Identidade roubada

Chevy Stevens · Capítulo 27 de 30

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Identidade roubada

V I G É S I M a Q U I N T a S e S S Ã o

VIGÉSIMA QUINTA SESSÃO

 

Você deve ter lido os jornais... voltei a ser manchete. No caminho de casa, depois da nossa última sessão, pensei o tempo todo na minha mãe. Às vezes, ela é uma verdadeira megera, egoísta, e sem dúvida acha que o mundo gira ao seu redor. Mas como ela foi capaz de fazer uma coisa dessas?

Naquela noite, quando cheguei em casa, encontrei um recado do Luke na secretária eletrônica. Claro, ele é educado demais para dizer, na cara: “Onde você se meteu?” Em vez disso, o recado pedia que eu o avisasse quando chegasse em casa. Não liguei de volta... não sabia o que dizer.

E naquela noite, dentro do closet, pensei na minha mãe... Gary ainda não tinha telefonado... e eu a vi sentada na frente da TV, fu-mando e bebendo, sem fazer a menor ideia de que a merda estava feita, e que em breve iria descer a ladeira. Por mais magoada e traída que me sentisse, em nada me agradava saber que ela nem sequer desconfiava do que estava prestes a acontecer.

Então me lembrei de que ela havia me telefonado no dia do plantão de vendas. Ela me fez sentir culpada por causa de uma máquina de cappuccino sabendo que um ex-presidiário me sequestraria poucas horas depois. Sem falar na maneira como cuidou de mim após a se-gunda tentativa de sequestro. Eu me senti amada, e minha mãe tinha armado tudo. Naquele momento, me dei conta de que precisava assi-stir ao interrogatório. Eu precisava ouvir por que ela fez aquilo comigo.

 

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Na manhã seguinte, por volta das 10 horas, Gary me telefonou. Os documentos da movimentação bancária de minha mãe tinham chegado de manhã cedo. Os dados confirmavam as declarações de Wayne e, com base na análise da tinta, os elásticos de cabelo rosa per-tenciam ao mesmo lote. Ela havia sido presa, fato que deve ter provo-cado um frenesi no conjunto de trailers onde morava. Agora, ela es-tava na delegacia, aguardando minha chegada. Não demorei muito, embora, ao longo de todo o trajeto, minha vontade fosse dar meia-volta.

Só notei que estava tremendo quando cheguei à delegacia e Gary me ofereceu seu casaco, que ainda estava quente e tinha seu perfume. Quem me dera poder me enfiar naquele casaco e desaparecer. Num cubículo, ao lado da sala onde minha mãe estava, observei-a através de uma vidraça supostamente espelhada do outro lado. Dois policiais me acompanhavam. Mas, quando encarei um deles, este desviou o ol-har para o chão.

Minha mãe estava sentada na beirada da cadeira, as mãos embaixo das coxas. Os pés mal tocavam o chão. A maquiagem estava esmaecida e borrada – provavelmente havia sido aplicada no dia anterior – e o rabo de cavalo estava desarrumado. Então constatei que uma pálpebra se mostrava ligeiramente mais caída. Ela não parecia bêbada, mas era certo que naquela manhã tinha tomado a habitual vodca com suco de laranja. Gary entrou no cubículo e se posicionou ao meu lado.

– Você está bem?

Apoiou uma das mãos no meu ombro. O peso me transmitiu firmeza e calor.

– Para quê tudo isso? Vocês têm todas as provas.

– Provas nunca são demais. Vi muitos casos que considerávamos resolvidos irem para o buraco. Seria bom se ela admitisse algum envolvimento.

– Quem vai interrogá-la?

– Eu.

Os olhos dele brilharam. Se fosse um cavalo, estaria espumando.

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Minha mãe se animou no instante em que Gary entrou na sala. Meu estômago deu um nó.

Ele começou dizendo que a conversa estava sendo gravada e ela sor-riu para a câmera. Em seguida, pediu que ela dissesse nome, endereço e a data. Minha mãe não sabia em que dia do mês estava.

Depois dessas preliminares, ele informou:

– Os oficiais que a trouxeram aqui hoje leram para a senhora seus direitos, mas quero repetir que a senhora tem direito a assistência jurídica antes de falar conosco. A senhora não tem obrigação de dizer coisa alguma, mas qualquer declaração que fizer poderá ser utilizada num tribunal.

Minha mãe balançou a cabeça:

– Isso é uma grande bobagem. Quem os senhores acham que eu sequestrei?

Gary suspendeu uma sobrancelha:

– Sua filha.

– Annie não foi sequestrada. Um sujeito a levou.

Na certeza de que dar a definição de sequestro seria perda de tempo, e eu era obrigada a concordar com ele, Gary prosseguiu:

– Temos uma confissão assinada pelo Wayne descrevendo exata-mente o que ocorreu e a participação de cada um de vocês no caso. – Abriu uma pasta sobre a mesa, retirou a confissão e apontou um item no documento. – Também temos um extrato do seu cartão de crédito, que comprova que a senhora alugou uma van numa locadora fora da cidade um dia antes do sequestro da Annie. Temos aqui a fatura, dis-criminando uma van branca, com sua assinatura. Temos uma testemunha que viu a senhora e Simon Rousseau num hotel em Eagle Glen. Confirmamos que um elástico de cabelo, encontrado entre os pertences de Simon Rousseau, coincide com elásticos que a senhora tem em casa. Sabemos do seu envolvimento.

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Os olhos de minha mãe se arregalaram e ela ficou tensa na cadeira, mas logo relaxou e começou a mexer na barra da saia. Em seguida, voltou a atenção para uma das unhas da mão.

Apoiando as mãos sobre a mesa, Gary curvou-se para a frente.

– Sabe, meus superiores acham que a senhora não queria que a An-nie desaparecesse por apenas uma semana. Foi isso que a senhora disse ao Wayne, mas eles acreditam que a senhora contratou Simon Rousseau para matá-la. A Annie tinha seguro de vida na imobiliária, e tenho certeza de que a senhora sabia que era a única beneficiária da apólice. Os planos da senhora foram por água abaixo: a Annie sobreviveu.

A cada frase, o corpo da minha mãe se contraía e os olhos se arrega-lavam. Ela começou a gaguejar:

– Não... não... é claro que não... matar minha filha? Não... eu nunca seria capaz...

– Acho que você não está entendendo, Lorraine. A polícia não apen-as acha que você contratou Simon Rousseau para matá-la, a polícia quer que seja assim, porque isso vai fazer uma grande diferença no tempo de condenação.

Observei o rosto da minha mãe enquanto ela passava a língua nos lábios. Para Gary, aquilo seria um nítido sinal de nervosismo, mas eu conhecia minha mãe, e passar a língua nos lábios era indicação de que ela estava tentando limpar a mente perturbada pela vodca.

– A polícia quer que eu seja culpada?

– Muito tempo e dinheiro dos contribuintes foram gastos neste caso. Meus superiores não estão nada contentes com isso. E a popu-lação? As pessoas que passaram os fins de semana fazendo buscas pela mata, distribuindo folhetos, enquanto o tempo todo você sabia o que tinha acontecido com a Annie? Ora! As pessoas estão querendo ver sangue. Por isso, elas não apenas querem que alguém pague pelo crime, elas precisam que alguém pague.

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– É bom mesmo que alguém pague. A pessoa que fez isso tem que pagar. – Os olhos se encheram de lágrimas. – Quando penso no que a Annie passou...

– Escute, Lorraine – disse Gary, em tom gentil. – Eu estou do seu lado. Minha intenção é ajudá-la a sair dessa enrascada. Eles não quer-em apenas incriminá-la, Lorraine. Eles querem arrancar seu couro. Por isso, a menos que você me ofereça algo com que eu possa trabal-har, você vai ser condenada por contratar alguém para matar sua pró-pria filha... e eu não vou conseguir impedir a condenação.

As duas pálpebras caíram enquanto ela observava Gary, cheia de cautela. Não parecia disposta a se arriscar na ratoeira e morder o queijo. Ela apenas farejava o ar. Fiquei observando os dois, horroriz-ada e fascinada ao mesmo tempo, mas distante, como se aquela fosse a mãe de outra pessoa, e aquele, algum policial que eu não conhecesse.

– Eu estive naquele hospital com você, Lorraine... e vi como sofreu. Sei o quanto você ama sua filha... Você faria qualquer coisa por ela. – Minha mãe começou a chutar o ar, embaixo da mesa. – Mas às vezes a Annie é bastante teimosa, eu sei, e, por melhor que seja o conselho, ela não ouve, não é mesmo? – Eu não estava gostando do rumo da conversa. – Ninguém ouve seus conselhos, não é? Nem sua filha nem o Wayne. Não deve ser fácil ver o Wayne desperdiçar oportunidade após oportunidade, nada de bom revertendo para você.

– Aquele homem não conseguiria mover um palha sozinho, a menos que eu estivesse ao lado dele. – Sacudindo o rabo de cavalo, ela en-grenou: – Tem homem que precisa de um estímulo para perceber seu potencial.

Gary ofereceu um sorriso melancólico:

– Mas você não deveria ter que servir de estímulo para ele, Lor-raine. Se o Wayne fosse um marido melhor, colocasse dinheiro em casa... você não precisaria ter feito tudo isso, não é?

Ela começou a balançar a cabeça em sinal de assentimento, mas controlou-se e logo parou.

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– E nós dois sabemos que o Wayne deveria ter resolvido a situação com o agiota, para que você pudesse salvar a Annie. Mas ele não re-solveu, não foi? Não, ele esperou que você tomasse as rédeas da situ-ação. E agora ele está colocando tudo nas suas costas.

Ele se inclinou na direção dela, até que os narizes de ambos quase se tocassem. Ela lambeu o lábio, como se tentasse sorver os derradeir-os resquícios de álcool. Ela queria falar, queria contar tudo. Só precis-ava de um pequeno empurrão.

Com a voz transbordando solidariedade, Gary continuou:

– O Wayne foi uma decepção para você, sem dúvida. Mas nós po-demos ajudá-la, Lorraine. Nós podemos tirar você dessa. Não é sua culpa que as coisas tenham fugido ao controle.

E, com aquele empurrãozinho, ela tombou, com o rosto vermelho e os olhos febris.

– Era para o Simon ficar com ela durante uma semana. Ele me disse que o chalé era confortável. Ele levou mais de um mês preparando tudo para a Annie, mas não quis me dizer onde ficava o chalé, al-egando que eu seria mais convincente se não soubesse a localização do cativeiro. O Simon usaria uma droga que deixaria a Annie calma, para ela não sentir medo... ela ficaria dormindo a maior parte do tempo... e tudo seria totalmente seguro. Ao fim de uma semana, ele deixaria minha filha no porta-malas de um carro e me telefonaria para dizer onde o veículo estava, e eu faria uma denúncia anônima para a polícia. Mas não ligou, e o celular que ele me deu não funcionava mais. Eu nada pude fazer para salvar minha filha. O agiota disse que retalharia meu rosto. – Com os olhos arregalados, ela levou as mãos à face. – Mandei o Wayne falar com o sujeito, e ele piorou tanto as coisas que acabamos devendo mais ainda.

– Você deu isto ao Simon? – Gary empurrou na direção dela a foto que eu tinha encontrado no chalé.

– Foi a única foto decente que eu pude encontrar... ela sempre fran-ze a testa nas fotos que eu bato.

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– Então você acreditava que era importante que ele achasse a Annie atraente?

– Ele tinha visto fotos dela na cela do Dwight, tiradas quando ela era pequena. Ele queria saber como a Annie havia ficado depois que cresceu.

Gary, que estava tomando um gole de café, engasgou-se e teve um acesso de tosse. Em seguida, respirou fundo e pigarreou, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, minha mãe apresentou o argumento final.

– Então, como o senhor pode ver, a culpa não é minha... Se o sujeito tivesse seguido meu plano, ela nada sofreria. Mas, agora que eu contei tudo, o senhor pode falar com seus chefes e acertar tudo direitinho. – Ela deu um sorriso cheio de graça e esticou o braço por cima da mesa, cobrindo a mão de Gary com a dela. – O senhor sempre me pareceu ser o tipo de homem que sabe cuidar de uma mulher. Eu gostaria de lhe oferecer um jantar bem gostoso, para demonstrar minha gratidão. Inclinou a cabeça e deu mais um sorriso.

Gary bebericou o café durante um tempo. Então, depositou a xícara sobre a mesa e recolheu a mão que estava entre os dedos da minha mãe.

– Lorraine, você está presa. Você não vai a lugar algum... durante muito tempo.

Ela pareceu surpresa. Em seguida, confusa. Por fim, magoada.

– Mas achei que o senhor estava entendendo.

Gary se empertigou.

– Eu estou entendendo, Lorraine. Entendo que você cometeu um crime, descumpriu a lei, várias leis, e não fez nada para corrigir a situ-ação. Entendo que você entregou sua filha a um assassino. Entendo que o assassino engravidou a Annie e então matou a filha dela. Que ela foi aterrorizada, abandonada, surrada, estuprada e seviciada... sem saber se sobreviveria. Sem saber por que aquilo estava acontecendo. Agora, finalmente, eu posso dar a ela uma resposta, mas quem dera não fosse essa a resposta.

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No momento em que, retirando-se da sala, Gary passou por ela, minha mãe se levantou e segurou seu braço. Com lágrimas brilhando em seus olhos azuis, ela pressionou os seios contra o braço dele.

– Mas eu não sabia que ele era um assassino. Nunca tive intenção de fazer mal a ela... eu sou uma boa mãe... o senhor não entende? – A voz não saiu quando ela pronunciou a última palavra.

Gary segurou-a pelos ombros, afastou-a lentamente e prosseguiu na direção da porta.

– Isso não é justo!

À porta, ele se virou e disse:

– O que não é justo é a Annie ter uma mãe como a senhora.

 

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Ele entrou no cubículo e se posicionou ao meu lado. Em silêncio, observamos minha mãe através do espelho. Durante alguns segundos após a saída de Gary, a fisionomia dela era de raiva, mas as pálpebras se ergueram no momento em que a coragem se esvaiu e as últimas pa-lavras de Gary foram assimiladas. Ela ficou pálida e cobriu a boca com as mãos. Nada de choro falso agora. O corpo começou a tremer viol-entamente enquanto ela soluçava. Desesperados, os olhos percor-reram a sala vazia. Ela deu um passo atrás, tropeçou e caiu sentada na cadeira, encarando a porta.

– Você quer entrar e falar com ela? – perguntou Gary.

– Agora não posso.

Eu tremia.

Quando perguntei o que iria acontecer em seguida, ele disse que minha mãe e Wayne ficariam detidos até a audiência. Então, seria es-tabelecida uma fiança. Eu ainda não tinha pensado que o caso pudesse ir a julgamento. Minha mãe, sem dúvida, iria colaborar com a Promo-toria. Embora soubesse que não deveria me importar com o que acontecesse a ela, eu me perguntava se minha mãe contrataria um ad-vogado e como eles conseguiriam pagar os honorários.

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– E o tal agiota? Eles correm perigo?

– Vamos investigar isso agora. Vamos cuidar para que eles estejam seguros.

Nenhum de nós dois disse uma única palavra enquanto Gary me acompanhava até o carro. Eu com certeza não sabia o que dizer: Obri-gada por prender minha mãe e interrogá-la com tanta perícia... você soube muito bem acabar com ela.

No momento em que me virei para entrar no meu carro, ele disse:

– Tenho uma coisa para você. – E me entregou um baralho. – Isso estava no bolso do Wayne quando ele foi preso, e ele me pediu que en-tregasse a você. O Wayne quer que você saiba que ele sente muito. – Gary parou e me olhou com atenção. – Eu também sinto muito, Annie.

– Não se preocupe... isso faz parte do seu trabalho, e você é um ótimo profissional. – Eu sabia que o meu tom de voz expressava amar-gura, e ele parecia arrasado. – Teria sido ainda pior se ela tivesse es-capado – eu disse, embora naquele momento não fizesse a menor ideia se a afirmação era verdadeira ou falsa.

Eu precisava entender que ele era mais que o homem que, conforme eu havia constatado, tinha acabado de incriminar minha mãe.

– Me conte algo que ninguém sabe a seu respeito.

– O quê?

– Alguma coisa... qualquer coisa.

Nós nos olhamos dentro dos olhos.

– Tudo bem – disse ele. – Às vezes, quando não consigo dormir, vou até a geladeira e como creme de amendoim direto do pote.

– Creme de amendoim... é isso? Preciso experimentar qualquer dia.

– Vale a pena... ajuda.

Continuamos nos encarando. Então entrei no carro e fui embora. Pelo retrovisor, vi que ele me olhava, até que dois policiais se aproxi-maram, deram um tapinha nas costas dele e apertaram sua mão. Acho que aquele dia seria comemorado pelos tiras. Olhei para o lado, vi o

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baralho no banco do carona e me dei conta de que ainda estava usando o casaco do Gary.

 

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Os jornais farejaram a coisa mais rápido do que minha mãe era capaz de servir um drinque, e meu telefone não para de tocar. Sur-preendi um repórter espionando minha janela ontem. Emma pôs o sujeito para correr. Agora não sou apenas a garota que desapareceu. Agora sou a garota cujo sequestro foi encomendado pela própria mãe. Não sei se vou conseguir lidar com toda essa merda novamente.

Telefonei para o Luke ontem porque queria contar o que aconteceu antes que ele lesse a notícia no jornal. Ele estava em casa e, por um se-gundo, pensei ter ouvido uma voz de mulher ao fundo, mas talvez tenha sido a TV.

Disse a ele o que minha mãe havia feito e que ela estava presa.

De início, ele ficou horrorizado e perguntou mais de uma vez se eu tinha certeza. Mas, quando repeti a versão que ela apresentou, ele disse:

– Essa não! Ela deve estar se sentindo muito mal... parece que ela perdeu totalmente o controle da situação.

Ele teve pena dela? Onde estava a indignação pelo que tinha aconte-cido comigo? Senti vontade de repreender o Luke. Mas reagi com indiferença.

Depois que desliguei, vi uma foto de nós dois num porta-retrato em cima da lareira. Parecíamos tão felizes.

No dia seguinte, telefonei para Christina e contei tudo. Ela respirou fundo e disse:

– Deus do céu, Annie. Você está bem? Não, como poderia estar? Vou até aí agora mesmo. Vou levar uma garrafa de vinho... vai ser su-ficiente? Não, precisamos de uma caixa. Sua mãe? Sua própria mãe fez isso?

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– Pois é... a coisa ainda não entrou na minha cabeça. Será que a gente pode pular o vinho? Eu só preciso... só preciso de um tempo.

Ela fez uma pausa e disse:

– É claro, sim, é claro... se precisar de mim, é só telefonar, certo? Eu largo tudo e vou imediatamente.

– Eu ligo, sim... e obrigada.

 

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Eu não disse à Christina nem ao Luke que não fui acampar e nem vou dizer. Também não vou dizer à Christina que minha mãe tentou incriminá-la. Nos últimos dias, ouço um lamento constante na minha mente. E não consigo parar de chorar.