Memória da Água
PARTE DOIS | O espaço do silêncio
PARTE DOIS
O espaço do silêncio
Um único grão de areia é a mudança em todos os contornos do universo: mude uma coisa e você estará mudando tudo.
Wei Wulong, “O caminho do chá”
Século VII do antigo Qian
CAPÍTULO NOVE
Somos filhos da água, e a água é amiga próxima da morte. Não dá para separá-las, porque somos feitos da versatilidade da água e da opressão da morte. Elas estão sempre juntas, no mundo e dentro de nós mesmos. E um dia a água secará.
Vai acontecer assim:
A terra tomará conta do que antes era água, assumirá seu lugar na pele humana, nas folhas verdes, e se espalhará como poeira. A folha, a pele, o pelo do animal lentamente tomarão a forma e a cor da terra, até que se tornará impossível dizer onde começa um e termina o outro.
Coisas mortas e secas se tornam terra.
A terra se torna coisas secas e mortas.
A maior parte do solo por onde caminhamos um dia foi verde, vivo, pulsante. Um dia, alguém, que não se lembrará de nós, caminhará sobre nossa pele, carne e ossos, no pouco pó do que nos restará.
A única coisa que nos separa do pó é a água — e a água não pode ser represada. Ela desliza por nossos dedos e poros e abandona nossos corpos e, quanto mais velhos ficamos, mais ansiosa ela fica em nos abandonar.
Quando a água seca, somos apenas terra.
* * *
Escolhi um lugar próximo ao jardim de pedras, à sombra das ervas aromáticas. O céu estava encoberto, e a pálida luz cinzenta do sol se acomodava na grama seca do inverno, confortável como o mar no oceano. A pouca luz perpassava meu corpo e recaía sobre a terra. Pensei no silêncio da terra, mas a água e o ar ainda faziam barulho em mim, e eu precisava fazer uso das poucas horas de luz do dia.
Tirei o casaco, coloquei-o ao lado da pá e peguei a enxada.
Tomei todo o cuidado para não machucar a raiz das ervas aromáticas. Cavei até que os músculos doessem e a boca estivesse seca. Quando os primeiros vaga-lumes começaram a brilhar nos arbustos de groselha, o buraco a meus pés estava suficientemente grande.
Fui ao banheiro me lavar com água fria e ouvi a mensagem que minha mãe tinha deixado no message-pod. Sua voz estava encharcada de pesar:
— Não tive notícias do escritório de vistos de viagem. Todas as conexões de trem entre Xinjing e Ural estão suspensas e ninguém está conseguindo autorização para chegar nem perto dessas cidades. Noria, a única coisa que posso fazer é tentar um visto para que você venha, assim que as conexões de trem forem autorizadas. Só espero conseguir arranjar um jeito seguro de mandar o visto até você. Daria qualquer coisa para estar ao seu lado.
O bip do pod soou e ficou em silêncio novamente.
Ouvi a mensagem mais uma, duas vezes. Eu sabia que só precisava escolher o nome da minha mãe na lista de contatos do pod e ligar, mas minha boca estava tão plena de silêncio que não havia lugar para palavras. Finalmente, apertei o botão verde. Gravando, anunciou a tela.
— Estou bem — falei, tentando fazer a voz soar verdadeira. — Escrevo para você amanhã.
Enviei a gravação e coloquei o message-pod de volta na parede.
Fui para a cama, mas fiquei encarando a escuridão com os olhos abertos até conseguir distinguir os contornos dos móveis na pálida luz do dia que começava.
Quando finalmente me levantei e fui até a varanda, não conseguia saber se o clima estava mais frio do que o normal ou se eu estava sentindo calafrios por conta da falta de sono. Voltei para o quarto e vesti o casaco, as calças e o xale mais quentes que achei. Coloquei dois pares de meia antes de calçar as sandálias. No caminho para fora de casa, meu olhos encontraram o capuz antimosquito do meu pai. Estava dobrado dentro de um saco de tecido, na prateleira ao lado da porta do meu quarto. Peguei o capuz, levei até o escritório da minha mãe e fechei a porta.
Os convidados começaram a chegar perto das dez horas da manhã. Os primeiros foram Jukara, o artesão de plásticos, sua esposa, Ninia, sua irmã, Tamara, e o major Bolin, com seu motorista. Logo depois, quatro mestres do chá amigos do meu pai vieram me cumprimentar no portão, seguidos por alguns primos de primeiro e segundo graus que viviam nos vilarejos próximos. Eu fora obrigada a compilar a lista de convidados quase na base da adivinhação, porque a família da minha mãe morava perto de New Piterburg, e ela não tinha parentes ou primos ao norte. Já meu pai, pouco mantivera contato com membros da família. Eu só conseguia me lembrar de ter encontrado parentes uma ou duas vezes, quando criança, em casamentos ou batizados em que meu pai havia sido chamado para fazer a cerimônia do chá. Essas pessoas eram estranhas para mim, não tínhamos memórias em comum. Eu me sentia sozinha entre elas.
As três carpideiras do vilarejo se aproximaram. Eram as mesmas de sempre. Quando criança, eu sentia medo delas. As três vestiam roupas largas e pretas e tinham a cabeça coberta por lenços. As expressões nos rostos enrugados se alternavam como as marés. Algumas pessoas diziam que elas viam coisas que os outros não podiam ver. Elas falavam pouco e seguiam a morte aonde quer que fosse. Quando lamentavam a partida de alguém, até as pedras pareciam sofrer.
Eu não me lembrava de tê-las convidado para a cerimônia, mas não as mandei embora. Alguém precisava chorar em um dia como esse, pensei, e eu não tinha nada além de um silêncio entorpecido dentro de mim.
Sanja e o pai, Jan, foram os últimos a chegar. Ela me abraçou, e tenho certeza de que podia sentir o quanto eu estava tremendo.
— Minha mãe teve que ficar em casa. Minja não está bem — sussurrou minha amiga, antes de voltar para a companhia de Jan, no jardim, onde os outros convidados já se posicionavam ao redor do caixão. Fechei a porta e segui os passos dos outros.
O caixão de bambu descansava num banco de pedra onde os homens do serviço funerário oficial o tinham colocado no dia anterior. Numa das pontas do banco estava a urna de água. Para mim, o caixão ainda parecia pequeno demais. Era pouco maior que o fogareiro que ficava no chão da casa de chá, e pensei, pela primeira vez, no quanto a morte é escorregadia, impossível de compreender e de tocar. Meu pai não estava lá, nem no caixão nem na urna. Aquele era apenas um corpo ao qual o espírito dele tinha se ligado, e o espírito pertencia àquela carne tanto quanto a luz pertence a uma flor murcha que um dia ajudou a criar.
Pedi a Bolin que cuidasse dos discursos formais. Ele deu as boas-vindas aos convidados e falou brevemente sobre meu pai. Então abriu o livro de capa de couro que segurava nas mãos e leu uma passagem. Era óbvio que estava falando alguma coisa que fazia sentido, mas as palavras não ficavam comigo, eram ecos estranhos que se perdiam no ar.
Ele fechou o livro, posicionou-o cuidadosamente no chão e fez um sinal a Jukara. Juntos, levantaram o caixão do banco e o carregaram até a sepultura, baixando-o lentamente. Como parente mais próxima, fui a primeira a me despedir. O ano ainda estava no início, portanto, não havia flores, e as folhas das árvores tinham caído havia meses. Então peguei um ramo de folhas de sempre-viva e deixei cair no caixão. Em pouco tempo seu verde-escuro se dissolveu no bambu. Somente os botões frágeis e raquíticos das flores ainda brilhavam como estrelas espalhadas na terra escura.
A maior parte dos convidados deixou um seixo ou uma concha encontrada no leito de um dos rios, secos havia muito, como símbolo da despedida. Ao bater no bambu, os objetos produziam o som semelhante ao de uma chuva suave. Bolin espalhou algumas folhas prateadas de chá sobre o caixão.
Quando as despedidas terminaram, veio o momento da urna de água.
As carpideiras começaram a cantar.
A canção era silenciosa, mas foi crescendo de forma gradual, uma música bonita e horrenda ao mesmo tempo, um som que era como um choro em melodia que envolvia tudo que estivesse ao alcance. A linguagem era antiga e desconhecida. As palavras soavam como feitiços ou maldições, mas eu sabia que eram expressões do mundo antigo, quase perdidas, mantidas vivas apenas por canções de lamento que cada vez menos pessoas conheciam.
O lamento das carpideiras tecia uma teia ao meu redor, uma teia de inúmeros fatos que iam se afastando como estrelas brilhantes e de coisas que eu lembrava, mas que logo estariam perdidas e esquecidas. Ergui a urna de água e caminhei até a beirada da sepultura. A canção das carpideiras crescia e fenecia, fazia brotar galhos e raízes em minha pele e abaixo dela, e os contornos do meu corpo pareciam se perder, porque o que eu carregava dentro de mim não podia ser represado: eu era uma floresta que crescia em direção ao céu e ao centro da terra, eu era o céu e o mar, a respiração dos seres vivos e o sono dos mortos. Aquelas palavras desconhecidas me carregavam para longe — uma língua perdida que abria o caminho para os meus pés.
Fiz uma reverência antes de derramar a água nas raízes das ervas aromáticas.
Quando a urna ficou vazia, levei-a novamente para o banco de pedra. A música ondulava como o vento.
A cerimônia termina quando a água acaba.
Os convidados começaram a caminhar em direção à casa. Permaneci de pé no gramado pálido embaixo das árvores por um bom tempo, olhando para as ervas aromáticas, e elas não estavam crescendo mais rápido ou mais devagar. Foi só quando Sanja parou diante de mim e colocou o braço nos meus ombros que senti meu corpo de novo e saí do transe.
— Eles estão esperando você.
— Acho que ele gostaria que eu ficasse mais um pouco — respondi.
— Não é preciso agradar os mortos, Noria.
Se alguma outra pessoa tivesse me dito isso, ou se Sanja tivesse falado num tom diferente, eu teria fugido em direção à colina, abandonando os convidados na casa, e só retornaria quando todos tivessem ido embora. Mas a mão de Sanja pesava sólida no meu ombro, e sua voz nunca fora tão suave.
Ela me olhou nos olhos e arrumou um cacho de cabelo que caía em meu rosto sem que eu tivesse notado. Então a segui.
A sala da casa estava bastante escura, porque eu tinha me esquecido completamente de providenciar alguma luz. O equinócio da primavera ainda estava a um mês e meio de distância, e o dia por trás da janela não estava suficientemente claro. Parentes que eu talvez nunca tivesse visto na vida fizeram discursos curtos. Ninia e Tamara cuidaram de servir a comida. Eu tinha prometido repassar a elas meu suprimento de água de duas semanas em troca do serviço e, como todos os canos da vila estavam bloqueados, ninguém poderia recusar uma oferta como essa. As carpideiras comeram e beberam mais do que qualquer outra pessoa, mas eu não as julguei. Sanja ficou sentada perto de mim o tempo todo.
Olhava em volta, tentando lembrar se conhecia aquelas pessoas. Havia uma que eu não conseguia reconhecer: um homem loiro sentado num canto, que não conversava e parecia não conhecer ninguém. Eu tinha quase certeza de que ele não era da família e também estava certa de que não era do vilarejo. Ainda assim, havia alguma coisa familiar nele.
— Você conhece aquele ali? — perguntei a Sanja.
Ela olhou para o homem.
— Nunca vi mais gordo.
Ele estava vestido com roupas de civil, mas havia algo nos gestos e na forma com que observava as pessoas que me fazia supor que era um guarda. Logo que as patrulhas semanais de água se tornaram obrigatórias para todos e que as punições para os crimes de água ficaram mais rígidas, soldados começaram a aparecer em encontros públicos, de uniforme ou disfarçados de civis. Eu não tinha acreditado nessas histórias quando as ouvi pela primeira vez, mas havia comentado com meu pai a respeito, quando ele já estava doente demais para ir ao centro do vilarejo, e ele me dissera: “Eles estão observando a todos de perto. Não querem correr o risco de uma resistência organizada depois da Festa da Lua. Estão apertando o cerco e vão apertar cada vez mais até que ninguém tenha coragem de se levantar contra eles. O processo já se iniciou e não vai acabar tão cedo.”
Um arrepio inesperado sacudiu meu corpo e uma onda de raiva enlaçou minha garganta, como se fosse uma corda em brasa. Lágrimas começaram a escorrer pelo rosto e não fiz nada para impedi-las. Depois de um tempo, as lágrimas secaram, mas eu ainda podia senti-las nos cantos dos olhos.
Os convidados pouco a pouco foram indo embora. Quando quase todos tinham saído, Bolin veio até mim.
— Posso falar com você um minuto, Noria? — pediu.
Notei que ele me chamou pelo primeiro nome, em vez de optar por srta. Kaitio, como era usual. Bolin conhecia meu pai havia muito tempo e tinha ajudado bem mais do que o necessário com as providências do funeral. Achei que ele queria falar sobre uma próxima visita para o chá.
— Vejo você depois de amanhã — falei para Sanja. — Obrigada por vir.
Ela apertou minha mão.
— Mande uma mensagem ou apareça quando quiser — disse minha amiga.
Jan também se despediu de mim e os dois foram embora.
— Você pode buscar o baú no helicarro? — Bolin pediu ao motorista, que fez uma breve reverência e saiu imediatamente, com as botas estalando no chão.
Estávamos a sós na sala escura, onde apenas dois lampiões indecisos separavam a luz das sombras. Bolin tinha participado de cerimônias do meu pai desde que eu tinha 6 ou 7 anos e sempre me tratara com respeito, mesmo antes de eu ter qualquer habilidade como mestre do chá. Tinha sido amigo do meu pai, dentre os tão poucos, e eu confiava nele o suficiente para não ter medo. Ofereci uma xícara de chá, mas ele balançou a cabeça, recusando.
— Noria...
Eu esperei. Bolin parecia ainda estar escolhendo as palavras. Um vaga-lume solitário zumbia suavemente perto da janela e me fazia divagar sobre ter deixado um lampião aberto em algum lugar. Se fosse o caso, mais tarde ia ter que varrer um monte de vaga-lumes mortos nos cantos da sala.
Finalmente Bolin prosseguiu:
— Algumas pessoas acreditam que existe água nesse terreno. Não sei se é verdade, mas...
— Não é verdade.
— Não estou aqui para tentar pescar informações — falou, com uma expressão séria. — Não sei se seu pai mencionou com você, mas nós crescemos juntos, e houve um tempo em que eu arriscaria minha vida por ele. Seu pai não entendeu minha escolha por uma carreira no exército, mas tentamos salvaguardar o que foi possível da nossa amizade. Por isso, sei que ele aprovaria que eu tivesse essa conversa com você. — Bolin ficou em silêncio por um tempo. — O poder não está mais nas minhas mãos. Formalmente, ainda tenho algum, mas na rotina diária ele flutua de uma pessoa para a outra. Logo não vai haver nada que eu possa fazer por você. O poder que eu tinha antigamente agora é de Taro. Você precisa ser o mais cuidadosa possível, Noria.
Fiquei tentando pensar nas coisas que Bolin fizera por mim e pelos meus pais. Lembrava ter ouvido meu pai dizer que ele nos protegia. E agora começava a entender o que isso realmente significava. Proteção... do quê? A imagem do estranho convidado loiro no funeral cruzou minha mente, junto com a lembrança dos soldados investigando o jardim.
Havia rotineiramente em nossa cozinha um tipo de comida que os outros habitantes do vilarejo só viam nas celebrações da Festa da Lua e do Solstício de Inverno, e quase ninguém mais na área possuía um freezer. Teria Bolin alguma coisa a ver com isso? Será que alguns dos livros que chegaram até nossa casa vieram por suas mãos? Será que ele vinha mantendo os patrulheiros da água afastados para que meu pai praticasse sua arte em paz? O quanto disso tudo era obra de Bolin? E, mais importante, o que aconteceria se sua proteção acabasse?
— Vou tomar cuidado.
Passos pesados cruzaram a varanda e ouvimos uma batida na porta.
— Deve ser meu motorista — falou Bolin. — Trouxe uma coisa para você. Entre! — gritou para o homem.
Ouvi um barulho surdo, como se alguma coisa pesada tivesse sido colocada no chão. Depois escutei a porta se abrir, e então o som de madeira se arrastando na madeira. Um segundo depois, lá estava o motorista. Seu rosto estava muito corado, e ele carregava um grande baú de madeira, que colocou no chão bem diante de mim.
— Abra — ordenou-me Bolin.
Eu levantei a tampa. Dentro estavam dezenas de livros antigos de capa de couro.
— Tenho certeza de que Taro não encontrou nada de útil neles ou eu não teria conseguido reavê-los — continuou. — Teriam sido destruídos se eu não tivesse mexido alguns pauzinhos enquanto ainda posso. Aceite como meu último favor ao seu pai. Sei o quanto estes livros eram importantes para ele.
Lágrimas embaçaram meus olhos de novo enquanto eu acariciava as lombadas dos livros dos mestres do chá. Entre tantos, reconheci o do meu pai. Ele não havia comprado nenhum livro novo depois que os guardas levaram a coleção. E eu tinha tão pouco dele agora.
— Obrigada. Obrigada.
O rosto de Bolin assumiu uma expressão cansada que só consegui interpretar como pura tristeza. Os lampiões brilhavam suavemente e nada parecia diferente, mas tudo estava mudado.
— Ainda vou participar das cerimônias do chá e tenho certeza de que você vai conseguir manter o nível do trabalho do seu pai — disse Bolin. Ele ficou meio sem jeito e me tocou de leve no ombro.
— Eu só gostaria de perguntar uma coisa — falei. — Por que você trouxe Taro aqui no verão passado?
Eu sabia que a acusação estava clara por trás das minhas palavras. E a resposta de Bolin me surpreendeu:
— Não havia nada que eu pudesse fazer. Não há poder que dure para sempre, Noria. Mesmo as montanhas um dia acabam sendo desgastadas pelo vento e pela chuva. — Ele parecia velho e vulnerável, e eu não sabia mais o que dizer. Percebi que ficou sem jeito, como um minuto antes. — Eu também tenho uma coisa que gostaria de perguntar antes de ir embora. Sei que você pode preferir não falar a respeito, mas eu gostaria de saber. Como Mikoa morreu?
Fiquei em silêncio. O dia escurecia, o ano cambaleava lentamente para a primavera, a água fluía dentro da sua concha de pedra na colina, e meu corpo estava frio como se os ossos tivessem virado gelo.
— Prefiro não falar sobre isso — respondi, enfim.
Bolin fez uma reverência demorada e foi embora.
Aconteceu assim:
Na noite da Festa da Lua, meu pai teve um colapso e caiu no chão, onde ficou deitado, silencioso e imóvel enquanto a água e a escuridão invadiam suas roupas, seu cabelo e sua pele.
Enquanto isso, três unionistas derramam óleo em suas próprias roupas, cabelo e corpo, para depois escalar as escadarias do quartel-general do regime militar em Kuusamo e atear fogo ao próprio corpo.
No dia seguinte, um casal de velhos do nosso vilarejo é levado por homens de uniforme azul, e, ao final da tarde, todo mundo já sabe que foi o filho deles, junto a outras duas pessoas, que atearam fogo ao próprio corpo para protestar contra a ocupação qianesa.
A canção lamentosa das carpideiras varre o vilarejo por três dias.
Primeiro, há o aumento no número de guardas da água a cada mês. Em seguida, pouco antes das celebrações do Solstício de Inverno, fecham os canos de água do vilarejo, e a única alternativa para se conseguir as cotas de água é formar filas na praça central.
O pod-news falou em varrer o terrorismo para fora da União Escandinávia, em prisões sem muita importância realizadas em áreas distantes, na contenção de motins pouco representativos nas cidades, como se a guerra fosse algo disperso, incidental, insignificante. No entanto, paralelamente, há cada vez menos comida nos mercados, fica mais e mais difícil conseguir pass-pods e aumentam notificações sobre voluntários mortos em batalhas.
Então a lua ficou negra, marcando o começo de um novo ano, e minha mãe não pode voltar para casa porque todas as conexões de trens foram suspensas.
Assisto a tudo isso durante a doença do meu pai e, enquanto observo esses acontecimentos, vejo a estrutura da minha vida desabar. Meu pai está no centro dela, mantendo-a firme, a dor maltratando-o sem que eu possa ajudar, sua vida vacilando diante dos meus olhos nos confins do mundo. Deixo todo o resto de lado, mesmo sabendo que em algum momento teria que encarar os fatos.
Meu pai fica deitado na cama de casal, grande demais para ele sozinho, a pele fina como papel e cada dia mais frágil. É possível ver os ângulos e arcos dos seus ossos através da pele.
Bolin tenta arrumar alguns remédios, mas encontrá-los está ficando difícil até mesmo para os oficiais militares. O médico vem e balança a cabeça, espeta meu pai com agulhas. Vai embora e volta, não sabe o que pode estar errado.
Acho que a ausência da minha mãe é que corrói o corpo do meu pai, e ele não tem mais força para viver.
De repente, para de comer.
De repente, para de beber.
Ele sabe. É como num sonho em que uma pessoa desconhecida lhe parece familiar.
Ele me pede para preparar o último ritual.
Ele é meu convidado, só essa vez na vida, e um mestre do chá nunca deve revelar seus sentimentos diante de um convidado.
Depois de terminar o chá, ele espera até a morte pousar a mão pesada em seu coração e a água em seu sangue secar.
Quando Bolin é informado da morte do meu pai, arruma um médico do hospital militar para vir tirar os órgãos, porque não há muitos à disposição. Quando o médico acaba, manda um helicarro para buscar o que restou do corpo.
Na funerária oficial, escolho um caixão de bambu, que parece pequeno, e uma urna prateada, na qual a água do meu pai será guardada. O diretor da funerária diz que tudo estará pronto em dois dias. Volto para o helicarro e vou até a padaria encomendar a comida para o funeral.
Minha mãe não está perto e deveria estar. Não há nenhum trem no qual ela possa embarcar e não pode mais enviar cartas que cheguem até mim — então, todo dia, acordo torcendo para que ela ainda esteja viva, mesmo que eu não possa ter certeza.
Meu pai não está perto e deveria estar. A água que um dia fluiu em seu corpo o deixou para sempre. Em dois dias, ele não será mais do que pó num caixão de bambu e água numa urna prateada.
E eu estou aqui, e todas as palavras se desmancham como poeira em minha boca, e não há água que possa aplacar minha sede.