Identidade roubada

Chevy Stevens · Capítulo 9 de 30

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Identidade roubada

S É T I M a S e S S Ã o

SÉTIMA SESSÃO

 

Édifícil acreditar que estamos na terceira semana de janeiro, não é, doutora? Felizmente, toda a agitação do Natal e do ano-novo já acabou... o que me faz lembrar: eu contei a você como foi o Natal com o Maníaco? Sabe, eu nunca cheguei a dividir com ele o prazer das coisas natalinas. Então, um belo dia, ele me disse que era dezembro, mas que não íamos celebrar o Natal, porque a data era mais um mecanismo da sociedade para controlar as pessoas.

E a coisa não parou por aí. Tive que ouvir uma baboseira sem fim sobre os males do Natal, sobre o fato de a sociedade ter transformado um mito num caça-níqueis. A última coisa que eu queria no mundo era comemorar fosse lá o que fosse com o Maníaco. Mas, quando ele acabou de falar sobre todos os aspectos negativos da festa, eu já estava disposta a ajudar o Grinch a roubar o Natal. Na realidade, foi isso que aquele babaca fez. Ele me roubou o Natal. Junto com um monte de outras coisas, claro. Você sabe... coisas como amor próprio, autoes-tima, alegria, segurança, a capacidade de dormir numa cama... mas, tudo bem... quem vai ficar se queixando?

Bem, ao menos eu tentei com a tal árvore... Quem sabe o ano que vem não vai ser diferente? Como você disse, eu preciso levar em conta a possibilidade de não me sentir assim para sempre, e é importante perceber os mínimos sinais de progresso, por mais insignificantes que possam parecer. Hoje, quando saí pela varanda da frente de casa, senti no ar um cheiro de neve e, por alguns segundos, fiquei empol-gada. Ainda não nevou este ano, e, bastam alguns centímetros de neve no chão, Emma e eu saímos correndo lá para fora. Ela é tão en-graçada. Ela corre, escorrega, salta, cava e até come neve. Eu sempre quis saber o que ela pensa nessas horas. Provavelmente, algo como

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“coelhos, coelhos, tenho que pegar os coelhos”. Às vezes, eu jogo al-guns petiscos na neve para ela encontrar algo de verdade.

Depois, tomo um banho quente, preparo uma xícara de chá, me aconchego diante da lareira com um livro e fico olhando as patas da Emma tremerem, enquanto ela revive as brincadeiras em sonho. To-das essas lembranças me vieram à mente, e me senti melhor. Eu tinha algo por que esperar.

Mas a sensação agradável foi embora assim que me lembrei do Natal do ano passado... pode acreditar: passar um inverno inteiro con-finada em um lugar com as persianas baixadas é dar uma dimensão inusitada ao termo “depressão de inverno”. Além disso, no ano pas-sado, em meados de janeiro, eu estava grávida de quatro meses.

 

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Na montanha, eu vivia na expectativa dos momentos em que pudesse abrir um livro. O Maníaco tinha bom gosto, e eu nem me im-portava de ler em voz alta para ele. Enquanto virava as folhas, eu me transportava para outro lugar. E ele também. Às vezes, o Maníaco fechava os olhos ou se inclinava na minha direção, o queixo apoiado numa das mãos e os olhos brilhando. Em outros momentos, durante as passagens mais intensas, ele caminhava pelo quarto de um lado para outro. Quando gostava de algum trecho, colocava a mão no peito e dizia:

– Leia isso de novo.

Sempre pedia minha opinião sobre o que estávamos lendo, mas a princípio eu hesitava em expressar minhas ideias e procurava repetir os pontos de vista dele com minhas próprias palavras. Até que um dia ele arrancou o livro das minhas mãos e disse:

– Vamos, Annie, use essa linda cabecinha e me diga o que você acha!

Estávamos lendo O príncipe das marés. Ele gostava de alternar clássicos e contemporâneos, e estes não raro retratam famílias

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conturbadas. Tínhamos chegado ao trecho em que a mãe prepara comida de cachorro para o pai.

– Gostei de ela ter ferrado ele – disse eu. – Ele mereceu. É um babaca.

No instante em que as palavras saíram da minha boca, entrei em pânico. Será que ele acharia que eu estava dando alguma indireta? E o termo “babaca” não era adequado a uma dama. Mas ele apenas fez um sinal com a cabeça, um ar pensativo, e completou:

– É... ele não sabia valorizar a família, não é?

Quando lemos Ratos e homens, ele me perguntou se eu sentia pena do “coitado do Lennie” e, quando respondi que sim, ele comentou:

– Ora! Que interessante! Será porque a garota é uma piranha? Acho que você ficou mais abalada quando ele matou o cachorrinho. Você gostaria do Lennie se ele tivesse matado uma garota boazinha?

– Daria na mesma. Ele não é normal... não teve a intenção.

O Maníaco sorriu e disse:

– Então não tem problema matar alguém, desde que não haja a in-tenção? Vou me lembrar disso.

– Não foi bem isso...

Ele deu uma gargalhada e levantou uma das mãos, enquanto meu rosto ardia.

O Maníaco era cuidadoso com os livros. Eu não podia deixá-los abertos de qualquer maneira, nem dobrar o canto das páginas. Certa vez, enquanto o observava recolocando alguns volumes na prateleira, eu disse:

– Você deve ter lido muito na infância. – Suas costas se contraíram, e ele acariciou a capa do livro que tinha em mãos.

– Quando tinha permissão. – Permissão? Aquilo era estranho, mas, antes que eu pudesse me decidir se deveria fazer outra pergunta, ele retrucou:

– E você?

– Eu lia o tempo todo... uma das vantagens de ter um pai que tra-balhava na biblioteca.

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– Você teve sorte. – Fez uma última carícia nos livros e saiu do chalé.

Quando caminhava de um lado para outro, discutindo um person-agem ou alguma reviravolta no enredo, ele se mostrava tão eloquente e entusiasmado que eu me envolvia no debate e expressava minhas próprias ideias. Ele me incentivava a explicar e defender minhas opin-iões, e nunca perdia a calma, nem quando eu o contrariava. Com o passar do tempo, comecei a relaxar durante nossas discussões literári-as. Evidentemente, assim que a hora da leitura chegava ao fim, tam-bém se encerravam os únicos momentos em que eu não tinha medo, a única atividade que me agradava e me fazia sentir um ser humano, me fazia sentir eu mesma.

 

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Todas as noites, eu ficava na cama imaginado o esperma do Maníaco se deslocando dentro de mim, torcendo para meus óvulos se esconderem. Considerando que na época que ele me sequestrou eu es-tava tomando pílula, minha esperança era de que meu corpo estivesse desregulado e que eu fosse resgatada antes de ficar grávida. Mas eu esperava também ficar menstruada logo depois que deixasse de tomar a primeira pílula, mas isso só aconteceu cerca de uma semana após ele me estuprar.

Certa manhã, estávamos no chuveiro cumprindo a rotina, eu virada para a parede enquanto ele lavava minhas pernas, de cima a baixo, por dentro e por fora. De repente, ele parou. Quando virei, ele estava olhando a esponja. Havia sangue nela e, quando olhei para baixo, vi o líquido escorrendo pela parte interna das minhas coxas. Ele contraiu o maxilar e o rosto ficou vermelho. Eu conhecia aquele olhar.

– Desculpe... eu não sabia. – Colei o corpo à parede.

Atirou a esponja em mim, saiu da banheira e ficou parado sobre o tapete do banheiro, olhando para minha vagina, os olhos arregalados. A cortina estava entreaberta e a água escorria pelo chão. Tive certeza

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de que ele perderia o controle, mas ele esticou o braço, direcionou o chuveiro para mim e abriu a água fria... isto é, gelada.

– Pode se lavar.

Tentei não gritar, pois a água estava absolutamente gélida. Ele pegou a esponja no chão da banheira e a jogou em mim.

– Eu disse para você se lavar.

Quando acabei, segurando a esponja, perguntei:

– O que você quer que eu faça?

Ele fez um sinal para eu entregar a esponja, examinou-a e a de-volveu para mim.

– Lave-se de novo.

Quando a esponja ficou totalmente limpa, e eu já estava quase azul, ele me deixou sair do chuveiro.

– Não se mexa – disse ele. Eu me perguntei se meu tremor contava como movimento. O Maníaco saiu do banheiro e poucos minutos de-pois voltou com alguns trapos.

– Use isto – disse ele, atirando os trapos na minha direção.

– Você não tem absorvente ou algo parecido? – perguntei.

Ele aproximou o rosto do meu e disse, pronunciando as palavras devagar:

– Uma mulher de verdade já estaria grávida. – Eu não sabia o que dizer, e o Maníaco elevou a voz: – O que você fez?

– Eu não poderia...

– Se você não fizer sua parte, eu acho quem faça.

Observada por ele, me vesti e coloquei aquele trapo ridículo dentro da minha calcinha. Meus dedos estavam tão dormentes que não con-segui fechar a fileira de botões do vestido. Enquanto eu brigava com os botões, o Maníaco sacudiu a cabeça e disse:

– Você é patética.

Minha menstruação durou seis dias e todas as manhãs ele esperava fora da banheira até eu, debaixo do chuveiro gelado, entregar a es-ponja sem vestígio de sangue. A banheira precisava ser esfregada com desinfetante antes de ele entrar para tomar uma chuveirada. Ele me

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obrigava a colocar dentro de um saco os trapos usados, que eram leva-dos para fora do chalé e queimados. E suspendemos a hora do banho, o que foi um alívio, pois durante seis dias ele não encostou o dedo em mim.

Todas as tardes ele me obrigava a ler livros sobre “como engravid-ar”. Ainda me lembro do título de um deles: O modo mais rápido de conceber naturalmente. Pois é... assim era o Maníaco: sequestrar uma mulher, trancá-la num chalé e estuprá-la era muito natural...

 

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Assim que parei de sangrar, ele tentou me engravidar de novo. Eu rezava para que meu corpo percebesse que o esperma dele era doente e o rejeitasse, ou que todo aquele estresse e medo comprometessem minha fertilidade. Mas não tive tanta sorte.

Três semanas depois, eu sabia que minha menstruação estava próx-ima e torcia para que toda e qualquer sensação no meu abdômen fosse apenas uma cólica. Todas as vezes que ia ao banheiro, eu rezava para ver sangue na calcinha. Depois de quatro semanas, eu já sabia. Com base no calendário que eu improvisara na parede, concluí que tinha ficado grávida em meados de setembro, cerca de duas semanas após o fim da menstruação.

Tentei esconder do Maníaco a gravidez, mas certa manhã acordei com ele acariciando minha barriga.

– Sei que você está acordada. Não precisa se levantar já – disse ele, beijando meu ombro. – Olhe para mim, Annie. – Virei de frente para ele. – Bom dia – ele me cumprimentou com um sorriso e em seguida olhou para a mão apoiada sobre minha barriga.

– Minha mãe, Juliet, a mulher que me criou... não era minha mãe biológica. Ela me adotou quando eu tinha 5 anos. A puta que me pariu era supostamente jovem demais para cuidar de uma criança. – A voz dele ficou tensa. – Mas não era muito jovem para arreganhar as per-nas para meu pai, seja lá quem ele tenha sido. – Sacudiu a cabeça e

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disse num tom mais brando: – Mas a Juliet mudou minha vida. Ela perdeu o filho quando o menino tinha apenas 1 ano e ainda mamava no peito. Tinha muito amor para dar... Foi ela que me ensinou que família é tudo. E você, Annie, que tão cedo perdeu metade dos seus, eu sei que você sempre quis ter a própria família... Fico feliz por ser o escolhido.

Escolhido? Eu não diria isso. Mesmo antes de ser sequestrada pelo Maníaco, eu tinha dúvidas se queria ter filhos. Eu era bastante feliz com a vida de mulher independente, trabalhadora, e nunca fui do tipo que entra numa sala cheia de crianças e diz: “Puxa! Eu preciso ter uma fofura dessas!” Mas ali estava eu, grávida, gerando um menino-de-mônio. E ali estava ele, falando da mãe, me dando uma chance de ex-aminar sua mente e fazer descobertas. Em parte, eu tinha medo de correr riscos, mas era preciso voltar a pensar a longo prazo.

– Você disse que o nome dela era Juliet. Sua mãe faleceu?

O sorriso desapareceu do seu rosto. Ele deitou-se de costas e fitou o teto.

– Foi tirada de mim quando eu tinha 18 anos.

Esperei para ouvi-lo falar sobre o assunto, mas ele parecia absorto em seus pensamentos.

– Pelo jeito, ela deve ter sido uma pessoa muito especial – comentei. – É bom vocês terem sido tão próximos. Minha mãe nunca me abandonou, ao contrário da sua mãe verdadeira. Mas, depois do acidente, ela passou a viver à base de medicamentos e por isso ficou bastante debilitada. Precisei morar com meu tio e minha tia durante algum tempo. Eu sei o que é se sentir sozinho.

O olhar dele resvalou em mim, e então se desviou.

– Como foi a experiência de viver com parentes? Eles foram bons para você?

Quando estava com cerca de 20 anos, fiz terapia, na tentativa de aprender a lidar com meus sentimentos em relação ao acidente, além de resolver certas questões pendentes com minha mãe. A terapia não me ajudou em quase nada e, a despeito do número de vezes que eu

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contasse a história, a coisa nunca ficou mais fácil. Eu não tinha con-versado sobre esses sentimentos nem mesmo com Luke.

– Minha tia é irmã da minha mãe. Uma está sempre querendo ser mais que a outra, mas ela foi boa para mim, eu acho. Meus primos eram mais velhos, e praticamente me ignoraram. Mas eu não me importava.

– Não? Aposto que você se importava... e muito. – Não havia qualquer tom de deboche na voz dele. – Você não tinha nenhum outro parente com quem pudesse morar?

– Toda a família do meu pai já morreu, e minha mãe só tem essa irmã. – Na verdade, minha mãe tinha um meio-irmão, mas ele estava na cadeia cumprindo pena por roubo, e ela não o considerava parente. – Foi difícil, mas agora que estou mais velha tento entender o que minha mãe estava passando. Naquela época, ninguém recorria a psicólogos ou a grupos de apoio. Os médicos receitavam comprimidos.

– Ela mandou você para longe.

– Não foi bem assim.

Mas eu me lembrava das conversinhas dos meus primos, e da maneira como meus tios paravam de falar quando eu entrava na sala. Se minha mãe era uma imagem borrada, minha tia era toda linhas definidas e contornos nítidos. Ambas eram louras e delicadas. Todas as mulheres da minha família são louras, exceto eu, mas os lábios de tia Val são um pouco mais finos, e o nariz, comprido, e os olhos bem próximos um do outro. Enquanto minha mãe era pura emoção, para o bem ou para o mal, tia Val era calma, fria e comedida. Dali não vinha muito abraço carinhoso.

– Então sua mãe vendeu a casa, não foi? A metade da família se foi, e a casa também?

– Como você sabe...?

– Se a gente quiser conhecer uma pessoa... se quiser de fato con-hecer uma pessoa... há várias maneiras. Assim como existiam diversas maneiras de sua mãe lidar com aquela situação.

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– Ela foi obrigada a vender a casa. Meu pai não tinha seguro de vida. – Seis meses depois do acidente, minha mãe foi me buscar na tia Val e então descobri que nossa casa já não existia.

– É possível que tenha sido obrigada, mas não deve ter sido fácil se mudar quando tanta coisa já havia mudado. E a nova casa era tão menor!

– Era só para nós duas. Não precisávamos de muito espaço.

Nós nos mudamos para um pequeno apartamento de dois quartos, alugado, na pior área de Clayton Falls, com vista para uma fábrica de papel. Os frascos de comprimidos foram substituídos por garrafas de vodca. Os robes de seda rosa da minha mãe tinham se transformado em nylon, e o perfume White Linen, da Estée Lauder, então era uma imitação barata. Nosso dinheiro era curto, mas ela conseguia separar o suficiente para comprar cigarros franceses – para minha mãe, tudo o que é francês é refinado – e vodca, que não é tão elegante. Popov não é igual a Smirnoff.

Não apenas ela vendeu nossa casa como também todos os pertences do meu pai. Evidentemente, ela guardou os troféus e as roupas de competição da Daisy, estas sempre penduradas no armário da minha mãe.

– Mas vocês não ficaram sozinhas por muito tempo, não foi?

– Ela estava passando por um momento ruim. A vida de mãe viúva é difícil. Não havia muitas opções naquela época.

– Então ela achou que tinha finalmente encontrado um homem de verdade, capaz de sustentá-la? – ele sorriu.

Olhei-o fixamente por um segundo.

– Ela trabalhou... depois do acidente.

Como secretária, numa construtora pequena, mas sua ocupação principal era manter a bela aparência. Jamais saía de casa sem ma-quiagem completa e, em geral, quando se maquiava, já estava meio alta. Portanto, não era raro vê-la com os olhos borrados ou o rosto muito pintado. De algum modo, a maquiagem caía bem, como se ela fosse uma boneca quebrada, e os homens olhavam como se quisessem

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salvá-la do mundo cruel. A recente condição de viuvez não a impedia de retribuir os sorrisos.

Passados quatro meses, eu tinha um padrasto, o grande Sr. Falsário. Vendedor da firma em que ela trabalhava, ele dirigia um Cadillac, fu-mava charuto e até usava botas de caubói, que fariam sentido se ele fosse do Texas ou de Alberta, mas acredito que nunca tenha saído de Vancouver Island. Até que ele era atraente, fazendo um tipo Tom Sel-leck, meio largadão. Minha mãe pediu demissão do emprego logo de-pois que os dois se casaram. Acho que ela pensou que ele fosse um bom partido.

– O que você achou do seu novo pai?

– É um cara legal. Parece amá-la de verdade.

– Então, sua mãe construiu vida nova, e onde você se encaixou?

– O Wayne bem que tentou.

Eu gostaria de ter com ele uma intimidade semelhante à que havia tido com meu pai, mas Wayne e eu não tínhamos sobre o que con-versar. As únicas leituras dele eram revistas femininas e manuais sobre enriquecimento rápido. Descobri então que sabia fazê-lo rir. Assim que percebi que me achava engraçada, virei uma palhacinha quando estava perto dele, tudo para vê-lo gargalhar. Porém, quando ele ria, minha mãe ficava irritada, e dizia algo como: “Pare com isso, Wayne. Você está provocando a menina.” Então ele parava. Magoada, comecei a debochar dele sempre que surgia uma oportunidade. Final-mente, passamos a nos ignorar.

O Maníaco me encarava com atenção e percebi que minha tentativa de descobrir coisas a respeito dele tinha resultado apenas em dar a ele mais informações sobre minha vida. Era hora de voltar ao plano original.

– E seu pai? – perguntei. – Você ainda não falou nele.

– Pai? O sujeito nunca foi um pai para mim. Muito menos foi bom para ela, mas ela não queria enxergar a verdade. – O tom de voz se el-evou. – Ele era caixeiro-viajante... Deus do céu!... um vendedor gordo e peludo, que...

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Engoliu em seco algumas vezes, e então disse:

– Eu tinha que libertá-la.

Não foram somente as palavras que me provocaram um calafrio na espinha, foi a frieza da voz no momento em que ele as pronunciou. Queria saber mais, porém meu instinto dizia para recuar. Tudo bem. A tempestade que ameaçava surgir dentro dele havia passado.

Pulou da cama com um sorriso, espreguiçou-se e, depois de um sus-piro de satisfação, disse:

– Chega de conversa. Vamos comemorar o começo da nossa família. – Ele me olhou fixamente e então balançou a cabeça. – Espere aqui. – Vestiu-se, pegou o casaco e sumiu porta afora. Ao abrir a porta, o cheiro de folhas em decomposição e terra molhada chegou até a cama, o odor de um verão agonizante.

Quando voltou, sua pele estava corada e os olhos faiscantes. Uma das mãos estava escondida nas costas. Sentou ao meu lado e esticou a mão. O punho estava fechado.

– Às vezes, a gente passa por momentos difíceis na vida – disse ele. – Mas esses momentos são um teste, e, se a gente se mantiver firme, acaba sendo recompensado. – Cruzamos o olhar. – Abra a mão, An-nie. – Olhando nos meus olhos, ele pressionou algo pequeno e frio na palma da minha mão. Tive medo de olhar.

– Ofereci isto a alguém, muito tempo atrás, mas ela não merecia. – A palma da minha mão começou a coçar. Ele ergueu as sobrancelhas. – Você não quer ver? – Baixei os olhos lentamente e vi uma corrente de ouro reluzindo na minha mão. Ele esticou o dedo e tocou o cor-açãozinho dourado que pendia da corrente. – Lindo, não é? – Minha vontade era arremessar o cordão o mais longe possível.

– Sim, sim, é lindo, obrigada – respondi.

Ele pegou a corrente.

– Sente-se para eu colocá-la em você.

Minha pele chegou a formigar no momento em que a corrente a tocou.

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Eu queria perguntar o que acontecera com a mulher a quem o cordão tinha sido oferecido, mas tinha medo da resposta.