Identidade roubada

Chevy Stevens · Capítulo 21 de 30

Páginas do PDF

Identidade roubada

D É C I M a N o N a S e S S Ã o

DÉCIMA NONA SESSÃO

 

Espero que esteja se sentindo melhor esta semana, doutora. Acho que nem posso me queixar de a nossa última sessão ter sido des-marcada, pois é bem provável que eu tenha lhe passado esse resfriado. Bem, estou me sentindo melhor em relação a várias coisas. Antes de tudo, os policiais me telefonaram no início da semana para dizer que pegaram o responsável pelos arrombamentos. De fato, era um adolescente.

Você também vai gostar de saber que, desde nosso último encontro, não durmo no closet, e parei de tomar banho de banheira à noite. Agora raspo as pernas no chuveiro e não preciso lavar o cabelo e pas-sar condicionador duas vezes. Já estou conseguindo fazer xixi sem ter que respirar fundo e tenho comido sempre que sinto fome. E quase não escuto a voz do Maníaco quando quebro uma das regras impostas por ele.

A única coisa que continua a me incomodar é aquela minha foto im-becil que estava com o Maníaco... a mais antiga. Desde que voltei para casa, eu não havia pensado nenhuma vez naquela foto, pois havia muita merda acontecendo. Mas, depois que lhe falei da foto, revirei a casa toda para ver se o ladrão havia roubado alguma coisa, e esbarrei com ela dentro de uma caixa onde guardo as coisas que trouxe da montanha.

O escritório da imobiliária onde eu trabalhava era dividido em baias individuais, e eu tinha um painel de cortiça acima da minha mesa com várias fotos. Assim, deduzi que talvez o Maníaco tivesse pegado a foto dali. Se ele dissesse que estava procurando um imóvel, poderia entrar na imobiliária e ser recebido por qualquer corretor. Talvez tenha sido nessa mesma ocasião que ele me viu pela primeira vez... sabe-se lá?

220/339

Mas por que eu teria uma foto minha, sozinha, no escritório? E por que estou me estressando para saber por quê? Isso já não importa! Que droga! Às vezes, eu acho que minha mente fica procurando coisas para se estressar. É como colocar um bando de crianças para dormir: um diabinho finalmente se acalma, mas outro sai correndo.

 

v

 

Esta semana fiquei me lembrando de como, no passado, Christina e eu tería-mos comentado cada minuto da visita do Luke, analisado cena por cena, e senti muita saudade dela. Pensando no meu alívio de-pois que fiz aquela lista e na satisfação de ter por fim enfrentado o Luke, liguei para o celular dela, antes que a falta de coragem me fizesse desistir.

– Christina falando.

– Oi, sou eu.

– Annie! Espere um segundo... – Ouvi sons abafados, Christina falando com alguém. Em seguida, voltou à linha. – Desculpe, Annie, minha manhã está meio caótica, mas estou tão feliz com seu telefonema!

– Que merda! É dia de visita, não é? Quer que eu ligue mais tarde?

– Nada disso, madame! Não vou deixar você escapar assim. Faz tempo que espero que você atenda uma das minhas ligações. – Nós duas ficamos quietas.

Sem saber explicar por que eu andava fugindo dela, assim como fu-gia de todo mundo, continuei:

– Então... como você está?

– Eu? Tudo na mesma, tudo na mesma.

– E o Drew?

– Ele vai bem... ele vai bem. Você nos conhece... tudo sempre igual. E você, como vai?

221/339

– Vou bem, eu acho... – Tentei encontrar algo interessante na minha vida que merecesse ser compartilhado. – Estou fazendo um trabalho de contabilidade para o Luke.

– Vocês voltaram a se falar? Ora! Mas que boa notícia!

– Não é nada disso... é só um trabalho – esclareci, e a resposta saiu mais rápida do que eu gostaria.

Ela deu uma risadinha de descrença total.

– Se você diz... – fingiu concordar – Ei! Como vai sua mãe? Dia desses, estive com ela e o Wayne no centro da cidade, e ela parecia... digamos...

– Furiosa? Tem sido uma constante nos últimos tempos. Mas ela veio até aqui algumas semanas atrás, para devolver meu álbum e me dar umas fotos do meu pai e da Daisy que eu nunca tinha visto. Fiquei abismada.

– Ela achava que tinha perdido você... É provável que ainda esteja aprendendo a lidar com tudo isso.

– É. – Não querendo entrar nesse assunto, emendei: – Eu estava querendo saber o valor da minha casa.

– Por quê? Você não está pensando em vender, está?

Como não queria mencionar o arrombamento, respondi:

– A casa não é mais a mesma desde que minha mãe alugou... já nem tem meu cheiro.

– Acho que você deve dar um tempo, antes de... – Uma voz surgiu ao fundo, dirigindo-se a Christina. – Droga! Meus clientes acabaram de chegar. Estamos atrasados. Preciso correr, mas telefone para mim hoje à noite, certo? Quero muito falar com você.

Durante o telefonema, e depois dele, nunca senti tanta saudade da Christina, e pensei em ligar para ela à noite, mas aquelas palavras finais sinalizavam que, mais uma vez, ela estava propensa a me dizer o que fazer, e eu não queria lidar com aquilo. Por isso, quando ouvi bati-das na porta sábado à tarde e olhei pelo olho mágico e vi a Christina, sempre muito bem-vestida, de pé na varanda e enfiada num simples macacão branco com um boné na cabeça, mas exibindo um sorriso de

222/339

quem comeu merda, eu não sabia no que pensar. Abri a porta e vi que ela trazia nas mãos alguns pincéis e um latão de tinta. Entregou-me um pincel.

– Vamos lá! Vamos ver o que a gente pode fazer com esta casinha.

– Eu hoje estou meio cansada. Se você tivesse telefonado... – Ela passou por mim e me deixou falando na soleira da porta.

Por cima do ombro, ela disse:

– Ora! Por favor, como se você atendesse o telefone! – Nesse ponto, ela me pegou. – Para de choramingar e vê se toma jeito, garota! – Começou a arrastar meu sofá e, se eu não quisesse que o piso de madeira ficasse arranhado, minha única opção era ajudar. Sempre quis mudar o tom bege das paredes, mas nunca tinha tomado qualquer iniciativa nesse sentido. Quando vi o lindo tom amarelo-creme que Christina havia escolhido, fiquei apaixonada.

A pintura levou algumas horas, e depois sentamos do lado de fora, tomando vinho tinto na varanda. Christina não bebe nada que custe menos de 20 dólares, e sempre traz a garrafa do que quer beber. O sol tinha acabado de se pôr, e acendi as luminárias do pátio. Ficamos sen-tadas em silêncio durante alguns minutos, vendo Emma roer um osso. Em seguida, Christina olhou direto nos meus olhos.

– Então, o que aconteceu com a gente?

Brinquei com a haste da minha taça e dei de ombros. Meu rosto ficou quente.

– Não sei. É que...

– É que... o quê? Acho que amigos têm que ser sinceros. Você é minha melhor amiga.

– Estou tentando, eu só preciso...

– Você aceitou algumas das minhas sugestões ou nem deu bola? Você tem que ler um livro que acaba de ser publicado, sobre uma mul-her que foi estuprada. O livro diz que, para sobreviver, as vítimas pre-cisam construir muros de defesa, mas, no fim das contas, elas não podem...

223/339

– É isso. A pressão. Os infindáveis, os constantes “você tem que...”. Eu não queria falar no assunto, mas você não desistia. Quando tentei dizer que não queria as roupas, você passou por cima de mim como um rolo compressor. – Parei para respirar. Christina parecia atônita. – Você estava tentando ajudar, eu sei. Mas, Christina, às vezes você precisa dar um tempo.

Ficamos caladas por um minuto. Então, Christina disse:

– Talvez, se você explicasse por que não queria as roupas.

– Eu não posso explicar, esse é o problema. Se quiser ajudar, vai ter que me aceitar do jeito que sou. Pare de me forçar a falar sobre merda. Pare de tentar me consertar. Se você não conseguir fazer isso, então a gente não vai poder continuar se vendo.

Eu me preparei para um fogo cruzado, mas Christina se mostrou cordata:

– Tudo bem – concordou. – Vamos fazer a coisa ao seu modo. Eu preciso de você na minha vida, Annie.

– Ah! – suspirei aliviada. – Bom... ótimo, porque eu também quero você na minha vida.

Ela sorriu, logo em seguida ficou séria.

– Mas tem uma coisa que eu preciso lhe contar. Muita água rolou na sua ausência... Todo mundo ficou com os nervos à flor da pele, e nin-guém sabia como lidar com a situação. E...

Ergui a mão.

– Pare. Vamos levar as coisas com calma. É o único jeito que eu consigo lidar com tudo isso.

– Mas, Annie...

– Não, chega de “mas”. – Achei que ela quisesse me contar que havia ganhado o “meu” empreendimento, pois eu tinha visto cartazes com o nome dela em frente ao local, mas a última coisa que eu queria fazer era falar sobre o mercado imobiliário. Além disso, era justo que o empreendimento ficasse com ela, e isso me deixava feliz. Que droga! Antes a venda ficar com ela do que com o meu concorrente.

Ela me encarou por alguns segundos e então sacudiu a cabeça.

224/339

– Tudo bem. Você está certa. Mas, se não me deixar falar, vai ter que pintar um pouco mais.

Com um suspiro, segui Christina casa adentro e acabamos de pintar a sala.

Depois que nos despedimos na varanda, no momento em que estava prestes a entrar no BMW, ela se virou:

– Annie, eu estava agindo com você do mesmo jeito como sempre agi.

– Eu sei. Mas eu não sou mais a mesma.

– Nenhuma de nós é mais a mesma. – disse ela, e fechou a porta.

 

v

 

Na tarde seguinte, resolvi revirar duas caixas minhas que encontrei na garagem da minha mãe quando fui pegar emprestadas algumas fer-ramentas de jardinagem. A primeira estava cheia de prêmios e placas que eu havia ganhado com a venda de imóveis e guardara nas gavetas do escritório, por não querer exibi-los. A segunda caixa, com velhos apetrechos de arte, desenhos, pinturas, me interessou bem mais. Enfi-ado entre as páginas do meu caderno de esboços encontrei o folheto de uma escola de arte de que eu já nem lembrava. Ao menos uma vez, a viagem ao passado não foi povoada por fantasmas urrando, e o cheiro de lápis de carvão e tinta a óleo me fez sorrir.

Peguei o caderno, o folheto e os lápis, servi-me uma taça de shiraz e fui para a varanda. De início, fiquei olhando para a página em branco. Emma estava deitada sob um dos últimos raios do sol poente, o que fazia seu pelo brilhar e acentuava suas sombras. Com o lápis, tracei o contorno do corpo dela sobre a folha de papel e a coisa começou a fluir. Feliz com o toque da minha mão no papel liso, observei as linhas simples adquirirem forma e, com as pontas dos dedos, borrei alguns traços, para obter o sombreado. Segui trabalhando no desenho, al-ternando o equilíbrio entre claro e escuro, e então parei por alguns se-gundos para contemplar um passarinho que cantava numa árvore

225/339

próxima. Quando voltei os olhos para o papel, levei um susto... não, um choque. Eu tinha desviado o olhar do esboço de um cão, mas, quando olhei de volta, vi a Emma com todos os detalhes, até os pelin-hos levantados na ponta da cauda.

Fiquei admirando meu desenho por alguns minutos, com vontade de mostrá-lo a alguém, e então me concentrei no folheto. Passando as folhas, sorri ao ver as anotações que eu tinha feito nas margens. Mas meu sorriso murchou quando vi o círculo em torno do valor das taxas e o grande ponto de interrogação ao lado.

 

v

 

Minha mãe ganhou uma pequena herança após a morte da minha avó, porém, quando eu quis usar parte do dinheiro para pagar meus estudos, ela disse que não tinha mais nada. Independentemente do valor que restava quando ela se uniu ao Wayne, tudo desapareceu antes que a tinta da certidão de casamento secasse.

Pensei em arrumar um emprego em meio período e assim conseguir dinheiro para pagar a escola de arte, mas minha mãe sempre dizia que artistas ganham muito mal. Dessa forma, fiquei na dúvida, e acabei optando por um trabalho em tempo integral. Eu achava que, depois que poupasse o suficiente, poderia voltar a estudar, mas isso nunca aconteceu.

Quando o Luke me telefonou ontem à noite, eu falei sobre o desenho que tinha feito. Ele respondeu que era ótimo, que eu sempre tinha gostado de arte. O Luke não pediu para ver o desenho, e não perguntei se queria vê-lo.

Christina veio me ver algumas vezes, para a gente pintar as outras paredes da casa. Ela tem sido discreta, atendendo ao meu pedido, mas a presença dela gera certo desconforto. Não chega a ser uma tensão. É apenas uma sensação estranha. Porém, quando penso em dividir com alguém qualquer coisa que se passou na montanha, eu me sinto pres-sionada por uma grande onda de ansiedade. No momento, o máximo

226/339

que consigo suportar é fofoca sobre astros de Hollywood e ex-colegas de trabalho. A última vez que vi Christina, ela me falou sobre um tira bobalhão com quem estava tendo aulas de defesa pessoal.

A conversa me fez lembrar dos policiais com quem precisei lidar logo que saí da montanha. Já que minhas expectativas se baseavam em reprises de seriados de TV, digamos que eu queria um Lennie Briscoe, mas só consegui um Barney Fife.

 

v

 

Gostei de ver uma mulher na recepção da delegacia, mas aquela nem sequer ergueu os olhos das palavras cruzadas.

– Com quem deseja falar?

– Com algum policial, eu acho.

– A senhora acha?

– Não... quero dizer... sim, quero falar com um policial. – O que eu realmente queria era ir embora, mas ela acenou para um sujeito que saía do banheiro masculino secando as mãos na calça do uniforme.

– O investigador Pepper vai atender a senhora – disse ela.

O sujeito não era sargento, pois não parecia ter o perfil apropriado. Tinha ao menos 1,80m de altura e uma barriga avantajada, embora fosse bem magro, e o coldre pendia dos quadris estreitos, como se est-ivesse prestes a cair.

Olhou para mim, pegou algumas pastas que estavam na recepção e disse:

– Vamos.

Parou diante de uma cafeteira velha e encheu uma caneca de café com leite em pó e açúcar, sem me oferecer nada. Fez um sinal para que eu o seguisse. Passamos por uma sala com divisória de vidro e por três policiais, que estavam ao redor de uma mesa assistindo a um jogo numa pequena TV portátil.

Empurrou uma pilha de pastas para um dos lados da escrivaninha, baixou a caneca e fez um gesto, indicando-me uma cadeira

227/339

posicionada à sua frente. Foram necessários dois minutos de busca na gaveta até que ele encontrasse uma caneta que funcionasse e outros tantos minutos remexendo formulários. Finalmente, ele se acalmou, tendo diante de si uma caneta com tinta e um formulário.

– Nome, por favor?

– Annie O’Sullivan.

Ele me encarou, com olhos que examinavam cada ângulo do meu rosto, e se levantou tão bruscamente que virou a caneca de café.

– Fique aqui... preciso chamar uma pessoa.

Deixando o café encharcar os papéis sobre a mesa, ele entrou na sala envidraçada e começou a falar com um sujeito baixo e grisalho, que me pareceu ser alguém importante, pois ocupava a única sala que havia no local. A julgar pela intensa gesticulação, o investigador Pep-per estava bastante agitado. Quando ele apontou para mim, o sujeito grisalho se virou, me olhou e nossos olhares se cruzaram. Minha sensação era do tipo: saia daqui AGORA.

Os tiras perto da TV baixaram o volume e correram o olhar de mim para a sala, da sala para mim. Olhando de relance para a recepção, percebi que a funcionária me espiava. Voltei a olhar para a sala de vidro. O velho pegou o telefone e começou a falar com alguém, an-dando de um lado para outro, esticando o fio ao máximo. Desligou o telefone e pegou uma pasta num arquivo atrás da mesa. Em seguida, ele e Pepper examinaram o conteúdo da pasta, trocando palavras, ol-hando para mim e voltando a examinar a pasta. Os caras nada tinham de discretos.

Finalmente, o velhote e Pepper, com a pasta debaixo do braço, saíram da sala. O sujeito grisalho inclinou-se diante de mim, apoiando uma das mãos no joelho e estendendo a outra. Falou bem devagar, pronunciando cada palavra com todo o cuidado.

– Tudo bem? Eu sou o sargento Jablonski.

– Annie O’Sullivan. – Apertei a mão estendida. Estava fria e ressecada.

228/339

– Prazer em conhecê-la, Annie. A gente queria conversar com você em particular... pode ser? – Por que diabos ele estava falando tão de-vagar? Inglês não é minha segunda língua, imbecil!

– Tudo bem. – Eu me levantei.

Ao pegar um bloco de papel e algumas canetas sobre a escrivaninha, Pepper disse:

– A gente só vai levar você até uma das nossas salas de depoimento – Ao menos, ele falava numa cadência normal.

No momento em que nos afastamos da escrivaninha, todos os poli-ciais no recinto ficaram imóveis. Pepper e Jablonski me escoltaram, e o primeiro tentou me segurar pelo braço, mas não permiti. Parecia que eu estava sendo levada para a cadeira elétrica. Posso jurar até que os telefones pararam de tocar. Pepper conseguiu contrair a barriga, li-geiramente, e caminhou de ombros erguidos e peito estufado, como se tivesse me encontrado sozinho.

Era mesmo uma cidade pequena. Até então, eu tinha visto poucos policiais, e a sala fria de concreto para a qual me conduziram era do tamanho de um banheiro. Assim que sentamos, em lados opostos de uma mesa de metal, Pepper levantou-se para atender a uma batida à porta. A mulher da recepção entregou duas canecas com café e tentou dar uma espiada, mas ele se manteve diante dela e fechou a porta. O oficial grisalho fez um sinal com a cabeça.

– Quer um café? Um refrigerante?

– Não, obrigada.

Numa das paredes havia um grande espelho. Incomodava-me bastante a ideia de que alguém que eu não conseguia ver observava to-dos os meus movimentos.

Apontei para o espelho.

– Tem alguém ali?

– Não neste momento – disse Jablonski. Isso queria dizer que haveria alguém mais tarde?

Fiz um sinal, indicando o canto superior esquerdo da sala.

– Para quê esta câmera?

229/339

– Vamos gravar a entrevista... faz parte dos procedimentos.

A câmera era tão constrangedora quanto o espelho. Sacudi a cabeça.

– O senhor vai ter que desligar.

– A senhora logo vai esquecer que a câmera está ali. A senhora é Annie O’Sullivan, residente em Clayton Falls?

Encarei a câmera. Pepper pigarreou. Jablonski repetiu a pergunta. O silêncio durou mais um minuto, e então Jablonski fez um sinal, pas-sando a mão rapidamente diante do pescoço. Pepper deixou a sala durante alguns segundos e, quando retornou, a luzinha vermelha da câmera tinha se apagado.

– Precisamos deixar o gravador ligado – disse Jablonski. – Não po-demos fazer a entrevista sem a gravação. – Eu me perguntei se ele não estaria mentindo, pois nos seriados de TV nem sempre o gravador era utilizado. Mas deixei para lá.

– Vamos começar de novo. A senhora é Annie O’Sullivan, residente em Clayton Falls?

– Sim. Eu estou em Vancouver Island?

– A senhora não sabe?

– É por isso que estou perguntando.

– Sim – respondeu Jablonski –, a senhora está na ilha. – A fala lenta e articulada desapareceu na pergunta seguinte: – Por que a sen-hora não começa nos contando onde esteve?

– Eu não sei. Só sei que era um chalé. Não sei como cheguei lá, porque eu estava num plantão de vendas e um sujeito...

– Que sujeito? – perguntou Pepper.

– A senhora conhecia essa pessoa? – completou Jablonski.

Quando os dois falaram ao mesmo tempo, eu me lembrei do Maníaco saindo da van e se encaminhando para o plantão.

– Eu não conhecia. Estava quase na hora de o plantão acabar. Eu fui lá fora...

– Que carro ele estava dirigindo?

– Uma van.

230/339

Vi o Maníaco sorrindo para mim. Um belo sorriso. Meu estômago revirou.

– Qual era a cor da van? A senhora se lembra da marca e do mode-lo? A senhora tinha visto o carro antes?

– Não.

Comecei a contar os blocos na parede de concreto atrás deles.

– A senhora não se lembra da marca e do modelo ou não tinha visto o carro antes?

– Era uma Dodge Caravan, eu acho, marrom... e nova... só sei isso. O sujeito tinha anúncios de imóveis nas mãos. Ele vinha me observ-ando havia algum tempo, e sabia coisas...

– Ele não era algum cliente antigo, ou alguém com quem a senhora não quis conversar em algum bar, ou com quem conversou pela inter-net? – perguntou Jablonski.

– Não, não e não.

Ele ergueu as sobrancelhas.

– Quero ver se entendi bem. Está tentando me dizer que o sujeito escolheu a senhora sem mais nem menos?

– Não estou tentando dizer nada. Eu não sei por que ele me escolheu.

– Nós queremos ajudá-la, Annie, mas primeiro precisamos saber a verdade. – Ele recostou-se na cadeira e cruzou os braços.

Minha mão avançou por cima da mesa e mandou pelo ar o blo-quinho de papel e as canecas de café. Eu me levantei, inclinei-me sobre a mesa, apoiando as mãos espalmadas sobre o tampo, e gritei, diante das duas caras assustadas:

– Eu ESTOU dizendo a verdade!

Pepper estendeu as mãos.

– Calma! Não há por que ficar alterada...

Virei a mesa. E, no momento em que eles saíam da minha frente e corriam porta afora, gritei:

– Não digo mais merda nenhuma enquanto vocês não me trouxer-em tiras competentes!

231/339

Depois que me deixaram sozinha na sala, vi o estrago e fiquei abismada: eu tinha até quebrado as duas canecas. Levantei a mesa, peguei o bloco e, usando algumas folhas de papel, tentei limpar o café derramado. Após alguns minutos, Pepper voltou para pegar o bloco, que agora estava em cima da mesa. Com uma das mãos abertas diante do corpo e a outra agarrada ao bloco de papel, junto ao peito, ele saiu da sala caminhando de costas, em câmera lenta.

– Fique calma. Chamamos algumas pessoas para falar com a senhora.

A frente da calça dele estava encharcada com o café que eu havia derramado ao virar a mesa. Eu queria entregar os cacos das canecas e pedir desculpas, mas ele saiu dali, rápido como um relâmpago.

Ri durante alguns segundos, e então apoiei a testa na mesa e come-cei a chorar.