Memória da Água

Emmi Itäranta · Capítulo 22 de 22

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Memória da Água

Epílogo

 

Ela se aproxima da porta.

— Com quem gostaria de falar, senhorita? — pergunta o porteiro de roupa azul, sentado na guarita de vidro. A entrada do prédio da universidade está tranquila nessa hora da manhã.

— Estou aqui para ver a professora Kaitio — responde a garota. Ela parece exausta e esguia na forte luz artificial do vestíbulo, não tem mais de 20 anos. — Não marquei um horário, mas você poderia avisar a ela que estou aqui?

— Posso ver seu pass-pod? — pergunta o porteiro, ao mesmo tempo que desliza uma pequena janela de vidro para poder pegá-lo. A garota entrega o pod. O porteiro lê a informação na tela, apanha o gancho do telefone interno e disca um número curto. — Professora Kaitio? — diz no interfone. — Há uma jovem senhorita aqui que gostaria de vê-la. Seu nome de família é Vanamo. — Ele avalia a garota de cima a baixo e algo que se assemelha a um sorriso aparece no seu rosto. — Tudo bem, então. — O porteiro coloca o interfone novamente no gancho. — Ela já vem encontrá-la aqui. — E devolve o message-pod.

A garota repara que a expressão de Lian Kaitio congela por um minuto quando ela chega no vestíbulo. O porteiro não está olhando para elas, porque está ocupado jogando mahjong e não tem mais ninguém no ambiente.

— Por favor, venha comigo — diz Lian, e a garota obedece.

Quando entram no escritório de Lian, ela fecha a porta, passa a chave na fechadura e agarra a garota pelos ombros.

— Onde está Noria? Ela está bem?

A senhora Kaitio adivinha a resposta pela expressão no rosto de Sanja e abraça a garota, as palavras perdidas no gesto.

Mais tarde, Sanja conta tudo.

Conta que o vilarejo foi esmagado por uma ação militar, que a água se tornou um bem escasso, que a nascente se tornou um segredo público.

Conta o quanto Noria queria procurar por água nas Terras Perdidas e como elas tinham planejado ir juntas.

Conta que viu uma patrulha da água atrás da casa da sua família no mesmo dia em que tinham combinado de partir, conta que correu para o lugar secreto onde estava o helicarro e o levou até a Floresta Morta, local em que ficou escondida por semanas. Sanja mandou muitas mensagens para Noria, mas todas voltaram. Finalmente, tomou coragem e voltou ao vilarejo em segredo, apenas para confirmar que sua família fora levada pelos soldados e que havia um círculo azul na porta da casa do mestre de chá.

Conta que decidiu viajar pelo continente até Xinjing, porque não tinha nenhum outro lugar para ir.

Quando termina de contar tudo, um silêncio recai sobre a sala, e Lian torce um lenço amassado nas mãos.

— Eu não sei o que senhora vai querer fazer, dona Kaitio — disse Sanja enfim. — Mas sei o que eu preciso fazer. — A garota fica muda por um momento. — Trouxe uma coisa para a senhora. — Sanja pega na bolsa algo embrulhado em tecido e coloca tudo na mesa. Desfaz o nó.

Sete discos prateados brilham sobre o pano gasto.

Nessa manhã, o mundo é feito de pó e cinzas, mas ainda há esperança.

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Emmi Itäranta

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