Memória da Água
Capítulo Dezesseis
Os moradores da casa de tijolos foram executados no dia em que tudo estava pronto para a nossa partida, duas semanas depois de eu ter conseguido o helicarro. Eu não vi nada. Só percebi que havia manchas cor de ferrugem no jardim e que a mobília tinha sido tirada da casa. De canto de olho, e de certa distância, vi uma placa pregada à porta, separando em dois o círculo azul.
— Não olhe — disse Sanja, mas olhei mesmo assim, só para depois desejar não ter olhado.
Isso era o que mais se fazia ultimamente: tentar desviar o olhar das coisas que estavam acontecendo e, ao falhar em fazê-lo, tentar levar a vida como se não tivéssemos visto nada. De repente, essas imagens pareciam grudar na gente, colar na pele, se avizinhar do coração. Quando eu caminhava pelas ruas, via pessoas carregando essas marcas dentro de si: enterradas, mas não fundo o suficiente para impedir o aspecto sombrio de seus rostos, se alternando com a luz do dia.
Estávamos a caminho do lixão dos plásticos. O céu se mesclava em branco, cinza e azul, mudando de cor como se fosse o mar. Não era possível dizer se ele estava acinzentando para dar as boas-vindas a uma tempestade ou se estava abrindo para deixar passar a luz. Os discos prateados pesavam na minha bolsa.
— Deveríamos escondê-los — disse Sanja. — Em algum lugar onde ninguém desconfie, mas que possam ser encontrados. Aqueles que gravaram os discos iriam querer que mais gente soubesse. Eles perceberam que podiam mudar tudo se as pessoas soubessem sobre as guerras pelo petróleo no mundo antigo. A gente devia dar essa chance a outras pessoas.
Compreendi o que Sanja estava tentando dizer. Não tínhamos falado a respeito, mas sabíamos que havia um se não voltarmos. Isso tinha passado pela minha cabeça e pela dela também.
Caminhamos pelo lixão dos plásticos, onde os restos pontudos das massas de resíduos estalavam sob nossas sandálias. Chegamos à carcaça do veículo do mundo antigo, perto do lugar onde eu tinha encontrado o primeiro disco prateado da expedição Jansson.
Eu havia selado os discos na mesma caixa de metal em que os encontrara na nascente e embrulhado todos no mesmo pedaço de pano e na mesma embalagem de plástico. Tirei a caixa da bolsa. Sanja cavou um buraco onde um dos pneus traseiros tinha estado e colocamos os discos ali. Pensei na voz feminina que narrara a última gravação e silenciosamente agradeci. Ela, a filha de um mestre do chá de outro tempo, tinha apostado numa exploração perigosa muito antes de nós, e tinha nos mostrado que isso era possível. Sem ela, talvez eu nunca tivesse reunido coragem para colocar meu plano em prática. Depositei um pouco de lixo por cima da caixa e cobrimos tudo com um emaranhado de sacolas plásticas. Nada dava a entender que havia alguma coisa importante escondida naquele lugar.
Sanja se virou para ir embora, mas pedi que esperasse.
Escalei o painel do veículo e coloquei a mão no buraco. Tirei dali uma caixa plástica. Não era pesada, e os itens dentro dela se mexiam fazendo ruídos.
— Você se lembra disso? — perguntei.
O rosto de Sanja se iluminou.
— Eu tinha esquecido! — exclamou. — O que colocamos dentro dessa?
Sanja se aproximou e examinou o ano que havíamos pintado na tampa da caixa para marcar quando deveríamos abri-la.
— Ainda faltam uns vinte anos — falei.
— A gente tinha uma cláusula — lembrou ela. — Não abrir antes da data acordada, exceto em circunstâncias extremas.
— Você acha que estamos em circunstâncias extremas?
Sanja sorriu, mas dava para ver que havia certa seriedade em sua voz quando ela respondeu:
— Se essas não são circunstâncias extremas, não faço ideia de quais podem ser.
Olhei para Sanja. Ela também me olhou e assentiu. Segurou a caixa virada para mim. Eu abri a tampa, depois de quebrar o selo. Dentro estava pintada a data de dez anos antes. Tínhamos 8 quando coletamos os tesouros e os fechamos na cápsula do tempo. Aproximamos as cabeças para examinar o conteúdo. Havia um cadeado de metal gasto e uma chave que não servia nele, uma página amarela cheia de letras miúdas — devo ter arrancado de algum dos livros da minha mãe —, algumas pedras lisas e um par de óculos rachado, com uma das hastes quebrada. As lentes eram de cores diferentes: uma azul e a outra vermelha.
— Me lembro desse — comentou Sanja. — Os óculos mágicos.
Eu me lembrava de um jogo que fazíamos com os óculos: como exploradoras-espiãs, nos revezávamos com os óculos, olhando através das paredes e descrevendo lugares secretos uma para a outra.
— Você acha que a gente deveria levar alguma coisa? — perguntei. — Pra dar sorte?
— Cada grama de peso a mais pode nos atrasar um pouco — observou Sanja. Ela estava certa, claro. Coloquei os óculos de novo na caixa e já ia fechar a tampa quando ela disse: — Espera aí.
Sanja me entregou a caixa, desfez o nó da pulseira gasta de algas que trazia no pulso e a colocou junto com os outros itens.
— Você também — disse ela.
— Você está com o seu canivete? — perguntei.
Sanja me entregou o canivete que estava no bolso. Apoiei a caixa no painel do carro, preparei a lâmina e cortei uma mecha do meu cabelo.
— É tudo o que tenho — falei, devolvendo o canivete.
Enrolei a mecha num dos dedos, dei um nó frouxo e a coloquei ao lado da pulseira. O nó soltou um pouco e a mecha se moldou à pulseira em um enrolado desajeitado: meu cabelo escuro e a pulseira que Sanja carregava no pulso, juntos num círculo que não podia ser quebrado, sem começo e sem fim. Sanja fechou a tampa, cuidando para encaixar as partes do selo que tinham sido quebradas para abrir a caixa.
Era como se estivéssemos tomando precauções contra a mortalidade, como se estivéssemos lançando um feitiço que não podia ser desfeito. Se não voltássemos, teríamos deixado algo nosso — mesmo que fosse uma coisa infantil, sem nome nem valor, mas uma coisa escolhida para ser preservada, uma marca das nossas vidas deixada para trás.
Foi o que pensei.
E acredito que Sanja também.
Eu ainda quero acreditar nisso.
Quando deixamos o lixão dos plásticos, minha amiga disse:
— Vejo você de noite. — Seu corpo parecia magro e anguloso nas roupas de tecido bruto. A sombra do capuz antimosquito recaía levemente no rosto. Ela saiu andando e não olhou para trás.
Depois que Sanja saiu, caminhei com certa dificuldade sobre os resíduos até chegar no helicarro, para checar se tudo estava em ordem. A parte de baixo da ponte cheirava a terra remexida e lixo. Chequei os itens que estavam estocados na parte de trás do helicarro. Tinha calculado cuidadosamente a quantidade de comida e água e colocado porções extras por segurança, mas pouca coisa. Não sabia se minhas estimativas seriam precisas e qual a velocidade que conseguiríamos atingir; também não sabia quais seriam as condições das estradas uma vez que tivéssemos cruzado a fronteira. Embora estivesse com grandes expectativas, não havia garantias de que encontraríamos água, então havia um espaço reservado para carregar água potável.
Ajeitei os sacos de frutas secas, sementes de girassol e amêndoas, com o intuito de reservar espaço para mais um cantil de água que tinha trazido comigo. Transportar água era nossa principal dor de cabeça, porque sabíamos que os soldados iriam nos parar para revistar o veículo. No entanto, depois de ter acompanhado os esforços dos moradores do vilarejo para levar água da casa do mestre do chá para as próprias residências, conhecíamos todos os mecanismos possíveis para fraudar e contrabandear água. Sanja tinha feito alguns ajustes cuidadosamente planejados no helicarro e o resultado era uma obra de arte: havia removido os assentos e criado um espaço vazio fechado à chave embaixo — e fizera isso com tal maestria que era difícil suspeitar que o veículo tivesse sido modificado. Sob o fundo falso do veículo, era possível acomodar cantis suficientes para uma semana, e, além disso, tínhamos construído outros compartimentos secretos dentro das embalagens de comida. Para cobrir os produtos no helicarro, havíamos produzido uma cobertura feita de lona e plástico, embaixo da qual também poderíamos dormir.
Uma das minhas preocupações eram os vaga-lumes. Eu não sabia quantos conseguiríamos encontrar no caminho — e os que levaríamos conosco não viveriam até a volta. Ainda era verão, e a luz do dia se estendia, infinita. Ainda assim, em apenas poucas semanas, a escuridão começaria a aumentar gradativamente e, antes que duas luas cheias tivessem passado, a Festa da Lua marcaria a virada da estação e o começo do inverno. Embora nosso plano fosse voltar ao vilarejo bem antes, ficar sem lampiões poderia ser um problema e atrasar a viagem. Esse pensamento também me preocupava por outra razão: não sabíamos o quão profundamente a água estava escondida nas veias da terra, nem o tipo de escuridão que teríamos de enfrentar para encontrá-la. Sanja tinha consertado duas lanternas solares, mas a luz era mais fraca que a dos lampiões, e uma delas estava sempre produzindo ruídos e piscando. Ela havia me dito, decepcionada, que não conseguira encontrar fios decentes. Teríamos que ir com essas mesmo.
Sanja não havia contado a ninguém sobre nossos planos, nem mesmo aos pais. Disse que não queria preocupá-los. Acho que não teria conseguido se manter firme na decisão de ir comigo se eles tivessem pedido para ela ficar.
Estiquei a lona de plástico por cima do helicarro e empilhei alguns galhos secos e resíduos do lixão por cima. Quando fiquei satisfeita com a camuflagem, saí caminhando sob a forte luz do dia. Tínhamos fechado a entrada para o local com um monte de resíduos, e eu espalhei mais um pouco de lixo para que a passagem ficasse impedida.
O céu estava da cor de líquen nas rochas ou de feridas abertas. As primeiras gotas de chuva caíram no tecido da minha camisa quando eu já estava saindo do vilarejo e foram engrossando até ensopar totalmente minha pele. Quando cheguei à estrada que desembocava no portão de casa, minhas calças pingavam e uma placa de lama se agarrava ao tecido. O cheiro fresco de madeira e grama molhada tomava o ar.
Por puro hábito, eu tinha colocado caixas vazias no jardim na manhã anterior depois de checar o céu — fazia isso mesmo que não houvesse esperança de chuva. Pensei em deixar os recipientes onde estavam, para que os moradores do vilarejo pudessem levar a água da chuva para suas casas quando percebessem que não havia ninguém em casa. Seria a última coisa que poderia oferecer por um tempo. Jukara os levaria à caverna antes de eu retornar, eu sabia. Suspeitava até que ele já tinha ido até lá secretamente algumas vezes, mesmo que eu tivesse pedido que evitasse fazê-lo, porque um aumento no número de moradores andando pela colina não passaria despercebido aos soldados.
Fechei os olhos e fiquei na chuva. Tirei as sandálias para pisar na grama escorregadia, que parecia se mexer, desenhando formas secretas nas minhas solas. A água escorria do meu cabelo para o pescoço, molhando minhas costas e braços, pingando na ponta do nariz. Tirei as roupas como se fossem uma pele antiga e me senti renovada e pronta.
O recipiente de madeira que eu tinha colocado nos degraus da varanda estava quase cheio.
Entrei em casa, coloquei roupas secas e me sentei no chão.
Até então eu tinha tentado manter a casa, pelo menos superficialmente, como era na época dos meus pais — apesar de saber que ela passara a ter um movimento próprio, uma vontade de mudança. Eu ainda faria um esforço para fazer tudo igual por mais um tempo, mas minhas razões mudaram. Queria ter certeza de que, quando os moradores viessem até a casa, depois de termos viajado, nada nos cômodos denunciaria que eu havia me afastado bastante e que ficaria fora por um bom tempo. Deixei roupas nas cadeiras, como se só tivesse as colocado para tomar um ar. Deixei um livro, que não tinha intenção de levar comigo, aberto e virado para baixo no sofá da sala de estar. Deixei uma meia xícara de chá na mesa da cozinha. Não limpei mais nada. Queria deixar para trás uma impressão de que a vida continuava por ali, a ilusão de imobilidade para mascarar uma grande mudança. Queria atrasar as suspeitas dos moradores pelo maior tempo que fosse possível.
Até a noite ou a manhã seguinte.
Tudo estava pronto.
Tranquei a porta e varri o caminho de pedras que levava à casa de chá. As folhas ensopadas de chuva e a grama molhada se agarravam às cerdas da vassoura. Deixei-a recostada na parede da varanda da casa de chá.
Caminhei até o jardim de pedras, onde havia três tipos de ervas. A chuva tinha parado e as gotas de água brilhavam nas folhas estreitas. A sepultura do meu pai estava coberta de grama e nada mais a distinguia do resto do gramado. Queria dizer alguma coisa para ele, mas minha boca se selara em silêncio.
A areia do jardim de pedra estava irregular por causa da chuva. Peguei o rastelo e trabalhei até que ficasse lisa. As marcas dos dentes de metal ondulavam entre as pedras como a água flui na escuridão da terra, sem aumentar ou diminuir o ritmo. Minha bolsa pesava nos ombros e, no jardim, as sombras já começavam a se alongar. Passei pelo portão.
Quando cheguei à ponte, tudo parecia em ordem. A passagem estava coberta de lixo e não havia nada que sugerisse que o lugar tinha sido visitado depois de eu tê-lo deixado. Sanja ainda não havia chegado. Retirei uma cadeira quebrada e uns rolos de cabo para manobrar para fora do esconderijo.
Não consegui apreender o que vi, a princípio. Levou um tempo para que meus olhos se ajustassem ao espaço vazio embaixo da ponte. E levou ainda mais tempo para eu entender o que isso queria dizer.
O helicarro e o carrinho acoplado a ele tinham sumido.
Fiquei sem ar, senti um soco no estômago. Era como se eu tivesse engolido um enorme bloco de gelo.
Enviei uma mensagem ao message-pod de Sanja e, em seguida, ao aparelho da família dela. Não houve resposta. Sem saber o que fazer, comecei a caminhar na direção da casa dela. Peguei um atalho pelo lixão dos plásticos. Meus pés escorregavam na superfície molhada e em fissuras sombrias que tinham se aberto nos resíduos do passado. Passei por algumas pessoas que procuravam água barrenta no riacho nos limites do lixão. Algumas delas tentavam pegar água da chuva diretamente em seus cantis e baldes. Passei por várias casas onde as pessoas deixavam que a água que caía do céu lavasse seus rostos, corpos e mãos sedentos.
Virei na rua da casa da Sanja e parei.
Havia soldados de uniforme azul do lado de fora da casa.
A porta estava aberta, e tenho certeza de uma coisa: não havia círculo azul naquela porta, era apenas o mesmo cinza desbotado de sempre. Não vi Sanja nem seus pais, mas os soldados continuavam entrando e saindo da casa e percebi que dois deles caminhavam em direção à oficina de Sanja.
Um guarda alto estava parado no jardim e, quando se virou, pude reconhecê-lo, apesar da distância. Era Muromäki. O homem loiro que estava logo abaixo de Taro na hierarquia do exército.
Virei rapidamente e tive que me controlar para não correr. Meus pés estavam pesados e a lama cobria a rua. As nuvens estavam baixas, cobrindo o topo da colina e desaguando seu peso sobre nós.
Diante das novas circunstâncias, caminhei de volta para a casa do mestre do chá e esperei.
Ninguém apareceu na estrada. As luzes dos meus message-pods não piscaram. O mundo não girou mais rápido nem mais devagar.
Depois da meia-noite, fui para o meu quarto e deitei na cama, sob o crepúsculo cinzento da noite nublada. Não podia dormir, mas também não conseguia me mexer. Perto do amanhecer, caí no sono por algum tempo e, quando acordei, não podia respirar. Fui até a varanda tentar recuperar o fôlego com ar puro.
As nuvens tinha ido embora. O brilho da manhã machucava meus olhos. Caminhei pela grama molhada até o laguinho que havia se formado no meio do jardim. Quando me inclinei para beber daquela água, vi meu próprio reflexo por um instante, antes de ele se desintegrar.
Ouvi a porta se fechar sozinha com um leve rangido das dobradiças.
Olhei para a casa.
A tinta que dava vida ao círculo azul pintado na porta ainda estava fresca, brilhando na manhã luminosa, como um pedaço do céu.