Memória da Água

Emmi Itäranta · Capítulo 15 de 22

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Memória da Água

Capítulo Catorze

 

Uma vez que o espaço de silêncio que envolve um segredo foi quebrado, não é possível fazê-lo inteiro outra vez. As lascas vão crescendo e se alargando como as raízes de uma árvore por baixo da terra, até que é impossível dizer como tudo começou e se vai parar de se espalhar.

Ainda não sei ao certo como o boato correu pelo vilarejo. Acho que Jukara não teria interesse em espalhar a notícia. O acesso à nascente era um privilégio grande demais e lhe dava um enorme poder. Ele não teria aberto mão disso voluntariamente. Agora entendo isso, porque em algum lugar, para além das palavras e da luz, em um lugar que eu mesma não podia ver, tinha sentido o mesmo: a nascente era meu privilégio, minha compensação por um dever que, de outra forma, não seria recompensado. Eu ainda não tinha compreendido que uma pessoa não deve esperar recompensas por suas ações.

Talvez Jukara tenha contado a Ninia. Ele deve ter feito isso, porque não poderia enganá-la para sempre com alguma história sobre os oficiais terem de repente se tornado complacentes, e não teria explicações suficientes para suas visitas à casa de chá — não quando se têm uma esposa como Ninia. E contar algo a ela era o equivalente a convocar uma reunião do vilarejo e anunciar as novidades. Sussurros foram crescendo até se tornarem fofocas, que chegavam aos que não estavam presentes nas conversas.

No final das contas, não interessa como todos acabaram descobrindo sobre a nascente. Isso não muda os fatos. Quando uma mulher com cabelo oleoso e roupas sujas apareceu no meu portão com três crianças magricelas perguntando em uma voz frágil se eu poderia vender água a crédito, não havia como dizer não. Depois dela, vieram outros: um garoto de olhos grandes que dizia que seus pais estavam doentes demais para trabalhar, um homem de idade que ficava murmurando sobre o filho que tinha desaparecido na guerra, e mais mulheres — moças com bebês, senhoras de úteros secos e andar vacilante, mulheres de meia-idade pedindo água para pais ou esposos ou crianças. Coloquei uma braçadeira de couro em Mai Harmaja para manter o cantil bem preso.

— Está apertado demais? — perguntei.

— Não, pode apertar mais um pouquinho — respondeu Mai. Obedeci. — Agora está firme.

O cantil já estava bem preso ao braço dela e parecia que a pele estava ficando meio roxa no lugar da braçadeira. Mas Mai abaixou as mangas e jogou um xale fino sobre os ombros — não dava para imaginar que havia cinco cantis presos por baixo de suas roupas: dois nas coxas, dois nos braços e um no pulso. A água fazia um barulhinho enquanto ela caminhava na varanda. Mai era uma das voluntárias do vilarejo no centro médico, e a terceira pessoa que eu recebia naquele dia.

— Alguém se aproxima — avisou Vesa, filho de Mai, lá do portão.

Seus passos levantaram uma densa nuvem de poeira contra a luz do dia quando ele se aproximou da casa correndo. O menino tinha 9 anos e estava se sentindo importante, porque Mai dera a ele a tarefa de vigiar a estrada principal que levava do vilarejo à casa de chá. Sua tarefa era nos avisar imediatamente se alguém aparecesse.

— Eles estão vindo num helicarro.

— Vá para dentro da casa de chá — falei para Mai. — E me espere lá. — Ela assentiu. — Você também, Vesa. — Mai foi se afastando na direção da casa de chá pela trilha de pedras, e Vesa foi correndo atrás dela.

Eu tinha que ser rápida. Corri para o quarto e coloquei a roupa de cerimônia (que sempre guardava limpa e passada). Depois, dei uma checada na varanda para ver se não tinha deixado nenhum cantil cheio por ali. Fui andando em direção ao portão. Parei num morrinho perto dos sinos de vento pendurados no pinheiro e olhei para a estrada. No helicarro que se aproximava, distingui um motorista e dois homens de uniforme azul, cujos rostos eu não conseguia reconhecer. Sabia que tinha agendado uma visita para quinta-feira, mas ainda era quarta. Será que eu tinha errado a data? Sempre tentava manter a casa de chá limpa para que pudesse realizar uma cerimônia em cima da hora, se necessário, mas detestava visitas para as quais não tinha tempo de me preparar. E eu ainda precisava tirar Mai e Vesa de lá com seus cantis sem que isso parecesse estranho.

Felizmente o encanamento que vinha da colina estava fechado. Eu só ousava deixá-lo aberto um dia na semana, porque se uma patrulha da água viesse inspecionar o terreno, não saberia explicar como tinha água encanada se o fornecimento estava cortado para todo o vilarejo. Assim, estocava o máximo que podia quando o encanamento estava aberto, e normalmente enchia os cantis dos moradores do vilarejo com essas reservas. Fiquei aliviada por ter tomado esse cuidado.

O helicarro passou por entre as árvores e veio se aproximando até parar embaixo do telhado de algas, ao lado do portão. Quando os convidados desceram do banco de trás, observei seus rostos e fiquei assustada. Um dos oficiais era um estranho, mas o outro era o mesmo soldado loiro que eu tinha visto no portão da casa de Sanja algumas semanas antes.

— Bem-vindos à casa do chá — falei, fazendo uma reverência. — Posso perguntar a que devo a honra da visita?

O soldado loiro respondeu meu cumprimento.

— Acredito que ainda não fomos apresentados. Sou o tenente Muromäki e trabalho para o comandante Taro. Este aqui é o capitão Liuhala. — Ao ser apresentado, o capitão balançou a cabeça, me cumprimentando. — Venho aqui por recomendação do major Bolin. Acredito que você estivesse nos esperando para uma cerimônia.

Meus pulmões se contraíram e minha respiração falhou. A cerimônia tinha sido marcada por escrito, como de costume, e quando eu lera o nome Muromäki, não fizera a conexão com seu rosto. Tentei fazer a voz soar firme quando respondi:

— Estava esperando os senhores amanhã, tenente Muromäki. A carta que recebi mencionava a data de amanhã, e confirmei essa data na resposta.

Muromäki assentiu. Parecia um cachorro farejando no vento o cheiro da presa.

— Isso é estranho, senhorita Kaitio — disse ele. — Tenho certeza de que ditei a data certa para o escriba. Amanhã não será possível.

— Tenho convidados neste momento. Mas eles já estão prontos para partir. Se os senhores puderem esperar meia hora, terei tempo de arrumar a casa de chá novamente. Infelizmente, os doces não estão tão frescos. Eu tinha a intenção de preparar uma nova leva amanhã de manhã, antes da chegada dos senhores.

— Se a senhorita tem convidados, por que não está na casa de chá? — perguntou Muromäki.

— Esqueci os doces aqui.

— Voltaremos em meia hora, então — disse Muromäki.

Fiz uma reverência, e ele e o companheiro retornaram para a sombra onde estava o helicarro.

Fui à cozinha e encontrei meia cumbuca de doces antigos em um dos armários. Chequei rapidamente se eles não estavam mofados ou com gosto ruim: estavam secos, mas não rançosos. Teriam que servir. Levei a cumbuca para a casa de chá. Já ia entrando pela porta de correr dos visitantes, mas no último minuto me lembrei de usar a entrada dos mestres do chá, por trás da construção. Mai e Vesa olharam para mim com olhos inquisidores quando entrei na sala.

— Vocês precisam ter cuidado — avisei. — Há dois soldados no portão. Eles acham que vocês são meus convidados. Eu os acompanharei até o portão. Quando saírem, agradeçam pela cerimônia, me chamem de senhorita Kaitio e façam uma reverência. Tem certeza de que consegue carregar todos esses cantis sem dar na vista? — perguntei para Mai.

Seu rosto estava assustado, e ela havia começado a roer a unha do mindinho.

Mai treinou alguns movimentos, como que testando se seus músculos de fato aguentariam o peso.

— Sim — respondeu.

— Vocês estão prontos?

Mai olhou para Vesa. Ele assentiu, mexendo com a cabeça para cima e para baixo várias vezes. Depois disso, ela me confirmou que estavam prontos. Apontei para a porta dos visitantes.

— Quando já estiverem do lado de fora, esperem por mim.

Eu tinha a impressão de que os cantis estavam fazendo muito barulho a cada passo em direção ao portão. Observava os movimentos de Vesa com o canto do olho, com medo de que ele começasse a saltitar ou fazer qualquer outra coisa que o reprovaria como um convidado para a cerimônia.

Quando finalmente chegamos ao portão, fiz uma reverência a Mai. Ela me devolveu um cumprimento tenso, imitado por Vesa.

— Obrigada, mestre Kaitio. Foi um prazer visitá-la.

— Obrigada, senhora Harmaja. Que águas limpas fluam em seus caminhos.

Muromäki tinha saído do helicarro para esticar as pernas. Quando Mai e Vessa já estavam pegando a estrada, ele disse a Vesa:

— Você é meio jovem para participar de uma cerimônia do chá.

Vi de relance o tremor de Mai, mas ela conseguiu se controlar surpreendentemente. A presença de guardas da água e soldados vigiando o vilarejo tinha nos ensinado a dissimular: músculos, rostos e línguas ainda guardavam uma memória de como era viver em circunstâncias normais, e sabíamos lançar mão disso quando necessário.

— Estou tentando ensinar boas maneiras ao rapaz. Ele quer ser um oficial quando crescer.

Muromäki sorriu e me fez pensar num cachorro caçador novamente.

— É mesmo? Boa sorte em sua carreira, parceiro — disse ele, passando a mão no cabelo de Vesa.

Mai fez uma reverência a Muromäki e conduziu Vesa pela estrada.

— Até mais ver, senhora! — disse Muromäki na direção dos dois.

Eles foram andando lentamente, e os passos de Mai eram pesados. Vesa olhava o tempo inteiro por sobre o ombro, com os olhos arregalados, mas Mai o fez andar mais rápido e olhar para a frente. Seus movimentos eram tensos.

— Soarei o sino quando tudo estiver pronto — falei para Muromäki. E a cada passo que dava em direção à casa de chá, me perguntava se ele tinha notado alguma coisa estranha.

As xícaras batiam umas nas outras enquanto eu tentava colocar todas as peças na bandeja, no chão da casa de chá, mas Muromäki não deu sinais de notar o tremor das minhas mãos. Tentei esconder o nervosismo por trás das formalidades da cerimônia: deixei os movimentos que me eram tão familiares fluírem enquanto, ao mesmo tempo, tentava ler os sinais de suspeita no rosto dele. Não vi nenhum. Estranhamente, Muromäki conhecia bem a etiqueta da cerimônia e não fez perguntas incomuns. Ele falava com Liuhala em voz baixa e nada em seus modos sugeriu que sua visita fosse mais do que um breve descanso do trabalho.

O leve borbulhar da água no caldeirão me relaxou. Pensei na ideia que estava no centro das cerimônias de chá: todos são iguais na cerimônia, mesmo que suas vidas jamais se cruzem fora dos limites da casa de chá. Lentamente, fui me convencendo de que ele viera somente para descansar e que não estava sob o comando de Taro — e que a confusão nas datas tinha de fato sido um mal-entendido. Muromäki não mencionou mais o nome de Taro e não falou de nada além da qualidade do chá, do conjunto de chá e de como o último inverno fora mais frio do que o usual. Me peguei pensando: será possível um mundo em que as pessoas não precisem escolher lados, onde todos possam sentar juntos para beber chá sem que um exerça o poder e faça os outros viverem com medo? Esse era o mundo com o qual os mestres do chá sempre sonharam, o mundo que construíram e preservaram — será que esse mundo teria existido um dia? Seria possível um mundo assim?

Nesse mundo, que talvez não fosse o nosso, Muromäki me cumprimentaria e aceitaria o chá oferecido, e eu não precisaria rotulá-lo como amigo ou inimigo.

Nesse mundo, eu o cumprimentaria no final da cerimônia e caminharia com ele até o portão. A ilusão de um espaço em que o poder não existisse se misturava às sombras da casa de chá. Caminhei com Muromäki e Liuhala até o portão, sem saber se acabara de servir um amigo ou um inimigo.

Nas semanas que anteciparam o solstício de verão, quando a água ainda fluía em segredo da colina para a casa de chá e os moradores da vila achavam as formas mais diversas de transportar essa água para suas casas — embaixo das roupas, dentro de compartimentos com fundo falso, embaixo de toras e móveis que fingiam estar vendendo ou mandando para fazer reparos, e assim por diante —, gastei todo o tempo livre fechada no quarto examinando mapas e anotações. Olhava para os nomes dos lugares e depois para as estradas que levavam a eles, estimando se seriam utilizáveis, medindo distâncias, pesquisando o terreno e tentando calcular quanto tempo levaria para viajar de helicarro de um lugar para o outro. Passei uma semana calculando as horas e dias que levaria para chegar às Terras Perdidas e voltar, estimei a quantidade de comida e água que o helicarro poderia acomodar, e o quanto o peso dessas coisas deixaria a viagem mais lenta. Capturei um punhado de vaga-lumes dentro de um lampião e passei um tempo jogando pedaços de frutas para eles com o intuito de checar quanto tempo viveriam e produziriam luz se eu os mantivesse presos.

Enfim, num dia nublado, e com o verão já avançado, contei a Sanja sobre o plano.

Estávamos sentadas em almofadas no chão da oficina dela. Eu estava com meu caderno de anotações no colo. Uma enorme mosca presa dentro da oficina zumbia pelas paredes de tela, indo do chão ao teto sem parar. Sanja estava colocando o disco prateado marcado com o número sete na máquina do mundo antigo. Os outros seis estavam empilhados na caixa onde ficavam guardados. Este tinha sido o único que não havíamos ouvido por inteiro.

— Sanja — falei —, você já pensou como devem ser as Terras Perdidas hoje em dia?

— Por que eu me importaria com isso? — perguntou ela, pressionando a tampa do aparelho. Dei de ombros e não respondi. Ela levantou a cabeça e olhou para mim. Seus olhos se estreitaram. — Você não pode estar falando sério.

— Por que não?

E acho que só então me dei conta do quanto eu estava falando sério. Peguei o mapa que tinha enfiado na bolsa antes de sair de casa.

— Noria, você não tem nada, apenas alguns fragmentos do passado. Mesmo que a expedição tenha sido real, não temos o registro inteiro da jornada. Se havia água potável nas Terras Perdidas durante o Século do Crepúsculo, nada garante que haja agora. E como você faria para chegar até lá?

— Pelas estradas. — Abri o mapa no qual tinha desenhado as rotas possíveis. — Rovaniemi é na fronteira com as Terras Perdidas. Acho que consigo arranjar um helicarro, e então vai ser fácil chegar. Pesquisei esses mapas, os livros antigos, as anotações e as notícias dos dias atuais também. Tenho praticamente certeza de que existem várias rotas não vigiadas que se cruzam ao norte da fronteira de Rovaniemi. As estradas do mundo antigo eram largas e bem construídas, foram feitas para veículos rápidos. Muitas delas ainda devem estar em condições de uso, porque tem gente que mora nessas áreas, bem do lado das Terras Perdidas. A expedição Jansson usou as estradas do mundo antigo, nós podemos usar a mesma rota...

— Espere — interrompeu ela —, o que quer dizer com “podemos”?

Percebi que tinha falado no plural sem pensar. E corei.

— Achei que talvez você quisesse vir comigo — falei, e depois fiquei muda, constrangida.

Sanja olhou para mim e me dei conta de que eu nunca tinha pensado em fazer a viagem sozinha. Em todos os meus sonhos ela estava comigo, me ajudando a ler os mapas, servindo de navegadora, escalando as montanhas e explorando as cavernas. Eu não tinha considerado a hipótese de ela não querer vir ou de ter que ir sozinha.

— Noria — começou Sanja, e a expressão do seu rosto era suave, apesar das palavras que seguiram. — Como eu poderia ir? Minha mãe, meu pai e a Minja não podem se virar sem mim. Não posso abandoná-los. Além disso, todas as estradas estão sendo vigiadas. Como eu conseguiria chegar a Rovaniemi, ou até mais longe? Eu não tenho um passaporte falso como você.

— Você disse que poderia hackear um.

— Talvez. — Sanja suspirou. — Mas há muitos “talvez” em seu plano. E se, se de fato conseguíssemos chegar nas Terras Perdidas e não houvesse nenhuma água lá? Seria uma enorme perda de tempo.

— Eu sei que existe água lá. Tem que existir.

Sanja não se deu por vencida.

— Mesmo que exista. E daí?

Ela estava certa, claro. Mesmo que encontrássemos água — eu encontrasse —, não teria como trazê-la para o vilarejo. Quantos moradores estariam dispostos a partir para uma terra estranha apenas pela promessa da água? E mesmo que alguns estivessem desesperados o suficiente para procurar um novo lugar para morar, as Terras Perdidas eram território proibido, inacessível. Uma ou duas pessoas tinham chance de conseguir entrar, mas quanto mais gente fizesse a viagem, mais difícil seria.

Para mim era insuportável pensar em desistir de um plano que tinha me tomado semanas e meses. Eu talvez estivesse disposta a deixar para lá, a enterrá-lo sob o jugo da impossibilidade, não fosse o que aconteceu mais tarde naquele dia.

Sanja ligou a máquina do mundo antigo. O disco começou a girar em seu ritmo e uma voz masculina registrou a data, que eu já tinha anotado. Ele falou sobre resultados da pesquisa e condições climáticas. Fui seguindo minhas anotações e comecei a transcrever o que ele estava falando quando a gravação chegou no ponto que ainda não tínhamos escutado. Depois de mais ou menos meia página de anotações novas, a voz de repente parou no meio de uma palavra. Deu para ouvir um clique, depois alguns sussurros e, então, uma voz feminina: “Nova tentativa. Nils, se você ouvir isso, me desculpe por gravar em cima da sua fala, mas é muito importante.” Ela ficou em silêncio por um instante.

Olhei para Sanja e percebi que ela também tinha reconhecido a voz. Ultimamente eu estivera tão preocupada em estudar as rotas de viagem da expedição Jansson que havia quase esquecido a mulher cuja narração fora interrompida no primeiro disco. Não havia nenhuma gravação dela nos outros discos. Mas eu tinha certeza de que essa era a mesma voz, e a empolgação me prendeu a ela como um peixe na rede. O abismo entre o momento atual e o Século do Crepúsculo tinha se fechado. Prendi a respiração, enquanto as palavras da mulher fluíam pela sala.

“É difícil saber por onde começar. A história não tem começo e fim, existem apenas alguns eventos, aos quais as pessoas emprestam o verniz de uma lenda, com o intuito de compreendê-los melhor... E quando se vai contar uma história, o contador deve escolher o que vai deixar de fora...”

Ela continuou a falar, e nós continuamos a ouvir, e todas as outras palavras que não eram dela esmaeceram. Do lado de fora, nuvens estavam cobrindo o céu e, por detrás, ainda dava para distinguir a cor do alto verão. A grama continuava crescendo, as pessoas continuavam respirando, o mundo continuava girando. Mas dentro da oficina da Sanja, as palavras iriam mudar tudo: mudar o que sabíamos, mudar o que sentíamos, mudar tudo como se o mar subisse tanto que engolisse as ruas e casas sem voltar para trás, sem devolver o que tinha conquistado.

Quando, finalmente, só o que saía do disco era o silêncio que enchia a sala, expirei pesadamente. Alguma coisa tinha mudado dentro de mim, dentro de nós. Quando olhei para fora, era como se estivesse abrindo os olhos pela primeira vez. Podia ver tudo mais claramente: a pedra irregular no meio do quintal, as extremidades pontiagudas de um arbusto seco, uma teia de aranha destruída na dobradiça da porta.

Uma vez que o espaço de silêncio que envolve um segredo foi quebrado, não é possível fazê-lo inteiro outra vez.

— Você acha que é verdade? — perguntou Sanja. Sua voz era frágil e não chegava a abalar o vazio ao redor, que repousava profundo e impossível de banir como um oceano. — Tudo isso?

— Sim. Acho que é.

— Eu também — declarou Sanja.

Ela desligou o aparelho. O disco foi desacelerando até parar. De todos os silêncios que tinha encarado, esse era o mais grave e o mais inevitável: não era o silêncio dos segredos, era o silêncio do saber.

Naquela noite, quando a casa estava vazia, o jardim, serenado, e as estradas, desertas, caminhei até a nascente. O sol estava recostado no horizonte, mas não iria se render completamente — era uma noite de verão, mais iluminada do que muitos dias de inverno.

Meu lampião projetou um feixe de luz nas paredes de pedra da colina. Quando baixei a luz ao nível da superfície da água, vi o que já imaginava que estava para acontecer.

O nível estava baixo. Não no nível de perigo, mas muito mais baixo do que eu já lembrava ter visto.

A marca branca na rocha brilhava por baixo da água como um olho estanhado — mais clara do que nunca.