Memória da Água

Emmi Itäranta · Capítulo 14 de 22

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Memória da Água

Capítulo Treze

 

— Você pode tocar esse último pedaço de novo? — perguntei.

Sanja pressionou o botão que tinha duas flechinhas apontadas para a esquerda na máquina do mundo antigo. Meu pulso estava dolorido de escrever. Chacoalhei a mão enquanto as palavras eram engolidas pelas caixas de som. Sanja tirou o dedo do botão e uma voz disse “... até que tenhamos confirmado todos os resultados. De qualquer forma, já está claro que pelo menos Saltfjellet-Svartisen, Reivo e a maior parte das terras entre Malmberget e Kolari pertencem a áreas em que a água já é parcialmente potável e, de acordo com nossas estimativas, será totalmente potável em menos de cinquenta anos”.

— Pare aí — falei.

Sanja pausou o disco e eu escrevi a última sentença no caderno.

Arrumamos tudo num círculo organizado no chão: a máquina do mundo antigo, os discos, os livros que eu tinha trazido do escritório da minha mãe. Estendi a mão para pegar um volume pesado que trazia um mapa das Terras Perdidas do passado e tracei com o dedo os lugares mencionados. Reivo foi o primeiro a me chamar a atenção. Desenhei um círculo ao redor da área e, quando me levantei, os músculos do pescoço e das costas estavam doloridos.

— Acho que preciso fazer uma pausa — falei. Estávamos sentadas havia horas.

Sanja deu de ombros.

— Você que quis escrever tudo. Vou pegar um chá.

Enquanto ela se levantava, continuei a olhar para os lugares mencionados na gravação e a marcá-los no mapa.

— Só não sei o que você pretende fazer com essa informação — observou antes de sair da sala.

— Também não sei — falei, mas isso não era inteiramente verdade.

Os discos prateados estavam arrumados em fileira em cima do pano no qual tinham estado embrulhados. Havia uma numeração, que ia de um a sete, pintada em cada um. Conseguimos determinar a ordem pelas datas mencionadas na começo de cada gravação. Até aquele momento, tínhamos ouvido quatro discos inteiros, e eu havia escrito o conteúdo de cada um para tentar organizar tudo em uma única história coerente. Mas havia um problema: ocasionalmente, as palavras eram difíceis de discernir. O desgaste do tempo tinha prejudicado o som em algumas partes e, em outras, o disco estava tão riscado que fazia a máquina pular. Por isso, estavam faltando dias e às vezes semanas inteiras no diário. Eu suspeitava que, originalmente, deviam ser dez discos ao todo. Talvez mais.

Agora tinha certeza de que todos os discos vieram do mesmo lugar. Havia duas vozes masculinas distintas nas gravações e uma delas era claramente a mesma do primeiro disco. Também estava convencida de que o misterioso grupo de exploradores que Miro havia mantido em segurança durante o Século do Crepúsculo era o que tinha sobrado da expedição Jansson, e que ele escondera todos na caverna da colina. Não havia outra explicação plausível para os discos teriam ido parar na nascente. Eu ainda esperava conseguir retraçar a rota dos exploradores, mas ouvir os discos enquanto acompanhava no mapa e fazia anotações era uma tarefa terrivelmente lenta, e eu pressentia que a história nunca estaria completa. Muito tempo havia se passado entre nossa realidade e a expedição Jansson, muitos detalhes tinham se obscurecido pelos anos e as imagens tratavam de um mundo que não existia mais. Tudo o que podíamos fazer era tentar montar um mapa cujos contornos e fronteiras não eram claros.

Ainda assim, apesar da passagem do tempo e da decadência de tudo, havia algo ali que me animava e entusiasmava, como se minha pele de repente tivesse se esticado tanto que pudesse abarcar o mundo. A expedição Jansson realmente existira. Essas pessoas tinham vivido e respirado na terra, tinham conseguido encher veículos de comida, água e instrumentos científicos e, de alguma forma, passado pelos guardas de fronteira até as Terras Perdidas. Tinham escalado caminhos pedregosos por onde ninguém se aventurara por décadas, tinham descido as encostas dos fiordes para pesquisar os vilarejos engolidos pela água. Tinham molhado as mãos nos riachos que corriam das falésias e adentrado os lagos congelados e, quando seus equipamentos mostraram que a água podia ser consumida, cada passo do caminho ganhara um novo propósito.

Nos meus sonhos, era como se eu estivesse com eles naquelas terras estranhas, onde as vozes da água eram onipresentes. Ainda assim, não podia ver seus rostos ou conversar. Eles ficavam longe, fora do alcance, quase como se eu fosse apenas um espírito preso a um riacho escuro, proibido de cruzar para a terra dos vivos. Sanja estava ao meu lado, e tudo a nossa volta era claro: os cumes brancos das colinas, o ar puro, a água cristalina refletindo o céu, reluzindo brilhante e incompreensível, como em outro mundo.

A distância entre os sonhos e as palavras é grande, assim como a distância entre as palavras e as intenções. No entanto, quanto mais eu ouvia, menor essa distância parecia.

A porta bateu. Sanja entrou e colocou uma xícara de chá na minha mão. Uma gota derramada na lateral da xícara escorreu entre meus dedos.

— Acho que não consigo fazer mais nada hoje — falei. — Você me acompanha até em casa?

O que significava: “Você vai pegar água lá em casa?” Mas isso nunca era dito dessa forma. Falar sobre água tinha se tornado uma coisa muito constrangedora não apenas entre nós, mas entre todas as pessoas do vilarejo. Era fácil demais cometer o erro de parecer se vangloriar da própria situação ou de parecer implorar pela água dos outros.

— Hoje não vai dar — respondeu Sanja. — Minha mãe vai trabalhar essa semana na cozinha dos militares. Tenho que ficar em casa com a Minja. Vou amanhã.

— Amanhã não dá. Tenho convidados na casa de chá.

Sanja pareceu desapontada, mas eu não tinha como abrir um espaço para ela. O vice-prefeito de Kuoloyarvi era um convidado exigente: suas visitas sempre me tomavam o dia todo, do amanhecer até a noite. Eu não podia me dar ao luxo de perder mais clientes. Muitos dos convidados que vinham regularmente para as cerimônias do meu pai tinham deixado de frequentar a casa depois da sua morte, apesar de terem mandado condolências e oferecido garantias de que continuariam vindo. Na época do meu pai, novos clientes chegavam para as cerimônias por indicação do major Bolin, mas Bolin parecia ter sido sincero quando me disse que seu tempo de benfeitor estava terminado. Eu não tinha mais ouvido falar nele desde a morte do meu pai.

— Você pode vir depois de amanhã? — perguntei, e Sanja assentiu.

Coloquei o capuz antimosquito, peguei o caderno de anotações e a bolsa e atravessei a porta em direção à tarde poeirenta e calorenta.

Ao passar pelo portão da casa de Sanja, vi um soldado se aproximando, vindo de fora do vilarejo. Desviei o olhar. Todo mundo na vizinhança tinha aprendido a fazer isso. Mesmo assim, quando passamos um pelo outro na estrada, ele me cumprimentou. Olhei, surpresa. Levei um minuto para reconhecê-lo: era o mesmo soldado loiro que eu tinha visto conversando com Sanja no verão passado, quando Taro fora com seus homens fazer uma busca em nosso terreno.

Continuei meu caminho para fora do vilarejo. Mas vi de canto de olho que o soldado parou no portão de Sanja.

Essa não era a primeira cerimônia do chá que eu conduzia depois da morte do meu pai. Tinha aprendido a buscar força em sua presença invisível: minhas memórias eram tão solidamente conectadas à casa de chá que sentia como se ele ainda estivesse sentado ali, observando meus movimentos, pronto para me orientar com seus modos severos. No entanto, dessa vez minha mente elaborava meu pai como uma figura séria e sombria, como se ele soubesse. Respondi de forma obediente a todas as perguntas do vice-prefeito sobre os quadros pendurados na parede, ofereci os doces preparados de acordo com instruções muito particulares e deixei o chá ficar mais forte, como era de sua preferência. Ainda assim, não conseguia me sentir focada e em paz.

Uma promessa quebrada não é fácil de suportar. É difícil agradar os mortos, e muitas vezes mais difícil ainda desagradá-los.

A cerimônia me deixou exaurida. Quando finalmente tranquei a casa de chá, tarde da noite, e caminhei até minha casa com o auxílio da luz de um lampião, meus membros pesavam toneladas, mas pareciam frágeis como vidro. Eu estava cansada demais para preparar o jantar. Na fraca luz de uma noite de começo de verão, deitei na cama e dormi.

Uma batida na porta me acordou.

— Noria? — Ouvi a voz de Sanja na varanda. — Você está em casa?

— Só um minuto — gritei, pulando da cama.

Olhei pela janela. O sol estava brilhando forte no jardim. Coloquei as sandálias e caminhei meio cambaleante para abrir a porta. Sanja estava parada na varanda, segurando quatro cantis vazios por uma corda.

— Mandei uma mensagem mais cedo — disse ela. — Achei que talvez você pudesse ter se esquecido de responder, mas vim mesmo assim, como a gente tinha combinado.

Tinha esquecido completamente que ela vinha. Dei uma olhada para o message-pod na parede.

— Não ouvi nada. Que horas são?

— Não é tão tarde — respondeu Sanja. — Acho que nove, no máximo. Eu cheguei meio cedo.

Abri a porta para que ela entrasse. Sanja trouxe seus cantis e tirou o capuz antimosquito. Só nessa hora percebi que ela também estava carregando um malote feito de algas, que logo entregou para mim.

— Passei pelo carteiro do vilarejo. Quando contei que estava vindo aqui, me pediu que trouxesse isso. Disse que economizaria uma caminhada.

Peguei o malote. Tinha certeza de que era da minha mãe. Abri na mesma hora. Dentro estava um message-pod, razoavelmente gasto, mas ainda em boas condições, e mais nada.

— Que estranho — falei, e a expressão no rosto de Sanja revelou que ela pensava a mesma coisa. — Tem certeza de que é para mim?

— Foi o que o carteiro falou.

Tentei ligar o message-pod, mas a tela continuava escura.

— Deve estar sem bateria — disse Sanja.

Meu estômago fez um barulho, como se fosse uma concha vazia, e me dei conta de que não tinha comido nada desde a manhã do dia anterior.

— Quer um pouco de chá?

Sanja assentiu e me seguiu até a cozinha. Coloquei o message-pod no peitoril da janela, onde podia pegar luz natural. Não demoraria muito para carregar. Quando a água já estava quente, e o chá, fumegando nas xícaras sobre a mesa, coloquei o dedo na tela do pod. O botão acendeu. Sanja estava certa. A tela ligou, e o aparelho começou o procedimento de reconhecimento da minha digital. Até aqui nada de estranho: todos os message-pods eram codificados para reconhecer membros de uma conta familiar pela digital e, em teoria, todos os cidadãos registrados poderiam usar suas contas em qualquer aparelho disponível. No entanto, o nome que apareceu na tela não foi o meu. Aino Vanamo , anunciou o message-pod. O ano de nascimento era o mesmo que o meu, mas a data estava errada. O local de nascimento estava cadastrado como Xinjing.

— O que foi? — perguntou Sanja, levantando-se para dar uma olhada. Suas sobrancelhas se elevaram quando ela viu a tela.

— Tente você — pedi. Sanja colocou o dedo na tela. Sanja Valama, apontou a máquina. Coloquei o dedo no mecanismo novamente e a identificação de Aino Vanamo reapareceu.

— Incrível! — Sanja ficou empolgada. — Um passaporte falso! — Eu conhecia aquela cara da minha amiga: a de quem já estava imaginando como o message-pod tinha sido hackeado e se ela poderia fazer o mesmo. — Foi programado para conectar a identidade falsa a seus dados de registro — continuou. — Mas nas mãos de qualquer outra pessoa é apenas um message-pod completamente comum.

Uma luz vermelha e um número 1 apareceram no canto da tela para indicar que havia uma mensagem. Coloquei o dedo sobre a luzinha. A mensagem dizia:

Se isso chegar a você, é muito importante que siga minhas orientações. Não é seguro ficar onde está. Contate Bolin. Ele vai ajudá-la a comprar uma passagem de trem. Assim que souber quando será a viagem, mande a informação usando este message-pod. Não use o outro. Abandone o outro quando deixar a casa. Espero vê-la em breve.

A mensagem não estava assinada, mas eu conhecia aquela letra: era da minha mãe.

Sanja e eu ficamos em silêncio por um longo período. Finalmente, ela perguntou:

— Você vai?

— Não sei — respondi.

Entendi por que minha mãe tinha pedido que eu mandasse algum objeto. Era preciso ter a minha digital para fazer o falso pass-pod, e ela não podia pedir diretamente por medo que nosso correio estivesse sendo monitorado. Ela deve ter subornado alguém para ter uma garantia de que eu receberia isso. Eu tinha mandado a colher havia um mês, então o pass-pod provavelmente estivera viajando por semanas.

A oferta deveria ter me empolgado. Se ela estava me chamando, Xinjing devia estar relativamente segura, apesar da guerra. Minha vida seria mais simples sem a constante necessidade de vigilância da nascente, sem ter que encarar os rostos magros das pessoas do vilarejo, sem o medo de me deparar com a próxima casa a ter o círculo azul pintado na porta. Eu não teria que carregar água da colina ou entregá-la a Sanja, nem limpar a casa, manter o jardim e fazer os doces que acompanham o chá. Não estaria sozinha. Poderíamos fazer coisas juntas novamente, como antes da partida dela e da morte do meu pai. A mesma exaustão que tinha me atingido na noite anterior pareceu tomar meus ossos tão subitamente que, de repente, só queria deitar no chão da cozinha e deixar a vida correr ao redor. Queria que outra pessoa assumisse a responsabilidade pela minha vida, por tudo que apenas recentemente tinha se tornado parte da rotina diária. Xinjing brilhava a distância, velada numa névoa suave, simples e acolhedora como um sonho.

No entanto, as mesmas coisas que me faziam desejar ir embora eram as que me mantinham presa onde estava. Quem iria cuidar da nascente? A quem Sanja iria recorrer quando precisasse de água? Se eu deixasse a nascente aos cuidados da minha amiga, não estaria deixando nas mãos dela o risco de ser descoberta e responsabilizada, enquanto eu estaria segura do outro lado do continente? Não podia colocá-la em tamanho perigo.

No centro de todas essas perguntas, uma possibilidade começava a se materializar: a água não estava aqui, estava nas Terras Perdidas. Eu poderia seguir o desejo da minha mãe e viajar para Xinjing ou ser fiel ao meu pai e viver como guardiã da nascente. Ou poderia fazer o que quisesse, escolhendo um caminho desconhecido que não era ditado por nenhum dos dois.

Naquele dia, todas as possibilidades pareciam ter o mesmo peso. Mas, ainda assim, uma delas começava a se destacar em relação a outras, a me atrair.

Bebemos o chá e comemos pão de amaranto molhado no óleo de girassol. Percebi que Sanja tentava se conter para não devorar a comida.

— Sempre me perguntei se não haveria uma possibilidade de quebrar a proteção dos identificadores — disse ela. — Mas não sabia como. Agora talvez eu consiga fazer o mesmo.

Eu sabia que ela adoraria levar o pass-pod falso para sua oficina, mas não tinha coragem de pedir, e eu não estava pronta para oferecer. Ia precisar do pod se decidisse viajar para Xinjing e tinha medo que Sanja pudesse remover a identidade falsa por engano.

Quando terminamos o lanche, Sanja levou os cantis até a torneira da cozinha e os encheu. Eu precisaria ir até a nascente na próxima semana para fechar o encanamento. Levamos juntas os cantis até o carrinho. A gente agora mantinha uma grande caixa de algas no carrinho para levar os cantis escondidos. Por cima deles, colocávamos o fundo falso da caixa que Sanja tinha criado. Quando tudo estava pronto, depositávamos roupas velhas e cantis estragados por cima. Se os guardas da água parassem Sanja para checar o carrinho — o que acontecia vez ou outra —, só iam encontrar roupas para costurar, serviço que a mãe de Sanja fazia para mim.

Fiquei observando as marcas que o carrinho de Sanja deixava na estrada. A manga puída de uma camisa escapava da tampa da caixa como uma chama branca alimentada pelo vento.

* * *

Sanja começou a me acompanhar todas as vezes que eu caminhava até a nascente para checar o nível da água. O clima estava esquentando e, muitas vezes, a colina era o único lugar fresco. Havia dias em que a gente ia até lá só para escapar do calor. Antes, eu ia até a nascente, dava uma olhada na superfície da água e voltava rapidamente. Mas agora nossas idas eram mais frequentes. E a gente gostava de sentar na margem do lago para comer um lanche ou ficar passando o tempo. Algumas vezes eu levava um livro para ler e Sanja ficava desenhando numa caderneta que eu tinha dado para ela. A coisa mais essencial nas visitas, porém, sempre era a nascente e, embora a gente nunca falasse a respeito, acho que Sanja pensava da mesma forma: a ameaça de a nascente secar ou de não podermos mais ter acesso a ela não parecia real, e, quando entrávamos na caverna, era sempre como se entrássemos em um outro mundo. Era um imenso luxo termos a água só para nós duas, e eu não queria que fosse diferente.

O tempo não é confiável. Algumas semanas podem parecer sem fim, e é fácil ficar cego quando a gente acredita que nada precisa mudar.

Naquele dia, tínhamos ficado por uma hora, talvez duas, na nascente: não havia razão para nos preocupar com o horário. O sol estava queimando, os insetos estavam inclementes e as sombras da caverna faziam um contraponto suave ao começo do verão. Meu jardim estava precisando ser semeado e Sanja tinha uma mesa cheia de trabalhos de reparo esperando na oficina, mas estávamos procrastinando. Ela estava de bom humor e tinha começado a empilhar umas pedras na fraca luz dos lampiões.

— O que é isso? — perguntei. Ela havia construído uma pilha de pedras e colocado um monte de bonequinhos de pedra pintada, com caras furiosas, ao redor.

— É uma casa — respondeu ela, apontando para a pilha de pedras no centro do círculo. — Esses aqui são os guardas da água. — E ela indicou os bonecos em volta da casa. — E aqui somos nós duas.

Longe do círculo central estavam mais duas figuras. Ela usara um pedaço de plástico para representar um lago entre elas. As figuras sorriam.

— Os guardas não nos veem? — perguntei.

— Estão procurando no lugar errado — disse Sanja. — Preciso de uma mecha do seu cabelo — anunciou, e começou a medir um cacho que tinha se soltado do meu rabo de cavalo.

— Para quê? — perguntei, empurrando a mão dela.

— Para terminar o boneco.

— Não, prefiro ficar careca mesmo. — E ri, mas ela me perseguiu pela caverna até que, finalmente, deixei que cortasse as pontas de uma mecha com seu canivete.

Ela colocou o cabelo em cima do boneco de pedra e posicionou uma pedrinha miúda em cima, para manter no lugar. Depois, cortou uma mecha do próprio cabelo e fez o mesmo com o outro boneco, que se mexia longe da vista dos guardas.

— Ficou igualzinho — comentou.

Ainda estávamos relaxadas quando começamos a voltar pelo túnel. Não nos preocupávamos em fazer silêncio, e nossos passos e risadas ecoavam, multiplicados pelas paredes. Quando chegamos ao alçapão, Sanja girou a alavanca sem me avisar e, de repente, uma ducha fria saída de um dos canos do teto caiu com tudo em minha cabeça. Eu dei um grito e atingi o rosto dela com meu rabo de cavalo.

— Ah, foi um acidente, mas quando a gente sair você vai ficar é feliz de estar com as roupas frescas e molhadas — disse ela, com o ar mais inocente do mundo.

— É, então tenho certeza de que você não vai se chatear com isso. — Puxei Sanja para debaixo da ducha de água.

Ela se debateu, conseguiu se soltar e fechou a alavanca. Eu ainda estava com as roupas e o cabelo bem molhados quando ela abriu o alçapão com a outra alavanca e desceu pela caverna.

— Encontro você em um segundo — gritei para ela. Sanja não respondeu, e eu não conseguia enxergar nada do outro lado. Pensei ouvir um breve ruído. — Sanja?

Enchi o pequeno cantil que tinha levado e o desci no alçapão. Depois, desci pelo buraco carregando os dois lampiões e meu capuz, completamente encharcado. Quando levantei a cabeça, minha voz sumiu.

Sanja estava parada na entrada da caverna com as costas viradas para mim, segurando um lampião. O outro lampião estava no chão, lançando sombras. Na entrada da caverna pude perceber a figura de um homem, os contornos perfeitamente visíveis contra a luz do dia. Pelo brilho pálido dos lampiões, consegui discernir seu rosto.

— Isso é uma coisa que não se vê todo dia nesse vilarejo — disse Jukara. — Duas jovens saindo de dentro de uma caverna totalmente molhadas.

Ela se virou na minha direção e, na minha cabeça, tentei inúmeras vezes adivinhar a expressão em seu rosto, para tentar compreender o que acontecera em cada detalhe. Mas a memória é uma coisa escorregadia. De duas coisas tive certeza na hora e tenho até hoje. Ela estava tão surpresa quanto eu, porém, havia outro sentimento dividindo sua expressão.

Sanja parecia estar se sentindo culpada.

Não tínhamos nenhuma história combinada previamente. E, mais tarde, esse erro pareceu ridiculamente infantil e descuidado, mas já o havíamos cometido, e não sabíamos como corrigir. Tínhamos confiado tanto na segurança da caverna escondida que nunca pensamos em como explicar nossa presença na colina caso alguém nos encontrasse. Acho que, se a situação fosse outra, poderíamos ter dito que estávamos apenas fazendo um piquenique. Mas Jukara tinha visto o alçapão e a água pingando das roupas. Não tinha como convencê-lo de que não havia água nos arredores.

Ele não perguntou, não ameaçou, não chantageou. Não foi preciso. Era óbvio que se eu não oferecesse água para ele e para sua família, a caverna estaria cheia de soldados da próxima vez que eu aparecesse ali — se chegasse a haver uma próxima vez.

— Foi tudo minha culpa — disse Sanja, mais tarde, quando Jukara já tinha deixado a casa de chá com cinco cantis cheios. — Desculpe. Não imaginei que isso poderia acontecer.

— Do que você está falando?

— Tive que ir até Jukara na semana passada. Fiquei sem remendos de plástico e não sabia de ninguém mais no vilarejo que pudesse ter alguns para vender. Ela me cobrou caro e se comportou de maneira estranha. Perguntou sobre você. — Ela olhou para mim.

— O que ele disse? — perguntei, desconfiada.

— Reclamou que você não contava mais com ele para fazer reparos, mesmo seu pai tendo sido seu melhor cliente.

Era verdade. Mesmo antes da doença do meu pai eu preferia levar os trabalhos de reparo em segredo para Sanja. Nunca tinha pedido um trabalho a Jukara.

— Também falou alguns coisas sobre o seu pai — continuou Sanja. — Disse que sempre se perguntava como ele tinha tantos cantis para fazer reparos se deveria ter a mesma cota de água que todos os outros moradores do vilarejo. Ele... — Uma vermelhidão pintou as bochechas de Sanja, e ela ficou em silêncio.

Eu esperei.

Ela prosseguiu:

— Ele me perguntou se eu achava que a sua família tinha um poço secreto ou alguma fonte de água. — Sanja cobriu os olhos com as mãos. — Noria, eu não quis entregar nada! Só que fiquei tão sem jeito que deixei cair no chão os remendos de plástico que ele tinha me dado, e os remendos se espalharam por todo lado. Eu não disse nada, nem ele. Mas ele deve ter suspeitado de alguma coisa quando viu que fiquei nervosa, deve ter decidido nos seguir pela colina... — A voz de Sanja sumiu.

Eu não sabia o que dizer para minha amiga, então falei:

— Não foi sua culpa. Se ele suspeitava de alguma coisa, tenho certeza de que teria nos seguido de qualquer maneira.

Mais tarde, quando Sanja já tinha ido embora, desembrulhei meus mapas e abri o caderno de anotações no qual tinha transcrito o conteúdo dos discos. Procurei estradas que tinham sido usadas no Século do Crepúsculo, e outras que ainda poderiam estar sendo usadas por viajantes. Comecei a conectar os nomes dos lugares que tinha ouvido nos discos e a traçar rotas da vila até eles.