Memória da Água
Capítulo Dezenove
Ainda estava escuro lá fora quando me levantei para fazer o chá. O encanamento de água estava sendo caprichoso, como vinha acontecendo praticamente todos os dias nas últimas três semanas: primeiro a água saiu em jatos para dentro da chaleira, depois foram apenas gotas e, enfim, um fio estreito. O estalar do metal dos canos se estendia pelas entranhas da casa. Coloquei a chaleira embaixo da torneira.
Faltava pouco tempo.
Enquanto o recipiente enchia, me afastei para marcar mais uma linha na porta. Era a sexta marca na sétima coluna. Mais ou menos uma semana tinha se passado desde a visita de Taro. Meu braço pesava, e a lâmina da faca se movia relutante na superfície da porta: se interrompesse o movimento e abandonasse a sétima coluna em branco, não saberia o que fazer com as poucas horas que me sobravam.
Voltei para a pia e percebi que o fio de água tinha se esgotado completamente. Tentei encher o bule — mal chegou até a metade. Completei usando a água do antepenúltimo cantil que me sobrava. Tentaria encher o cantil mais tarde, se o encanamento voltasse a funcionar. Não fechei a torneira e coloquei uma grande vasilha embaixo dela. Assim, poderia ouvir se a água voltasse a fluir. Com o tempo, meus ouvidos tinham se tornado sensíveis aos sons que um dia foram tão comuns que eu nem chegava a prestar atenção.
Abotoei o agasalho, coloquei meias de lã nos pés e peguei o xale que estava pendurado no cabide da entrada da casa. A manhã estava gelada, mais gelada do que a maioria das manhãs do oitavo mês do ano. Abri a porta, inspirei o cheiro do jardim se recuperando da noite dura. Minha respiração fazia fumaça no ar.
Quando me abaixei para pegar a bandeja de comida no degrau, percebi o brilho da meia lua sobre a colina. A Festa da Lua estava se aproximando. Logo os moradores do vilarejo começariam a cozinhar doces e tortas e pendurar lampiões decorados com uma miríade de cores nos beirais das casas. O Dragão já devia estar pronto para a parada, e o lixão dos plásticos, fervendo de gente procurando por acessórios para a decoração das casas e para as fantasias das crianças. Nesse ano, provavelmente não haveria fogos de artifício; eles eram considerados muito perigosos, porque ninguém tinha água para apagar eventuais acidentes. A luz teria que ser oferecida de outras formas. Talvez na noite da Festa da Lua os Dragões-Marinhos fossem vagar novamente pelo céu, fazendo o reflexo do brilho se espalhar pela escuridão.
Talvez algumas pessoas fossem sentar no Pico para assistir. Talvez essas pessoas tivessem alguém para sentar do lado delas, dar as mãos e sentir que nada no mundo precisava ser diferente.
Um barulho vindo da direção do portão chamou a atenção. Era alguém falando baixinho. Virei para olhar, mas só pude ver uma faixa azul desaparecendo no bosque. Ainda assim, dava para ouvir vozes que pareciam flutuar na escuridão: os soldados estavam conversando. Um deles riu.
Eles iriam caminhar até o vilarejo mais tarde, no horário que seu trabalho de vigia chegasse ao fim. Poliriam suas botas e comprariam pão, ou talvez lótus-azul no mercado, e poderiam dormir a noite inteira, ou ficar acordados sem contar as horas que restavam para estar vivos. O vento ainda balançaria seus capuzes antimosquito e o sol ainda brilharia em seus corpos, e eles nem prestariam atenção ao friozinho refrescante ou ao calor acolhedor.
Eu não sabia seus nomes, de onde vinham, como era sua aparência — e, ainda assim, nunca odiei ninguém como odiei aqueles homens naquele momento.
A bandeja estava leve. Não havia mais do que um punhado de feijões secos em uma tigela de barro. Meus passos eram um pouco débeis quando carreguei a comida para dentro e fechei a porta.
Fiquei surpresa com a força da raiva que emergiu em mim. Fiquei surpresa com o movimento do braço, e com o som da tigela se chocando contra a parede e se quebrando.
O tecido que embalava a realidade se rearranjava ao meu redor de uma forma que me impedia de fechar os olhos. Os fios de vida iam se entrelaçando uns aos outros, ora mais apertados ora mais frouxos, formando uma teia que mantinha a existência coesa. Eu podia ver suas frestas claramente, as pontas se soltando e escapando de minhas mãos. O mundo ainda pulsava e criava suas histórias, mas eu não tinha mais nenhum papel nelas.
E por trás de tudo estava um vazio que eu quase podia tocar: um espaço frio de silêncio e de ausência, o espaço em que penetramos quando deixamos de fazer parte da memória do mundo.
O lugar em que realmente morremos.
Eu queria mudar de direção, mas não conseguia por causa da torrente de eventos que tinha me trazido até aqui, do passado que tinha sido escrito em pedra e nunca poderia ser diferente, nunca poderia ser esquecido, nunca poderia ser mudado. Eu teria de encará-lo até que não tivesse mais olhos para ver nada. As histórias por trás da morte podem ser diferentes, mas a verdade é uma só. A morte não se curva a ninguém a não ser a si própria.
Um fogo subiu de algum lugar profundo entre minha garganta e meu peito e irrompeu pela minha boca em um soluço pesado, irado. Minha respiração encurtou e todo o meu corpo se encolheu diante da raiva e do pesar. Então os soluços me tomaram completamente e de forma tão repentina que eu não consegui mais represá-los. Caí perto da porta e deixei que fluíssem.
A poeira flutuava silenciosamente numa fresta de luz que invadia a escuridão da casa. Meu corpo pesava. Eu ainda estava deitada perto da porta. Listras salgadas se desenhavam nas minhas bochechas e nos cantos dos olhos, e meu hálito tinha o gosto de metal derretido.
Poderia ficar aqui, pensei. Os soldados vão vir amanhã. Os cantis estavam praticamente vazios. Poderia ficar aqui até que a água deixasse meu corpo.
O silêncio grudava na pele. Eu queria desistir. Fechei os olhos.
Algo se mexeu na quietude de morte.
Se aquela mosca parasse de zumbir, pensei. Então eu poderia dormir.
Mas ela não parou: continuou se chocando contra o vidro, sem conseguir entender por que não conseguia passar por ele e voar livre lá para fora. Abri meus olhos e vi sua sombra presa no estreito espaço entre o vidro e a cortina que cobria a janela.
Alguma coisa se agitou nas profundezas da minha memória: outra mosca, seu corpo brilhante verde e preto, suas asas insistentes para cima e para baixo em um tecido, tentando achar uma saída.
Virei a cabeça e dei com minha bolsa de algas, encostada na parede embaixo do cabide de roupas. Por baixo de sua superfície entrelaçada, reconheci o retângulo do meu caderno de anotações de mestre do chá.
A memória se soltou a partir dali. A mosca desistira da cortina e pousara na mesa, coberta com ferramentas e pedaços de cabos. A superfície do disco prateado brilhava na máquina do mundo antigo, que Sanja tinha deixado com a tampa aberta. As caixas de som farfalhavam. Uma onda de palavras que não me abandonaria mais se espalhava no ar quente e denso.
Minha mente tentava compreender a teia invisível que se estendia por anos, eras e vidas.
A memória mudou: eu via o livro de capa de couro pesando em minhas mãos, e suas páginas construíam uma ponte para o passado que teria se perdido de outra forma. Personagens descritos pela mão de um mestre do chá muito antigo me puxavam e, de alguma forma, era como se ele ainda estivesse ali, vivo entre aquelas páginas, por causa do que fizera de sua existência. Suas palavras me resgatavam para fora do silêncio letal.
Esta é minha última história, e depois de tê-la deixado gravada nestas páginas, minha água já pode secar.
As lendas são eventos a que as pessoas emprestam o formato de histórias para tentar compreendê-las melhor.
Muitas histórias se perdem, e poucas das que permanecem são verdadeiras.
Apesar do frio que emanava de debaixo da porta, a madeira do piso era aconchegante quando pressionei as palmas das mãos nela para dar impulso a meu corpo. Eu estava lutando contra um vento forte: tinha que me forçar a ficar sentada e não me deixar vencer pela fadiga que tomava conta, tentando me empurrar para baixo. A bolsa estava a apenas um metro de distância. Estendi o braço, mas quase perdi o equilíbrio pelo peso do ombro. Finalmente, consegui alcançar a alça de tecido e puxar a bolsa na minha direção. Tirei meu livro do mestre de chá. O couro da capa era suave sob meus dedos.
Minha letra corria pelas páginas, inclinada e estreita. As entradas descreviam, obedientes, todas as cerimônias e os conjuntos de chá usados, o clima, a forma como os convidados se vestiam e como se comportavam. Porém, a maior parte do espaço, eu tinha reservado para a expedição Jansson, que havia transcrito dos discos prateados: informações fragmentadas, incompletas, porém verdadeiras. Continuei virando as páginas e cheguei ao conteúdo do último disco que tinha ouvido com Sanja em uma tarde nublada de verão.
Era um relato de ruína e devastação, de oceanos chegando até o centro dos continentes, engolindo as terras e as fontes de água potável. Milhões deixaram suas casas, guerras foram travadas por combustível fóssil encontrado embaixo do gelo derretido, até que as veias da terra secaram. As pessoas haviam ferido seu mundo até perdê-lo.
Então apareceram as verdades forjadas e as mentiras, e a história mudou para sempre: ela dizia que os livros viraram uma maçaroca no fundo do mar e, por isso, foram substituídos por pod-books, facilmente modificáveis, até que todos os eventos pudessem ser apagados por meio de alguns botões da memória do mundo, até que a responsabilidade pelas guerras, acidentes, invernos perdidos passasse a não pertencer a mais ninguém.
Era a história que aqueles que estavam no poder no Novo Qian construíram, assim como tinham destruído quase tudo sobre o mundo antigo. E, ainda assim, eu tinha em minhas mãos não a verdade completa, porque ela nunca sobrevive, mas alguma coisa que se salvara.
Observei as frases na página e comecei a entender o que eu tinha que fazer.
Poderia ficar parada até que a poeira ganhasse da água. Poderia deixar outra pessoa contar minha história, se é que ela seria contada algum dia: alguém que ia mudar tanto os fatos a ponto de deixá-la irreconhecível e, talvez, a fizesse servir a seus propósitos. Se eu deixasse minha história nas mãos daqueles que desenharam um círculo azul na minha porta, ela não seria mais minha. Eu não estaria mais nela. Eu não estaria mais em lugar nenhum.
Podia deixar que isso acontecesse. Ou podia tentar forçar a minha marca no mundo, dar à minha história o meu próprio formato.
O último terço do meu livro de mestre do chá ainda estava em branco.
Minhas pernas mal podiam aguentar o peso do corpo quando me levantei.
Grossas cortinas cobriam a janela do meu quarto. No crepúsculo, abri o livro de mestre do chá em uma nova página, sentei na cama e ajeitei o lampião para que oferecesse luz suficiente.
A tinta brilhou na ponta da caneta e deixou uma mancha em formato de estrela no papel antes que eu conseguisse começar a escrever.
As palavras vinham lentas no início, pálidas e doentias na escuridão onde tinham ficado trancadas por tanto tempo. Mas quando as encontrei, começaram a fluir e flutuar em minha direção, suas formas se tornando cada vez mais claras. Quando finalmente vieram à tona, luminosas e ousadas, peguei todas que podia e as derramei no papel.
Escrevi a respeito da nascente secreta, sobre a qual ninguém tinha escrito antes. Escrevi sobre os fenômenos das luzes no céu, que eram como peixes luminosos e nos quais era possível ver as formas de dragões, se prestasse bastante atenção. Escrevi sobre o lixão dos plásticos, os segredos enterrados em tantas camadas, os objetos do mundo antigo esmagados, que um dia tinham pertencido a alguém, que tiveram uma importância para alguém, cada um deles.
As frases no papel quebravam o círculo de espaço e tempo. A água vertia para dentro da casa a partir da colina novamente, meu pai caminhava pela casa. Vi a forma como ele alongava os dedos depois de varrer o jardim de pedra e colocar o rastelo apoiado na cerca da varanda, e a forma como arqueava as sobrancelhas cada vez que inclinava a cabeça sobre o caldeirão para checar o número de bolhas no fundo. Minha mãe estava sentada em seu escritório, e eu podia vê-la arrumando o cabelo, perdida em pensamentos, mexendo a cabeça de um lado para o outro à procura de uma caneta. Podia sentir o perfume de lavanda e menta de seu sabonete feito em casa, e do cozido de cebolas que meu pai preparava de vez em quando. Podia ouvir seus passos: um par que pisava firme e o outro mais enfático, mais impaciente. Suas vozes enchiam a cozinha novamente e flutuavam para o jardim, eu não estava mais sozinha.
Escrevi sobre Sanja. A luz que tomava o rosto dela quando separava uma a uma as peças de uma máquina do mundo antigo na sua oficina, memorizando a ordem e a localização exata antes de ajeitá-las na mesa. O jeito como um dos cantos da sua boca subia um pouquinho mais do que o outro quando ela sorria, e o fato de ela sempre saber o que dizer e como dizer alguma coisa para fazer eu me sentir melhor. O hábito de prender o cabelo num rabo com uma echarpe, o contorno das suas mãos, as rachaduras e machucados nos dedos. A forma do seu corpo dentro da água escura, onde a luz não alcançava.
Lá fora, o céu mudava e a noite se aproximava, mas dentro de casa era como se as sombras tivessem se encolhido, se intimidado, como se o livro lançasse sobre elas uma luz mais forte e poderosa do que a do lampião. As páginas em branco iam rareando. Resumi o que acontecia ao meu redor e coloquei tudo entre aquelas capas de couro, junto com todas as outras coisas que tinham se perdido, até ter escrito por todos os pedaços em branco e deixado meu pulso doendo.
Quando finalmente larguei a caneta e descansei a cabeça na capa de couro, a noite caía do lado de fora das cortinas. Meu corpo era como uma casca vazia: leve o suficiente para ser levado pela menor brisa, livre do peso da água e das palavras.
Vesti minha roupa de mestre do chá. Estava larga, mas era suave na pele, e senti o cheiro do meu próprio suor nela. As meias escorregavam no piso de madeira quando caminhei até a cozinha com o livro nas mãos. O saco de tecido ainda estava na cozinha, onde eu o havia deixado. Soltei a cordinha que o prendia e olhei para dentro. Ainda havia algumas colheradas de chá no fundo; era o mesmo chá que eu tinha escolhido na feira de Kuoloyarvi para a cerimônia de graduação. O aroma já não era mais tão forte, mas eu ainda podia sentir a mesma coisa: a umidade que parecia dar nova vida à terra, o vento que balançava os galhos de todas as árvores, a luz que se insinuava na água. Peguei o último cantil do chão. Estava leve e seu conteúdo chacoalhava. Abri a torneira da casa. Falei palavras bonitas e palavras feias, acho até que gritei e chorei, mas a água não se importa com os pesares humanos. Ela flui sem diminuir ou aumentar o ritmo, lá no centro da terra, onde apenas as pedras podem ouvir.
Havia sete riscos na sétima linha vertical na porta da minha casa, e a tinta do círculo azul já secara havia bastante tempo.
Estava tudo pronto.
Naquela manhã, o mundo era o mesmo de sempre, mas não o reconheci imediatamente quando abri a porta e fui até o jardim. Não apenas as cores eram diferentes, mas também os cheiros e o silêncio: conheci muitos silêncios, mas esse ainda não me era familiar.
Por um momento, pensei que tinha nascido de novo.
Embrulhei o xale mais forte ao redor do corpo e puxei as mangas do casaco para que cobrissem minhas mãos. Poderia ter saído na varanda de meias e sapatos, mas queria sentir o quanto a grama estava fria nos pés descalços. As hastes da grama roçavam meus pés com seu frescor enquanto eu caminhava até o jardim de pedras.
O sol saiu de detrás de uma nuvem e me deixou deslumbrada. Eu tinha imaginado como era a luz dos invernos do mundo antigo, mas essa luz era diferente. Uma delicada camada de neve cobria os galhos das ervas aromáticas, a grama, a areia do jardim de pedras e o telhado da casa de chá. Quando a luz reluziu contra a neve, meus olhos se encheram d’água, e senti que tinha que me aproximar.
Todos os cantis da varanda estavam vazios. O gelo branco cobria suas superfícies. Carreguei meu último cantil da cozinha para a varanda da casa de chá, peguei o cabo da vassoura e varri as folhas brancas como fantasmas, que começavam a ficar molhadas devido à força do sol nas pedras. Catei um punhado delas para serem jogadas nas pedras novamente, de modo que o caminho não parecesse ter sido varrido. Essa era uma das coisas sobre as quais meu pai sempre insistia.
A porta dos visitantes era estreita e angulosa e me ajoelhei para entrar na casa de chá, empurrando o cantil à frente. Esvaziei o que sobrou da água do cantil no caldeirão e trouxe um pouco de turfa seca do barracão. Na sala da água, tirei meu livro de mestre do chá de debaixo do casaco e o coloquei no chão, embaixo de uma tábua reservada a esconder os conjuntos de chá. Coloquei um bule grande de metal, um bule pequeno de barro e uma única xícara em uma bandeja. Levei-a até o centro da sala, joguei as folhas que sobravam dentro do bule de barro e acendi o fogo do caldeirão.
Pensei no meu pai, que agora vivia apenas no meu sangue e nos meus ossos, e na minha mãe, de quem nada restava a não ser eu mesma.
Pensei em Sanja.
Eu sabia, assim como num sonho, quando reconhecemos uma pessoa sem nunca tê-la visto, ou quando se reconhece o amor.
O vapor começou a subir do caldeirão e eu esperei até contar dez bolhas no fundo.
Enchi o bule de metal com água quente, preparei o chá mais fraco no bule de barro, e o utilizei para esquentar a xícara. Então, enchi o bule pequeno novamente e despejei o chá até que suas laterais marrons estivessem úmidas. O tempo fluía sem que eu fizesse força, maleável como uma árvore que se curva ao vento ou uma onda que cruza o oceano.
O chá estava pálido e claro na xícara, seu aroma era suave.
Abri a porta de visitantes para a convidada e me ajeitei no chão da casa de chá para ver através da moldura da porta as árvores arqueando sobre o caminho de pedra, sua luz se espalhando pelas pedras molhadas.
Esse não era o fim que eu tinha imaginado para mim. Ainda assim, era o único que havia. Mas, pensando bem, isso talvez não seja inteiramente verdade: acho que poderia ter corrido pelo portão até ouvir o tiro de misericórdia no ar e sentir a picada quente da bala no corpo. Talvez assim fosse mais rápido do que ficar aguardando os soldados, que deveriam estar cada vez mais perto, as lâminas de seus sabres, o sangue que eu nem iria chegar a ver sobre as pedras. Isso mudaria o caminho, não o fim da jornada. Não havia escapatória. Ainda assim, decidi continuar respirando o máximo possível. Minha vida pode terminar aqui, mas haverá outros que levarão a história adiante. Talvez alguma parte do mundo possa ser melhor depois disso.
A cerimônia acaba quando a água termina.
Não consigo enxergar além do jardim. Não sei se as cidades se dissolveram, não sei quem chama a terra de sua. Não sei quem está atualmente tentando confinar a água e o céu sem se dar conta de que eles pertencem a todas as pessoas e a ninguém — não há corrente feita pelo homem que possa aprisioná-los.
Mas eu não preciso ver para além do jardim. Não mais.
Em breve, enquanto ainda estou sozinha na casa de chá, vou me encaminhar até a sala da água, enfiar minha mão por baixo da estante e sentir uma pequena alavanca perto da parede. Então vou olhar a tábua do piso original da casa de chá, que é diferente, mais escura do que as outras. Vou puxar a pequena alavanca com o dedo e ela vai levantar um pedaço da tábua do piso. Vou colocar minha outra mão por baixo da tábua até conseguir erguê-la o suficiente. Ali embaixo existe um nicho escuro que emana o frio da terra.
A capa de couro do livro é suave e quente, quase como uma coisa viva que seguro nas mãos. Ninguém pode me ver guardar o livro cuidadosamente nesse nicho, embaixo das tábuas sólidas do piso, num lugar em que nem dedos nem olhos podem alcançar.
A visitante está abrindo o portão. Já se adianta pelo jardim, olhando para o caminho que leva à casa de chá. Seus passos não deixam marcas na neve fina. Um vento passa sob as ervas aromáticas, fazendo-as sacudir. Flocos luminosos boiam no chão, onde a neve já começou a derreter, fazendo pequenos riozinhos na luz. Eles seguem até se encontrarem em um pequeno córrego. Não há começo nem fim.
O chá deixou um gosto doce na minha boca.
Tentei não pensar em Sanja, mas ela invade meus pensamentos e eu me pergunto: será que eu invado os pensamentos dela, ou do que restou dela?
Uma imagem aparece diante dos meus olhos sem ser convidada. Ela aparece mais uma vez, não quer ir embora: Sanja parada na caverna da colina perto do lago. Está olhando para a água agitada, e eu gostaria de acreditar que vamos nos reencontrar. Mas aí vejo outra Sanja, que me dá as costas e não olha para trás. Não sei qual das duas é a verdadeira e qual é um reflexo tão perfeito da água que pode ser tomado como realidade.
Posso escolher meu próprio fim, o fim que eu quero.
O dia lá fora está claro, pela moldura da porta já posso ver os passos dela se aproximando.
Ofereço minha mão.