Identidade roubada

Chevy Stevens · Capítulo 23 de 30

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Identidade roubada

V I G É S I M a P R I M e I R a S e S S Ã o

VIGÉSIMA PRIMEIRA SESSÃO

 

Finalmente falei com o Gary, doutora, mas não creio que me sinta melhor. Ele não me disse onde esteve – não perguntei, ele não falou –, o que me deixou meio chateada. Quando comentei o horário dos arrombamentos e minha nova teoria sobre o “amigo do Maníaco”, ele disse que o garoto talvez tivesse mudado o horário para despistar a polícia, ou que talvez aquele fosse um arrombamento “de oportunid-ade”: o ladrão podia estar passando pela vizinhança no momento em que me viu sair com a Emma.

Eu ainda remoía a questão quando ele disse:

– Esses caras geralmente trabalham sozinhos.

Geralmente? Perguntei ao Gary qual era o sentido daquele geral-mente, e ele disse que conhecia alguns casos em que dois caras trabal-havam juntos, um descobrindo a oportunidade, outro cometendo o roubo, mas que duvidava que isso pudesse ter acontecido comigo, pois trabalho em dupla não coincidia com o perfil do Maníaco. Então, ele perguntou:

– E, além do comentário de que tinha sido difícil conseguir o chalé, ele nunca fez ou disse qualquer coisa que sugerisse a participação de um comparsa, certo?

– Acho que não. Mas ele tinha uma antiga foto minha, e isso está me levando à loucura.

– Que foto? Você nunca falou nessa foto.

Gary então me bombardeou com as perguntas que tenho feito a mim mesma: “Onde o Maníaco teria conseguido a foto?” “Por que ele queria aquela foto especificamente?” E aí ele disse uma coisa que ainda não faz sentido:

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– Isso quer dizer que qualquer pessoa teria acesso àquela foto, se ela estava no seu escritório na imobiliária.

A última pergunta foi:

– Alguém sabe que você trouxe a foto de volta?

Quando respondi que não, ele me orientou a manter a questão em sigilo.

 

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Segundo me lembro, foi a primeira vez que me senti pior depois de ter falado com ele. Fiquei com um mau humor tão grande que acabei descontando no Luke. Já não sei o que está acontecendo com a gente. Eu achava que nosso encontro e uma conversa franca nos aproximari-am, mas atualmente, quando conversamos, a coisa fica meio sem graça, e a última vez que ele telefonou encerrei logo o papo, dizendo que estava querendo dormir. E não estava sequer cansada.

Pelo jeito, não consigo esquecer que Luke se atrasou naquele dia. Será que ele ficou conversando com algum cliente, enquanto eu era se-questrada? Por que ele não foi até o plantão assim que viu que eu não estava em casa? E por que diabos não chamou a polícia ao perceber que havia algo errado? Ele poderia ter esperado para telefonar para minha mãe. Estou sendo extremamente crítica, pois sabe Deus qual seria minha reação se eu estivesse no lugar dele, mas acho que cada segundo de hesitação diminuiu minhas chances de ser encontrada.

Na época em que tínhamos uma relação, eu achava o Luke um cara tranquilo, mas agora começo a pensar se ele não é indiferente. Ele se queixa de uma garçonete, de algum cozinheiro, mas não faz nada a respeito.

Durante todo o tempo em que estivemos juntos, Luke sempre foi paciente, afetuoso, sincero... sempre muito gentil. Às vezes – por ex-emplo, na ocasião em que fui sequestrada – eu me perguntava se não merecia algo além de gentileza, mas na montanha eu só pensava no cara maravilhoso que ele era. Agora, ele continua paciente, afetuoso e

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sincero... é o homem mais gentil que conheço. Então, que diabos há comigo?

 

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Minha primeira imagem após o colapso nervoso que sofri na delega-cia foi de minha mãe e Gary ao pé da cama, no hospital. Nenhum sinal de Wayne. Só percebi a presença de Diane, sentada numa cadeira ao meu lado, quando ela disse:

– Vejam quem acordou!

Ela me ofereceu um sorriso amável e me abraçou, o que me fez ficar vermelha. Então, minha mãe viu que eu estava acordada e quase ar-rancou o soro do meu braço, pois pulou em cima de mim, chorando:

– Minha menina, minha Annie!

Não sei que merda os médicos tinham me dado, mas comecei a sen-tir náusea, e disse que iria vomitar. Em seguida, caí no choro. Um médico tentou pegar no meu braço, mas eu o empurrei. Depois disso, várias outras mãos tentaram me segurar, e lutei contra todas elas. Senti uma picada no braço. Quando acordei de novo, meu padrasto es-tava sentado ao meu lado, segurando nas mãos o chapéu de caubói. Assim que abri os olhos, ele pulou da cadeira.

– Vou chamar a Lorraine... ela saiu para dar um telefonema.

– Espere que ela acabe – murmurei. Minha garganta estava dolor-ida de tanto que havia gritado, e os medicamentos a haviam deixado ressecada. – Você pode me dar um pouco de água?

Ele deu um tapinha no meu ombro e disse:

– É melhor eu chamar uma enfermeira. – Dito isso, saiu porta afora, mas os medicamentos voltaram a fazer efeito e eu já dormia quando ele voltou.

Hospitais são lugares estranhos. Médicos e enfermeiras tocam e cu-tucam o corpo da gente em pontos que jamais permitiríamos, e, naquele primeiro dia, tive ao menos dois ataques de pânico. Deram-me algo para combater a ansiedade, algo para dormir, que no dia

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seguinte me causava uma sensação de ressaca, e então algo para di-minuir o enjoo. O hospital era pequeno, de modo que geralmente eu era atendida pela mesma enfermeira, que sempre me chamava de “querida”, falando com extrema meiguice. Meus olhos sempre se en-chiam de lágrimas, e eu sentia vontade de pedir a ela que parasse com aquilo, mas, envergonhada, eu virava o rosto de lado até que ela saísse do quarto. Antes de sair, ela passava a mão cálida pelo meu braço e apertava levemente meus dedos.

No segundo dia no hospital, quando eu estava um pouco mais calma, Gary me disse que a Promotoria estava examinando as de-clarações que eu tinha prestado na delegacia, a fim de decidir se pesaria sobre mim alguma acusação.

– Acusação? Qual?

– Houve uma morte, Annie. Apesar das circunstâncias, é preciso abrir um processo.

– Vocês vão me prender?

– Não creio que a Promotoria siga nessa direção, mas é meu dever informá-la sobre o que está acontecendo.

De início, fiquei assustada, e me arrependi de não ter pedido um ad-vogado, mas, quando olhei para o rosto de Gary ruborizado, notei que ele estava constrangido como o diabo.

– Ora! Se a Promotoria decidir me acusar, vai fazer papel de boba.

– Nisso você tem razão – disse Gary sorrindo.

Ele começou a fazer algumas perguntas sobre o Maníaco e, quando cocei o pescoço, notei que estava sem o colar.

– Os médicos retiraram o colar quando você foi hospitalizada – ex-plicou Gary. – Será devolvido quando receber alta... está guardado com seus demais pertences.

– O colar não era meu. Foi ele que me deu... disse que tinha sido comprado para outra moça.

– Que outra moça? Por que você não disse nada sobre isso antes?

Magoada pelo tom de voz brusco, respondi:

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– Eu me acostumei a usar o colar e me esqueci... Talvez, se vocês di-minuíssem um pouco a intensidade do interrogatório, eu tivesse uma chance de falar no assunto. Além disso, caso não tenha notado, eu est-ive ligeiramente fora de mim. – Mostrei o braço com o soro espetado.

– Desculpe, você tem razão, Annie – disse ele num tom mais ser-eno. – Você tem sido bombardeada com perguntas difíceis, mas é im-portante que nos conte tudo.

Nos dias seguintes, procurei falar tudo o que sabia sobre a história do Maníaco, mencionando inclusive a mãe, o pai e a mulher que pilo-tava helicóptero. Gary fazia muitas perguntas e, às vezes, quando se inclinava em minha direção, seu corpo parecia tenso e rígido, mas ele mantinha um tom de voz calmo e me deixava prosseguir segundo meu próprio ritmo. Quando falávamos nos estupros, ou no sistema de horários e castigos do Maníaco, ele apertava a caneta enquanto fazia anotações, mas não perdia a expressão facial de neutralidade. Na maioria das vezes, eu não conseguia encará-lo. Eu fixava o olhar na parede, contava as ranhuras e narrava os abusos sofridos como quem lista os ingredientes de uma receita vinda do inferno.

Minha mãe insistia em ficar ao meu lado sempre que Gary falava comigo, e pedia a meu padrasto que fosse buscar um café. Nunca vi um sujeito parecer tão aliviado. Se eu hesitasse um único segundo di-ante de uma pergunta de Gary, minha mãe intercedia, dizendo que eu parecia cansada ou pálida, e sugeria que chamássemos um dos médi-cos. Mas a meu ver ela é que parecia pálida, sobretudo quando eu fa-lava nos estupros. Ela criou a mania de prender a manta com firmeza em volta do meu corpo. Quanto mais duras as palavras, mais ela ajustava a manta, como se quisesse prender as palavras dentro de mim. O gesto não me agradava, mas eu sabia que ela se sentia muito impotente ao ouvir tudo o que eu tinha passado, e, que droga!... se aquilo fazia com que ela se sentisse melhor... Além do mais, eu não tinha forças para me opor.

 

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No terceiro dia no hospital, Gary me disse que as adaptações que o Maníaco tinha feito no chalé haviam ajudado a convencer a polícia de que eu falava a verdade, e disse também que tinha quase certeza de que a Promotoria não apresentaria qualquer acusação contra mim. Àquela altura, Diane já não o acompanhava e Gary comentou que ela havia retornado a Clayton Falls, a fim de cuidar de “outros aspectos da investigação”.

Eu tentava ser paciente quando Gary me pedia que descrevesse as mesmas situações repetidas vezes, pois sabia que estava sendo difícil reconhecer a identidade do Maníaco. O fato de não haver impressões digitais dele era um grande obstáculo. Uma amostra da ponta do dedo dele foi coletada para exame de DNA, mas Gary disse que esse tipo de análise só é útil quando existe algo com que se possa comparar e, nesse sentido, o banco de dados não tinha pista alguma. O rosto do Maníaco estava em péssimo estado depois de seu corpo ter permane-cido dentro do galpão de metal em pleno verão. Uma foto foi tirada e em seguida um retrato falado foi feito, mas a polícia ainda não tinha chegado a qualquer conclusão. Quando perguntei sobre os exames da arcada dentária, Gary afirmou que não haviam sido conclusivos. Nem mesmo a van ajudava muito. O veículo e as placas tinham sido roubados no estacionamento de um shopping center que não contava com câmeras de segurança.

– Você acha que a gente ainda vai descobrir quem ele era? – per-guntei um dia. – Ou quem eram as outras garotas que ele machucou?

– Tudo do que você se lembrar vai ser de grande ajuda.

Eu me aprumei na cadeira para poder encará-lo.

– Não precisa repetir o que está no manual de treinamento da polí-cia... Eu quero saber o que você acha. O que você realmente acha.

– Sinceramente, não sei, Annie. Mas vou fazer o que estiver ao meu alcance para lhe dar uma resposta. Você merece. – Havia nos olhos dele uma determinação fervorosa que até então eu não tinha visto. – Seria bem mais fácil se sua mãe não ficasse aqui enquanto conversam-os. Você concorda com isso?

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– Concordo. É difícil falar dessas coisas diante dela.

Quando minha mãe voltou, cheirando a cigarro, Gary ponderou:

– Acho que seria melhor se eu conduzisse a entrevista sozinho, Lorraine.

Ela segurou minha mão e disse:

– A Annie precisa de alguém da família ao lado dela.

– Isso tudo deixa a senhora muito abalada, mãe. – Apertei sua mão. – Eu vou ficar bem.

Ela correu o olhar de Gary para mim.

– Se é isso que você quer, Annie... mas o Wayne e eu vamos ficar sentados ali fora, caso você precise de nós.

Em meio às entrevistas conduzidas por Gary e às cutucadas dos médicos, aqueles dias são hoje uma imagem embaçada. Era de-sagradável não poder deixar o hospital, visto que eu estava de-sidratada, sem falar nos outros problemas. Depois do meu colapso nervoso na delegacia e da minha reação no hospital, os médicos tin-ham medo de que eu fosse uma ameaça a mim mesma e decidiram me manter internada, em observação. Após alguns pesadelos terríveis e mais um ataque de pânico, provocado por uma das conversas com Gary, os médicos começaram a brincar com as dosagens: eu alternava estados de excitação e depressão, e era cada vez mais difícil separar sonho e realidade. Eu escutava o choro de um bebê e achava que tin-ham encontrado minha filha, ou acordava com um médico inclinado sobre mim e, em pânico, pensando que fosse o Maníaco, empurrava-o para longe. Voltei a viver sob terror, pois os últimos resquícios do meu autocontrole se esvaíam, rendendo-se aos medicamentos.

Foi em meio àquele caos interminável, provocado pelas perguntas, pela presença de uma mãe superprotetora e pelos médicos ávidos por administrar medicamentos, que Luke e eu tivemos nosso estranho en-contro. Christina se livrou de tudo aquilo pois estava num cruzeiro no Mediterrâneo. Tia Val tinha vindo me visitar e trouxe um enorme buquê de flores, mas minha mãe só permitiu 15 minutos de conversa fiada, e disse a ela que eu precisava descansar. Na verdade, achei tia

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Val mais sensível do que de nunca, e ela até me perguntou se poderia fazer algo por mim, “qualquer coisa”. Ela deve ter dito algo que abor-receu minha mãe, pois só voltei a vê-la depois que recebi alta.

Eu estava no hospital havia oito dias quando minha mãe e Wayne voltaram para Clayton Falls. O hotel era caro demais para eles. Depois que foram embora, eu me dei conta de que estava deixando minha mãe, a polícia e os médicos decidirem o que era melhor para mim. Estava na hora de eu mesma tomar algumas decisões.

Na manhã seguinte, não aceitei os medicamentos trazidos pela en-fermeira. O médico foi chamado e disse que, se não tomasse os remé-dios, eu teria de concordar em consultar um terapeuta. Até aquele mo-mento eu havia recusado assistência psicológica, mas resolvi dizer sim a qualquer coisa que me fizesse sair dali.

O hospital era tão pequeno que não contava com uma ala de psiqui-atria, nem com um terapeuta residente. Portanto, chamaram um jovem, provavelmente recém-formado. Apesar das perguntas ridícu-las, eu me apresentei como alguém absolutamente são, embora derramasse lágrimas suficientes para que ele não pensasse que eu es-tava lidando bem demais com aquilo tudo. Eu preferia caminhar sobre brasas a dizer àquele cara a verdade sobre como eu me sentia.

Os médicos não me autorizavam a ler os jornais e o tédio me deixava cada vez mais irritada. Gary começou a trazer revistas de moda sempre que vinha falar comigo, provavelmente para se defender de mim.

– Quer que eu recorte algumas fotos desses terninhos? – perguntei a primeira vez que ele me entregou uma revista.

Sorriu e atirou sobre a cama algumas barras de chocolate.

– Tome... talvez essas barrinhas consigam manter ocupada essa lín-gua afiada.

Começou a me trazer também café, misturado com um pouco de chocolate quente, além de palavras cruzadas. Eu não me incomodava tanto com as perguntas quando ele me trazia presentes. Na realidade, ele estava se tornando o ponto alto dos meus dias. E a voz dele, suave

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e meiga, só ajudava nessa questão. Às vezes, eu fechava os olhos e prestava atenção na voz. Ele precisava repetir algumas perguntas, mas a voz nunca soava irritada... intrigada, sim; irritada, nunca.

Quando pedi que me falasse do seu trabalho e do posto que ocu-pava, ele disse que havia um sargento, dois cabos e alguns policiais trabalhando sob sua supervisão. Ele era o chefão. Não de toda a del-egacia, mas da Unidade de Crimes Hediondos, e isso era reconfort-ante. Mas ele sempre se fechava quando eu fazia perguntas específicas sobre a investigação, e dizia que me responderia assim que tivesse “in-formações concretas”.

Uma vez, entrou na sala bem no final de uma das minhas sessões com o terapeuta e quis logo ir embora, mas pedi que ficasse. O tera-peuta me fez a seguinte pergunta: “Você tem raiva do homem que a sequestrou?” Postado atrás do sujeito, Gary suspendeu uma das so-brancelhas, o olhar fixo em mim, e tive que me segurar para não rir.

Depois de duas semanas de médicos, gelatina de hospital e passeios dentro do quarto, recebi o laudo final do terapeuta, que não via motivo que me impedisse de ir para casa. Mas os médicos precisavam avaliar o diagnóstico antes de me darem alta. Minha liberdade ali não era maior do que quando estava na montanha.

Acho que o terapeuta declarou que meus atos eram “compatíveis” com o trauma sofrido, e a Promotoria havia decidido, oficialmente, não apresentar denúncia contra mim. No fim das contas, aquele tera-peuta serviu para alguma coisa. Mas os médicos ainda não tinham definido a data da minha liberação.

Gary me disse que a Polícia Montada canadense estava bastante in-teressada no meu caso, pois queria descobrir o máximo sobre o Maníaco. Não apenas na expectativa de solucionar casos antigos, mas também para auxiliar investigações futuras. Às vezes, suspendíamos a conversa sobre a montanha e ele me atualizava em relação ao que es-tava acontecendo pelo mundo, ou então ficávamos fazendo palavras cruzadas juntos. Dias se passaram desde o laudo do terapeuta.

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– Você precisa me tirar daqui – eu disse a Gary quando ele chegou de manhã trazendo dois cafés. – O terapeuta afirmou que eu posso ir para casa... Esses médicos estão de sacanagem comigo e eu estou fic-ando maluca. Estou sendo tratada como a porra de uma prisioneira. Eu sou a vítima aqui... isso tudo é uma grande babaquice.

Ele depositou o café sobre a mesa de cabeceira e, com um sinal afirmativo de cabeça, saiu porta afora. Meia hora mais tarde, estava de volta.

– Você só tem que esperar mais uma noite. Amanhã estará livre.

Ao me sentar na cama, perguntei:

– Você não atirou em ninguém, atirou?

– Nada tão drástico. Só uns tirinhos à toa...

Algo me dizia que não tinha sido tão simples, mas, antes que eu pudesse pedir mais detalhes, ele pegou as palavras cruzadas na mesa de cabeceira, recostou-se na poltrona e disse:

– Humm. Acho que você não é tão boa quanto pensa... não con-seguiu terminar esta aqui!?

– Ei! Você chegou e me interrompeu. Eu estava indo muito bem.

No momento em que ele cruzou as pernas, flagrei um sorriso furtivo no seu rosto e percebi que ele tinha conseguido habilmente mudar de assunto.

 

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Minha mãe disse, ainda no hospital, que minha casa estava alugada. Fiquei tão feliz ao saber que não havia sido vendida que só pensei no fato de não ter onde morar no dia em que Gary me disse que eu rece-beria alta. Pensei em pedir a Christina para ficar na casa dela, mas ela ainda não tinha voltado do cruzeiro. Então minha mãe telefonou e disse que ela e Wayne iriam me buscar. Eu sabia que haveria uma

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grande cena se eu dissesse que não queria morar no trailer. Portanto, resolvi lidar com a questão depois que estivesse em casa.

Na manhã em que recebi alta, Gary nos alertou de que provavel-mente haveria fotógrafos esperando do lado de fora, e sugeriu que saíssemos pelos fundos. Mas Wayne e minha mãe tinham entrado pela frente, e não haviam visto nenhuma câmera. Naturalmente, assim que pusemos o pé na rua, um enxame de fotógrafos veio em nossa direção. Minha mãe caminhava na minha frente, pedindo à imprensa que “nos desse um tempo”. Mas a voz dela era quase inaudível enquanto tentávamos atravessar a multidão agitada.

Paramos num posto de gasolina na saída de Port Northfield e minha mãe entrou para pagar enquanto Wayne abastecia o carro. Eu me escondi no banco traseiro. Quando voltou, minha mãe jogou um jor-nal por cima do banco e disse, sacudindo a cabeça:

– Alguém deu com a língua nos dentes.

CORRETORA DESAPARECIDA DEIXA O HOSPITAL. Sob a manchete, via-se uma foto antiga minha. Enquanto Wayne se afastava do posto de gasolina, li o artigo em estado de choque. Uma “fonte não identificada” tinha revelado ao jornal que eu receberia alta naquele dia. Segundo o sargento Gary Kincade, de Clayton Falls, eu não estava sob investigação... eu era uma mulher corajosa... e a polícia se empen-hava na identificação do sequestrador morto.

Nunca revelei aos tiras o nome da minha bebê, mas alguém tinha informado ao jornal que eu havia tido uma filha, pois o artigo citava a opinião de um especialista sobre o efeito que a morte da criança havia tido sobre mim. Atirei o jornal no chão do carro e pisei-o com bastante força.