Memória da Água
Capítulo Seis
Os militares chamaram a operação de investigação de rotina, mas nós sabíamos que não havia nada de rotineiro ali. Uma verdadeira investigação de rotina era levada a cabo por dois soldados e tinha duração de poucas horas. No nosso caso, um oficial de alto escalão plantou-se em nossa propriedade por quase duas semanas, e seis soldados se revezavam na exploração da casa e seus arredores — dois deles sempre parados em frente à casa de chá. Eles andavam de forma cuidadosa e vagarosa, de um lado para o outro do jardim, sem parar, examinando cada centímetro. Todos carregavam telas planas nas mãos. Os padrões coloridos que apareciam nas telas lembravam ligeiramente mapas, com limites e relevos demarcados.
Eu tinha uma ideia de como aquelas máquinas funcionavam, graças aos livros da minha mãe. Elas enviavam ondas de rádio para a terra, e a tela interpretava os resultados, com padrões que indicavam a densidade e a umidade do solo. Os soldados carregavam ainda aparelhos de medição e perfuração. Um dos soldados, uma mulher cuja expressão quase não mudava, caminhava com duas longas hastes de metal cruzadas nas mãos.
Vez ou outra ela parava com os olhos fechados para, em seguida, abri-los e fixá-los nas hastes por um bom tempo, como se esperasse por alguma coisa. Meus pais me contaram que a casa de chá tinha sido isolada e que uma busca minuciosa estava sendo executada por lá, porque a haste de metal tinha, no primeiro dia, mexido enquanto a mulher estava na varanda.
Meu pai observava com tristeza a pilha de madeira que se avolumava em frente à casa de chá enquanto os soldados se ocupavam arrancando o piso.
— Ela nunca mais vai ser a mesma — murmurou, entre dentes. — Madeira desse tipo é muito raro de encontrar hoje em dia, e a habilidade na construção de casas de chá já não existe em nenhum dos antigos vilarejos.
Durante aqueles dias, um silêncio pesado se fez sentir entre os meus pais, um silêncio cheio daquele medo típico dos segredos bem guardados e das coisas não ditas. Era como uma superfície de água de calma extrema e artificial, na qual uma única gota derrubada ou uma simples pedra tirada do lugar pudesse criar um redemoinho que corrompesse o reflexo da água, tornando-o irreconhecível pela força do movimento. Evitávamos falar sobre qualquer coisa que não fosse rotineira e banal, porque a presença dos soldados se fazia sentir como paredes invisíveis, e nenhum de nós tinha coragem de derrubá-las.
No final do dia, eu não conseguia ir para a cama sem antes checar se os soldados não estavam levando seus equipamentos para a colina. De manhã, meu coração estava sempre pesado, e minha garganta, seca, só de imaginar que eles pudessem ter expandido as buscas para fora dos limites da casa e do jardim. Não conseguia sequer pensar em tomar café da manhã antes de me certificar de que não era o caso. Nos meus sonhos, via a água escondida por trás das pedras e acordava subitamente sentindo no meu peito que, de alguma forma, mesmo isso sendo impossível, o som da nascente tinha atravessado a distância que nos separava e chegado até nossa casa. Nessas ocasiões, ficava ouvindo o silêncio por muito tempo, até me acalmar e o sono me arrastar de volta.
No começo, achei que minha mãe estava fingindo interesse pelo equipamento para manter as aparências e mascarar o nervosismo. Mas, conforme os dias foram passando, percebi que, por trás desse comportamento, havia um interesse real que ela mal conseguia disfarçar. Minha mãe estava louca para saber mais sobre os equipamentos, para testá-los, para aprender seus mecanismos e aplicações. Fazia mais de quinze anos que tinha trabalhado como pesquisadora de campo da Universidade de Piterburg, e a tecnologia militar tinha se desenvolvido bem mais do que aquela a qual os civis podiam ter acesso. Ela caminhava junto aos soldados, perguntando sobre os equipamentos, e dava para ver que estava anotando as respostas mentalmente para, mais tarde, passar as informações para o papel na tranquilidade de seu escritório. Meu pai também reparou — e seus modos ficaram mais secos em relação a ela. Tudo o que não podia ser dito, e pesava entre nós nos últimos dias, começava a criar uma rede de tensão que acabaria por nos sufocar ou destruir se não achássemos um jeito de lidar com a coisa toda.
Eu queria falar com Sanja. Gostaria de não ter saído da oficina dela de forma tão abrupta. Já havia mandado três mensagens e pedido para ela vir até minha casa, mas Sanja não respondera. Eu não sabia bem o que pensar, já que ela nem sempre respondia. Enquanto minha mãe andava pelo terreno estudando o equipamento dos soldados e meu pai ficava parado ao lado da casa de chá, aparentemente esperando que sua presença limitasse os danos causados à construção, eu carregava livros para o quarto e montava acampamento com eles.
A gravação no disco prateado ainda incomodava. Eu tinha uma ideia relativamente clara sobre o mundo antigo — ou, pelo menos, tinha noção de que sabíamos pouco sobre o mundo antigo. Embora vivesse sonhando com o inverno e a neve eterna, nunca havia chegado a questionar o que aprendera na escola ou o que os livros diziam. Tinha como certo o que era, de forma geral, reconhecido como verdade, e não me importava com o resto. Mas e se a verdade não fosse verdade? E se as histórias que tinham sobrevivido fossem apenas imagens distorcidas e escuras de um espelho quebrado — ou pior: e se alguém, deliberadamente, tivesse quebrado o espelho para mudar o reflexo? Eu sei o que vocês fizeram... E se tem uma coisa que eu gostaria de dizer a respeito disso é que o mundo inteiro vai acabar sabendo , tinha dito a voz do disco.
Depois de espalhar todos os livros de casa no chão, acabei achando dois grandes mapas do mundo. Coloquei-os lado a lado. Um mostrava o mundo antigo, o mundo dos invernos frios e das cidades cheias de arranha-céus. O outro, o mundo atual.
Olhei os limites dos continentes e oceanos, transformados e praticamente irreconhecíveis.
Tanta coisa perdida para o sal e para a água.
Comecei a prestar atenção nos locais mais próximos. O Mar Branco, a leste do meu vilarejo e de Kuoloyarvi, ainda não tinha tomado uma porção tão grande de terra. Mas os lagos e rios da União Escandinávia tinham se fundido em extensas porções de água, de modo que as antigas planícies costeiras não existiam mais.
E isso não era tudo.
Ilhas alagadas, planícies costeiras submersas, deltas de rios transformados em salmouras. Grandes cidades transformadas em meros fantasmas do que tinham sido antes de serem cobertas pela mortalha marítima.
No antigo mapa, os Polos Norte e Sul eram pintados de branco. Essa era a cor que apontava a presença de gelo, o chamado gelo eterno — antes de descobrirem que não havia nada de eterno nele. Quase no final da era do mundo antigo, o planeta havia sofrido um forte aquecimento e os mares tinham subido mais do que qualquer um poderia imaginar. Tempestades destruíram continentes e as pessoas abandonaram suas casas, buscando áreas em que ainda houvesse terra firme. Durante as últimas guerras do petróleo, um enorme acidente contaminou a maior parte das reservas de água doce das antigas Noruega e Suécia, tornando as áreas inabitáveis.
O século seguinte foi chamado de Século do Crepúsculo e, durante esse período, o mundo, ou o que restava dele, ficou sem petróleo. Com isso, grande parte da tecnologia do mundo antigo foi gradativamente perdida. Manter-se vivo se tornou a prioridade. Tudo o que não era considerado essencial para a sobrevivência imediata se perdeu.
Fiquei pensando nas palavras gravadas naquele disco. A voz masculina tinha falado sobre Trondheim, Trøndelag e Jotunheimen. Essas cidades pertenciam às Terras Perdidas — como eram chamadas as áreas contaminadas da União Escandinávia. Se a Expedição Jansson era real, por que eles estavam nas Terras Perdidas durante o Século do Crepúsculo? Como poderia ter sido seguro ir lá? Eu até queria acreditar na opinião de Sanja de que a gravação do disco era apenas uma história. E podia ser. Afinal, as melhores histórias são assim mesmo, tão convincentes que você não consegue saber se são inventadas ou não. Ainda assim, não estava convencida. A gravação não seguia a estrutura normal de uma história inventada. Tinha uma estrutura mais parecida com coisas reais e verdadeiras.
Fechei os livros e os deixei empilhados em minha escrivaninha, não sem dobrar os cantos das páginas que traziam os mapas.
Seis dias depois da chegada dos soldados, Sanja apareceu sem avisar no portão. Ela havia feito o caminho todo a pé até o vilarejo e trazia uma pilha de cantis vazios nas costas. Eram os mesmos que eu tinha usado para pagar pelo conserto.
— Vamos entrar — falei.
— Meu pai disse que vocês têm praticamente uma invasão aqui — comentou Sanja, enquanto entrávamos em casa. — Por que isso?
Ela tirou o capuz antimosquito, e eu a ajudei a descarregar os cantis que trazia nas costas, pendurando-os em um gancho no hall de entrada.
— Acho que eles pensam que a gente tem um poço escondido embaixo da casa de chá ou algo do tipo — respondi, com a voz mais calma do que teria esperado.
— Eu devia saber que vocês guardavam um segredo sombrio. — E a expressão de Sanja se dissolveu em um dos seus sorrisos amarelos. — Eles não têm nada melhor para fazer? Talvez alguém esteja irritado com o seu pai e tenha decidido espalhar um boato só para fazer estragos.
Eu sorri, mas meu rosto permanecia duro. Minha impressão era de que ela não tinha intenção de mencionar nossa discussão anterior, e eu também não queria isso. Algumas feridas fecham sozinhas, pensei. Não há motivo para abri-las de novo.
— Você está com pressa? — perguntei.
Sanja negou com um gesto de cabeça.
Fiz chá gelado para nós. Os cubos de gelo trincaram nas xícaras de barro quando eu derramei o líquido morno amarelo-pálido. Sentamos à mesa, e eu peguei alguns figos secos do armário.
— Queria ter um freezer também — disse Sanja, com um suspiro, enquanto bebericava o chá. —Tentei consertar um no ano passado, mas ele só funcionou por algumas semanas antes de estragar para valer. Eu teria que ir até a cidade para conseguir as peças e consertar de novo. E isso custaria o orçamento de pelo menos dois meses de comida.
— Você não acha estranho a quantidade de aparelhos tecnológicos do mundo antigo que ainda dá para encontrar no lixão dos plásticos e consertar com certa facilidade?
— O que há de estranho nisso?
— Eles sempre nos ensinaram na escola que a tecnologia do mundo antigo era frágil e que não pode mais ser fabricada, e é isso que os livros dizem também, né?
— E ela é. A maior parte das coisas que estão no lixão dos plásticos é porcaria.
— E quanto aos livros?
— Que livros?
— Por que os livros do mundo antigo não foram preservados? — Eu sabia que a casa do mestre do chá tinha mais livros que qualquer outra do vilarejo, e meus pais haviam me dito que os livros eram raros, mesmo nas cidades. Poucas obras chegavam a ser impressas, por causa do custo do papel, e livros do mundo antigo eram virtualmente impossíveis de encontrar, a não ser que a pessoa tivesse acesso às livrarias do Estado ou aos arquivos militares. Na escola, só utilizávamos pod-books.
— A maior parte deles estava nas cidades grandes que foram alagadas quando os oceanos invadiram as planícies costeiras — disse Sanja.
— Eu sei, mas você já viu algum livro de história que tenha sido escrito antes do Século do Crepúsculo?
— Mas para que serviria um livro de história que não falasse do Século do Crepúsculo e do mundo de hoje?
— De qualquer maneira, os livros não podem ter ido, todos, parar no fundo do mar, certo? Quando as cidades foram alagadas, por que os livros de história do mundo antigo não foram resgatados?
— Não sei. — Sanja abriu as mãos. — Talvez não tenha dado tempo. Eles tinham que resgatar as pessoas. Talvez...
Um grito vindo de fora da nossa casa a interrompeu. Eu me levantei e andei até a janela. Vi um dos soldados — um baixinho de óculos — gesticulando para outros dois, que vieram correndo. Não cheguei a ouvir o que foi dito, mas depois de trocar algumas palavras, todos se dirigiram para a casa de chá. Eu não conseguia vê-la pela janela da cozinha, portanto, perdi os soldados de vista.
— O que foi? — perguntou Sanja.
— Sei lá. — Eu não conseguia me livrar da sensação de que eles podiam achar alguma coisa errada. Mas não havia nada para encontrar na nossa casa, na casa de chá ou no jardim. Ou será que havia?
Foi como se alguém tivesse derramado água gelada no meu coração. Compreendi, talvez pela primeira vez, que meus pais tinham compartilhado muito pouco comigo. Será que existia um mapa que indicava a localização da nascente no livro dos mestres do chá — um livro grosso de folhas pardas cheios de anotações na caligrafia do meu pai, que ele me deixava ler apenas em parte e sob sua supervisão? Ou talvez fosse um dos outros livros, trancados numa espécie de cristaleira na sala de estar, em que os mestres do chá antigos descreviam a cerimônia meticulosamente? Eu não sabia, e minha imaginação tecia rapidamente todo tipo de possibilidade; nenhuma delas acabava bem.
— Não precisa vir junto — falei para Sanja. — Não deve ser nada.
Ela me seguiu mesmo assim, enquanto eu colocava a xícara na mesa, vestia o capuz e caminhava lá para fora. O gramado estava cheio de furos e montes de terra dos quais a gente tentava desviar, mas reparei que o jardim de pedras e o canteiro de ervas que crescia próximo do limite da propriedade estavam intocados, exceto pelas pegadas de botas. Em meio à terra revolvida, meus passos eram inseguros, e a rota, pouco familiar.
Ao caminhar pela lateral da casa de chá, vi meus pais parados perto de um grande buraco aberto na grama. Embora não trocassem olhares nem se tocassem, dava para ver que, naquele momento, estavam unidos, como se fossem as colunas de pedra de uma construção antiga, ou os troncos entrelaçados de duas árvores que eu tinha visto certa vez na Floresta Morta. O comandante Taro estava do lado oposto da escavação, enquanto os outros soldados se juntavam ao redor do buraco. Parei alguns passos atrás dos meus pais. Sanja estava ao meu lado e, embora não olhasse para ela, sentia que estava perto de mim.
O buraco, fundo e sombrio, não deixava a luz forte do fim da tarde iluminá-lo por completo. Mesmo assim, dava para distinguir claramente algum tipo de construção feita pela mão do homem, uma espécie de muro e, mais lá no fundo, um líquido escuro que brilhava como uma lágrima no rosto da terra. Tentei captar a expressão no rosto dos meus pais e, pela segunda vez em um período tão curto, senti que eram como estranhos para mim. Eu não sabia de tudo e também não sabia da extensão do que ignorava. Um dos soldados extraiu do buraco um copo anexado à haste de um telescópio. Era um líquido escuro e lamacento, mas Taro apanhou o copo, levantou o capuz, enfiou os dedos dentro do líquido e os lambeu.
— Parece que existe água potável no fundo do poço — disse, encarando meu pai. — Presumo que o senhor não sabia disso...
— Se soubesse, teria lhe contado — respondeu meu pai, sem desviar os olhos.
— Você e sua família podem ir agora, mestre Kaitio — disse Taro. — Fique tranquilo que o manteremos informado sobre novas descobertas.
Lentamente, meu pai se virou para ir embora. Olhou para minha mãe, depois para mim, e sua expressão mudou. Ele se voltou para Taro e andou calmamente na direção do comandante, que ainda estava perto da escavação. Um par de soldados tentou impedi-lo, mas Taro fez um gesto para que o deixassem em paz. Meu pai parou em frente a ele.
Os dois permaneceram onde estavam, entre a terra, o céu e os escombros da casa de chá, um oficial alto em uniforme militar azul e um homem baixo, cujo cabelo já estava tingido de cinza, vestido com as roupas simples de um mestre do chá.
— Você acredita que pode ser dono de tudo — disse meu pai —, que seu poder alcança qualquer distância. No entanto, existem coisas que nunca serão escravas do homem. Vou dançar em sua cova um dia, Taro. Ainda que meu corpo não esteja mais aqui, meu espírito vai se encarregar disso, quando estiver livre da prisão dos meus ossos.
Taro inclinou a cabeça levemente, sem deixar de encarar meu pai.
— Pensando bem —disse ele —, agora que terminamos de escavar o chão, acho que é um bom momento para passarmos à casa. Liuhala, Kanto — chamou, dirigindo-se a dois soldados —, levem o mestre Kaitio e sua família e comecem a vistoria. E certifiquem-se de que ela seja completa.
Os dois soldados vieram na direção do meu pai, que não fez menção de se mexer. Pensei que ia bater em Taro, mas, finalmente, depois de olhar fixo para ele por um bom tempo, se virou e começou a caminhar na direção da nossa casa, sem olhar para trás. Os soldados o seguiram de perto. Minha mãe, que tinha observado a cena em silêncio, me pegou pelo braço e começou a andar, me puxando para junto dela.
Seus passos eram lentos e, quando já tínhamos nos afastado o suficiente, ela sussurrou para mim:
— Não temos nada a temer, Noria. Eu já fiz buscas no solo várias vezes e sei que não existe nenhuma nascente aqui. É apenas a água da chuva presa em um antigo poço de concreto.
— Por que não falou isso para eles?
— É melhor que descubram sozinhos. Isso vai humilhá-los e afastá-los da nossa casa. É possível que até se desculpem pelo ocorrido.
— Taro não vai se desculpar — falei.
Pensei na expressão do comandante, nos traços de um caráter que se mostrava inflexível.
— Não, ele não — admitiu minha mãe.
Quando entramos em casa, os soldados já tinham começado a abrir os armários e gavetas, tirando as coisas do lugar e atirando tudo no chão. Meu pai se curvou à porta da cozinha. Ele estava com a mão no peito, e percebi que sua respiração não estava normal.
— Você está bem? — perguntou minha mãe.
Ele não respondeu de imediato. Mas, após alguns minutos, endireitou as costas, alterou a expressão de dor do rosto e falou:
— Não é nada. Só fiquei sem ar.
Fico tentando pensar na minha mãe nessa ocasião. Em alguns momentos, acho que não havia nada no seu tom de voz ou nos seus gestos que sugerisse que ela sabia o que estava para acontecer. Mas, em outros, alguma coisa me faz pensar que ela já tinha entendido que meu pai começava a abandonar a vida. Não consigo encontrar nada que me dê certeza de uma coisa nem de outra. Há um abismo entre nós que nunca consegui cruzar, um abismo que nunca mudou de forma e que levou a um fim irreversível. Como não posso cruzá-lo, tenho que me contentar em andar pelas margens e deixar que o abismo seja parte da minha vida; essa é uma das fendas sombrias do meu ser, que não posso negar e que jamais poderei iluminar.
Minha mãe sabia. Minha mãe não sabia.
Sanja, que vinha perambulando alguns passos atrás de nós, ficou do lado fora da casa. Deixei meus pais observando os soldados revirarem nossas coisas e decidi acompanhá-la até o portão.
Parei na varanda. Não encontrei Sanja imediatamente. Mas logo a vi. Estava no caminho que levava à casa de chá. Um soldado loiro, que sempre acompanhava Taro e que, portanto, parecia ser seu oficial favorito, estava falando com ela. Não conseguia ouvir o que estavam dizendo e não podia distinguir a expressão do rosto de Sanja por traz do capuz, mas sua postura era tensa. O oficial disse alguma coisa e ela se remexeu, desconfortável. Caminhei na direção deles, e Sanja levou um susto quando me viu.
— Melhor eu ir — disse ela, se dirigindo a mim, ou talvez ao oficial.
— Cumprimente seu pai em meu nome — pediu ele, antes de caminhar de novo para a casa de chá.
— Foi colega de classe do meu pai — explicou Sanja, enquanto nos dirigíamos ao portão. — Ele me perguntou coisas estranhas.
Quando penso em Sanja agora, depois de tudo o que aconteceu, essa é uma das imagens que me vêm à cabeça sem que eu consiga controlar, uma imagem insistente: ela parada do lado de fora do portão, o cabelo preto solto, o corpo magro e anguloso coberto por roupas rudes e pobres. A sombra do capuz antimosquito escondendo seu rosto, e os galhos das árvores ao nosso redor se movimentando em um sussurro enquanto a levavam para longe de mim.
E eu não levantei a mão para me despedir.
Não disse uma palavra sequer para preveni-la.
Fiquei apenas parada observando a dança das sombras que as árvores desenhavam nas costas e nos braços dela. Não fiz nada. E ela foi embora sem olhar para trás.
Dois dias depois, os soldados finalmente recolheram os equipamentos e deixaram nossas terras. O soldado baixinho de óculos veio nos oferecer uma espécie de explicação: a água encontrada era da chuva e tinha se acumulado nas paredes de um antigo poço que não era usado havia décadas. Com o fim das buscas, ficou claro que não havia água corrente na casa ou no jardim que não viesse dos canos certificados.
A última coisa que eles fizeram foi arrombar o cadeado da cristaleira da sala e levar as três dúzias de livros de capa de couro dos mestres do chá. Quando os levaram para fora, meu pai protestou, amargamente:
— Vocês não vão encontrar nada de importante nesses livros. São apenas diários familiares de caráter pessoal. Além disso, eu podia ter fornecido a chave para vocês, se tivessem pedido.
Os soldados que levaram os livros sequer pararam para ouvir.
Deixaram o gramado cheio de buracos. A tentativa que fizeram de reparar os danos causados à casa de chá foi mínima. Meu pai caminhou em direção a Taro.
— Você vai mesmo deixar a casa de chá nesse estado? Tem alguma ideia de como pode ser difícil encontrar alguém para restaurá-la?
O olhar de Taro era sombrio, severo e fixo.
— Mestre Kaitio, como representante do Novo Qian, tenho o dever de investigar todas as possibilidades que possam levar à descoberta de água potável. Não é minha culpa se essas investigações foram infrutíferas.
E assim eles foram embora, sem pedir desculpas, sem qualquer compensação.
Eu tinha imaginado que, uma vez que os soldados fossem embora, as coisas voltariam a ser como antes, mas o estranho silêncio persistiu, como a água em calmaria antes da tempestade.
Eu estava esperando algum sinal da tempestade.
E, quando ela veio, foi da forma mais surpreendente.
Alguns semanas depois da investigação, ouvi meus pais conversando na cozinha.
— Eles vão voltar — disse minha mãe. — Não vão desistir.
— Eles não têm nenhuma razão para voltar — argumentou meu pai.
Minha mãe ficou em silêncio por um tempo e, por fim, falou:
— Já tomei minha decisão.
— Precisamos falar com Noria — disse meu pai.
Não tive tempo de voltar para o quarto, então fingi que estava saindo de casa. Meu pai veio na minha direção. E não precisei olhar para saber que ele se aproximava. Reconheci seus passos e sabia que ele estava parado logo atrás de mim.
— Noria — chamou, suavemente. Parei, me virei e olhei. Na meia-luz do corredor, uma rede de sombras se desenhava em seu rosto, iluminado pela luz azul-acinzentada que entrava pela janela. — Sua mãe quer falar com você.
Fui caminhando atrás dele até a cozinha, onde minha mãe estava sentada à mesa com uma xícara de chá vazia diante de si. Era como se as sombras do corredor tivessem se alargado e agora cobrissem tudo, brigando contra a luz do grande lampião pendurado sobre a mesa. Percebi o tom sombrio no rosto dela.
— Sente, Noria — disse ela.
Eu obedeci. Meu pai também se sentou, ao lado da minha mãe. Eles eram uma força unificada novamente, como no dia da escavação, duas colunas de pedra, duas árvores entrelaçadas.
— Seu pai e eu conversamos. Queremos oferecer para você uma vida em segurança, mas temos opiniões diferentes sobre como deve ser isso.
Ela ficou em silêncio e olhou para meu pai; era a vez dele:
— Noria, se você não quer ser mestre do chá, é hora de decidir. Estou convencido de que Taro vai nos deixar em paz agora que já pesquisou por todo o terreno. Duvido que ele sequer considere procurar pela nascente na colina e, se tiver essa ideia, ela está tão escondida que é pouco provável que encontre-a. Estamos seguros aqui. Infelizmente, sua mãe pensa diferente.
— Taro vai continuar o que começou — disse minha mãe. — Nossa vida não vai mais ser o que era. Eles já chegaram mais perto do que você pensa, Noria.
— Mas eles não chegaram nem perto da nascente — argumentei.
— Tem uma coisa que você não sabe — replicou minha mãe. — Conte para ela, Mikoa.
— Você sabe que usamos mais água do que muitas famílias — começou meu pai. — E sabe que parte da água que usamos vem da nossa cota e parte vem da nascente. Deve ter reparado na diferença.
A água usada nas cerimônias do chá precisava ter frescor, como se fosse recém-colhida na fonte. Isso era parte da arte do chá. Meu pai tinha me ensinado a provar a água a ser usada para o chá e sempre escolher a mais fresca e limpa, se houvesse opção. Para outras funções, usávamos a água que vinha dos canos que, no começo do mês, sempre tinha um gosto um pouco rançoso e salgado, por ser dessalinizada. Diferentemente das outras casas, na nossa não economizávamos água: ela nunca nos faltava e não precisávamos comprar a preços superfaturados de comerciantes locais.
— Usamos a nossa cota de água nas primeiras semanas do mês e depois passamos a usar a da nascente? — perguntei. — Mas como elas vêm pelo mesmo encanamento?
— Seria muito difícil carregar tanta água da colina para cá — explicou minha mãe. — E também levantaria suspeitas. Seria preciso usar um heliciclo e grandes recipientes, além de fazer visitas frequentes à nascente. Alguém acabaria descobrindo cedo ou tarde se o mestre do chá retornasse da colina várias vezes por semana com barris cheios. Não fomos os primeiros a perceber que isso seria impraticável. Não sabemos quando o encanamento foi construído, mas ele já existia na época do pai de Mikoa. Isso não está registrado no livro de nenhum dos mestres. Quem o construiu sabia que era perigoso demais deixar um registro por escrito. O encanamento é muito bem construído: ele vem do centro da colina e corre escondido embaixo da terra, onde se conecta ao encanamento certificado da propriedade. O único risco é que ele precisa ser aberto e fechado manualmente de dentro da colina. Tivemos sorte de o mecanismo estar fechado quando os soldados chegaram.
— O encanamento está tão escondido quanto a nascente — observou meu pai. — Encontrá-lo é praticamente impossível sem conhecer a localização.
— Eles são peritos em procurar e têm equipamentos complexos.
— Eles não têm nenhum motivo para voltar!
— Eles não têm nenhum motivo para não voltar!
Um silêncio se abateu. Depois de alguns minutos, meu pai falou, diretamente para mim:
— Sua mãe acredita que a casa do mestre do chá não é mais um lugar seguro para viver. — Ele olhou para ela e aguardou.
Percebi que minha mãe estava escolhendo as palavras com cuidado.
— Noria, recebi uma oferta de emprego como pesquisadora na Universidade de Xinjing. E aceitei.
— Nós vamos nos mudar para Xinjing? — perguntei. Eu não sabia direito a distância que nos separava da cidade, mas sabia que para chegar lá era preciso uma longa viagem pela costa sul do Novo Qian. E a viagem para atravessar o continente podia levar semanas, mesmo nos trens rápidos. Meus pais se entreolharam.
— Você já tem idade suficiente e, portanto, não podemos tomar esta decisão por você — disse minha mãe. — Quer ir para Xinjing comigo ou quer ficar aqui com seu pai? Não precisa decidir agora, mas terei que partir antes da Festa da Lua, então você tem um mês para pensar.
Olhei para minha mãe. Depois para meu pai. Minha garganta estava apertada. Na direção do vilarejo, próximo do mercado, os soldados afiavam suas armas e não ouviam súplicas. A qualquer momento, poderiam voltar a atenção para nós mais uma vez, isso se haviam mesmo desistido. Eu não tinha como saber qual dos meus pais estava com a razão, e não podia ficar e ir ao mesmo tempo.
A escolha já estava clara para mim. Mas ainda não tinha dito nada por medo de que ela pesasse sobre o resto da minha vida. Ainda assim, o silêncio era pior.
Resolvi abrir a boca e dizer a eles o que queria fazer.