Identidade roubada
D É C I M a Q U I N T a S e S S Ã o
DÉCIMA QUINTA SESSÃO
Mais uma vez, obrigada por ter aceitado meu pedido na última sessão para não falar sobre a montanha. Tive uma semana dos infernos, por isso não sei se estou preparada para enfrentar o assunto hoje... vamos ver como me sinto. Minha dor é um furacão. Às vezes, consigo ficar de pé bem no olho dele, e, quando estou zangada, chego a desafiá-lo a me arrastar. Mas há ocasiões em que preciso me abaixar e me encolher, dando as costas ao furor do vento. Nos últimos tempos, tenho ficado encolhida.
Que droga! Você provavelmente precisa de um tempo... a coisa é bem deprimente, não é? Eu gostaria de contar histórias felizes, ou fazê-la sorrir com algo engraçado. Quando saio daqui, eu me sinto mal por ter despejado tanta porcaria em cima de você... eu me sinto uma egoísta. Mas não o suficiente para querer mudar. Essa merda me tornou egoísta. Minha tristeza até certo ponto é meio justificada.
A primeira vez que vim aqui, eu disse que tinha alguns motivos para tentar de novo a terapia, mas não contei o que arrebentou a bolha de autocomplacência na qual eu vivia.
v
Aconteceu num mercado. Eu só faço compras tarde da noite, e usando um boné. Já pensei na possibilidade de comprar pela internet, mas só Deus sabe quem faz as entregas, e estou cansada de repórteres que se valem de qualquer artifício para entrar na minha casa. Então, tinha uma mulher curvada pegando alguma coisa na primeira prate-leira. Nada de mau nisso, exceto que poucos metros atrás dela havia um carrinho com uma criança dentro.
172/339
Tentei não prestar atenção, não olhar para os dentinhos brancos e o rosto corado da bebê, mas, quando passei pelo carrinho, ela balançou os bracinhos para mim, e eu parei. Como metal atraído por ímã, não consegui impedir que meus pés se aproximassem do carrinho nem que minha mão se estendesse. Eu só queria tocar aquela mãozinha por um segundo. Eu só precisava de um toque, eu disse a mim mesma, um segundinho. Mas a mão da bebê agarrou meu dedo, e ela sorriu. Ao es-cutar a filha rir, a mãe disse:
– Tudo bem, Samantha, mamãe já vai falar com você.
Samantha, o nome dela era Samantha. O nome reverberou na minha cabeça e senti vontade de dizer àquela mulher abaixada, escol-hendo comida de bebê, que eu também tinha uma neném, a mais linda que já se viu. Mas aí ela perguntaria a idade, e eu não queria dizer que ela estava morta e ver o olhar da mulher se desviar para a criança no carrinho, aliviada e grata por aquilo não ter acontecido com a filha dela, e perceber, naquele mesmo olhar, a certeza... uma certeza que traduziria a confiança de que qualquer mãe depende... a de que nada de mal aconteceria à filha dela.
Quando tentei soltar o dedo, Samantha apertou com mais força, e uma bolhinha de baba se formou em seus lábios. Meu nariz sentiu o cheirinho dela: talco de bebê, fralda e um odor levemente adocicado de leite. Eu queria aquela bebê. Minhas mãos queriam pegá-la do car-rinho e trazê-la para meus braços, para minha vida.
Olhando rapidamente para um lado e para outro do corredor vazio, calculei o número de passos para sair dali. Eu sabia que naquele horário apenas uma caixa estaria trabalhando. Moleza. Dei mais um passo na direção do carrinho. Com as batidas do coração latejando nos ouvidos, observei cada fio do cabelinho louro brilhando à luz fluores-cente do teto, e estiquei a mão para tocar um daqueles fios sedosos. A minha bebê tinha cabelo castanho-escuro. Aquela não era minha bebê. A minha bebê já não existia.
Dei um passo atrás no momento exato em que a mãe se levantou, percebeu minha presença e foi até o carrinho.
173/339
– Oi! – ela exclamou, esboçando um sorriso.
Eu queria dizer: O que você tem na cabeça? Como pode dar as cost-as à sua filha? Não sabe o que pode acontecer? Que está cheio de maluco por aí? Não sabe que sou maluca?
– Que menina risonha – disse eu. – E linda.
– Ela está risonha agora, mas você deveria ter visto como ela estava uma hora atrás! Levei um tempão para acalmá-la.
Enquanto ela falava sobre o estresse da maternidade, estresse que eu trocaria pela minha própria alma, tive vontade de chamá-la de cachorra mal-agradecida, dizer que ela se sentisse feliz com cada grito que saísse da boca da filha. Em vez disso, fiquei paralisada, sorrindo e fazendo gestos com a cabeça, até que ela finalmente concluiu o dis-curso, com a pergunta:
– Você tem filhos?
Senti a cabeça rodar, os lábios se alinharem desfazendo o sorriso e a garganta vibrar ao produzir as palavras:
– Não, não tenho filhos.
No entanto, meus olhos devem ter revelado algo, porque ela deu um sorriso amável e disse:
– Vai acontecer.
Tive vontade de esbofeteá-la, gritar de raiva. Vontade de chorar. Mas não fiz nada disso. Apenas sorri, meneei a cabeça e desejei boa noite, afastando-me das duas.
Foi quando percebi que não estou me saindo muito bem com certas coisas. Consegui esconder aquele momento atrás de todos os outros de quase loucura, até ver uma nota no jornal ontem dizendo que uma ex-colega de trabalho havia tido um menino. Mandei um cartão, mas eu sabia que não deveria me aproximar do bebê. Até o ato de escolher o cartão foi uma agonia. Nem sei por que o enviei, a não ser que tenha sido mais uma tentativa patética de provar a mim mesma que posso lidar com merdas, o que, evidentemente, não consigo.
v
174/339
– O Wayne e eu queremos convidar você para jantar hoje – disse minha mãe, quando telefonou na tarde de terça-feira. – Vou fazer um assado.
– Que droga! Logo hoje que jantei mais cedo! Se eu soubesse... – Eu não tinha jantado mais cedo, mas preferia remoer o passado... merda!, preferia ruminar o passado... a ter que ir até lá e ouvir o que eu estava fazendo de errado agora. Ninguém melhor do que minha mãe para me fazer sentir mal sobre o fato de me sentir mal. Eu já estava de mau hu-mor por causa do babaca de um produtor de cinema que fica batendo à minha porta com propostas. O cara chega a falar comigo através da porta fechada, aumentando a oferta a cada minuto, como se estivesse na porra de um leilão. Está desperdiçando saliva.
Anos atrás, eu me lembro de ter assistido ao filme Titanic. Na saída, gente empanturrada de pipoca comentava os efeitos especiais maravil-hosos, o realismo, principalmente dos corpos boiando no mar. E eu? Fui direto para o banheiro vomitar, porque as pessoas tinham de fato morrido daquele jeito, centenas e centenas de pessoas, e não estava certo ficar sentada dentro de um cinema chupando bala, lambendo manteiga dos dedos e admirando o realismo daquelas mortes na água gelada.
Eu é que não quero ver gente se entupindo de balas, comentando o sucesso da minha vida na forma de entretenimento.
– Eu telefonei para você mais cedo, porém você não atendeu. – Minha mãe nunca diz “você não estava em casa”. É sempre “você não atendeu”, num tom acusatório, como se eu deixasse o telefone tocar apenas para irritá-la.
– A Emma e eu fomos dar uma volta.
– O que adianta ter secretária eletrônica, se você nunca ouve as mensagens?
– Você tem razão... desculpe. Mas foi bom você ter ligado outra vez, porque quero perguntar uma coisa. Ontem à noite eu procurei as fotos da Daisy e do papai, mas não encontrei.
175/339
A bem da verdade, eu não tinha muitas fotos. A maioria havia sido dada por parentes, e o restante era refém dos álbuns da minha mãe, com a vaga promessa de “um dia” serem minhas. Eu não gostava nada do fato de minha mãe ter ficado com uma foto de mim, Daisy e meu pai. Era raro encontrar um retrato em que minha mãe não estivesse presente.
– Tenho certeza de que deixei essas fotos aí, depois que você voltou para casa.
– Não me lembro disso, e procurei as fotos pela casa toda... – Esperei um instante, mas ela não me deu qualquer explicação sobre as fotos desaparecidas, e eu tinha certeza de que ela ficaria calada, a não ser que fosse pressionada. Mas outra pergunta estava guardada e, com minha mãe, é preciso saber escolher as batalhas. Com ela, roleta-russa é brinquedo.
– Mãe, você pensa no papai e na Daisy?
Um suspiro irritado pôde ser ouvido.
– É claro que sim. Que pergunta boba. Então, você comeu direito? Essas sopas em lata não são lá essas coisas. Você está magra demais.
– Estou tentando tocar num assunto com você, mãe.
– Nós já falamos...
– Não, na verdade não falamos. Eu sempre quis falar nisso, porque penso neles o tempo todo, especialmente enquanto estive lá na montanha, mas sempre que eu tocava no assunto você falava de outra coisa, ou então dizia algo sobre a patinação da Daisy e todo o...
– Por que isso? Você está querendo me machucar?
– Não! Eu só quero... bem, eu pensei... porque eu perdi uma filha, e você perdeu uma filha, eu pensei que pudéssemos conversar, e que talvez você tivesse algum insight sobre a maneira de lidar com tudo isso. – Insight? Que diabos eu estava pensando? Minha mãe jamais havia demonstrado qualquer insight mais profundo do que uma dose de vodca.
– Acho que não posso ajudar você, Annie. A criança que você teve... Não é a mesma coisa.
176/339
Minha voz se tornou metálica, e meu coração acelerou.
– E por que não?
– Você não vai entender.
– Não? Ora! Que tal você me explicar por que a morte da minha filha não se compara com a morte da sua, para eu entender. – A raiva fez minha voz tremer, e agarrei o telefone com tanta força que minha mão chegou a doer.
– Você está distorcendo minhas palavras. É claro que o que aconte-ceu com sua filha foi uma tragédia, Annie. Mas não dá para comparar com o que aconteceu comigo.
– Não seria o que aconteceu com a Daisy?
– Você é sempre assim, Annie... eu ligo para fazer um convite e, de algum jeito, você transforma tudo numa das suas agressões. Sincera-mente, às vezes acho que você procura meios de se sentir infeliz.
– Se fosse o caso, eu passaria mais tempo com você, mamãe.
O susto foi seguido pelo barulho dela desligando o telefone na minha cara. A raiva me fez sair porta afora com Emma, mas, depois de 30 minutos de corrida, a excitação provocada pelo exercício e por ter recusado o convite da minha mãe desapareceu, pois pensei no tele-fonema seguinte. O telefonema em que Wayne me diria que eu havia magoado demais minha mãe, que ela estava muito nervosa, que eu deveria pedir desculpas e tentar entendê-la melhor... é a única mãe que tenho nesta vida e a coitada sofreu tanto. Enquanto isso, vou ficar ouvindo e pensando: Por que diabos ela não tenta me entender? E o tanto que eu já sofri?
v
Depois que minha filha morreu, acordei olhando para a manta do-brada, e meus seios começaram a derramar leite pela frente do vestido, como se chorassem por ela. Meu corpo também não aceitava aquela morte. Quando viu que eu estava acordada, o Maníaco se aproximou, sentou atrás de mim na cama e massageou minhas costas.
177/339
– Trouxe um pouco de gelo para seu rosto. – Deixou um saco de gelo perto da minha cabeça.
Ignorei o gelo e me sentei de frente para ele.
– Onde está minha filha?
Ele cravou os olhos no chão.
– Peço desculpas por ter gritado com você, mas eu não quero a manta. Eu quero ela. – Escorreguei pelo lado da cama e ajoelhei di-ante dele. – Por favor, eu imploro. Faço qualquer coisa. – Ele ainda não tinha olhado para mim. Então posicionei meu rosto diretamente em sua linha de visão. – Faço qualquer coisa que você quiser, mas me diz onde você deixou o... – Eu não conseguia pronunciar a palavra corpo.
– “Nem sempre você pode ter o que quer.” – Ele se afastou de mim, cantando os versos finais da música dos Rolling Stones.
– Se você tiver um pingo de compaixão, vai me dizer...
– Se eu tiver um pingo de compaixão? – O Maníaco pulou da cama e começou a andar de um lado para outro com a mão na cintura. – Eu já não provei para você diversas vezes o tanto que eu me compadeço? Não estou sempre ao seu lado? Não estou ao seu lado agora, mesmo depois que você me disse aquelas coisas horríveis? Eu trago a manta para você ter um pouco de consolo, e você diz que só quer ela? Ela abandonou você, Annie. Você não percebe? Ela foi embora, mas eu fiquei. – Minhas mãos esfregavam freneticamente as orelhas, na tent-ativa de impedir que aquelas palavras terríveis me invadissem, mas ele puxou-me as mãos e insistiu: – Ela foi embora, e saber onde ela es-tá não vai ajudar em nada.
– Mas ela foi embora tão depressa, eu só quero... eu preciso... dizer adeus.
– Você não precisa saber onde ela está, nem agora nem nunca. – Inclinou-se na minha direção. – Você ainda tem a mim, e isso é tudo o que importa. E está na hora de você preparar meu jantar.
Como eu poderia fazer aquilo? Como eu conseguiria...
– Está na hora, Annie.
178/339
Encarei seu rosto, perplexa.
Estalou os dedos e apontou a cozinha. Depois que dei alguns passos, ele disse:
– Você pode comer mais um pedaço de chocolate, de sobremesa, hoje.
v
O Maníaco nunca me disse onde estava o corpo da minha filha, doutora, e até hoje não sei... os tiras usaram cães farejadores, mas não conseguiram encontrar. Prefiro imaginar que ele deixou o corpo no rio, e que ela flutuou correnteza abaixo, serenamente. É a isso que tento me agarrar quando fico acordada à noite no closet, ou quando acordo gritando, encharcada de suor, depois de mais um pesadelo em que vejo animais estraçalhando minha filha com os dentes.
Não tenho como honrar a memória da minha bebê... não tenho um túmulo, um jazigo. A igreja perto de casa queria fazer uma lápide para ela, mas rejeitei a ideia, porque sabia que jornalistas e gente mórbida apareceriam para tirar fotos. Fiz de mim mesma o cemitério da minha filha. Foi por isso que doeu tanto quando minha mãe disse que eu queria ser infeliz. Tem muita verdade nisso.
Quando Luke me telefonou naquela noite, comecei a rir no mo-mento em que contei a ele que Emma tinha caído dentro do lago dur-ante nossa caminhada. Logo me contive, mas a coisa estava do lado de fora, meu riso estava do lado de fora. E senti vergonha, como se est-ivesse traindo minha neném por experimentar um instante de alegria. A vida dela foi roubada, e com a vida se foi também a chance de ela sorrir, gargalhar ou sentir. Então, se fico contente ou dou uma risada, é como se estivesse traindo minha filha.
Eu deveria comemorar o fato de não ter dormido dentro do closet nenhuma vez na semana passada... Aquela conversa que tivemos, sobre perceber quando estou me sentindo paranoica e não reagir, talvez tenha algo a ver. E ontem à noite, embora tenha checado as
179/339
portas da frente e de trás para ter certeza de que estavam trancadas, consegui deixar de verificar as janelas, pois me lembrei de que nen-huma delas havia sido aberta depois que as inspecionei durante o dia. Desde que voltei para casa, foi a primeira vez que consegui pular uma parte do meu ritual noturno.
A coisa do xixi está cada dia melhor... as fitas de ioga que a senhora me deu ajudaram muito. Quase todos os dias, eu consigo urinar quando tenho vontade, e não preciso mais fazer aqueles exercícios de respiração, nem cantar meus mantras.
Como disse, eu deveria ter orgulho do meu progresso, e tenho, mas isso só acrescenta mais uma camada de culpa. Ficar curada é como deixar minha filha para trás, e eu fiz isso uma vez.