Identidade roubada
D É C I M a T e R C e I R a S e S S Ã o
DÉCIMA TERCEIRA SESSÃO
Ébom tê-la de volta, doutora. Pelo menos uma de nós está des-cansada. Estou brincado... não tenho a menor dúvida de que você precisava de um tempo longe dessa atmosfera tão negativa. Acho até que consegue disfarçar bem, mas eu sei que essa coisa abala qualquer um. Desde nossa primeira sessão, tenho notado que sempre que falo sobre algo intenso você rasga um canto da folha do bloco e faz uma bolinha. Quanto mais rápido é o gesto, mais a merda está mexendo com seus nervos. Todos nós, de um jeito ou de outro, acabamos nos traindo.
Como eu disse, é bom saber que você se divertiu, mas estou muito mais feliz agora que voltou. Eu bem que precisei dos seus cuidados na semana passada. E não, não foi por causa daquela besteira que falei na última vez... que alguém ainda quer me pegar..., embora aquele abutre ainda esteja lá no alto. Foi por causa de outra coisa que aconteceu. Vi meu ex-namorado numa mercearia, escolhendo maçãs ao lado de uma garota... Meu Deus! O jeito como ele sorriu para ela acabou comigo. E a maneira como ela inclinou a cabeça para trás... com uma blusa branca, justa, de gola rulê e jeans de marca... rindo de alguma coisa que ele disse...
Antes que me vissem e eu fosse obrigada a perceber o belo sorriso de compaixão no rosto do Luke, eu me abaixei e dei a volta na gôn-dola. Larguei a cesta no meio da loja, saí porta afora com a cabeça baixa e me enfiei dentro do carro, o coração mais disparado que o de um viciado em crack. Tentando não cantar pneu, pois estava desesper-ada para sair dali, levei o carro até os fundos do estacionamento da mercearia, parei longe dos outros veículos e cai em lágrimas com a cabeça apoiada no volante.
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Ela não deveria estar ali. Ele era meu. Eu deveria ser a garota escol-hendo maçãs ao lado dele. Fui para casa, mas não consegui parar de chorar, e não fiz minhas compras. Naquela noite acabei comendo queijo duro e biscoito velho, pensando nos dois abraçadinhos na cama numa manhã de domingo, ou nele dando um beijo nela, correndo as mãos por aqueles cabelos lindos. Que droga! Quando conseguisse parar de pensar na cena, eles já estariam noivos e escolhendo os nomes dos futuros filhos.
Naqueles segundos ele parecia tão feliz, e eu queria ser a única mul-her capaz de fazer o Luke sorrir daquele jeito. Só em falar nisso já me sinto louca por dentro. Sei que é importante que ele esteja bem, que devo querer o melhor para ele e tudo o mais. Mas será que tem que ser alguém como ela? A lourinha perfeita... tão limpinha naquela blusa branca de gola rulê que me senti suja só de olhar para ela. Eu cos-tumava usar roupas como as dela... costumava querer usar roupas como aquela.
Eu me pergunto se aquela mulher, aquela estranha, sabe da minha existência. Ela deve ser boa gente... não consigo vê-lo saindo com al-guém que não fosse. Talvez ela tenha pena de mim. Meu Deus! Espero que não. Eu já tenho pena demais de mim mesma.
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Depois que o Maníaco matou o pato, um pedaço de mim foi arran-cado, deixando no lugar um buraco negro. O pavor entrou por ali com uma gigantesca mão que arrancou meu coração e minhas entranhas. Nos dias seguintes, todas as vezes que ele pegava minha filha no colo, examinava-a ou, que droga!, passava ao lado do cesto, a mão me aper-tava com mais força.
Certa manhã, ela chorava no cesto e eu estava prestes a pegá-la, mas ele foi mais rápido. Nos braços do Maníaco, ainda enrolada na manta enquanto ele a embalava, a trouxinha soltou um pequeno grito. Ele aproximou o rosto do dela e disse:
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– Pare de chorar!
Prendi a respiração. Ela se calou e o Maníaco sorriu, orgulhoso. Eu sabia que ela havia parado por causa do embalo dos braços, não das palavras, mas eu não tinha tendências suicidas e, portanto, não o repreendi.
– Ela sabe ouvir – disse ele. – Mas nessa idade o cérebro é uma es-ponja, facilmente envenenado pela sociedade. É bom que ela esteja aqui. Aqui ela vai aprender os verdadeiros valores, valores que trans-mitirei para ela. Mas, acima de tudo, ela vai aprender a respeitar.
Que merda! Como eu lidaria com aquilo?
– Sabe... às vezes, sem querer, as crianças testam os limites, e pode acontecer de ela não entender o que você está tentando... ensinar. Mas isso não quer dizer que ela seja má, ou que não o respeite... é coisa de criança.
– Não... não é coisa de criança... é coisa que os pais permitem que elas façam.
A conversa não parecia aborrecê-lo, então eu continuei:
– Quem sabe não é bom que uma criança tenha curiosidade e teste a autoridade? Você me disse que as mulheres que você conheceu na vida sempre tomaram decisões erradas em relação a homens e à vida profissional... mas talvez elas estivessem apenas se rebelando, por não terem podido tomar decisões próprias quando eram mais jovens.
Ainda calmo, ele respondeu:
– Foi isso que sua mãe fez? Criou você com liberdade para ter ideias próprias?
Claro, eu tinha liberdade para pensar, exatamente como ela.
– Não, mas é por isso que quero dar uma vida melhor à minha filha. Você não quer que sua filha tenha uma vida melhor do que a sua?
Ele parou de embalá-la.
– O que você está insinuando?
Ah! Que merda!
– Nada! Eu só estou preocupada que você tenha expectativas que não sejam...
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– Expectativas? Sim, eu tenho expectativas, Annie. Espero que minha filha respeite o pai. Espero que ela cresça e se torne uma dama... não uma puta que abra as pernas para qualquer homem que apareça. Não acho que isso seja esperar demais. Você acha? Ou você está querendo criar minha filha para ser uma puta?
– De jeito nenhum. Não era isso que eu estava querendo dizer...
– Você sabe o que acontece com garotas que crescem achando que podem fazer o que bem entendem? Eu trabalhei numa área de explor-ação de madeira durante algum tempo. – O Maníaco era lenhador? – E lá havia uma mulher que pilotava helicóptero. Ela contava que o pai tinha dito que ela poderia ser o que quisesse. O cara era um idiota. Quando conheci essa mulher, o namorado, um lenhador imbecil que trabalhava na área, havia acabado de dar um fora nela.
Bem, a opinião dele sobre lenhadores não era das melhores. Port-anto, talvez ele fosse o capataz ou trabalhasse no escritório da madeireira.
– Durante seis meses, ouvi a mulher falar sobre o troglodita e deixei que ela chorasse lágrimas patéticas no meu ombro. Ela começou a dizer que queria encontrar um homem bom e eu a convidei para sair, mas ela disse que não estava em condições. Então esperei. Aí, um belo dia, ela me disse que sairia para dar uma volta a pé. Sozinha. Mas vi quando ele saiu alguns minutos depois, e fui atrás.
Ele passou a embalar a neném cada vez mais rápido, e ela começou a reclamar.
– Os dois estavam no bosque, deitados em cima de um cobertor, e ela estava deixando aquele sujeito, aquele sujeito que ela desprezava, que a tinha jogado fora como lixo, fazer coisas com ela. Então esperei até ele ir embora e tentei conversar com ela, dizer que ele a magoaria novamente, mas ela me disse que cuidasse da minha vida e se afastou de mim. De mim! Depois de tudo o que fiz para protegê-la, ela voltaria para o sujeito. Eu tinha que salvá-la. Ela não me deu escolha. – As mãos dele apertaram a bebê.
Dei um passo adiante e estiquei os braços.
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– Você está machucando ela.
– Ela me machucou! – Então desviou a cabeça no momento em que a criança começou a gritar e olhou-a como se fosse uma estranha. Em-purrou a menina para os meus braços, quase deixando-a cair, e dirigiu-se à porta. Agarrado ao batente, falou por cima do ombro: – Se ela se tornar uma delas... – Sacudiu a cabeça. – Não posso permitir que isso aconteça. – E saiu batendo a porta, deixando-me sozinha para consolar a neném, embora eu quisesse chorar com ela.
Depois de uma hora, voltou com o rosto tranquilo e foi até o cesto da bebê.
– Acho que se você considerar do que estou livrando esta criança, Annie – das doenças, das drogas, da pedofilia que impera no mundo –, e perguntar a si mesma se quer realmente o melhor para sua filha ou o que é melhor para você... – agachou-se ao lado da neném e sorriu – você vai se dar conta de que a vida dela é mais importante que a sua. – O sorriso desapareceu no momento em que ele ergueu os olhos e me encarou. – Você está disposta a fazer isso, Annie?
Meu olhar desceu até as mãos dele, estendidas sobre o corpinho da criança, mãos que haviam matado ao menos uma pessoa e que só Deus sabia o que tinham feito com a piloto de helicóptero.
De cabeça baixa, respondi:
– Sim, sim, estou.
O resto daquele dia, cada nervo do meu corpo gritou para eu correr, e senti dor nas pernas em consequência da quantidade de adrenalina não liberada. Minhas mãos tremiam. Eu deixei pratos, roupas, sabão, tudo cair no chão. Quanto mais frustrado ele se mostrava, mais coisas eu derrubava e mais minhas pernas doíam. O menor ruído me causava um sobressalto, e, se ele fizesse algum gesto brusco, meu sangue dis-parava nas veias, eu começava a transpirar.
No dia seguinte, ele arrumou uma maleta com uma muda de roupa e saiu, sem dizer uma palavra sobre seu destino. Meu alívio deu lugar ao pavor de que finalmente ele estivesse farto de nós e que não vol-tasse. Desesperados, meus dedos revistaram todo o chalé, do chão ao
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teto, mas não havia como escapar. Ele voltou no dia seguinte, e eu ainda não fazia ideia de como tirar minha filha daquele inferno.
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Aonde quer que tenha ido, ele nos trouxe um vírus, e logo começou a tossir e espirrar. Como seria de esperar, o Maníaco era um paciente que exigia muito de mim. Não apenas eu tinha que cuidar da bebê e das minhas tarefas como também precisava enxugar sua maldita testa a cada cinco segundos, manter o fogo aceso e buscar os cobertores na secadora – ideia dele, não minha –, enquanto ele ficava estirado na cama. Rezei para que pegasse pneumonia e morresse.
O Maníaco me obrigou a ler para ele até ficar rouca. Quem me dera poder jogar pôquer com ele, como eu costumava fazer com meu pai adotivo. Wayne não era o tipo de cara que exigia que a mulher enxu-gasse sua testa, o que muito me agradava, e, quando eu ficava doente, ele me ensinava a jogar cartas. Bastava eu fungar e lá vinha ele com o baralho, e jogávamos durante horas. Eu adorava a sensação das cartas nas mãos, os números, as sequências. Acima de tudo, eu adorava gan-har, e ele era obrigado a me ensinar jogos cada vez mais complexos para conseguir me vencer de vez em quando.
No segundo dia, a tosse parecia explodir o corpo do Maníaco. Inter-rompi a leitura e perguntei:
– Você tem algum remédio em casa?
Como se eu ameaçasse enfiar-lhe algo goela abaixo, ele cravou as unhas no meu braço e respondeu:
– Não! Nada de remédio!
– Pode ajudar.
– Remédio é veneno. – Sua mão ardia em febre, queimando meu braço.
– Talvez se você fosse até a cidade procurar um médico...
– Médicos são piores que remédios! Médicos mataram minha mãe. Se ela tivesse me deixado cuidar dela, tudo acabaria bem. Mas eles a
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entupiram de veneno, e ela ficou cada vez mais doente. Eles mataram minha mãe.
Mesmo com o nariz entupido, ele expressava desprezo em cada sílaba.
Depois de alguns dias, parou de tossir, mas a neném começou a chorar durante a noite e a acordar a cada duas horas. Quando a toquei, percebi que ela estava febril. Eu tentava consolá-la assim que ela acordava, mas, numa das vezes, não reagi de imediato, e ele atirou um travesseiro na direção do cesto.
Em outra ocasião, não deixou que eu pegasse a bebê no colo.
– Continue a ler – ordenou. – Ela só quer chamar sua atenção. – Eu queria ajudar minha filha, mas precisava preservar a vida de nós duas. Retomei a leitura.
O choro dela se tornou mais intenso. Ele arrancou o livro das min-has mãos.
– Faça com que ela pare, ou então eu vou fazer.
Peguei-a no colo e, no tom de voz mais sereno e contido possível, ponderei:
– Acho que ela está ficando doente também.
– Ela está bem. Você precisa aprender a controlar essa criança. – Ele enfiou a cabeça embaixo do travesseiro. Minha vontade era me jogar em cima do Maníaco com todo o peso do corpo, mas ele afastou o travesseiro e disse: – Quero um copo de água. E desta vez... gelada! – Sorri simulando alegria, enquanto por dentro mais um pedaço de mim se partia.
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Na manhã seguinte, mais cedo que o usual, ela me acordou, chorando. Peguei-a no colo e comecei a andar pelo chalé na ponta dos pés, tentando acalmá-la, em vão. O Maníaco pulou da cama e se vestiu, encarando-me com os olhos arregalados.
– Desculpe, mas acho que ela está mesmo doente.
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Saiu porta afora. Voltei para a cama e me preparei para amamentá-la. Era uma das coisas que eu mais gostava de fazer com ela. Adorava o jeito como a bebê me olhava, apoiando a mãozinha no meu seio, a barriguinha estufando quando ficava cheia, o bumbunzinho que cabia perfeitamente na minha mão. Tudo era tão delicado: as mãos, com linhas mínimas e unhas minúsculas, as faces lisinhas, os cílios escuros e sedosos.
Geralmente, quando acabava de mamar, eu beijava cada parte do corpo da minha filha, a começar pelos dedinhos e pela solinha do pé, tão macia. Quando chegava às mãos, eu fingia sugar as pontas dos de-dos e em seguida beijava o braço. Para o grande final, eu soprava na barriguinha, até ela dar gritinhos de felicidade.
Mas naquele dia minha filha, sempre feliz, estava inquieta e nervosa, e toda vez que eu tentava amamentá-la ela afastava a boca do meu mamilo. A pele queimava e as faces eram círculos vermelhos, como a maquiagem de um palhaço. O estômago parecia inchado, e achei que ela estivesse com gases. Comecei então a caminhar com a bebê no colo, mas ela vomitou no meu ombro e chorou até pegar no sono. Nunca tinha me sentido tão impotente na vida. A possível reação do Maníaco me apavorava, mas era preciso pedir algum tipo de ajuda.
– A menina está mesmo doente. Ela precisa de um médico – confrontei-o, assim que ele voltou.
Ele olhou para mim.
– Trate de preparar o café da manhã.
Enquanto comíamos, ela começou a chorar no cesto, e me levantei para pegá-la no colo, mas ele ergueu a mão e ordenou:
– Pare! Pegá-la no colo só vai reforçar o comportamento negativo. Acabe de tomar o café.
O choro da neném rasgava o ar e quando ela inspirava, entre um grito e outro, um chiado saía do seu peito.
– Ela não está bem. Podemos chamar um médico, por favor? Eu sei que sua mãe morreu, mas ela estava com câncer... não foram os
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médicos que a mataram. Você pode me amarrar dentro do carro e levá-la ao consultório. – Hesitei por um segundo. – Ou espero aqui e você leva a bebê, está bem? – Eu tinha mesmo dito aquilo? Ela estaria sozinha com ele... mas receberia assistência.
Ele mastigava devagar. Enfim, parou, limpou a boca com o guard-anapo, tomou um gole de água e disse:
– Médicos fazem perguntas.
Os gritos eram de partir o coração.
– Eu sei... mas você é esperto... mais esperto que qualquer médico. Você vai saber o que dizer, e eles não vão desconfiar de nada.
– Exatamente. Eu sou mais esperto que qualquer médico. E é por isso que eu sei que ela não precisa de médico nenhum. – Marchou até o cesto, seguido de perto por mim. Sua voz se elevou, para competir com os gritos, e concluiu: – Ela só precisa aprender o que é respeito.
– Por que você não relaxa, e eu cuido dela?
– Acho que não, Annie. Sem dúvida, você está fazendo alguma coisa errada. – No momento em que ele pegou a bebê do cesto, agarrei o vestido na altura das coxas, assim minhas mãos não esmurrariam suas costas, e rezei para que ela se acalmasse. Mas, quando ele a embalou, os gritos ficaram ainda mais desesperados.
– Por favor, entregue-a para mim. – Estendi as mãos, trêmulas. – Por favor. Ela está com medo.
Numa fração de segundo, ele me encarou, roxo de raiva. No instante seguinte, suspendeu as mãos e largou a bebê. Consegui segurá-la, mas perdi o equilíbrio e caí de joelhos no chão. Não sei se assustada ou ex-austa, a menina deu um soluço e se acalmou nos meus braços. Ele ajoelhou, aproximando o rosto do meu. Chegou tão perto que pude sentir seu hálito.
– Você fez minha filha se voltar contra mim. Isso não é bom, Annie. Não é nada bom.
– Eu nunca faria uma coisa dessas – retruquei, num murmúrio trêmulo. – Ela só está um pouquinho confusa, porque está doente. Ela ama você. Eu sei disso, eu percebo. – Ele inclinou a cabeça para o
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lado. – Quando ela escuta sua voz, os olhos procuram por você. Ela não faz isso comigo quando está no seu colo. – Tudo mentira, mas era preciso que ele acreditasse.
Ele cravou-me os olhos por um minuto, que se mostrou torturante. Então bateu palmas e convidou:
– Vamos, nosso café está esfriando.
Coloquei minha filha no cesto e segui o Maníaco, meu corpo tenso, à espera de novos gritos. Felizmente, ela havia adormecido.
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Depois do café, ele se espreguiçou e deu uma palmadinha no es-tômago. Eu precisava tentar de novo.
– Se você me deixar dar uma olhada nos livros, talvez eu encontre ervas ou plantas que sirvam como remédio. Seria algo natural, e você pode conferir se é seguro.
Ele olhou para o cesto e disse:
– Ela vai ficar boa.
Mas não ficou. Nos dias seguintes, a bebê ardeu em febre. A pele se-dosa queimava minhas mãos e eu não tinha ideia do que fazer. A tosse provocava engasgos, e eu colocava toalhas quentes no peitinho dela, na tentativa de aliviar a congestão. Mas, se o pano quente a inco-modava, o frio a fazia gritar mais ainda. Nada adiantava. Ela começou a acordar de hora em hora durante a noite, e eu não conseguia dormir, permanecendo num estado letárgico constante, sempre assustada. Às vezes, eu escutava a respiração dela ficar presa na garganta, e meu coração parava até eu ouvir a seguinte.
O Maníaco decidiu que, se a bebê chorasse durante o dia, nós deveríamos ignorá-la, para ela adquirir autocontrole. Porém, passados alguns minutos, ele saía porta afora, berrando: “Pegue logo ela!” Quando a bebê chorava de noite, eu corria até ela, mas, se o Maníaco acordasse, atirava o travesseiro em nós duas ou cobria a cabeça. Às vezes, dava socos na cama.
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Para ele voltar a dormir, eu me escondia com a bebê no banheiro até ela se acalmar. Uma noite, na esperança de que o vapor ajudasse a menina a respirar, abri o chuveiro. Mas não tive tempo de descobrir se o procedimento daria certo, pois o Maníaco invadiu o banheiro, grit-ando para eu desligar a ducha.
Depois de algumas noites, eu parecia um fantasma. Na quinta noite, ela acordava a cada meia hora e, para mim, estava difícil manter os ol-hos abertos. Lembro-me das minhas pálpebras tão pesadas que eu só queria fechá-las por um segundo, mas devo ter pegado no sono, pois acordei sobressaltada. Meu primeiro pensamento foi que o chalé es-tava quieto, e me senti aliviada por ela estar finalmente descansando. Voltei a fechar os olhos. Então percebi que o Maníaco não estava ao meu lado e dei um pulo.
O chalé estava às escuras. Embora fosse verão, a noite anterior tinha sido um pouco fria e ele havia acendido o fogo. À luz das brasas, pude perceber a figura dele ao pé da cama. Estava meio curvado, e pensei que pretendesse pegá-la no colo, mas, quando virou, vi que ele segurava a bebê. Zonza, estiquei os braços.
– Desculpe, não ouvi ela chorar.
Ele me entregou a bebê, acendeu a luz e começou a se vestir. Não entendi por quê. Estava na hora de levantar? Por que ele não dizia nada? A neném estava quieta nos meus braços, e afastei a manta que cobria seu rosto.
Pela primeira vez em dias, o rosto não estava contorcido de dor, nem parecia vermelho ou suado. Mas a palidez não era normal, e a boquinha de botão estava azulada. As pálpebras também estavam azu-ladas. Os sons que o Maníaco fazia ao se vestir eram amortecidos pelo ruído da minha pulsação, que chegava aos meu ouvidos, e então tudo se calou na minha mente.
Quando toquei o rosto da bebê com minha mão fria, notei que ele estava ainda mais frio. A menina não se mexia. Encostei o ouvido à boquinha e meu peito se contraiu, como se os pulmões lutassem para absorver o ar. Eu nada ouvia. Nada sentia. Então encostei o ouvido
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àquele tórax diminuto, mas o único som era o do meu coração disparado.
Apertei suas narinas, soprei dentro da boca e fiz uma massagem no peito. Ouvi um choramingo no chalé. Meu coração deu um salto de alegria, mas percebi que eu era a responsável pelo choro. Ainda tentando reanimá-la, voltei a encostar o ouvido na minúscula boca.
– Por favor, por favor, respire. Deus, me ajude, por favor.
Era tarde demais. Ela estava muito fria.
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Paralisada, sem saber o que fazer, sentei-me ao pé da cama, tent-ando não aceitar o fato de ter minha filha morta nos braços. O Maníaco nos olhava com um semblante impassível.
– Eu disse que ela precisava de um médico. EU DISSE! – gritei, socando as pernas do Maníaco com uma das mãos e segurando a bebê com a outra.
Ele me deu uma bofetada, e então disse num tom de voz monocórdio:
– Me dê a criança, Annie.
Sacudi a cabeça.
Ele agarrou meu pescoço com uma das mãos, e enfiou a outra em-baixo do corpo da bebê. Nossos olhos ficaram frente a frente. A mão que me apertava o pescoço começou a fazer mais pressão.
Larguei minha filha.
Ele pegou-a dos meus braços e a suspendeu até a altura do peito. Em seguida, endireitou-se e caminhou na direção da porta.
Eu queria dizer algo, qualquer coisa que o fizesse parar, mas não consegui expressar uma única palavra. Ergui a manta no ar, estendi-a na direção do Maníaco, que se afastava de costas, e solucei:
– Frio... ela está com frio.
Ele parou, deu meia-volta e se pôs diante de mim. Pegou a manta e a olhou com uma expressão indecifrável. Estiquei os braços para
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minha bebê, com o semblante em súplica. Nossos olhares se cruzaram e por um instante pensei ter visto algo diferente no rosto dele, uma leve hesitação. Mas no instante seguinte a expressão se fechou. Com a manta, ele cobriu a cabeça da bebê.
Comecei a gritar.
Ele se encaminhou para a porta. Pulei da cama, mas era tarde demais.
Minhas unhas arranharam com desespero a porta de aço, num gesto em vão. Chutei e me atirei contra ela até não conseguir levantar meu corpo machucado do chão. Finalmente, encostei o rosto à super-fície gelada e berrei o nome secreto da minha filha, até a garganta ficar em carne viva.
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Ele se ausentou durante cerca de dois dias. Não sei quanto tempo permaneci encostada à porta, gritando e implorando que trouxesse minha filha de volta. Meus dedos ficaram ensanguentados, destruí to-das as unhas arranhando a porta, sem conseguir deixar uma única marca. Por fim, arrastei-me de volta à cama e chorei até não ter mais uma lágrima sequer.
Numa tentativa patética de ganhar tempo contra a dor, minha mente tentava racionalizar e entender o que tinha acontecido, mas eu pensava apenas que a morte dela era minha culpa, pois eu tinha pegado no sono. Minha filha teria chorado? Eu estava tão sintonizada com cada som produzido por ela que, com certeza, escutaria o choro. Ou eu estava tão exausta que não consegui acordar? Era minha culpa, tudo minha culpa. Eu deveria ter acordado e examinado minha filha durante a noite.
Quando o Maníaco abriu a porta, eu estava sentada na cama, en-costada à parede. Pouco me importava se ele me matasse naquele mo-mento. Mas, tão logo se aproximou, percebi que trazia algo nos
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braços, e meu coração se encheu de esperança. Ela ainda estava viva! Ele me entregou a trouxa. Era a manta, somente a manta.
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Eu me atirei contra o Maníaco, socando seu peito. A cada golpe, eu repetia:
– Tarado de merda, tarado de merda, tarado de merda!
Ele agarrou meus braços, me levantou do chão e me manteve a dis-tância. Como uma gata enlouquecida e encurralada, eu unhava o ar.
– Onde ela está? – Voava cuspe dos meus lábios. – Me diga agora, seu filho da mãe! O que você fez com ela?
Ele parecia confuso de verdade
– Mas eu trouxe a... – respondeu.
– Você me trouxe a manta. A manta? Você acha que isso vai sub-stituir minha filha? Seu idiota! – Um riso histérico borbulhou nos meus lábios, e então deu lugar a uma gargalhada.
Ele soltou meus braços, meus pés bateram no chão, produzindo um som surdo, e cambaleei para a frente. Antes que pudesse me equilib-rar, o braço dele se retesou e o punho explodiu no meu maxilar. O piso se aproximou de mim, e tudo ficou preto.
Quando acordei, estava sozinha na cama, para onde ele deve ter me levado, e minha boca latejava. A manta da minha filha estava dobrada sobre o travesseiro ao meu lado.
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Ainda hoje, ninguém sabe o nome da minha filha, nem os tiras. Tento pronunciá-lo em voz alta, só para mim, mas ele fica trancado na garganta, no coração.
Ao sair por aquela porta carregando o corpo, o Maníaco levou tudo o que restava de mim. A criança tinha apenas quatro semanas de vida quando morreu... ou foi morta. Quatro semanas. Não é tempo
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suficiente para se viver. Ela viveu nove vezes mais dentro da minha barriga.
Eu vejo nas revistas fotos de crianças com a idade que ela teria hoje, e me pergunto se minha filha se pareceria com elas. Será que o cabelo ainda seria castanho-escuro? E a cor dos olhos? Seria uma criança alegre ou introvertida? Nunca vou saber.
A lembrança mais nítida que tenho daquela noite é o Maníaco sen-tado ao pé da cama com a menina no colo, e penso: Terá sido ele? Aí eu penso que, mesmo que não tenha sido um ato intencional, ele a matou ao não querer providenciar ajuda. É mais fácil odiar o Maníaco, é mais fácil culpá-lo. Então eu fico o tempo inteiro revendo aquela noite, lembrando-me da neném deitada na última vez que a ajeitei no cesto. Em dados momentos, eu me convenço de que ela ficou de cost-as, e que a culpa foi minha, pois ela provavelmente estava com pneu-monia e se engasgou com a secreção. Aí eu penso que não, minha filha ficou de bruços, e me pergunto se ela se sufocou enquanto eu dormia a um metro e meio de distância. Já ouvi dizer que a mãe sabe quando um filho está sofrendo. Mas eu não senti nada. Por que eu não senti nada, doutora?