Identidade roubada

Chevy Stevens · Capítulo 22 de 30

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Identidade roubada

V I G É S I M a S e S S Ã o

VIGÉSIMA SESSÃO

 

Não sei se você viu o artigo que saiu no jornal este fim de semana, doutora, mas a polícia encontrou dentro de um galpão, na casa do tal adolescente, alguns itens roubados. Na verdade, a casa é dos pais do moleque. De todo modo, telefonei para o policial que invest-igou o arrombamento ocorrido lá em casa, para perguntar se entre os achados havia algum pertence meu, mas ele disse que todos os itens já tinham sido identificados pelos respectivos donos. Mais tarde, eu me lembrei de mais uma informação no artigo: todos os arrombamentos aconteceram à noite.

Então, por que um ladrão, ainda mais um ladrão adolescente, mudaria seus hábitos para arrombar minha casa? Ele precisou calcu-lar o tempo certo para saber a hora exata que eu saía para correr... mas por que não roubou nada?

Comecei a pensar na maneira como o Maníaco planejara meu se-questro, chegando no final do plantão, num dia de calor de verão, sabendo que o movimento estaria fraco. O Maníaco, que disse que não havia sido fácil montar o chalé. O Maníaco, que talvez tivesse contado com alguma ajuda...

E se ele tivesse um comparsa?

Talvez um amigo, ou, sei lá, um irmão louco que estivesse furioso porque eu o matei. Eu achava que a pessoa que arrombou minha casa tinha esperado que eu saísse. Mas e se ele quisesse me pegar em casa? Meu carro estava na garagem e era bem cedo. Mas por que o sujeito viria me pegar depois de tanto tempo?

Quando chegou a segunda-feira, eu estava tão obcecada pela ideia que resolvi telefonar para o Gary e perguntar se, por acaso, o Maníaco não teria algum comparsa. Essa merda é como um câncer... se a gente

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não arranca todas as células doentes, a coisa ressurge, num tumor ainda maior. Mas o celular dele estava desligado e, quando liguei para a delegacia, me disseram que ele estaria fora até o próximo fim de semana.

Fiquei surpresa ao constatar que ele não tinha me dito que sairia da cidade, pois costumamos nos falar mais de uma vez por semana. Ele é sempre amável quando eu ligo, e nunca diz coisas idiotas, do tipo “Como posso ajudá-la?”. Isso é muito bom, pois nem sempre eu sei por que telefono para ele. De início, as ligações nem eram um ato con-sciente. Quando tudo no meu mundo parecia estar fugindo ao meu controle, eu me via com o telefone na mão. Às vezes, eu nem con-seguia falar... Felizmente, ele tem um identificador de chamadas. Esperava alguns segundos e, se eu continuasse muda, começava a falar sobre meu caso, fornecendo qualquer nova informação. Então ele me contava algumas histórias engraçadas envolvendo policiais, até que eu me sentisse melhor e desligasse, às vezes sem me despedir. Uma vez, ele chegou a descrever a maneira correta de limpar uma arma, até que eu finalmente o liberei. É incrível que o cara ainda atendesse minhas chamadas.

Nos últimos meses, nossas conversas têm sido diálogos em vez de monólogos, mas ele nunca conta nada da sua vida pessoal, e algo no jeito dele me impede de insistir. Provavelmente, ele saiu da cidade para resolver algum assunto particular. Acho que tiras também têm questões pessoais.

 

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Os policiais que dispensei me deixaram sozinha na sala por algumas horas, tempo suficiente para eu contar mais de uma vez todos os blo-cos de concreto. Fiquei imaginando se teriam telefonado para minha família, e quem viria falar comigo. Tirei a mochila das costas e a deixei no colo, acariciando o tecido áspero. De certo modo, o gesto era recon-fortante. Nenhum daqueles idiotas se preocupou em perguntar se eu

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precisava usar o banheiro. Felizmente, eu estava treinada a segurar a vontade de fazer xixi, e não me ocorreu a ideia de simplesmente me le-vantar e sair da sala.

Por fim, a porta se abriu e um homem e uma mulher entraram, am-bos de cara fechada e com roupas escuras. No caso do homem, um be-lo terno. Os cabelos curtos e grisalhos sugeriam 50 e poucos anos, mas o rosto era de um sujeito na casa dos 40. Com certeza, tinha mais de 1,80m, e os ombros erguidos e a coluna reta revelavam o orgulho que ele sentia da própria altura. Tinha uma aparência sólida. Serena. Se estivesse a bordo do Titanic, o sujeito não teria interrompido o cafezinho.

Trocamos um olhar e ele veio na minha direção, com passos suaves, comedidos, e a mão estendida.

– Oi, Annie, sou o sargento Kincade, da Unidade de Crimes Hedion-dos do município de Clayton Falls.

Nada naquele sujeito sugeria Clayton Falls, mas a figura dele sem dúvida significava um avanço em relação a Jablonski e seu assistente. O cumprimento foi vigoroso e, por algum motivo, os calos da sua mão me transmitiram uma sensação de alívio.

Em seguida, a mulher caminhou com passos firmes até onde eu es-tava. Era meio rechonchuda, seios enormes, devia ter uns 40 e tantos anos, mas tinha formas que ficavam bem marcadas no conjunto de saia e blazer. Os cabelos eram curtos e penteados, e eu seria capaz de apostar que ela lavava a meia-calça todas as noites e sempre usava sutiã de alças.

Ela me cumprimentou, sorriu e, com um leve sotaque de Québec, se apresentou:

– Sou a cabo Bouchard. É um prazer finalmente conhecer você, Annie.

Sentaram diante de mim. Os olhos do sargento se desviaram para a porta, onde o oficial velhote brigava com uma terceira cadeira.

– Pode deixar com a gente – disse Kincade. Jablonski parou no bat-ente da porta, segurando a cadeira. – Mas um café seria bem-vindo.

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Kincade voltou a olhar para mim. Arrisquei um sorriso, meu primeiro meio sorriso desde a morte da minha filha.

Eles haviam me chamado pelo meu primeiro nome, como se fôsse-mos íntimos, mas não tinham dito o primeiro nome deles.

– Vocês poderiam me apresentar seus cartões? – pedi. Os dois tro-caram um olhar. O sujeito olhou nos meus olhos por um segundo e então empurrou um cartão sobre a mesa. Ela fez o mesmo. O primeiro nome dele era Gary; o dela, Diane. Gary falou primeiro.

– Então, Annie, como eu disse, nós dois pertencemos à Unidade de Crimes Hediondos de Clayton Falls, e sou o investigador responsável pelo seu caso. – A informação nada acrescentava para mim.

– O senhor não parece ser de Clayton Falls – comentei.

Uma sobrancelha se ergueu.

– Não?

Como não respondi, ele disse:

– Um médico já está a caminho. Ele vai precisar...

– Eu não preciso de um médico.

Nós nos encaramos por alguns instantes. Ele então deu início a uma série de perguntas genéricas, como data de nascimento, endereço res-idencial, emprego, coisas desse tipo. A tensão sobre meus ombros diminuiu.

Começou a falar sobre o dia em que fui sequestrada, e então parou.

– Você se importa se voltarmos a ligar a câmera, Annie?

– Me importo, sim, Gary. – O modo como ele falava meu nome me fazia lembrar do Maníaco. – E também não quero ninguém atrás daquele espelho.

– Não quero aborrecer você. – Baixando o queixo e inclinando a cabeça para o lado, ele me fitou com olhos cujo tom era cinza-azulado. – Mas isso facilitaria muito meu trabalho, Annie.

Bela manipulação. Mas, considerando que eu havia feito o trabalho dele, pois tinha conseguido minha própria libertação, não queria ajudá-lo ainda mais. Os dois continuavam calados, aguardando meu consentimento. Porém fiquei de boca fechada.

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– Annie, o que você estava fazendo no dia quatro de agosto do ano passado?

Eu já não me lembrava da data em que tinha sido sequestrada.

– Não sei, Gary. Se você está se referindo ao dia em que desapareci, eu estava num plantão de vendas, era domingo, o primeiro fim de se-mana do mês. Acho que a partir daí você vai ter que tirar suas próprias conclusões.

– Você prefere que eu não a chame pelo primeiro nome?

Pega de surpresa por aquele tom de voz respeitoso, examinei sua expressão facial em busca de indícios de que ele estava sendo irônico. Mas só encontrei sinceridade, o que me fez pensar se aquilo seria um truque para conquistar minha confiança ou se ele realmente falava sério.

– Tudo bem – disse eu.

– Qual o segundo nome da sua mãe, Annie?

– Ela não tem segundo nome. – Inclinando-me sobre a mesa, eu disse num sussurro exagerado: – Já passei na prova?

A necessidade de identificação era compreensível, mas... que merda!... eles tinham fotos e, com toda a certeza, meu aspecto não era de uma garota que tinha acabado de ter um ano maravilhoso. Eu era só pele e ossos, com os cabelos ralos e um vestido todo encardido.

Por fim, ele passou a fazer perguntas diretas sobre o que havia ocor-rido comigo. Eu disse que o Maníaco tinha me sequestrado durante o plantão. Mencionei o nome verdadeiro dele. Ao menos, o nome que ele havia me dito. Eu ia acrescentar novas explicações, mas Gary me interrompeu.

– Onde está ele agora?

– Está morto. – Os dois oficiais me olharam com atenção, mas eu não faria novas revelações antes que eles respondessem algumas das minhas perguntas.

– Onde está minha família?

– Telefonamos para sua mãe. Ela vai estar aqui amanhã – re-spondeu Gary.

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Fiquei com lágrimas nos olhos diante da ideia de rever minha mãe. Encarei então a mochila e contei os fios do tecido. Mas por que ela não estava ali agora? Já fazia horas que eu tinha entrado naquela espe-lunca. Quanto tempo demorava para chegar ali de carro? A dupla à minha frente não havia demorado muito.

– Eu quero saber onde estou.

– Desculpe – disse Gary. – Achei que você soubesse que estamos em Port Northfield.

– Você pode me mostrar no mapa?

Gary fez um sinal de assentimento para Diane, que saiu da sala. Quando ela voltou com o mapa, ele apontou um vilarejo a noroeste de Clayton Falls, na costa oeste de Vancouver Island. As estradas para as cidades menores costumavam ser ruins e era preciso dirigir devagar. Calculei que a viagem até Clayton Falls demorasse ao menos quatro horas.

– Como foi que vocês chegaram aqui tão depressa?

– Helicóptero – respondeu Gary. A visão da chegada do helicóptero deve ter deixado a cidade em polvorosa.

Então eu estava certa. Meu cativeiro não ficava muito longe da minha cidade. Olhei para o dedo de Gary apoiado sobre o ponto preto correspondente a Port Northfield e lutei para conter as lágrimas.

– Como foi que você chegou aqui? – perguntou Gary.

– De carro.

– De onde você veio? – ele perguntou, batendo com os dedos no tampo da mesa.

– De um chalé, na montanha.

– Quanto tempo levou para chegar até aqui?

– Mais ou menos uma hora.

Ele fez que sim e apontou uma montanha no mapa, perto do ponto que indicava o vilarejo.

– Seria aqui? Em Green Mountain? – Alguém sem muita imagin-ação tinha batizado o lugar: Montanha Verde.

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– Não sei. Eu estava na própria montanha. Eu não estava olhando para ela do alto.

Ele pediu a Diane que conseguisse um mapa do vilarejo. Gary e eu ficamos sentados, um diante do outro, até que ela retornasse. O único ruído era o do pé dele batendo no chão, embaixo da mesa. Quando ela voltou, Gary me entregou uma caneta e pediu que eu traçasse a rota por onde tinha passado. Tentei desenhar o percurso da melhor maneira possível.

– Você seria capaz de nos levar até lá?

– Não volto lá de jeito nenhum. – Eu ainda estava com as chaves do carro na mão e as empurrei sobre a mesa, na direção de Gary. – A van está estacionada do outro lado da rua.

Ele pediu a Diane que fosse lá fora, levando as chaves. Ela deve tê-las entregado a alguém, pois voltou em questão de segundos. Algo per-turbava minha mente. Se eu estava a apenas quatro horas de distân-cia, minha mãe poderia ter saído logo e chegado a Port Northfield naquela noite.

– Por que minha mãe vai demorar tanto para chegar aqui?

– Seu padrasto vai trabalhar hoje à noite e eles só podem vir aman-hã de manhã. – Gary deu a informação como algo factual, mas eu fiquei me perguntando por que minha mãe não teria vindo sozinha. E mais: desde quando Wayne trabalhava à noite? Já era algo difícil ele ter um emprego! Concluí que Gary teria pedido que só viessem no dia seguinte, para poder me interrogar sem a presença deles.

Gary pediu licença e me deixou durante alguns minutos a sós com Diane. Fixei os olhos na parede, num ponto acima da cabeça da policial.

– Sua mãe vai chegar logo. Ela ficou tão feliz em saber que você havia sido encontrada! Ela sentiu muito sua falta.

Eu não fui encontrada. Eu os tinha encontrado.

Quando voltou, Gary disse que tinha dado ordens de busca ao chalé. Um dos policiais costumava caçar naquela região e achava que con-seguiria reconhecer o local. Eu ainda não tinha dito que havia matado

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o Maníaco, tampouco havia falado sobre minha filha. Quando pensei na quantidade de perguntas que eles me fariam, minha cabeça começou a doer. Eu precisava ficar longe daquela gente.

– Não quero responder a mais nenhuma pergunta.

Gary parecia querer insistir, mas Diane sugeriu:

– Que tal dormirmos uma boa noite de sono e recomeçarmos de manhã? Tudo bem, Annie?

– Sim, claro.

 

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Reservaram um quarto num hotel para mim e ocuparam quartos contíguos, um de cada lado. Diane perguntou se eu gostaria que ela fi-casse no meu quarto, mas logo descartei a possibilidade: não estava disposta a conversinhas íntimas no meio da noite. Perguntou também se eu queria comer alguma coisa, mas meu estômago estava embrul-hado e declinei com educação. Não senti vontade de ligar a TV, e não havia telefone no quarto. Portanto, fiquei deitada na cama, olhando para o teto até escurecer, e então apaguei a luz. Quando estava prestes a pegar no sono, eu me senti oprimida pelo peso da escuridão, e ouvi ruídos: uma porta rangendo, uma janela se abrindo? Pulei da cama, mas, quando acendi as luzes, não vi nada. Peguei um travesseiro, um cobertor, a mochila e me enfiei no closet, onde dormi um sono agit-ado, até escutar a camareira empurrando um carrinho pelo corredor na manhã seguinte.

Minutos depois, Diane bateu à minha porta, com um olhar anim-ado, os cabelos presos num rabo de cavalo, trazendo café e um muffin. Sentou na beira da cama falando alto, perturbando minha cabeça, en-quanto eu tentava comer o bolinho aos pedaços. Não queria tomar banho enquanto ela estivesse no quarto, então lavei o rosto e dei duas escovadas no cabelo.

Ela me levou de volta à saleta de concreto da delegacia, onde Gary já estava sentado com uma bandeja de café servido em copos de isopor.

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Enquanto Diane e eu nos acomodávamos, uma policial jovem e bonita trouxe blocos de papel, enrubescendo e olhando de lado para Gary no momento em que lhe entregou o material. Ele olhou para ela ao agradecer e então se concentrou em mim. Quando ela saiu da sala, sua decepção era visível. Gary usava outro elegante terno azul-marinho com riscas de giz e uma camisa cinza-azulada que realçava os cabelos ligeiramente grisalhos. Eu me perguntei se ele não teria escolhido a camisa propositadamente.

Ao me ver arregalar os olhos na direção do espelho, Gary disse:

– Não há ninguém ali, e só vamos ligar a câmera se você permitir.

Querendo enxergar através do vidro, encarei o espelho e abracei a mochila.

– Você vai se sentir mais segura se der uma olhada do outro lado?

Fiquei surpresa com a proposta. Examinei o rosto do oficial e con-cluí que ele falava a verdade e que, portanto, a verificação não fazia sentido. Balancei a cabeça.

Ele começou pedindo que eu descrevesse o mais detalhadamente possível como o Maníaco havia me sequestrado. Sempre que fazia uma pergunta, ele se inclinava para trás na cadeira, as mãos espalma-das sobre o tampo da mesa. Enquanto eu respondia, ele se inclinava para a frente, com os braços apoiados sobre a mesa e a cabeça enviesada.

Tentei descobrir o padrão das perguntas, mas era impossível prever as direções que ele tomava. Era difícil até entender a relevância de al-gumas indagações. Suados, meus cabelos colavam na nuca.

Relatar o ocorrido naquele dia e descrever o Maníaco me deixou de boca seca e fez meu coração saltar dentro do peito, mas mantive o autocontrole até o momento em que Gary me disse que os tiras que in-vestigaram a “cena do crime” tinham encontrado o corpo do Maníaco.

– Parece que ele foi atingido por um golpe na cabeça. Foi assim que ele morreu, Annie?

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Corri os olhos de um para outro, querendo ler a mente dos dois. O tom de voz de Gary não era acusador, mas a tensão na sala tinha aumentado.

Eu não havia sequer imaginado o que as pessoas que não viven-ciaram minha experiência pensariam sobre minhas escolhas e ações. A sala estava quente, e o perfume de Diane inundava o pequeno recinto. Eu me perguntei como Gary se sentiria se eu vomitasse em cima daquele belo terno. Ergui o rosto e olhei dentro dos seus olhos.

– Eu o matei.

– É meu dever adverti-la de que, a partir de agora, você não precisa dizer mais nada – disse Gary –, e que qualquer declaração poderá ser usada em juízo como prova contra você. Você tem direito a um ad-vogado durante o interrogatório. Se não tiver condições financeiras para contratar um, podemos fornecer alguns números de telefone, para aconselhamento jurídico. Fui claro?

As palavras pareciam rotineiras, e eu não achava que estava numa enrascada, mas pensei na possibilidade de solicitar um advogado. Contudo, a ideia de alongar o processo e falar com mais um sujeito de terno me causava dor de cabeça.

– Sim.

– Você não quer um advogado? – perguntou ele casualmente, mas eu tinha certeza de que ele não queria que eu fizesse a solicitação.

– Não.

Gary fez uma anotação.

– Como você o matou?

– Com um golpe de machado, na nuca.

Juro que minha voz ecoou e, embora estivesse quente como o in-ferno, senti um forte calafrio. Gary cravou os olhos em mim, como se quisesse ler meus pensamentos, e eu me ocupei em rasgar o copo de isopor em pedacinhos.

– Ele a atacou naquele momento?

– Não.

– Por que você o matou, Annie?

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Ergui o rosto e olhei-o nos olhos. Que pergunta mais imbecil!

– Talvez porque ele me sequestrou, me espancou, me estuprou quase todas as noites e... – Eu me calei, antes de mencionar a criança.

– Você se sentiria mais à vontade falando com a cabo Bouchard? – O semblante de Gary ficou sério enquanto ele aguardava minha resposta.

Encarando os dois, tive vontade de esfregar na cara de Diane o ar de pena que ela aparentava. Eu sabia que era preferível lidar com a abor-dagem direta de Gary a continuar a ser alvo daquele olhar compassivo.

Sacudi a cabeça, e Gary fez mais uma anotação. Em seguida, inclinou-se tanto sobre a mesa que pude sentir um perfume de canela no seu hálito.

– Quando você o matou?

O tom de voz era calmo, mas não gentil.

– Poucos dias atrás.

– Por que você não foi embora imediatamente?

– Eu não pude.

– Por que não? Você estava presa?

Os dedos de Gary tamborilavam no tampo da mesa e a cabeça se in-clinou para o lado.

– Não foi isso que eu quis dizer.

Minha vontade era de levantar e sair porta afora, mas a firmeza da voz dele me mantinha grudada na cadeira.

– Então, por que você não pôde ir embora?

– Eu estava procurando uma coisa.

A bile subiu à garganta.

– O quê?

Meu corpo ficou ainda mais frio, e a silhueta de Gary se tornou em-baçada diante dos meus olhos.

– Encontramos um cesto – disse ele. – E roupas de bebê.

O velho ventilador de teto rangia enquanto girava e, por um in-stante, me perguntei se não cairia na minha cabeça. Não havia janela na sala, e eu não tinha como respirar um pouco de ar puro.

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– Existe um bebê, Annie?

Minha cabeça latejava. Eu não queria chorar.

– Existe um bebê, Annie?

Gary não calava a porra da boca.

– Não.

– Existiu um bebê, Annie?

A voz agora era gentil.

– Sim.

– Onde está o bebê agora?

– Ela... minha bebê... morreu.

– Sinto muito, Annie. – O tom de voz ainda era gentil e baixo. Ele parecia sincero. – Isso é terrível. Como sua bebê morreu?

Foi a primeira pessoa a expressar condolências. A primeira pessoa a lamentar a morte da minha filha. Olhei para os pedaços de isopor na mesa. Alguém respondeu, mas não achei que fosse eu.

– Ele... não sei.

Eu me agarrei à calma na voz de Gary no momento em que ele disse, delicadamente:

– Onde está o corpo dela, Annie?

Uma voz estranha respondeu:

– Quando acordei, ele tinha levado a bebê. Estava morta. Não sei para onde ele levou minha filha. Não me disse. Procurei por todo lado. Todo lado. Vocês precisam procurar, está bem? Por favor, encontrem minha bebê, por favor... – Minha voz falhou, e eu me calei.

Os ombros de Gary se contraíram, as faces ficaram vermelhas sob a pele bronzeada, os maxilares se retesaram e as mãos, apoiadas sobre a mesa, cerraram-se, como se ele quisesse socar alguém. De início, pen-sei que estivesse zangado comigo, mas logo percebi que a fúria era dir-ecionada ao Maníaco. Os olhos de Diane brilhavam à luz fluorescente. As paredes pareciam se fechar. Meu corpo estava encharcado de suor. Soluços tentavam escapar da minha garganta, mas, como eu não con-seguia respirar, ficavam trancados, me sufocando. Quando tentei ficar

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de pé, a sala adernou. Derrubei a mochila no chão e me agarrei ao es-paldar da cadeira, que começou a escorregar. Meus ouvidos zuniam.

Diane correu para me amparar e me deitou lentamente no chão, segurando-me por trás. Quanto mais eu tentava injetar ar nos pul-mões, mais a garganta se fechava. Eu ia morrer ali, naquele chão frio.

Chorando e com ânsia de vômito, empurrei as mãos de Diane e ten-tei me livrar dela, porém quanto mais eu lutava, com mais força ela me segurava. Ouvi gritos e percebi que eram meus. Não consegui parar de gritar, e eles reverberavam nas paredes e ecoavam dentro da minha cabeça.

O café e o muffin voaram por cima de nós duas. Mas ela não me soltou. Minha cabeça permanecia apoiada naqueles seios enormes, que cheiravam a cookies de baunilha. Gary agachou-se diante de nós, dizendo algo que eu não conseguia entender. Enquanto Diane me sacudia de um lado para outro, eu me esforçava para readquirir o con-trole, mas minha mente e meu corpo não ajudavam. Fiquei estirada no chão, soluçando e gritando.

Os gritos finalmente pararam, mas eu sentia muito frio, e as vozes pareciam distantes. Diane murmurou:

– Está tudo bem, Annie... você está segura agora.

Que besteira. Eu queria dizer a ela que nunca mais as coisas estari-am bem, que eu jamais me sentiria segura, mas, quando tentava artic-ular as palavras, meus lábios se congelavam. Então vi dois pés à minha frente, ao lado da figura de Gary. Uma voz disse:

– Ela está com falta de ar. Annie, sou o Dr. Berger. Tente respirar lentamente. – Mas eu não conseguia. E depois disso não me lembro de mais nada.