Identidade roubada

Chevy Stevens · Capítulo 3 de 30

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Identidade roubada

P R I M e I R a S e S S Ã o

 

Sabe, doutora, esta não é a primeira vez que tento fazer terapia desde que voltei. O cara que foi recomendado pelo médico da minha família logo depois que cheguei em casa era uma figura. Ele se comportava como se não soubesse quem eu era. Que idiotice! Só al-guém cego e surdo não saberia. Droga, parece que para onde me viro tem algum imbecil saindo de trás da moita com uma máquina foto-gráfica. Mas, antes que essa merda toda acontecesse, a maioria das pessoas nunca tinha ouvido falar de Vancouver Island, muito menos de Clayton Falls. Hoje, basta mencionar a ilha a qualquer pessoa e aposto que a primeira coisa que ela vai dizer é: “Não foi lá que aquela corretora de imóveis foi sequestrada?”

Até o consultório do cara era desestimulante: sofás de couro preto, plantas de plástico e uma mesa de metal cromado com tampo de vidro. É assim que se deixa um paciente à vontade? E todos os objetos ficavam perfeitamente alinhados sobre a mesa. Os dentes dele eram a única coisa desalinhada naquele consultório. Quer saber, só pode haver algo errado com um sujeito que tem a necessidade de alinhar tudo sobre a mesa, mas que não conserta os próprios dentes.

De saída, ele perguntou sobre minha mãe e então me pediu que pe-gasse lápis de cor e representasse meus sentimentos no papel. Quando eu disse que aquilo parecia gozação, ele respondeu que eu estava rep-rimindo minhas emoções e que precisava “abraçar o processo”. Que se danem ele e o processo. Não passei de duas sessões. Fiquei a maior parte do tempo me perguntando se devia acabar com a vida dele ou com a minha.

Por isso, só em dezembro – quatro meses após minha volta – resolvi tentar de novo essa coisa de terapia. Estava quase conformada

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a ficar ferrada para sempre, mas a ideia de passar o resto da vida daquele jeito... O seu texto no site é bem engraçado para uma tera-peuta e seu rosto me pareceu amigável... e com dentes bonitos, por sinal. E mais, você não tem um monte de siglas – que só Deus sabe o que significam – depois do nome. Não faço questão do especialista mais conhecido do mundo. Isso é sinônimo de um ego enorme e de uma conta maior ainda. Também não me importo de dirigir uma hora e meia até aqui. A viagem me afasta de Clayton Falls, e até hoje não encontrei nenhum repórter escondido no banco traseiro do carro.

Não me leve a mal. O fato de você parecer uma avó – devia estar tricotando, não anotando o que os outros falam – não quer dizer que eu goste de estar aqui. E por que eu deveria chamá-la de Nadine? Não sei aonde quer chegar, mas tenho um palpite: ao usar seu nome, seria como se fôssemos grandes amigas, logo poderia contar coisas das quais não quero me lembrar... e muito menos falar a respeito! Des-culpe, não estou lhe pagando para ser minha amiguinha, então é mel-hor aceitar que eu a chame de doutora.

E, já que estamos acertando os ponteiros, vamos estabelecer algu-mas regras básicas antes de começarmos nossa brincadeira. Vai ter que ser do meu jeito. Isso quer dizer que você não vai perguntar nada. Nem mesmo “Como se sentiu quando blá-blá-blá...?”. Vou contar a história desde o começo e, quando quiser ouvir sua opinião, eu peço.

Ah! E, caso queira saber, não, nem sempre fui uma pessoa amarga.

 

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Naquela manhã do primeiro domingo de agosto fiquei na cama até mais tarde, enquanto Emma, minha golden retriever, roncava no meu ouvido. Eram poucas as minhas horas de descanso. Naquele mês eu vinha me matando de trabalhar para ter exclusividade na venda de um condomínio à beira-mar. Nos padrões de Clayton Falls, um complexo de 100 unidades é algo fora do comum, e àquela altura a concorrência havia se reduzido a outro corretor e eu. Não sabia quem era meu

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concorrente, mas o construtor tinha me telefonado na sexta-feira, dizendo-se impressionado com minha apresentação e informando que a decisão final seria anunciada em poucos dias. Eu me senti tão perto do sucesso que podia até saborear o gostinho do champanhe. Na ver-dade, eu tinha provado champanhe uma única vez, numa festa de casamento, e acabei trocando a bebida por uma cerveja: não existe nada mais chique do que uma dama de honra bebendo cerveja no gar-galo. Mas eu tinha certeza de que aquela venda me transformaria numa mulher sofisticada. Algo do tipo “da água para o vinho”. Ou, no caso, da cerveja para o champanhe.

Depois de uma semana de chuva, o sol finalmente apareceu e a tem-peratura subiu o bastante para eu usar meu tailleur favorito. Era amarelo-claro e feito de um tecido bem leve. Eu adorava como a tonal-idade do conjunto suavizava o castanho dos meus olhos. Em geral evito saias, pois, com um pouco mais de um metro e meio de altura, eu fico parecida com uma anã. Mas algo no corte daquela saia alongava minhas pernas. Resolvi usar salto. Eu tinha acabado de aparar os ca-belos, que balançavam com perfeição na altura do queixo. Depois de uma última olhadinha no espelho do hall de entrada, à procura dos fios brancos – eu havia completado apenas 32 no ano anterior, mas os desgraçados sempre chamam a atenção no meio dos fios pretos –, as-sobiei para mim mesma, me despedi de Emma com um beijo... tem gente que bate na madeira, eu beijo minha cadela... e saí porta afora.

O único compromisso era um plantão de vendas em que o imóvel ficaria aberto à visitação de possíveis compradores. Seria melhor tirar o dia de folga, mas os proprietários da casa estavam ansiosos por vendê-la. Era um casal alemão tranquilo, e a mulher fazia bolos de chocolate para mim. Assim, não me importava em dedicar algumas horas à felicidade deles.

Meu namorado, Luke, ia jantar na minha casa depois que saísse do restaurante italiano do qual é dono. Na noite anterior, ele havia tra-balhado até tarde, então escrevi um e-mail dizendo que esperava vê-lo na noite seguinte. De início, quis mandar um daqueles cartões que ele

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sempre me enviava, mas as opções eram muito infantis: coelhinhos, sapinhos ou esquilinhos se beijando. Então decidi mandar um simples e-mail. Ele sabia que eu era mais de agir do que de falar, porém eu an-dava tão concentrada no condomínio à beira-mar que não vinha “agindo” muito com o pobre rapaz, que sem dúvida merecia mais atenção. E ele não reclamava, nem quando eu precisava cancelar um compromisso em cima da hora.

Meu celular tocou quando eu tentava enfiar a última placa de venda no porta-malas do carro sem sujar a roupa. Peguei o telefone dentro da bolsa, na esperança de que fosse o construtor.

– Você está em casa?

Oi, mãe, eu vou bem, obrigada...

– Estou de saída para o plantão da corretora.

– Você ainda vai dar plantão hoje? A Val disse que não tem visto suas placas.

– Você falou com a tia Val?

A cada dois meses minha mãe tinha uma briga com a irmã e jurava “nunca mais falar com ela”.

– Primeiro, ela me convida para almoçar, como se não tivesse me ofendido na semana passada... até aí, tudo bem. Então, antes de fazer-mos os pedidos, ela resolve me dizer que sua prima vendeu uma casa na beira da praia. Você acredita que a Val vai pegar um avião até Van-couver amanhã só para comprar roupa com ela na rua Robson? Roupa de marca.

Beleza, tia Val! Eu me seguro para prender o riso.

– Sorte da Tamara... Além do mais, tudo o que ela veste cai bem – comentei.

Eu não via minha prima desde que ela havia se mudado para o con-tinente depois de concluir o ensino médio, mas tia Val sempre nos mandava fotos por e-mail que pareciam dizer: vejam as façanhas dos meus filhos incríveis.

– Eu disse à Val que você também tem algumas roupas boas. Só que é... um pouco antiquada.

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– Mãe, eu tenho muitas roupas boas, mas...

Resolvi ficar de boca fechada. Ela estava me provocando e, se eu mordesse a isca, ela não iria me poupar. Longe de mim querer ficar 10 minutos discutindo a roupa mais apropriada para o trabalho com uma mulher que usa salto 10 e vestido para ir até a esquina. Eu não chegaria a lugar nenhum. Minha mãe tem pouco mais de um metro e meio, só que perto dela eu me sentia ainda menor.

– Antes que eu me esqueça – emendei –, você pode deixar minha máquina de cappuccino lá em casa mais tarde?

Ela fez silêncio durante um tempo e respondeu:

– Você quer a máquina hoje?

– Foi por isso que eu pedi, mãe.

– É que eu acabei de convidar umas amigas para um café amanhã. O seu timing é perfeito, como sempre.

– Desculpe, mãe, mas o Luke vem para cá hoje e quero preparar um cappuccino no café da manhã. Pensei que vocês fossem comprar uma... Vocês não queriam só experimentar a minha?

– Nós íamos comprar, mas seu padrasto e eu estamos um pouquinho enrolados. Vou ser obrigada a telefonar para as meninas e explicar tudo.

Maravilha. Agora eu me sentia a própria chata.

– Tudo bem, eu pego a máquina na semana que vem ou qualquer outra hora.

– Obrigada, Annie querida.

Agora eu era Annie querida.

– De nada, mas ainda vou precisar dela...

Ela desligou.

 

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Dei um suspiro e coloquei o telefone na bolsa. Quando não queria escutar o que eu tinha a dizer, minha mãe nunca me deixava com-pletar a porcaria da frase.

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No posto de gasolina da esquina, parei para comprar um café e al-gumas revistas. Minha mãe adora revistas de fofocas, mas eu só compro para ter o que fazer caso nenhum cliente apareça para dar uma olhada no imóvel. Uma delas trazia na capa a foto de uma mulher desaparecida. Olhei aquele rosto sorridente e pensei: era apenas uma jovem que tocava a própria vida, e agora todo mundo acha que sabe tudo sobre ela.

 

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O plantão foi meio fraco. Acho que a maioria das pessoas estava aproveitando o dia ensolarado... o que eu também deveria ter feito. Cerca de 10 minutos antes de encerrar as atividades, comecei a arru-mar minhas coisas. Quando saí para guardar alguns folhetos no porta-malas, uma van marrom nova estacionou bem atrás do meu carro. Um sujeito de uns 40 e poucos anos veio na minha direção, um sorriso nos lábios.

– Droga! Você já está indo embora. É bom para eu aprender... mas o melhor sempre fica para o final. Será que tem problema se eu der uma olhadinha rápida?

Por uma fração de segundo pensei em argumentar que não dava mais tempo. Algo me dizia para ir logo para casa, e eu ainda precisava comprar algumas coisas no mercado, mas, enquanto não me resolvia, ele apoiou as mãos nos quadris, deu dois passos para trás e examinou a fachada.

– Que beleza!

Olhei o homem de cima a baixo. A calça cáqui estava muito bem passada, o que me agradou. Para mim, passar roupa se resume a esti-car a peça dentro da secadora. Os tênis eram reluzentes de tão brancos e ele usava um boné com o emblema de um clube de golfe local. O paletó bege, de tecido leve, ostentava o mesmo emblema à altura do peito. Se era sócio do clube de golfe, então tinha dinheiro. Normal-mente, plantões de venda de imóveis atraem moradores da vizinhança

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ou pessoas que saem para passear aos domingos. Mas, ao olhar de rel-ance para a van marrom, vi a revista da nossa imobiliária sobre o painel. Ora bolas! Eu não morreria se ficasse mais alguns minutinhos.

Sorri e disse:

– Não tem o menor problema, é para isso que estou aqui. Meu nome é Annie O’Sullivan.

Estendi a mão e, quando ele deu um passo para me cumprimentar, tropeçou na calçada de pedras. Para não cair de joelhos, apoiou as mãos no chão, elevando o traseiro. Tentei ajudá-lo, mas ele deu um salto e ficou de pé, rindo e tirando a poeira das mãos.

– Meu Deus! Você está bem?

Os grandes olhos azuis naquele rosto tranquilo brilhavam de alegria. Quando ele ria, pequenas rugas surgiam no canto dos olhos, espalhavam-se pelas faces coradas e formavam vírgulas ao lado de um largo sorriso de dentes brancos. Fazia tempo que eu não via um riso tão franco, então não pude deixar de retribuir.

– Sei entrar em cena, não sei? Permita que me apresente: meu nome é David. – disse ele, fazendo uma mesura teatral.

– Prazer em conhecê-lo, David – respondi, com uma pequena reverência.

Ambos rimos, e ele completou:

– Fico muito grato, e prometo não tomar muito do seu tempo.

– Não se preocupe... pode olhar quanto quiser.

– É gentileza sua, mas sei que você deve estar ansiosa por ir embora e aproveitar este dia lindo. Não vou demorar.

Cara... que maravilha encontrar um comprador em potencial que trata o corretor com tamanha consideração. Geralmente, os clientes agem como se estivessem fazendo um favor.

Levei o homem para dentro e mostrei toda a casa, cujo estilo era típico da região, com pé-direito alto, paredes de cedro e uma deslum-brante vista para o mar. Atrás de mim, ele fazia comentários tão entusiasmados que eu me sentia como se também estivesse vendo a

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casa pela primeira vez, e me animei para destacar as qualidades do lugar.

– O anúncio diz que a casa tem dois anos, mas não menciona a con-strutora – disse ele.

– É uma firma local, a Construtora Corbett. A garantia ainda vale por mais alguns anos e, claro, acompanha a escritura.

– Isso é ótimo. Todo cuidado é pouco com essas construtoras. Não se pode confiar em ninguém nos dias de hoje.

– Quando foi que você disse que deseja se mudar?

– Eu não disse, mas também não tenho pressa. Quando encontrar o que estou procurando, não terei dúvida.

Olhei para trás, e ele sorriu.

– Se precisar de financiamento, tenho alguns nomes.

– Obrigado, mas pretendo comprar à vista.

As coisas estavam melhorando.

– O quintal é cercado? – perguntou. – Tenho um cachorro.

– Ah! Adoro cachorros... Qual a raça?

– Um golden retriever, com pedigree, e ele precisa de espaço para correr.

– Sei como é. Eu também tenho uma golden, que me dá um trabal-hão quando não passeia. – Abri a porta de correr envidraçada para mostrar a cerca de madeira. – E qual o nome do seu cachorro?

No segundo que esperei pela resposta, percebi que ele estava muito perto de mim. Algo rígido pressionou minha região lombar.

Tentei me virar, mas ele agarrou meus cabelos e puxou minha cabeça para trás, com um gesto tão rápido e doloroso que parecia ar-rancar meu couro cabeludo. Meu coração ficou espremido entre as costelas, e o sangue subiu à cabeça. Eu queria que minhas pernas chu-tassem, corressem... que fizessem alguma coisa... mas elas não con-seguiam se mexer.

– É, Annie, isto aqui é uma arma. Então, escute bem. Vou soltar seu cabelo e você vai ficar calminha, enquanto vamos até o carro. E quero ver esse sorriso bonito até chegar lá, está bem?

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– Eu... eu não consigo...

Eu não consigo respirar.

– Respire fundo, Annie – disse-me ao pé do ouvido, com voz calma e pausada.

Enchi os pulmões.

– Solte devagar.

Expirei lentamente.

– Mais uma vez.

A sala voltou a entrar em foco.

– Isso, menina.

Ele soltou meus cabelos.

Tudo parecia acontecer em câmera lenta. Ele me empurrou com a ponta da arma, como se atravessasse minha coluna. Obrigou-me a sair pela porta da frente e descer os degraus da entrada, enquanto cantaro-lava. No momento em que caminhávamos até a van, ele sussurrou no meu ouvido:

– Fique tranquila, Annie. É só prestar atenção ao que eu disser e não teremos o menor problema. Não se esqueça de sorrir.

Enquanto nos afastávamos da casa, olhei em volta. Alguém devia estar vendo aquilo... mas nenhum sinal. Eu nunca tinha percebido a quantidade de árvores ao redor da casa, nem as duas fachadas vizin-has voltadas para a lateral.

– Que bom que o sol veio nos brindar. O dia está lindo para um pas-seio de carro, não acha?

Ele tem uma arma e fica falando sobre o tempo?

– Annie, eu fiz uma pergunta.

– Sim.

– Sim o quê, Annie?

– O dia está bom para um passeio de carro.

Parecíamos vizinhos conversando, cada um de um lado da cerca. Eu pensava: esse cara não vai conseguir fazer isso em plena luz do dia. Eu estava num plantão de venda de um imóvel... pelo amor de Deus! Há

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uma placa na frente da casa e um carro vai estacionar ali a qualquer momento.

Chegamos à van.

– Abra a porta, Annie.

Não me mexi. Ele pressionou a arma contra minha lombar. Abri a porta.

– Agora, entre.

A arma fez mais pressão. Entrei e ele fechou a porta.

No instante em que ele se afastou, dei um puxão na maçaneta e for-cei a tranca várias vezes, mas a coisa não funcionava. Bati com o om-bro na porta. Abre! MERDA!

Ele passou na frente do carro.

Puxei a tranca, apertei o botão de controle da janela, forcei a maçaneta. A porta do motorista se abriu e eu virei. Ele segurava uma chave de acionamento a distância.

Mostrou a chave e sorriu.

 

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Enquanto o carro dava marcha a ré e a casa ficava cada vez menor, eu mal podia acreditar no que estava acontecendo. Aquele sujeito não era real. Nada daquilo era real. Antes de embicar na rua, ele parou rapidamente para ver se vinha algum carro. Minha placa tinha desa-parecido. Olhei para a parte traseira do carro e lá estava ela, e as out-ras duas que eu tinha afixado no fim da rua.

De repente, me dei conta. Aquilo não era por acaso. Ele deve ter lido o anúncio e vigiado a rua.

Eu tinha sido escolhida.

– E aí, como foi o seu dia de trabalho?

Bom, até ele chegar.

Será que eu conseguiria arrancar a chave da ignição? Ou ao menos apertar o botão que destrava a porta e me atirar do carro antes que ele

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pudesse me agarrar? Lentamente, comecei a esticar a mão esquerda, mantendo-a abaixada...

A mão dele pesou sobre meu ombro e os dedos agarraram minha clavícula.

– Perguntei como foi seu dia, Annie. Você não costuma ser tão mal-educada.

Fixei o olhar nele.

– O dia de trabalho?

– Foi... foi fraco.

– Então você ficou feliz quando eu apareci?

Exibiu o sorriso que eu tinha achado tão franco. Enquanto ele aguardava a resposta, o sorriso começou a murchar e a pressão dos seus dedos aumentou.

– Sim, sim, foi bom ver alguém.

O sorriso voltou. Ele esfregou meu ombro no ponto onde tinha acabado de colocar a mão e em seguida apertou minha bochecha.

– Tente relaxar e curtir o sol. Você está muito estressada. – Quando voltou a olhar para a rua, segurou o volante com uma das mãos e re-pousou a outra sobre minha coxa. – Você vai gostar de lá.

– De lá... onde? Aonde está me levando?

Começou a cantarolar.

Pouco tempo depois, entrou numa estrada lateral e parou o carro. Eu não fazia a menor ideia de onde estávamos. Desligou o motor, virou para mim e sorriu, como se aquilo fosse um encontro amoroso.

– Agora falta pouco.

Desceu, deu a volta pela frente da van e abriu a porta do carona. Hesitei um instante. Ele pigarreou e ergueu as sobrancelhas. Saí do carro.

Passou o braço sobre meus ombros, segurando a arma com a outra mão, e caminhamos até a parte traseira do veículo.

Respirou fundo.

– Hummm... sinta o cheiro do ar. Incrível!

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Tudo estava quieto, uma calma típica das tardes quentes de verão, quando é possível ouvir o zumbido de uma libélula a três metros de distância. Ao lado da van, passamos por um grande arbusto carregado de framboesas quase maduras. Comecei a chorar e a tremer tanto que mal conseguia andar. Ele baixou a mão apoiada no meu ombro e me segurou pelo antebraço. Continuamos a caminhar, mas eu não sentia minhas pernas.

Ele me soltou por um instante, enfiou a arma no cinto e abriu o porta-malas do veículo. Tentei correr, mas ele me agarrou pelos cabelos, virou-me de frente e me levantou no ar até que meus pés apenas roçassem o chão. Tentei chutar suas pernas, mas ele era bem mais alto que eu e ficou fora do alcance dos meus pontapés. A dor era insuportável. Eu só conseguia chutar o ar e socar o braço dele. Gritei com todas as forças.

Com a mão livre, ele tapou minha boca e disse:

– Que besteira é essa, Annie?

Agarrei o braço que me erguia no ar e tentei suspender o corpo, para diminuir a pressão sobre o couro cabeludo.

– Vamos fazer mais uma tentativa. Eu vou soltar você, que vai en-trar no carro e deitar de bruços.

Lentamente, ele baixou o braço até meus pés tocarem o chão. O salto de um dos meus sapatos tinha quebrado enquanto eu tentava chutá-lo. Perdi o equilíbrio e tropecei para trás. Bati os joelhos no para-choque e caí sentada dentro da van. Havia um cobertor esticado na mala do veículo. Fiquei ali parada, olhando para o homem, tre-mendo a ponto de bater os dentes. O sol brilhava atrás dele, obscure-cendo sua fisionomia e desenhando sua silhueta.

Ele me empurrou violentamente pelos ombros, pressionou minhas costas e disse:

– Vire-se!

– Espere... a gente não pode conversar um minuto? – Ele sorriu para mim como se eu fosse um cachorrinho que roesse os cadarços dos seus sapatos. – Por que está fazendo isso? – perguntei. – Você

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quer dinheiro? Se voltarmos, posso pegar minha bolsa e lhe dar a senha do cartão... tenho mais de 1.000 dólares na conta. E meus cartões de crédito têm um limite alto.

Ele continuou a sorrir.

– Se nós conversarmos, sei que vamos chegar a um acordo. Eu posso...

– Não preciso do seu dinheiro, Annie. – Esticou a mão para pegar a arma. – Eu não queria usar isso, mas...

– Pare! – Estendi as mãos diante de mim. – Desculpe, não falei por mal. É que não sei o que você quer. É... é sexo? É isso que você quer?

– O que foi que eu pedi para você fazer?

– Você... me pediu que ficasse de bruços.

Ergueu uma das sobrancelhas.

– Só isso? Você só quer que eu me vire? O que vai fazer comigo se eu me virar?

– Eu já pedi duas vezes com educação.

A mão dele acariciava a arma.

Virei de bruços.

– Não entendo por que você está fazendo isso. – Minha voz falhou. Droga! Eu precisava manter a calma. – Já nos encontramos antes?

Ele se posicionou atrás de mim, com uma das mãos apoiada no meio das minhas costas, imobilizando-me.

– Desculpe se fiz alguma coisa que ofendeu você, David. Eu juro. É só falar o que eu preciso fazer para me redimir, está bem? Deve haver um jeito...

Calei a boca e fiquei escutando. Ouvi ruídos atrás de mim e percebi que ele estava fazendo alguma coisa, preparando algo. Esperei o estalo do gatilho. Meu corpo tremia de pavor. Seria minha hora? Minha vida acabaria daquele jeito: deitada de bruços na traseira de uma van? Senti a picada de uma agulha na parte posterior da coxa. Eu me con-traí e tentei esticar a mão para alcançar a agulha. Um calor subiu pela minha perna.

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Antes de encerrarmos esta sessão, doutora, acho que vale a pena mencionar uma coisa. Se vou embarcar no trem que não permite papo-furado, tenho que seguir até o fim da linha. Quando eu disse que estava ferrada, eu quis dizer fodida e mal paga. Tipo: tenho que dormir todas as noites dentro do closet.

Foi difícil à beça logo que voltei e fui para a casa da minha mãe, onde fiquei no meu antigo quarto. De manhã cedo eu saía do closet, para ninguém perceber. Agora que estou na minha casa, essa merda fica mais fácil, pois tenho tudo sob controle. Mas não entro num edifí-cio se não souber onde ficam as saídas. Ainda bem que seu consultório fica no térreo. Eu não estaria aqui se esta sala ficasse numa altura de que eu não pudesse pular.

À noite... bem... à noite é pior. Não consigo confiar em ninguém. E se alguém destrancar a porta, deixar uma janela aberta? Se eu já não estivesse maluca, o fato de correr pela casa verificando tudo enquanto tento impedir que os vizinhos vejam o que estou fazendo valeria um atestado de insanidade.

Logo que voltei para casa, cheguei a pensar que seria bom conhecer pessoas que sentissem o mesmo que eu sentia... Babaca que sou, pro-curei um grupo de apoio. Só que não existe a associação UIMSA (Um-Imbecil-Me-Sequestrou Anônimos). E mais, o anonimato é pura con-versa fiada quando a pessoa foi capa de revista, manchete de jornal e entrevistada em programas de TV. Mesmo que encontrasse um grupo, aposto que algum dos “tão compreensivos” participantes iria faturar em cima da minha desgraça assim que eu virasse as costas. Venderia minha dor a algum jornal sensacionalista e com o dinheiro embarcaria num cruzeiro ou compraria uma TV de plasma.

Nem preciso dizer que detesto falar sobre isso com estranhos, espe-cialmente com repórteres, que sempre distorcem tudo. Mas você nem imagina quanto as revistas e os programas de TV se dispõem a pagar por uma entrevista. Eu não queria dinheiro, mas eles insistem e,

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droga, eu preciso. Não tenho mais condições de vender imóveis. É possível ser corretora quando você tem medo de ficar sozinha com um estranho?

Às vezes, volto ao dia do sequestro... repasso mentalmente minhas ações até os momentos finais do plantão, cena por cena, como um filme de terror que nunca acaba, um filme em que a gente não con-segue impedir que a jovem abra a porta ou entre num prédio vazio... e me lembro da capa daquela revista, na lojinha do posto de gasolina. É bizarro pensar que neste exato momento alguma mulher está olhando minha foto, achando que sabe tudo a meu respeito.