Memória da Água
Capítulo Doze
A porta da frente estava trancada. Eu bati, mas não ouvi nenhum barulho vindo de dentro da casa. Bati novamente. Silêncio. Tirei meu casaco e joguei em cima dos cantis, para que eles não ficassem à vista. Andei ao redor da casa até a oficina de Sanja. Tentei abrir a porta, mas estava trancada por dentro. Olhei pelas paredes de tela. Havia uma máquina do passado perto da mesa, um pedaço de torta de sementes de girassol pela metade e um pequeno ventilador à luz solar que tentava refrescar o ambiente. Sanja não estava em nenhum lugar.
Pensei nas histórias do mundo antigo que tinha ouvido. Histórias sobre navios piratas cujas tripulações evaporavam sem deixar rastro: havia sempre uma caneta abandonada em cima de uma carta pela metade, água fervendo na chaleira, ou chá ainda quente nas xícaras quando o resgate chegava.
— Sanja? — Não houve resposta. — Sanja! — gritei mais alto. — Kira? Jan?
Não havia sinal de Sanja ou dos pais. Nem mesmo a voz de Minja podia ser ouvida na casa. Quando ia voltar para o jardim, ouvi um clique ao meu lado. Quando olhei na direção do ruído, vi Sanja agachada no chão da oficina. Seu rosto estava vermelho.
— Está tudo bem?
Sanja veio na minha direção, limpando o suor da testa com as costas da mão.
— Você veio rápido. — Ela desligou o ventilador, abriu a porta e saiu da oficina.
— Não vi você — falei. — Achei que não tivesse ninguém em casa.
— Ah, eu estava procurando uma coisa embaixo da mesa — respondeu, evitando meus olhos. Mas eu tinha certeza de que não havia nada embaixo da mesa.
— Está tudo bem? — repeti. Os ombros de Sanja caíram.
— Não — respondeu ela. Vi que havia lágrimas se acumulando em seus olhos. — É a Minja... — A voz da minha amiga estava grave e fraca. — Ela não está bem. Minha mãe foi com ela no médico, de novo, mas da última vez também não adiantou nada. — Ela engoliu em seco e levantou os olhos. — Os remédios precisam ser dissolvidos em água.
Dei um passo em direção a Sanja, depois outro, e ela não se afastou. Eu não a via chorar desde que tínhamos 10 anos, quando ela levou um tombo na colina e torceu o tornozelo. Sanja soluçou abraçada em mim, depois ficou em silêncio. Ficamos quietas por algum tempo, o sol ardendo ao fim da tarde. Finalmente, Sanja se soltou do meu abraço e fungou.
— Desculpe.
— Não seja boba — falei, segurando seu braço. — Eu trouxe água.
Fiquei aliviada de ver que ela ainda podia sorrir.
— Vou remendar cantis para você até o fim dos tempos se não puder pagar de outro jeito — avisou. Abri a boca para responder, mas Sanja me interrompeu. — É justo. Sei que você não tem um poço no jardim.
Virei o rosto para não ter que encará-la. Não tinha certeza do que Sanja poderia ler na minha expressão.
— Deixei os cantis no jardim — falei. — Vamos logo, antes que alguém passe a mão neles.
Pegamos os cantis e os carregamos para dentro de casa. Quando Sanja abriu a porta, um fedor terrível que parecia uma mistura de cabelo sujo com leite azedo veio dos cômodos. Havia xícaras vazias e pratos engordurados com restos de comida em cima e embaixo da mesa da sala de estar. Vi algumas roupas de criança de molho numa água lamacenta no canto da lavanderia. Algumas tinham manchas escuras. A poeira levantava conforme a gente ia passando.
Sanja olhou para mim e depois ao redor, como se percebesse pela primeira vez a situação da casa.
— Está uma bagunça terrível. Minja não consegue manter a comida no estômago e a gente não consegue nem lavar suas fraldas.
Vi que Sanja estava constrangida por ter me feito testemunhar os traços da doença.
— Agora vocês vão poder fazer isso — falei, tentando sorrir.
Levamos os cantis até a cozinha. Ajudei Sanja a jogar um pouco de água limpa na mamadeira. Ela ensaboou e encheu novamente de água, depois pegou um saco de pano do armário, de onde mediu duas colheradas de pó branco e colocou na água. Ela agitou o recipiente um pouco para dissolver o pó. Uma leve espuma flutuava em cima do líquido.
Ouvimos passos na varanda. Sanja foi até a porta com a mamadeira nas mãos. Kira entrou em casa, segurando Minja nos braços. Fazia algumas semanas que eu não via Minja, e meu estômago revirou quando coloquei os olhos nela. A criança estava magra, frágil, e seus olhos, sempre tão brilhantes, eram como dois buracos opacos num rosto ossudo. Kira estava pálida e encurvada.
— Eles não estão aceitando mais pacientes — disse ela. — O hospital mais próximo com leitos vagos é em Kuusamo.
— O que esperam que a gente faça? — perguntou Sanja.
— Disseram para dar o remédio para Minja e esperar a febre baixar.
— Mas é isso que a gente vem fazendo nas duas últimas semanas! Você explicou que a gente não tem água suficiente?
— Sanja, o centro médico está cheio de pacientes ainda mais doentes do que Minja. — A voz de Kira era cansada e frágil. — Eles têm dois médicos, três enfermeiras e uns poucos voluntários do vilarejo. Estão devendo três meses de cotas de água para o mercado negro. Não sabem nem mesmo se a clínica vai continuar aberta no próximo mês.
O ar ao nosso redor ficou pesado. Sanja e eu nos demos conta daquilo que Kira já devia saber havia tempos: tudo que os médicos podiam fazer era mandar Minja para morrer em casa.
Sanja entregou a mamadeira com o remédio para Kira.
— A água estava limpa o bastante? — perguntou Kira.
— Sim — respondi.
Tanto Kira quanto Sanja olharam sérias para mim, e uma sombra pairou sobre o rosto de Kira.
— Você sabe que não poderemos pagar por isso, não é? — perguntou. As palavras eram endereçadas tanto a Sanja quanto a mim.
— Não precisa — respondi.
Kira se sentou em uma poltrona gasta, pegou a mamadeira e ofereceu a Minja. A pequena mal tinha forças para abrir a boca, mas depois de insistir bastante, Kira conseguiu que ela lambesse algumas gotas do líquido da mamadeira. Então a levou para o quarto.
— Sanja, você pode vir até aqui?
— Vou esperar — falei para Sanja, que assentiu.
Kira falou em voz baixa e estava com a porta fechada, mas eu conseguia ouvir mesmo assim. Acho que ela queria que eu ouvisse.
— Você não devia ter pedido água.
— O que mais a gente pode fazer? — questionou Sanja, em tom desafiador. — Não consigo terminar o conserto do encanamento. É praticamente impossível encontrar as peças que faltam, e os preços estão nas alturas.
Kira suspirou.
— Eu sei, Sanja. E encontrar água não deveria ser responsabilidade sua. Se Minja estivesse mais saudável, eu talvez pudesse costurar para os vilarejos vizinhos, ou quem sabe tentar encontrar trabalho nas fábricas de botas em Kuusamo. Só não queria ficar devendo favor para ninguém.
Eu tinha ouvido o suficiente. Fui até a varanda e fechei a porta cuidadosamente ao passar. Sentei em um dos degraus e olhei ao redor: brotos moles de girassol vacilando na areia, um guarda-sol feito de algas entrelaçadas protegendo um par de cadeiras empoeiradas e meio gastas em suas armações de madeira. As casas da vizinhança eram todas assim — reflexos cansados e monótonos umas das outras, todas exaustas pelo peso da tarde.
Não saberia dizer quanto tempo se passou até Sanja sair de casa e fechar a porta.
— As duas estão dormindo. E isso é raro nessa casa ultimamente.
Tentei manter a voz baixa, mas as palavras saíram mais ríspidas do que eu esperava.
— Você perdeu o juízo?
Sanja olhou para mim. Meu peito ficou apertado quando percebi o peso das últimas semanas em seu rosto, mas continuei:
— Você se dá conta do perigo que é construir esse encanamento ilegal? Se a patrulha da água descobrir... — Pensei na oficina da minha amiga, no clique que tinha ouvido, na sua aparição repentina. — É embaixo da oficina, né? O encanamento.
Os traços de Sanja pareciam carregados de exaustão, irritação e talvez desespero.
— As cotas de água não são suficientes para nós, e não temos como comprar mais. Meu pai conseguiu fazer um acordo para receber parte do salário em água, mas às vezes ela vem tão suja que parece que lavaram roupas de baixo nela.
Fiz uma careta.
— Não dá para reclamar com alguém? — perguntei.
Sanja bufou.
— Com quem? Com os mesmos oficiais que a repassam para nós de forma ilegal?
Entendi a observação.
— Pare — falei. Ela olhou para mim, incrédula. — Não se aproxime mais desse encanamento.
— Você claramente nunca precisou tomar uma decisão difícil, como entre ir para a cadeia ou deixar sua família morrer de sede.
Fiquei sem fala por um instante, porque minha amiga raramente se dirigia a mim de forma ríspida. A dureza das palavras de Sanja parecia tê-la pego de surpresa também. Ela apertou minha mão.
— Desculpe, Noria. Eu não quis...
— De quanto você precisa?
— Noria...
— De quanto?
Ela me encarou com seus olhos escuros e brilhantes.
— Muito mais do que você pode nos oferecer. Dois cantis por dia.
— Eu trago.
Ela balançou a cabeça.
— Você também precisa de água. Não pode fazer isso.
— Posso, sim.
Achei que Sanja ia perguntar mais alguma coisa. E fiquei agradecida por ela não ter questionado, assim não precisei mentir.
Alguma coisa tinha mudado entre nós, algo que eu não conseguia explicar. Sanja não tinha me contado sobre o encanamento ou sobre a doença de Minja. E eu não contei sobre a nascente.
Os segredos nos desgastam como a água desgasta as pedras. Na superfície, nada parece mudar, mas as coisas secretas nos consomem e, lentamente, nossas vidas passam a se moldar por elas.
Os segredos desgastam os laços entre as pessoas. Outras vezes, podem ajudar a construí-los: se deixamos uma pessoa adentrar o espaço secreto que o silêncio constrói dentro da gente, não ficamos mais solitários.
Comecei a levar água para Sanja regularmente. Ela aceitava sem dizer uma palavra. A bruma negra tinha deixado o rosto de Minja e seus olhos estavam novamente ágeis para captar o que se passava ao redor. As palavras retornaram a seus lábios. Seus membros ainda eram magros e fracos, mas sua vida não estava mais em perigo. O comportamento de Kira comigo era uma mistura de gratidão e constrangimento; ela procurava me evitar. Jan nunca mencionava a água ao me encontrar, o que era bastante raro, mas perguntou algumas vezes se a casa de chá ou o jardim não precisavam de algum reparo ou trabalho de construção que ele pudesse fazer. Eu sempre disse que não.
Enquanto isso, eu tinha chegado a um beco sem saída em minha busca por mais informações da expedição Jansson. Inspirada pelas últimas informações de Miro, eu tinha folheado todos os outros livros dos mestres do chá, mas só havia encontrado observações curtas, nada que eu já não soubesse. O lixão dos plásticos guardava os segredos, se é que os segredos ainda existiam.
No entanto, minhas visitas ao lixão não produziram mais nada além de um ferimento por um pedaço afiado de metal e mais alguns componentes de metal que guardei no bolso para entregar a Sanja. O silêncio erguia paredes ao meu redor. A luz do message-pod permanecia apagada. Uma grama suave começava a se insinuar no jardim, e os restos do meu pai descansavam em silêncio em sua mortalha de terra.
Então, no fim de uma manhã de primavera, quebrei o silêncio.
Era um dia comum do final da estação. O azul nublado se arqueava no céu como metal polido, e pequenos tufos de verde espocavam nos galhos das árvores e arbustos. As ruas estavam silenciosas. Passei por uma casa na qual um casal de idade estava sentado embaixo de um guarda-sol de algas. Percebi algumas lágrimas nas bochechas enrugadas da mulher. O homem a envolvia em um abraço. Virei para não ver mais nada.
Quando cheguei na casa de Sanja com meus cantis, ela estava esperando na porta.
— Você ficou sabendo? — perguntou. Pela expressão no seu rosto, meu coração apertou.
— O que aconteceu? Está tudo bem?
— Sim, quer dizer, não. — Ela fez uma pausa, mas havia certa agitação em seu rosto. — Sabe a casa cinzenta de teto baixo que tinha um círculo na porta? Perto do centro médico?
Pensei nas janelas escuras com as cortinas retorcidas, o jardim vazio, os vizinhos desviando o olhar na rua.
— Os moradores não foram levados, como todo mundo pensava — contou. — Eles foram mantidos lá dentro por quase dois meses, em prisão domiciliar, observados dia e noite. Não podiam ir a lugar nenhum e os soldados traziam apenas a comida e bebida suficiente para mantê-los vivos. Essa manhã eles foram forçados a sair e... — Ela tentava encontrar as palavras. — Foram executados.
— Você tem certeza? — O círculo azul brilhante apareceu diante dos meus olhos, intenso como uma ferida na pele da casa, a cor do céu refletida na água, a cor dos uniformes militares. Eu não conseguia acreditar, mesmo depois de tudo que tinha acontecido desde a Festa da Lua.
— Meu pai viu tudo. Ele estava indo para a praça central. Viu os soldados arrastando as pessoas para fora da casa e abrindo suas jugulares no meio do jardim. Todo mundo que estava passando na rua viu.
Tentei não imaginar a cena, mas minha cabeça me passou a perna: o metal lustroso pressionando a pele frágil, refletindo a cor da terra, o movimento de um braço vestido em uniforme azul, ondas de sangue derramadas na areia pálida do jardim e o sol forte secando tudo.
— Será que as coisas vão ser assim daqui para a frente? — perguntou Sanja, numa voz esganiçada. — Qualquer pessoa pode ser executada em seu próprio jardim ou mantida cativa na própria casa a qualquer momento?
— Isso vai acabar. Tem que acabar.
— E se não acabar? — Sanja olhou firme para mim e não me lembro de ter visto tanto desespero em sua expressão em nenhum outro momento. — A necessidade das pessoas por água não vai parar. Elas vão ter que arriscar suas vidas construindo encanamentos ilegais. Eu...
Então me dei conta do que ela estava tentando me contar.
— Você parou de construir o seu encanamento, né? — perguntei.
Ela olhou para o chão, o cabelo escuro cobrindo o rosto.
— Não podemos ficar dependendo da sua água para sempre, Noria. Você vai precisar dela.
Pensei nos mestres do chá do passado, em suas escolhas, em seus deveres. Pensei em Miro, que tinha feito o que julgava correto, mesmo que fosse contra a tradição. Pensei nos meus pais, que não estavam comigo, e em Sanja, que estava.
— Venha. Quero mostrar uma coisa.
* * *
Caminhamos até a colina como já tínhamos feito inúmeras vezes quando crianças, brincando de aventureiras sábias e destemidas numa terra selvagem e estranha. Nuvens densas como uma parede escura no horizonte gradualmente cercavam o céu. Meus pés conheciam o caminho e não tropeçavam nas pedras. Por trás da paisagem, eu via outra: uma cena onde os caminhos eram mais amplos, o topo das montanhas, mais altos, as encostas, mais largas e mais difíceis de escalar, os leitos dos rios, cicatrizes profundas nas rochas. Comparada à imagem do passado, a paisagem de hoje parecia maçante e domesticada e, no entanto, eu me sentia como se, a cada passo, estivesse avançando para uma paisagem ainda mais impressionante do que a colina era para os meus olhos infantis. Quase podia imaginar as pedras do caminho acenando ao me ver, os contornos escondidos pela areia. Se me virasse, só veria uma paisagem de deserto e, lá longe, no horizonte, as pontas verdes e afiadas das árvores da floresta — a casa e o vilarejo já não estavam mais à vista, todas as estradas tinham desaparecido e não havia escolha a não ser avançar em direção ao buraco negro que se aproximava.
Sanja não perguntou para onde estávamos indo, apenas me seguiu em silêncio.
Quando chegamos à entrada da caverna, ela disse:
— Eu me lembro dessa! Era o quartel-general da Crucial e Importante Sociedade de Exploradores do Novo Qian.
— Siga-me — falei. E fui engatinhando pela caverna até a reentrância que meus dedos já achavam com facilidade.
A pedra era fria, áspera, seca. O alçapão no teto da caverna se abriu. A luz dos lampiões refletiram os olhos de Sanja na escuridão, como se seus pensamentos estivessem brilhando e reluzindo.
— Que lugar é esse?
— Esse lugar não existe.
O ar fresco e familiar recaiu sobre nós enquanto caminhávamos para o coração da colina. Eu ouvia os passos de Sanja atrás de mim. O estranho encantamento que parecia tê-la tomado do lado de fora da caverna não tinha se dispersado. O frágil eco da nascente já brotava em sussurros nas paredes e eu não conseguia parar de pensar que, se olhasse para trás, Sanja teria desaparecido em alguma das reentrâncias da caverna, tornando-se sombra entre as sombras. Nossos movimentos tomavam as paredes, finas como teias de aranha. Não parei até que chegássemos à parte da caverna em que a água saltava da rocha no lago.
Ouvi Sanja arquejar atrás de mim. Ela se aproximou e agarrou meu braço. Dava para sentir que estava tremendo, mas segurava tão forte que suas unhas me arranhavam.
— Isso. Essa água toda. É sua?
— Sim — respondi. Ela apertou meu braço com mais força. — Não — corrigi.
Sanja olhou bem para mim e de repente me dei conta. Ela estava furiosa.
— Como você pôde? — disparou. — Como você pôde esconder isso? As pessoas daquela casa... — A voz dela tremia. — ... Minja. Ela podia ter...
Uma vergonha enorme me fez corar. Não conseguia olhar nos olhos da minha amiga.
— Como você pôde? — repetiu ela.
De repente, um medo começou a brotar dentro de mim. Não sei o que estava esperando... Gratidão? Alívio? Talvez empolgação por ter entregado a Sanja uma parte do meu segredo? Eu sabia que estava me arriscando ao trazer outra pessoa para a nascente, mas nunca tinha pensado que poderia correr perigo por causa de Sanja. Agora, já não estava tão certa.
— Você precisa prometer que não vai contar para ninguém — falei, mais rispidamente do que queria. — Só posso ajudá-la se a nascente continuar sendo segredo.
— Você não tem esse direito — falou ela. E eu ainda não podia olhar nos seus olhos.
— Sanja. — Minha voz era tão fraca que eu mesma mal podia ouvir. — O que você acha que vai acontecer se alguém descobrir sobre a nascente? — Ela ainda estava agarrada em meu braço. Olhei para ela.
O rosto da minha amiga ficou sombrio, e seu corpo se tensionou. Então, algo passou por sua cabeça. Seus ombros relaxaram, sua expressão suavizou e sua voz retomou o tom normal:
— Mesmo assim não é certo.
— Eu sei — respondi.
Estava frio na caverna, como sempre, e a umidade parecia invadir os ossos, mas o rosto de Sanja ainda estava corado do esforço da caminhada. Sua tolerância ao frio sempre fora maior do que a minha.
— O que você está fazendo? — perguntei. Ela estava tirando as roupas. Colocou o cardigã nas pedras, tirou a camisa e desamarrou os sapatos.
— Você sabe quanto tempo faz que não tomo um banho em água limpa? — perguntou.
Tirou o resto das roupas e foi se aproximando cuidadosamente do lago. Encontrou um local onde a pedra estava mais gasta e se inclinou em direção à água. Vi que ela estremeceu quando molhou os pés, mas isso não a impediu de entrar até estar com metade do corpo imerso. Ela foi o mais fundo que pôde e se agachou.
A água a cercou como cercaria uma pedra atirada ali. Sanja voltou à superfície, tremendo, os cabelos pretos colados no crânio, e, à luz vacilante do lampião, parecia tão pálida e magra que era quase como se fosse translúcida: um espírito da água preso à realidade.
— Está fria? — perguntei.
— Venha e experimente.
Os segredos nos desgastam como a água desgasta a pedra.
Se permitimos que uma pessoa adentre o espaço secreto que o silêncio constrói dentro da gente, não ficamos mais tão solitários.
Tirei as roupas e entrei na nascente. Meu corpo enrijeceu por conta da temperatura da água. Logo, o frio invadiu minha pele, abraçando meus membros e pinicando as costas. As pedras no fundo do lago estavam desgastadas e escorregadias e não dava para ver nada. Meu pé escorregou, e Sanja esticou a mão para me dar apoio.
Eu segurei a mão dela. E fechei os olhos.
O tempo passava lá fora da caverna, o vento varria as rochas e a luz do dia ia mudando, mas nós estávamos em silêncio e imóveis.
Na superfície, nada parece mudar, mas as coisas secretas nos consomem e, lentamente, nossas vidas passam a se moldar por elas.
Enfim, Sanja soltou minha mão e se afastou. Primeiro um passo, depois outro. Suas sobrancelhas formando uma expressão de confusão. Ela olhou para baixo, tentando enxergar através da água na meia-luz. Passou o pé no fundo do lago. Eu me aproximei e também senti uma coisa lisa embaixo do pé, como se fosse uma placa de algum material duro e brilhante.
— Noria, o que é isso?
A caixa era feita de madeira polida, e uma fina camada de algas escorregadias e escuras a envolvia. Era da altura de uns três livros dos mestres do chá empilhados, porém, mais estreita. Dois cintos de couro estavam amarrados ao redor, mantendo-a fechada. Não havia fechadura. Colocamos a caixa perto da luz dos lampiões, e comecei a desafivelar um dos cintos.
— Tem certeza de que é seguro abrir isso? — perguntou Sanja.
— Não — admiti. — Mas você não quer saber o que tem dentro?
Sanja assentiu e me ajudou a abrir o outro cinto.
Dentro havia outra caixa, de metal e impermeável, mas não estava trancada. A água tinha encharcado a madeira, no entanto a caixa de metal não deixara a umidade penetrar. Esta continha uma embalagem grossa de plástico, dentro da qual dava para ver um embrulho de pano. Tirei o plástico e abri o pano, que era uma camiseta usada. Ficamos observando o conteúdo do embrulho sem falar nada.
Seis discos prateados brilhantes.
À noite, choveu e choveu até que a poeira da terra se transformasse em barro escuro, pequenos riachos escorressem pelas pedras e jardins, e os troncos das árvores se estufassem. As pessoas abriram as bocas e beberam direto do céu, agradecendo a poderes sem nome. A água tamborilava em baldes, canos e telhados e parecia abrigar a terra com dedos suaves, acariciando o solo, a grama e as árvores.
Sentei com Sanja na varanda da casa do mestre do chá, observando o brilho lânguido dos lampiões nas paredes e no piso. Podia sentir o calor da pele dela perto da minha.
Sete discos prateados brilhavam na mesa de madeira.
A noite veio tranquilamente, e não havia razão para ser de outra forma.