Identidade roubada

Chevy Stevens · Capítulo 28 de 30

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Identidade roubada

V I G É S I M a S e X T a S e S S Ã o

VIGÉSIMA SEXTA SESSÃO

 

Peço desculpa por ter faltado à última sessão, mas visitei minha mãe e precisei de um tempo para me recuperar. Quer saber de uma coisa? É engraçado: depois que eu a vi, senti muita vontade de dormir no closet. Fiquei em pé diante da porta durante um bom tempo, o travesseiro nas mãos, mas eu sabia que entrar ali significava um retrocesso. Então dei meia-volta, deitei na cama e fiquei me lem-brando do seu consultório. Imaginei que estava no seu divã e que você estava cuidando de mim. Foi assim que peguei no sono.

 

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Minha mãe foi trazida de volta à sala de entrevistas. Os olhos dela cruzaram com os meus por um instante e depois se desviaram, no mo-mento em que ela sentou diante de mim. As mangas do macacão largo e cinzento estavam enroladas e a cor do uniforme dava à pele um tom meio cinza. Fazia anos que eu não via minha mãe de rosto lavado. Os cantos da boca pareciam caídos e, sem o batom rosa-chiclete, os lábios estavam tão pálidos que se mesclavam à pele.

Meu coração pulava dentro do peito, enquanto minha mente se de-batia para encontrar o que dizer... Oi, mãe. Puxa vida... que negócio é esse de me sequestrar?... e para saber se de fato eu queria ouvir a res-posta a essa pergunta. Mas, antes que eu pudesse abrir a boca, ela disse:

– O que a Val anda falando por aí?

Pega de surpresa, eu respondi:

– Ela deixou um recado, mas eu não...

– Não diga a ela coisa alguma.

– Como?

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– Só fale com ela depois que nós decidirmos o que vamos fazer.

– Nós? Você está sozinha nessa parada, mãe. Estou aqui só para vo-cê me explicar por que fez isso comigo.

– O Gary disse que você foi informada sobre tudo. Você tem que me ajudar, Annie... você é minha única chance de...

– Por que diabos eu ajudaria você? Você paga alguém para me se-questrar, para me fazer mal, e ainda...

– NÃO! Eu não quis fazer mal a você... a coisa... tudo... saiu er-rado... está tudo errado, e agora... – Ela enfiou a cabeça entre as mãos.

– E agora minha vida está ferrada, e você está na cadeia. Que mara-vilha, mãe!

Ela levantou a cabeça e olhou em volta, com um olhar desesperado.

– Isto não está certo, Annie. Eu não posso ficar aqui. Eu vou morrer. – Curvou-se sobre a mesa e agarrou minha mão. – Mas se vo-cê falar com a polícia... você pode dizer que não vai formalizar a queixa, ou pode explicar que entende por que eu tive que...

– Eu não entendo, mãe. – Puxei a mão.

– Eu não tive escolha... você sempre ficava em segundo lugar.

– A culpa foi minha?

– Você via como a Val me tratava. Como ela nos desprezava.

– E via como você tratava sua irmã, mas ela não mandou sequestrar a filha, mandou?

Com os olhos cheios de lágrimas, ela disse:

– Você não faz ideia, Annie. Não faz ideia do que tenho passado... – Ela se calou.

– Tem a ver com o Dwight, não é?

Silêncio.

– Se você não me contar, eu vou ter que perguntar à tia Val.

Minha mãe se apoiou sobre a mesa.

– Você NÃO PODE FAZER ISSO COMIGO. Ela vai usar isso para...

A porta se abriu e foi possível ver o rosto de um policial.

– Tudo bem por aqui?

– Tudo bem – respondi.

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Minha mãe concordou com a cabeça e o policial fechou a porta.

– Como você pode imaginar, a imprensa já está falando com a tia Val.

Os ombros dela ficaram rígidos.

– Os repórteres vão querer saber detalhes a seu respeito: que tipo de criança você foi, o que aconteceu na sua infância para você se torn-ar uma mãe tão medíocre.

– Eu sou uma ótima mãe, bem diferente da minha. E a Val nunca vai falar sobre nossa infância. Ela não quer que as pessoas do mund-inho perfeito dela descubram o que ela fez. – O tom de voz se tornou reflexivo. – Para ela, isso seria horrível... – Começou a bater com a unha no tampo da mesa.

Fiquei apavorada.

– Mãe, não torne a situação pior do que...

Ela se inclinou sobre a mesa.

– Ela era a filhinha predileta do papai, entende? Mas era ainda mais querida pelo nosso padrasto. – Exibiu um sorriso amargo. – Quando minha mãe percebeu que o marido estava transando com uma das filhas dela, a Val disse que era comigo. De repente, minhas coisas estavam no meio da rua e nosso padrasto fugiu da cidade. Se não fosse o Dwight, eu teria que morar dentro de uma caixa de papelão.

– O Dwight?

– Quando fui expulsa de casa, fui morar com ele. Eu trabalhava como garçonete e ele como pedreiro, quando tivemos a ideia do banco. – Os olhos dela brilharam. – Depois que ele foi preso, eu mal con-seguia sobreviver, e olha que eu trabalhava em dois turnos. Então a Val apareceu, trazendo um sujeito que havia acabado de conhecer, se gabando da casa dos pais do cara, do sucesso que era a joalheria deles...

– Meu pai.

Ficamos caladas por alguns segundos.

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– Depois que o Dwight foi solto, combinamos ficar juntos... o prob-lema é que precisávamos de dinheiro. Mas ele foi preso de novo e eu disse a ele que tinha que tocar a minha vida... e foi o que fiz: casei-me com o Wayne. – Sacudiu a cabeça. – Só quando pareceu que você gan-haria aquele empreendimento é que pensei que as coisas melhorariam para mim. Então fiquei sabendo que a Christina seria sua concorrente. E ela era uma corretora muito mais competente que você. – A frase foi pronunciada entre dentes. – Se você perdesse, a Val iria se sentir su-perior pelo resto da minha vida.

– Então, você resolveu arruinar minha vida...

– Meu plano teria ajudado você... você teria dinheiro pelo resto da vida. Mas nada deu certo. O Wayne foi um inútil, mas o Dwight ao menos tentou fazer alguma coisa.

– Ele roubou aquela loja a seu pedido?

Ela assentiu.

– Eu dei o número do seu telefone àquele produtor de cinema, mas você estava desperdiçando um tempo precioso e eu precisava fazer um pagamento ao agiota. Não sei onde o Dwight está agora.

– Você não se incomoda nem um pouco com o que me fez passar?

– Odeio o que aquele sujeito fez com você, mas era para você ter fic-ado desaparecida só uma semana, Annie. O que aconteceu depois foi um acidente.

– Como você pode dizer que foi um acidente? Você contratou um homem que me estuprou, que causou a morte da minha filha!

– Foi a mesma coisa quando você quis sorvete e pediu ao seu pai que fosse comprar.

Foi preciso alguns segundos até que eu pudesse assimilar aquelas palavras, e outros tantos para encontrar minha voz.

– Você está se referindo ao acidente?

Ela assentiu com a cabeça.

– Sua intenção não era matar os dois.

Meu peito se contraiu e todo o ar escapou do meu corpo. A dor foi tão intensa que pensei estar sofrendo um enfarte. Em seguida,

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comecei a suar frio e tremer. Procurei no semblante dela alguma in-dicação de que eu tinha entendido mal, mas ela parecia satisfeita, vingada.

Meus olhos se encheram de lágrimas, e eu disse, engasgada:

– Você... você culpa a mim pela morte deles. Foi por isso então que você...

– É claro que não!

– É sim. Você sempre me culpou. – Comecei a chorar. – Foi por isso que você achou que era certo...

– Você não está me ouvindo, Annie. Eu sei que você só queria sor-vete... você não planejou a morte deles. E eu nunca quis lhe fazer mal algum. Eu só queria que a Val parasse de se sentir superior a mim.

Eu ainda estava zonza quando minha mãe disse:

– Mas ela não vai ficar por cima durante muito tempo. Amanhã vem um advogado falar comigo. – Levantou-se e começou a caminhar di-ante da mesa. Notei que seu rosto estava vermelho. – Vou contar a ele o que foi crescer tendo a Val como irmã, o que ela fez com nosso padrasto, o que foi minha vida depois que fui expulsa de casa... vou dizer que ela sempre me diminuiu... isso é assédio moral. – Parou de repente e virou-se para mim. – Eu me pergunto se ela vai comparecer ao tribunal. Se for, ela vai ser obrigada a ver meu advogado...

– Mãe, se o caso for a júri, minha vida vai ser arruinada... mais uma vez. Eu vou ter que falar sobre o que aconteceu. Vou ter que descrever como ele me estuprou.

Ela continuou andando de um lado para outro.

– É isso! Precisamos fazer com que ela seja obrigada a depor e descrever o que ela fez!

– MÃE!

Ela parou e olhou para mim.

– Não faça isso comigo – pedi.

– Isso nada tem a ver com você, Annie.

Abri a boca para argumentar, mas fiquei paralisada, pois as palav-ras dela faziam sentido. Ela estava certa. No fim das contas, não

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importava se ela havia feito tudo por dinheiro, para chamar atenção ou se vingar da irmã de uma vez por todas. Nada tinha a ver comigo. Nunca teve a ver comigo. Nem com ela nem com o Maníaco. Eu nem sabia qual dos dois era mais perigoso.

No momento em que me levantei e me dirigi à porta, ela perguntou:

– Aonde você vai?

– Para casa.

Continuei andando.

– Annie, pare.

Dei meia-volta, preparada para lágrimas, desculpas e pedidos de “não me abandone”.

– Não diga nada a ninguém antes que eu tenha uma chance – re-comendou. – Isso precisa ser conduzido da maneira certa, senão...

– Que merda! Você ainda não entendeu, não é mesmo?

Ela olhou para mim sem qualquer expressão.

Balancei a cabeça.

– E nunca vai entender!

– Quando você voltar, traga um jornal, para eu poder...

– Eu não vou voltar, mãe.

Os olhos dela se arregalaram.

– Mas eu preciso de você, Annie querida.

Bati na porta e disse:

– Ora! Acho que você vai se virar muito bem. – O policial de plantão abriu a porta. Enquanto ele trancava minha mãe, desabei num banco encostado à parede oposta. O policial me perguntou se eu estava bem e se eu queria que ele chamasse o Gary. Eu disse que só precisava de alguns minutos, e o policial me deixou sozinha.

Contei os tijolos da parede até meus batimentos cardíacos voltarem ao normal. Então fui embora da delegacia.

 

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Os jornais ficaram sabendo da minha visita à cadeia, e as primeiras páginas do dia seguinte traziam especulações nas manchetes. Christina deixou um recado pedindo que eu ligasse para ela caso quisesse conversar, a qualquer hora do dia ou da noite. Ela tentou dis-farçar, mas pelo tom de voz pude perceber que estava magoada porque eu nada tinha dito sobre a visita. Tia Val também deixou uma mensagem um tanto evasiva, que me fez indagar o quanto ela sabia. Mas não liguei de volta para nenhuma das duas. Não telefonei para ninguém que me deixou mensagem do tipo “ligue para mim se quiser conversar”. Conversar sobre o quê? Estava tudo acabado. Tinha sido minha mãe. Ponto final.

Alguns dias depois, coloquei o folheto da escola de arte na mesinha de cabeceira. Quando olhei para o papel no dia seguinte, pensei: Foda-se... se vou atrás do meu sonho, preciso de dinheiro. Então me rendi e telefonei para a produtora de cinema. Tivemos uma boa con-versa. Eu estava certa: ela parecia ser uma pessoa sensível e, pelo jeito, respeitaria minha vontade. Embora seja de Hollywood, ela fala como uma pessoa normal.

Um lado meu ainda não quer o filme, mas não tenho dúvida de que ele vai ser feito. E, se alguém vai se beneficiar de uma produção sobre minha vida, que esse alguém seja eu. Além disso, o filme não será ex-atamente sobre mim, mas sobre uma versão hollywoodiana da minha pessoa. Quando chegar às telas, será apenas um filme. Não será minha vida.

Concordei em me encontrar com a produtora e o chefão dela na se-mana seguinte. Estão falando em valores elevados, tão elevados que terei condições de viver com tranquilidade pelo resto da vida.

 

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Assim que saí do telefone, liguei para Christina. Eu tinha certeza de que ela pensaria que eu estava telefonando para falar sobre minha mãe. Por isso, quando eu disse que finalmente deixaria a cidade para

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estudar, interpretei o silêncio como sinal de surpresa. Mas, quando o silêncio perdurou, eu disse:

– Lembra? Aquela escola, nas Montanhas Rochosas, que eu sempre comentava quando estávamos no colégio?

– Lembro, sim. Só não sei por que você vai agora.

O tom de voz era tranquilo, mas pude notar certa decepção. Mesmo na época da escola ela nunca me incentivou a estudar fora, mas eu achava que era só porque ela sentiria minha falta. Eu não sabia qual o motivo desta vez, nem queria saber.

– Porque eu quero – respondi. – E ficaria muito grata se você colo-casse minha casa à venda.

– Sua casa? Você já vai vender a casa? Tem certeza de que não pref-ere alugar, por...

– Absoluta. Quero dar um jeito na casa nas próximas semanas. Mas eu gostaria de cuidar logo da papelada. Então, quando você pode pas-sar aqui?

Ela ficou calada por algum tempo e respondeu:

– Acho que posso dar uma chegada aí no fim de semana.

 

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No sábado pela manhã ela apareceu na minha casa. Enquanto preenchíamos os formulários, eu falei a respeito da escola e disse que estava contando as horas para partir, que no dia seguinte iria de carro até lá para dar uma olhada, e seria muito bom deixar toda aquela merda para trás. Ela não disse nada de negativo, mas sua reação não foi entusiasmada.

Após cuidarmos das questões burocráticas, nós nos sentamos lado a lado nos degraus da varanda, sob o sol da manhã. Eu queria falar com ela sobre outro assunto.

– Acho que sei o que você queria me dizer naquela noite que veio aqui em casa e me fez pintar as paredes – comentei. Os olhos dela se

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arregalaram e o rosto ficou vermelho. – Pode esquecer... não estou zangada com você... nem com o Luke. Essas merdas acontecem.

– Foi só uma vez, eu juro – disse ela, num tom de voz agitado. – A gente bebeu um pouco... mas aquilo não significou nada. Estávamos muito angustiados com sua situação, e ninguém sabia o que a gente estava sentindo...

– Tudo bem, eu entendo. Por causa dessa situação toda, fizemos coisas das quais nos arrependemos, mas não quero que você se arre-penda disso. Talvez precisasse acontecer mesmo. Em todo caso, já não importa.

– Você tem certeza? Porque eu sinto que...

– Eu superei essa questão. De verdade. Agora, você poderia por fa-vor superar isso também? – Dei um leve esbarrão no ombro dela e fiz uma cara engraçada. Ela retribuiu a careta e nos calamos, observando um jovem casal que passava com um carrinho de bebê pela frente da casa.

– Ouvi dizer que sua mãe andou espalhando que eu tentei derrubar você naquele empreendimento, antes de você ser sequestrada – disse ela depois de algum tempo.

– Pois é, ela disse que sua assistente contou a uma amiga dela que você era minha concorrente, mas sei que era mais uma mentira.

– Acontece que isso tem um fundo de verdade. Os construtores pediram que eu montasse uma proposta e chegamos a nos reunir al-gumas vezes. Eu sabia que eles estavam contatando outra corretora, mas só fiquei sabendo que você estava no páreo quando me contou. Eu saí da disputa imediatamente e eles só me procuraram depois do seu desaparecimento.

– Você saiu? Por quê?

– É preciso trabalhar com ética. Sua amizade era mais importante.

– Foi uma pena você não ter dito nada, pois eu teria saído, deixando o empreendimento para você. Você tinha muito mais experiência e es-perou mais tempo que eu por um negócio como aquele.

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– Foi por isso que fiquei quieta – disse Christina. – Eu sabia que acabaríamos brigando para decidir quem desistiria!

Começamos a rir, mas Christina logo se calou, ao contemplar meu jardim.

– Esta casa é tão boa!

Que merda! Eu sabia qual seria o rumo da conversa.

– É, sim, e tenho certeza de que alguém vai adorar.

– Mas você adora esta casa, Annie... e vai ser mesmo uma pena...

– Christina, chega.

Ela ficou calada por alguns segundos, com o corpo contraído ao lado do meu. Em seguida, balançou a cabeça.

– Não. Desta vez, não. Eu respeitei suas vontades nesses últimos meses, fiquei quieta enquanto você lutava com toda essa coisa soz-inha, mas não vou deixar você fugir, Annie.

– Fugir? Quem falou em fugir? Estou finalmente encontrando meu caminho, Christina. Eu esperava que você fosse ficar feliz com a notícia.

– Vender a casa que você ama? Estudar arte nas Montanhas Rocho-sas quando uma das melhores faculdades fica a uma hora daqui? Isso não é encontrar o caminho. Você mesma disse que vai deixar tudo para trás.

– Eu quero estudar nessa faculdade desde criança e esta casa me faz lembrar de tudo na minha vida, inclusive da minha mãe.

– Exatamente, Annie. Você vem querendo fugir da sua mãe desde criança. Acha que isso vai fazer a dor ir embora? Você não vai con-seguir apagar tudo o que aconteceu.

– Você está me gozando? Pensa que estou tentando esquecer o que me aconteceu?

– Sim, acho que sim, mas você não vai conseguir. Todos os dias vo-cê pensa no que aconteceu, não é? E eu fico muito chateada porque você não confia em mim o suficiente para me contar o que aconteceu. Fico chateada porque você acha que não tenho condições de lidar com a coisa.

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– Isso não tem nada a ver com você. Tem a ver comigo. Eu não tenho condições de lidar com isso. Eu mal consigo falar no assunto com minha terapeuta. E contar em voz alta a alguém que me con-hece... contar o que ele fez, o que eu fiz... ver nos seus olhos...

– Você sente vergonha? É isso? O que aconteceu não foi culpa sua, Annie.

– É, sim... você não entende? Não, você não entende... não poderia entender. Porque você nunca permitiria que uma coisa dessas aconte-cesse com você.

– É isso o que você pensa? Deus do céu! Annie, você sobreviveu durante um ano ao lado de um maníaco, teve que matar o cara para conseguir fugir, e eu não consigo nem fugir do meu casamento.

– Do seu casamento? O que está acontecendo com seu casamento?

– O Drew e eu... a coisa não está nada boa. Estamos falando em divórcio.

– Que merda! Você nunca disse...

– Você queria falar de amenidades, lembra? Não tem muita amen-idade num casamento que está acabando. – Ela deu de ombros. – Nós já estávamos tendo problemas antes de você ter sido sequestrada, mas neste último ano a coisa piorou.

– Por minha causa?

– Em parte, sim. É que eu fiquei obcecada pela ideia de encontrar você... mas mesmo antes disso... você sabe que no nosso trabalho não sobra tempo para muita coisa. Eu achava que a nova casa ajudaria, mas... – Deu de ombros novamente.

Um mês antes do meu sequestro, eles tinham comprado uma casa, e ela não parava de falar nos móveis novos que os dois estavam com-prando. Eu achava que o relacionamento deles fosse excelente.

– Tanta coisa mudou, Annie. Depois do seu desaparecimento, eu tive pesadelos todas as noites, durante quase um mês. Não faço mais plantões sozinha. Na semana passada, um estranho me telefonou pedindo para ver uma casa vazia, e eu o encaminhei a outro corretor. Durante um ano inteiro, tudo girou em torno das tentativas de

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encontrar você. Por fim, o Drew me convenceu a fazer aquele cruzeiro, e eu não estava aqui para lhe dar apoio quando você ficou hospitaliz-ada. E, agora que você voltou para casa, eu ainda não pude curtir sua volta... eu sinto sua falta. E não dá mais para ignorar a situação do meu casamento. O Drew quer fazer terapia de casal, e eu não sei que merda eu quero fazer...

Começou a chorar. Fixei os olhos no gramado e pisquei para conter as lágrimas.

– Essa coisa... essa coisa horrível... não afetou apenas você. Afetou todo mundo que gosta de você. E mais, afetou a cidade inteira... afetou mulheres por todo o país. A vida de muita gente mudou, não apenas a sua.

Comecei a contar as folhas na grama.

– Nada disso é culpa sua. Eu só quero que você saiba que não está sozinha. Outras pessoas também estão sofrendo. É por isso que eu en-tendo por que você quer fugir. Eu também quero fugir, mas você pre-cisa fincar o pé e encarar a situação. Eu amo você, Annie, como uma irmã. Mas desde que nos conhecemos você mantém uma distância entre nós. E agora você está prestes a aumentar essa distância. Você desistiu. Como ele desistiu...

– Ele quem?... Que merda! Christina, por favor, você não está me comparando com aquele babaca.

– Mas a coisa era demais para ele, certo? Conviver com outras pess-oas? Então, ele fugiu...

– Eu não estou fugindo. Estou seguindo em frente e construindo uma nova vida para mim. Jamais compare isso com o que ele fez. Chega desse papo. – Ela me encarou. – Na verdade, acho melhor você ir embora.

– Está vendo? Lá vai você, fugindo. Estou fazendo você sentir al-guma coisa, mas você não aguenta, não consegue encarar a realidade. Então, a única coisa que consegue fazer é me mandar embora.

Eu me levantei, entrei em casa e bati a porta. Alguns minutos de-pois, ouvi o carro dela se afastando.

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Gary me telefonou naquela noite, para dizer que o agiota tinha sido localizado e que a polícia estava preparando uma acusação contra o cara. Disse também que minha mãe vinha recebendo várias visitas e dando entrevistas a qualquer um.

– Isso não é surpresa para mim – comentei. – Mas tenho uma sur-presa para você. – Disse a ele que finalmente correria atrás de um sonho.

– Que bom, Annie! Parece que você está no caminho certo.

Feliz ao constatar que ele não concordava com Christina, afirmei:

– Estou chegando lá. E você?

– Também tenho pensado na vida. Um dos caras que me treinou es-tá abrindo uma consultoria e me convidou para ser sócio. Posso morar onde quiser, posso viajar, fazer apresentações, folgar quando quiser.

– Pensei que você gostasse do seu trabalho.

– Eu também, mas depois que concluímos seu caso comecei a me questionar... e agora, com o divórcio... não sei, não... Mas parece ser um bom momento para mudar de vida.

Eu ri.

– Pois é, entendo exatamente o que está dizendo. Ainda estou com seu casaco, sabia?

– Eu sei, não estou com pressa. Acabei de comprar um carro novo, sabia? Um Yukon Denali...

– Nossa! Você está mesmo a fim de mudar de vida. Então é verdade que caras que estão passando pela crise da meia-idade gostam de car-ros esportivos?

– Ei! Quando tomo uma decisão, eu vou fundo. Mas o que eu estava querendo dizer, sua sabidinha, é que eu pretendo fazer uma viagem com o carro novo qualquer fim de semana. Se eu for lá para seus la-dos, ou quando você voltar aqui na época do julgamento, eu gostaria de convidá-la para um café ou almoço.

– Eu vou estar muito ocupada com as aulas.

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– Como eu disse, não estou com pressa.

– Você leva o creme de amendoim?

– Quer saber? Talvez eu leve mesmo. – Ele riu.

– Acho que eu tenho algumas colheres.

 

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Na manhã seguinte, acordei cedo e fui de carro até a escola. Que sensação agradável... sair dessa cidade ainda que por alguns dias. As Rochosas são deslumbrantes nesta época do ano e, ao observar aqueles picos imensos, lançando-se ao céu, quase esqueci a discussão com Christina. Fiz a viagem toda de janelas abertas, para que o per-fume dos pinhões invadisse meu carro. Emma viajou no banco tra-seiro, com a cabeça para fora da janela, quando não estava tentando lamber meu pescoço. A viagem até a escola e o encontro com o belo edifício em estilo Tudor, com as Rochosas como cenário, me deixaram eufórica. As coisas seriam diferentes ali.

Depois que estacionei, Emma e eu demos uma volta pelo campus. Quando passei por duas garotas sentadas no gramado, desenhando, uma delas olhou para mim e trocamos um sorriso. Eu tinha esquecido como era agradável ganhar um sorriso de um desconhecido. Mas em seguida o olhar se fixou e percebi que ela havia me reconhecido. Des-viei a atenção no momento em que ela cutucou a colega. Voltei ao carro com Emma e procurei o departamento de admissão.

Era tarde demais para iniciar os estudos em setembro. Preenchi en-tão a papelada para as aulas de janeiro. Eu não tinha levado meu port-fólio, mas mostrei meus esboços ao professor encarregado de orientar os novos alunos. Ele disse que não via problemas quanto à minha ad-missão e sugeriu os trabalhos que eu deveria submeter. Fiquei decep-cionada por ter que esperar, mas o professor disse que eu poderia as-sistir a algumas aulas noturnas a fim de me preparar para o curso.

A caminho de casa, comecei a fazer planos para a mudança imin-ente, mas, ao me aproximar de Clayton Falls, as palavras de Christina

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– “Você está fugindo” – me assustaram. Eu mal podia acreditar que ela havia se atrevido a dizer aquilo. Que diabos ela estava pensando? E aquela coisa de me dizer que não estou sozinha? É claro que estou soz-inha. Minha filha morreu, meu pai morreu, minha irmã morreu e minha mãe... era como se tivesse morrido. Quem era Christina para julgar qualquer ato meu?

Você está fugindo.

 

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Horas mais tarde, estacionei diante da casa de Christina, andei até a porta da frente e bati com força.

– Annie!

– O Drew está em casa?

– Não, ele está passando uns tempos na casa de um amigo. O que houve?

– Escute, sei que você está passando por um momento difícil, Christina. Mas isso não lhe dá o direito de se meter na minha vida. A vida é minha, minha. Não é sua.

– Tudo bem, Annie... eu só...

– Por que você não me deixa em paz? Você não faz ideia do que eu passei.

– Não, não faço. Até porque você se recusa a me contar.

– Como você pôde me dizer aquelas coisas? Minha mãe mandou me sequestrar, Christina.

– É... mandou mesmo.

– Ela mentiu para mim.

– Mentiu para todo mundo.

– Ela me deixou naquela montanha. Sozinha.

– Completamente sozinha.

– Minha própria mãe fez isso comigo.

– Sua mãe, Annie.

– E agora ela está na cadeia. Não tenho mais ninguém. Ninguém.

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– Você tem a mim.

Então desabei.

 

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Christina não me abraçou enquanto eu chorava. Ela sentou ao meu lado, com o ombro encostado ao meu, enquanto eu desfiava as queixas contra minha mãe. Cada injustiça que ela cometeu contra mim desde a infância, cada sonho frustrado, cada desejo insatisfeito. E, depois de cada desabafo, Christina não dizia: “Sim, ela fez isso. Foi um grande erro. Você foi vítima disso tudo.”

Por fim, os soluços se transformaram em suspiros e uma estranha serenidade se abateu sobre mim.

– Por que você não pega a Emma no carro e a gente toma um chá? – disse Christina.

Resolvemos colocar pijamas. Christina me emprestou um e disse, abrindo um sorriso:

– É de seda.

– Claro – respondi, sorrindo timidamente.

Em seguida, diante de um bule cheio de chá, sentamos à mesa da cozinha. Respirei fundo.

– Minha bebê? O nome dela era Esperança.