Identidade roubada
D É C I M a o I T a V a S e S S Ã o
DÉCIMA OITAVA SESSÃO
Acaminho do consultório, passei diante de um quadro de avisos, e o cartaz de um show atraiu minha atenção. Eu estava lendo, prestes a dar um gole no meu café, quando vi a ponta de um folheto por baixo do cartaz. Algo me pareceu familiar, e resolvi pegá-lo para ler. Que merda, doutora! O folheto trazia meu rosto... meu rosto... com as palavras Corretora Desaparecida. Fiquei olhando para ele e, só quando uma lágrima caiu na minha mão, percebi que estava chorando.
Talvez eu devesse sair por aí distribuindo folhetos: Ainda Desa-parecida. Aquele rosto sorridente pertencia à mulher que eu era, não à mulher que sou agora. O Luke deve ter arrumado a foto... foi ele quem bateu, na nossa primeira manhã de Natal juntos. Ele tinha acabado de me dar um cartão lindo, e eu sorri para ele, toda feliz... Minha mão tremeu como se eu estivesse segurando gelo, não café quente.
Agora, o folheto está na lata de lixo que fica do lado de fora do seu consultório. Mas tenho vontade de ir lá e pegá-lo de volta. Só Deus sabe o que eu faria com aquilo.
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Agora que o choque de ver minha foto passou, eu gostaria muito de falar sobre o que aconteceu quando sentei e fiz a tal lista das pessoas que fazem parte da minha vida, como você sugeriu. Sim, Fräulein Freud, eu tentei pôr em prática uma das suas ideias. Que merda! Eu tinha que fazer alguma coisa... eu não podia continuar pirando por causa do arrombamento lá de casa.
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O filme que fica passando na minha cabeça, e que só serve para me encher de medo, é mais ou menos assim: Meu carro estava na gar-agem. Então o ladrão deve ter visto que saí com a Emma. Há quanto tempo ele estaria observando a casa? Dias, semanas, meses? E se não fosse um ladrão?
Depois, durante uma hora, eu fico dizendo a mim mesma que sou uma boba... Os policiais têm razão. Foi um incidente isolado, um lad-rão idiota que se assustou com o alarme. Mas aí começa tudo de novo. Alguém está observando você neste instante. É só dar bobeira e ele pega você. Não confie em ninguém.
Como eu disse, eu tinha que fazer alguma coisa.
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Ao começar pelas pessoas mais próximas – Luke, Christina, minha mãe, Wayne e parentes como Tamara, o irmão Jason, tia Val e o mar-ido Mark –, fiz uma coluna ao lado, onde poderia anotar os motivos que eles teriam para me prejudicar. Mas me senti uma completa imbe-cil, pois evidentemente não havia o que escrever.
Continuei com o nome das pessoas que eu poderia ter irritado: ex-clientes, colegas de trabalho, ex-namorados. Nunca fui processada. Entre os corretores, o único que talvez me queira mal é o corretor “misterioso” que concorreu comigo por aquele empreendimento na época em que fui sequestrada. Embora eu tenha causado algumas de-cepções amorosas, nunca fiz por onde merecer a vingança de nin-guém. Cheguei a incluir os nomes de algumas ex-namoradas do Luke, uma das quais ainda gostava dele quando começamos a namorar. Mas que droga! Ela se mudou para a Europa antes de eu ser sequestrada. Acrescentei o Maníaco, e escrevi a palavra “morto” ao lado.
Fiquei ali, sentada à mesa, olhando para aquela lista ridícula e para as observações, do tipo “consegui o imóvel que ele queria”, “não re-tornei a ligação”, “demorei para vender a casa”, “fiquei com um CD dele”, e, quando tentei imaginar qualquer uma daquelas pessoas
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vigiando minha casa ou arrombando a porta para “me pegar”, sacudi a cabeça diante da minha própria loucura.
É claro que o cara era um ladrão comum, provavelmente um adoles-cente viciado à procura de dinheiro para comprar droga, e não vai vol-tar, pois agora sabe que a casa tem alarme.
Sabe de uma coisa, doutora? Por mais idiota que eu tenha me sen-tido ao fazer a lista, valeu a pena. Até dormi na minha cama a noite toda. Quando o Luke chegou na tarde de sábado para instalar o soft-ware, eu estava mais que pronta para recebê-lo.
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Em busca de um look informal, porém não desleixado, revirei a caixa de roupas que Christina tinha me dado, e encontrei uma calça cáqui e uma camiseta lilás. Fiquei na dúvida. Tive vontade de vestir um conjunto de corrida e deixar a casa bagunçada, mas, ao me olhar no espelho, o resultado não estava nada mau.
Ainda não me acostumei com meus cabelos curtos. Então os lavei e penteei para trás. Finalmente, ganhei um pouco de peso – nunca pen-sei que isso pudesse ser algo positivo – e meu rosto está mais cheio.
Considerei a hipótese de usar um pouco de maquiagem. Minha mãe tinha levado um estojo de cosméticos quando eu ainda estava no hos-pital, mas não eram as cores nem as marcas de que eu gostava. Em to-do caso, mesmo que não tivesse ouvido a voz do Maníaco dizer que maquiagem é coisa de puta, eu não estava disposta a chamar tanta atenção para meu rosto. Preferi um hidratante, um batonzinho rosa bem claro e rímel. Provavelmente, minha aparência não era a mesma dos meus melhores dias no passado, mas também não era a “pior de todos os tempos”.
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Mas, quando abri a porta, o Luke estava lindo. Parecia que tinha vindo direto do trabalho, pois usava uma calça social preta e uma
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camisa alaranjada que ressaltava o tom de pele e os pontinhos âmbar dos olhos castanhos.
Emma se jogou no chão e se enroscou nos pés dele. Respondi ao “oi” com um “oi” quase inaudível e dei um passo atrás para ele entrar. Ficamos de pé no hall, sem saber o que fazer. Ele levantou um dos braços, como se fosse me tocar ou me puxar para um abraço, mas de-sistiu do gesto. Levando em conta minha reação nas duas últimas vezes que ele tentou encostar em mim, não me surpreendi.
Agachou-se para acariciar Emma.
– Ela está linda, não? Pensei em trazer o Diesel comigo, mas achei que seria confusão demais.
Olhando para o topo da cabeça dele, eu disse:
– Não estou inválida.
– Eu nunca disse que você estava. – Ainda abaixado, ele olhou para cima e sorriu. – Então, vamos dar uma olhada nesse programa? A propósito, você também está linda.
Encarei o Luke e senti as bochechas ficarem vermelhas. O sorriso dele se abriu. Fiz uma meia-volta tão brusca que quase tropecei na Emma.
– Vamos até meu escritório – disse eu, mudando de assunto.
A hora seguinte voou, enquanto ele me mostrava como instalar o programa e, juntos, revisávamos as planilhas. Gostei de aprender coisas novas, e foi um alívio termos algo em que nos concentrar, além de nós dois. Para mim, não era fácil ter o Luke sentado ao meu lado. Ele estava no meio de uma explicação quando desembuchei:
– Aquele dia que você me viu saindo do mercado... eu vi você com uma garota. Foi por isso que saí correndo.
– Annie, eu...
– E, quando me visitou no hospital, você foi tão gentil, trazendo flores e o cachorrinho de pelúcia, mas eu não estava em condições de lidar com... você, com nada. Depois daquele dia, pedi às enfermeiras que lhe dissessem que eu só podia receber visitas da família e da
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polícia. Eu me odeio por ter agido daquela maneira. Você foi tão gen-til. Você é sempre tão gentil, e eu sou tão...
– Annie, no dia em que você foi sequestrada... cheguei atrasado para o jantar.
Ora! Grande coisa!
– O restaurante estava cheio, e eu perdi a noção da hora. Nem tele-fonei, como costumava fazer, depois que seu plantão acabou. Quando finalmente liguei para você, a caminho da sua casa, com meia hora de atraso, e você não atendeu, pensei que estivesse chateada. Quando não vi seu carro, imaginei que estivesse com algum cliente, e fui para casa esperar um contato seu. Só depois de uma hora, quando você não tele-fonou, eu fui até o plantão... – Respirou fundo: – Meu Deus! Quando vi o carro estacionado e suas coisas espalhadas em cima do balcão, liguei para sua mãe na hora.
No fim das contas, foi minha mãe que conseguiu que a polícia levasse a queixa a sério. Ela se encontrou com Luke na delegacia, con-venceu o sargento de plantão que eu jamais daria um bolo no namor-ado e estava em casa quando os tiras encontraram minha bolsa dentro de um closet, onde eu sempre a guardava por medida de segurança. Como não havia sinais de luta, Luke se tornou o principal suspeito no início das investigações.
– Depois de algumas semanas, comecei a beber no restaurante quase toda noite após o expediente.
– Mas você quase nunca...
– Eu fiz um monte de besteiras naquela época, um monte de coisas que nunca teria feito...
Eu me perguntei que besteiras seriam essas, mas o Luke parecia tão constrangido e envergonhado que eu disse:
– Não se culpe. Você lidou melhor com a situação do que eu provavelmente teria lidado. Você continua bebendo muito?
– Depois de alguns meses, eu me dei conta de que estava ficando dependente. Então parei. Àquela altura, a maioria das pessoas achava que você estava morta. Eu não achava, mas todo mundo dizia que você
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nunca seria encontrada, e muitas vezes senti raiva de você. Eu sabia que minha reação era irracional, mas de certo modo eu culpava você. Eu nunca lhe disse isso, mas eu não gostava quando você fazia plantão... era por isso que costumava ligar para você depois do horário. Você é muito amável... e tem homem que confunde as coisas.
– Mas era meu trabalho, Luke. Você é amável no restaurante...
– Mas eu sou homem e... bem, acredite, passei por maus momentos. Dei uma pirada.
Emma enfiou a cabeça entre nós dois e aliviou a tensão. Durante al-guns segundos, acariciamos seu pelo. Então perguntei pela bolinha, e ela saiu em disparada.
– Saí algumas vezes com a garota que você viu, mas eu acabava falando sobre você e a investigação, e percebi que não estava pronto para um novo relacionamento. O que estou querendo dizer, Annie, é que me sinto tão confuso quanto você... e que nós dois mudamos. Mas sei que ainda gosto de você, da sua companhia. Eu só queria poder ajudá-la mais. Você costumava me dizer que se sentia muito segura ao meu lado.
Ele abriu um sorriso melancólico.
– Eu me sentia segura ao seu lado, mas agora ninguém pode me fazer sentir segura. Eu preciso chegar lá sozinha.
– Entendo – concordou ele.
– Que bom! Agora você pode me ajudar a entender a porcaria desse seu programa?
Ele riu.
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Terminamos o trabalho 20 minutos mais tarde e, enquanto me per-guntava se deveria convidá-lo a ficar para jantar, ele disse que precis-ava voltar ao restaurante. Diante da porta, ele deu um passo na minha direção, hesitou um segundo e então ergueu as sobrancelhas e... leve-mente... os braços. Eu me aproximei e ele me envolveu num abraço.
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Por um instante, me senti presa e tive vontade de me desvencilhar, mas encostei o nariz na camisa dele e senti os aromas do restaurante: orégano, pão assado, alho. O cheiro era de jantares demorados em companhia de amigos, cheiro de vinho e riso, cheiro de felicidade.
Junto aos meus cabelos, ele sussurrou:
– Foi muito bom ver você, Annie.
Com a cabeça, concordei com suas palavras, e, enquanto nos sep-arávamos lentamente, mantive o olhar baixo, piscando para conter as lágrimas. Mais tarde, me perguntei se ele teria ficado para jantar caso eu convidasse, mas meu arrependimento por não ter feito o convite foi compensado pelo alívio de não ter ouvido o Luke dizer não. Eu cos-tumava ser uma especialista em decisões rápidas, mas, desde que matei o Maníaco, tenho vivido numa contínua hesitação. Eu me lem-bro de ter lido que, se um passarinho ficar muito tempo numa gaiola, ele não foge assim que a a portinhola se abre. Só agora entendo essa situação.
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Depois que matei o Maníaco, caí na cama e peguei no sono. Mas fui acordada por uma dor no peito: meu leite ainda não tinha secado. Logo me dei conta das chaves, ainda na minha mão. Eu tinha apertado as chaves com tanta força, mesmo dormindo, que elas deixaram mar-cas na pele. Meio zonza de sono, surpresa por acordar na posse das chaves e com medo de que o Maníaco me surpreendesse com elas, eu as soltei. O ruído do metal ao bater na cama me assustou e me tirou do estado letárgico. Ele estava morto. Eu tinha matado aquele homem.
Minha bexiga ansiava pelo banheiro, mas olhei para o relógio e vi que precisava esperar 10 minutos. Quando tentei urinar, a bexiga não funcionou. Dez minutos depois, nenhum problema.
Ao voltar para a cama, minha perna raspou na manta da bebê, pen-durada no cesto. Peguei o pano e pressionei-o contra o rosto, sentindo
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os últimos resquícios do cheirinho dela. Minha filha ainda estava lá fora, sozinha. Eu precisava encontrá-la.
Eu me enfiei num vestido branco e coloquei dentro do sutiã panin-hos molhados de água fria, para aliviar os seios. Calcei os chinelos, desci até o rio e vasculhei as margens, nas duas direções, até as árvores ou penhascos impedirem meu avanço. A distância, qualquer pedra clara do tamanho de um bebê deixava suspensa minha respir-ação. Uma trouxa presa a uma árvore no meio do rio fez meus joelhos tremerem, até que, ao chegar perto, verifiquei que eram apenas alguns trapos. Quando não descobri nenhuma pista da minha filha à beira do rio, examinei a clareira, centímetro por centímetro, em busca de sinais de terra revirada. Mas nada encontrei.
Cheguei ao ponto de cavar com as mãos a terra fofa dos canteiros da horta que cercava o chalé, pois aquele tarado era perfeitamente capaz de enterrar minha filha no lugar onde plantávamos nosso alimento. Verifiquei também embaixo da varanda. Nada. O único local que eu ainda não havia examinado era o galpão.
O sol tinha castigado o galpão a manhã inteira e, quando abri a porta, o fedor do corpo em decomposição me atingiu, provocando um enjoo insuportável. Agarrei uma estopa encharcada de gasolina e levei ao rosto. Em seguida, respirando pela boca e na ponta dos pés, passei pelo corpo. Moscas que no dia anterior tinham pegado carona no cadáver zumbiam em volta da lona, num barulho que lembrava um gerador.
Com as mãos trêmulas, retirei tudo do congelador. Nenhum sinal da minha filha, e nas prateleiras do galpão havia apenas lanternas, ba-terias, querosene e cordas. Descobri um alçapão e uma escada de acesso a um porão, onde o cheiro de umidade era uma maravilha com-parado à fedentina de morte no andar superior. Ali havia somente en-latados, utensílios domésticos, um estojo de primeiros socorros, algu-mas caixas e, dentro de uma velha lata de café, um rolo de dinheiro preso por um elástico rosa. Torci para que o elástico não fosse de al-guma outra mulher por ele vitimada. Não era muito dinheiro.
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Portanto imaginei que existissem mais notas em algum lugar. A carteira ainda não havia aparecido. Não estava no bolso do Maníaco quando peguei as chaves, nem nos armários do chalé. Na verdade, eu nunca o tinha visto com uma carteira de dinheiro. Uma das chaves não cabia em nenhuma das fechaduras. Eu tinha esperança de que fosse a chave da van, estacionada em algum lugar, e que a carteira est-ivesse dentro do veículo.
Dentro de um caixote de madeira, encontrei um fuzil, uma pistola e munição. Encarei as armas. Eu nunca tinha visto a pistola com que ele me ameaçara no dia do sequestro. Eu apenas sentira o cano nas costas e vira o cabo enfiado na cintura dele. Parecia pequena ao lado do fuzil, mas tive ódio das duas armas. Uma havia matado o pato e a outra tinha me levado àquele inferno. Durante um segundo, minha mão to-cou o ponto da região lombar onde o cano da pistola fora pressionado. Fechei o caixote e o empurrei para trás dos outros.
Cada vez que abria uma caixa, eu era tomada pelo medo de descobrir o corpo da minha filha. Mas a última continha apenas meu tailleur amarelo, além das minhas fotos e dos anúncios de jornal. Quando abri a última, senti o cheiro do meu perfume, e levei o tecido macio ao nariz. Experimentei o blazer por cima do vestido, mas aquilo me pareceu estranho, como se eu estivesse usando a roupa de alguma mulher morta. Deixei o tailleur dentro da caixa e, ao voltar na direção da luz, levei apenas a foto que ficava no meu escritório.
A única área que eu não tinha vasculhado era o bosque em torno do chalé. Então, depois de beber um pouco de água, coloquei barras de cereal, o estojo de primeiros socorros e uma garrafa térmica com água dentro uma mochila velha que encontrei no porão. Quando estava prestes a sair, avistei a foto sobre a bancada, ao lado da manta da bebê e de um macacãozinho. Acrescentei esses itens aos tesouros da minha mochila.
Logo que entrei no bosque, à direita do chalé, o barulho contínuo da correnteza e do canto dos passarinhos que costumavam ficar na clareira desapareceu, e o único som era das minhas próprias passadas,
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amortecidas pela camada de pinhões que cobria o solo. Levei o resto da tarde passando por cima e por baixo de toras de madeira, cavando cada monte de terra, cheirando o ar em busca de qualquer sinal de de-composição. Fiquei sempre a cerca de 15 minutos do chalé, e avancei até o ponto mais elevado da clareira, desenhando um amplo círculo.
Quando finalmente atingi o topo, descobri uma trilha estreita na orla do bosque, adentrando a mata. Tomada por samambaias, a picada era não mais que uma linha, perceptível apenas por marcas es-parsas, feitas com machadinha, nos galhos das árvores. As mais ro-bustas, pinheiros frondosos e altos de que eu mal enxergava o topo, tinham alguns metros de diâmetro, e os troncos estavam embranque-cidos com limo, o que significava que era uma mata úmida. Provavel-mente, eu estava em Vancouver Island.
Olhei mais uma vez a clareira e rezei para que, se existisse o céu – e eu nunca quis tanto acreditar no céu como naquele momento –, minha filha estivesse na companhia do meu pai e da minha irmã.
Descendo pela trilha, avistei ao longe o que parecia uma falha na linha das árvores. Depois de 15 minutos de caminhada, saí da mata e entrei numa estrada de terra. A julgar pelos buracos e pela ausência de marcas de pneu, ela não era utilizada havia algum tempo. Cerca de três metros abaixo, a margem da estrada tombava à direita.
Ao me aproximar da margem, constatei que ali tinha início uma es-tradinha vicinal, que dava acesso a outra, principal. O Maníaco só po-deria ter escondido o carro perto do chalé. Portanto resolvi seguir pela estradinha. Pouco mais largo que uma picape, o caminho estava coberto de capim, sendo quase imperceptível. Fazia uma curva e cor-ria paralelamente à via principal, separada desta por uma área de cerca de seis metros de largura cheia de árvores.
Descendo a estradinha, encontrei um pedaço de osso branco. Meus pés e meu coração pararam. Revirei o solo, centímetro por centímetro, e encontrei um osso grande demais para ser da minha neném. Dali a poucos passos, quase tropecei no esqueleto de um cervo.
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Segui pela estrada até o ponto em que, diante de algo que parecia um enorme arbusto de galhos mortos, ela acabava. Na parte inferior, um pedaço de metal brilhava ao sol. Em desespero, arranquei a veget-ação. Era a traseira da van.
Numa busca rápida pelo porta-luvas, não encontrei a carteira de dinheiro, nem os documentos do veículo, ou mesmo um mapa. Ol-hando entre os bancos para a parte traseira do carro, notei a presença de algo embolado. Era um cobertor cinzento. O mesmo que ele tinha usado no meu sequestro.
A sensação da lã grossa na minha mão, somada ao cheiro do carro, era muito familiar. Soltei o cobertor como se ele estivesse pegando fogo e dei um pulo no banco. Tentando não pensar no que havia acontecido ali dentro, eu me concentrei em girar a chave na ignição. Nada.
Prendi a respiração. Por favor, liga, por favor, liga... e voltei a girar a chave. Nada. Dentro do carro fechado, meu corpo pingava de suor e minhas pernas grudavam no estofado. Apoiando a testa no volante, respirei fundo para me acalmar e então abri o capô. Imediatamente, avistei o cabo solto da bateria, voltei a conectá-lo e girei a chave mais uma vez. Em um segundo o motor deu sinal de vida e o rádio começou a tocar uma música country. Fazia tanto tempo que eu não ouvia música que cheguei a rir. A voz do locutor: “... mais uma hora sem in-tervalos comerciais.” Nenhuma palavra sobre a localidade onde eu es-tava. Quando tentei sintonizar outra estação, o dial girou descontroladamente.
Engatei a marcha a ré, recuei pela estradinha, passei por cima de al-guns arbustos e saí na via principal. Fazia tempo que a estrada não era nivelada, portanto andei bem devagar. Depois de cerca de meia hora, os pneus encontraram o asfalto e, aproximadamente 20 minutos mais tarde, a estrada ficou boa.
Não demorou muito e meu nariz percebeu o cheiro familiar de maresia, misturado a enxofre de uma fábrica de papel, e cheguei a uma pequena cidade. Parada diante de um sinal vermelho, avistei um
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café à esquerda. Um cheiro de bacon entrou pela janela aberta, e in-spirei o aroma com vontade. O Maníaco nunca me deixava comer ba-con, pois dizia que eu ficaria gorda.
Fiquei com a boca cheia de água quando vi um homem sentado perto da janela pegar um pedaço de bacon, mastigar rapidamente e abocanhar outro pedaço. Eu queria comer bacon, um prato cheio, bem devagarzinho, saboreando os pedaços salgados, mas com um toque adocicado. Um pratão dessa iguaria para mandar o Maníaco se foder!
O homem limpou as mãos gordurosas na manga da camisa. O Maníaco murmurou dentro da minha cabeça: Você não quer ser uma porca, quer, Annie?
Desviei o olhar. Do outro lado da rua ficava uma delegacia.