Memória da Água
Capítulo Sete
Era de manhã bem cedo, no oitavo dia do oitavo mês, quando levamos a mala e as bolsas de algas da minha mãe para o helicarro que meu pai pegou emprestado de Jukara em troca de um pouco de água fresca. Meus pais sentaram nos assentos dianteiros e eu me sentei na parte de trás do veículo, cujo teto me cobria apenas parcialmente, e nos dirigimos para Kuoloyarvi.
O cheiro do helicarro de Jukara disparava em mim uma estranha sensação de recorrência. Eu me sentia muito mais jovem. Era como se estivéssemos numa das raras ocasiões, num daqueles dias maravilhosos, em que meus pais me levavam para a cidade. Ao ver a mancha azul-arroxeada no tecido grosseiro e gasto do assento, me lembrei do dia em que derramei sorvete de mirtilo ali, em uma das nossas viagens de volta, quando tinha apenas 11 anos. Meus pais ficaram chateados. Eu tinha esfregado o tecido até me dar por vencida e aceitar que ele nunca mais ficaria como antes.
Por um momento, me senti como uma caixa qianesa de várias camadas, ou como uma daquelas bonecas de madeira ocas do mundo antigo, que encaixavam uma dentro da outra. Uma jovem versão minha — ou talvez várias delas — descansava abaixo da minha pele. E essa versão balançava as perninhas que nem sequer alcançavam o chão, sem imaginar que um dia seus pais não estariam mais ao alcance das mãos. Se um pensamento como esse sequer tivesse chegado a cruzar minha mente na época, teria sido imediatamente descartado.
A viagem até Kuoloyarvi durava mais ou menos três horas. Conforme nos aproximávamos do mar, a paisagem ia mudando lentamente e, uma vez que o vilarejo e a montanha Alvinvaara ficaram para trás, passamos por florestas e áreas alagadas que, à nossa esquerda, se alongavam em verde-escuro até o horizonte. Essa sempre foi minha parte favorita da viagem rumo à cidade. Quando era criança, sonhava em conduzir o helicarro para dentro da mata, passando embaixo daquelas árvores altas, com sombras frescas que ofereciam abrigo do sol inclemente. Mas muito cedo aprendi que isso era impossível: as florestas eram fiscalizadas e fechadas para civis, assim como as plantações de alimentos e alguns poucos lagos que restavam.
Mais tarde na viagem, quando já se podia distinguir as luzes brilhantes e ondulantes de Kuoloyarvi, com suas construções de formato abobadado e painéis solares que se assomavam logo à frente, vi as usinas de dessalinização da água no horizonte, quase no limite do mar. Elas eram fortes, sólidas, enormes, como uma fileira de antigos gigantes de pedra. A segurança no entorno dessas usinas era notória. Até mesmo as estradas que levavam para lá eram vigiadas, e eu tinha ouvido histórias de viajantes presos só por andar muito próximos dali.
Chegamos à fronteira da cidade ainda de manhã. Percebi de longe que havia mais soldados que o normal. Em geral, os portões só tinham guardas para manter as aparências, e nem todos os viajantes eram parados. Dessa vez, porém, havia uma longa fila de helicarros se arrastando lentamente para a cidade e, ao lado, duas outras filas um pouco mais rápidas para quem estava chegando a pé. Tomamos nosso lugar ao final da fila de helicarros. Quando chegamos ao portão, o guarda de uniforme azul nos parou.
— Por que querem entrar na cidade? — perguntou.
— Estou a caminho de Xinjing — respondeu minha mãe. — Minha família está me levando até a estação de trem.
— Vai a Xinjing? A senhora está a serviço do estado?
— Sim, aceitei um emprego na Universidade de Xinjing.
— Posso ver sua passagem, pass-pod e a carta que comprova sua ligação com a universidade?
Ela pegou na bolsa o message-pod de segunda mão que tinha recebido da universidade. Posicionou o dedo no equipamento para ativar o pass-pod. A tela se iluminou. Uma foto e as informações, incluindo a reserva da passagem, apareceram. Ela entregou o message-pod para o guarda, que o examinou. E também deu a ele a carta em papel enviada por Xinjing. O guarda pareceu impressionado ao ver papel de verdade em sua frente, mas não disse nada a respeito. Ele se voltou para o meu pai e para mim.
— E vocês, têm algum comprovante de identidade?
— Infelizmente, não — respondeu meu pai. — Nunca precisamos de um pass-pod para entrar na cidade. Existe alguma razão em particular para esse tipo de exigência agora?
— São ordens — respondeu o guarda, sem se alongar. — Posso tirar as digitais de vocês, por favor?
Ele entregou seu multi-pod para que pressionássemos os dedos no aparelho. Nossos nomes e alguns códigos apareceram, e meu pai devolveu o equipamento para o guarda, que, conforme percebi, escrevia alguma coisa na tela com uma pod-pen.
— Você e sua família podem ir em frente, mestre Kaitio — disse ele, depois de dar uma última e cuidadosa checada no pass-pod e na carta da minha mãe. O tom era mais de uma ordem do que de uma permissão. — Você e sua filha devem notificar os guardas quando deixarem a cidade — arrematou.
Meu pai assentiu, sem esboçar sequer um sorriso, e guiou o helicarro portões adentro.
Poucas vezes tivera oportunidade de ir a uma estação de trem. Kuoloyarvi não era uma cidade grande, e o maior fluxo de pessoas chegando à União Escandinávia vinha em navios que atracavam mais ao sul, nos portos de Ladoga Bay, no Mar Báltico. Havia apenas quatro plataformas de embarque. Um trem comprido estava parado em uma delas com as portas abertas. O nome Enguia Brilhante aparecia pintado na lateral da locomotiva em caracteres decorativos. Havia viajantes solitários, casais e famílias acomodando as bagagens e se despedindo. Ajudamos minha mãe a carregar a mala para dentro do compartimento. Ainda nos restava algum tempo antes de o trem partir, mas ela disse:
— Não fiquem aqui esperando. Mando uma mensagem para vocês quando chegar a New Piterburg.
A viagem de trem continuaria de New Piterburg para Ural e, de lá, atravessaria o Novo Qian até Xinjing. Pensei em todas as coisas que eu tinha abdicado de conhecer por ter escolhido não ir com minha mãe, coisas que só sabia que existiam por ter ouvido falar: áreas de cultivo de algas nas regiões costeiras, fábricas criadas para abastecê-las, plantações de árvores de borracha, fazendas de vaga-lumes, navios, salas de chá luxuosamente decoradas nas cidades e, abaixo da superfície, cidades fantasmas do passado, afogadas pelas águas e silenciadas.
Minha mãe me deu um beijo de despedida.
— Vou escrever — disse ela. — E falta apenas alguns meses para o Ano-Novo. Vou voltar para visitá-los.
Eu não sabia o que dizer, então simplesmente lhe dei um abraço demorado.
Quando finalmente nos soltamos, caminhei para fora do vagão e, pela janela, observei-a conversando com meu pai. Os lábios se mexiam e as expressões mudavam, mas o vidro grosso camuflava os sons, impedindo que eu distinguisse as palavras. Eles se abraçaram — eu não conseguia entender por que estavam se separando.
Virei-me de costas.
Um homem de rosto sombrio entrou na estação com uma grande mochila feita de algas pendurada no ombro.
Um grupo de soldados caminhava perto da entrada, as botas pesadas como pedras, as mãos repousando no cabo dos sabres.
Uma menininha de vestido azul de alça pulava corda e murmurava uma canção sem sentido. A mãe dela comia sementes de girassol tostadas e não tirava os olhos dela.
Até que, finalmente, meu pai desceu do trem.
— Vamos? — perguntou.
Olhei para minha mãe, que estava sentada no assento da janela, pálida, desbotada como as figuras gastas de livros antigos expostos ao sol. Ela manteve os olhos em mim enquanto nos afastávamos, e sei que continuou me observando mesmo quando eu já a tinha perdido de vista, tenho certeza. Se ela chegou a pensar em mudar de ideia, sair do trem e voltar para a casa do mestre do chá junto conosco, essa vontade não se concretizou.
* * *
Antes de recomeçarmos a viagem de volta para casa, paramos para fazer compras no mercado qianese. Assim que chegamos ao local, percebi que nosso destino era uma barraca em que uma mulher alta, de pele escura e ligeiramente corcunda vendia alguns itens. O nome dela era Iselda e eu conhecia seu rosto desde criança. Meu pai pediu que nos mostrasse seus chás de melhor qualidade. Ela colocou três sacos de pano na mesa e os abriu. Eu esperava que meu pai os examinasse, um a um, mas ele apenas fez um sinal para mim. Nunca em toda a minha vida eu tinha recebido permissão para escolher um tipo de chá sem a orientação do meu pai.
Peguei cada um dos sacos de pano na mão. As folhas do primeiro chá eram verde-escuras e alongadas e tinham um cheiro levemente adocicado. O segundo tinha um cor verde vibrante e as folhas tinham sido amarradas em ramos ao redor de botões, que se abririam em flores uma vez que a água quente fosse jogada sobre eles. O cheiro era fresco e leve — dava para imaginar que, combinado à água da nascente, produziria um aroma extraordinário. O verdor do terceiro chá era manchado de prateado e as folhas tinham o formato de gotas. O mais determinante, porém, foi seu aroma. O aroma do terceiro chá fluía . É a única palavra que me vem à cabeça para descrevê-lo. Era um aroma de chá recém-colhido, que também tinha um quê de terra úmida, de vento varrendo os arbustos, um aroma que deslizava como ondas leves na água, ou sombras: entrava forte nas narinas, mas, subitamente, parecia sumir, para retornar ainda mais gostoso no minuto seguinte.
— Este — afirmei, entregando o chá para o meu pai.
— Quanto custa? — perguntou ele.
Iselda respondeu, como era o costume no mercado de chá, o preço pela quantia de um liang. Quando ouvi o valor, achei que meu pai o recusaria. Mas sua expressão não sofreu abalo. Ele apenas ofereceu a Iselda um preço um pouco mais baixo. Já me preparava para uma sessão de barganha de horas, mas ela encarou meu pai por um momento e assentiu.
— Vamos levar metade de um liang — disse meu pai. — Deve ser o suficiente para a cerimônia de graduação.
Tirou um saco de tecido vazio da mochila, e Iselda colocou a medida requerida ali dentro. Também compramos alguns liang de chás mais baratos, para uso diário, e alguns temperos e comidas que não conseguíamos encontrar no vilarejo.
No caminho para casa, tentei não me fixar no assento vazio ao lado do meu pai no helicarro. Em vez disso, virei a cabeça para trás e dei uma última olhada em direção à cidade, à planície árida e à estreita faixa do mar no horizonte, radiantes na luz do fim da tarde, douradas como as costas de um dragão desaparecendo lentamente.
Depois que minha mãe foi embora, meu pai usou todo o seu tempo com a preparação da Festa da Lua. Ele contratou alguns homens do vilarejo para ajudar a restaurar a casa de chá e o jardim. Jan, o pai de Sanja, era um deles. Notei que Jan prestava especial atenção à madeira cara e aos poucos móveis que meu pai tinha conseguido comprar de cidades próximas. Jan era um pedreiro hábil, mas poucas vezes tinha oportunidade de trabalhar com matéria-prima de boa qualidade. Enquanto meu pai se mantinha ocupado supervisionando os reparos, limpar a casa e cuidar dos canteiros eram tarefas minhas. Os arbustos de amoras e as cerejeiras tinham sofrido com o tumulto causado pelas buscas na propriedade, e muitos dos vegetais tinham sido desenterrados pelos soldados. Porém, nem tudo havia se perdido, e eu me mantinha ocupada fazendo geleia de groselha, secando cerejas e ameixas para o inverno, estocando sementes de girassol e amaranto em sacos, colhendo amêndoas e arrancando cenouras da horta. Além disso, ainda tinha que encomendar tortas no padeiro, checar os cantis, pegar minha roupa de mestre do chá no alfaiate do vilarejo e treinar a cerimônia com meu pai uma vez por dia.
Meu pai parecia convencido a não falar comigo sobre a partida da minha mãe. No quinto dia depois de voltarmos, eu estava limpando a casa vigorosamente. Ele me viu carregar um balde d’água, uma escova e alguns panos de limpeza até a porta do escritório dela. Quando fiz menção de abrir a porta, ele disse:
— Não faça isso.
Virei a cabeça na direção dele, mas logo desviei o olhar, porque não queria ver a expressão em seu rosto.
— Deixe do jeito que está — falou.
— Se prefere assim.
Mas pensei comigo: as coisas não vão ser como eram. Não interessa o que você quer ou o que eu quero. A poeira vai acabar se acumulando nas prateleiras, as aranhas vão fazer teias nos cantos, as páginas dos livros vão ficar amareladas por baixo das capas. O vidro das janelas vai ceder um pouquinho a cada dia, como a chuva, mesmo que a gente não veja. As coisas vão ser diferentes: porque a luz não entra sempre pelo mesmo ângulo; porque o vento acaricia as árvores ora com força ora com delicadeza; porque o verde das folhas desbota enquanto uma formiga sobe pelo tronco. Mesmo que a gente não perceba de imediato, tudo isso está acontecendo. Se virarmos o rosto por muito tempo, não vamos mais reconhecer o cômodo quando decidirmos entrar nele de novo. A casa não é a mesma desde que ela se foi, e nós dois sabemos.
Minha mãe enviou mensagens ao longo da viagem. Havia um pouco de deslumbramento em seu tom.
Nunca tinha visto um porto tão grande na minha vida, ela escreveu de New Piterburg. Ele cresceu tanto nos últimos quinze anos. E você não acredita nas pessoas que viajam nesses trens! Ontem, sentei para jantar com uma família de cinco pessoas que tinha vindo dos Pirineus de barco e estava a caminho dos Urais. Juro que a única coisa que fez com que as crianças não tirassem o trem dos trilhos foi a presença dos soldados. Sempre pensando em vocês. Abraços, L.
Não tanto quanto pensamos em você, mãe, respondi para mim mesma. Você tem ao seu alcance todo um mundo novo que seus pés nunca tocaram; um mundo que não se desgasta em silêncio sob seus olhos. Tudo o que temos é essa casa e a falta que sentimos de você, e a tentativa de preservar sua presença, para sentir você por perto mais um pouco, para que ainda reconheça nossa casa como sua quando voltar. Se voltar.
Levantei cedo na manhã da celebração da Festa da Lua. A roupa de mestre do chá estava pendurada no lastro da cortina, em frente à fresta da janela por onde passava uma brisa que a fazia balançar. Ainda não era a hora de me trocar. Meu pai tinha me avisado no dia anterior que caminharíamos até a nascente antes do café da manhã, e imaginei que o propósito era pegar água para minha cerimônia de graduação, mas suspeitava que havia algo mais. Se não fosse o caso, ele não teria me pedido para acompanhá-lo. Coloquei uma roupa normal, vesti botas de caminhada e comi o mingau de milharina que meu pai tinha deixado para mim na mesa da cozinha. Enchi um pequeno cantil, pendurei-o no ombro e enfiei uns bolinhos de semente de girassol no bolso. Peguei o capuz antimosquito do cabide que ficava na entrada da casa e saí.
Encontrei meu pai remexendo no jardim de pedra. Os pedreiros e jardineiros que ele havia contratado tinham feito um trabalho surpreendentemente bom. Restavam apenas algumas poucas marcas que denunciavam que a grama fora corrompida. O jardim de pedras estava exatamente como antes, salvo pela falta da presença constante da areia, que tinha sido varrida.
A casa de chá fora a mais danificada. Parte do piso teve que ser substituído por um tipo diferente de madeira, e o contraste entre as tábuas novas e antigas era perceptível. Ainda assim, o chalé estava pronto e podia ser usado novamente. Lembrei a meu pai de que a imperfeição e a mudança faziam parte da arte do chá e que tinham, para essa arte, o mesmo valor que a perfeição e a permanência. Ele olhou fixamente para mim, e dava para notar que estava surpreso.
— Você vai ser uma mestre do chá melhor do que eu poderia ser daqui para a frente.
Ele se afastou do jardim de pedras e limpou as próprias pegadas. A areia se acumulava entre as pedras, como se o jardim fosse o fundo de um oceano sem água.
— Vamos — disse ele. — Temos um longo dia pela frente.
Meu pai se dirigiu à colina pelo mesmo caminho que trilhamos da primeira vez, quando me levou para conhecer a nascente. Mas já ao pé do morro, pouco antes de chegarmos ao jardim de pedras, viramos para uma direção diferente. Caminhamos um pouco até ele parar e apontar para algum lugar abaixo do declive. Era uma fenda dividida entre um sulco de pedras desgastadas e areia que se juntavam lá embaixo. As paredes de pedra estavam cobertas de líquen.
— Você sabe o que é isso? — perguntou ele.
Eu sabia, claro. Já tinha visto a fenda muitas vezes antes.
— Uma fenda criada por um córrego, agora seco — respondi. — Há décadas não corre água por aqui, e o líquen cresceu no topo das pedras.
— Você observa a paisagem com atenção. Mas ainda há algumas coisas para aprender. Talvez eu já devesse ter contado sobre a essência secreta do trabalho dos mestres do chá há muito tempo. Mas é costume não passar a sabedoria do mestre para o aprendiz antes que o aprendiz se torne o novo mestre. Quando a gente chegar à nascente, você vai entender do que estou falando.
Voltamos, e meu pai me perguntou se eu podia encontrar o caminho até a caverna com forma de cabeça de gato sozinha, sem ajuda. A rota era familiar para mim desde a infância, então achei com facilidade. Novamente, seguindo a orientação dele, tive que encontrar a alavanca escondida dentro da caverna, abrir o teto e entrar primeiro no túnel que levava à nascente. Ele veio em seguida e me entregou um dos lampiões, que já brilhava no escuro. Enquanto caminhávamos em direção ao barulho da nascente, percebi que havia umidade concentrada nas paredes do túnel.
Chegamos ao centro da caverna, onde a água jorrava em filamentos brilhantes da parede escura para o lago e, dali, para o coração da colina. Parei na margem do lago. Meu pai caminhou até o outro lado e colocou o lampião próximo da água. Percebi nas pedras algumas manchas pálidas das quais tinha uma vaga lembrança desde a primeira visita. Cerca de meio metro abaixo da superfície pulsante, uma robusta faixa de metal, coberta por uma camada de tinta branca já desgastada, adornava a pedra. O metal brilhava debilmente à meia-luz do lampião.
— Esta é a parte do trabalho do mestre do chá que permanece invisível para o resto das pessoas. Desde antigamente, os mestres do chá sempre foram observadores da água. Dizem que no mundo antigo cada mestre tinha uma nascente sob seus cuidados dentro da sua propriedade. As nascentes podem ter características diferentes: produzir água com efeito curativo, ser boas para a longevidade ou oferecer tranquilidade. As nascentes também fornecem águas com sabores diferentes. Antigamente, as pessoas viajavam grandes distâncias para apreciar um chá feito com água de uma determinada nascente. Era dever do mestre do chá assegurar que a água da sua nascente fosse sempre limpa e usada de forma correta. — O rosto do meu pai parecia dividido pela briga entre a luz do lampião e a escuridão da caverna. — Como você bem sabe, no nosso mundo quase todas as nascentes secaram, e as que não secaram foram tomadas pelos militares. É possível que existam nascentes secretas, como esta, em outros lugares, mas se existem, não conheço. Por isso, pode ser também que esta seja a última.
O peso das palavras do meu pai, e toda a responsabilidade imbuída no que acabara de dizer, se interpôs entre nós. Ele colocou o lampião bem perto da superfície da nascente e apontou para a água. Abaixo da superfície, perto do fundo do lago, dava para ver outra pedra pintada de branco, uma mancha quase invisível pela força da água.
— Consegue ver aquela marca? — perguntou.
Eu assenti.
— Se a superfície da água atingir um nível abaixo dessa marca, significa que muita água está sendo usada. A nascente precisará de descanso para renovar suas forças. É da responsabilidade do mestre do chá observar isso.
— Descansar quanto?
— Vários meses — respondeu meu pai. — Quanto mais, melhor. Não exigi muito desta nascente durante o tempo em que fui seu guardião. Mas, na época do meu pai, aconteceu duas vezes. Em ambas as ocasiões, ele deixou a nascente descansar por quase um ano antes de considerá-la completamente restabelecida.
— E a outra marca? — perguntei, apontando para o outro extremo da rocha, acima da superfície.
— É igualmente importante, para dizer o mínimo, e também requer um monitoramento constante — explicou meu pai. — Se a água subir mais do que esta marca, é preciso direcionar mais volume para o encanamento, e isso deve ser feito bem rápido, porque existe um grande perigo de a nascente subir demais e jorrar água para a fenda que vimos do lado de fora da caverna. Isso também nunca aconteceu comigo. Mas se não usássemos a água da fonte todos os meses, poderia ter acontecido.
— O que você quer dizer com bem rápido?
— Não sei exatamente, mas acho que levaria um mês ou dois para transbordar.
Agora eu conseguia entender por que ele vinha com tanta frequência à colina.
— Você precisa aprender a controlar os níveis da água e a usar corretamente o encanamento, Noria. Essa tarefa não será integralmente sua por enquanto, porque ainda vamos dividir a responsabilidade de mestres do chá do vilarejo por um tempo. Mas um dia isso tudo estará em suas mãos, por isso estou ensinando desde já.
Meu pai deu alguns passos em direção à parede da caverna. Quando levantou o lampião, percebi que uma das alavancas estava virada completamente para a esquerda. Ele fez um gesto para que eu me aproximasse.
— Esta alavanca controla o fluxo da água para o encanamento que usamos na casa. No momento, está fechada porque ainda temos um pouco da nossa cota mensal e a água da nascente não está especialmente abundante. Mas agora é um bom momento para abrir o encanamento, porque vamos precisar de água fresca para a sua cerimônia de graduação, e já passamos de meados deste mês. Então, você vai fazer isso.
Peguei a alavanca e girei o mecanismo totalmente para a direita. A água no lago se agitava como um animal indomável e, embora não fosse possível notar uma diferença clara no barulho produzido pela fonte, pensei distinguir um novo som que se conjugava ao da nascente.
— A água da colina vai fluir pelo encanamento para nossa casa até que o mecanismo seja fechado de novo. Normalmente, fecho depois de duas semanas e espero mais duas ou três para abrir outra vez. A coisa mais importante é vir aqui toda semana para checar o nível da água e controlar seu consumo. Na semana que vem, será a sua vez.
Meu pai encheu diretamente na nascente os dois cantis que tinha trazido, e cada um de nós se encarregou de levar um deles nas costas.
— O que aconteceria se a nascente secasse e não voltasse ao normal? Se simplesmente parasse de funcionar? — perguntei, depois de sairmos da caverna, quando caminhávamos de volta para casa.
— Viveríamos da cota de água regulamentar, como o resto das pessoas — respondeu meu pai. — Seria o suficiente para nós. O jardim sofreria um pouco, mas nós ficaríamos bem.
Ele ficou em silêncio por um momento. O sol se erguia quente em direção ao céu, ainda que meio apático pela chegada do outono. Desenrolei as mangas da camisa para que os insetos tivessem menos superfície para picar. Meu pai mantinha os olhos fixos no horizonte, e percebi que ele queria me dizer alguma coisa.
— Os mestres do chá do mundo antigo conheciam histórias que já foram quase completamente esquecidas — disse, calmamente. — Uma delas está registrada em todos os livros dos mestres do chá que eu mantinha em casa. É uma história que conta que a água tem sua própria consciência e carrega em si a memória de tudo que já aconteceu no mundo, desde quando não existiam humanos até o dia de hoje, uma memória que vai se gravando conforme o tempo avança. A água entende os movimentos do mundo, sabe quando é necessária e quando é desejada. Algumas vezes, uma nascente ou um poço seca sem razão, sem explicação. É como se a água também fosse escrava dos desejos, se retirando de um lugar para aparecer em outro quando lhe convém. Os mestres do chá acreditam que há momentos em que a água não deseja ser encontrada, porque sabe que será manipulada de formas antinaturais. Nem tudo que existe no mundo pertence aos humanos. Nós somos os observadores da água, mas, antes de mais nada, somos seus servos.
Caminhamos em silêncio. Seixos iam se quebrando sob meus pés. O cheiro de uma queimada avançava da direção do vilarejo.
— Você parece feliz — disse meu pai, quando chegamos em casa. — Isso é bom. Hoje é um dia para se ficar feliz. — Ele sorriu para mim. — Parece que o entregador do padeiro deixou as tortas no portão enquanto estávamos fora. Você pode ir até lá pegá-las e trazê-las para a cozinha, por favor?
Assenti e fui caminhando em direção ao portão, onde podia ver uma pilha com três tortas. Quando me virei para a casa, vi meu pai parado e encurvado. Havia algo de rígido e doído em sua postura, mas o dia estava lindo, minha cabeça estava em outro lugar e as tortas tinham um cheiro delicioso. Então, logo desviei o olhar.