Identidade roubada

Chevy Stevens · Capítulo 5 de 30

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Identidade roubada

T e R C e I R a S e S S Ã o

TERCEIRA SESSÃO

 

Vi que você não tem muita bugiganga de Natal, só a guirlanda na porta. Isso é bom, considerando que, segundo dizem, as festas de fim de ano têm os maiores índices de suicídio e que os seus pacientes já estão provavelmente à beira do abismo.

Que droga! Se existe alguém capaz de entender por que tanta gente entra em parafuso nesta época do ano, esse alguém sou eu. Quando eu era criança, o Natal era uma porcaria. Não era fácil ver meus amigos ganharem um monte de coisas que eu só podia olhar nas vitrines das lojas ou nas páginas dos catálogos. Bem, o Natal anterior ao meu se-questro? Foi bem legal. Gastei uma nota com enfeites espalhafatosos e luzes. Claro que não consegui escolher um tema específico, e por isso, quando acabei a decoração, cada cômodo da casa parecia um carro alegórico num desfile de Natal cafona.

Luke e eu fizemos longas caminhadas, travamos uma guerra de bolas de neve, penduramos linha com pipoca e amora na árvore, be-bemos chocolate quente com rum e, alegrinhos e desafinados, can-tamos músicas natalinas. Parecia a merda de um especial de TV.

Este ano, estou pouco me lixando para as festas. Aliás, atualmente não estou nem aí para quase tudo. Quando fui ao banheiro antes da nossa sessão de hoje, olhei minha cara no espelho. Antes de essa droga toda acontecer, eu não podia passar na frente de uma vitrine sem olhar meu reflexo. Agora, quando me olho no espelho, vejo uma estranha. Os olhos da mulher que vejo parecem feitos de lama seca e o cabelo despenca nos ombros, sem vida. Preciso ir ao cabeleireiro, mas só em pensar nisso já fico exausta.

Pior ainda... virei uma delas... uma daquelas pessoas que vivem se lamentando, depressivas, que não têm a menor dificuldade em contar

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para você que vivem na maior merda. Num tom de voz que deixa nítido que elas estão na pior. Que droga! Deve ser o mesmo tom de voz em que estou falando agora. Quero dizer que as lojas estão lindas e que nesta época do ano as pessoas ficam mais amáveis. Tudo isso é verdade, mas só consigo usar palavras negativas.

Ter dormido dentro do closet na noite passada não melhora minha atitude, nem as olheiras. Comecei a noite na cama, mas rolei tanto de um lado para outro que a cama parecia uma zona de guerra. E não me senti segura. Então me arrastei até o closet e me enrolei no tapete, en-quanto a Emma se deitava do outro lado da porta. A pobre cadela pensa que está tomando conta de mim.

 

v

 

Quando saiu do banheiro, o Maníaco apontou o dedo na minha direção, sorriu e disse:

– Eu nunca perco os horários.

Cantarolando uma melodia – eu não saberia lhe dizer que melodia era, mas, se ouvir aquilo de novo, ponho os bofes para fora –, ele me puxou da cama, me rodopiou e me fez sentar no joelho dele. Primeiro, o cara parece que vai quebrar meu queixo, depois, age como se fosse Fred Astaire. Com uma risada, ele me pôs de pé novamente e me con-duziu até o banheiro.

Velas estavam acesas sobre a bancada e o ar tinha cheiro de cera derretida e flores. Havia uma nuvem de vapor sobre a banheira e pétalas de rosas boiavam na superfície da água.

– É hora de tirar a roupa.

– Eu não quero.

As palavras saíram com um sussurro.

– Está na hora.

Ele me encarou com vontade.

Eu tirei.

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Ele dobrou a roupa e levou para fora do banheiro. Meu rosto queimava. Um braço sobre os seios, outro sobre a virilha. Ele afastou meus braços e fez sinal para que eu entrasse na banheira. Quando hes-itei, seu rosto ficou vermelho e ele deu um passo à frente.

Entrei na banheira.

Com o chaveiro, ele abriu um dos armários e pegou uma navalha.

Suspendeu minha perna direita, apoiou meu calcanhar na borda da banheira e lentamente passou a mão pela minha canela e pela minha coxa. Foi a primeira vez que prestei atenção nas mãos dele. Não tin-ham um pelo sequer e as pontas dos dedos eram lisas, como se tivessem sido queimadas. Um pavor percorreu meu corpo. Que tipo de pessoa queima a ponta dos próprios dedos?

Eu não conseguia tirar os olhos da navalha, vendo aquilo se aproxi-mar da minha perna. Eu nem conseguia gritar.

– Suas pernas são tão fortes... como as de uma bailarina. Minha mãe era bailarina. – Virou-se para mim, mas eu encarava a lâmina. – Annie, estou falando com... – Então se abaixou. – Está com medo da navalha?

Fiz que sim, com um sinal da cabeça.

Suspendeu a navalha, deixando que a luz refletisse nela.

– As novas não cortam muito rente. – Em seguida, deu de ombros e sorriu. Depois, inclinou-se e começou a raspar minha canela. – Se vo-cê se abrir a esta experiência, vai descobrir muita coisa a seu respeito. Saber que alguém tem o poder total sobre sua vida pode ser a mais er-ótica das experiências. – Ele me olhou fixamente. – Mas você já sabe como a morte pode ser libertadora, não sabe, Annie? – Quando não respondi, ele correu os olhos entre mim e a navalha.

– Não... não sei... como assim?

– É claro que você se lembra do que aconteceu com a Daisy.

Olhei para ele sem vacilar.

– Quantos anos você tinha mesmo? Doze, não era? E ela, 16? Perder um ente querido assim tão cedo... – Ele sacudiu a cabeça. – Coisas desse tipo podem fazer uma pessoa mudar totalmente.

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– Como é que você sabe da Daisy?

– Já seu pai morreu a caminho do hospital, não foi? E a Daisy, como foi mesmo que ela morreu? – Ele sabia. O filho da mãe sabia.

Eu fiquei sabendo no enterro, quando ouvi minha tia explicar a al-guém por que minha mãe não quis que o caixão da filha ficasse aberto. Durante meses, minha irmã me aparecia em sonhos, o rosto san-grando, implorando minha ajuda. Durante meses, acordei gritando.

– Por que está fazendo isso? – perguntei.

– Raspando suas pernas? Você não acha isso relaxante?

– Não estou falando das pernas.

– Ah, a Daisy? É bom falar nessas coisas, Annie.

Mais uma onda “isso não pode estar acontecendo” atravessou meu corpo. Não é possível que eu esteja numa banheira de água morna, com um maluco raspando minhas pernas e dizendo que preciso falar sobre meus sentimentos. Em que mundo uma merda dessas pode acontecer?

– Levante-se e apoie o pé na lateral da banheira, Annie.

– Desculpe, vamos conversar um pouco mais. Por favor, não me obrigue a fazer isso...

O rosto dele ficou inexpressivo. Eu tinha visto aquele olhar antes.

Eu me levantei e pus o pé na borda da banheira.

Tremendo no ar frio, vi que um vapor com perfume de rosas exalava do meu corpo. Detesto cheiro de rosa, sempre detestei. Mas e o Maníaco?

Começou a cantarolar.

Eu queria empurrá-lo. Dar uma joelhada na cara dele. Mas meus ol-hos não desgrudavam da lâmina reluzente. Ele não estava me machu-cando. Apenas cravava as unhas com força nas minhas nádegas para me posicionar. Mas o pavor era imenso, uma pressão tremenda me rasgava o peito.

Anos antes eu tinha ido a um médico, um sujeito de idade avançada, com quem eu só havia me consultado uma vez. Quando voltei ao con-sultório dele, tive que fazer um exame de Papanicolau, e eu ainda me

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lembrava de ter ficado deitada, de barriga para cima, e o sujeito com a cara enfiada entre minhas pernas. O médico era piloto de fim de sem-ana e tinha fotos de avião espalhadas por todo o ambiente. Enquanto enfiava dentro de mim um instrumento frio, ele disse: “Pense em aviões.” E foi o que fiz enquanto o Maníaco me raspava. Pensei em aviões.

Depois que me enxaguou, ele me ajudou a sair da banheira e me secou delicadamente. Então, abriu o armário, tirou um grande frasco de hidratante e começou a passar o creme no meu corpo.

– Gostoso, não?

Minha pele ficou rija. As mãos dele percorriam meu corpo, desliz-ando, esfregando o creme.

– Por favor, pare. Por favor...

– Ora! Por que eu faria uma coisa dessas? – perguntou ele sorrindo. Não estava com pressa, e não deixou de cobrir nenhuma parte do meu corpo.

Quando acabou, ele me deixou ali, de pé sobre um ridículo tapete felpudo rosa, parecendo uma porca untada e com aquele maldito cheiro de rosa. Não esperei muito até que ele voltasse com algumas roupas.

Ele me fez vestir uma calcinha branca, apertada... não era fio dental nem tanga, era uma calcinha comum... e um sutiã meia taça, que fazia conjunto com a parte de baixo. Deu um passo atrás, me olhou de cima a baixo e bateu palmas, parabenizando a si próprio pelo trabalho ben-feito. Em seguida, entregou-me um vestido... uma peça branca, nova, algo de que provavelmente eu teria gostado numa vida anterior. Que droga! Era um vestido bonito e parecia caro. Lembrava aquele famoso da Marilyn Monroe, porém menos sensual, a versão para uma menina bem-comportada.

– Dê uma voltinha.

Como não me mexi, ele ergueu uma sobrancelha e fez um gesto cir-cular com o dedo.

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O vestido flutuava ao meu redor enquanto eu girava. Ele fez um sin-al de aprovação com a cabeça e levantou a mão, indicando que eu parasse.

Quando me conduziu para fora do banheiro, vi que havia guardado todas as minhas fotos e que a caixa tinha desaparecido. À meia-luz, velas espalhadas pelo chão, lá estava ela, enorme: a cama. Pronta... à espera.

 

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Eu precisava descobrir um jeito de manipulá-lo. De ganhar tempo até que alguém me achasse. Alguém iria me achar.

– Se esperarmos até nos conhecermos melhor – falei –, vai ser mais especial.

– Relaxe, Annie, não precisa ter medo.

Ele parecia um senhor de respeito, dizendo que o dia está perfeito para matar toda a vizinhança.

Virou-me de costas e começou a abrir o zíper do vestido. Desatei a chorar. Nada de soluços, apenas um ganido idiota. Enquanto despia minhas costas, ele beijava meu pescoço. Fiquei trêmula. Ele riu.

Deixou meu vestido cair no chão. No momento em que abriu o fecho do meu sutiã, tentei me afastar, mas ele me segurou, enlaçando meu abdômen. Esticou a outra mão e me abraçou, alcançando meu seio. As lágrimas encharcavam meu rosto. Quando uma delas escorreu sobre sua mão, ele me virou de frente.

Levou a mão aos lábios e cobriu o ponto úmido com a boca. Ficou assim por um instante.

– Salgada – disse sorrindo.

– Pare. Por favor, pare com isso. Estou com medo.

Virou-me novamente e me fez sentar na lateral da cama. Em mo-mento algum me olhou nos olhos... olhou apenas para meu corpo. Uma gota de suor escorreu pelo rosto dele e pingou na minha coxa.

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Minha pele queimou, eu quis desesperadamente enxugá-la, mas tinha medo de me mexer. Ele ajoelhou no chão e começou a me beijar.

Tinha um gosto rançoso de café velho.

Eu me contorci e tentei me afastar, mas ele pressionou os lábios contra os meus, cada vez com mais força.

Finalmente, deixou minha boca em paz. Agradecida, enchi os pul-mões de ar, que ficou preso na minha garganta, pois ele havia se le-vantado e começava a tirar a roupa.

Não era muito forte, mas tinha músculos definidos como os de um atleta, e o corpo não tinha um fio de cabelo sequer. A pele lisa brilhava à luz das velas. Ele me olhou como se esperasse que eu dissesse algo, mas o máximo que eu conseguia fazer era olhar para ele, enquanto tremia violentamente. O pau dele começou a ficar mole.

Agarrou-me pela parte posterior dos joelhos e me empurrou de cos-tas na cama. Enquanto usava o joelho para forçar a abertura das min-has pernas, prendeu um dos meus braços entre o corpo dele e o meu e segurou o outro, acima da minha cabeça, com a mão esquerda, mantendo o cotovelo pressionado sobre meu bíceps.

Tentei escorregar, erguendo os quadris, mas ele prendeu minha coxa com a canela. A mão que estava livre começou a puxar minha calcinha.

Minha mente não parava de trabalhar, buscando freneticamente tudo o que eu sabia sobre estupradores. Era algo relacionado a poder. Eles precisavam se sentir poderosos, mas existiam diversos tipos de estupradores e nem todos queriam as mesmas coisas. Eu não con-seguia me lembrar. Por que não me lembrava? Se não pudesse fazer com que ele parasse, será que conseguiria ao menos fazer com que usasse preservativo?

– Pare! Eu tenho... – O tórax dele pressionou meu punho contra meu estômago. Completei, arfando: – uma doença. Uma doença venérea. Você vai se contaminar se...

Arrancou minha calcinha. Comecei a me contorcer, enlouquecida. Ele sorriu.

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Sem ar, parei de me debater e respirei fundo. Eu precisava pensar, me concentrar, achar um meio de...

O sorriso começou a desaparecer.

Então, entendi. Quanto mais eu reagia, mais ele se divertia. Eu me forcei a parar de tremer. Parei de chorar. De me mexer. Pensei em aviões. Não demorou muito para ele notar.

Fez tanta pressão com o cotovelo que achei que meu braço fosse quebrar, mas não emiti um som sequer. Arreganhou minhas pernas e tentou me penetrar, mas tinha perdido a ereção. Notei uma mancha em seu ombro, com um único fio de cabelo espetado.

Rangeu os dentes, tensionou os maxilares e gemeu:

– Diga meu nome.

Eu não disse. Sem chance de eu chamar aquele maluco pelo nome do meu pai. Ele podia controlar meu corpo, mas eu não deixaria que controlasse minhas palavras.

– Diga o que você está sentindo.

Continuei a encará-lo.

Virou meu rosto de lado.

– Não olhe para mim.

Tentou me penetrar mais uma vez. Pensei na mancha com o fio de cabelo. O corpo inteiro era raspado, exceto aquela mancha. Um pavor imenso tomou conta de mim, transformando-se em histeria, e logo comecei a rir. Ele poderia me matar, mas eu não conseguia parar de rir. O riso se transformou em gargalhada.

Ficou imóvel em cima de mim. Meu olhar estava longe, voltado para a parede. Com a mão que estava livre, tentou me amordaçar. Virou meu rosto de volta para ele, comprimindo meus lábios contra os dentes. Aumentou a pressão da mão. Senti um gosto salgado.

– Cachorra! – gritou, expelindo saliva no meu rosto. Então sua fisionomia voltou a se alterar. Ficou sem vida. Ele pulou da cama, apagou as velas e foi para o banheiro. Logo depois, ouvi o barulho do chuveiro.

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Corri até a porta da frente e tentei girar a maçaneta. Estava trancada. O chuveiro foi desligado. Meu coração tornou a disparar e corri de volta para a cama. Com o rosto virado para a parede, chupei o sangue do lábio machucado e chorei. Lágrimas e sangue se mistur-aram. A cama cedeu quando ele se deitou ao meu lado.

Suspirou.

– Deus do céu! Adoro este lugar. É tão tranquilo... reforcei o isola-mento térmico. Não dá nem para ouvir os grilos.

– Por favor, me leve para casa. Eu não conto para ninguém. Juro. Por favor.

– Aqui, eu tenho sonhos fantásticos.

Aproximou-se de mim, passou a perna por cima da minha e segurou minhas mãos, até cair no sono. Fiquei ali deitada com aquele maluco nu me abraçando, querendo que a cama se abrisse e me engolisse in-teira. Meu braço doía, meu rosto doía, meu coração doía. Chorei até pegar no sono.

 

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Ainda temos um tempinho, mas para mim chega. Ah! Sim, lembro que semana que vem não vai ter sessão, por causa do Natal. Tudo bem... preciso mesmo dar um tempo dessa bosta. Quer saber? Preciso voltar lá. A rejeição é tão mais fácil... pelo menos, posso me enganar, pensar que é mais fácil... durante meio segundo. Rejeitar essa merda é como represar um rio turbulento. Filetes de água começam a vazar pelas rachaduras e de repente a comporta estoura. Agora que estou deixando a água escoar um pouco, será que a represa vai ceder? Se soltar tudo que está aqui dentro, será que vou descer com a enxur-rada? Por enquanto, acho que vou é para casa, tomar uma ducha. E, depois da primeira, provavelmente vou tomar outra.