Identidade roubada

Chevy Stevens · Capítulo 14 de 30

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Identidade roubada

D É C I M a S e G U N D a S e S S Ã o

DÉCIMA SEGUNDA SESSÃO

 

Hoje estou péssima, doutora. Estressada, sem concentração, buscando respostas, motivos, qualquer coisa palpável a que eu possa me agarrar, qualquer coisa real , mas na hora que acho que en-tendi a situação e a arquivei na pasta “curada”, em vez da pasta “fer-rada”, descubro que ainda estou mal, sem foco, destruída. Mas você já sabe disso, não é?

Ao menos seu consultório parece real. As prateleiras são de madeira de lei, a mesa também, e essas máscaras indígenas na parede são de verdade. Aqui dentro posso ser eu mesma, porque sei que você não pode falar de mim para outras pessoas, mas me pergunto se, quando se encontra com seus colegas e conversa com eles sobre sei lá o quê, você não tem vontade de abrir o bico... Não, não, esqueça o que acabei de dizer. Você tem jeito de ter abraçado essa profissão porque quer mesmo ajudar as pessoas.

Talvez não possa me ajudar. Isso me deixa triste. Não por mim, mas por você. Deve ser frustrante para um terapeuta ter um paciente in-curável. Aquele primeiro profissional que procurei ao voltar para Clayton Falls me disse que ninguém é uma causa perdida, mas acho isso balela. Tenho certeza de que tem gente que fica tão esmagada, quebrada, que nunca deixará de ser um fragmento humano.

Eu me pergunto quando a coisa aconteceu com o Maníaco. Qual terá sido o momento decisivo... o momento em que alguém pisou com o calcanhar da bota e esmagou a vida dele e a minha. Quando a mãe biológica dele o abandonou? Será que ele poderia ter sido curado se tivesse uma boa família adotiva? Ele não teria matado alguém ou me sequestrado se a mãe adotiva não fosse tão estranha? Teria acontecido no útero? Ele teria alguma chance? Eu tive?

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Ele tinha o lado maníaco, o cara que me sequestrou, me espancou, me estuprou, me submeteu a brincadeirinhas sádicas, me aterrorizou. Mas, às vezes, quando estava reflexivo, feliz ou entusiasmado, quando seu rosto se iluminava, eu enxergava o sujeito que ele poderia ter sido. Talvez aquele cara tivesse formado uma família e ensinado a filha a andar de bicicleta, e teria feito para ela bichinhos com balões, você en-tende? Que droga! Talvez tivesse sido um médico e salvado muitas vidas.

Depois do nascimento da minha filha, cheguei a ter por ele um sen-timento maternal, e, nos momentos em que enxergava esse outro lado, minha vontade era incentivá-lo. Eu queria ajudá-lo. Queria curá-lo. Mas aí eu me lembrava. Ele era um menino que segurava um palito de fósforo aceso em cima de um palheiro, e não precisava de muita des-culpa para soltar o fósforo.

 

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Logo após o nascimento da bebê, o Maníaco atirou na minha direção algumas fraldas de pano, mantas e macacões, e durante uma semana só me dirigiu a palavra para dar ordens, visto que me con-cedeu apenas um dia de resguardo. No primeiro dia que me levantei, fiquei tonta ao lavar a louça, e ele permitiu que eu me sentasse por al-guns minutos, mas me obrigou a lavar tudo de novo, pois a água tinha ficado fria. A vez seguinte que senti tontura, eu me encostei no balcão, fechei os olhos e esperei que a sensação passasse.

Ele não encostava o dedo na bebê, mas, quando eu trocava a fralda ou dava banho na menina, ele ficava em volta e, de propósito, me pe-dia para fazer algo para ele. Se eu estivesse dobrando as roupinhas dela, ele me obrigava a dobrar as dele primeiro. Certa vez, quando eu ia amamentá-la enquanto nosso jantar estava cozinhando, ele me disse para colocar a bebê na cama e servi-lo primeiro. A única hora que nos deixava a sós era quando eu a amamentava. Sem saber ao certo o que o irritava, eu a pegava no colo e a ninava ao menor

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choramingo, mas os olhos dele ficavam sem brilho e o maxilar se con-traía. Ele me lembrava uma víbora preparando o bote, e, enquanto eu acalentava minha filha, minhas entranhas zumbiam de ansiedade.

Ela estava com alguns dias de vida, mas ele nada havia dito a re-speito do nome, então lhe perguntei se eu poderia escolher.

Ele olhou para a menina nos meus braços e disse:

– Não.

Mais tarde, porém, murmurei em seu pequeno ouvido um nome secreto. Era tudo o que eu podia dar a ela.

 

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Eu não conseguia parar de pensar no ciúme e ressentimento que ele alimentava em relação ao pai adotivo. Portanto, sempre que ele estava no chalé, eu fazia questão de parecer indiferente à bebê e atender apenas às suas necessidades básicas. Felizmente, ela era uma neném tranquila e contente que quase nunca perturbava. Mas, assim que ele saía para cuidar das tarefas, eu a tirava da manta e examinava cada centímetro do corpinho dela, perplexa diante do fato de ela ter saído de dentro de mim.

Considerando as circunstâncias da concepção, fiquei surpresa ao perceber o quanto eu era capaz de amar minha filha. Com os dedos, eu traçava o desenho daquelas veiazinhas, maravilhada ao pensar que meu sangue circulava por aquele corpo, e ela nunca reclamava. O ouvidinho era perfeito para captar cantigas de ninar, e de vez em quando eu afundava o nariz no pescocinho dela, para sentir o cheiro fresco e doce, o aroma mais puro que senti na vida. Atrás do joelho es-querdo, rechonchudo, havia um sinal de nascença, uma meia-lua cor de café que eu adorava beijar. Cada centímetro delicado daquele corpinho provocava tremores no meu coração e um instinto incon-trolável de protegê-la. A intensidade dos meus sentimentos me as-sustava e a ansiedade crescia na mesma proporção que o amor.

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Ainda mantínhamos a hora do banho todas as noites, mas ela não podia entrar na água comigo, e o Maníaco jamais tocava meus seios. Depois do banho, eu a amamentava na cama, enquanto ele limpava o banheiro. Quando a bebê estava satisfeita, eu a deitava numa caminha que ele havia arrumado ao pé da nossa. Era um simples cesto de vime forrado com algumas mantas, semelhante a uma cama de cachorro, mas ela parecia não se incomodar.

Eu me lembrei de alguns amigos que tiveram filhos e se queixavam de não conseguir dormir nos primeiros meses. Também não consegui. Não por causa da bebê, pois ela só acordava uma vez durante a noite. Mas eu ficava tão apavorada ao pensar no que ele faria se ela o acor-dasse que permanecia desperta, atenta ao menor suspiro ou soluço. Eu me tornei perita em deslizar até o pé da cama aos primeiros sinais de que ela acordaria, de maneira que ele não percebesse a ausência do meu peso no colchão. Assim como uma cadela amamenta o filhote, eu deixava meu seio pender para fora da cama, levantava a neném um pouco e a alimentava. Se ele se movesse ou fizesse qualquer ruído, eu ficava parada, o coração batendo forte, e me perguntava se ela não sentia as batidas dentro do meu peito. Assim que a respiração dele voltava ao normal, eu deslizava de volta ao meu lugar.

À noite, depois que ela pegava no sono, ele me examinava e del-icadamente passava creme nas minhas partes íntimas. Se eu me con-traísse, ele parava e, com uma expressão amável, fazia barulhinhos que me tranquilizavam. Disse que precisávamos esperar seis semanas até voltar a “fazer amor”. Na época em que ele me estuprava, era muito mais dolorido, mas de certo modo menos perturbador. Quando me passava creme, às vezes, ao sentir dor, eu me forçava a não reagir, para que ele não parasse. Dor era normal.

 

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Quando minha filha tinha pouco mais de uma semana de vida, eu estava cozinhando e precisei usar as duas mãos. No momento em que eu ia colocá-la no cesto, ele interceptou meus passos e disse:

– Eu cuido dela. – Meus olhos correram do rosto dele à segurança que o cesto representava... eu tinha chegado tão perto..., mas não me atrevia a contrariá-lo. Depois que carinhosamente a deixei em seus braços, ele se afastou, e meu coração foi parar na garganta. Ele sentou ao pé da cama.

Ela começou a choramingar. Larguei o que estava fazendo e fiquei de pé diante dele.

– Desculpa se ela incomodou você... vou colocá-la no cesto.

– Estamos bem. – Ele a balançou um pouco nos braços e disse, ol-hando para o bebê: – Ela sabe que sou o pai dela, e vai se comportar muito bem, não vai? – Ela se acalmou e sorriu.

Voltei ao fogão, mas minhas mãos tremiam tanto que eu mal con-seguia mexer a panela. A todo momento eu virava para pegar algum tempero, só para ficar de olho nos dois.

De início, o Maníaco apenas olhou para ela. Então, desenrolou a manta e tirou o macacão, de maneira que a bebê ficou deitada no colo dele, só de fralda. Morri de medo que ela começasse a chorar, mas apenas mexia os braços e as pernas no ar frio. Ele a examinou e em-purrou lentamente seu bracinho para trás. Embora o gesto não tenha sido brusco, meu corpo ficou tenso, e esperei pelo choro da bebê, mas ela ficou quieta. Ele repetiu o gesto, com o outro braço e as pernas. Era como se nunca tivesse visto um neném na vida.

Sua expressão era calma, revelando mais curiosidade do que qualquer outra coisa. Ele foi delicado, e até sorridente, ao limpar um pingo de baba no queixo da bebê, mas minha vontade de arrancá-la daqueles braços era grande. O medo das consequências me impediu de fazê-lo. Finalmente, o jantar ficou pronto, e eu me aproximei dele com as pernas trêmulas e os braços esticados, e disse:

– Seu prato está pronto.

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Ele demorou um segundo para devolvê-la e, quando ia me entregar a menina, um olhar que eu nunca tinha visto surgiu no rosto do Maníaco. Ele a soltou. Por uma fração de segundo ela pairou no ar, e então despencou. Dei um pulo e agarrei-a no instante em que atingiria o chão. Com o coração acelerado, abracei-a com força. Ele sorriu e se levantou para jantar, cantarolando baixinho.

Quando ia dar uma garfada, parou e disse:

– O nome dela é Juliet.

Fiz um sinal de consentimento, mas o nome jamais seria o mesmo da louca da mãe dele. Em minha mente, eu a chamava pelo nome secreto, e ninguém além de você sabe o nome que o Maníaco deu a ela.

Depois daquele dia, às vezes ele a pegava no colo, geralmente en-quanto eu fazia alguma coisa, como dobrar a roupa lavada ou limpar o chalé. Ele sempre sentava na cama com ela no colo, deitava-a de bruços e empurrava os bracinhos e as pernas para trás. A bebê nunca chorava, o que me fazia pensar que ele não a machucava, mas eu sempre tinha vontade de correr e arrancá-la dos braços dele. De modo geral, o Maníaco a deixava no cesto, porém um dia ele a largou na beira da cama, como um brinquedo do qual se cansara. Eu suava frio cada vez que ele se aproximava dela.

Quando eu trabalhava na horta, ele permitia que eu a levasse comigo, enrolada numa pequena manta amarrada às minhas costas. Eu adorava deixar a neném ao ar livre, ver o crescimento dos legumes que eu mesma tinha plantado, sentir o cheiro da terra aquecida pelo sol, ou simplesmente passar a mão na penugem que cobria a cabeça da minha filha. Dizer que encontrei alguma felicidade naquela montanha é errado, porque é o mesmo que dizer que aquilo foi aceitável. Aquilo nunca foi aceitável. Mas ao lado dela eu me sentia fe-liz uma parte do tempo, todos os dias.

O Maníaco jamais me deixava sair, a não ser quando ele também trabalhava fora do chalé. Porém, ele sempre tinha algo a fazer, como cortar lenha, cuidar do isolamento das persianas, pintar toras de madeira. Portanto, eu saía de casa com frequência. Ele queria que eu

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pintasse novamente as cadeiras de balanço que ficavam na varanda, e fui fazer o serviço à beira do rio, aproveitando o sol em companhia da minha filha.

Quando estava satisfeito com meu desempenho, ele permitia que eu me sentasse à margem do rio, depois de terminadas minhas tarefas. Aqueles dias eram memoráveis, dias em que desejei ter um caderno de desenho para registrar o contraste entre a pele leitosa da minha bebê e o verde-esmeralda da grama, ou a careta que ela fazia quando uma formiga caminhava no seu braço. Imagens de flores silvestres em pleno frescor, a luz do sol dançando no rio e o reflexo dos pinheiros na superfície da água faziam minhas mãos coçar, tamanha era a vontade de pintar. Eu achava que, se conseguisse captar toda aquela beleza no papel, eu teria um meio de me lembrar de que ainda existia um mundo exterior ao qual retornar quando as coisas ficassem feias den-tro do chalé, mas, quando pedi um bloco de desenho ao Maníaco, ele negou.

Época de calor, ele determinou que eu lavasse a roupa no rio a cada dois dias. O Maníaco fazia questão de economizar água. Os banhos idiotas de todas as noites gastavam grande quantidade de água, mas eu nada dizia. Que droga! Eu gostava do cheiro que a água do rio e o sol deixavam nas roupas. Numa corda amarrada de uma macieira a uma das quinas do chalé, pendurávamos nossas roupas. Assim éramos, o Maníaco e eu, um típico casal de desbravadores.

 

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A primeira vez que avistei o pato selvagem boiando perto da margem do rio, onde a correnteza era mais lenta, minha bebê ainda não tinha nascido. Às vezes, havia outros patos, mas geralmente ele estava sozinho. Se o Maníaco não estivesse olhando na minha direção, eu parava o que estava fazendo e admirava a ave. Nas primeiras vezes que desci até o rio para lavar roupa ou apenas para me sentar, o pato voou assim que me viu. Mas, quando minha filha tinha uma semana

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de vida, eu sentei numa pedra para enxaguar umas mantas e desfrutar a sensação da água fria correndo pelas minhas mãos. O pato atraves-sou para o outro lado do rio e ficou nadando, bebendo água e pegando insetos.

O Maníaco veio até onde eu estava e me deu alguns pedaços de pão. O gesto me surpreendeu, mas fiquei feliz por poder alimentar a ave.

Nos dias seguintes, usando o pão como isca, atraí o pato cada vez mais para perto. Não demorou muito e ele comia na minha mão. Eu me perguntava se o pato não havia sobrevoado minha casa em Clayton Falls. Aquela ave era um sinal de que existia vida além daquela minha existência tão limitada, e todos os dias eu não via a hora de descer ao rio e vê-lo. Contudo, eu tentava não demonstrar ansiedade. Fingir in-diferença tinha se tornado uma segunda natureza. Pelo sofrimento, eu havia aprendido que deixar o Maníaco saber que algo me agradava era o meio mais rápido de me frustrar.

Ele nunca permitia que saíssemos do alcance de sua vista ou de suas pernas, mas em geral nos deixava a sós no rio. Algumas vezes, eu até me esquecia da presença dele, a ponto de me convencer de que eu es-tava num típico dia de verão, sorrindo diante da crescente consciência do mundo demonstrada por minha filha. Antes do nascimento, eu me perguntava se ela seria capaz de perceber o mal que a cercava, mas ela era a criança mais feliz que tinha visto na vida.

Meus olhos haviam parado de vasculhar a clareira em busca de rotas de fuga. Eu não conseguiria correr levando minha filha no colo, e sabia que o medo do que ele faria se nos pegasse estava provavel-mente aquém da realidade.

 

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Quando minha filha completou duas semanas de vida, o Maníaco desceu até o rio e se abaixou ao meu lado. Assim que o viu, o pato afastou-se da minha mão e nadou para o meio da correnteza. O Maníaco tentou atraí-lo com um pedaço de pão, mas a ave o ignorou, e

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ele enrubesceu. Minha respiração ficou presa na garganta. Rezei para que o pato pegasse o pão, mas ele não se aproximava, e por fim o Maníaco desistiu e voltou ao chalé, dizendo que precisava fazer o jantar. A ave voltou a se aproximar de mim.

Ouvi uma terrível explosão no momento em que a cabeça do pato foi pulverizada na minha frente. Penas voaram pelo ar, caindo sobre mim, a bebê e a superfície da água. Além do zumbido nos ouvidos, es-cutei gritos e percebi que eram meus. Eu me levantei com um pulo e virei para o chalé. O Maníaco estava de pé na varanda, segurando um fuzil. Com as mãos sobre a boca, para abafar os gritos, fixei os olhos nele.

– Traga o bicho para dentro.

Minha boca se esforçava para formar palavras:

– Por que você... – Mas eu perguntava ao vento. Ele já tinha deix-ado a varanda.

Ao som do choro da minha filha, que revelava meus próprios senti-mentos, me arrastei até o meio do rio e recolhi o que restava do pato. A cabeça havia praticamente desaparecido, e o pobre corpo, en-sanguentado e de cabeça para baixo, flutuava na correnteza.

 

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Naquele mesmo dia aprendi a depenar pato. Jamais me esquecerei do cheiro. As lágrimas escorriam sem parar e, por mais que ele me mandasse parar de chorar – e só Deus sabe o quanto tentei –, os soluços surgiam espontaneamente. A cada pena que eu arrancava do corpo do pato, minha culpa aumentava. Se eu não tivesse criado o hábito de alimentar o bicho, ele ainda estaria vivo.

Na hora de comer, fiquei paralisada. O Maníaco sentou diante de mim e, entre nós dois, o pato jazia numa travessa. Eu tinha cedido a cada exigência, mas, ao vê-lo destrinchar meu símbolo de liberdade, odiei-o mais do que nunca. Minha mão não conseguia levar o garfo à boca. Não demorou até que ele percebesse.

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– Coma o jantar, Annie.

O único movimento era o das lágrimas que escorriam pelo meu rosto. Já era terrível ser responsável pela morte do animal... mas eu não poderia comê-lo. O Maníaco agarrou um punhado de carne, aproximou-se de mim, escancarou minha boca e a encheu de carne. Engasguei e tive ânsia de vômito, mas ele gritou:

– Mastigue!

Com uma das mãos, agarrou minha nuca de modo que eu não tinha como escapar e, depois que encheu minha boca, tapou-a com a outra mão, selando meus lábios. Comi o pato. Fui obrigada.

O Maníaco voltou a comer. Fiquei hipnotizada pelo metal do garfo e da faca por ele utilizados para cortar meticulosamente o bicho em pequenos pedaços. Ciente da minha atenção, ele levou o garfo à boca e, vagarosa e delicadamente, trincou os dentes num pedaço. Os lábios envolveram a carne, os cílios baixaram e ele suspirou de prazer. Mastigando com vontade, abriu os olhos e me encarou. Por fim, engoliu.

Então abriu um sorriso.

Naquela noite, pela primeira vez, não pude olhar para minha filha enquanto a amamentava. Ela sorvia o pato, sorvia meu belo pato, e me perguntei se ela sentia o gosto do meu sofrimento.

 

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Ontem à noite foi uma merda ficar fora do closet, doutora. Meu quarto estava tão escuro, um breu, e eu achava que alguma coisa quer-ia me pegar, mas, sempre que eu acendia a lanterna que fica na minha cama, não havia nada. Tentei dormir com uma vela acesa, mas aí apareciam umas sombras assustadoras na parede. Acendi todas as luzes, e foi então que perdi completamente o sono. Isso fez com que eu escutasse o menor ruído dentro de casa, e a casa é velha... muitos ruí-dos. Mas a boa notícia é que acabei não dormindo no closet, doutora. A má é que de madrugada os programas de TV são uma porcaria.

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Eu tive bastante tempo para pensar no medo e em todo aquele negócio que você me disse sobre as diferentes manifestações do TEPT, desse tal Transtorno de Estresse Pós-Traumático, mas ainda não sei explicar exatamente por que dormir dentro do closet me faz sentir mais segura. O que sei é que a cama faz com que eu me sinta meio ex-posta. São tantas as maneiras de ser pego por alguém... pelos pés, pelo lado esquerdo, pelo direito, ou até por cima... É espaço demais me pressionando.

Quanto mais dolorosas são as coisas que eu lhe conto, mais eu quero... eu preciso... dormir no closet. Você me perguntou do que es-tou tentando escapar, e talvez este seja um bom momento para falar sobre o “vovô” de todos os meus efeitos retardados... essa “coceira” paranoica que não acaba, por mais que eu coce.

Eu não consigo me livrar da sensação opressora de que ainda não estou segura. Sei que isso é loucura total, porque os tiras têm sido muito legais, deixando-me a par das investigações, especialmente um tira, o Gary... o pobre coitado deve ter se arrependido de ter dado o número do celular..., e eles me diriam se eu ainda corresse algum perigo. Eles têm que dizer. Esse é o trabalho deles... proteger a popu-lação, e toda essa baboseira. Então, que merda é essa?

Por favor, não me venha com essa conversa de que isso é típico do TEPT, muito natural depois de tudo o que passei. Eu sei que voltei cheia de traumas e medos, essas merdas. Como eu já disse, pensei em tudo o que você me falou... fiz até pesquisa na internet. Que droga! Eu estava torcendo para que fosse apenas esse TEPT, mas tem algo difer-ente no meu caso. Parece tão real.

É aí que você entra em cena, doutora. Preciso que me ajude a me livrar dessa paranoia de que eu não estou segura. De que alguém ou alguma coisa quer me pegar. Não se preocupe, eu não estou esper-ando uma resposta imediata, papo-furado típico de terapeuta. Pense um pouco. Talvez dentro de algumas semanas, quando você voltar das férias, eu já tenha entendido tudo... não seria bom se essa merda fosse, assim, tão fácil?

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Obrigada por me encaminhar a outro terapeuta, mas prefiro esperar sua volta. Por algum motivo estranho, é difícil confiar nas pessoas.