Memória da Água

Emmi Itäranta · Capítulo 16 de 22

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Memória da Água

Capítulo Quinze

 

Levantei o capuz antimosquito, sequei a testa com um pano amarrotado e bebi um pequeno gole de água do cantil. Um enxame de mutucas pretas já me rodeava quando abaixei o capuz novamente. Girei o pano várias vezes para afastá-las. O clima pesado colava as roupas na pele. O verão chegava ao auge, e um sol impiedoso e pesado emanava calor por trás das camadas de nuvens. Só tinha conseguido fazer uma troca, apesar de ter ficado na praça do vilarejo por várias horas. O grande ventilador de chão tinha sido um ótimo negócio para o padeiro, que, por sua vez, tinha me pagado com dois sacos grandes de torradas. Eu sabia que o ventilador valia mais, no entanto, esse era provavelmente o maior preço que alguém do vilarejo estaria disposto a pagar no momento. Eu precisava de comida que fosse fácil de carregar e que pudesse ser estocada por bastante tempo, então não fora uma troca tão ruim.

Um homem baixo de ossos largos, cujos cabelos cor de areia já estavam ralos, parou na frente da tenda. Eu podia adivinhar seus pensamentos enquanto ele observava a coleção de objetos que eu tinha recolhido em casa: algumas cadeiras feitas em madeira entalhada, exageradas demais para a sala de estar; um punhado de livros do mundo antigo que ninguém em sua casa teria tempo de ler; um conjunto de chá e alguns pratos, que ele teria dificuldade de encher. A única coisa na qual se demorou um pouco mais foram as sandálias — dois velhos pares que tinham pertencido ao meu pai e um par que minha mãe tinha deixado. O homem comparou o tamanho das solas com as suas, mas pareceu desistir da troca.

— Este carrinho está à venda? — perguntou, apontando para a carroceria do heliciclo, onde eu tinha acomodado alguns dos itens para trocar.

— Não, é o único que tenho — respondi.

— Que pena. Eu teria oferecido lótus-azul ou fumo de cachimbo em troca — falou, já se despedindo e continuando sua caminhada.

A atmosfera na praça era quase tranquila. Eu tinha visto apenas dois soldados quando cheguei, e eles estavam apoiados em uma mureta num dos cantos da praça, olhando indiferentes para todos e bebendo um líquido cor de âmbar dos cantis. Um grupo de crianças estava jogando mahjong com peças de plástico, uma pessoa tocava acordeão em meio às tendas irregulares da praça e a irmã de Ninia, Tamara, vendia bugigangas e enfeites de cabelo a uma curta distância de mim, do outro lado da rua. Aos meus olhos, era estranho que as mulheres ainda se interessassem em enfeitar o cabelo. Mas quando comentei isso com Sanja, ela disse:

— As pessoas se apegam aos hábitos até o limite. É a única forma de sobreviver.

Percebi um uniforme azul brilhando entre as tendas. Ele foi se aproximando até que consegui distinguir um rosto familiar. O major Bolin me viu assim que entrou na rua em que eu tinha armado a tenda — e veio caminhando diretamente em minha direção. Suas botas pesadas desenhavam padrões na areia.

Bolin parou diante da tenda. Fiz uma reverência, e ele me cumprimentou de volta.

— Noria, eu estava perguntando aos moradores onde poderia encontrar você. — Ele olhou em volta e falou em voz baixa: — Peguei seu recado.

— Gostaria de tomar chá, major Bolin? — perguntei.

Ele assentiu. Fiz um gesto para convidá-lo a entrar na tenda. Joguei um pano sobre os itens que estavam expostos e deixei a cortina de trás levemente aberta, para ver se alguém se aproximava para uma troca. Por trás das cortinas, ofereci um banquinho a Bolin e sentei no outro. Servi um pouco de chá morno do meu cantil e acendi um incenso de cheiro amargo para afastar os insetos, mas as mutucas continuavam zumbindo ao redor quando erguemos os capuzes para tomar o chá.

— Como você tem passado, Noria? — perguntou Bolin, enquanto bebericava o chá. A pele do seu rosto estava ressecada e seus movimentos eram mais lentos do que eu me lembrava.

— Levando — respondi.

Bolin ficou em silêncio, rodopiando o chá na xícara de cerâmica, o olhar perdido em pensamentos. Finalmente, falou:

— Eu posso ajudar, mas não de graça. Helicarros são caros nos dias de hoje, especialmente se você não quer que certas pessoas perguntem para que precisa de um. — Ele levantou o rosto e olhou para mim. Pude ouvir a pergunta silenciosa por trás do olhar.

— Preciso para vender alguns bens fora do vilarejo. Sei que existem bons compradores em Kuusamo e Kuoloyarvi. Um vendedor habilidoso pode conseguir fechar negócios lucrativos.

Bolin me examinou, e minha intenção era que ele pensasse no que eu tinha deliberadamente deixado de fora da explicação: o mercado negro, os itens raros que ele sabia que existiam na casa de chá. Bolin tinha ajudado meus pais a comprar alguns.

— Tem certeza de que vale o risco?

— Tenho recebido poucos convidados, e ainda menos pagam como costumavam pagar.

Bolin considerou minhas palavras e disse:

— Ouvi dizer que a fiscalização do mercado negro é mais leniente em Kuoloyarvi do que em Kuusamo. Não que isso seja do seu interesse, evidentemente.

— Quanto? — perguntei, feliz pelo sucesso do meu intento.

Bolin se inclinou para a frente no banco e desenhou alguns números na areia. Era mais do que eu esperava, mas dava para pagar.

— Feito — falei. — Quando você precisa do pagamento?

— Adiantado. Posso mandar alguém buscar o dinheiro na sua casa amanhã.

— Não. É melhor se eu puder trazê-lo aqui. Tudo bem?

Bolin assentiu.

— Vou cuidar para que ninguém associe o helicarro a mim — disse ele calmamente. — Espero que você faça o mesmo.

Bolin terminou o chá e colocou a xícara na areia ao lado de uma das pernas do banquinho. As linhas do seu rosto eram profundas e pareceram se aprofundar ainda mais quando ele falou:

— Esta é a última coisa que posso fazer por você. Sabe disso, certo?

— Sim.

Bolin esboçou um movimento com a cabeça. Eu respondi o cumprimento. Enquanto caminhávamos para fora da tenda, uma fila de formigas começou a escalar a xícara dele atrás do líquido que tinha sobrado no fundo. Com a ponta da sandália, apaguei os números que Bolin tinha desenhado na areia até que não houvesse mais nada.

A tarde já chegava ao fim e, pouco a pouco, as pessoas começaram a fechar as tendas e juntar as mercadorias. Tirei a cortina das hastes e dobrei. Ajeitei tudo no carrinho, coloquei os sacos de torradas entre eles e, quando cada coisa estava em seu lugar e eu já havia amarrado a carga com algumas tiras, liguei o heliciclo e voltei para a casa do mestre do chá. No caminho, era como se os jardins sem cor estivessem acenando para mim, como se o centro médico me observasse a distância, com as janelas acessas, enquanto as pessoas voltavam para casa. De longe, consegui ver, em uma casa pequena de tijolos à vista, o círculo azul brilhante. Era a mais nova casa do vilarejo a aparecer com a marca de um crime de água. O círculo aparecera na casa havia cinco dias. Fiz um desvio no caminho para não precisar passar em frente.

Mensagens pintadas em placas grandes na estrada chamaram minha atenção. Elas prometiam recompensas a qualquer pessoa que denunciasse criminosos da água. O filho do padeiro, que era um ano mais novo do que eu, estava parado em frente a uma dessas placas. Eu me lembrava do garoto da época da escola básica. Ele era um dos melhores velocistas da escola, estava sempre vestido de forma impecável e tirava notas medíocres. Agora, estava com um uniforme azul e pintava uma nova soma, aumentando a recompensa. A poucos metros de distância, outra placa, com tinta ainda fresca. Se ele estava na folha de pagamento do exército, pensei, explicaria como a família ainda podia se dar ao luxo de trocar pão por ventiladores.

Em casa, fiz uma coisa que vinha evitando havia semanas.

Abri a caixa de madeira, que mantinha na estante do quarto, e peguei o message-pod que minha mãe me enviara. Eu ainda não o tinha usado. Apesar do pedido dela, eu havia escrito poucas vezes, e só do message-pod antigo.

Eu não dissera nem uma palavra sobre o pod hackeado, mas queria que ela soubesse ao menos que eu estava bem, apesar das circunstâncias e da guerra. Não tinha recebido respostas, então não sabia se as mensagens haviam chegado até ela. Mas agora eu precisava lhe informar sobre a minha decisão.

Toquei a tela e esperei até o mecanismo reconhecer a digital e o nome de Aino Vanamo aparecer. Escrevi: Decidi ficar no vilarejo até a Festa da Lua. Partirei para Xinjing no dia seguinte. Depois informo o dia da minha chegada. Aino. Enviei a mensagem, desliguei o aparelho e o coloquei novamente na caixa de madeira. Já sabia que essa mentira não era a resposta que ela estava esperando.

Na tarde seguinte, uma mulher com o uniforme de funcionário da cozinha do exército parou na tenda.

— Noria Kaitio?

Eu a cumprimentei. Ela me entregou uma carta selada.

— É do major Bolin. Ele falou que você saberia o que precisa dar em troca.

Puxei da bolsa um malote selado que continha o dinheiro.

— Ele também mandou uma mensagem — acrescentou, chegando mais perto e baixando a voz. — Domingo antes da meia-noite.

— Domingo antes da meia-noite — repeti.

Estávamos numa quinta-feira. A mulher assentiu, virou e foi embora. Quando já tinha se afastado, saí da tenda para checar se ninguém estava prestando atenção em mim. Uma senhora de idade estava descansando recostada a um muro perto da tenda mais próxima; duas crianças que eu tinha visto no dia anterior faziam desenhos na areia. Quebrei o selo e tirei o conteúdo do envelope.

Um mapa dos arredores do vilarejo estava desenhado num pedaço de papel, perto da Floresta Morta. Um local estava marcado com uma cruz.

A mensageira tinha me dito quando, e agora eu sabia também onde.

No domingo, comecei a caminhar na direção da Floresta Morta muito antes da meia-noite, pois a viagem era longa. O brilho noturno do sol ainda pintava o céu cor de água, mas o frio da terra entrava em mim, subindo pelos ossos e me fazendo tremer por dentro. Eu não sabia o que esperar. Não tinha escolha a não ser confiar em Bolin.

O vilarejo estava em silêncio. Tomei a trilha mais longa, que contornava a colina, por medo de encontrar soldados. Enxames de insetos perambulavam no ar como se fossem nuvens sombrias. Quando eu passasse, os insetos iriam se separar e me cercar, depois se juntariam numa massa compacta novamente, como estátuas vivas que escureciam a paisagem, como antigos espíritos que se erguem das tumbas, como memórias enterradas que desejavam se fazer visíveis. As pedras se embolavam na sola dos meus sapatos, se enroscando umas nas outras.

A Floresta Morta um dia tinha se chamado Floresta dos Musgos, um nome que fazia pensar em folhas verdes que se moviam ao vento, num verdejante tão exuberante e úmido que dava para sentir na pele. Antes disso ainda — quando as palavras para tal exuberância verde ainda não tinham sido inventadas, porque o verde era comum na área —, a floresta não tinha nome, assim havia me contado meu pai. Então, tudo o que se podia encontrar eram troncos e galhos retorcidos sob um céu desértico e sem cor. Era como uma enorme teia de aranha sobre a terra, cheia de cascas de insetos vazias. A vida já não circulava por ali; era como se as veias das árvores tivessem sido cortadas, como se suas superfícies fossem cartas escritas em uma língua esquecida, marcas praticamente irreconhecíveis do que um dia existiu. Alguns troncos estavam caídos no chão, onde permaneciam silenciosos, congelados.

Segui o caminho indicado no mapa até chegar ao lugar marcado com uma cruz. Fui cuidadosa ao me aproximar, já que não tinha certeza de que haveria alguém esperando. Coloquei os ouvidos a postos.

Os únicos ruídos audíveis pertenciam à floresta: o vento batendo nos galhos sem folhas e os troncos estalando na terra.

Demorei um pouco para encontrar o que procurava. O helicarro estava habilmente escondido. Eu não o teria encontrado se não soubesse onde procurar. Ele tinha sido estacionado em um buraco raso e estava coberto com pó, galhos secos e algas. Fiquei contente de perceber que a estrada pela qual tinha sido trazido ficava longe. Ou seja, o veículo podia aguentar terrenos mais difíceis. Levantei a cobertura de algas e o examinei. Eu não entendia muito de helicarros, mas esse parecia novo e estava em melhores condições do que o de Jukara. Havia alguns arranhões nas laterais e os pneus estavam meio gastos, mas os painéis solares e os assentos estavam inteiros. A chave, na fechadura. Puxei a cobertura de algas para cima do veículo de novo e fui caminhando por uma trilha estreita até chegar a uma estrada de terra maior, que me levaria de volta ao vilarejo. A estrada tinha sido fechada com um pedaço de madeira meio podre e alguns pedregulhos. Vista de longe, parecia não ser usada fazia anos. Não havia marcas de pneus: Bolin tinha mantido sua promessa de que o veículo seria difícil de rastrear. No entanto, alguém mais sabia onde o helicarro estava, então, quanto antes pudesse tirá-lo dali, melhor.

Eu tinha pensado bastante sobre onde esconder o helicarro. O mais fácil seria mantê-lo na casa de chá, mas não queria arriscar que uma patrulha da água o descobrisse, carregado de comida e água, evidentemente equipado para uma viagem longa. Portanto, tinha decidido escondê-lo perto do lixão dos plásticos, embaixo de uma velha ponte. O lixão estava transbordando de resíduos, e o espaço que sobrava embaixo da ponta era praticamente bloqueado por montes de terra e lixo. De longe, era impossível perceber que havia um espaço livre ali. Sanja e eu tínhamos encontrado o lugar algumas semanas antes. Mesmo se alguém que estivesse passando perto da ponte visse o helicarro, seria impossível associar o veículo a alguém. O pior que poderia acontecer era eu perdê-lo. Transportar comida e água para dentro dele também era uma tarefa difícil, mas se levasse pouco a pouco, daria certo.

Assim que achei a estrada pela qual o veículo tinha sido levado para a floresta — dava para mover o tronco podre —, voltei para o helicarro. Era preciso esperar até de manhã, quando o toque de recolher acabava, e usar as estradas mais remotas. A melhor rota para o lixão era complicada, mas o risco de ser descoberta era menor.

Sentei no chão. Ele estava tão seco que estalava. Fiquei ouvindo o silêncio da noite se fechando ao redor.

* * *

Notei que o message-pod hackeado havia sumido quando voltei para casa de manhã. Abri a caixa de madeira para checar se minha mãe tinha enviado alguma resposta e percebi imediatamente que o aparelho não estava lá, por cima de todas as coisas que eu coletara no lixão de plástico, onde eu o tinha deixado. Meu coração se apertou e meu estômago queimou. Tentei lembrar qual tinha sido a última vez que eu havia ligado e usado o message-pod. Na manhã anterior? Ou antes? Eu não tinha certeza. Vários moradores da vila estiveram na minha casa nos últimos dias para buscar água. Os adultos dificilmente passavam da cozinha, mas uma mulher tinha trazido os filhos, e eles ficaram perambulando pela casa, como crianças fazem. A primeira coisa que pensei é que um dos pequenos tinha entrado no quarto, encontrado a caixa e pegado o message-pod sem pedir permissão. Em teoria, era possível. Fiquei tentando lembrar se havia deixado o aparelho em outro lugar. Procurei na cozinha. Procurei na sala de estar. Procurei nas estantes, embaixo da cama, entre as pilhas de livros, nos bolsos das roupas... sem sucesso.

Eu não queria nem pensar na mais assustadora das possibilidades: que o message-pod não tivesse sido levado por uma criança, e que não tivesse sido nenhum engano.

Sanja apareceu para me visitar à tarde. Eu varria a varanda da casa de chá e não estava com humor para conversar.

— Preciso falar com você — disse ela, olhando ao redor.

— Não tem ninguém aqui — falei, apoiando a vassoura na parede da casa de chá.

Havia coisas sobre as quais só conversávamos quando estávamos sozinhas, e outras sobre as quais simplesmente não falávamos. Uma delas era a voz feminina gravada no último disco prateado. Achei que era sobre isso que ela queria discutir.

Sanja me olhou bem nos olhos.

— Quero ir com você.

— Não vou voltar à nascente por alguns dias — falei, e comecei a andar na direção da casa.

— Não estou me referindo à nascente. — As palavras de Sanja soaram graves. Parei o que estava fazendo e me virei para ela. Seu rosto estava tenso, como se estivesse segurando dentro de si angústia e empolgação ao mesmo tempo. — Estive pensando. Quero ir para as Terras Perdidas com você. Minha mãe, meu pai e Minja estão melhores agora. Minja está mais saudável e minha mãe pode trabalhar de novo. Posso ir?

Eu queria abraçá-la, tão feliz estava por ver minha amiga compartilhar meus sonhos. Finalmente seríamos as verdadeiras exploradoras que gostávamos de fingir ser quando crianças. Mas um problema inesperado complicava os planos.

— Claro que quero que você venha comigo. Mas o message-pod que minha mãe mandou sumiu. Não sei onde coloquei. Acho que alguém pode ter roubado. Não tenho mais um pass-pod hackeado...

Um rubor começou a tomar o rosto pálido de Sanja enquanto ela andava de um lado para o outro.

— Noria, preciso confessar uma coisa. — Ela colocou a mão dentro da bolsa e tirou meu message-pod. — Desculpe por não ter avisado. Queria fazer uma surpresa.

Ela me entregou o pod hackeado, e eu o aceitei sem dizer nada. Estava aliviada porque ninguém na vila tinha roubado o aparelho, mas também irritada por ela ter pegado sem pedir, ainda mais por ter conseguido fazer isso sem que eu me desse conta. Liguei o aparelho.

— Não se preocupe, está tudo exatamente como era. — Ela remexeu a bolsa mais uma vez e pegou outro message-pod, um pouco mais velho e usado. — Olhe. — E aproximou o aparelho de mim, colocando o dedo na tela.

Uma luz branca piscou e, um segundo depois, um nome apareceu: “Lumi Vanamo.” O local de nascimento era Rovaniemi, e a data era apenas um ano depois de Aino Vanamo.

— Você nasceu em Xinjing. Mas os nossos pais, Outi e Kai Vanamo decidiram voltar para a cidade de origem deles, perto de Rovaniemi. Eles se mudaram quando você era muito pequena e eu nasci um ano mais tarde. Depois que nossos pais se afogaram num acidente nos campos de algas, completamos os últimos três anos de escola em Kuusamo, onde ficamos com parentes. Estamos agora voltando para um pequeno vilarejo nos arredores de Rovaniemi, para a casa que nossos falecidos pais nos deixaram. — Ela levantou o rosto e abriu um sorriso.

— Nada mal — falei, impressionada.

Sanja deu de ombros.

— Eu já tinha pensado em duas formas de hackear o pod que podiam dar certo. Mas precisava do seu para ver qual das duas ia funcionar melhor. Até que foi rápido, no final das contas. — Ela desligou seu message-pod. — A parte mais difícil foi conseguir arranjar mais um pod de segunda mão.

— Você é genial.

— Que nada. Sou só curiosa e trabalho até meus dedos sangrarem — respondeu. — Bom, quando vamos?

Mais tarde, enquanto Sanja estava checando alguns ajustes que tinha feito no message-pod, fiquei observando os movimentos da mão dela e a expressão concentrada do rosto. Sanja havia tirado o message-pod do meu quarto em segredo e eu precisava colocar uma pedra sobre a suspeita que isso cavara em mim. Tinha contado a Sanja tudo sobre o meu plano, sobre o helicarro e sobre os lugares aonde queria ir. Como se estivesse num sonho, podia sentir a água fazendo meu corpo flutuar, aguardando por nós, limpa e calma, agora quase ao nosso alcance. Nada mais importava.

Não perguntei o que tinha feito Sanja mudar de ideia, e ela também não mencionou o assunto.