Identidade roubada
Q U a R T a S e S S Ã o
QUARTA SESSÃO
Como foi o Natal, doutora? Espero que Papai Noel tenha trazido um bom presente. Lidar toda semana com uma pirada como eu deve garantir um lugar cativo na lista dele. Eu? Apesar de evitar qualquer tipo de comemoração, a coisa veio bater à minha porta. Lit-eralmente. Um grupo de escoteiros apareceu vendendo árvores de Natal e – talvez inspirada pela guirlanda no seu consultório ou pela coragem deles, ao bater na única porta sem qualquer enfeite de Natal – acabei comprando uma árvore. Sempre tive uma queda por rapazin-hos de uniforme.
O problema é que minha mãe tinha se desfeito de todos os meus en-feites natalinos, e cada vez que eu pensava em ir até uma loja... mesmo que as pessoas não olhassem mais para mim como se eu tivesse um elfo pendurado no pescoço... eu achava que seria preferível dançar de-scalça sobre cacos de bolas de Natal a ir às compras nesta época do ano. Fiquei tão cansada de olhar a droga da árvore pelada, no canto da sala, que acabei levando-a até o abrigo dos sem-teto no centro da cid-ade. Achei que alguém iria curtir a árvore.
Que droga! Não haveria presente algum embaixo daquela árvore. Eu disse aos meus amigos e à família que não queria presente, e não fui a nenhuma festa de Natal. Com isso fiz um bem à população. Eu não precisava deixar ninguém deprimido. Em comparação com o ano passado, as festas este ano foram um tremendo sucesso.
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Na manhã seguinte ao dia em que tentou me estuprar, o Maníaco me obrigou a ir para debaixo do chuveiro com ele. Então me banhou
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como uma criança, sem se esquecer de um único centímetro do meu corpo. E depois me obrigou a fazer o mesmo com ele... o corpo inteiro.
Eu tinha que ficar de frente para a parede enquanto ele se raspava. Como eu queria aquela navalha! Eu queria cortar o pau dele fora. Daquela vez, ele não me raspou.
– Raspar é só na hora do banho de banheira – disse ele. Depois que saímos, ele me trouxe algumas roupas.
– O que você fez com meu tailleur?
– Não se preocupe. Nunca mais você vai precisar ir à imobiliária.
Sorriu. A roupa do dia era mais uma vez calcinha sexy, branco nup-cial, e um vestido leve, estampado com pequenos corações rosa sobre um fundo creme. Um vestido que eu jamais usaria... fofo e bonitinho demais para meu gosto. Depois de me dar um par de sandálias, ele me fez sentar na banqueta, enquanto preparava o café da manhã: mingau com amoras secas. Enquanto eu comia, sentou diante de mim e ex-plicou todas as regras. Antes de tudo, fez questão de me mostrar que eu estava ferrada.
– Estamos a quilômetros de distância de qualquer ser humano. Você não sobreviveria lá fora mais do que alguns dias. Se estiver pre-ocupada com nossa sobrevivência, não há motivo. Tomei todas as me-didas necessárias. Vamos viver da terra, e você só vai ter que ficar soz-inha quando eu sair para caçar, ou para ir à cidade comprar manti-mentos. – Eu me animei... “ir à cidade” implicava um veículo.
– Você nunca vai conseguir encontrar o carro e, mesmo que en-contre, não vai conseguir dar a partida.
– Quanto tempo você pretende me deixar aqui? Em algum mo-mento vai precisar de dinheiro. – O sorriso dele se alargou. – Eu não mereço isso, minha família não merece. Diga o que eu preciso fazer para você me soltar. Eu faço... juro... seja lá o que for.
– Já entrei no jogo de muita mulher antes e sempre me dei mal. Então não vou repetir o erro.
– O cheiro de perfume no carro, no cobertor... tem alguma outra mulher? Você...
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– Você não percebe a dádiva fantástica? Isto aqui é sua redenção, Annie.
– Não percebo nada. Nada faz o menor sentido. Por que você está fazendo isso comigo?
Ele deu de ombros.
– Surgiu uma oportunidade e você estava disponível. Às vezes, coisas boas acontecem com pessoas boas.
– Isso não é uma coisa boa. Isso está errado. – Arregalei os olhos. – Você não pode me afastar de tudo o que...
– Do que exatamente eu afastei você? Do seu namorado? Nós já falamos sobre ele. Da sua mãe? Em geral, acho as pessoas muito chatas, mas... vocês duas almoçando juntas... as pessoas revelam muita coisa por meio da linguagem corporal. A sua única relação sin-cera é com sua cadela.
– Eu tenho uma vida.
– Não, você tinha apenas uma existência. Mas estou lhe dando uma segunda chance e sugiro que você preste bem atenção... não haverá uma terceira. Todas as manhãs, depois do café, será a hora dos exercí-cios. Depois, do banho. Hoje o banho foi antes do café, mas a pro-gramação jamais será alterada no futuro.
Foi até o armário e destrancou a porta.
– Eu escolho suas roupas todos os dias.
Mostrou alguns vestidos, em estilo semelhante ao que eu estava usando: um estampado de corações azul-marinho sobre um fundo azul-claro, outro liso, num tom rosa pálido. Minha aversão ao rosa se tornava cada vez mais intensa. Pilhas do que parecia ser o mesmo modelo de vestido, em várias cores, entupiam a prateleira superior. Ele enfiou o braço no fundo da prateleira e puxou um casaquinho de lã lilás.
– Os invernos são frios aqui na montanha.
Diversos conjuntos do mesmo tipo de roupa que ele estava usando, camisa e calça bege, forravam a prateleira inferior. E mais para o lado
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vi alguns suéteres, bege também. Ele percebeu a direção do meu olhar e disse sorrindo:
– Não preciso de muitas cores, tendo você. Depois que estiver vestida, vou sair para cumprir minha rotina de trabalho... sua rotina é aqui dentro. Você lava a louça, faz a cama e cuida da roupa. – Pegou um prato no armário e bateu contra a bancada. – Incrível, não? Feito pelo mesmo fabricante do copo. – Em seguida, segurou uma panela pelo cabo e fez um movimento, como um taco de beisebol. – Leve como uma pluma, e sem nenhuma emenda. Não sei como conseguem fazer isso.
Sacudiu a cabeça.
– Eu é que limpo as bancadas.
Abriu o armário embaixo da pia e mostrou o frasco de um produto de limpeza. Notei que era biodegradável, mas não reconheci a marca.
– O detergente vai ficar sempre trancado, e você não tem permissão para mexer com água quente, nem com qualquer utensílio que eu con-sidere perigoso. Depois que acabar a limpeza, você deve cuidar da sua higiene pessoal. Suas unhas, que agora estão horríveis, vão ter que ficar perfeitas. Eu mesmo vou lixá-las. Seus pés devem estar sempre macios, as unhas pintadas. Mulher deve ter cabelo comprido. Por isso, vou massagear seus cabelos com condicionador, para crescerem mais rápido. Você não vai usar nenhum tipo de maquiagem. Nosso dia começa às sete da manhã e o almoço é ao meio-dia em ponto. As tardes serão dedicadas à leitura dos livros que eu indicar. Às cinco da tarde, eu inspeciono seu trabalho. O jantar é servido às sete da noite e, em seguida, você lava a louça, as panelas e depois lê para mim. Após a leitura, eu lhe darei um banho. As luzes serão apagadas às dez.
Mostrou um pequeno relógio com cronômetro, pendurado por uma corrente, que ele guardava no bolso. Não havia outros no chalé, de maneira que eu só poderia saber a hora se ele dissesse.
– Você terá permissão de ir ao banheiro quatro vezes por dia. Esses momentos serão vigiados, e a porta deverá ficar aberta. Falando
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nisso... – ele consultou o relógio –, está na hora da sua primeira visita ao banheiro.
Dei uma volta pela cozinha, mantendo a maior distância possível entre mim e ele.
– Annie, não se esqueça de deixar a porta aberta.
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Passados alguns dias, num momento em que ele estava fora, resolvi correr até o banheiro e fazer xixi. Ele voltou quando eu tinha acabado de dar descarga, e a água ainda escorria. Fiquei ao lado da cama, fin-gindo arrumar o lençol. Achei que ele não escutaria o barulho da descarga, mas, quando abriu a torneira da cozinha para encher um copo, ele levantou a cabeça e foi até o banheiro. Em questão de segun-dos, avançou sobre mim, com o rosto vermelho e os lábios contorcidos num rosnado. Encolhi-me num canto e tentei driblá-lo, mas ele me agarrou pelos cabelos.
O Maníaco me arrastou até o banheiro e me obrigou a ajoelhar di-ante do vaso. Então levantou a tampa e enfiou minha cabeça lá dentro, batendo com minha testa no assento. Ainda agarrado aos meus ca-belos, puxou minha cabeça para trás e, com a mão livre, encheu o copo com a água do vaso. Agachou-se atrás de mim, forçou minha cabeça para trás e levou o copo à minha boca.
Esperneei na tentativa de desviar a cabeça, mas ele pressionou o copo sobre meus lábios com tanta força que pensei que fosse quebrá-lo. A água entrou pela boca e pelo nariz. Antes que eu pudesse cuspir, ele tampou minha boca com a mão e fui obrigada a engolir.
Depois, fui forçada a escovar os dentes 20 vezes, enquanto ele próprio contava em voz alta, e então abriu minha boca para inspecion-ar. Em seguida, tive que fazer 10 gargarejos com água morna e sal. Finalmente, com água e sabão, ele esfregou tanto meus lábios que pensei que duas camadas de pele tinham sido arrancadas. Nunca mais fiz aquilo.
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Parece que jamais vou me livrar dessas regras malucas, doutora. Elas são malucas de verdade. E não adianta eu saber que é tudo be-steira. Elas estão trancadas dentro de mim, e eu fico do lado de fora. Além das regras do cara, minha mente acrescentou algumas outras... Cada mania que eu tinha antes foi intensificada 20 vezes e hoje eu também sou meio louca.
Faço sempre o mesmo caminho para chegar aqui e paro no mesmo café. No consultório, penduro o casaco no mesmo gancho e me sento no mesmo lugar. Você precisa ver minha rotina antes de ir deitar: portas trancadas, persianas baixadas, janelas travadas. Depois, tomo banho e raspo as pernas... primeiro a esquerda, depois a direita, as ax-ilas por último.
Quando acabo, passo hidratante no corpo inteiro e, antes de ir para a cama, confiro mais uma vez portas e janelas, coloco latas atrás da porta da rua e verifico novamente se o alarme está acionado... as latas são para o caso de o alarme falhar. Depois de tudo isso, vejo se a faca está embaixo da cama e se o spray de pimenta está na mesa de cabeceira.
Muitas noites, quando tento dormir na minha cama, fico deitada prestando atenção ao menor ruído. Então, me arrasto até o closet, le-vando comigo um cobertor... eu me arrasto porque alguém pode estar olhando pela janela. Daí, me cubro até a cabeça.
Na sessão passada, você disse que é provável que minha rotina es-teja me dando uma sensação de segurança... e, sim, já notei que de vez em quando você diz “Vale a pena pensar nisso” ou “Você já pensou em...”. Enquanto não começar a fazer um monte de perguntas, tudo bem. Mas, juro por Deus, se você perguntar como estou me sentindo, vai ficar falando com as paredes, pois eu me mando daqui para sempre.
Então, essa coisa da rotina? De início, achei que você estava redon-damente enganada, mas tenho pensado nisso, e acho que meu ritual
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na hora de dormir me faz sentir segura... o que é no mínimo irônico, pois durante todo aquele tempo que fiquei lá eu nunca tive segurança. Aquilo era como uma montanha-russa no inferno, pilotada pelo diabo, mas a rotina era a única coisa com a qual eu podia contar.
Todo dia eu me esforço para avançar um pouco, e tem coisas que são mais fáceis de esquecer... mas tem cada merda! Não tem jeito. Na noite passada, bebi quase um litro de chá e passei pelo menos uma hora no vaso sanitário tentando fazer xixi fora do horário. Quase fiz umas gotinhas... senti um momento do tipo “Ah! Meu Deus! Vou con-seguir mijar”, mas aí minha bexiga trancou. A experiência resultou em nada, a não ser numa noite em claro.
Por hoje chega. Preciso ir para casa, pois está na hora de fazer xixi. E não, não quero usar o seu banheiro. Eu ficaria lá dentro sentada, pensando em você aqui fora se perguntando se eu estava conseguindo mijar. Não, obrigada.