Memória da Água
Capítulo Oito
A memória tem sua própria versão dos fatos. Quando penso em retrospectiva, olho para aquele dia em busca de um presságio do que estava por vir e às vezes acredito que houve sinais. É um conforto estranho e oco, que nunca dura muito tempo. Os videntes do mundo antigo costumavam ler a sorte em folhas de chá. Mas eram apenas folhas de chá, resíduos escuros de coisas passadas, que não implicavam nada além de um padrão próprio. A memória é lisa, escorregadia e quebradiça. Não é prudente confiar em seus padrões.
Lembro-me de estar parada no meu quarto, o cabelo ainda pingando do banho recente, a água escorrendo pelo peito e pelas costas como pequenos córregos. A roupa da graduação, que eu usaria nas cerimônias de chá até que a costura cedesse, estava na cama, vazia como uma pele nova ou como uma capa, aguardando ser preenchida de sentido e movimento, ou abandonada de vez. A parte mais nítida dessa memória é o quanto o dia estava radiante do lado de fora: um sol ardente jorrava luz para todo lado, brilhando mais do que qualquer dia antes ou depois deste, como se o céu estivesse crescendo em chamas até que o entardecer o acalmasse. Até que meu mundo mudasse. Sei que isso não faz sentido. Vi dias radiantes antes e depois deste, e o brilho de que me lembro tem um quê de artificial. Mas este dia da minha vida agora tem a forma que minha memória empresta a ele, é o dia que consigo conjurar. A verdade é que a versão real do dia, como ocorreu, não está mais ao meu alcance.
Lembro-me de ter vestido a roupa de mestre do chá. Estava com aquele jeito de roupa nova, meio engomada.
Lembro-me de prender o cabelo para trás com um palito enorme. Ele estava pesado por causa da umidade dos fios.
Não me lembro de ter caminhado até a casa de chá, mas devo ter feito isso. Não havia mais nada a fazer.
Alguma coisa estava preocupando meu pai. Percebi assim que ele entrou ajoelhado na casa de chá pela porta dos visitantes e olhou ao redor. Achei que eu tivesse cometido algum erro sem perceber, mas a cerimônia já tinha se iniciado e não podia mais ser interrompida. Mestre Niiramo, nosso convidado de Kuusamo, tinha tomado seu lugar em uma almofada perto da parede e estava sem o capuz antimosquito. Eu não tinha escolha. Precisava aguardar meu pai se sentar ao lado dele e seguir em frente.
Niiramo tinha sido convidado por razões protocolares. Era necessária a presença de dois mestres do chá em uma cerimônia de graduação: o professor do aprendiz e outro mestre, alguém de fora. Niiramo realizava cerimônias do chá em Kuusamo e tinha boas relações com o regime dos militares. Meu pai não o tinha em grande conta, mas era difícil convencer mestres do chá a deixar a cidade durante a Festa da Lua, que era tradicionalmente uma época popular para cerimônias, e Niiramo se deixara persuadir facilmente, com a ajuda de Bolin.
A luz oblíqua que entrava pela claraboia acima da lareira lançava uma sombra no rosto do meu pai. Eu sentia o cheiro da fumaça, da madeira e da água. Dava para ver a marca de suor onde meus joelhos tocaram o chão: ao lado de uma prateleira de pinho gasta e escurecida havia uma mais pálida e mais nova, não tão maltratada pelo tempo. Eu sabia que as atenções do meu pai e de Niiramo estavam concentradas em mim. Não eram convidados, ainda não, estavam lá como juízes. Niiramo pareceu surpreso quando me viu pela primeira vez, e me olhava com uma expressão que eu só conseguiria designar como leve desaprovação.
Meus movimentos pareciam seguros quando comecei a preparar o Primeiro Chá.
Olhei para o conjunto de chá que tinha escolhido para a ocasião: xícaras e pratos usados e desgastados com pequenas lascas e nenhum tipo de decoração. Era um dos conjuntos mais antigos da casa do mestre do chá, remanescente do mundo antigo, possivelmente usado por alguns de nossos predecessores em tempo distantes, muito antes de o mar engolir costas e ilhas. A cor do conjunto lembrava folhas caídas e me dava uma sensação de conforto, que me colocava em contato com algo muito mais antigo e mais forte do que eu. Ocupava agora o posto de uma tradição que atravessara séculos sem mudar, que se mantivera em sintonia com as transformações da vida, firme como as batidas de um coração ou a respiração.
Ecos dos mestres do chá que viveram antes de mim cresciam ao redor enquanto eu contava as bolhas no fundo do caldeirão e derramava água nas xícaras e nos bules. Pensei na marca que esses mestres deixaram na memória do mundo: a fluidez de seus movimentos se refletia em meus movimentos, suas citações invadiam minhas palavras, a água que corria pela terra e pelo ar enquanto eles caminhavam por nossas pedras e campinas era a mesma que empurrara areia para as costas dos continentes e que pintara o céu nos dias chuvosos. Era um redemoinho que embaralhava tudo, o tempo e a memória, criando círculos de influência ao redor, repetindo o mesmo padrão eternamente. Essa sensação curiosa me transportava para longe e me confinava em mim mesma ao mesmo tempo.
Apanhei minha bandeja e me ajoelhei diante do mestre Niiramo. Quando ele se aproximou para pegar a xícara, senti um forte aroma de perfume misturado a suor. Sua pele era bem cuidada. Sua roupa era simples, mas o tecido era caro e os botões, feitos de metal trabalhado; não era peça fácil de se ver por aí. Ele estava um pouco acima do peso. Fiz uma reverência e ofereci a xícara seguinte ao meu pai.
Corri o olhar pelo canto vazio onde minha mãe certamente se sentaria se estivesse presente. Ela havia enviado uma mensagem de voz mais cedo, desejando boa sorte e dizendo que seu trem logo atravessaria a Baía Aral. Tentei imaginar a paisagem que ela estava vendo e, por um momento, foi como se eu pudesse sentir o cheiro embolorado dos assentos do trem, ouvir as vozes e os passos das crianças correndo pelo corredor estreito e sentir o constante movimento do chão aos meus pés. Mas quando tentei imaginar a paisagem fora do trem, a cor da planície não era identificável e as formas no horizonte se mesclavam em uma visão estranha. A paisagem permaneceu inexplorada, portanto, mas o lugar vazio na casa de chá tomou a forma da minha mãe, persistente como uma sombra.
A cerimônia de graduação era mais longa que o normal. Além do chá e dos doces, também era necessário oferecer uma refeição leve — o que podia demorar várias horas. Praticamente não havia conversa. Entrei num ritmo estranho, sem pressa, como o que um afogado deve sentir quando o mar finalmente vence o peso dos seus pulmões.
Era como se a sala estivesse tomada por um gotejar de água que ralentasse todos os movimentos e embaralhasse os sons, deixando-me limpa por dentro e por fora e fazendo com que as coisas exteriores se desvanecessem.
O rosto do meu pai era como um pedaço de madeira encharcado, e o de Niiramo, uma pedra se dissolvendo em areia. O meu próprio corpo era como uma haste de alga se movimentando ao sabor das ondas. E tudo isso acontecia sem que eu pudesse controlar, sem que pudesse fazer parar.
Então me deixei levar.
Lentamente, como a lua que mexe com as marés, meus músculos relaxaram, a tensão abandonou o rosto e a respiração começou a fluir mais livremente. A tensão ainda estava lá, porém, mais distante. Ela não esticava mais a pele, não mais me prendia.
A sala fervia por causa do calor que irradiava do fogo e do vapor do caldeirão. O ar estava denso. Meu cabelo estava úmido e ou podia sentir a roupa da cerimônia colar nos braços e nas coxas. O suor brilhava em gotas na testa de Niiramo. O rosto do meu pai estava afogueado. Eu tinha deixado a pequena janela da entrada aberta antes de começar a cerimônia, mas o ar fresco lá de fora parecia ter se compactado de tal forma que não conseguia entrar. Levantei da almofada e abri uma janela um pouco maior que ficava na parede oposta. Mesmo com o dia seco, uma brisa entrou imediatamente e o ar começou a circular na sala novamente.
Niiramo largou a xícara e olhou para mim.
— Senhorita Kaitio, tem certeza de que é necessário abrir as duas janelas?
Com o canto do olho percebi que meu pai se mexia, inquieto.
— A sala fica muito mais agradável com um pouco de ar fresco, o senhor não acha?
— Noria, o mestre Niiramo expressou o desejo de que a janela fosse fechada — observou meu pai. A sombra que atravessava sua face se moveu um pouco e naquele momento recaía sobre seu pescoço.
Niiramo olhou para mim. Não soube se devia interpretar a expressão do seu rosto como um sorriso.
— A senhorita Kaitio pode fazer como achar melhor.
Deixei a janela aberta, cumprimentei Niiramo com a cabeça e voltei ao meu lugar, perto do caldeirão. Ele não disse mais nada, mas agora eu estava segura sobre a natureza do seu sorriso: era o tipo de sorriso que um rico comerciante deixa escapar quando descobre um garoto de recados roubando suas mercadorias. O clima pesado que percebi no rosto do meu pai não passou durante a refeição, e eu tinha a impressão de que ele lançava olhares secretos na direção do mestre Niiramo.
Aguardei até os dois terminarem de comer e recolhi os pratos. Levei tudo para a sala da água, retirei um pano que cobria uma tigela de doces e voltei para a sala principal. Servi ainda uma nova rodada de chá.
Não havia mais água no caldeirão.
Eu sabia que tinha chegado a hora da avaliação.
— Noria Kaitio — disse Niiramo, fazendo uma reverência. — Tome seu lugar, por favor.
Eu o cumprimentei, caminhei até a sala de água e puxei a porta de correr.
A sala não tinha janelas. Era usada para estocar água, bandejas, conchas, caldeirões e bules. Se esticasse o braço em qualquer direção, tocaria a parede, ou algum dos utensílios. Fios de luz finos como um cabelo desenhavam formas na porta da entrada do mestre do chá, na parede oposta. Dentro do lampião, pendurado no teto, vaga-lumes se debatiam de forma débil contra a prisão de vidro. Sombras pairavam nas paredes, desenhando teias flutuantes que se abriam e se fechavam. Dava para ouvir Niiramo e meu pai conversando em voz baixa.
Pensei novamente na minha mãe, em sua jornada que poderia ter sido também minha: outra vida na qual eu teria abandonado a roupa de mestre do chá em vez de aceitá-la como minha segunda pele. De forma clara, como um reflexo no espelho, eu podia enxergar a mim mesma, caminhando e aprendendo os cheiros e desenhos das ruas estranhas que corriam entre os prédios de uma cidade desconhecida, como se aprende uma nova língua. Uma nova paisagem minha, que eu poderia construir sozinha.
Ouvi alguns ruídos na casa de chá. Depois, passos na varanda, do lado de fora. E, em seguida, o barulho suave da porta de correr da entrada dos visitantes sendo fechada. Imaginei que Niiramo ou meu pai — ou ambos — tinham saído para buscar algo na varanda.
A cidade grande e sua paisagem se estilhaçaram. Havia apenas uma escuridão no fundo do espelho, nenhuma alternativa de vida a não ser esta.
Um suave sino soou de dentro da casa de chá. Era hora de voltar. Ajeitei meu cabelo e abri a porta de correr. Eu estava certa, um deles tinha ido até a varanda. Niiramo estava segurando um rolo de pergaminho e meu pai tinha nas mãos um livro grosso de capa de couro.
— Noria Kaitio — disse Niiramo.
Fiz uma reverência.
— Como mestre do chá responsável por sua avaliação, devo apontar os erros cometidos durante a cerimônia. — Tentei ficar tranquila e esperei. O suave vapor de água tinha abandonado a sala, que agora estava seca como um deserto de pedras, o ar tão quente que mal dava para respirar. — Percebi claramente que você conhece a etiqueta da cerimônia — continuou. — Mas também percebi que a mudou deliberadamente de acordo com sua vontade em momentos em que este tipo de mudança não é aconselhável.
Ele olhou para meu pai e abriu seu sorriso de comerciante rico.
— Presumo que você conheça a regra que diz que numa casa de chá apenas uma janela deve ser aberta durante a cerimônia.
— Sim, mestre Niiramo, conheço a regra.
— Você poderia fazer a gentileza de nos recordar por que essa regra existe?
Respondi exatamente como tinha aprendido:
— Para que os convidados aproveitem o prazer do aroma do chá e a umidade do ar. Ar seco na casa de chá leva o aroma e a umidade embora.
— Estou curioso para saber por que você tomou a liberdade de quebrar essa regra.
Fiz uma nova reverência, apesar de estar irritada por ter que responder a uma pergunta tão estúpida.
— Por razões práticas, mestre. O calor na casa de chá estava sufocante. Como anfitriã, pensei no conforto dos convidados.
Niiramo olhou com firmeza para mim. Não desviei o olhar.
— Qualquer que tenha sido a razão, ainda assim foi uma exceção à regra e, como tal, um erro.
Fiz um esforço para permanecer calada. Niiramo continuou:
— Outro deslize, e tenho certeza de que seu pai concorda comigo, foi sua escolha do conjunto de chá.
Pensei no conjunto de xícaras e pratos, em sua superfície lascada pelo tempo, suas formas firmes em minhas mãos, conectando-me ao mundo antigo.
— Por que considera minha escolha um erro? — perguntei.
O sorriso de Niiramo contraiu os músculos da cara gorda e lisa. E me fez pensar em uma larva enorme rastejando em direção a um pedaço de fruta podre.
— Você certamente compreende que um mestre do chá se prepara para uma ocasião como esta escolhendo o conjunto de chá mais valioso que possui. Isso demonstra respeito pelos convidados e pela natureza privilegiada da profissão. Sei por acaso — e nesse momento ele lançou um olhar para meu pai —, que seu pai aprecia a companhia do major Bolin, e dá para saber pelo estilo desta casa de chá e pelo jardim que vocês não são pobres. Tenho certeza de que possuem um conjunto de chá melhor e sei que poderiam até mesmo ter encomendado um exclusivamente para a ocasião. Teria sido uma atitude sábia.
— Mas, mestre Niiramo. — As sobrancelhas de Niiramo se ergueram em sua testa suada quando me dirigi a ele sem permissão. Meu pai parecia horrorizado. Não continuei a falar e fiz uma reverência, a forma correta de pedir permissão para falar, de acordo com a hierarquia entre mestre e aprendiz. Nirramo assentiu. — Mestre Niiramo, a cerimônia não se trata de demonstração de riqueza, mas sim de aceitação da mudança e da natureza efêmera do mundo. Minha intenção era honrar esse princípio.
O sorriso de Niiramo não desapareceu. Uma gota de suor escapou por sua bochecha em direção ao colarinho.
— Você está tentando me ensinar, menina , o que é a cerimônia do chá?
A ira agora fervia em minha garganta como fogo.
— O senhor deveria saber disso sem que eu precisasse ensinar — falei, sem conseguir me controlar.
— Noria! — repreendeu meu pai.
Niiramo começou a dar um riso lento e baixo. A gota de suor caiu do seu rosto no colarinho da camisa, e o tecido a absorveu.
— Você me diverte, senhorita Kaitio. Ainda tem muito a aprender, sobre a cerimônia e sobre o mundo. Vou deixar isso por conta do tempo e da experiência. Em trinta anos, a senhorita estará avaliando um jovem aprendiz em sua cerimônia de graduação, e quando ele disser que a cerimônia não se trata de ostentar riqueza, você é quem vai rir.
Nunca. Não nessa vida. Nem em nenhuma outra.
A risada do mestre Niiramo foi morrendo lentamente. Ele olhou para mim.
— Há também, claro, o infeliz fato do seu gênero. Seu pai fez bem em não mencionar isso para mim anteriormente. Gostaria de saber o que leva a senhorita a imaginar que uma mulher pode desempenhar a profissão de mestre do chá de forma satisfatória.
Entendi por que Niiramo parecera tão surpreso ao me ver pela primeira vez. Teria o major Bolin deixado de mencionar de propósito que eu não era um homem? Olhei para meu pai, mas ele não podia me ajudar. Era uma batalha que eu precisava lutar sozinha.
— Mestre Niiramo, me permitiria propor ao senhor a mesma questão? Por que uma mulher não pode ser um bom mestre do chá?
— Está nas antigas escrituras — respondeu Niiramo. — Li Song escreveu: “Uma mulher não deve cruzar o caminho de uma casa de chá, a não ser que esteja pronta para abandonar sua vida como mulher.”
Eu não via em nenhuma parte da citação um prelúdio contra o direito das mulheres a ser mestres do chá, mas em vez de discutir, falei:
— Acredito que seja possível mudar a superfície das coisas e ainda assim manter o centro delas intacto. Da mesma forma que é possível manter as aparências, mas cultivar o centro oco.
Niiramo ficou calado. Achei que tivesse ido longe demais. A sala estava em silêncio. Do lado de fora, o sino do vento tocou uma, duas, três vezes.
Por fim, Niiramo falou:
— Quero que entenda uma coisa. Se você for candidata em uma das cidades grandes, vou pedir que seja testada novamente. Compreendo que não posso esperar de uma pessoa de vilarejo, e ainda mais de uma mulher, o mesmo padrão de excelência. Você aprendeu sua profissão unicamente com seu pai, nunca teve a chance de conhecer os costumes e sabedorias de outros mestres do chá. Não vejo obstáculos para dar o título de mestre do chá pela cerimônia de hoje, mesmo que não tenha atingido os critérios exigidos em outras circunstâncias ou por um mestre do chá menos benevolente. No entanto, no futuro, você precisa estar mais atenta à etiqueta, principalmente se receber convidados das cidades ou do corpo militar.
Eu queria falar mais algumas coisas, mas vi a expressão do meu pai, agora mais próxima do desespero do que da irritação, e fiquei em silêncio.
— Você está pronta? — perguntou o mestre Niiramo.
Eu assenti.
— Noria Kaitio — leu Niiramo em seu pergaminho —, hoje, no décimo quinto dia do oitavo mês, no ano Koi Fish da era do Novo Qian, você foi graduada com o título de mestre do chá.
Niiramo me entregou o documento. Ao lado do texto estavam a assinatura do meu pai e a dele. Mestre Niiramo se afastou um pouco e meu pai se aproximou. Aceitei o livro de capa de couro que ele me deu e li o juramento que já sabia de cor:
— Sou uma observadora da água. Uma serva do chá. Dou as boas-vindas à mudança. E não tentarei impedir o movimento daquilo que cresce. Não me apegarei ao que pode desmoronar. A vida pelo chá é a minha vida.
Fiz uma reverência, e meu pai também abaixou a cabeça. Quando olhei para cima, vi que seus olhos estavam marejados. Ele abriu a boca para falar, mas não conseguiu dizer nada.
— Quase esqueci. — Niiramo rompeu o silêncio. — O comandante Taro mandou felicitações. Ele estava certo: sua água tem um aroma realmente extraordinário.
— Eu deveria ter avisado sobre o conjunto de chá — disse meu pai quando estávamos na cozinha, embrulhando duas xícaras usadas na cerimônia para dar de presente ao mestre Niiramo, como era o costume. — Eu sabia que ele ia ser meticuloso a respeito disso. Não gostei do jeito como falou com você, mas não precisamos vê-lo nunca mais. — Eu achava que meu pai ia me chamar atenção pelo meu comportamento, mas estava enganada.
— O senhor vai participar da Festa da Lua?
Ele balançou a cabeça, negando.
— Já vi muitas Festas da Lua. No momento, dormir é mais convidativo para mim do que qualquer festa.
Antes de deixar a casa de chá, levei o pergaminho e o livro do mestre do chá para meu quarto e coloquei tudo na cama. Olhei minha imagem no espelho. Meu rosto ainda estava corado da cerimônia, e a túnica que era parte da vestimenta estava manchada de suor nas axilas. Coloquei roupas limpas e arrumei o traje da cerimônia na cama, perto do livro.
Quando me virei para colocar o livro na escrivaninha, vi um pacote branco fino que brilhava como lua cheia em noite escura. Reconheci a letra da minha mãe. Meu pai devia ter deixado no quarto pouco antes da cerimônia.
O envelope era grande. Não era como os malotes normais, feitos de algas marinhas, mas sim de papel de verdade. Dentro encontrei um enorme e fino xale de lã. Sabia que minha mãe jamais poderia encontrar um desses em nosso vilarejo, e talvez nem mesmo na União Escandinávia. Com exceção dos tecidos mais grosseiros, qualquer outra coisa era muito difícil de encontrar. Ela devia ter encomendado em alguma cidade distante. Procurei algum bilhete e logo encontrei um pequeno pedaço de papel dentro do envelope. Puxei o papel e li:
Para Noria, a nova mestre do chá, de sua mãe orgulhosa. Seja feliz!
Coloquei o xale perto do rosto. Queria que ele carregasse o cheiro de sabão para cabelo e óleo aromático dela, mas os únicos cheiros distinguíveis eram o da lã e do papel. Não havia nenhum rastro da minha mãe.
Enrolei o xale no corpo.
Arrumei a roupa de mestre do chá num cabide e a pendurei no lastro da cortina. Ao fazer isso, olhei de relance para fora e vi Niiramo parado no gramado, esperando seu helicarro chegar. Seu rosto parecia cansado. Ele estava com os olhos fechados, e percebi que usava um lenço para limpar o suor do rosto. Seus ombros estavam caídos, como se uma exaustão extrema, que se forçara a esconder, tivesse tomado seu corpo.
Enchi um cantil de água e o pendurei no ombro. Depois, peguei um lampião e uma das caixas de tortas da mesa e saí.
Quando cheguei à casa da família de Sanja, minha amiga já estava me esperando, sentada do lado de fora em uma poltrona que já vira dias melhores. Minja estava quase dormindo em seus braços, chupando um pedaço de pano cheio de sementes. Sanja se espreguiçou assim que me viu e Minja despertou.
— Como foi?
— Você é uma convidada honorária das minhas cerimônias de chá.
— Parabéns! — exclamou ela, com um sorriso irônico. — No entanto, vou recusar o convite. Nunca estive em uma dessas cerimônias e não saberia o que fazer. — Sanja me deu um abraço, deixando Minja pendurada no outro braço. A pequena ficou presa em nosso abraço e logo protestou. — Espera, volto num minuto.
Sanja desapareceu dentro da casa e, depois de um momento, ressurgiu segurando uma cesta coberta por um pano. Ela tinha deixado Minja lá dentro, provavelmente com a mãe.
— Isso é pra você.
Peguei a cesta e levantei o pano. Dentro havia uma caixa artesanal que certamente tinha sido feita por Sanja. Não foi a primeira vez que me admirei com a habilidade da minha amiga em criar coisas que eu nunca teria conseguido fazer. Eu sabia citar textos e me mover de forma graciosa e cumprimentar os convidados, mas ela sabia arregaçar as mangas e desmontar coisas e montá-las novamente de um jeito diferente, reformulando-as até que algo novo e incrível surgisse. Sanja tinha feito uma caixa retangular colorida com peças de metal, plástico e madeira. A superfície era irregular e brilhante e ela criara um padrão que parecia o desenho de uma videira subindo pela lateral da caixa, com galhos entrelaçados.
— Gostou? — perguntou ela, e seu rosto parecia ainda mais pálido do que o habitual. Era estranho perceber Sanja tão estranhamente tímida. — É para o chá.
— É linda. Obrigada! — Dei um abraço nela, coloquei a caixa na bolsa e entreguei a cesta de volta. — Vamos?
Sanja concordou. Começamos a caminhar em direção à praça central do vilarejo. Algumas estrelas brilhavam cristalinas e logo a lua cheia apareceu pálida e bem definida, subindo decidida no céu azulado do final da tarde.
— Olha! — Ela apontou para o céu.
A princípio não consegui entender do que estava falando, mas logo vi. Ao lado da lua, o brilho de partículas no céu varria os contornos negros da colina. O movimento das luzes ondulava na colina, como um pano jogado sobre a água.
— Está começando — observou Sanja.
Os sons e aromas da Festa da Lua nos rodeavam enquanto caminhávamos pelo vilarejo. Os quintais das casas por onde passávamos estavam decorados com lampiões coloridos, e o estrondo de fogos de artifício ocasionais lançava brilhos por trás dos telhados. Cheiro de peixe frito, vegetais e tortas tomava o ar. Pessoas carregavam comidas e bebidas para as mesas, e dos quintais dava para ouvir músicas e murmúrios.
De longe era possível observar a parada da Festa da Lua abrindo caminho até a praça do vilarejo. O Dragão-Marinho feito de restos de plástico, junco e madeira descartada reluzia em sua armadura prateada e branca, se remexendo no ritmo dos tambores e cantos, enquanto dançarinos o carregavam. Um grupo de crianças vestidas de peixes e outras criaturas marinhas seguia os movimentos do dragão — um cardume cujos trajes de plástico reluziam na escuridão da noite que caía aos poucos. Achei divertido pensar que o espetáculo das partículas coloridas no céu parecia até um truque produzido pelas crianças, como numa história antiga em que o reflexo de um peixe nadando junto com o Dragão-Marinho lançava luzes que chegavam até o céu. No meio da praça, uma lua cheia pintada em madeira tinha sido pendurada em um palco, como cenário para o espetáculo. Quando chegamos mais perto, vi os olhos do dragão iluminados por luzes amarelas. Levei um segundo para me dar conta de que deviam ser lampiões dentro da cabeça do bicho. Na neblina, a figura estreita e pálida do dragão era como um fantasma passando — flutuando mudo em contraponto com todo aquele som e movimento.
Eu estava começando a me divertir. Sentia a Festa da Lua entrando em mim. Sanja me puxou pela multidão até uma venda de comida. Compramos amêndoas torradas e algas secas como petiscos. Enquanto eu pagava, pressentia Sanja ansiosa ao meu lado. E já sabia aonde ela queria ir em seguida.
— Vamos tentar aquela ali — disse, apontado para a barraquinha que ficava na esquina de uma das ruas que levava para longe da praça. Enquanto abríamos caminho pela multidão, passamos por um grupo de pessoas do vilarejo conversando sobre algo sério, cochichando. Uma das pessoas estava ouvindo um message-pod.
— Deve ser invenção — ouvi alguém dizer. — Não falaram nada no noticiário.
— Você sabe como é o noticiário — respondeu outra pessoa. — E isso não passaria pelos sindicalistas. Meu cunhado diz que conhece alguns deles e...
— Meu primo viu isso, pelo menos foi o que me contou — disse o homem que segurava o message-pod. — Ele estava lá e falou que está um caos completo.
Eu me lembraria dessa conversa mais tarde; no entanto, naquele momento tinha outras coisas na cabeça.
A barraquinha que Sanja escolhera tinha a figura de uma ninfa azul pintada no canto do toldo de lona. Todo mundo sabia o que isso queria dizer e, embora não fosse estritamente ilegal, a maior parte dos comerciantes de respeito se recusava a participar desse tipo de transação.
— Queremos quatro bolinhos de lótus-azul, por favor — pediu Sanja à vendedora, uma mulher de idade com uma marca de nascença escura no rosto.
— Vocês não são muito jovens para isso? — perguntou a vendedora. Mas quando Sanja estendeu o dinheiro, a mulher não questionou mais nada, apenas colocou os bolinhos na sacola de pano que minha amiga estendeu para ela.
Olhei para ao céu. O fenômeno das luzes no céu tinha acabado, espalhando seu brilho pelo véu da noite.
— Vamos ao Pico — sugeriu Sanja. — É o lugar com a melhor vista.
O Pico era um penhasco que se projetava colado à colina mais próxima do lixão dos plásticos. Uma escada estreita ligava seu cume aos limites da aldeia. Era o melhor lugar para ver as luzes, a não ser que voltássemos caminhando para a casa de chá e, de lá, até a colina.
Quando chegamos ao Pico, percebemos que não tínhamos sido as únicas a ter essa ideia. Uma dúzia de pessoas já estava acomodada por lá, em grupos pequenos e isolados. A gente conhecia alguns rostos da escola do vilarejo e paramos para dizer olá, mas Sanja sussurrou:
— Vamos tentar subir ainda mais, deve ter um lugar mais reservado lá em cima.
Depois de um tempo caminhando, achamos uma pedra larga de onde dava para ver o céu claramente. Sanja abriu seu xale enorme no chão. Colocamos os lampiões nos cantos e ajeitamos nosso piquenique, prendendo as bordas do xale com as tortas de amêndoa. As luzes se espalhavam pelo céu, ondulando calmamente como se, na verdade, estivessem no mar.
Não falamos muito. Mas o silêncio que se impunha entre nós não era do tipo vazio, que faz com que a gente sinta um distanciamento, e sim um silêncio de conexão, que me dava uma sensação de paz. Sanja começou a mexer numa fita colorida feita de algas trançadas que enfeitava o punho da sua blusa. Eu já tinha visto aquela fita antes. Uma imagem da mãe da minha amiga costurando as bordas de uma toalha de mesa antes da celebração do vestibular de Sanja apareceu diante dos meus olhos. A fita já parecia meio desbotada naquela época. E agora, mais gasta ainda, adornava as mangas de Sanja para esconder sua aparência de roupa rota.
Mordi meu bolinho de lótus-azul e esperei a languidez tomar meu corpo.
— Quando é possível ver um Dragão-Marinho se formando com o fenômeno das partículas no céu, isso significa que o mundo está mudando — falei.
Sanja mastigou as amêndoas tostadas e bebeu água do cantil.
— É apenas uma história, Noria. As luzes que se formam são apenas partículas que colidem umas com as outras, e a causa disso é a proximidade com o Polo Norte. É uma reação eletromagnética, tão pouco interessante quanto uma lâmpada ou um vaga-lume. Não existem dragões vivendo no mar, nem cardumes de peixes seguindo-os. — Ela pegou um dos bolinhos de lótus-azul e o provou. — Os do ano passado eram melhores.
— Eu sei o que forma esse fenômeno de luzes. Mas ainda assim consigo ver dragões, você não?
Sanja ficou olhando para o céu um tempão, e eu, olhando para ela. Naquela luz meio esverdeada, seu rosto parecia diferente, como uma concha de textura suave envolta em algas. Suas mãos eram como duas estrelas-do-mar no abismo da noite. Dava para imaginá-las se afastando em direção a redutos rochosos aonde a luz nunca chegava, onde criaturas cegas e translúcidas não ouviam sons e sequer imaginavam que outro mundo era possível longe dali.
— Sim — respondeu ela, depois de um longo silêncio. — Consigo ver, sim.
Sanja segurou o meu braço. Eu senti seu calor atravessar o tecido da túnica, cada um dos seus dedos como um raio de sol. Os vaga-lumes brilhavam silenciosos nos lampiões, Dragões-Marinhos apareciam no céu e o mundo girava lentamente, sem parar, sem se fazer notar.
Na fixidez da noite, caminhei para casa com meu novo xale nos ombros. A estrada que ligava a vila até a casa do mestre do chá não parecia comprida, assim como as sombras das árvores. Ao atravessar o portão, passei a ponta dos dedos levemente pelos sinos de ventos pendurados no pinheiro. Ainda tinha na boca o gosto da minha última refeição e do piquenique da noite, e queria mastigar umas folhas de hortelã. Por isso, me dirigi ao jardim de pedras em vez de ir diretamente para casa.
Lembro-me da sensação da grama alta roçando meus tornozelos, a umidade fria da manhã entrando na pele.
A memória é escorregadia e lisa, não se pode confiar nela, mas eu me lembro.
Eu parei assim que a vi.
Aquela presença sombria e esguia nos limites do jardim de pedras, perto das ervas aromáticas. Ela estava à espera.
Minha carne e meus ossos congelaram ao redor do coração, e eu não consegui dar nem mais um passo.
A presença se virou e fugiu, até ter desaparecido atrás das ervas aromáticas. O mato ainda se moveu por um segundo pelo deslocamento do ar, mas em seguida as plantas ficaram novamente silenciosas e imóveis.
Sentindo pernas e braços pesados como nunca, corri para a casa.
Não havia luz ou movimento no lampião pendurado no teto da varanda, e demorou um segundo para que meus olhos se acostumassem com a penumbra.
Meu pai estava deitado no chão, o rosto contorcido de dor e a respiração pesada. Havia um cantil quebrado perto dele. A água tinha se esparramado pelo chão e molhado suas roupas.
— O que aconteceu? — perguntei, enquanto tentava erguê-lo. Com grande dificuldade, ele ficou em pé, mas não conseguiu permanecer ereto.
— Nada — respondeu ele. — Só estou um pouquinho cansado.
— Vou chamar um médico.
Ajudei meu pai a chegar até o quarto e o coloquei embaixo dos cobertores. Depois de um instante, ele começou a ficar inquieto.
— Preciso pegar água na cozinha. Minha boca está seca.
— Eu pego — falei, mas ele insistiu em ficar de pé e ir até lá para se servir sozinho.
Foi a última vez que vi meu pai se levantar da cama sem ajuda.