Memória da Água

Emmi Itäranta · Capítulo 3 de 22

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Memória da Água

Capítulo Dois

 

O orvalho da noite ainda cobria o chão quando saí para ajudar meu pai a empilhar os cantis na parte de trás do heliciclo. A superfície plástica dos cantis brilhava ao sol da manhã. Apertei bem o cinto ao redor da carga e, depois de me certificar que tudo estava bem preso, coloquei a bolsa feita de algas no ombro e subi no veículo.

— Vá no Jukara — disse meu pai. — Ele dá um desconto.

Jukara era o mais antigo artesão especializado em plástico do vilarejo, um amigo do meu pai. Mas eu não confiava nele desde que, no ano anterior, cantis arrumados em sua loja tinham dado problema após pouquíssimo tempo de uso. Portanto, não respondi, simplesmente fiz um movimento com a cabeça que podia ser interpretado como um aceno positivo.

— E não demore o dia todo — acrescentou. — Temos convidados amanhã. Preciso de ajuda para limpar a casa de chá.

Afundei o pé no pedal para dar a partida. Um dos painéis solares estava quebrado e o motor falhava, então tive que manter o pé afundado por quase toda a estrada poeirenta, ladeada por árvores verde-douradas, que se estendia nos arredores de casa. Só depois que saí do bosque é que o veículo ficou mais estável. Já na estrada principal, travei o pedal e descansei os pés enquanto o heliciclo se movia sem pressa pelo vilarejo. O ar da manhã gelava meus braços nus. A essa hora, as mutucas ainda não tinham aparecido. Tirei o capuz antimosquito, deixando o vento e o sol se espalharem pelo meu rosto. O tempo estava seco, o céu, azul, e a terra, silenciosa. Cheguei a ver alguns pequenos animais se mexendo na poeira em busca de água.

Passadas as casas mais distantes do vilarejo, cheguei à bifurcação da estrada. O caminho para a loja de Jukara era à esquerda. Parei, em dúvida, mas decidi pela direita, onde logo distingui a velha cerca azul tão familiar.

Como a maior parte das construções do vilarejo, a casa de Sanja era uma herança do mundo antigo, uma construção grande com múltiplos quartos, um quintal e uma garagem — fruto do tempo em que a maior parte das pessoas ainda possuía veículos de tecnologias hoje muito ultrapassadas. As paredes haviam sido consertadas inúmeras vezes e os pais de Sanja me disseram que, antigamente, a casa tinha um telhado praticamente plano, sem painéis solares, embora isso seja muito difícil de imaginar.

Quando parei do lado de fora do portão, vi Sanja no jardim, esvaziando o último cantil dentro de um barril de metal enquanto enfileirava xingamentos. A porta da frente estava aberta e um fluxo quase inaudível de pod-news saía da casa, atravessando a tela antimosquito que cobria a porta da frente. Sanja não estava usando seu capuz e, quando olhou para mim, vi logo que não tinha dormido.

— O maldito farsante me vendeu água salgada — disse, arrumando furiosamente o cabelo atrás das orelhas. — Não sei como. Eu provei a água, como sempre faço, e era potável. O preço era um absurdo, então só comprei meio cantil, mas mesmo assim foi dinheiro jogado fora.

— Que tipo de recipiente era? — perguntei, passando pelo portão para estacionar no jardim.

— Um desses antigos. Daqueles grandes e transparentes que ficam apoiados num estrado, de onde sai um cano com uma torneira.

— Fraude do cano duplo — expliquei. — Vi acontecer na cidade, ano passado. Dentro do estrado tem um segundo recipiente escondido com água salgada. O cano tem duas saídas. A primeira é da água potável e a segunda, que fica escondida, da salgada. O vendedor oferece a prova do cano de água potável, depois muda a bica sem você perceber e vende a salgada.

Sanja me encarou por um instante e, enfim, desabafou:

— Burra, idiota.

Eu sabia que os xingamentos não eram endereçados a mim. Ela devia ter gasto a maior parte do salário mensal em água salgada.

— Pode acontecer com qualquer um — falei. — Você não tinha como saber. Talvez seja bom avisar aos outros.

Sanja suspirou.

— Vi outras pessoas comprando dele pouco antes de a feira terminar. Mas a essa altura o cara provavelmente já está longe, procurando pelo próximo otário.

Guardei meus pensamentos para mim mesma: mais de uma vez meus pais tinham me dito que, quando muitas fraudes começam a acontecer, é sinal de que tempos difíceis se aproximam, mesmo que o noticiário insista toda hora que a agitação é temporária e que a guerra está totalmente sob controle. Nos bons tempos a água também é escassa, mas a maior parte das pessoas consegue se virar com as cotas mensais e os caloteiros não se dão ao trabalho de arregaçar as mangas. Os comerciantes de água que ocasionalmente param nos pequenos vilarejos sempre mantêm os preços altos, mas não colocam seu negócio, ou o dos concorrentes, em xeque vendendo água salgada. Não que não existam caloteiros quando as coisas vão bem, mas é que esse era o terceiro que aparecia no vilarejo em dois meses. O aumento súbito no número de enganadores provavelmente significava que havia fortes rumores nas cidades sobre uma cota nova e ainda mais restrita de água, talvez até um racionamento. Por isso, alguns fraudadores partiram das feiras atoladas de concorrentes na cidade grande para um mercado menos competitivo e com clientes mais ingênuos.

— Problemas com a água encanada de novo? — perguntei.

— A porcaria do cano precisa ser trocado — disse Sanja. — Vou fazer isso eu mesma da próxima vez. Minja ficou doente na semana passada e não me atrevo a dar água da torneira para ela, mesmo fervida. O meu pai diz que pode ser usada, mas acho que ele desenvolveu um estômago de ferro depois de beber água suja por tantos anos.

Minja, a irmã de 2 anos e meio de Sanja, desde que nasceu vivia doente. Nos últimos tempos, Kira, a mãe, também estava adoentada. Não contei a Sanja, mas algumas vezes, já tarde da noite, vi um estranho sentado na porta da casa deles, uma figura esguia e sombria, não necessariamente má, simplesmente alguém que se sabia indesejado em qualquer lugar. A presença estava sempre quieta, esperando pacientemente, sem fazer menção de entrar nem de se afastar.

Pensei no que meu pai tinha me contado sobre a morte e os mestres do chá e, quando olhei para Sanja com aquelas olheiras de noites maldormidas no rosto tão jovem quanto o meu, a imagem da presença sombria esperando na porta de repente me pesou nos ombros.

Algumas coisas não devem ser vistas. Outras não devem ser ditas.

— Você pediu permissão para consertar o cano?

Sanja bufou.

— Você acha que tenho tempo para esperar o processo burocrático? Tenho quase tudo de que preciso. Só não sei ainda como vou fazer para despistar os guardas da água.

Ela disse tudo em tom casual, como se estivesse falando de algo trivial, comum, não de um crime. Pensei nos guardas da água, nos rostos frios cobertos pelos capuzes antimosquito, andando em marcha ritmada e patrulhando as ruas estreitas em pares, sempre checando o uso mensal de cotas e executando punições. Tinha ouvido falar de surras, prisões e multas — e coisas piores circulavam pelo vilarejo, mas eu não sabia se eram verdadeiras. Pensei nas armas: sabres longos e brilhantes que eu tinha visto cortarem até metal quando, certa vez, testemunhei vários guardas brincando na rua com peças ilegais de canos que tinham confiscado da casa de uma velha senhora.

— Trouxe umas coisas para você consertar — falei, soltando o cinto de segurança que protegia os cantis. — Sem pressa. Quanto você cobra?

Sanja contou o número de cantis, passando os dedos pela pilha.

— Um dia e meio de trabalho. Cobro três cantis de água.

— Pago quatro. — Eu sabia que Jukara me cobraria dois, mas não me importava.

— Por quatro, posso consertar um agora mesmo.

— Trouxe mais uma coisa. — Peguei um livro fino na bolsa. Sanja viu e deu um gritinho abafado de alegria.

— Você é demais! — Mas logo sua expressão ficou preocupada novamente. — Ah, só que não terminei o outro ainda.

— Não tem problema. Já li os dois várias vezes.

Apesar de relutante, Sanja pegou o livro. E dava para ver que estava feliz. Como a maioria das famílias do vilarejo, a de Sanja não tinha livros. Pod-stories eram mais baratos e você podia comprar em qualquer mercado, ao contrário de papel.

Contornamos a casa carregando os cantis até a oficina de Sanja, construída por ela mesma no quintal. O teto era feito de algas secas e três das paredes eram de telas antimosquito, moldadas por postes de madeira. A parte de trás da casa de Sanja funcionava como a quarta parede da oficina. Ela puxou a fechadura de arame da porta e a trancou.

Empilhei os cantis na bancada de madeira que ficava no meio da oficina. Sanja colocou os que estavam com ela sobre os meus e levou um deles para a longa mesa encostada na parede sólida. Meu pai tinha marcado o rasgo com tinta cor de beterraba. Era um furinho no formato de uma estrela assimétrica.

Sanja acendeu o maçarico movido a luz solar e os fios do aparelho começaram a brilhar em um tom laranja-avermelhado. Ela pegou uma caixa cheia de pedaços de plástico de debaixo da mesa e escolheu um. Fiquei observando enquanto Sanja, cuidadosamente, aquecia tanto a película do cantil quanto o remendo, até que as duas superfícies estivessem moles e pegajosas. Ajeitou o plástico no lugar do furo e, depois de checar se ele de fato cobria toda a superfície, começou a nivelar a sutura para que ficasse bem justa.

Enquanto esperava, dei uma olhada na oficina. Sanja tinha juntado mais coisas desde minha última visita, algumas semanas atrás. Como sempre, as compridas mesas estavam cheias de ferramentas, pincéis, vidros, tábuas de madeira, lampiões vazios e pedaços de coisas que eu não conseguia identificar. Mas a maior parte do espaço estava tomada por caixas de madeira transbordando de pedaços de plástico e metal. O metal era mais difícil de encontrar, porque as peças mais úteis tinham sido levadas às cidades para que o exército as derretesse, décadas antes, e depois disso as pessoas tinham juntado o que podiam de peças metálicas que ainda prestavam saqueando os lixões de metal. Mas agora, tudo o que se podia desenterrar nesses lugares eram peças aleatórias que não tinham nada a ver uma com a outra.

Restos de plástico, por outro lado, nunca faltavam, porque o plástico usado no mundo antigo levava séculos para degradar, não era como o nosso. A maior parte era de qualidade tão baixa ou estava tão estragado que não podia ser usado para fazer nada de útil, mas, algumas vezes, cavando mais fundo, dava para encontrar tesouros. Os melhores achados eram partes de equipamentos tecnológicos do mundo antigo: metal e plástico conjugados e criados para fazer coisas que ninguém no mundo atual fazia mais. Ocasionalmente, uma peça de maquinário abandonado era encontrada quase intacta, ou podia ser facilmente consertada. O que nos deixava perplexos era imaginar por que essas coisas tinham sido descartadas.

Em uma das caixas debaixo da mesa encontrei utensílios de plástico: canecas, pratos e uma jarra. Embaixo dessas coisas havia dois retângulos de plástico preto mais ou menos do tamanho e do formato dos livros que eu tinha no quarto, poucos centímetros mais grossos. Eram planos de um lado, mas, no verso, tinham dois buracos brancos redondos conectados. Um dos cantos do retângulo estava solto e uma fita escura brilhante e lisa escapava de dentro. Havia algumas letras impressas no plástico. A maior parte era ilegível, mas dava para distinguir três letras: VHS.

— O que é isso? — perguntei.

Sanja tinha terminado de nivelar a sutura e se virou para olhar.

— Não tenho a menor ideia. Desenterrei as duas peças na semana passada. Acho que eram partes recarregáveis de alguma máquina do passado, mas não consigo nem imaginar para que serviam.

Ela colocou a película do cantil em uma tábua. Levava um tempo para o plástico selar completamente. Pegou uma enorme mochila da mesa e a colocou nas costas.

— Quer vir desenterrar coisas enquanto o remendo esfria?

Andamos algumas quadras e, quando virei na rua que sempre pegávamos para ir até o lixão dos plásticos, Sanja me parou e disse:

— Não vamos por aí.

O símbolo chamou minha atenção de imediato. Naquela rua havia uma casa de madeira que, embora estivesse desgastada e manchada, um dia tinha sido amarela. O canto de um dos painéis solares do telhado estava quebrado. A construção era semelhante à maior parte das outras do vilarejo: erguida na época do mundo antigo e adaptada às circunstâncias do tempo presente. Porém, ela se destacava entre as casas pálidas e desbotadas por ser a única cuja porta tinha sido pintada recentemente. Um círculo azul brilhante sobressaía na madeira surrada, tão brilhante que a tinta ainda parecia fresca. Nunca tinha visto nada assim.

— O que é aquilo? — perguntei.

— Não vamos falar sobre isso aqui — respondeu Sanja, me puxando pelo braço.

Vi um vizinho sair e percebi que ele evitou olhar para a porta marcada, acelerando os passos quando teve que passar em frente ao local. Exceto por aquele homem, a rua estava deserta.

Segui Sanja por um percurso sinuoso. Ela olhava para os lados e, somente quando teve certeza de que não havia ninguém à vista, sussurrou:

— A casa está sendo vigiada. O círculo apareceu na porta na semana passada. É sinal de um crime de água sério.

— Como você sabe?

— Minha mãe me contou. A mulher do padeiro parou em frente ao portão da casa dia desses e dois guardas da água apareceram do nada para perguntar o que ela estava fazendo ali. Eles disseram que as pessoas que viviam naquela casa eram criminosas da água. Só a deixaram ir embora porque ela conseguiu convencer os guardas de que tinha parado ali apenas para vender tortas de semente de girassol.

Eu conhecia os moradores. Um casal sem filhos com pais idosos. Era difícil imaginar que fossem culpados de um crime de água.

— O que aconteceu com os moradores? — perguntei. E fiquei pensando em seus rostos comuns e cansados e em suas roupas modestas.

— Ninguém sabe ao certo se eles ainda estão dentro da casa ou se foram levados — respondeu Sanja.

— O que acha que vão fazer com eles?

Sanja olhou para mim, deu de ombros e ficou em silêncio. Percebi que ela havia falado em trocar os canos de água de forma ilegal. Olhei para trás. A casa tinha desaparecido de vista, mas o círculo azul ainda brilhava em minha mente. Era como uma ferida aberta tatuada na pele do vilarejo. Perigosa demais para qualquer pessoa se aproximar e coberta de silêncio.

Continuamos ao longo do caminho tortuoso.

Atravessamos um riacho barrento e quase seco que escorria perto do lixão dos plásticos. Quando éramos crianças, o lixão era um local proibido. Minha mãe dizia que o chão era tóxico e que era perigoso pôr os pés ali — um deslize e você podia cortar as roupas ou a pele em algo afiado. Naquela época, Sanja e eu planejávamos excursões secretas ao lixão dos plásticos com muito cuidado, em geral escolhendo vir perto do anoitecer, quando não era escuro o bastante para precisarmos de lampiões e nem tão claro a ponto de alguém nos reconhecer de longe.

O lixão dos plásticos era um pedaço de terra grande, íngreme e instável, cheia de cantos cortantes, superfícies ásperas, arestas afiadas e lascas pontudas que emergiam de forma abrupta e imprevisível. Os vales e morros formados pelos resíduos viviam mudando de forma. As pessoas moviam pilhas de lixo de um lado para o outro, repisavam as partes planas, que ficavam ainda mais firmes, cavavam buracos e criavam morros ao redor deles, revolvendo camadas e camadas de resíduos — tudo em busca de plástico utilizável e madeira que não estivesse muito empenada. O cheiro e o aspecto familiar do lixão me trouxeram à memória as botas de cano longo que usava para prevenir cortes nas pernas. Quase podia sentir de novo a aspereza daquelas botas, nas quais meus pés escorregavam suados e sujos.

Dessa vez, usava um par de sapatos de verão que mal cobriam os tornozelos, mas já era mais velha e o dia estava claro. O plástico descartado rangia sob o peso dos nossos passos, enquanto mutucas e outros insetos zumbiam alto ao redor das nossas cabeças encapuzadas. Abaixei as mangas da camisa e as enrolei bem apertadas nos punhos, já sabendo que qualquer pedaço de pele nua atrairia ainda mais insetos. No final do dia, meus tornozelos estariam queimados de sol e inchados de picadas.

Fiquei atenta, buscando qualquer coisa que valesse a coleta, mas não havia nada de interessante: lençóis de plástico brancos, sujos e amassados, sapatos que pareciam desconfortáveis, com saltos quebrados, uma cabeça de boneca. Parei e olhei para trás, mas Sanja não estava mais lá. Tinha se afastado uns metros e estava agachada cavando numa pilha. Cheguei perto bem na hora em que ela puxou o que parecia ser uma caixa grande do meio de um monte de potes, cabides retorcidos e uma ponta de plástico preto.

A caixa tinha formato retangular. Eu nunca tinha visto uma coisa assim. A superfície preta, toda arranhada, parecia ter sido brilhante e polida algum dia. Nas extremidades havia buracos redondos cobertos por uma redinha de metal.

— Caixas de som — explicou Sanja. — Já vi algumas parecidas em outras tecnologias do passado. Eram usadas para dar potência.

Havia uma pequena cavidade retangular entre as caixas de som, com uma tampinha que abria pelo canto. Embaixo do buraco havia botões com comandos de flechinhas que apontavam para várias direções. Quando a gente girava o maior dos botões, um ponteiro vermelho se mexia em uma escala numérica com combinações de números que não faziam o menor sentido: 92, 98, 104 e assim por diante. No final da escala dava para ler as letras “Mhz”. Bem no meio da parte de cima do equipamento tinha um círculo, pouco maior que os das caixas de som, coberto por uma tampa parcialmente transparente.

Já sabia que Sanja ia querer levar a máquina para casa. Só de olhar o rosto da minha amiga dava para sentir que ela estava matutando sobre o que teria dentro daquele equipamento. Com certeza já estava considerando abri-lo, memorizar todas as partes e conduzir eletricidade do gerador solar para ver o que ia acontecer.

Andamos pelo lixão por mais um tempo, no entanto, só encontramos os resíduos habituais — brinquedos quebrados, pedaços de coisas irreconhecíveis, pratos, copos e uma interminável quantidade de sacolas de plástico mofadas. Quando nos preparávamos para voltar ao vilarejo, falei para Sanja:

— Queria poder cavar até bem lá embaixo. Talvez assim a gente conseguisse entender o mundo antigo e as pessoas que jogavam essas coisas fora.

— É uma perda de tempo ficar pensando nelas.

— Você também pensa nelas — insisti. — Não viria aqui se não pensasse.

— Não é nas pessoas que eu penso — defendeu-se Sanja. — É nas máquinas, em todo o conhecimento que essas pessoas deviam ter e no que deixaram pra gente. — Ela parou e segurou o meu braço. Dava para sentir o calor dos dedos atravessando o tecido da minha camisa e a ardência do sol no resto da pele, dois tipos de calor diferentes, um bem ao lado do outro. — Não vale a pena pensar nelas, Noria. Elas também não pensavam na gente.

Eu tentava não pensar nelas, mas o mundo antigo drenou o mundo presente, trouxe o tipo de céu que temos hoje, toda essa poeira. Será que o mundo presente, o mundo atual, alguma vez passou pela cabeça de algum deles? Imagino uma dessas pessoas do passado parada à beira do rio, que agora é apenas uma cicatriz seca na paisagem. Pode ser uma mulher, nem jovem nem velha, ou talvez um homem. Não importa. Que seja uma mulher de cabelo castanho-claro. Ela olha o rio correr, pode ser um rio meio barrento, ou de águas claras, e, por um momento, uma sensação do que pode acontecer no futuro invade seus pensamentos.

Imagino que ela volte para casa e faça uma coisa diferente naquele dia por causa dessa sensação. E continua assim no dia seguinte, no outro também.

Mas aí vejo outro quadro em que ela volta para casa e não faz nada diferente. Não sei qual das duas mulheres é a real e qual é apenas um reflexo claro como a água, quase óbvio o bastante para ser confundido com a realidade.

Olho para o céu, para a luz e para a terra — tudo igual na época deles, mas ao mesmo tempo tão diferente. Nosso mundo não para de sangrar.

Quase não falamos no caminho de volta para a casa.

Sanja se abrigou na sombra da varanda enquanto eu ajeitava o cantil consertado na traseira do veículo e entrava para dar a partida do heliciclo. O dia se erguia imenso e límpido, e Sanja parecia pequena, miúda e escura escondida na sombra.

— Noria — disse ela. — Sobre o preço.

— Trarei dois cantis cheios mais tarde — falei.

Quando já tomava o rumo para a casa do mestre do chá, ainda pude ver seu sorriso. Tímido e pálido, mas ainda assim um sorriso. Quem não ficaria nada satisfeito seria o meu pai.