Memória da Água

Emmi Itäranta · Capítulo 2 de 22

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Memória da Água

PARTE UM | Observadores da água

PARTE UM

 

 

Observadores da água

 

Só o que muda pode ser permanente.

Wei Wulong, “O caminho do chá”

Século VII do antigo Qian

CAPÍTULO UM

 

A água é o mais versátil de todos os elementos. Assim disse meu pai no dia em que me levou para o lugar que não existe. Embora tenha errado em muitas coisas, estava certo a respeito disso, pelo menos é no que ainda acredito. As águas mudam conforme a lua, abraçam a terra, não têm medo de morrer no fogo ou viver no ar. Entre na água de leve e sentirá um toque tão doce que quase se confunde com a pele. Mas choque-se contra ela e a água o quebrará em pedaços. Um dia, quando ainda existiam invernos no mundo — invernos frios, invernos brancos, invernos de cujos abraços era preciso deslizar e fugir para se aquecer —, dava para andar sobre a água cristalizada, chamada gelo. Já vi gelo, mas apenas na forma de cubos pequenos feitos pelo homem. A vida toda imaginei como seria andar sobre um mar congelado.

A morte é amiga íntima da água. Não dá para separá-las, e também não é possível afastá-las das nossas vidas, porque representam, no sentido último, aquilo de que somos feitos: a versatilidade da água e a opressão da morte. A água não tem começo nem fim, e a morte tem ambos. A morte é o começo e o fim. Algumas vezes, ela viaja escondida na água, outras, a água afasta a morte, mas estão sempre juntas, no mundo e dentro de nós.

Também isso aprendi com meu pai, embora tenha a impressão de que acabaria compreendendo sozinha.

Pude escolher o meu começo.

Talvez possa escolher o meu fim.

O começo foi no dia em que meu pai me levou para o lugar que não existe.

Isso aconteceu algumas semanas depois que prestei vestibular, compulsório para todos os jovens da minha idade. Embora tenha me saído bem, não havia a menor possibilidade de largar o posto de aprendiz do meu pai para seguir os estudos na cidade. Foi uma escolha que fui obrigada a fazer e, talvez por isso, não tenha sido exatamente uma escolha. Era o que fazia meus pais felizes, e não me fazia infeliz... e isso era o mais importante na época.

Estávamos no quintal, atrás da casa de chá, e eu ajudava meu pai a pendurar os cantis para secar. Ainda tinha alguns na mão, mas a maioria jazia de ponta-cabeça, presa por grampos de metal. A luz do sol atravessava as superfícies translúcidas formando um véu. E pequenas gotas desciam dos cantis em filetes até, finalmente, caírem na grama.

— Um mestre do chá tem uma ligação especial com a água e com a morte — disse meu pai, enquanto examinava uma das películas à procura de rachaduras. — Chá não é chá sem a água, e sem o chá um mestre do chá não é mestre. Ele devota sua vida a servir os outros. E só comparece a uma cerimônia do chá como convidado uma vez na vida, quando sente que a morte se aproxima. Então, ordena que seu sucessor prepare o último ritual e, depois de ter se servido, espera sozinho na casa de chá até que a morte pouse a mão pesada em seu coração.

Meu pai atirou um cantil na grama, onde outros já se amontoavam. Remendar cantis nem sempre funcionava, mas eles custavam caro, como qualquer coisa feita de plástico durável, e, portanto, valia tentar.

— Alguém já se enganou alguma vez? — perguntei. — Alguém já pensou que a morte estava chegando quando não era a hora?

— Não na nossa família. Ouvi falar de um mestre do passado que ordenou ao filho que preparasse o ritual, se deitou no chão da casa de chá e, dois dias depois, voltou para a família. Os empregados acharam que fosse um fantasma e um deles teve um infarto. O mestre tinha pressentido a morte do empregado. O empregado foi cremado e o mestre ainda viveu por vinte anos. Mas não acontece com frequência.

Dei um tapa numa mutuca pousada no meu braço. O inseto se esquivou com um zunido estridente. A fita que prendia meu capuz antimosquito coçava e me apertava, mas eu sabia que se tirasse a proteção atrairia muito mais insetos.

— Como a gente sabe quando a própria morte está chegando?

— A gente simplesmente sabe — respondeu meu pai. — Assim como a gente sabe quando ama ou sente que conhece um estranho em sonho, mesmo sem nunca ter visto a pessoa. — Ele pegou os últimos cantis da minha mão. — Vá apanhar dois lampiões na varanda da casa de chá e apronte-os para mim.

Fiquei me perguntando para quê ele precisaria de lampiões, já que ainda era de tarde e, nessa época do ano, as noites não chegavam a empurrar totalmente o sol para baixo do horizonte. Fui até a casa de chá e peguei dois lampiões que estavam embaixo de um banco. Um vaga-lume caminhava em um deles. Chacoalhei o lampião em cima de alguns galhos de groselheira. Os vaga-lumes gostam de groselha, por isso, continuei a mover o lampião sobre os galhos até ter acordado um bocado de insetos dorminhocos e atraído alguns deles para dentro de cada lampião. Fechei o vidro e fui até meu pai.

Ele tinha colocado um dos cantis nas costas. Sua expressão era séria embaixo do capuz antimosquito. Estendi os lampiões na direção dele, mas meu pai apanhou apenas um.

— Noria, está na hora de eu mostrar uma coisa para você — disse ele. — Venha comigo.

Atravessamos o pântano seco, que se estendia dos arredores da nossa casa até o pé da serra, e depois subimos uma das colinas. Não foi uma longa caminhada, mas o suor já deixava meus cabelos colados na cabeça. Quando chegamos ao topo, onde começava o jardim de pedras, tirei o capuz. O vento era tão forte que não havia mais tantas mutucas e pernilongos quanto perto de casa.

O céu estava límpido e sereno. O sol ardia na pele. Meu pai parou, talvez para escolher o melhor caminho, e aproveitei para me virar e dar uma espiada. A casa do mestre do chá e seu jardim eram uma mancha verde que parecia flutuar na aridez de pó e pedras da paisagem. O vale era salpicado por casas do vilarejo e, do outro lado, se erguia a montanha Alvinvaara. Para além da montanha ficavam as áreas úmidas, onde se assomava um trecho da escura floresta de abetos. Ainda um pouco mais adiante ficava o mar, mas não era possível avistá-lo, nem mesmo nos dias mais bonitos. Do lado oposto dava para ver as árvores retorcidas da decadente Floresta Morta. Na minha infância havia bétulas anãs ali, que não chegavam a alcançar a altura da minha cintura. Certa vez cheguei mesmo a colher um bom punhado de mirtilos silvestres.

Havia um caminho que margeava o jardim de pedras, e meu pai escolheu segui-lo. Desse lado, a colina era cheia de cavernas. Quando mais nova, ia com frequência brincar ali. Ainda me lembro de um dia em que minha mãe me descobriu brincando de duende da montanha com Sanja e um grupo de outras crianças. Ela discutiu com meu pai, que tinha se esquecido de tomar conta de mim, e me arrastou pelo braço de volta para casa. Fui proibida de brincar com as crianças do vilarejo por um mês. Mas continuei a visitar as cavernas com Sanja todas as vezes que minha mãe viajava a trabalho, e nós brincávamos de exploradoras, aventureiras e agentes secretas do Novo Qian no Deserto Mediterrâneo. Havia dezenas de cavernas, talvez centenas, que gente explorava o mais minuciosamente possível. Estávamos sempre à procura de passagens secretas e tesouros escondidos — coisas que se lê em livros antigos ou se ouve em histórias do povo, mas que não existem de verdade.

Meu pai parou diante da boca de uma caverna que parecia a cabeça de um gato e entrou sem dizer uma palavra. A passagem era baixa. Minhas calças de tecido fino não chegavam a proteger os joelhos, que raspavam contra as rochas, e era com certa dificuldade que eu carregava o capuz e o lampião, que começava a brilhar de leve, conforme os vaga-lumes iniciavam seu trabalho no crepúsculo. Dentro da caverna, o ar era frio e pesado.

Reconheci o lugar. Tinha sido motivo de uma briga entre mim e Sanja certa vez, porque Sanja queria usá-lo como quartel-general da Crucial e Importante Sociedade de Exploradores do Novo Qian. Insisti que era um desperdício de espaço, já que a caverna era muito comprida e baixa, e ficava muito longe de casa para que conseguíssemos contrabandear comida convenientemente. No fim das contas, acabamos optando por uma caverna menor e mais próxima.

Meu pai continuou rastejando em direção ao fundo da caverna. Vi quando ele parou e colocou a mão direita na parede — pelo menos foi o que achei que tinha feito — e percebi um movimento do braço. A pedra acima da sua cabeça fez um som abafado e, naquele mesmo lugar, um buraco negro se abriu. A caverna era tão baixa naquele ponto que, quando ele se sentou, sua cabeça ficou no nível do buraco, para onde meu pai logo deslizou, levando o lampião. Consegui enxergar o rosto dele quando olhou para mim lá de dentro.

— Você vem?

Rastejei mais para o fundo da caverna e coloquei a mão na parede, no local em que vi meu pai abrir o buraco. Tudo o que podia enxergar era a luz bruxuleante do lampião contra a pedra. Mas meus dedos logo encontraram um relevo estreito em forma de concha, atrás do qual havia uma fenda larga e uma pequena alavanca escondida. A fenda ficava praticamente invisível, escondida pela pedra.

— Mais tarde explico como tudo isso funciona — disse ele. — Agora venha.

Eu o segui pelo buraco.

Sob a caverna havia outra caverna, ou talvez seja mais acertado dizer um túnel, que parecia mergulhar diretamente para dentro da colina. No teto, logo acima do buraco, havia um tubo de metal e um gancho grande, cuja utilidade não compreendi. Na parede, duas alavancas. Meu pai puxou uma delas e o buraco se fechou. O brilho dos lampiões se intensificou quando o túnel ficou na mais completa escuridão. Ele tirou o capuz antimosquito e o cantil, que trazia nos ombros, e colocou tudo no chão.

— Pode deixar o capuz — falou. — Você não vai precisar dele daqui pra frente.

O túnel descia para o coração da colina. Reparei que um cano de metal corria ao longo do caminho. Não conseguia andar com as costas eretas, e a cabeça do meu pai vez ou outra raspava no teto. A rocha abaixo dos nossos pés era estranhamente macia. A luz do lampião invadia as dobras da jaqueta do meu pai, enquanto a escuridão penetrava as cavidades das paredes. Fiquei atenta ao silêncio da terra ao redor, um silêncio diferente daquele experimentado lá em cima: mais denso, mais pesado. Vagarosamente, comecei a distinguir um som que se alongava e crescia lá no centro da colina, um som familiar e ao mesmo tempo estranho. Nunca tinha ouvido um som reverberar assim, livre, impulsionado unicamente por sua própria força e vontade. Era como o barulho da chuva batendo na janela, ou de uma bacia sendo esvaziada embaixo dos pinheiros, mas não era um som doméstico, um som controlado, não era produzido pela mão do homem. Ele me envolvia e me atraía, até que comecei a ter a impressão de estar escutando por entre as paredes, dentro do escuro.

Meu pai parou e vi, através da luz do lampião, que tínhamos chegado a uma passagem para outra caverna. O som rugia forte. Ele se voltou para mim. A luz dos vaga-lumes oscilava em seu rosto, exatamente como quando a gente ilumina a água, e o som da escuridão cantava forte às suas costas. Eu esperava que ele dissesse alguma coisa, mas meu pai simplesmente se virou outra vez e continuou a andar pelo caminho que se abria. Eu o segui.

Não dava para enxergar mais do que um palmo de distância, porque a luz dos lampiões não era forte o suficiente. A escuridão nos recebeu com um estrondo. O som era como o barulho da água fervendo no fundo de um caldeirão, ou melhor, como o som de centenas e centenas de caldeirões onde a água estivesse exatamente no ponto de fervura, quando um mestre do chá sabe que é a hora de tirá-la do fogo antes que ela vire vapor e nunca mais possa ser apanhada. Senti algo frio e úmido no rosto. Caminhamos mais alguns passos e a luz dos vaga-lumes finalmente encontrou o som — e eu vi a nascente secreta pela primeira vez.

A água jorrava para fora da rocha em fios, fitas e cordões brilhantes e em enormes lâminas que se chocavam contra a superfície do lago, no fundo da caverna. O impacto fazia a água se retorcer ao redor das rochas, enrolando-se em espirais, agitando-se e dançando até se desenrolar novamente. A superfície tremia sob a força do impacto. Um estreito filete d’água fluía em direção à pedra em forma de concha — a fechadura do alçapão por onde tínhamos entrado — e depois desaparecia no chão. Vi uma coisa que parecia uma mancha branca na rocha que ficava abaixo do filete de água, e também mais uma alavanca na parede um pouco mais à frente. Meu pai deu um sinal para que eu me aproximasse da margem do lago.

— Experimente.

Afundei os dedos na água e senti sua força. Ela movia minhas mãos como se fosse a respiração de um animal, ou a pele de outra pessoa. Estava fria, muita mais fria do que qualquer outra coisa que eu já tivesse tocado. Molhei os lábios cuidadosamente, como tinha sido ensinada a fazer desde muito jovem: sempre provar a água antes de beber.

— É fresca — falei.

O lampião que meu pai tinha nas mãos iluminou um sorriso, que logo deu lugar a uma expressão mais séria.

— Você tem 17 anos, idade suficiente para entender o que vou dizer. Este lugar não existe. Esta nascente secou há muito tempo. Assim conta a história, e é nisso que todos acreditam. Mesmo quem conhece as lendas que falam de uma nascente na colina que, uma vez, proveu água para todo o vilarejo. Lembre-se. Esta nascente não existe.

— Vou lembrar — afirmei, mas só muito depois fui entender a promessa que tinha feito.

O silêncio não é vazio ou imaterial. Ele pode domar uma torrente de acontecimentos. E guarda um poder forte o suficiente para destruir tudo.

Voltamos pelo túnel. Quando nos aproximamos da entrada, meu pai pegou o cantil que tinha deixado por lá e o segurou perto do gancho do teto. Depois de checar se a boca do cantil estava aberta, girou uma das alavancas da parede. Ouvi um barulho elétrico, parecido com os barulhos dos utensílios de resfriar da cozinha, e logo percebi um novo ruído, diferente do primeiro, como se preso a algo de metal. Em seguida, um forte jato de água explodiu do teto diretamente dentro do cantil.

— Você que fez? — perguntei. — Ou foi a mamãe? Ela planejou tudo isso? Vocês construíram juntos?

— Ninguém sabe ao certo quem construiu — explicou ele. — Mas os mestres do chá sempre acreditaram que tivesse sido um deles, talvez o primeiro que se estabeleceu aqui, antes de os invernos desaparecerem e as guerras começarem. Agora, só a água pode lembrar o que aconteceu.

Ele desativou as alavancas. A força da água foi diminuindo e morrendo pouco a pouco, e o buraco por onde tínhamos entrado se abriu novamente.

— Você primeiro — disse ele.

Desci pelo buraco. Meu pai fechou o cantil com firmeza, então baixou-o em direção ao chão, onde o apanhei. Quando o buraco se fechou, a caverna parecia só uma caverna sem segredos.

O brilho dos vaga-lumes enfraqueceu pouco a pouco na luz do dia. Quando avançamos pelo jardim de casa, minha mãe, sentada embaixo de uma tenda, levantou os olhos das anotações que fazia a partir de um livro pesado em seu colo. Meu pai me entregou o lampião. Fiquei olhando a sombra das folhas brincando no caminho de pedras enquanto o observava andar em direção à casa de chá. Estava pronta para segui-lo, mas ele disse:

— Agora não.

Parada, um lampião em cada mão, fiquei ouvindo os vaga-lumes se debaterem contra as paredes de vidro. Foi só quando minha mãe falou comigo que me dei conta de que devia abrir as portas dos lampiões.

— Você se queimou no sol de novo. Onde foram?

Os vaga-lumes se espalharam pelo ar e sumiram nos arbustos.

— Num lugar que não existe — respondi, e só de olhá-la percebi que ela sabia exatamente onde a gente tinha estado e que também já estivera por lá.

Minha mãe não disse mais nada, não naquele momento, mas a expressão de calma abandonou seu rosto.

Mais tarde naquela noite, deitada na cama e protegida pelo mosquiteiro, fiquei observando a luz alaranjada do sol noturno e ouvi meus pais conversarem na cozinha por um bom tempo. Não dava para distinguir as palavras, mas percebi o tom pesado, que acabou invadindo meus sonhos.