Memória da Água
Capítulo Dezessete
A água é o mais versátil de todos os elementos. Não tem medo de morrer no fogo ou viver no ar, não hesita em se chocar com rochas afiadas durante as tempestades ou de penetrar na escura mortalha da terra. A água existe para além de qualquer começo e fim. Na superfície, nada parece mudar, mas dentro do silêncio subterrâneo do mundo, a água se esconde e cava novos canais e caminhos com dedos macios. Insiste até as pedras desistirem e, lentamente, se moldarem em lugares secretos.
A morte é amiga próxima da água. Não dá para separá-las, e também não é possível afastá-las das nossas vidas, porque representam, no sentido último, aquilo de que somos feitos: a versatilidade da água e a opressão da morte. A água não nos pertence, mas nós pertencemos a ela: quando escorrega por nossos dedos e poros, quando abandona nossos corpos, nada pode nos separar da terra.
Vejo claramente agora a presença esguia e sombria parada perto do jardim de pedras, perto das ervas aromáticas ou caminhando entre as árvores. Seu rosto é paciente, familiar. É o mesmo rosto desde o começo. Acho que ela deve ter esperado por mim por muito tempo, só que eu ainda não tinha compreendido.
Já posso sentir a água deixando meu corpo. Posso sentir o peso do meu próprio pó.
Alguns dias se passaram até que eu compreendesse minha situação.
Naquela primeira manhã, depois de ter me virado e encontrado o círculo azul na porta de casa, fiquei imóvel por um bom tempo. A água da chuva, que eu tinha tomado direto da poça, descia pelo meu queixo e pelo meu pescoço, pingando para dentro da gola da túnica. Sequei as gotas com as costas da mão. Três folhas se agitavam na brisa mansa, e elas me faziam pensar nas asas dos vaga-lumes se agitando contra as paredes de vidro de um lampião. Fiquei olhando para o traço sem pontas soltas daquele círculo — ele não apresentava possibilidade de saída. O chão ainda estava firme sob os meus pés, e o céu continuava onde deveria estar. A vida seguia no mundo, para além da barreira invisível que se ergueu ao meu redor: as pessoas estão pensando sobre si mesmas, caminhando pelas estradas, falando com aqueles que lhes são caros. Por um momento, a realidade acenou para mim, obscura, suas fronteiras se esfarelando e dividindo-a em duas. Uma parte de mim ainda estava caminhando fora desses limites, pensei, vivendo a vida que era pra ser. Ela ainda está a caminho das Terras Perdidas e é quase tão real quanto eu. Em alguns momentos até mais, talvez, porém naquele momento eu estava olhando para outro caminho, e aquela realidade que se foi nunca iria voltar.
O pensamento se quebrou e se dispersou.
Eu estava ali e nada podia mudar o que tinha visto na porta de casa.
Galhos balançavam ao vento. A luz coloria o escuro esverdeado da grama, onde o mato se erguia irregular. A única sombra no chão era a minha e, na quietude da manhã, não conseguia discernir nenhum som de passos ou de respiração, nenhuma palavra carregada pelo vento. Caminhei até a porta e toquei o círculo. Um pouco de tinta grudou na ponta dos dedos. Limpei a mão na calça e o tecido ficou manchado com três pontos azuis. Eu sabia que não ia poder lavar a calça. E esse pensamento me foi indiferente.
O piso de madeira estalou quando entrei em casa. Minha garganta estava seca, doída. Parei na cozinha, abri a torneira e lembrei imediatamente que eu tinha ido à colina para fechar o encanamento poucos dias antes. Não haveria água.
Havia água.
Enchi uma xícara e tomei tudo. Tomei outra xícara cheia, depois mais uma. A água não para de correr. Reconheci o gosto: era a água da nascente da colina. Fechei a torneira e depois a abri novamente. Ainda havia água.
O metal da torneira era frio nos dedos. Fechei a torneira, sentei no chão da cozinha com as pernas dobradas e apoiei a cabeça nos joelhos.
Fiquei atenta a minha própria respiração. Ouvi o movimento do sangue nas veias. Senti o silêncio da casa e tentei entender o que havia acontecido.
Passavam pela minha cabeça os rostos dos moradores, os pedidos e palavras de gratidão que tinham escapado dos seus lábios, as mãos que tinham carregado cantis cheios, os ossos pálidos por baixo das peles tensas, os passos pesados no chão, carregados da responsabilidade pela vida de crianças, esposas ou parentes. Um deles tinha entrado na minha casa, sentado na minha cozinha e levado a minha água para sua casa — só água, me corrigi mentalmente, não minha água. Voltando para o vilarejo, deve ter visto todos aqueles cartazes pela estrada, a recompensa oferecida em grande destaque. E depois de dias ou semanas, com passos certos ou incertos, essa pessoa tinha caminhado em direção a um guarda na rua, dizendo: tenho uma coisa que pode interessá-lo.
Há quanto tempo os militares sabiam?
Teriam seguido meus movimentos, acompanhado a preparação para a viagem? Sabiam sobre o helicarro ou sobre os falsos pass-pods? Talvez já tivessem conhecimento da nascente havia semanas, mas ao descobrirem que eu pretendia deixar o vilarejo, tinham decidido esperar. Talvez estivessem vigiando o esconderijo do helicarro, monitorando enquanto Sanja e eu o abastecíamos com comida e água e, quando ela caminhou até os limites do lixão para esperar por mim, eles apareceram, três soldados em suas botas pesadas e uniformes azuis. Talvez dois — um só já seria suficiente, na verdade, porque Sanja não era de constituição forte. Podia vê-los bloqueando a passagem da minha amiga para que não chegasse até embaixo da ponte, sabres em punho sob o céu cinza nublado. A chuva transformando as lâminas em espelhos reluzentes. Um dos soldados teria amarrado as mãos dela, enquanto os outros avançavam até embaixo da ponte, onde o helicarro estava esperando, pronto para a partida. Eles levaram o veículo, a comida, a água e Sanja — que não teve como escapar ou me avisar.
Tentei não imaginar o que podia ter acontecido a Sanja.
Mas, no fundo, sabia que existia outra possibilidade. A outra opção é que ela não tivesse sido capturada. Que os soldados não tivessem precisado ir até ela.
Só que essa explicação era dura demais para mim. Meus ossos não suportariam essa versão sem se despedaçar.
Pensei nas outras casas do vilarejo onde tinham ocorrido crimes de água. Não havia muito para saber: rumores, fofoca, olhares de relance lançados por prisioneiros, distantes e mudos como fantasmas, sangue seco na areia do jardim da frente.
Houve um instante de horror quando me dei conta de que talvez não pudesse mais sair da minha casa, mas logo me lembrei de que já tinha saído sem grandes consequências. Não tinha ideia do quanto podia me afastar, porém. E do que aconteceria quando chegasse à fronteira invisível desenhada pelos militares em torno da minha vida? Será que eles me dariam um tiro, me matariam na hora, ou dariam apenas um alerta?
Só existia uma forma de descobrir.
Minhas pernas estavam trêmulas quando saí para a varanda.
Conhecia o caminho que levava da porta da frente até o portão como a palma da mão. Tinha andando por essa trilha incontáveis vezes, quase todos os dias da vida, e poderia descrever tudo o que havia ali com os olhos fechados. Ainda assim, a jornada tinha se tornado estranha para mim, o arco de cada passo pesava e meu corpo parecia feito de pedra. Vi uma mariposa que tinha escapado à minha atenção no dia anterior presa em uma teia de aranha no beiral da casa. Atentei para a superfície ondulada das lajes de pedra, a forma desigual das bordas, as camadas de mineral escuro que se sobrepunham pela ação do tempo. Então olhei para meus próprios pés, feitos de ossos frágeis e pele fina, espalhados pálidos e vulneráveis na pedra com as hastes suaves do capim a emoldurá-los.
Minha respiração era rápida, resfolegante, e a cada passo esperava um golpe contra meu corpo — mas o que exatamente? Eu já tinha visto ferimentos de tiros, bandagens manchadas de sangue seco e pegajoso com um líquido amarelo ao redor, mas nunca havia presenciado uma bala encontrar o corpo da vítima. Nunca tinha visto a dor no rosto de uma pessoa quando o metal penetra na pele, rasga os tecidos e chega até os ossos. Imaginei a agonia lancinante de uma pequena explosão na carne, então tentei elevar essa agonia ao quadrado, porque tinha certeza de que meus pensamentos não chegavam nem perto do que era a dor na realidade. Será que eu ficaria consciente do que estava acontecendo? Teria tempo de pensar sobre a vida que lentamente deixava meu corpo? Ou tudo seria tão rápido que a dor excruciante causada pela ferida sequer chegaria a ser percebida?
O sangue se acumulava em meus pés, tão forte eu pisava na pedra em preparação para o próximo passo. As hastes da grama roçavam meus dedos e se erguiam novamente quando meus pés se levantavam.
Ouvi um farfalhar na direção da floresta. Mas não vi qualquer movimento entre as árvores. Percebi que meu corpo tinha estancado. Minha respiração assobiava de tanta tensão. Relaxei os músculos e deixei o ar sair dos pulmões no frio da manhã, que ainda trazia o cheiro da chuva da noite anterior. O portão não estava longe. Alguns passos largos e chegaria. Um passo, mais um passo, mais um passo: já podia tocar o metal ainda frio pelo orvalho da noite. Um último passo: estava parada bem em frente ao portão.
As folhas roçavam umas nas outras e o vento balançava os galhos. Sombras se formavam na areia da estrada. O sino de vento, pendurado no pinheiro, tocava suavemente atrás de mim.
Respirei fundo, fechei os olhos e abri o portão.
Nada aconteceu.
Olhei ao redor, ainda sem distinguir algo que sugerisse a presença de outra pessoa.
Dei um passo para além do portão.
Depois outro.
No terceiro passo, um estouro seco, mas surpreendentemente silencioso, cortou o ar, como se uma tábua de madeira grossa tivesse se quebrado. Um punhado de areia explodiu no ar a poucos centímetros dos meus pés. Congelei. O eco do estouro se perdeu na paisagem.
Quando era criança, costumava me embrulhar numa cortina no canto do escritório da minha mãe para me esconder durante as tempestades, nas sombras suaves e aconchegantes que a luz promovia ao passar pelo tecido. Ficava lá até que os trovões ameaçadores cessassem e que fosse novamente seguro caminhar pela casa sem o abrigo da cortina. Naquele momento, o mesmo impulso me tomava. Cada fibra do meu corpo gritava que eu devia me virar e correr para casa o mais rápido que meus pés pudessem me levar, me encolher no cantinho dentro da cortina até que os estouros ameaçadores tivessem cessado e eu pudesse sair daquele esconderijo sombrio novamente para a luz. Mas a cortina tinha se desgastado com o tempo e o cantinho estava cheio de teia de aranha e pó. Não havia nenhum lugar na casa, no jardim ou na colina que pudesse me proteger da sensação de exposição.
Dei mais um passo à frente.
O som cortou o ar e a areia se espalhou nos meus pés, bem no local onde o tiro tinha atingido o chão. Ergui a cabeça e pude perceber um movimento uns dez metros adiante: uma faixa de azul entre os troncos das árvores, o brilho cortante de metal onde os raios de sol batiam.
Minha terceira tentativa comprovou o que já tinha começado a suspeitar. A areia se espalhou novamente, perto o bastante para servir como um aviso efetivo, mas sem me atingir, propositadamente. Esses soldados sabiam atirar, queriam que eu entendesse quais eram meus limites. Mas, por alguma razão, pareciam não ter a intenção de me machucar.
Um silêncio sufocante pesava sobre a paisagem quando passei pelo portão e voltei para o jardim.
Quando o sol começou a anunciar a tarde, eu tinha descoberto as fronteiras do meu cativeiro. Elas seguiam a cerca do jardim por toda parte, exceto atrás da casa de chá, área que não era cercada. O muro invisível tinha sido erguido a aproximadamente dez passos da parede de trás da casa de chá, mas eu podia entrar no chalé. Concluí que devia haver vários atiradores nos arredores da casa, seguindo constantemente meus movimentos.
Ao entrar, tranquei a porta e baixei todas as cortinas. Entendi por que as janelas de todas as casas que tinham o círculo azul sempre estavam fechadas. Quando a vida se resume a limites estreitos, a menor ilusão de liberdade é de grande valor. A madeira gasta da porta e os frágeis vidros das janelas não poderiam manter afastados aqueles que estavam me ameaçando, mas eu podia ao menos esconder uma pequena porção da minha vida e fazê-la só minha. Não iria abrir mão desse pequeno pedaço de privacidade, possivelmente o último.
Pensei nos message-pods. Um deles ainda estava embrulhado, pronto para ser levado para as Terras Perdidas. O outro estava na caixa de madeira no quarto. Peguei o pod hackeado na bolsa, pressionei o dedo na tela e esperei que ligasse. Uma fila de pontos apareceu: o programa estava procurando uma conexão com a pod-network. Finalmente, apareceu a mensagem: sem rede. Escolhi a opção Tente novamente. Um minuto depois, a mesma mensagem reapareceu. Andei até o quarto e procurei o outro message-pod. A tela também disse que não havia conexão na casa. Aqueles que estavam me mantendo cativa tiveram o cuidado de cortar minha comunicação com o mundo exterior.
Perto do fim da tarde, comecei a me preocupar com a comida. Tinha água, pelo menos por enquanto. Enchi todos os cantis como garantia para o caso de cortarem o fornecimento. Não havia muito para comer, entretanto. Estava tão ansiosa pela viagem que tinha levado para o helicarro tudo que podia durar mais de um dia. No armário da cozinha, achei alguns biscoitos de amaranto e comi um deles com um chá fraco. Sentia gratidão por ter um jardim: havia frutas silvestres e vegetais. Porém, a maior parte das frutas e vegetais só estaria madura em algumas semanas. O cereal para fazer mingau duraria uns sete dias, se eu usasse com parcimônia.
Quando o sol já tinha baixado o máximo que podia no horizonte, procurei uma faca bem afiada nas gavetas da cozinha. Fiquei parada diante da porta da frente ainda fechada. Havia um cabide para casacos pregado na porta. Eu normalmente pendurava meu capuz antimosquito ali. Mas coloquei o capuz numa das prateleiras da parede e enfiei a ponta da faca contra a madeira pintada de branco. Dava para distinguir nas pinceladas de tinta o movimento da mão da minha mãe: ela havia lixado a pintura antiga para fazer a porta parecer nova e brilhante outra vez. Mas isso tinha sido há dez anos, e a pintura estava rachada novamente.
Pressionei a lâmina com força contra a porta e consegui desenhar uma linha vertical na madeira, exatamente onde, do lado de fora, estava o círculo azul. A pintura começou a descascar embaixo do corte. Ainda havia bastante espaço para outras linhas.
De volta ao meu quarto, coloquei a faca embaixo do travesseiro. Deitei com a luz do verão no rosto, os message-pods escuros e mudos na mesa ao lado da cama.
Pela manhã, desenhei outra linha vertical na porta, perto da primeira. O ar dentro de casa era sufocante e pesado. Quando abri a porta, vi que uma bandeja de comida tinha sido deixada nos degraus da varanda. Não era muita coisa: meia fatia de pão, um punhado de figos secos, um pote pequeno de feijões. Coloquei os feijões para cozinhar em uma panela de água e dividi a comida em porções, já que não sabia quanto tempo teria que sobreviver com essa quantidade. Deixei a bandeja vazia onde a encontrara.
Pensei na água que ainda corria pelo encanamento da cozinha e que não deveria mais estar disponível, nos tiros que deliberadamente passaram perto de mim, sem me machucar, no entanto. Eu não conseguia entender: alguém estava querendo me manter viva, pelo menos por enquanto.
Mas também estava querendo me assustar.
Na noite seguinte, fiquei vigiando a janela para ver se alguém se aproximava do jardim. Um soldado chegou um pouco depois das seis da manhã. Estava carregando uma bandeja com comida. Quando colocou a bandeja nos degraus da varanda, me levantei, mesmo que a insônia fizesse meus membros pesarem toneladas. Ele ergueu os olhos quando abri a porta.
— Por que minha casa está marcada?
O soldado pegou a bandeja vazia e não disse nada. Apenas se virou e saiu caminhando. Fui atrás dele. Sabia que não era uma coisa segura a se fazer, mas precisava tentar.
— Do que estou sendo acusada? Posso falar com alguém?
O soldado continuou a caminhar sem dizer nada. Corri para ultrapassá-lo e parar na sua frente. Ele parou e colocou uma das mãos sobre o punho do sabre. Só nesse momento percebi que se tratava do filho do padeiro, o menino com quem eu tinha frequentado a escola quando jovem, o mesmo que eu tinha visto olhando os cartazes da estrada.
— Me deixe falar com alguém. Se tenho que viver presa, quero saber pelo menos do que estou sendo acusada.
Ele continuava parado, tenso, enquanto eu aguardava o corte quente do sabre na pele. O soldado permaneceu em silêncio.
— Por favor — falei, já odiando o tom de súplica. Quando ele não respondeu, perguntei: — Por que você está fazendo isso?
Com a mão ainda no punho da arma, ele respondeu:
— Você não tem permissão para falar com ninguém e eu não tenho que responder as suas perguntas. Estou apenas fazendo meu trabalho. — E ficou me observando em silêncio. Por um momento, vi na minha frente o menino que adorava correr no intervalo das aulas, um menino a quem nunca tinha dado muita atenção. — Eu deveria cortar o seu rosto, mas vou deixar passar dessa vez. Os outros guardas não vão ser tão gentis. Seria mais inteligente ficar em casa enquanto a comida está sendo provida.
Ele começou a caminhar em direção ao portão novamente. Fiquei onde estava, porque a voz e a expressão do filho do padeiro tinham transformado minha língua em pedra e meus pés em raízes. Percebi uma frieza nos olhos dele que me assustou: uma frieza nascida não apenas do que somos obrigados a ver quando queremos desviar os olhos, uma frieza mais tensa, mais pungente.
Uma frieza nascida de alguém que faz coisas que os outros não querem nem olhar.
Eu sabia, tinha certeza, que se o seguisse ou falasse novamente, ele usaria seu sabre em mim e me deixaria sangrar até a morte. Observei o garoto desaparecer pelo portão entre as árvores e, somente alguns minutos depois, meu sangue começou a correr de novo pelo corpo e consegui caminhar para dentro de casa.
No final da tarde do terceiro dia, estava parada no jardim de pedra quando percebi um movimento na estrada que vinha do vilarejo. Mesmo à distância dava para saber que a pessoa que se aproximava a pé não estava de uniforme azul. E parecia pequena demais para ser Sanja. A figura se movia vagarosamente, misturando-se às sombras das árvores, e ninguém fez menção de impedir que ela se aproximasse. Conforme foi chegando mais perto, reconheci a feição. Era Mai Harmaja. Quando estava a uns dez metros do portão, ela parou e olhou para a casa. Seus olhos passearam de um lado para o outro e encontraram os meus. Em seguida, se fixaram na casa mais uma vez. Um segundo depois, ela olhou em torno, se virou e começou a caminhar na direção do vilarejo, apressada.
Ao observar Mai desaparecer, soube que não veria mais nenhum morador do vilarejo passar pela estrada das árvores que ladeava minha casa.