Identidade roubada

Chevy Stevens · Capítulo 25 de 30

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Identidade roubada

V I G É S I M a T e R C e I R a S e S S Ã o

VIGÉSIMA TERCEIRA SESSÃO

 

 

Peço desculpa por marcar esta sessão tão em cima da hora, doutora, mas aconteceu tanta merda nos últimos dias que não pude esperar pela consulta que já estava agendada.

 

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Depois que saí da nossa última sessão, fui direto à delegacia, em Clayton Falls, e passei uma hora examinando fotos. Quase desisti, porque minhas costas estavam me matando e todos os maníacos começavam a ter a mesma cara... um sujeito me pareceu conhecido, mas então me lembrei de ter visto a foto dele no jornal pouco tempo atrás. Aí, pensei no Gary, batendo perna para mostrar o retrato falado, e me obriguei a continuar. Por um triz não passei direto pela foto de um cara com a cabeça raspada e barba comprida, mas algo naqueles olhos azuis ingênuos, em óbvia contradição com o restante do rosto, fez com que eu me detivesse.

Era ele.

Comecei a suar frio e minha visão ficou embaçada. Para não perder os sentidos, desviei o olhar e apoiei a testa sobre a mesa. Concentrada nas violentas batidas do meu coração, respirei fundo e disse baixinho, no ritmo dos meus batimentos: Está morto... Está morto... Está morto. Depois que a visão voltou ao normal e as batidas diminuíram, encarei a imagem.

Com um sinal, chamei um dos policiais. Quando disse que o havia encontrado, ele ligou para Gary no celular. Nenhuma das fotos tinha nome, e os policiais não respondiam às minhas perguntas. Portanto, insisti em falar com Gary.

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– Não entendo por que ninguém me diz quem é esse cara... ele tem ficha! Passei horas examinando a merda dessas fotos... o mínimo que vocês podem fazer é me informar o nome dele.

– É ótimo você ter identificado a foto, Annie. Mas, em primeiro lugar, precisamos verificar a informação. Não quero que você fique toda animada e depois descubra que não é esse o sujeito...

– É ele. Eu passei um ano inteiro ao lado dele.

– Não duvido de você nem por um segundo. E prometo telefonar as-sim que conseguir os detalhes da ficha dele. Enquanto isso, peço que você vá para casa e procure descansar, está bem? E quero que faça uma lista com nomes de pessoas que possam ter motivos para lhe fazer algum mal.

– Ninguém tem motivos para me fazer mal. Já fiz uma lista dessas para minha terapeuta... levei em conta todas as pessoas que conheço. O Maníaco deve ter algum amigo que...

– É isso que eu estou tentando descobrir. Agora, vá para casa, me envie a lista que já fez e a gente se fala mais tarde.

 

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No dia seguinte, fiquei em casa andando de um lado para outro e esperando que Gary me telefonasse. Mas ele não ligou, muito menos atendeu o celular. Durante algumas horas, tentei me distrair limpando alguns cômodos. Depois, curiosa sobre o sujeito cuja foto tinha me parecido tão familiar, examinei todos os meus jornais, página por pá-gina. No mais recente, encontrei a manchete “Criminoso solto há menos de um mês é acusado e procurado por roubo à loja de conven-iência”, e fui ler o artigo. Assim que bati os olhos no nome, percebi de quem se tratava: era o meio-irmão de minha mãe. Com base na data do artigo, deduzi que ele havia sido solto algumas semanas antes, e me perguntei se minha mãe sabia ou se eu deveria contar. Passei a tarde toda avaliando os prós e os contras de ser eu a pessoa que revelaria tal fato. Por volta das cinco da tarde, eu estava uma pilha de nervos.

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Então, quando ela telefonou convidando para comer massa, aceitei de imediato.

O jantar não foi dos piores, mas, quando terminamos de comer – e eu ainda me perguntava se deveria dar a notícia sobre seu meio-irmão –, ela começou a falar de uma menina que tinha desaparecido recente-mente em Calgary. Eu disse que o assunto não me interessava. Ela prosseguiu, no mesmo ritmo, dizendo que a mãe da garota havia ido à televisão implorar pela volta da filha, mas disse também que achava que a mãe da criança não estava sabendo lidar com a imprensa.

– Ela está sendo grosseira com os jornalistas... Se ela quiser ajuda para achar a filha, vai ter que melhorar a atitude.

– Às vezes, mãe, os repórteres são muito ríspidos... você sabe disso.

– A imprensa é o menor dos problemas... a polícia está interrog-ando o pai. Parece que ele tinha uma amante. Uma amante grávida.

– Mãe, será que a gente pode mudar de assunto?

Ela abriu a boca, mas, antes que pudesse prosseguir, deixei escapar:

– Eu vi a foto do Dwight no jornal.

Ela selou os lábios e me encarou.

– Seu meio-irmão. Ele foi solto, mãe, mas está sendo procurado por causa de um roubo a uma...

– Você quer comer mais alguma coisa?

Trocamos um olhar.

– Desculpe se esse assunto aborrece você... Eu só pensei que...

– Ainda tem molho aí?

A fisionomia dela não revelava qualquer emoção, mas os dedos tor-cendo o guardanapo sinalizavam cautela.

– Não, estou satisfeita. Meu estômago está meio sensível, pois final-mente reconheci uma foto na delegacia hoje. O Gary ainda não me revelou o nome do sujeito, mas já está investigando a ficha dele... e disse que em breve vai ter informações para me passar.

Minha mãe parou um instante, fez um gesto com a cabeça e disse:

– Bom. Talvez você consiga superar tudo isso, Annie.

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Ela deu um tapinha na minha mão. Wayne se levantou e foi para o quintal fumar.

Depois que ele saiu, eu disse:

– Talvez ainda não. O Gary acha possível que o cara tenha um com-parsa. E deve ser justamente o sujeito que tentou me pegar há alguns dias.

Minha mãe franziu a testa.

– Por que o Gary tem que assustar você desse jeito?

– Ele não tem que me assustar. Acontece que o Maníaco tinha uma velha foto minha. Eu achava que ele havia pegado a foto no meu es-critório, ou coisa parecida, mas o Gary quer saber por que ele tinha aquela foto, entende? Ele até me pediu que enviasse por fax uma lista...

Que merda! No afã de defender Gary, eu não apenas falei à minha mãe sobre a foto como também estava prestes a revelar a existência da minha lista de problemas pessoais.

– Que lista?

– É só uma bobagem que minha terapeuta sugeriu... não é nada, não.

– Se não é nada, por que o Gary quer ver a lista? Uma lista de quê?

Droga! Ela não desistiria.

– Dos nomes de pessoas que talvez tenham algo contra mim.

– Por exemplo?

Eu jamais revelaria que o nome de todas as pessoas próximas a mim faziam parte da lista, então disse:

– Alguns ex-namorados e antigos clientes. Ah! E o nome do “corre-tor misterioso” com o qual eu concorria.

– Você está se referindo à Christina.

– Não, o corretor com quem eu concorri na época do sequestro.

Os olhos dela se estreitaram.

– Ela não contou?

– Quem não me contou o quê?

– Não quero criar problemas.

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– Ora, mãe! O que é?

– Acho que você precisa saber. – Respirou fundo. – Você se lembra da minha amiga Carol? Bem, a filha dela, Andrea, trabalha na sua imobiliária, e é amiga de uma assistente da Christina...

– E daí?

– E daí que a Christina concorreu com você naquele empreendi-mento. Era ela o “corretor misterioso”.

– De jeito nenhum! A Christina teria me dito. O construtor recorreu a ela porque eu sumi.

Minha mãe deu de ombros.

– Eu achava a mesma coisa, mas a Andrea disse que a assistente da Christina trabalhou durante alguns fins de semana para concluir a proposta. Ela disse que viu até o plano de marketing que a Christina preparou para o construtor.

Sacudi a cabeça.

– A Christina nunca me ferraria assim. Para ela, amigos são muito mais importantes que dinheiro.

– Por falar em dinheiro, ouvi dizer que o marido dela está em di-ficuldades financeiras. A casa que ele comprou para ela não foi barata, e a Christina não parece disposta a diminuir os gastos. Ele deve ser um homem muito compreensivo... o Luke e ela ficaram bastante ínti-mos no período em que você esteve desaparecida.

– Eles estavam tentando me encontrar. É claro que tinham que an-dar juntos. E o Drew não comprou a casa para ela. Eles compraram a casa juntos. Ela adora gastar dinheiro. O que há de errado nisso? A Christina trabalha bastante e...

– Por que você está na defensiva?

– Você acabou de insinuar que a Christina e o Luke estavam tendo um caso!

– Eu não disse isso... eu só estava contando o que ouvi. Ela ia ao restaurante todas as noites, e muitas vezes ficava lá até a hora de fechar. A propósito: sabia que na ocasião em que você foi sequestrada as coisas não iam muito bem no restaurante? O Wayne conversou com

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o bartender no pub há alguns dias... esse funcionário conhece o cozin-heiro do restaurante do Luke, e disse que corria o boato de que o res-taurante estava prestes a fechar, mas, depois do seu desaparecimento e da badalação junto à imprensa, o movimento melhorou. Pelo menos alguma coisa positiva surgiu disso tudo.

O frango à Alfredo que eu havia degustado com tanto prazer pesava como chumbo no meu estômago.

– Preciso ir ao banheiro.

Pensei que ia vomitar, mas molhei as mãos e o rosto com água fria e apoiei a cabeça no espelho até que o enjoo passasse. Minha nuca es-tava quente e suada, e peguei um elástico de cabelo rosa na gaveta, para fazer um rabo de cavalo. Quando saí do banheiro, minha mãe es-tava preparando mais um drinque.

– Preciso ir, mãe... obrigada pelo jantar.

– Me ligue se descobrir mais alguma coisa. – Esfregou a mão nas minhas costas e disse: – Tenho certeza de que tudo vai dar certo.

 

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Quando cheguei em casa, o enjoo tinha se transformado em energia acumulada. Portanto, resolvi dar uma corrida. Ainda não era muito tarde, mas eu não conseguiria ir para a cama mesmo se já fosse hora de dormir, pois estava nervosa demais. Enquanto meus pés batiam na calçada, meus pensamentos voavam enlouquecidos.

O Luke e a Christina teriam tido um caso? Se não me falhava a memória, eles não mostravam grande afinidade quando nos encon-trávamos. E nunca percebi que ela era minha rival no empreendi-mento. Ela sabia disso desde o começo? Seria isso que a Christina queria me dizer naquele dia em que a interrompi? Ou ela pretendia me falar sobre o caso com o Luke? E por que o Luke nunca me disse que o restaurante estava em dificuldades? As perguntas giravam na minha cabeça, chocavam-se entre si e se dividiam em novas indagações.

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Após meia hora de corrida intensa, eu me acalmei, mas uma leve sensação de angústia me seguiu até em casa, até o chuveiro. Se eu apenas ouvisse as vozes dos dois, todos os meus pensamentos malucos iriam desaparecer. Ainda enrolada na toalha, telefonei para o Luke no restaurante. Ele atendeu de forma brusca.

– Estou ligando na hora errada? – perguntei.

– Posso falar um instante.

– Eu só queria contar que reconheci a foto do cara, lá na delegacia hoje. Ainda não sei o nome, mas o Gary vai me dizer assim que puder.

– Opa! Que boa notícia!

– Acho que sim. Ainda preciso saber mais.

– Não deixe de me contar sobre o que eles descobrirem, mas agora preciso desligar... desculpe... tem muita coisa acontecendo por aqui... o restaurante está lotado.

Ainda angustiada, quase disse que passaria lá mais tarde para to-mar um drinque e conversarmos, mas hesitei, e ele desligou.

Telefonei para o celular da Christina, mas ela disse que me ligaria depois, porque era a noite de inauguração do empreendimento à beira-mar e ela estava recepcionando os convidados à porta. Depois que nos despedimos, fiquei olhando para o telefone na minha mão. Emma, sentada aos meus pés, me encarou com seus grandes olhos castanhos.

– Sou uma idiota, não sou? – Ela balançou o rabo com vontade. In-terpretei o gesto como uma confirmação.

A caminho do quarto, eu me lembrei finalmente de onde a foto tinha sido retirada.

 

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Gary demorou um pouco a atender o telefone. Só notei que eu es-tava com o corpo rígido quando ouvi a voz serena dele e a tensão nos meus músculos cedeu ligeiramente.

– Tentei falar com você a tarde inteira – lamentei.

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– Desculpe, mas a bateria do meu celular estava descarregada.

– Preciso falar com você! – Eu detestei meu tom de desespero.

– Estou ouvindo.

– Eu estava pensando numa prateleira cheia de porta-retratos que eu tinha no corredor, em frente ao meu quarto, e então... me lembrei. Eu tinha um porta-retrato de peltre, que escondi atrás dos outros porque havia uma antiga foto minha... a mesma que o Maníaco...

– A foto foi tirada de dentro da sua casa?

O enjoo voltou.

– O Maníaco jamais conseguiria passar pela Emma. Então, só pode ter sido enquanto saímos para dar uma volta. Mas por que ele se ar-riscaria a entrar aqui para pegar aquela foto?

– É uma boa pergunta. Alguém tinha as chaves da sua casa?

– Eu perdi meu chaveiro durante uma caminhada, alguns meses antes do sequestro. Então mudei a fechadura... e não dei a cópia a ninguém.

– Provavelmente foi alguém que você deixou entrar, Annie. Essa pessoa deu a foto a ele... talvez para facilitar sua identificação.

Meu coração deu um salto.

– Mas por que aquela foto?

– Talvez por pensar que você não desse falta. Pode haver uma penca de motivos.

– E a pessoa que tentou me pegar...

– Pode ser a mesma pessoa que pegou a foto, ou alguém contratado para concluir o trabalho.

– Mas isso não faz o menor sentido. Por que alguém iria querer me sequestrar? Nunca houve pedido de resgate.

– Não sabemos se a ordem era para sequestrá-la. O sujeito pode ter sido contratado por outro motivo, e decidido ficar com você, por conta própria.

– Você acha que ele foi contratado para me matar? Deus do céu, Gary! – Meus olhos se desviaram para o alarme.

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– Eles não vão fazer nova tentativa tão cedo... você está agora no centro das atenções..., mas vou me certificar de que as viaturas ainda estão patrulhando seu bairro. E preciso do nome de todas as pessoas que tiveram acesso à foto.

– Muita gente passou pela minha casa naquela ocasião. Eu tinha acabado de reformar o sistema de aquecimento...

– Esse caso é complicado demais para ser um crime de oportunid-ade. Deve ser alguém com motivações pessoais.

– Já enviei para você aquela listinha boba...

– Não pense apenas em pessoas que quisessem lhe fazer mal. Pense também em quem saiu ganhando com seu desaparecimento.

Minha cabeça girou.

– Eu preciso... preciso de tempo. Para pensar.

– Deixe isso para amanhã, está bem? – disse Gary. – Vou passar para você o número do hotel onde pretendo me hospedar em Eagle Glen. Se você se lembrar de alguma coisa, ligue para mim na mesma hora. – Eu estava quase desligando quando ele disse: – E, Annie, por enquanto, não fale sobre isso com ninguém.

 

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Eu me vesti com as mãos trêmulas, as palavras de Gary reverber-ando na minha cabeça. Quem saiu ganhando? Pensei no movimento cada vez maior no restaurante de Luke. Pensei em Christina, à frente do empreendimento imobiliário.

Então lembrei que o Maníaco havia dito que tinha me escolhido porque “surgiu uma oportunidade”, e foi estranho que meu namorado, sempre pontual, se atrasasse para o jantar exatamente naquele dia. Além disso, o Maníaco me disse que tinha visto Luke com uma mulh-er, mas ele gostava de me atormentar. Ele não teria me revelado se a mulher fosse Christina? Ou estava guardando o detalhe para um mo-mento especial? Mas, se tiveram um caso, por que Luke e Christina não ficaram juntos depois que saí de cena? E por que dariam ao

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Maníaco aquela foto? Ambos tinham fotos minhas. Não, isso era ridículo. Christina e Luke me amavam. Eles nunca me fariam mal.

Quem saiu ganhando?

Fixei o olhar no local do corredor onde ficava a prateleira. Alguém roubara minha foto, alguém que eu deixara entrar em casa. Verifiquei mais uma vez o alarme e as trancas da porta. Emma latiu para um carro que passava na rua e quase morri de susto. Eu tinha que sair dali.

 

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Durante a viagem de uma hora até Eagle Glen – sem me esquecer do nome do hotel onde Gary estava hospedado, do número do quarto e do mapa impresso do Google –, percebi que não tinha perguntado por que ele estava no vilarejo, mas supus que fosse em razão do meu caso. Não me lembro dos locais por onde passei naquela noite, mas re-cordo que senti muito frio. Na pressa, eu me esqueci de pegar um casaco e viajei apenas de regata e com uma calça que usava na ioga. Minhas mãos tremiam ao volante.

Precisei esperar alguns minutos até Gary abrir a porta.

– Desculpe, eu estava saindo do chuveiro. O que houve? Está tudo bem com você?

– Oi – disse eu. – Preciso falar com você.

Ele fez um gesto me convidando para entrar.

O ar ainda estava cheio de vapor e Gary abotoava os últimos botões de uma camisa branca. Ele pegou a toalha que trazia no pescoço e enxugou os cabelos, que, molhados, adquiriam um tom de aço. Depois de deixar a toalha no encosto de uma cadeira, passou as mãos na cabeça.

O quarto não era grande, com apenas uma cama, uma mesa com telefone, uma TV e um banheiro, e pareceu menor ainda quando me dei conta de que aquela era a primeira vez que estávamos a sós.

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Sobre a mesa de cabeceira havia uma garrafa de vinho tinto pela metade. Gary não me parecia do tipo que gostava de beber, mas, na realidade, eu não o conhecia. Sem falar, ele ergueu a garrafa e levan-tou as sobrancelhas. Assenti. Encheu e me entregou um dos copos que havia no quarto. Aliviada por ter algo nas mãos, dei um bom gole e imediatamente senti o vinho cair na corrente sanguínea. Meus múscu-los se descontraíram e um calor agradável se espalhou pelo meu corpo. Eu me sentei ao pé da cama.

Gary pegou a cadeira que estava diante da mesa com telefone e sen-tou à minha frente. Inclinou-se, apoiando os cotovelos nos joelhos e o queixo nas mãos.

– Então, o que houve?

– Essa merda... está me deixando louca. Você precisa encontrar o cara que me pegou, Gary. O fato de eu não saber quem fez isso está ferrando minha cabeça... estou duvidando de todo mundo. Cheguei a pensar que podem ter sido a Christina e o Luke, só por causa de umas besteiras que minha mãe escutou. Isso não é uma merda?

– O que sua mãe escutou?

– Eles não fizeram nada, Gary. Tem a ver com um empreendimento imobiliário, cuja exclusividade na venda eu estava pleiteando, e tam-bém com o fato de os dois terem se aproximado bastante depois que eu sumi. E parece que ambos estavam com problemas financeiros, mas essas bobagens não interessam. A questão é que essa merda está me levando à loucura.

Gary ficou de pé e começou a andar pelo quarto, coçando o queixo com uma das mãos.

– Qual foi mesmo o desfecho desse tal empreendimento?

Resumi o caso, concluindo com as seguintes palavras:

– A Christina não faria isso comigo, Gary.

– Se você quer que eu descubra os responsáveis, preciso levar em conta todas as possibilidades.

– Bem, essa não é uma possibilidade.

– O casamento dela vai bem?

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– Vai, sim... eu acho... Ela não fala muito nesse assunto, mas deve ser por causa de tudo o que eu tenho passado.

– E ela foi vista com frequência no restaurante, com o Luke?

– Sim, mas atualmente os dois nunca são vistos juntos. Eles se en-contravam porque estavam empenhados na minha busca.

Gary continuou a andar pelo quarto.

– A propósito, por que você está em Eagle Glen? – perguntei. – Você ainda está mostrando a tal foto?

– Cheguei aqui hoje à tarde, e só falei com o pessoal do turno da noite. Amanhã vou conversar com os que trabalham de dia.

– Você descobriu mais alguma coisa sobre o cara? David era mesmo o nome dele? Você disse que me telefonaria assim que levantasse a ficha dele, mas não ligou.

– Um outro departamento vai me enviar amanhã, por fax, mais in-formações. Isso é tudo o que posso dizer por enquanto.

– Detesto quando usa esses chavões de policial. Estou sendo franca com você. Acho que podia, no mínimo, ser franco também.

A frustração e o vinho se somaram, jogando por terra o que restava do meu autocontrole, e caí no choro.

De cabeça baixa para esconder o rosto, levantei da cama e me en-caminhei para a porta, mas Gary me pegou pelo braço no momento em que passei por ele, fazendo meu corpo girar. Eu o empurrei com a mão que estava livre, mas ele não se mexeu. Eu não estava mais chorando.

– Me solte, Gary.

– Só depois que você se acalmar.

Bati com a palma da mão no peito dele, um golpe rápido.

– Foda-se, Gary. Estou cansada dessa merda. Vocês, tiras, não fizer-am nada para me resgatar e ainda estão me enrolando. Fui estuprada quase todas as noites, e você não pode nem revelar um nome? Você não percebe? Não apenas minha vida está ferrada, mas agora eu tenho que me preocupar se algum conhecido quis acabar comigo. E

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você vem me dizer que não tenho o direito de saber detalhes sobre o cara que fez isso?

Dessa vez, bati no ombro dele. Ele não se mexeu. Bati novamente.

Ele segurou meu pulso.

– Pare. – Arregalei os olhos. – Pare de agir como um idiota.

– Estou dizendo tudo o que posso sem comprometer a investigação.

– Para você, isso tudo não passa de um caso, não é?

Ele pareceu zangado.

– Você sabe quantas pessoas desaparecem todos os anos? Quantas crianças? E a maioria não é encontrada. Minha irmã mais velha sumiu quando eu era criança, e nunca apareceu. Foi por isso que entrei para a polícia... eu não queria que outras pessoas passassem o que a minha família passou. – Soltou meu pulso. – Meu casamento acabou em con-sequência deste caso.

– Eu não sabia que você era...

– Já havia alguns problemas antes de o seu caso vir à tona, Annie. Mas nós estávamos tentando resolver. Foi por isso que solicitei minha transferência do continente para cá. Mas, pouco depois que cheguei aqui, você foi sequestrada, e eu dediquei muito tempo ao seu caso. Ela saiu de casa um mês antes de você ser encontrada. – Uma risada mel-ancólica. – Disse que eu me concentrava tanto na busca de outras pessoas que não via aquelas que estavam diante de mim.

– Sinto muito, Gary... em relação a tudo isso. Sei que estou agindo como uma idiota. Mas estou muito confusa. Já não sei em quem confi-ar. Alguém quer me matar e... – Minha voz falhou, e comecei a chorar.

Ele deu um passo à frente e me envolveu em seus braços. Meu rosto ficou na altura do peito de Gary, e o queixo dele encostou no topo da minha cabeça. O som da voz dele subindo pelo tórax vibrou no meu rosto.

– Ninguém vai lhe fazer mal, Annie. Não vou deixar que isso acon-teça, está bem?

Afastei o rosto do peito dele e o encarei. Seus olhos estavam nubla-dos, e o braço que envolvia minhas costas me queimava através da

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blusa. A sensação de ceder ao vigor daquele corpo era agradável, e minha vontade era absorver aquela força e levá-la comigo. Nós nos en-caramos de forma intensa.

Na ponta dos pés, eu me estiquei, colada àquele corpo, e uni meus lábios aos dele. No primeiro momento, a boca não cedeu, e então ele murmurou:

– Ah, não!

Com Luke, tudo era sempre meigo e suave, com uma certa paixão, mas nunca intenso. Gary e eu nos beijamos com um desespero tácito. Segurando minhas nádegas com as mãos, ele me levantou, me pres-sionando contra seu corpo, e me deitou na cama. No momento em que se inclinou sobre mim, apoiando cada braço ao lado do meu corpo, o Maníaco cruzou minha visão, e fiquei gelada. Gary me dirigiu um ol-har inquisitivo e começou a se levantar, mas eu o puxei de volta para o meu lado, virei-o de frente para mim, subi em cima do seu torso e pas-sei a colcha por cima da sua cabeça. Ficamos assim durante alguns se-gundos, meu corpo sentindo cada centímetro daquele corpo, meu cor-ação batendo contra aquele peito. Os braços dele ficaram rígidos, segurando-me um pouco abaixo das costelas, e as pernas se con-traíram, como se ele fosse me afastar.

Com o rosto colado ao dele, sussurrei ao seu ouvido:

– Preciso... ficar sob controle. Só assim eu consigo...

Relaxando, ele virou meu rosto com uma das mãos, até nossos olhos se cruzarem. Acariciou minha face com o polegar e disse, com a voz rouca e gentil:

– Você tem certeza de que quer fazer isso, Annie? Se quiser parar, tudo bem.

Uma onda de medo varreu meu corpo, mas eu virei o rosto e dei uma leve mordida na parte carnuda do seu polegar. Então me curvei e, escondida sob meus cabelos, pressionei meus lábios contra os dele.

No entanto, assim que ele começou a me beijar com mais intensidade, segurando-me pelas nádegas e esfregando minha virilha na dele, fui tomada pelo pânico, e voltei a congelar. Ele percebeu a

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mudança e balbuciou alguma coisa, mas prendi suas mãos acima da cabeça e, com o rosto vermelho, murmurei perto dos seus lábios:

– Você não pode me tocar... você não pode se mexer.

Não tive certeza se ele tinha ouvido, mas os lábios relaxaram e, quando encostei minha boca na dele, ele não me beijou. Avançando e recuando, puxando e mordendo, ataquei aqueles lábios. Enfiando a língua dentro daquela boca, lambi e chupei até ele gemer.

Tirei nossas roupas até ficarmos só com as peças íntimas, e beijei seu peito, roçando meus cabelos delicadamente de um lado para outro, até os mamilos dele ficarem túmidos e a pele toda arrepiada. Montada sobre ele, olhei dentro dos seus olhos no momento em que levei uma de suas mãos até meus seios, acariciando os mamilos. Em seguida, guiei a mão dele pelas minhas costelas e, ao me sentir mais relaxada, a levei por entre minhas pernas. Eu me acariciei com aquela mão, a primeira a me tocar ali desde o Maníaco. Quando meu corpo começou a reagir, numa onda de prazer que eu mal podia surfar, con-duzi a mão de volta ao meu seio. Beijei Gary novamente, prendi os de-dos dos pés na cueca dele e a empurrei para baixo. Então, ainda o bei-jando, tirei minha calcinha e chutei-a para longe.

Segurando seus braços acima da cabeça, tocando nossas frontes, eu me deitei em cima dele e aproximei nossos lábios, sentindo sua respir-ação quente e arfante misturando-se à minha. A pele dele ardia, febril, e uma fina camada de suor cobria nossos corpos. De início, a respir-ação de Gary estava irregular, mas ele a controlou para não me atrapalhar.

Eu me agachei, abri as pernas e baixei o corpo, escorregando por cima dele. Ele não me penetrou. Eu me fiz penetrar.

Ele prendeu a respiração e eu parei, o coração acelerado, esperando que ele se descontrolasse, me virasse de costas, pulasse em cima de mim, fizesse qualquer coisa. Mas ele nada fez. Senti vontade de chor-ar. Aquilo era um dom.

Enquanto eu o cavalgava, ele não se mexeu. A cada movimento, sua respiração era o único sinal da intensa luta interior que ele travava. Ao

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me ver capaz de manter aquele homem forte e confiante pregado de costas na cama, eu realizava movimentos cada vez mais vigorosos. Mais rápidos. Mais selvagens. Desafiando-o a me tocar, descontei minha raiva no corpo dele. Usei o sexo como arma. E, quando ele go-zou, os quadris não se elevaram, não me empurraram. Apenas as mãos dele se contraíram dentro das minhas no instante em que todo o corpo dele se retesou, e me senti radiante. Poderosa. Continuei a cavalgá-lo, a ponto de ter lhe causado alguma dor. Mas ele não me to-cou. Finalmente, parei, virei o rosto para o lado e soltei seus pulsos. Nesse momento, ele ergueu uma das mãos até minha nuca e me em-balou delicadamente nos braços. Então eu chorei.

 

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Depois disso, ficamos deitados lado a lado de costas, olhando para o teto e recuperando o fôlego. Nenhum de nós disse uma palavra se-quer. A experiência tinha sido tão diferente da que eu havia tido com o Maníaco – controle total versus total falta de controle – que eu tinha conseguido deixar a lembrança do Maníaco fora do quarto, fora da cama, fora do corpo. Mas meu devaneio começou a se dissipar à me-dida que eu voltava a mim, pensando em tudo o que estava aconte-cendo na minha vida e no que eu havia acabado de fazer. Gary começou a dizer algo, mas eu o interrompi.

– Esta foi a primeira vez que eu... fiz isso desde que voltei para casa. E só quero dizer que estou feliz por ter sido com você. Mas não precisa se preocupar... eu não tenho nenhum tipo de expectativa. Espero que isso não altere nossa relação.

A respiração dele mudou de ritmo, fez uma pausa e recomeçou. Ele virou o rosto para mim e abriu a boca, mas eu o interrompi mais uma vez.

– Não me entenda mal. Eu não me arrependo de nada, e espero que você também não. Mas eu não quero agora ter que enfrentar um papo

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sério sobre o que aconteceu, está bem? Vamos seguir em frente... Qual o próximo passo na investigação?

Senti o olhar dele queimando meu rosto, mas continuei fitando o teto. Num tom de voz baixo, ele disse:

– Depois de interrogar os funcionários do hotel amanhã, mostrando o retrato falado e a foto que foi enviada por fax, vou para o próximo vilarejo, Kinsol.

Eu tinha me esquecido de que Kinsol ficava perto dali. É uma cid-adezinha que não tem mais que um ou dois hotéis, e a maioria de sua população trabalha na penitenciária local.

Dei uma risada e disse:

– Você poderia até dar um “oi” para meu tio, mas ele acaba de ser solto.

Gary apoiou-se num dos cotovelos e olhou para mim:

– Que tio?

Eu achava que ele sabia, mas minha mãe e meu tio têm sobrenomes diferentes e talvez por isso ele desconhecesse a existência de Dwight.

– O meio-irmão da minha mãe... Dwight. Ele roubou alguns bancos. A foto dele acaba de sair no jornal. Vocês estão atrás dele para interrogá-lo sobre outro roubo. Mas nós não sabemos nada sobre ele. Portanto, não vamos poder ajudar nesse caso.

Gary deitou-se de costas e fixou os olhos no teto. Eu queria pergun-tar o que ele estava pensando, mas havia aprendido que pressioná-lo não me ajudava em nada.

– Existe algo que eu possa fazer para auxiliar na minha invest-igação? – perguntei.

– Por enquanto, procure se isolar o máximo possível. Preciso le-vantar mais alguns dados e pretendo ter mais informações amanhã. Depois disso, vou lhe passar algumas instruções sobre nosso modo de agir. Se você descobrir ou se lembrar de qualquer coisa que possa ser útil, ligue para mim imediatamente. E pode ligar também se precisar apenas conversar.

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A voz dele começou a ficar fraca e eu sabia que Gary logo pegaria no sono. Então eu disse:

– Preciso ir. A Emma está sozinha em casa.

– Queria que você ficasse.

– Que bom. Mas eu não posso deixar a Emma sozinha a noite inteira.

A verdade é que eu não me achava capaz de passar a noite deitada ao lado dele, quietinha, enrolada nos lençóis: seria difícil explicar minha presença dentro do closet na manhã seguinte.

– Não me agrada a ideia de você sair dirigindo, sozinha, pelas estra-das a esta hora da noite.

– Eu cheguei até aqui, não cheguei?

Na penumbra do quarto, ele ergueu uma das sobrancelhas. Aconcheguei o rosto no vale que se formava entre o pescoço e o ombro dele e disse:

– Vou tomar uma chuveirada, está bem?

Depois do banho, durante o qual tentei não pensar no que tinha acabado de fazer, passei na ponta dos pés pela figura adormecida na cama e fugi. As ruas estavam vazias no trajeto até minha casa, e me senti no meu próprio mundinho. Se Emma estivesse comigo, eu teria ficado lá.

Minha mente voltou à conversa com Gary e me arrependi de ter rev-elado o que minha mãe havia me contado sobre Christina e Luke. A polícia está sempre em busca de motivações ocultas. Não que eu não fizesse o mesmo. Mas eu sabia que aqueles dois nunca me fariam mal. Contudo, eu tinha a sensação de que havia algo mais, alguma coisa que eu não conseguia enxergar. Minha mente revisou tudo o que eu sabia, mas eu não era capaz de encontrar a peça que faltava no quebra-cabeça.

 

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A noite foi longa. Dormi no closet, mas rolei de um lado para outro – até onde isso é possível dentro de um espaço daqueles – e acordei cedo hoje. Zonza, sentei na varanda dos fundos, ao lado do telefone sem fio, esperando que Gary me ligasse para dizer o que havia descoberto.

Eu tinha esquecido que Luke viria à minha casa para deixar uns recibos e alguns livros emprestados, e levei um susto ao ouvir uma pi-cape encostar. Quando vi que era ele, minhas pernas ficaram bambas. Controlando-me, abri a porta. Ele tentou me abraçar, mas eu mal re-tribuí o gesto.

– Está tudo bem? – perguntou.

– Desculpe... é que eu estou cansada... não dormi bem à noite.

Tentei mostrar serenidade e agir de modo natural, mas minha voz parecia tensa. Evitei o olhar dele.

– Descobriu mais alguma coisa sobre aquela foto que você reconheceu?

Murmurei algumas palavras, dando a entender que Gary estava in-vestigando o assunto. Então, deixei cair um dos livros que ele tinha trazido e, quando me abaixei para pegar, quase batemos cabeça com cabeça. Dei um salto para trás e ele me lançou um olhar inquisidor. Mais que depressa, ofereci uma xícara de chá. Rezando para que ele bebesse sem demora, engoli o meu.

Nunca havia me sentido tão hipócrita quanto naquele momento, falando sobre nossos cachorros e o trabalho dele, ao mesmo tempo que esperava pelo toque do telefone e pensava no que faria se Gary lig-asse enquanto Luke estivesse na minha casa.

Nossa conversa não fluiu, e ele mal tocou no chá, logo dizendo que precisava ir embora. Quando me abraçou diante da porta, eu me obriguei a retribuir o gesto e me perguntei se ele sentiria na pele a minha culpa.

– Annie, tem certeza de que está tudo bem?

Eu queria confessar tudo. Eu não podia confessar nada.

– Eu só estou exausta.

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– Então vá descansar, certo? Ordens médicas! – Ele sorriu.

Forcei um sorriso em retribuição:

– Sim, senhor.

Depois que ele foi embora, eu me dei conta de que jamais poderia revelar o que tinha havido entre mim e Gary. Percebi também que nunca poderia voltar a ter alguma coisa com ele. Luke pertencia à mulher que tinha sido sequestrada, não àquela que havia voltado para casa.

Uma hora depois, o suspense estava quase me matando, e liguei para Gary. Mas ele não atendeu, pois o telefone estava desligado. Ele só retornou a ligação no final da tarde. Melhor seria se não tivesse telefonado.

 

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O nome verdadeiro do Maníaco era Simon Rousseau e ele estava com 42 anos quando morreu. Foi criado num vilarejo em Ontário, mudou-se para Vancouver aos 20 e poucos anos e acabou se fixando na ilha. A foto no registro policial fora tirada quando, aos 39 anos, ele fora preso por espancar um sujeito com tanta violência que o deixara várias semanas hospitalizado. O Maníaco, que afirmara ter sido con-tratado por uma mulher para fazer o serviço, pois o marido a estava traindo, conseguira se safar. Ao fim de um ano, a sentença foi anulada, visto que a Polícia Montada canadense tinha feito mau uso das provas. Depois de ser solto da penitenciária de Kinsol, ele voltou para o con-tinente e ficou longe do radar da polícia até eu reconhecer a foto.

Agora que contava com um nome, a polícia iniciou uma triagem, a fim de estabelecer um cruzamento entre a trajetória dele e crimes não resolvidos. Descobriram que a mãe tinha morrido de câncer e que o pai havia desaparecido. Até hoje, o carro e o corpo do pai não foram localizados.

Ao não encontrar qualquer caso pendente que se encaixasse, a polí-cia passou a rever casos “resolvidos” e localizou o de uma jovem

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chamada Lauren, estuprada, espancada e morta num beco atrás da casa onde morava. Um mendigo, encontrado com o suéter cheio de sangue da jovem, fora condenado pelo assassinato, tendo morrido na prisão um ano mais tarde.

Simon Rousseau, que morava alguns quarteirões perto de Lauren, foi amigo da família durante anos e costumava visitar a mãe da jovem no Natal, até ela morrer, cinco anos atrás. Foi um alento descobrir que a mãe partiu sem saber que recebia em casa o assassino da filha.

Na faixa dos 20 anos, Rousseau morou em Vancouver, mas trabal-hou como cozinheiro em áreas de exploração de madeira ao norte. E, sim, uma mulher que pilotava helicóptero para uma dessas empresas tinha sido achada morta. Mas o caso nunca foi investigado como hom-icídio. Depois de voltar para o alojamento, o namorado percebera que ela estava demorando demais para chegar e saíra à procura dela, sem conseguir encontrá-la. Uma equipe de busca fora chamada, mas o corpo só foi localizado 30 dias depois, no fundo de um desfiladeiro. Ela estava vestida e o pescoço, quebrado. Como anoitecia na hora que ela voltava ao alojamento, a polícia deduziu que a mulher tinha se per-dido e caído no penhasco.

O paradeiro exato e as atividades desempenhadas por Rousseau desde que havia deixado a prisão ainda eram desconhecidos, e Gary disse que talvez jamais descobrissem se ele era responsável por outros crimes.

Enquanto Gary falava, fiquei sentada no sofá, brincando com um fio solto da manta que cobria as almofadas. Quase desfiei a porcaria da manta.

– Você já está de volta a Clayton Falls? – perguntei.

– Ainda estou em Eagle Glen.

– Você não disse que ia para Kinsol hoje?

– Ia, sim, mas preciso falar com uma funcionária do hotel que só vem trabalhar à noite.

– Falar sobre o quê? Pensei que você só estivesse mostrando a foto. Alguém fez o reconhecimento?

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– Estou apenas verificando todas as possibilidades. Volto para Clayton Falls de manhã. Está claro?

– Sim... Claríssimo!...

– Desculpe, Annie, mas só posso revelar mais detalhes depois que todos os fatos forem analisados. Não queremos lhe causar estresse desnecessário, no caso de estarmos equivocados...

– Como assim? Quer dizer que vocês já sabem quem contratou o Maníaco? Ao menos você pode me dizer se é alguém que eu conheço, não pode?

– Annie... tem muita coisa em jogo aqui.

– Sei perfeitamente que tem muita coisa em jogo... trata-se da minha vida, lembre-se disso! Ou será que você esqueceu essa parte?

Ao ouvir meu tom de voz ríspido, Emma saiu do quarto.

– Veja bem, o máximo que eu posso revelar é que, depois que você reconheceu a foto de Rousseau, nós pegamos a ficha criminal dele. A partir daí, pesquisamos as pessoas que costumavam agir com ele... é o procedimento em qualquer investigação.

Enquanto aguardava pelas informações, Gary se encontrou com al-gumas camareiras que trabalhavam no hotel em Eagle Glen no turno da tarde. Uma delas achou o retrato falado do Maníaco familiar, mas não reconheceu a fotografia da ficha criminal. Mas, se o sujeito do re-trato falado era o mesmo da foto, ela havia visto uma mulher de ócu-los escuros entrar no quarto dele, um dia, e sair cerca de 15 minutos depois. Ela não tinha visto o carro, mas achava que outra camareira que arrumava os quartos do térreo, onde ficava o estacionamento, po-deria ter visto. Era por essa funcionária que Gary estava esperando.

Minha cabeça girava. Que mulher teria se encontrado com o Maníaco?

– Desculpe – disse eu –, só estou tentando... é muita coisa para as-similar de uma vez.

– Entendo. Mas é muito importante que você não...

– Gary, minha mãe está chamando numa outra linha. Vou atender e despachá-la, senão ela...

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– Não atenda!

– Tudo bem, tudo bem. – Mas, quando o sinal da chamada parou, avisei: – Ela vai telefonar de novo.

– Você falou com ela sobre o que conversamos ontem à noite?

A voz dele estava tensa.

– Hoje eu só falei com o Luke, mas eu nunca...

– Não diga nada a ela sobre o caso, Annie.

Algo no tom de voz dele fez soar um alarme.

– Gary... nós estamos falando da minha mãe. Se você não me disser agora mesmo que merda está acontecendo, eu vou ligar para ela e con-tar tudo, ouviu?!

– Deus do céu! – Ele se calou por um instante, e então o escutei res-pirar fundo. – Vai ser duro ouvir o que vou dizer...

– Diga logo.

– Quando nos encontramos ontem à noite, você disse que seu tio havia ficado preso na penitenciária de Kinsol. Então verifiquei se ele e Simon Rousseau estiveram lá na mesma época. E sim. Foi confirmado também que ele tinha fotos das sobrinhas na parede da cela. Então, depois da declaração da camareira, enviamos por fax uma autorização judicial para quebrar o sigilo bancário da sua mãe, à procura de movi-mentações suspeitas.

– Eu não... por que diabos você faria uma coisa dessas?

– Ainda preciso falar com a outra camareira, mas, Annie... – A voz dele assumiu um tom mais brando. – Parece que sua mãe está envolvida.

Que merda!

 

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E isso é tudo o que sei. Logo depois de soltar essa “bomba”, Gary precisou atender outra ligação. Ele me fez prometer não falar com ninguém, e disse que telefonaria mais tarde. Foi por isso que liguei para você, doutora, e é o motivo de eu estar agarrada a este celular

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como se minha vida dependesse dele. Eu tinha que sair de lá, tinha que falar com alguém. Eu não aguentava mais ficar andando de um lado para outro dentro de casa, imaginando quais seriam as teorias idiotas que os tiras estariam criando agora. Uma camareira biruta vê uma mulher saindo de um hotel e a polícia acha que é minha mãe? Isso é que é forçar a barra!

Eu queria saber se o Gary deixou alguma mensagem na minha casa ou se ele se lembra do número do meu celular... não me recordo se deixei uma mensagem gravada com o número. Ou pior: e se ele me ligou enquanto eu estava a caminho daqui, numa área em que meu ce-lular fica sem sinal? Eu preciso sair daqui... preciso falar com ele.