dos faróis e quis saber qual era a sensação. E de repente sentiu ódio daquele gato e acelerou. Acho que o barulho... quando vo-cê percebeu que tinha atingido o animal... fez você se sentir poderosa, fez você...
– NÃO! Claro que não. Eu me senti muito mal... eu ainda me sinto muito mal.
– Você ainda se sentiria mal se o gato fosse um matador? Provavel-mente, ele estava caçando... você sabe... você já viu um gato torturar a presa? E se o bicho estivesse doente, abandonado, sem ninguém que gostasse dele? Isso melhoraria a situação, Annie? E se você perce-besse, só em olhar para o gato, que os donos o maltratavam, não ali-mentavam o bicho direito, e costumavam dar pontapés nele? – Elevou a voz. – Talvez você tenha feito um favorzão para ele... você nunca pensou nisso?
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Parecia até que o Maníaco buscava minha aprovação para algo que ele tinha feito. Será que pretendia confessar alguma coisa, ou apenas foder minha cabeça? A última hipótese parecia mais provável. Por isso, não sei ao certo qual de nós dois ficou mais surpreso quando eu finalmente falei.
– Você já... já matou uma pessoa?
Esticou a mão e acariciou o cabo da faca com delicadeza.
– Pergunta corajosa.
– Desculpe, é que eu nunca conheci alguém que... você sabe. Li mui-tos livros e vi muitos filmes, mas não é a mesma coisa que falar com alguém que tenha feito isso.
Foi fácil parecer realmente interessada. Sempre fui fascinada por psicologia, sobretudo pela psicopatologia. Os assassinos, sem sombra de dúvida, se encaixam nessa categoria.
– E se falasse com alguém que, como você diz, “já tenha feito isso”, o que você perguntaria?
– Eu... eu gostaria de saber por quê. Mas talvez a pessoa nem saiba, ou não entenda o que aconteceu.
Parecia que a resposta estava certa, pois ele assentiu com firmeza, e disse:
– Matar é uma coisa engraçada. Os homens criam várias regras que determinam quando matar é permitido. – Deu uma risadinha. – Legí-tima defesa? Tudo bem. Você acha um médico que declara que você é maluco? Tudo bem. Uma mulher que sofre de TPM mata o marido? Se você tem um bom advogado, sem problemas.
Com a cabeça inclinada na minha direção, ele balançou o corpo para a frente e para trás.
– E se você soubesse como as coisas acabariam e pudesse impedir? E se pudesse ver algo, algo que ninguém mais conseguisse ver?
– Por exemplo?
– Foi uma pena você não ter achado o gato, Annie. A morte é simplesmente a extensão da vida. E se você testemunhar a morte, a
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abertura de uma nova dimensão, vai perceber como é desnecessário se limitar a esta dimensão em que vivemos.
Ele ainda não havia admitido ter matado alguém, e eu me pergun-tava se deveria esquecer o assunto. Mas recuar nunca foi meu forte.
– Mas qual é a sensação? Quando se mata alguém?
Ele entortou um pouco a cabeça e ergueu as sobrancelhas.
– Estamos planejando matar alguém? É isso? – Antes que eu pudesse negar, ele prosseguiu, mas não na direção que eu esperava. – Minha mãe morreu de câncer. De ovário. Apodreceu de dentro para fora e no final eu sentia o cheiro da morte. – Parou por um segundo, o olhar inexpressivo, morto. Eu estava pensando na pergunta seguinte, mas ele continuou: – Eu tinha apenas 18 anos quando ela adoeceu... o marido dela havia morrido poucos anos antes, mas eu não me inco-modava em cuidar dela. Eu sabia cuidar da minha mãe melhor do que qualquer outra pessoa. Mas ela não parava de chorar por ele. Mesmo quando eu dizia que ele tinha ido embora e que não gostava dela, não como eu gostava, minha mãe insistia para que eu o encontrasse. De-pois de tudo o que fiz por ela... Eu vi o que ele tinha feito com minha mãe. Vi com meus próprios olhos, mas ela chorava por ele.
– Não estou entendendo. Você disse que ele morreu. Mas disse a ela que ele tinha ido embora?
– Ele ficava fora de casa durante meses, meses, e nós passávamos muito bem. E aí ele voltava. Eu sempre sabia quando ele estava para voltar, porque eu ajudava minha mãe a pôr o vestido, e ela se ma-quiava... para ele. Eu dizia que não gostava, mas ela dizia que ele gostava. Ele nem me deixava comer com os dois. Eu sabia que ela queria me servir, mas ele a obrigava a esperar até que tivesse acabado. Para ele, eu não passava de um vira-lata trazido da rua pela mulher. Depois do jantar, os dois entravam no quarto e fechavam a porta. Mas, uma noite, quando eu tinha cerca de 7 anos, eles não fecharam bem a porta. E eu vi... Ela estava chorando. As mãos dele... – A voz sumiu e ele encarou o nada.
– Seu pai estava batendo nela?
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Eu havia notado que, quando falava na mãe, a voz do Maníaco se tornava monocórdia. Ao responder àquela pergunta, a voz parecia robotizada.
– Eu era gentil... eu era sempre gentil quando tocava nela. Eu não fazia minha mãe chorar. Aquilo não estava certo.
– Ele estava machucando sua mãe?
Olhando fixamente o centro do meu peito, os olhos vagos, ele bal-ançou a cabeça e repetiu:
– Aquilo não estava certo.
Acariciou o próprio pescoço.
– Ela me viu... pelo espelho. Ela me viu. – A carne dos seus dedos ficou vermelha, pois durante um tempo ele apertou a própria gar-ganta. Em seguida, desceu a mão e começou a esfregá-la na coxa, como se quisesse limpá-la.
Com a voz rouca, ele continuou:
– Então, ela sorriu. – A boca do Maníaco desenhou um sorriso beatífico, que se expandiu até formar quase uma careta. Ele manteve a expressão por tanto tempo que eu imaginava estar dolorido. Meu cor-ação saltou dentro do peito.
Olhando nos meus olhos, ele disse:
– Depois daquela noite, ela sempre deixava a porta aberta. Durante anos ela deixou a porta aberta.
A voz voltou a fraquejar.
– Quando fiz 15 anos, ela começou a me raspar, para que eu ficasse completamente sem pelos, como ela, e, se à noite eu a abraçasse com muita força, ela ficava zangada. Às vezes, quando eu tinha certos son-hos, os lençóis... ela me obrigava a queimá-los. Não era mais a mesma.
– Não era mais a mesma? – repeti, tentando manter a voz suave e tranquila.
– Um dia, cheguei da escola mais cedo. Ouvi barulhos no quarto. Eu achava que ele estivesse viajando. Então fui até a porta. – Ele começou a esfregar o peito, como se estivesse com falta de ar.
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– Ele estava por trás dela. E outro homem, um estranho... Fui em-bora antes que ela pudesse me ver. Esperei lá fora, me escondi em-baixo do piso da varanda...
Parou de repente, e após alguns segundos, eu perguntei:
– Embaixo do piso da varanda?
– Com meus livros. Era lá que eu escondia meus livros. Eu só tinha permissão para ler dentro de casa quando ele estava. Quando ele viajava, minha mãe dizia que os livros atrapalhavam nossa rotina. Se me visse com um deles, ela arrancava as páginas.
Agora eu sabia por que o Maníaco era tão cuidadoso com os livros.
– Uma hora depois, quando os dois homens passaram pela varanda, senti neles o cheiro da minha mãe. Eles saíram para beber cerveja. Ela ficou lá dentro... cantarolando. – Balançou a cabeça. – Ela não dever-ia ter permitido que eles fizessem aquelas coisas com ela. Estava doente. Não percebia que aquilo era errado. Ela precisava da minha ajuda.
– Então... você... ajudou sua mãe?
– Eu tinha que salvá-la, salvar nós dois, antes que ela mudasse tanto que eu já não pudesse ajudá-la, entende?
Entendi. Fiz um sinal com a cabeça.
Satisfeito, ele prosseguiu.
– Uma semana depois, quando ela foi ao mercado, eu pedi a ele que me levasse de carro até a floresta, para eu lhe mostrar uma velha mina. – Fixou o olhar na faca enterrada no pescoço do cervo. – Ao chegar em casa, eu disse a ela que ele havia feito as malas e ido em-bora. Tinha encontrado outra mulher. Minha mãe chorou, mas eu cuidei dela, como no começo de tudo, mas ainda melhor porque eu não precisava dividi-la com ninguém. Aí, ela ficou doente, e eu fiz to-das as vontades, tudo o que ela pedia. Tudo. Então, quando ficou mais doente e me implorou que a matasse, ela achou que eu atenderia ao pedido. Mas eu não queria. Não podia. Ela suplicou, disse que eu não era um homem de verdade, um homem de verdade faria o que ela es-tava pedindo. Disse que ele teria feito. Mas eu não conseguia.
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Enquanto ele falava, o sol desapareceu e começou a nevar, um leve pó branco nos cobriu e cobriu o animal. Um dos cachos alourados do Maníaco tinha caído sobre o rosto, e os cílios pareciam espetados e re-luzentes. Não sei se era neve ou lágrimas, mas ele parecia uma figura angelical.
Minhas coxas doíam por eu estar agachada havia tanto tempo, mas nada me faria perguntar se poderia ficar de pé. Meu corpo estava in-erte, mas minha mente voava.
Ele sacudiu a cabeça e ergueu os olhos, até então fixos na faca.
– E daí, respondendo à sua pergunta, Annie, a sensação pode ser muito boa. Mas é melhor andarmos logo, pois algum animal selvagem pode farejar o sangue e vir nos caçar. – O tom de voz agora era animado.
Por um instante, não entendi a referência à minha pergunta. Mas logo me lembrei. Eu tinha perguntado qual era a sensação de matar alguém.
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Enquanto eu continuava a segurar as patas do cervo, ele enfiou a mão no talho e, com cuidado, puxou o estômago do animal, do tamanho de uma bola de futebol, e o deixou de lado. O órgão ainda es-tava preso a algum ponto no interior das costelas, por algo semelhante a um cordão umbilical. Em seguida, retirou a faca presa no pescoço do cervo. Com ela, cortou o que parecia ser o coração e outros órgãos do bicho, jogando-os perto do saco, como se fossem lixo. O cheiro de carne crua fez a bile me subir à garganta, mas engoli de volta.
– Fique aqui – disse ele. E desapareceu dentro de um galpão ao lado do chalé. Voltou poucos segundos depois, com uma pequena mo-tosserra e um pedaço de corda. Fiquei com um nó na garganta quando ele ajoelhou ao lado da cabeça do animal. O silêncio da mata foi quebrado pelo barulho da serra cortando o pescoço do cervo. Eu quer-ia desviar o olhar, mas não conseguia. Ele colocou a serra no chão,
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pegou a faca e se posicionou atrás do bicho. Eu me contraí toda quando ele esticou o braço na minha direção, mas ele queria apenas segurar as patas que eu tinha nas mãos. Então, com a faca, abriu um buraco nos calcanhares do cervo, logo atrás do tendão de aquiles, e enfiou a corda.
Arrastamos a carcaça até o galpão, cada um segurando uma das pa-tas dianteiras. Olhei para trás. O corpo deixava uma trilha de sangue na neve. Jamais vou esquecer a imagem da cabeça, do coração e das vísceras do pobre animal na neve.
O galpão era todo de metal, animais selvagens não eram bem-vin-dos ali. Encostado em uma das paredes internas havia um grande con-gelador. Uma máquina que parecia um gerador roncava alto no fundo do galpão e ao lado era possível ver uma bomba-d’água, provavel-mente usada no poço. Na outra parede havia seis barris vermelhos, ro-tulados com a palavra DIESEL. Ao lado deles ficava um tanque de gás propano. Não vi lenha e deduzi que era estocada em algum outro loc-al. O ar cheirava a óleo, gás e sangue de cervo.
Ele lançou a corda presa às patas do animal por cima de uma viga do teto, e juntos puxamos, até que a carcaça ficasse pendurada. Será que algum dia meu corpo ficaria pendurado ali?
Achei que tivéssemos chegado ao fim, mas ele começou a amolar a faca numa pedra e comecei a tremer violentamente. Olhando-me nos olhos, ele raspava a faca na pedra, com um movimento ritmado e um sorriso dançando nos lábios. Depois de um minuto, ergueu a faca no ar.
– O que você acha? Já está bem afiada?
– Para... o quê?
Veio na minha direção. Coloquei as mãos na frente da barriga. Desequili-
brando-me nas galochas, tropecei.
Ele parou e disse, com uma expressão de perplexidade:
– O que foi? Precisamos tirar a pele do bicho. – Deu um corte em volta de cada calcanhar e puxou uma das patas. – Não fique aí parada.
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Pegue a outra pata. – Arrancamos a pele. Em alguns pontos, ele preci-sou usar a faca para cortar pedaços de tecido. Quando chegamos ao corpo, o couro saiu como pele queimada de sol.
Terminado o trabalho, ele enrolou a pele e guardou-a no conge-lador. Em seguida, me falou para esperar do lado de fora, num local onde ele pudesse ficar de olho em mim, enquanto recolhia a motosserra, guardava-a no galpão e trancava a porta. Perguntei o que faria com as vísceras e a cabeça, mas ele disse que cuidaria dessas partes mais tarde.
Dentro do chalé, notando que eu estava trêmula, ele mandou que eu me sentasse diante do fogo para me aquecer. Pelo jeito, nossa con-versa não o havia incomodado. Eu quis perguntar se ele tinha matado mais alguém, mas meu estômago revirou quando pensei em ouvir a resposta. Em vez de tocar de novo nesse assunto, perguntei:
– Posso me lavar, por favor?
– Está na hora do seu banho?
– Não, mas eu...
– Então você já sabe a resposta.
Fiquei suja de sangue pelo resto do dia. Minha pele ficou seca, mas tentei não pensar nisso, tentei não pensar em coisa alguma, nada de sangue, cervo morto ou pais mortos. Eu me concentrei no fogo e fiquei olhando as labaredas dançarem.
Mais tarde, naquela mesma noite, quase pegando no sono, ele disse:
– Gosto de gato. – Ele gostava de gato? O assassino sádico gostava de gato? Uma risada histérica quase escapou da minha garganta, mas, no escuro, eu tapei a boca com a mão.