Identidade roubada

Chevy Stevens · Capítulo 7 de 30

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Identidade roubada

Q U I N T a S e S S Ã o

QUINTA SESSÃO

 

Hoje, vindo para cá, parei no café que fica aqui na esquina. Ol-hando de fora, o lugar parece meio sujo, mas o café é tão bom que justifica vir de carro até o centro da cidade. Não sei bem o que tem aí nessa caneca... vai ver que é uísque..., mas arrisquei trazer um chá. Você merece um mínimo de mordomia, por ter que encerrar o dia comigo.

Quer saber, eu gosto desse penduricalho de prata pesada que você está sempre usando. Combina com seu cabelo e dá um ar de avó chique. Uma avó que ainda faz sexo... e com gosto. Não se preocupe, não estou dando nenhuma indireta... sei que terapeutas não gostam de falar sobre si mesmos e, além disso, estou tão autocentrada que nem escutaria.

Talvez sua bijuteria me agrade porque me faz lembrar do meu pai, o que vem reforçar essa coisa de estar autocentrada. Não que ele gos-tasse de bijuteria, mas usava um anel herdado do pai. Meus avós pa-ternos vieram da Irlanda e abriram uma joalheria. O anel foi a única coisa que sobrou quando eles morreram num incêndio, pouco tempo depois que meus pais se casaram... O banco ficou com todo o resto. Depois do acidente, pedi o anel à minha mãe, mas ela disse que a joia tinha se perdido.

Às vezes, penso que, se estivesse vivo, meu pai teria feito tudo para me resgatar, mas não sei como ele teria reagido. Era um sujeito tran-quilão, e na minha memória ele vai ter sempre 40 anos, sempre com o belo suéter felpudo e a calça cáqui. Segundo me lembro, ele só ficava empolgado quando me falava sobre o recebimento de um novo pacote de livros, na biblioteca onde trabalhava.

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Lá no chalé da montanha, de vez em quando eu pensava nele e me perguntava se não estaria me protegendo. Mas aí eu me irritava. Se papai fosse meu anjo da guarda, conforme eu achava quando criança, por que diabos não acabava com tudo aquilo?

 

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Na minha segunda noite, o Maníaco lavou minhas costas com delicadeza.

– Se quiser mais água quente, é só dizer.

Espremia a esponja e deixava a água com perfume de rosas escorrer pelos meus ombros.

– Você está quieta hoje – disse, beijando meus cabelos molhados, escorridos pela nuca. Então, abocanhou uma mecha e começou a chupá-la. Tive vontade de enfiar o ombro na cara dele e quebrar seu nariz. Em vez disso, fixei o olhar na parede do banheiro e contei quan-tos segundos eram necessários para uma gota de água escorrer. – Sabe que o cabelo de cada mulher tem um sabor próprio? O seu tem gosto de noz-moscada e cravo.

Senti um tremor.

– Eu sabia que a água não estava muito quente. – Abriu a torneira e deixou a água correr por um minuto. – Só de olhar para uma mulher consigo saber o gosto do cabelo dela. Tem homem que se engana com a cor. É fácil concluir que o sabor da sua mãe, com aquele rosto jovial e o cabelo louro, seria límpido, refrescante, mas aprendi a ir mais fundo, em busca da verdade. – Posicionou-se diante de mim e começou a lavar minha perna, delicadamente. Continuei a olhar para a parede. Estava apenas querendo me provocar... eu não podia deixar ele perceber que a provocação surtia efeito.

– Mas ela é uma mulher bonita. Eu me pergunto quantos dos seus namorados já quiseram fazer sexo com ela. E se pensavam nela en-quanto transavam com você.

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Meu estômago revirou. Ao longo dos anos, eu tinha me acostumado com o fato de meus namorados desejarem minha mãe. Quando não estavam concentrados engolindo um jantar preparado por ela, ficavam contemplando seus lábios carnudos. Um sujeito chegou a me dizer que minha mãe parecia uma versão adulta e sensual da fada Sin-inho. Até Luke às vezes gaguejava quando ela estava por perto.

Dezessete segundos, dezoito... que gota mais lenta!

– Duvido que qualquer outro homem percebesse, como eu percebia, que o sabor dela era de maçã verde, daquele tipo que a gente pensa que está maduro até dar uma mordida. E sua amiga Christina, com o cabelo sempre preso, toda executiva. Ela tem um sabor que engana a vista. – Perdi a conta da gota de água.

– Eu conheço bem a Christina. Ela é corretora também, não é? Muito bem-sucedida, pelo que sei. E me pergunto por que você se cerca de pessoas das quais tem inveja.

Eu queria dizer que não tenho inveja da Christina, que me orgulho dela. Somos grandes amigas desde o ensino médio. Ela me ensinou tudo o que sei sobre o mercado imobiliário. Que droga! Ela me ensin-ou muita coisa, mas fiquei calada. O cara usaria qualquer artifício con-tra mim.

– Ela faz você se lembrar da Daisy? A Daisy tinha sabor de algodão-doce, mas a Christina, hummm... Ah! Christina... Aposto que tem sabor de pera importada.

Cruzamos os olhares. Ele começou a ensaboar meus pés. Eu estava farta de ser um joguete.

– Qual era o sabor da sua mãe? – perguntei.

A mão que estava no meu pé se deteve e ficou tensa.

– Minha mãe? Você acha que isso aqui tem a ver com minha mãe?

Ele riu e mergulhou meu pé na água. Em seguida, pegou a navalha dentro do armário.

Quando a mão dele palmeou minha perna, comecei a contar as lin-has formadas pelos azulejos da parede. No momento em que a lâmina fria deslizou pela minha canela, perdi a conta e tive que recomeçar.

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Quando ele me obrigou a ficar de pé, para raspar as partes que faltavam, dividi o número de azulejos pelo número de falhas no re-boco. Enquanto as mãos dele espalhavam hidratante pelo meu corpo, ele cantarolava e eu contava as gotas de cera que escorriam nas lat-erais da vela.

Fiz uma lista de tudo o que estava em volta, multiplicando e di-vidindo os números. Quando algum pensamento ou sentimento se in-filtrava em minha mente, eu expulsava e recomeçava a contagem.

 

v

 

A segunda vez que ele tentou me estuprar, não me mexi, não chorei, apenas encarei a parede do quarto. Se eu não reagisse, ele não con-seguiria uma ereção. Algum tipo de socorro devia estar a caminho. Eu só precisava aguentar firme até que a ajuda chegasse. Então, a des-peito do que ele fizesse comigo, eu contava ou pensava em aviões, e ficava parada, como uma boneca de pano. Ele agarrou meu rosto, ol-hou diretamente nos meus olhos e tentou introduzir o pênis flácido dentro de mim. Contei até as artérias visíveis no seu globo ocular. O pau dele ficou ainda mais mole. Ele gritou, exigindo que eu o chamasse pelo nome. Como não atendi, ele socou o travesseiro bem ao lado do meu ouvido, urrando “Sua cadela imbecil! Imbecil!” a cada soco.

Os socos pararam. A respiração ficou mais lenta. A caminho do ban-heiro, voltou a cantarolar.

Enquanto ele tomava uma ducha, pressionei o travesseiro contra o rosto e gritei: “Seu tarado fodido! Seu babaca brocha! Você escolheu para sacanear a mulher errada!” Meus soluços foram absorvidos pelo travesseiro. Quan-

do percebi que o chuveiro tinha sido desligado, recoloquei o traves-seiro embaixo da cabeça, com o lado seco para cima, e voltei a fitar a parede.

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Infelizmente, o fracasso não o fazia desistir. Era sempre a mesma rotina: o banho – hora em que ele se tornava mais falante –, a sessão de raspagem, o hidratante e então o vestido. Eu me sentia como uma estrela da Broadway: o mesmo palco, cenário, iluminação e figurino, noite após noite. As únicas mudanças eram a frustração cada vez maior e a atitude dele.

Depois da terceira tentativa, ele me esbofeteou duas vezes com tanta violência que mordi a língua. Naquela vez, não houve qualquer tipo de prazer, fosse amargo ou não. Abafei os soluços com o traves-seiro, suguei o sangue que me escorria da língua e esperei com medo a saída dele do chuveiro.

Na quarta noite, ele me deu dois socos no estômago – fiquei sem ar, e a dor foi tão chocante quanto literal – e um no maxilar. Esta dor foi desesperadora. O quarto escureceu. Rezei para tudo ficar completa-mente preto. Não ficou. Parei de chorar no travesseiro.

Na quinta noite, ele me virou de costas, ajoelhou sobre minhas mãos e enfiou meu rosto no colchão com tanta força que eu não con-seguia respirar. Meu peito queimava. Repetiu o gesto três vezes, sempre parando no instante em que eu estava prestes a desmaiar.

Quase todas as noites terminavam com ele se levantando, o rosto sem qualquer expressão, e eu ouvia o barulho do chuveiro durante al-gum tempo. Depois que voltava para a cama, ele me abraçava e falava trivialidades: como os índios conservavam a carne, as constelações que via no céu durante as rondas noturnas, as frutas de que gostava ou não.

Mas, certa noite, deitou-se ao meu lado e disse:

– Eu me pergunto como será a Christina. Ela é tão calma e comedida, não é? Eu me pergunto o que seria preciso para uma mulh-er daquelas se descontrolar.

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Eu me esforcei para não perder o fôlego no momento em que ele en-fiou os dedos entre minhas mãos rígidas e, delicadamente, esfregou o polegar no meu.

Enquanto roncava ao meu lado, a ideia de que aquelas mãos tocas-sem Christina, ou de que ela sentisse um segundo do pavor que eu sentia, parecia rasgar minhas entranhas. Eu não poderia permitir que aquilo acontecesse. Meu plano não estava funcionando, a menos que meu objetivo fosse morrer e talvez propiciar a morte de Christina. O meu socorro estava demorando muito e o Maníaco jamais chegaria di-ante de mim para dizer: “Essa coisa não está dando certo. Por isso, vou levar você para casa agora.” Se fosse apenas minha vida em jogo, talvez eu mantivesse a situação por mais algum tempo. Mas eu não podia fazer isso com a vida da Christina.

Eu precisava ajudá-lo a me estuprar.

 

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Era fundamental entender o comportamento dele. Vasculhei a memória em busca de tudo o que havia lido sobre estupradores, todo seriado de TV que tinha visto sobre o assunto, Law & Order: SVU, Criminal Minds e alguns especiais do A&E, tentando me lembrar do que os maníacos sexuais gostam e em que circunstâncias matam as vítimas.

Eu me lembrei de que alguns estupradores precisam pensar que as vítimas gostam do que eles fazem com elas. Talvez o Maníaco se ilu-disse, achando que me deixava excitada, mas não conseguisse ter uma ereção porque, em algum nível, uma sombra de dúvida o assustasse. Até aquele momento, essa incerteza o tornava impotente. Caso ela fi-casse mais forte, eu estaria morta.

 

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Na noite seguinte, durante o banho, eu disse:

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– Você tem sido bastante delicado. – Ele me encarou, e tive que olhá-lo nos olhos.

– É mesmo?

– Em geral, os homens são um pouco brutos, mas você tem um toque leve.

Ele sorriu.

– Quero que me desculpe, se tenho sido difícil. Eu estava meio re-ceosa, você sabe, no começo. Mas tenho pensado nisso tudo e, talvez... talvez não seja tarde demais para começar uma vida nova.

Que grau de hesitação eu deveria demonstrar? Se eu fosse muito positiva, ele jamais cairia na minha conversa.

– Difícil?

– Pois é... vai demorar um pouco até eu me acostumar com tudo isso, mas estou começando a ver que talvez eu goste de viver aqui. Com você.

– Você acha mesmo? – Pronunciou cada sílaba bem devagar.

Forçando-me a olhar nos olhos dele novamente, tentei expressar o máximo de sinceridade possível.

– Acho, sim. Você entende muita coisa que a maioria dos homens não entende.

– Ah! Sem dúvida, eu entendo muita coisa que a maioria dos ho-mens não entende.

O rosto se abriu no sorriso vitorioso que eu já conhecia. Tinha acer-tado na mosca.

Enquanto ele passava o hidratante em mim, eu disse:

– Gosto muito desse perfume. – O sorriso dele se iluminou.

Depois que enfiei o vestido, dei uma voltinha e disse:

– Eu compraria um vestido exatamente como este.

Na cama, gemi e beijei o Maníaco com cautela, como se estivesse despertando para seu toque. Ele ficou ofegante e contei os segundos entre uma respiração e outra, como as contrações de um parto. Por dentro, morri.

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Arfando e com o rosto vermelho, ele se deitou em cima de mim. Preocupada com a possibilidade de ele perder a ereção – e com isso o controle –, estiquei a mão e o acariciei, antes que a situação ficasse feia. Tinha que ser feito.

Eu me encolhi toda e tentei ignorar minhas próprias palavras en-quanto sussurrava:

– Esperei por este momento.

Os braços dele se retesaram e o rosto ficou fechado de fúria. Com uma das mãos, agarrou-me pela garganta. Ele apertava cada vez mais, e eu cravava minhas unhas em vão.

– Posso matá-la a qualquer momento, e você ainda fala como uma puta? Você devia estar apavorada. Devia estar implorando, lutando para se manter viva. Será que não entende?

Finalmente, soltou minha garganta, mas meu alívio foi interromp-ido por um soco no estômago. Golpeou meu corpo, os seios, o rosto, a virilha. Lutei, mas seus punhos pareciam me cobrir. Os socos se su-cederam até eu não sentir mais nada. Desmaiei.

 

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É estranho, doutora... quando o Maníaco me chamou de puta e bateu em mim, senti dor, mas não me revoltei, pois eu queria que ele me machucasse. Mesmo enquanto meu corpo lutava, minha mente queria que ele continuasse. Eu merecia a dor. Como fui capaz de dizer aquelas coisas? Como pude tocá-lo daquele jeito?

Fiz muita coisa naquela montanha, muita coisa que não queria fazer e que eu nem queria acreditar que fosse capaz. Mas aquela noite? Quando penso como virei o zumbi que sou hoje, como pude ficar tão perdida, sempre volto àquela noite... a noite em que pus a alma em risco a fim de abrir espaço para o diabo.