Memória da Água
Capítulo Onze
Terminei de tomar o restinho de chá da xícara e a coloquei no chão, perto de uma pilha de livros. Meu pescoço doía. Uma nuvem de poeira salpicada era iluminada por uma fresta de luz que atravessava a janela. Afastei os livros que já tinha consultado e as anotações que tinha trazido até o escritório da minha mãe, deitei de costas no vazio da sala de estar e fechei os olhos. Um vinco que se formou na camisa pressionou minha pele. Meus pensamentos se embaralhavam como num novelo, e toda vez que eu agarrava uma ponta, com a intenção de desembaralhar os fios, acabava com um nó ainda mais apertado.
Tinha passado os dois últimos dias lendo os livros dos mestres do chá e já tinha folheado vários do Século do Crepúsculo. Na última metade do século, quatro mestres do chá tinham vivido na casa. O primeiro deles, Leo Kaitio, não era muito de escrever. Preenchera apenas um livro de couro durante toda a vida. As observações eram breves e o conteúdo, seco. “Choveu nesta manhã. A visita do segundo-tenente Salo e sua esposa ocorreu como o esperado. Lembrar-me de mandar arrumar os sapatos.” “Um janeiro ainda mais quente do que o do último ano. Apareceu uma lasca no bule artesanal.” Tive de checar nos livros antigos da minha mãe para lembrar qual janeiro tinha sido aquele: janeiro era usualmente o nome dado ao primeiro mês do antigo calendário do ano solar. Apesar dessa complicação, passei os olhos pelas notas de Leo rapidamente. Perto do final do livro, a letra cursiva mudou, e levei um tempinho para me dar conta da razão. Para ter certeza, abri o livro seguinte, que tinha o nome Miro Kaitio escrito na primeira página. Ele era, possivelmente, filho do Leo. Uma rápida olhada na letra cursiva de Miro confirmou minha suspeita: quem escrevera nas páginas finais do livro de Leo fora Miro.
Miro não tinha herdado do pai a concisão e claramente gastava muito do seu tempo livre escrevendo. Eram seis livros com sua letra cursiva miúda, e entre as páginas ainda havia pedaços de papel soltos com anotações. Algumas das observações não estavam datadas. As páginas finais do livro de Leo tinham esse problema. Miro devia ter sofrido o início do racionamento de tinta e papel nessa época. Provavelmente, havia adotado o livro do pai em um momento de desespero, quando se deparara com a escassez de papel.
A escrita de Miro era completamente diferente da de Leo. Ele escrevia mais sobre seus pensamentos e sonhos, sobre sentimentos durante a cerimônia de chá e fora dela. Escrevia coisas como uma lista de situações que o faziam sorrir (um gato se enrolando no colo de alguém, a primeira mordida em uma maçã fresquinha, colocar o pé descalço na grama) e coisas que o deixavam irritado (um sapato apertado, lentes de óculos tão velhas que não se podia mais enxergar com elas, ficar sem tinta quando mais precisava).
Abri os olhos e fiquei de pé. Mas levantei rápido demais: o quarto ficou escuro e tive que me apoiar na parede até a tontura passar. Fui até a cozinha e me servi de outra xícara de chá, agora já morno. Voltei e me sentei numa almofada. Peguei o último dos livros de Miro, que eu só tinha lido até a metade. As páginas pareciam frágeis ao toque dos dedos, como se fossem se desintegrar, espalhando as palavras escuras pelo chão para que o vento as levasse embora. Minha ligação com o passado era muito frágil e delicada, como uma ponte gasta demais para que se possa atravessar em segurança. Ainda assim, as palavras tinham força. Elas me arrastavam por caminhos próprios até que perdi a noção do tempo e tive que parar para lembrar o que estava procurando. Eu me sentia ligada à forma como esse mestre do chá, que tinha vivido muito antes do meu tempo, descrevia seus dias, suas noites de lua cheia passadas em claro, os grãos de areia deixados no chão da casa de chá por seus visitantes, a neve que derretia imediatamente e que, por vezes, nem chegava a cair. Essas histórias e fragmentos de uma vida havia muito perdida chegavam a mim por páginas amareladas tão luminosas, tão detalhadas e coloridas que eu não conseguia tirar mais os olhos delas. Os ossos desse homem e a água em seu sangue tinham retornado à terra e ao céu havia muito tempo, mas suas palavras e suas histórias estavam vivas e respirando. Era como se eu mesma estivesse mais viva e respirasse mais forte enquanto lia.
As sombras mudaram de posição lá fora. Observei o farfalhar das páginas em minhas mãos.
Não fechei o livro até que praticamente não houvesse mais luz para enxergar. As pontes, então, se romperam e o passado era novamente não mais do que uma rede de palavras indistinguíveis escondidas por uma tela opaca, e o silêncio da casa me enclausurava. Mais um dia havia passado e eu não havia encontrado o que estava buscando.
Antes de ir para a cama, fui limpar o jardim de pedras.
As linhas fracas na areia tinham se tornado quase invisíveis pelo adiantado da hora. Quando já estava acabando, olhei de relance para a estrada que levava ao vilarejo e pensei distinguir duas formas humanas no limite da floresta olhando para a casa.
Congelei. O coração parecia que ia sair da boca.
O rastelo escapou da minha mão. Eu me abaixei para apanhá-lo na areia e, quando me ergui novamente, não havia mais ninguém na floresta.
Na manhã seguinte, fui procurar pistas, mas o solo duro e o tapete formado pelas sementes dos pinheiros não ajudava. Na penumbra, era possível que as sombras das árvores tivessem parecido duas figuras humanas que me observavam incansavelmente.
Dias mais tarde, recebi uma mensagem inesperada da minha mãe. Entrei em casa com dois cantis de água, pelos quais tinha enfrentado uma fila no vilarejo, e vi a luz do message-pod piscando. Quase derrubei os cantis no chão, tamanha pressa de chegar ao pod. O equipamento acendeu, e pude reconhecer a letra redonda da minha mãe.
Querida Noria, sinto muito por não estar conseguindo dar notícias com mais frequência. Sinto sua falta e espero que em breve você possa se juntar a mim. Estou fazendo tudo que está a meu alcance para que isso seja possível. Enquanto isso você poderia, por favor, me mandar alguma coisa sua? Nada grande, mas alguma coisa que use com frequência, como uma colher da casa de chá ou uma das canetas com as quais escreve no livro do mestre do chá. Queria ter algo concreto que me faça sentir mais próxima de você enquanto não podemos estar juntas. Não me mande nada polido ou limpo, quero da forma como você usa. Meu pod está ficando sem bateria e não posso recarregá-lo até amanhã, à luz do dia, então preciso ser breve. Amo você, Lian.
Praticamente me larguei no chão. O alívio era enorme. Minha mãe estava viva. Eu não tivera notícias dela por praticamente um mês. Peguei minha pod-pen e escrevi: Você está bem? Estou com saudade. Mandei imediatamente, mas não houve resposta.
Então reli a mensagem, porque sentia que alguma coisa ali estava me incomodando.
E quanto mais lia, mais estranho o pedido da minha mãe parecia. Eu sabia que ela me amava, mas ela nunca dera importância para coisas materiais. Quando se mudara para Xinjing, havia abandonado a maior parte dos seus livros sem pensar duas vezes. Tinha a tendência de reciclar tudo que pudesse ser reciclado, sem se apegar. Eu a tinha assistido doar todos os meus brinquedos, transformar minhas roupas de bebê em toalhinhas para os móveis ou tapetinhos e jogar fora minha coleção de pedrinhas — antes enfileiradas na janela do seu escritório. Até onde eu sabia, ela nunca tinha guardado sequer um desenho meu, e o xale que eu ganhara no dia da minha graduação havia sido a única peça de roupa que comprou para mim que não tivesse um valor puramente funcional.
Era estranho querer algo meu assim de repente. Outra coisa que me preocupava era que minha mãe não tinha dito como estavam as coisas em Xinjing. Era possível que ela não tivesse recebido todas as minhas mensagens. Também era possível que eu não tivesse recebido as dela. As conexões estavam fracas por conta da guerra, e os serviços de mensagem estavam, provavelmente, sendo monitorados. Eu havia tentado escrever as mensagens no tom mais neutro possível e não via razão para que fossem censuradas, mas era impossível prever as ações dos militares.
Embora não conseguisse compreender o pedido, coloquei o message-pod em seu lugar na parede, fui até a cozinha e peguei da pia uma colher que tinha sido usada naquela manhã. Havia uma mancha marrom marcando o metal no lugar onde as gotas de chá tinham secado. Embrulhei a colher em um pedaço de pano, procurei na gaveta por um malote de algas usado para mandar correspondências e joguei a colher dentro. Peguei meu livro de mestre do chá no quarto, rasguei uma página e escrevi algumas linhas: Querida mãe, aqui vai uma lembrança minha até que a gente se reencontre. Com amor, N. Dobrei o papel e o coloquei junto com a colher no envelope, depois fechei tudo com um pedaço de cordão. Eu poderia enviar a correspondência no dia seguinte. E só esperava que ela chegasse até Xinjing.
Os dias foram ficando rapidamente mais longos nas duas semanas seguintes, quando a primavera começou a dar lugar ao verão. A água fluía na escuridão, protegida por pedras que se banhavam ao sol. Quando não estava pensando nos livros, na expedição ou nos meus pais, pensava em Sanja. Queria falar com ela, contar como estava batalhando para achar um caminho desde a morte do meu pai, mas nunca parecia achar o momento adequado. Ultimamente ela andava cansada e quieta, e eu achava que estava me escondendo algo. Minha amiga quase nunca tinha tempo de ir escavar comigo. E quando eu perguntava o motivo, ela sempre evitava responder.
Eu ainda estava me infiltrando nos escritos de Miro, tentando colocar suas histórias em alguma ordem, embora soubesse que seria uma ordem imaginária. A tarefa tinha ficado mais difícil pelo fato de que, durante o tempo dele, houve dois outros mestres do chá na casa. Miro havia assumido o título quando seu pai morreu, mas como não tinha filhos, aceitara um primo, Niko Kaitio, como aprendiz. O problema é que Niko morreu jovem, poucos meses após a graduação, então seu filho, Tomio, herdou o posto de aprendiz e o título. Nem Niko nem Tomio tinham a aptidão de Miro para as letras e, por isso, sem hesitar, Miro se apossou das páginas em branco dos cadernos dos dois para escrever suas próprias histórias.
O livro que eu estava folheando tinha sido escrito bem antes do tempo de Miro. Mas eu já tinha observado que ele também fizera anotações ao final, em sua letra miúda. O texto estava datado como sendo do último ano do Século do Crepúsculo, que eu já sabia, pelas anotações de Tomio, que tinha sido também o último ano de vida de Miro.
Sei que a hora da minha última cerimônia está próxima e quero deixar isso registrado antes que meu coração pare. Não escrevi a respeito antes porque não considerava seguro. Mas agora quatro décadas se passaram desde que os eventos aconteceram e acredito que o conhecimento dos fatos não pode mais fazer mal a ninguém. Há de vir um tempo em que a água não será a única a ter memória, porque muitas histórias vêm se perdendo e poucas das que restam são verdadeiras.
Contei rapidamente quarenta anos para trás. Estava de acordo com o ano mencionado no disco prateado. Cruzei minhas pernas na almofada, coloquei o livro no colo e continuei a ler.
Eu vinha trabalhando como mestre do chá havia poucos anos e meu pai tinha morrido no ano anterior, quando, um dia, depois de anoitecer, ouvi uma batida na porta. Quando abri, encontrei dois homens e uma mulher parados na varanda. Eles me disseram seus nomes e perguntaram se poderiam fazer algum trabalho na casa ou no jardim em troca de água e comida. Isso não era uma coisa fora do comum na época. Muitas pessoas tinham perdido seus lares e seus pertences nas guerras e, para muitos, a única forma de conseguir água e abrigo era viajar de vilarejo em vilarejo em busca de trabalho. Porém, essas pessoas não pareciam mendigos. Suas roupas eram novas, e eles tinham a aparência de fugitivos. Um dos homens estava ferido. Uma tipoia suspendia seu braço e a pele estava bastante machucada. Por baixo do pano dava para ver uma tatuagem: um pequeno dragão-marinho que carregava um floco de neve nas mandíbulas. A forma como eles falaram seus nomes — um, rápido demais, outro, gaguejando — me fez pensar que eram falsos. Mas estavam claramente exaustos, como se estivessem viajando havia dias sem descanso, e não carregavam nada além de uma pequena mala feita de material impermeável. Concluí que não pareciam perigosos e os acomodei na casa de chá por uma noite. Não mantinha nada de valor lá, então não fiquei preocupado em ser roubado e, como sempre tive sono leve, sabia que ouviria se eles tentassem invadir a casa durante a noite. Havia uma fechadura forte na porta, que não podia ser aberta sem fazer bastante barulho. Dei a eles um pouco de chá e pão, além de uma lanterna, cobertores e travesseiros e indiquei o caminho através do jardim. Depois, fui preparar um curativo para a ferida do homem, mas quando voltei para a casa de chá, encontrei todos em sono pesado. Deixei os curativos do lado de fora.
Na manhã seguinte, enquanto eles ainda dormiam, o entregador do padeiro trouxe, junto com o pão, uma fofoca. Ele me disse que soldados estavam fazendo turno no vilarejo na noite anterior, batendo nas portas das casas à procura de três criminosos de guerra. Quando meus hóspedes acordaram, eu os convidei para tomar café da manhã e os observei atentamente. Não era fácil adivinhar quem eram de verdade. Eles tinham bons modos e eram razoavelmente formais, como se tivessem sido muito bem-educados. Isso abria a possibilidade de que tivessem sido criados gozando de privilégios comuns aos militares. Ao mesmo tempo, algumas das observações que faziam me pareceram estranhas, talvez até inapropriadas para alguém que houvesse crescido no meio militar. Cheguei à conclusão de que eu não tinha condição de saber quem eram. Precisava descobrir mais.
Enquanto tomávamos mais uma xícara de chá, mencionei o que tinha ouvido naquela manhã. Os hóspedes escutaram em silêncio, seus rostos ficaram lívidos — e eu soube imediatamente que era atrás deles que os soldados estavam. Pedi que me dessem um motivo para não denunciá-los.
Um dos homens fez menção de protestar, mas a mulher o silenciou com um movimento de sua mão. Quando a mão parou no ar, notei que ela também tinha uma tatuagem de dragão no pulso, parecida com a que eu tinha visto no braço ferido de um dos homens.
Ela me disse que estavam vindo das Terras Perdidas, onde investigavam a possibilidade de água potável e a recuperação das águas atingidas pela catástrofe. Fiquei surpreso, porque achava que era ilegal ir às Terras Perdidas. Quando disse isso em voz alta, a mulher admitiu que a expedição deles era ilegal. Percebi, pela expressão dos companheiros, que preferiam que ela tivesse mantido essa informação em segredo, mas a mulher tomou mais um gole de chá, se endireitou na cadeira e continuou a falar.
O exército do Novo Qian descobriu, de alguma forma, sobre a expedição e começou a persegui-los. O líder da expedição foi morto perto de Kolari, e eles vinham fugindo desde então. Alguns dias antes, outro companheiro desapareceu e levou com ele alguns backups das gravações em vídeo que tinham feito. O resto dos backups estava com eles, e não queriam que o exército pusesse as mãos naquele material. Não sabiam se o companheiro desaparecido estava vivo ou morto. A intenção dos três era se esconder no vilarejo por alguns dias na esperança de despistar os soldados.
Os três agora estavam olhando para mim. O mais baixo, um homem de cabelo castanho, estava com uma das mãos sobre o ferimento, que parecia causar muita dor. O suor brilhava em sua face. A expressão do rosto do homem mais alto era impenetrável.
A mulher pediu que eu não os entregasse.
Perguntei por que tinham vindo à casa do mestre do chá e por que achavam que eu iria ajudá-los.
“Meu pai foi um mestre do chá”, ela respondeu. Ele tinha sido morto durante as guerras da água, quando ela era muito jovem, mas a mulher lembrava-se das histórias que seu pai contava a respeito de como os mestres do chá entendiam a água.
Perguntei se existia de fato água pura e potável nas Terras Perdidas.
Ela olhou para os companheiros. Percebi que o mais alto suspirou antes de consentir que a amiga falasse, com um silencioso gesto de cabeça.
“Existe. E nós gostaríamos que ela fosse de todo mundo, não só dos militares.”
Pensei sobre a história toda. Não havia razão para mentirem a respeito. O destino de todos eles estava em minhas mãos. As recompensas por entregar criminosos da água eram boas e, se decidisse denunciá-los, tudo o que precisava era telefonar para a polícia do vilarejo. É verdade que eram três, e eu, apenas um, mas eu estava em plena forma, enquanto meus hóspedes estavam fracos. Eu poderia sair correndo da casa e fugir do alcance deles com facilidade. Eles pareciam entender isso também.
Falei que os ajudaria.
Se o alívio não foi genuíno, foi a melhor atuação que vi na vida.
Levei os três para o único local que considerava seguro. Era importante que eles mesmos não soubessem o caminho para lá, então levei-os um a um, com vendas nos olhos e seguindo um caminho tortuoso. Essa foi a condição que impus para minha oferta de asilo e, após uma rápida conversa de negociação, aceitaram sem reclamar. Eu sabia que existia uma possibilidade de conseguirem combinar seu conhecimento e adivinhar a localização para refazer o caminho mais tarde, mas era um risco que eu precisava correr. Quando eles já estavam seguros no local, voltei para buscar comida e roupas limpas.
Eles ficaram durante duas semanas. Eu ia checar como estavam a cada dois dias e, todas às vezes, levava notícias do vilarejo. Eles não me falaram muito sobre si próprios, mas fiquei sabendo de algumas coisas: eram todos acadêmicos e pareciam fazer parte de uma enorme organização clandestina que lutava para acabar com as restrições à água. Depois de quinze dias, decidiram partir porque o local estava começando a ficar meio limitado, e eles estavam preocupados (ou assim fizeram crer) com a possibilidade de me colocar em risco se ficassem por muito tempo. Até onde eu sabia, os soldados tinham levado suas patrulhas para outros vilarejos, então eu acreditava que era seguro partirem. Desenhei um mapa mostrando uma rota para fora do vilarejo que provavelmente não estaria sendo vigiada e lhes dei água e comida. Eles desejavam chegar a Kuoloyarvi primeiro, depois seguir para New Piterburg. Levei um de cada vez até o pé da colina, onde já tinha deixado os pacotes de comida. Era uma noite de primavera e o céu já começava a se preparar para a chegada da manhã.
Eles agradeceram minha bondade e disseram que não tinham como retribuir. Disse-lhes que algumas coisas não precisam de retribuição.
A mulher sorriu. Seus olhos estavam sombrios na luz da madrugada.
“Você compreende que provavelmente nenhum de nós vai viver para ver o tempo em que a água será um bem de todos novamente?”, perguntou.
“Sim, mas não quero abandonar a esperança de que isso venha a acontecer algum dia.”
“Vai acontecer”, disse ela.
Eles se foram. Fiquei observando suas silhuetas estreitas até que desaparecessem nas curvas da colina.
Não sei o que aconteceu com eles. Nunca mais ouvi falar a respeito. Não sei seus verdadeiros nomes ou se conseguiram salvar o conhecimento que carregavam. Talvez o conhecimento é que os tenha salvado. Nunca vou saber se me disseram a verdade e se fiz a coisa certa. Mas essa é minha última história, e depois de ter deixado isso registrado nessas páginas, minha água já pode secar.
Fechei o livro do mestre do chá e fiquei olhando para o chão forrado de folhas de papel. As peças do quebra-cabeça estavam começando a se encaixar, ameaçando formar uma imagem. Pertenceriam esses viajantes à expedição Jansson? Parecia uma possibilidade remota. Por outro lado, poderia explicar por que o disco prateado acabou parando no lixão dos plásticos do vilarejo. Se tivessem se sentido ameaçados e quisessem impedir que suas informações sobre as Terras Perdidas caíssem nas mãos dos militares, faria sentido que tivessem jogado tudo no lixão.
O que me deixava mais curiosa era a possibilidade de Miro ter escondido os três na colina — ou talvez até mesmo na nascente. Eu nunca teria ficado sabendo. As palavras e atos do meu pai sempre deixaram claro que apenas o mestre do chá e seu aprendiz — depois de ter aprendido o suficiente — podiam entrar lá. No entanto, Miro poderia ter violado toda a tradição das leis não escritas se tivesse escondido estranhos não confiáveis na caverna. Mas em que outro lugar poderia tê-los escondido? Ele não tinha dito que levava água para eles, apenas comida. Era também estranho não ter descrito o lugar. Isso era pouco característico do seu estilo, parecia ter sido uma escolha deliberada.
O message-pod apitou na entrada da casa. Eu esperava que fosse minha mãe. Não tinha notícias dela desde que enviara a colher, algumas semanas antes. Os músculos da minha perna formigavam por ter ficado sentada tempo demais.
A mensagem era de Sanja.
Você pode me vender alguns cantis em parcelas? Depressa!!! Hoje, se for possível, ela escreveu. Senti um aperto no estômago. Sanja nunca tinha pedido água antes. Pensei imediatamente em Minja. Ainda haveria luz do dia por várias horas e dava tempo de eu voltar do vilarejo antes do toque de recolher.
Estou a caminho, respondi. Deixei os livros espalhados na mesa da sala de estar, enchi três cantis grandes, coloquei todos no heliciclo e peguei o caminho do vilarejo.