Identidade roubada

Chevy Stevens · Capítulo 24 de 30

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Identidade roubada

V I G É S I M a S e G U N D a S e S S Ã o

VIGÉSIMA SEGUNDA SESSÃO

 

Ainda bem que conseguiu me encaixar hoje, doutora. Se eu tivesse que lidar sozinha com essa merda que surgiu de repente, você acabaria me visitando no manicômio. Mas é provável que o man-icômio seja até mais seguro. Você deve ter me visto no noticiário de novo. Que filho da mãe não terá visto?

 

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Algumas noites atrás, peguei minha foto antiga que estava com o Maníaco. Não havia nela qualquer furinho que sugerisse a exposição em algum painel, e eu ainda não fazia a menor ideia do motivo pelo qual guardaria aquela imagem no meu escritório na imobiliária. E, por mais que eu tente pensar na origem da foto, a única coisa que me vem à cabeça é o Maníaco exibindo-a como um troféu.

Na manhã seguinte, saí para dar uma corrida. Depois que deixei a entrada da minha garagem, segui pela rua e, ao passar por uma van branca estacionada, chamei por Emma, que corria na minha frente, dizendo a ela que me esperasse antes de atravessar a próxima rua.

Preocupada com minha cadela, mal percebi a porta lateral do carro se abrindo. Ao passar pelo veículo, vi de relance uma silhueta grande, vestida de preto e com uma balaclava, avançando sobre mim. Virei-me ao tentar me desviar e torci o pé. Desabei na calçada, mordi a língua e arranhei as mãos no chão áspero.

No momento em que tentava me levantar, fui agarrada pelo tornozelo e arrastada. Cravei as unhas na calçada e dei pontapés, tent-ando soltar a perna. Por um instante, consegui me libertar e fiquei de joelhos, pronta para sair correndo. Então, fui amordaçada por uma grande mão e um braço me agarrou pela cintura, me suspendendo do

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chão e me pressionando contra um torso musculoso. A mão que me amordaçava puxou minha cabeça contra um ombro, enquanto o braço fazia-me expelir o ar de dentro do tórax. O corpo começou a se mover para trás. Meus calcanhares se arrastavam pela calçada. Emma correu rua abaixo, latindo.

Eu quis gritar, quis lutar, mas fiquei paralisada pelo medo. Tudo o que eu via era o Maníaco sorrindo, tudo o que eu sentia era a pistola pressionada nas minhas costas.

Chegamos ao carro. O homem transferiu o peso para uma das per-nas e me segurou com mais força, como se fosse me suspender. Eu me lembrei do Maníaco fechando a porta do carro, passando pela frente do veículo, entrando...

Concentre-se! Você só tem alguns segundos. Não o deixe colocar você dentro da carro.

Mordi a mão que cobria minha boca e desferi uma série de pon-tapés. Ouvi um gemido. Enfiei os cotovelos por todos os lados e soquei o ponto que me parecia corresponder ao queixo. Fui atirada com tamanha força que me espatifei no meio-fio, batendo com a cabeça no chão. Doeu como o diabo, mas eu me virei e fiquei deitada de costas. No momento em que o cara tentou me agarrar, gritei com todas as forças e consegui acertar um chute no estômago dele. O cara gemeu, mas continuou tentando me segurar.

Rolei de um lado para outro, socando seus braços e gritando:

– SOCORRO! SOCORRO!

Ouvi rosnados e latidos. O homem ficou de pé.

Emma tinha pegado o cara pela perna e ele começou a chutá-la.

– NÃO TOQUE NA MINHA CADELA, SEU FILHO DA PUTA!

Ainda no chão, eu me apoiei nos cotovelos e dei um pontapé muito forte no meio das pernas dele. Curvado, o sujeito tropeçou, deu um passo para trás e caiu de joelhos, gemendo e arfando.

À minha esquerda, uma mulher gritou:

– Deixe a moça em paz!

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O cara conseguiu se levantar e tentou passar por mim para chegar ao carro, mas Emma ainda o prendia pela calça. Agarrei a outra perna. Ele se livrou de nós duas e entrou no veículo. Emma mal pôde sair da frente quando ele disparou rua abaixo, cantando pneus. Tentei ver a placa, mas meus olhos estavam fora de foco e o carro já ia em alta velocidade.

Minha respiração parecia a de alguém prestes a ser estrangulado. Fiquei de joelhos e olhei por cima do ombro. Avistei minha vizinha, que morava do outro lado da rua, correndo em nossa direção, com um telefone nas mãos. Minha visão ficou turva e eu desmoronei na calçada.

– Ela está bem?

– A polícia está a caminho.

– Meu Deus! O que aconteceu?

Eu queria responder às vozes, mas meu corpo tremia descontrola-damente, minha respiração se dava por meio de espasmos rápidos e eu não conseguia enxergar com clareza. O pelo de Emma roçava meu rosto, e sua língua morna lambia minhas faces. Alguém a afastou de mim, e uma voz de mulher disse:

– Você consegue dizer seu nome?

– Annie. Meu nome é Annie.

– Tudo bem, Annie. Você logo será atendida. Aguente firme.

Sirenes. Uniformes. Alguém me cobriu com um cobertor. Respondi a perguntas com fragmentos de frases.

– Um homem... roupa preta... van branca.

Mais sirenes e então uniformes de outro tipo.

– Onde está doendo, Annie?

– Tente respirar fundo.

– Nós vamos imobilizar seu pescoço.

– Você é capaz de dizer a data do seu nascimento?

Mãos pelo meu corpo. Dedos no meu pulso. Números gritados. No momento em que fui colocada na maca e afivelada, reconheci uma voz.

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– Ela é minha sobrinha. Deixem-me passar. – Em seguida, o rosto preocupado de minha tia me encarou. Peguei na mão dela e comecei a chorar.

Tia Val seguiu comigo até o hospital.

– Annie, você vai ficar bem. O Mark está telefonando para sua mãe, ela vai nos encontrar no hospital... ela vai levar a Emma para nossa casa.

Depois disso, não me lembro de muita coisa, apenas da sensação de velocidade e da mão de minha tia sobre a minha.

Quando cheguei ao hospital, voltei a sentir falta de ar. Era gente de-mais gritando, bebês chorando, luzes fortes, enfermeiras fazendo per-guntas. Então fui levada para uma sala de observação, a fim de esper-ar pelo médico. Mas ainda podia ver policiais falando com enfermeiras e com minha tia no corredor.

Comecei a contar as placas de gesso no teto. Uma enfermeira entrou e me pediu que apertasse sua mão com força. Depois, mediu minha pressão e examinou minhas pupilas. Continuei contando as placas.

Quando o médico finalmente chegou e repetiu as mesmas pergun-tas, continuei contando as placas. Quando fui levada para tirar radio-grafias, contei as máquinas. Quando me trouxeram de volta para a sala e os policiais chegaram e fizeram mais perguntas – como o sujeito estava vestido, qual era a estatura, a marca do carro –, acelerei a cont-agem. Mas, quando um enfermeiro corpulento entrou e, num gesto brusco, tentou segurar meu braço, comecei a gritar.

Os presentes receberam ordens para sair da sala. O médico pediu ao enfermeiro que convocasse a Equipe de Atendimento Psiquiátrico “aqui e agora”. Fechei os olhos e contei as batidas do meu coração acelerado enquanto falavam sobre mim. Alguém me injetou algo. Mais palavras, porém já não conseguia entendê-las. Dedos pressionaram meu pulso, contando a pulsação. Eu também contei.

Escutei o ruído de um salto correndo pelo corredor, e então a voz de minha mãe, mas apaguei.

Um, dois, três...

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Quando abri os olhos, minha mãe e tia Val estavam à janela, de cos-tas para mim, conversando em voz baixa.

– O Mark estava me levando para pegar o resultado dos meus ex-ames quando vimos uma aglomeração. Ela estava lá, estirada... – Minha tia sacudiu a cabeça. – Precisei abrir caminho para chegar perto dela. A imprensa chegou em questão de minutos, deve ter seguido a ambulância. Veja só... quanto repórter lá fora.

– O que você disse a eles? – perguntou minha mãe.

– À imprensa? Eu não disse nada. Eu estava mais preocupada com a Annie, mas é possível que o Mark tenha respondido a algumas perguntas.

– O Mark? – Minha mãe suspirou. – Val, é preciso tomar cuidado com o que se diz a essa gente. Nunca se sabe...

Pigarreei, e as duas se viraram para olhar para mim. Comecei a chorar.

Minha mãe correu e me envolveu em seus braços. Solucei no ombro dela.

– Senti tanto medo, mãe... tanto medo.

Quando o médico chegou, eu estava mais calma. Foi bom saber que eu não havia sofrido qualquer fratura. Mas eu tinha várias escoriações, cortes e arranhões, além de uma dor de cabeça de rachar. Eu havia fic-ado em estado de choque em consequência de uma combinação de dor e medo. Acha que é pouca coisa?!

A principal preocupação dos médicos era com a possibilidade de traumatismo craniano, por causa da pancada na cabeça. Por isso, tive que dormir no hospital naquela noite. E a Equipe de Atendimento Psiquiátrico queria fazer uma nova avaliação na manhã seguinte. Ao longo da madrugada, uma enfermeira me acordava a cada duas horas, para ver se eu havia sofrido uma concussão. Mas eu quase não dormi, pois ficava tensa sempre que escutava passos no corredor e me as-sustava com qualquer barulho. Às vezes, eu olhava para a figura

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diminuta de minha mãe dormindo na pequena cama ao meu lado, e contava o intervalo entre suas respirações.

 

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Minha passagem anterior pelo hospital tinha me ensinado que a teimosia resultava apenas no aumento do tempo de internação. Port-anto, mostrei boa vontade quando a Equipe de Atendimento Psiquiátrico veio avaliar minha estabilidade emocional. Eles queriam saber, sobretudo, com que tipo de apoio psicológico eu contaria depois que recebesse alta. Eu disse que fazia análise com uma terapeuta, e eles me deram alguns telefones de serviços psicológicos e uma lista de grupos de apoio.

Ficou decidido que eu tinha condições emocionais para falar com a polícia, e então prestei todas as informações possíveis. Não, eu não vi o rosto dele. Não, eu não anotei a placa do carro. Não, eu não sei por que diabos o babaca quis me pegar.

Eu achava que a polícia me daria vigilância 24 horas por dia, mas o máximo prometido foi mais uma viatura patrulhando meu bairro e a instalação de um alarme diretamente ligado à delegacia. Eles me aler-taram de andar sempre com o celular, de evitar passar perto de vans estacionadas... grande novidade!... e de “prestar atenção no que estava à minha volta”. Ao mesmo tempo, fui instruída a levar uma vida nor-mal enquanto a investigação prosseguia. Vida? Que vida? Essa merda é a minha vida.

Os médicos me liberaram, mas disseram que eu precisaria ficar sob observação nas 24 horas seguintes. Minha mãe insistiu que eu fosse para a casa dela, e eu ainda estava tão assustada e com tanta dor no corpo que me agarrei à ideia. Ela passou o dia assistindo à TV ao meu lado no sofá, providenciando gelo para meus machucados e várias xí-caras de chá.

Mais tarde, tio Mark trouxe Emma, e minha mãe permitiu que ela ficasse dentro de casa, dizendo-lhe que “protegesse a Annie”. E ela me

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protegeu mesmo. Embora tio Mark tivesse cuidado dela no dia anteri-or, Emma se mostrava nervosa na presença dele. A cadela latia por qualquer barulho e rosnava para minha mãe cada vez que ela entrava na sala. Wayne preferiu ficar longe, até que Emma tivesse tempo para se acostumar ao novo ambiente.

Naquela noite, minha mãe dormiu na cama comigo, como fazia na época em que eu era criança. Mas só ela conseguiu relaxar. No meio da madrugada, sem sono, eu me arrastei até o closet do corredor, com o celular nas mãos e Emma atrás de mim. Gary, o único policial com quem eu realmente queria falar, foi o único que não apareceu na man-hã que o cara me pegou. Nem no dia seguinte. Perguntei por ele no hospital, mas disseram que estava mais uma vez fora da cidade. Den-tro do closet, liguei para ele, mas a chamada caiu direto na caixa postal.

Com muita dor no corpo, eu me enrosquei toda dentro do closet, mas ainda assim não me senti segura. Eu só pensava: Será que um dia voltarei a me sentir segura? Finalmente, peguei no sono, mas a im-agem do carro branco me perseguia em pesadelos.

 

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Quando cheguei em casa, logo após fugir da montanha, eu cos-tumava ir à delegacia de Clayton Falls para examinar as fotos dos criminosos. Mas, depois de meses vendo o rosto de marginais e nunca encontrando o Maníaco, perdi o ânimo. O retrato falado dele está na TV, nos jornais e até na seção “Corpos não identificados” do site da Polícia Montada canadense. Mas para mim aquilo não passa da im-agem de um defunto. Que merda! Mesmo que a foto se parecesse com ele, o Maníaco sabia muito bem passar por invisível.

A polícia sabe que o chalé e o terreno foram comprados à vista e em espécie poucos meses antes do meu sequestro, mas não há qualquer pista da identidade do comprador: nenhuma informação sobre cartões de crédito, carteira de habilitação ou coisa parecida. O Maníaco devia

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ter identidade falsa. Chegou a abrir conta bancária com o nome de mentira, a fim de pagar os impostos referentes à compra. Mas nin-guém no banco se lembra dele.

O antigo proprietário não conheceu o comprador, porque a venda foi realizada por um escritório de advocacia de Clayton Falls. Somente uma assinatura foi necessária, e o advogado devia estar cego, pois não é capaz de descrever o comprador. A desculpa apresentada é que, no mês em questão, ele registrou 60 propriedades, e me pergunto se a identidade do comprador chegou a ser verificada.

Gary me telefonou alguns dias depois que o sujeito me pegou na rua. Eu ainda estava na casa da minha mãe. Ele disse que o alarme es-tava instalado e pediu desculpas por não ter ligado antes. Estava tra-balhando num caso numa região pesqueira ao norte, onde só havia comunicação através de rádio. Repassamos todos os detalhes, e ele voltou a me perguntar sobre a maldita foto. Quando respondi que eu ainda não havia encontrado, ele resmungou e prosseguiu. Disse que, levando em conta que o Maníaco tinha me seguido, a polícia de início pensou que ele morasse na cidade, mas agora ele achava que o sujeito poderia ter se hospedado em algum hotel fora e vindo de carro a Clayton Falls.

– No último mês, passei todos os fins de semana mostrando a foto do corpo em cada hotel e motel num raio de uma hora de distância da-qui. – disse Gary. Clayton Falls fica no centro da ilha. Portanto, ele cobriu uma grande área.

– Por que você não envia por fax? E você tem que fazer isso pessoal-mente? Não pode mandar algum subordinado?

– Primeiro: se eu enviar por fax, provavelmente ela vai acabar no lixo. Durante o inverno, muitos funcionários dos hotéis são dispensa-dos, mas agora, que a alta temporada está começando, eles estão de volta, e quero falar com cada um pessoalmente. Segundo: não mando um subordinado porque a maioria deles está trabalhando em outros casos. Estou fazendo grande parte da investigação por conta própria, Annie.

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Impressionada e me sentindo um tanto sem graça por ficar diante da TV noite após noite enquanto ele batia perna, eu me perguntei se não seria por isso que ele não era casado.

– Sua namorada deve me detestar – comentei. Ele se calou por al-guns instantes e, sentindo que o calor subia pelo meu rosto, fiquei aliviada por não estar diante dele.

– Sei que o processo deixou você desanimada, mas agora, depois dessa segunda tentativa de sequestro, acho que deve ir até a delegacia e examinar mais fotos.

Sentindo-me uma idiota, pois minha pergunta sobre a namorada não tinha sido respondida, repliquei:

– Então você acha que o cara que me pegou é ligado ao Maníaco?

– Acho importante considerarmos todas as possibilidades.

– Como assim?

– Alguns aspectos desse caso não correspondem ao perfil típico. Por exemplo, a questão da foto... Ainda temos que investigar como ele a conseguiu e por que precisou daquela imagem específica, quando tinha tantas outras, batidas por ele mesmo. Se você conseguir recon-hecer um suspeito, tenho esperança de que o resto vai se encaixar.

Eu disse que iria à delegacia no dia seguinte.

 

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Ainda guardo na mente aquela manhã em que Gary veio me visitar, a primeira vez que estive no hospital, doutora. Ele tinha estado “em campo”, seja lá o que isso quer dizer, e vestia jeans e uma jaqueta preta, com o distintivo da Polícia Montada canadense. Usava até um boné. Perguntei se todos os ternos estavam na lavanderia, mas a ver-dade é que ele parecia um tira da pesada. Por mais que eu brinque com ele, fazendo comentários sobre os ternos elegantes, o cara tem um jeito de quem não brinca em serviço.

Ontem à noite, mais uma vez dormi na casa da minha mãe. No ent-anto, depois de ouvir o bate-boca entre ela e o Wayne a noite toda –

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ela tem bebido igual a uma esponja desde a última vez que estive in-ternada –, tive outro pesadelo com a van branca, mas dessa vez o pesadelo acabou bem: um homem me protegia em seus braços. Quando acordei, me dei conta de que os braços eram do Gary. Eu me senti culpada como o diabo. Ou seja, o pobre do Luke fez tanto por mim – e tem sido tão paciente – e eu ainda sonho com o policial.

Às vezes, penso que seria bom se Gary me acompanhasse por toda parte, como um guarda-costas. Mas então acabo me condenando, porque sei que ninguém é capaz de fazer com que eu me sinta segura o tempo todo. É engraçado, porque eu sempre me senti segura ao lado do Luke, mas era um tipo diferente de segurança... uma segurança serena, simples. Em relação ao Gary, nada parece simples.

Depois que voltei para casa, hoje de manhã, patrulhei “o terreno” com a Emma, assustada com qualquer sombra que eu via, e depois verifiquei o alarme um milhão de vezes. Para me distrair, olhei de novo aquele folheto da escola de arte sobre o qual lhe falei. A escola fica nas Montanhas Rochosas e é linda... do jeito como eu imagino que seja Harvard. Eu até baixei alguns formulários do site da escola. Só Deus sabe por quê. O único bem material que me resta e que ainda me interessa é minha casa. Posso até estar paranoica, mas eu teria que es-tar completamente pirada para vender minha casa e correr atrás de um sonho da adolescência. E se eu não chegasse a lugar algum na car-reira de artista plástica? Como é que eu ficaria?

 

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Bem, é melhor encerrarmos a sessão, doutora. Ainda preciso passar na delegacia e dar uma olhada em mais fotos. Ao menos vou ter uma boa desculpa para telefonar para o Gary hoje à noite.