Identidade roubada
D É C I M a P R I M e I R a S e S S Ã o
DÉCIMA PRIMEIRA SESSÃO
Vou lhe dizer uma coisa: acho que eu tenho passado bem ultima-mente. Ontem à tarde, senti vontade de me enfiar na cama, mas peguei a coleira da Emma e a levei para dar uma volta na praia, em vez daqueles nossos passeios de sempre no bosque, onde tenho cer-teza de que não vou encontrar absolutamente ninguém.
Nós até fizemos amigos. Bem, a Emma fez... ela tem uma queda por cachorro pequeno, e sempre se esfrega em todos os que aparecem. Para os grandes, ela nem sempre dá bola, mas, quando vê um poodle, ela se sente no paraíso. Evitei interagir com as pessoas, mantendo o olhar distante ou olhando apenas para os cães ou para meus pés en-quanto sacudia a coleira para apressá-la, mas, quando a Emma insis-tiu em se aproximar de um cocker spaniel, eu parei e até bati um papo com os donos, um casal idoso. O assunto foi típico de donos de ca-chorro: Qual o nome dele? Timber? Quantos anos ele tem? Mas porra, doutora! Algumas semanas atrás, eu preferiria empurrar aquele casal mar adentro a ter qualquer tipo de interação com eles.
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Logo que voltei, tive que passar um tempo na casa da minha mãe, pois a minha estava alugada. Foi um alívio constatar que ela não tinha sido vendida, mais uma mentira do Maníaco. Felizmente, tamanha era minha paranoia de perder a casa que pegara toda a comissão relativa a uma venda e depositara numa conta à parte, para ter no banco o valor de um ano das prestações do financiamento. A financeira continuou debitando as parcelas mês a mês, e achei que, quando meu saldo zer-asse, a casa seria tomada.
Perguntei à minha mãe onde estavam minhas coisas.
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– Tivemos que vender tudo, Annie. Como você acha que consegui-mos dinheiro para pagar sua busca? A maior parte das doações foi para o pagamento do resgate. Precisamos usar todo o dinheiro do aluguel também.
E ela não estava brincando. Tudo tinha sido vendido. Imagino que a qualquer hora vou dar de cara com uma garota usando minha jaqueta de couro.
Eu estava financiando a compra do meu carro e, assim que foi lib-erado pela polícia, voltou diretamente para a concessionária. Agora estou dirigindo aquela merda que está lá fora, até decidir o que vou fazer... ter um carro de luxo já não me parece importante.
Eu tinha uma bela poupança, mas todas as minhas contas estavam em débito automático. Portanto, sobrou pouco. Meu chefe entregou à minha mãe alguns cheques de vendas que só foram fechadas depois que fui sequestrada. Ela tentou descontá-los para ajudar no resgate, que agora foi doado à caridade, mas o banco se recusou. Daí, ela teve que depositar dinheiro na minha conta... o que foi bom, senão eu teria falido.
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Alguns dias atrás, eu estava abraçada com Emma no sofá quando o telefone tocou. Eu não queria falar com ninguém, mas vi o número da minha mãe no visor e sabia que ela não iria parar de ligar enquanto eu não atendesse.
– Como está minha Annie?
– Bem. – Eu queria contar que estava cansada, porque na noite an-terior... a quinta noite seguida em que dormi na minha cama... um galho tinha batido na janela e passei o resto da noite no closet, me perguntando se algum dia voltaria a me sentir segura.
– Escute, eu tenho uma ótima notícia... o Wayne teve uma ideia sensacional. Eu não posso dar os detalhes antes que a coisa seja final-izada, mas ele está diante de algo grande.
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Seria de esperar que um dia os dois percebessem que Wayne não tem o toque de Midas. Às vezes, eu quase sinto pena dele. Wayne não é mau sujeito, e não é burro. É uma daquelas pessoas que querem ser alguma coisa na vida, mas, em vez de sentar o rabo e trabalhar, ele tenta descobrir o caminho mais rápido para o sucesso, e aí acaba cor-rendo em círculos.
Quando eu era criança, Wayne me levava com ele quando queria convencer alguém sobre um novo investimento. Eu sentia vergonha por ele. Wayne ficava a um palmo do rosto da pessoa com quem es-tava falando e, quando ela tentava se afastar, ele aumentava o tom de voz. Nos dias seguintes a esses encontros, ele andava pela casa, todo feliz, checando as mensagens na secretária eletrônica um milhão de vezes... e ele e minha mãe ficavam acordados até tarde, bebendo e brindando. Mas nada acontecia.
De vez em quando, Wayne fazia algo que me levava a pensar que ele não era um fracasso total. Por exemplo, quando eu tinha 15 anos, eu queria muito ir a um show, e passei o fim de semana inteiro recol-hendo garrafas na vizinhança. Na segunda-feira, dia em que o in-gresso tinha que ser comprado, levei as garrafas ao depósito, mas o dinheiro não chegou nem perto do valor que eu precisava. Eu me tran-quei no quarto e fiquei chorando. Quando finalmente reagi, encontrei um envelope embaixo da porta, com a letra de Wayne e um ingresso. Quando agradeci, ele ficou vermelho e disse “Tudo bem!”.
Assim que comecei a ganhar dinheiro com os imóveis, tentei ajudá-los. Comprei pneus novos, computador novo, geladeira e passei a deixar dinheiro para contas e despesas de mercado. No começo, foi bom poder dar uma ajuda, mas aí eu percebi que era o mesmo que jogar dinheiro num buraco, um buraco que levava até o próximo plano imbecil para ganhar dinheiro fácil. Depois que comprei a casa, não pude mais ajudar tanto. Então sentei com eles e mostrei como fazer um orçamento. Minha mãe olhou para mim como se eu estivesse falando uma outra língua. Eles devem estar se virando de algum jeito, pois o estilo de vida dos dois não mudou nada.
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Minha mãe notou a falta de entusiasmo na minha voz e leu meus pensamentos.
– Você não diz nada?
– Desculpe... espero que dê certo.
– Desta vez, estou com uma sensação boa.
– Você disse a mesma coisa da última vez.
Ela ficou calada durante alguns instantes, e então disse:
– Essa atitude negativa não me agrada, Annie. Depois de tudo que aquele homem fez por você durante o tempo em que esteve desapare-cida... depois de tudo que nós dois fizemos... você poderia no mínimo mostrar um pouco mais de interesse.
– Desculpe. Não estou nos melhores dias.
– Talvez, se você saísse de casa de vez em quando e não ficasse o dia todo largada, seu humor melhorasse.
– Acho que não. Sempre que tento sair, algum repórter babaca pula em cima de mim, sem falar nos agentes de Hollywood com suas ofer-tas furadas.
– Eles têm que ganhar a vida, Annie. Se não fossem esses repórteres que você tanto odeia, mas que pagam pelas suas entrevistas, você não teria como se manter, não é?
Ninguém melhor do que a minha mãe para fazer com que eu me sinta um lixo. O pior é que ela estava certa. Os abutres pagavam min-has despesas, agora que minha poupança tinha quase chegado ao fim. Mas eu não me acostumava com a ideia de me ver no jornal ou na tela. Minha mãe recortava e guardava cada entrevista... por fim, ela con-seguiu fazer um álbum só meu... e gravava cada aparição na TV. Ela me deu as cópias, mas assisti a apenas dois programas e enfiei o rest-ante numa gaveta.
– Seus 15 minutos de fama estão acabando, Annie. Como você vai arrumar dinheiro? E manter a casa?
– Eu descubro um jeito.
– Por exemplo?
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– Qualquer coisa, mãe. Eu me viro. – Mas o que eu faria? Meu es-tômago revirava.
– Sabe, falar com um agente não é má ideia. Talvez você consiga al-gum adiantamento.
– Você quer dizer algum adiantamento para eles. O agente com quem falei queria que eu abrisse mão de todos os meus direitos... Se eu concordasse, os produtores poderiam fazer o que bem entendessem.
– Então fale diretamente com algum produtor.
– Não quero falar com nenhum produtor, mãe. Por que você não entende isso?
– Meu Deus! Annie, eu só fiz uma pergunta. Você não precisa vir com quatro pedras na mão.
– Desculpe. – Respirei fundo. – Talvez eu precise mesmo sair um pouco mais. Vamos mudar de assunto antes que eu pire de vez. – For-cei uma risada. – Então, como vai seu jardim?
Dois assuntos sobre os quais minha mãe adora conversar: jardin-agem e culinária. São também duas atividades que envolvem bastante carinho. Para minha mãe, é bem mais fácil se dedicar à cozinha e às plantas do que a mim.
Quando eu era criança, lembro que sentia até ciúmes das rosas. Da maneira como ela falava com as flores, tocava, examinava, e demon-strava tanto orgulho quando uma ganhava um prêmio na feira local. Já era difícil ter uma irmã vencedora, sem falar na prima, mas como é possível competir com as rosas? Às vezes, eu me perguntava se a afeição não decorria do fato de ela seguir à risca receitas de cozinha, ou podar as plantas, e tudo sair conforme o gosto dela, ao contrário da maioria das coisas na vida, principalmente em se tratando de crianças.
É verdade que ela tentou me ensinar a cozinhar, e eu queria apren-der, mas minha falta de habilidade com as panelas só era superada pela minha incompetência no jardim. Que droga! Antes da experiência na montanha, eu não conseguia sequer cuidar de uma planta num
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vaso. Tudo isso mudou lá, quando a primavera chegou, em meados de abril, e o Maníaco me deixou sair e fazer uma horta.
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Eu estava perto do sétimo mês de gravidez, e parecia que meus ol-hos iam explodir, em consequência da luz e da beleza da primavera. Quando senti pela primeira vez aquele ar puro da montanha – fazia meses que eu só respirava fumaça e parede de madeira –, meu nariz chegou a estranhar o perfume dos pinheiros ao sol, das flores sil-vestres e da terra coberta de musgo sob meus pés. Eu queria enfiar a cara no musgo. Que droga! Eu queria comer musgo.
Se eu estivesse mais ao norte, ou fora da ilha, ainda haveria neve, mas a temperatura começava a subir, e tudo era exuberante e verde em todos os tons possíveis: salva, esmeralda, pinheiro, musgo, até o ar tinha um cheiro verde. Eu não sabia se o fato de estar provavelmente perto de casa me consolava ou piorava ainda mais a situação.
Na primeira vez, ele não permitiu que eu me afastasse do chalé, mas não tinha como impedir que meus olhos explorassem a área. As árvores ao redor eram tão densas que eu não conseguia ver se havia outras montanhas em volta. Em alguns pontos, em meio ao musgo, era possível ver a relva, mas no terreno predominavam musgo e pedra. Deve ter sido difícil cavar uma fossa ali, mais ainda um poço, mas eu achava que nossa água viesse do rio. Na beira da mata, enxerguei alguns pedaços de tronco e deduzi que alguém já havia cortado árvores no local. Não conseguia ver nenhuma estrada, mas ex-istiria algum ponto de acesso nas proximidades.
O rio ficava à direita do chalé, no mesmo lado dos canteiros da horta, ao pé de um leve declive. A água tinha uma linda tonalidade de jade e, a julgar por alguns pontos em que o curso era mais tranquilo e a água adquiria um tom verde-escuro, quase negro, havia locais mais profundos onde era possível nadar.
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Visto de fora, o chalé era pitoresco, com janelas, persianas e floreir-as. Duas cadeiras de balanço ficavam lado a lado na varanda coberta. Talvez algum casal tivesse construído o chalé. Pensei na mulher, que gostava de floreiras e tinha providenciado o solo fértil para a horta. Pensei no que ela acharia se soubesse quem morava no chalé agora.
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Meu parto começou enquanto eu trabalhava na horta. Ele me deixava sair, evidentemente sob vigilância, para molhar a horta e cor-tar o mato que crescia em torno dos legumes, que aliás estavam muito bonitos. Se dependesse de mim, eu ficaria o dia todo mexendo nos canteiros. Eu nem me importava quando ele dizia que eu não tinha feito algo certo e me obrigava a refazer tudo, pois isso significava ficar mais tempo ao ar livre. A sensação de cavar a terra úmida – que eu era capaz de sentir pelo toque através das luvas que ele exigia que eu usas-se, para proteger minhas unhas perfeitas – e o aroma de terra mexida eram uma experiência muito melhor do que ficar trancada no chalé com ele.
Intrigava-me a noção de que as sementes minúsculas que eu havia plantado cresciam e se transformavam em cenoura, tomate, feijão, en-quanto dentro de mim também crescia uma semente. A rigor, a se-mente era dele também, mas eu não me permitia pensar nisso. Eu es-tava ficando perita em não pensar em determinadas coisas.
A única questão que eu não conseguia ignorar era a falta que eu sen-tia de um contato simples, afetuoso. Eu nunca soube quanto isso era essencial ao meu bem-estar até não ter mais Emma ao meu lado, ou Luke para fazer carinho, ou mesmo o raro abraço da minha mãe. O afeto dela sempre parecia pouco espontâneo, exceto quando oferecido como recompensa, o que invariavelmente fazia com que eu me sen-tisse manipulada, aborrecida comigo mesma por ser tão carente de tal afeição.
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A única ocasião em que o toque da minha mãe era oferecido espon-taneamente era quando eu estava doente, e ela me arrastava para todo lado, descrevendo a médicos e farmacêuticos os meus sintomas com um nível de detalhe constrangedor, enquanto mantinha o braço sobre meus ombros e, com sua mão delicada, tocava meu rosto. Eu não dizia nada, pois adorava a atenção. Ela chegava a dormir comigo quando eu estava de cama, e até hoje o cheiro de Vick Vaporub me lembra o peso do corpo dela ao lado do meu, dando uma sensação de segurança e força.
Sempre que passava por mim, o Maníaco me agarrava e me ab-raçava, dava uma palmadinha na minha barriga ou passava a mão pelas minhas costas, além de ainda me acariciar todas as noites. No início, o toque me causava repulsa, mas, à medida que os meses avançavam, fiquei tão abstraída que às vezes abraçava ele também, mesmo sem sentir nada. Outras vezes, eu sentia tanta falta de um toque que me surpreendia buscando o abraço dele, de olhos fechados, imaginando ser alguém que eu amasse, e me odiando por essa atitude.
Eu me perguntava por que a pele dele não fedia à podridão que aquela alma carregava. Em certos momentos, eu sentia em sua roupa o cheiro do sabão em pó que usávamos, e depois do banho, durante al-guns minutos, percebia o leve perfume do sabonete nas mãos e na pele dele, mas o cheiro logo desaparecia. Mesmo quando fazia alguma atividade física, seu corpo não exalava qualquer cheiro – ar puro, grama, tabaco, sementes de pinheiro ou outra coisa –, muito menos de suor. Pelo visto, até as partículas de odor evitavam tocá-lo.
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Era preciso trazer água do rio num balde para regar diariamente a horta, mas eu não me importava, porque isso me dava a chance de mergulhar as mãos na água gelada e molhar o rosto. Era quase mea-dos de junho, e eu achava que estava quase com nove meses de gestação. Contudo, minha barriga tinha crescido tanto que às vezes eu
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me perguntava se não havia passado do tempo. Eu não sabia exata-mente quando tinha engravidado, logo era difícil calcular. Naquele dia, subi a encosta carregando um balde grande e comecei a incliná-lo para molhar as plantas. Fazia calor e meu trabalho havia sido intenso, de maneira que o suor me escorria pelos olhos. Coloquei o balde no chão para recuperar o fôlego.
No momento em que cocei as costas com uma das mãos, senti uma contração na barriga. A princípio ignorei, e tentei levantar o balde novamente. A dor voltou, ainda pior. Sabendo que ele ficaria irritado se eu não concluísse minhas tarefas, respirei fundo e reguei a horta inteira.
Após terminar, encontrei o Maníaco na varanda, consertando uma tábua de madeira.
– Chegou a hora – declarei.
Entramos no chalé depois que ele se certificou de que a horta tinha sido devidamente regada. Já do lado de dentro, senti algo se movendo dentro de mim, uma estranha sensação de alívio, e então um líquido morno escorreu pelas minhas pernas, espalhando-se pelo chão.
O Maníaco tinha lido vários livros comigo e sabia o que estava acontecendo, mas ficou extremamente assustado, paralisado na porta do chalé. Fiquei parada sobre a poça, o líquido ainda descendo pelas pernas, esperando que ele voltasse a si. Porém, vendo que seu rosto havia ficado pálido, percebi que devia esperar algum tempo. Embora estivesse morta de medo, eu precisava acalmá-lo. Precisava da ajuda dele.
– Isto é normal... meu corpo está fazendo o que deve fazer... tudo vai acabar bem.
Ele começou a entrar e sair do chalé sem parar. Eu precisava fazer com que ele voltasse ao normal.
– Posso tomar um banho? – Banhos aliviavam as cólicas menstru-ais, e eu achava que daria tempo, pois os intervalos entre as con-trações não estavam muito curtos. Ele se deteve e me encarou, os ol-hos arregalados. – Posso? Acho que vai me ajudar.
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Ainda calado, ele foi correndo encher a banheira. Tive a impressão de que, naquele momento, ele concordaria com qualquer proposta que eu fizesse.
– Não deixe a água ficar quente demais. Não sei se calor faz bem ao bebê.
Quando a banheira encheu, mergulhei meu corpo imenso na água morna.
O Maníaco se apoiou na bancada do banheiro, esquadrinhando o ambiente, olhando para tudo, menos para mim. Seus punhos fechavam e abriam, como se quisessem agarrar o ar. Obcecado por controle, o Maníaco tremia como um adolescente no primeiro encon-tro, mudo.
– Preciso que você tire os lençóis da cama e cubra o colchão com al-gumas toalhas, está bem? – sugeri, num tom de voz suave e contido.
Ele saiu correndo do banheiro e ouvi seus movimentos em torno da cama. Para me acalmar, tentei me lembrar de tudo o que tinha lido nos livros, e me concentrei na respiração, em vez de pensar no fato de que estava prestes a parir num chalé com a ajuda de um louco. As gotas na lateral da banheira se tornaram o foco da minha atenção e contei os segundos que elas levavam para escorrer. Quando a água es-tava ligeiramente morna e as contrações mais frequentes, eu o chamei. Ele estava escondido no quarto.
Com a ajuda do Maníaco, saí da banheira e me enxuguei. Àquela al-tura, as contrações estavam mais frequentes e intensas, e precisei me apoiar nele para não cair. Ao entrarmos no quarto, tropecei e agarrei seu braço enquanto uma dor lancinante rasgava minha barriga. O chalé estava frio, e minha pele toda se arrepiou.
– Por que você não acende o fogo enquanto eu me deito?
Depois que me recostei e pus um travesseiro atrás das costas, só me lembro de ter sentido muita dor. A maioria das mulheres opta por um anestésico e, sinceramente, eu teria feito a mesma opção. O Maníaco parecia o marido de um seriado de TV, andando de um lado para outro, esfregando as mãos e tapando os ouvidos sempre que eu
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berrava, o que acontecia a todo instante. Enquanto eu me debatia na cama, mordendo o travesseiro, ele ficou no canto do quarto, a cabeça enfiada entre os joelhos. Chegou a sair do chalé por algum tempo, mas comecei a gritar “socorro” com tanta intensidade que ele voltou.
Todos os livros diziam para a mulher contrair os músculos do abdô-men quando sentisse que estava perto de o bebê nascer, mas, que droga, meu corpo inteiro me mandava fazer força. Firmei as costas na parede e fiz tanta força que devo ter ficado com as marcas das tábuas na pele. Com as mãos apoiadas nos joelhos, abri as pernas, trinquei os dentes e fiz força. Quando conseguia respirar, eu dava ordens a ele. Quanto mais controle eu demonstrava, mais ele parecia se acalmar, ainda que “controle” não seja a palavra exata, pois eu estava enchar-cada de suor e berrando entre uma contração e outra.
A imagem do nascimento ficou meio turva na minha memória, mas acho que estive em trabalho de parto por poucas horas – sorte de ini-ciante e uma das poucas coisas que me aconteceram naquele chalé pelas quais sou grata. Lembro que, quando o obriguei a se posicionar entre minhas pernas para ajudar o bebê a sair, o rosto dele estava pálido e coberto de suor, e me perguntei por que diabos ele suava se eu é quem estava parindo. Eu pouco me lixava para os sentimentos dele ou os meus. Eu só queria aquela coisa fora de mim.
Quando o bebê finalmente saiu, foi uma dor desgraçada, mas tam-bém foi uma sensação tão boa! Com os olhos embaçados pelo suor, vi o Maníaco segurando o bebê no ar, como fazia com os trapos da minha menstruação. Que merda! Ele não sabia o que fazer em seguida. E o bebê ainda não tinha chorado.
– Você precisa limpar o rosto e deitar o bebê na minha barriga.
Fechei os olhos e deixei a cabeça pender para o lado.
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Os gemidos baixos se transformaram em urros, e meus olhos se es-bugalharam. Meu Deus! Que som impressionante! Fora o Maníaco,
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era a primeira criatura viva que eu ouvia em 10 meses, e comecei a chorar. Quando ergui os braços, ele entregou o bebê rapidamente, como se estivesse aliviado por se sentir livre da responsabilidade.
Uma menina. Eu nem havia pensado em perguntar. Uma menina pegajosa, ensanguentada e enrugada. Eu jamais tinha visto algo tão lindo.
– Oi, querida, bem-vinda ao mundo – eu disse a ela. – Eu te amo. – Sussurrei diante do rostinho e a beijei com delicadeza.
Olhei para cima e vi que ele nos encarava. Já não parecia amed-rontado. Parecia irritado. Em seguida, deu meia-volta e saiu do chalé.
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Assim que saiu, expeli a placenta. Tentei me suspender na cama para me afastar da umidade, mas já estava encostada à parede. Quando quis me mexer para o lado, cada movimento me doía. Então fiquei ali, exausta, deitada no molhado, com a bebê sobre a barriga. Era preciso cortar o cordão umbilical. Se ele não voltasse logo, eu teria que usar os dentes.
Enquanto esperava, examinei a bebê e contei os dedos dos pés e das mãos. Era pequenina e delicada, e, embora muito sedosos, os cabelos eram escuros como os meus. Às vezes choramingava, mas, quando eu acariciava seu rosto com o polegar, ela se acalmava.
Ele voltou depois de cinco minutos e, quando se aproximou de mim, fiquei feliz ao notar que já não parecia irritado, apenas não mostrava grande interesse. Então desviei o olhar e percebi que segurava seu facão de caça.
O desinteresse se transformou em pavor quando ele viu a sujeira que a placenta tinha provocado entre minhas pernas.
– Preciso cortar o cordão – afirmei. Mas ele ficou paralisado.
Devagar, estiquei a mão que estava livre, e ele, também lentamente, me entregou o facão.
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Virei a bebê de lado, rasguei uma tira do lençol e amarrei-a no cordão antes de cortá-lo. Assim que cortei, ela chorou, e o barulho despertou o Maníaco do transe em que se encontrava. Ele torceu meu pulso até o facão cair sobre a cama.
– Eu já ia devolver!
Pegou o facão e se curvou na minha direção. Agarrei a bebê e tentei me ajeitar na cama. Ele parou. Eu parei. Olhando nos meus olhos, ele limpou lentamente o facão com a ponta de uma toalha. Ergueu o ob-jeto à luz, fez um sinal de aprovação com a cabeça e foi para a cozinha.
Na volta, me ajudou a virar de lado e enfiou lençóis limpos sob min-has costas. Enquanto o Maníaco limpava e guardava os apetrechos médicos, tentei amamentar a bebê, mas ela não quis meu mamilo. Tentei novamente. Sem sucesso. Lágrimas arderam nos meus olhos e engoli em seco. Lembrando que os livros diziam que os bebês às vezes demoram para aceitar o peito, fiz nova tentativa. Dessa vez, quando encostei o mamilo na boquinha, saiu um pouco de líquido amarelado e aguado. Ela abriu aquele botão de rosa e finalmente começou a mamar.
Suspirando em alívio, olhei para cima, no momento em que o Maníaco voltava trazendo um copo de água e uma manta de bebê. Concentrado na tarefa, ele olhou para mim só depois de colocar o copo sobre a mesa de cabeceira. E então cravou os olhos na bebê, que mamava no meu seio exposto. O rosto dele ficou vermelho e imediata-mente desviou o olhar. Voltado para a parede, atirou a manta para mim e disse:
– Cubra-se.
Peguei a manta e cobri meu ombro e a bebê, no mesmo instante em que ela fez um ruído de que estava gostando.
O Maníaco deu alguns passos para trás, virou de costas e foi para o banheiro. Logo depois, escutei o barulho do chuveiro, que ficou ligado por muito tempo.
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Quando voltou, estava calmo. Posicionou-se ao pé da cama e me en-carou por alguns minutos. Eu tinha aprendido a não olhá-lo nos olhos em momentos como aquele, e fingi estar cochilando, embora pudesse enxergá-lo através dos cílios entreabertos. Eu conhecia o olhar irrit-ado, agressivo, e conhecia também seu total descontrole, mas aquele estado de espírito era diferente. Ele estava pensativo.
Meus braços apertaram minha filha.