Memória da Água
Capítulo Três
Mais tarde naquele dia, tomei o caminho que levava da casa de chá até o portão da nossa propriedade. No meio do percurso, perto do jardim de pedras, parei para pegar um pouco de hortelã. A areia pálida ondulava sobre as pedras, que pareciam ilhas abandonadas cercadas de água. As três plantas aromáticas do canteiro, que ficavam mais perto do limite da propriedade, explodiam em direção ao céu límpido como se fossem labaredas verdes. Coloquei umas folhas de hortelã na boca e continuei andando em direção a um pequeno morro que ficava à sombra de um pinheiro, bem ao lado do portão, de onde podia ver a estrada que se expandia para além das árvores do nosso bosque. A hora mais quente do dia já havia passado e a roupa da cerimônia do chá tocava minha pele de forma agradável e fresca. Já as sandálias de sola dura machucavam meus pés cansados. Os braços também doíam.
Meu pai se levantou após algumas parcas horas de sono, em meio à luz dourada e pálida, típica de uma noite branca que se transforma em manhã. Não era sempre que ele me acordava tão cedo nos dias de cerimônia, mas dessa vez não tivera piedade. Eu já sabia que era uma punição silenciosa por ter demorado demais na casa da Sanja no dia anterior. Meu pai me deu várias tarefas, uma após a outra, às vezes três de uma só vez. Quando minha mãe levantou para o café da manhã, eu já tinha limpado o jardim de pedras, carregado vários cantis de água, varrido o chão duas vezes, pendurado lampiões decorativos dentro e fora da casa de chá, colocado nossas roupas da cerimônia para arejar, lavado e secado xícaras e bules e arrumado tudo em bandejas de madeira, tirado o pó da pia de pedra do jardim e arrastado o banco da varanda três vezes, até que finalmente meu pai estivesse satisfeito com a posição.
Foi com certo alívio, portanto, que andei até o portão para aguardar os convidados, enfim livre dos meus afazeres. Não tinha comido praticamente nada desde o café da manhã e mastiguei as folhas de hortelã para enganar a fome. Na luz maçante do fim da tarde, mal conseguia manter os olhos abertos. O som suave dos sinos de vento do jardim acariciavam meus ouvidos. A estrada estava deserta, o céu parecia imenso lá em cima e, por todos os lados, eu pressentia a textura do mundo, o movimento ininterrupto da vida, em sístoles e diástoles.
O vento crescia e arrefecia. Águas profundas se moviam no silêncio da terra. Sombras mudavam levemente de forma.
Finalmente percebi uma movimentação na estrada e, pouco a pouco, pude distinguir duas pessoas em roupas azuis vindo em um helicarro dirigido por um motorista. Quando se aproximaram do bosque, toquei o sino de vento que ficava pendurado no pinheiro. Pouco depois, ouvi os três sinos da casa de chá e, assim, soube que meu pai estava pronto para receber os convidados.
O helicarro parou perto do portão, à sombra de uma garagem de algas construída especialmente para abrigar os veículos de convidados, e dois homens em uniformes militares do Novo Qian desceram. Reconheci o mais velho: Bolin era uma visita frequente que aparecia em intervalos de poucos meses. Vinha da distante cidade de Kuusamo e pagava bem, em água e outros suprimentos. Meu pai gostava de Bolin porque ele conhecia a etiqueta da cerimônia do chá e jamais exigia tratamento especial, apesar do status. Bolin também tinha familiaridade com os costumes locais, mesmo tendo nascido fora do vilarejo. Era um oficial de alto escalão, além de chefe militar do Novo Qian nas áreas ocupadas da União Escandinávia. Em seu paletó havia uma insígnia prateada em formato de peixe.
Eu não conhecia o outro convidado. Mas quando vi dois peixes prateados pregados no uniforme, percebi que deveria ser de um escalão ainda mais alto do que o de Bolin. Antes mesmo de ver seu rosto, escondido pelo capuz antimosquito, e julgando apenas por sua postura e por seus movimentos, achei que o desconhecido era mais jovem. Fiz uma reverência para ambos e aguardei até que tivessem me cumprimentado também. Então pegamos o caminho de pedras. Eu seguia na frente, em ritmo deliberadamente lento para dar aos dois convidados tempo suficiente para mergulhar no silêncio sem pressa da cerimônia.
O gramado em frente à casa de chá brilhava no sol forte: meu pai tinha espargido água, símbolo de pureza, na grama, como mandava o costume. Lavei as mãos na pia de pedra que eu mesma tinha enchido pouco antes e esperei que os convidados seguissem o exemplo. Em seguida, eles se sentaram no banco da varanda e aguardaram. Um sino tocou lá dentro pouco depois. Deslizei a porta para o lado e convidei os visitantes a entrar. Bolin se ajoelhou na entrada, com alguma dificuldade, e rastejou para dentro. O oficial mais jovem olhou para mim. Seus olhos pareciam escuros e frios por trás do capuz.
— Esta é a única entrada? — perguntou.
— Existe outra para o mestre do chá, senhor, mas os convidados não podem usá-la — respondi e fiz outra reverência.
— Nas cidades praticamente não existem mais mestres do chá que fazem seus convidados se ajoelharem — replicou.
— Esta é uma casa à moda antiga — expliquei. — Foi construída seguindo o preceito de que o chá pertence a todos indistintamente, portanto, todos devem se ajoelhar antes da cerimônia. — Dessa vez não fiz reverência e imaginei ter visto certa irritação no rosto do convidado. Mas ele adotou uma expressão neutra e um ar de polidez. Não falou mais nada e se ajoelhou ao entrar. Eu o segui, fechando a porta atrás de nós. Senti meus dedos levemente trêmulos quando toquei a porta. E fiquei torcendo para que ninguém tivesse reparado.
O convidado mais velho já tinha se acomodado no muro adjacente, e o mais jovem logo se juntou. Sentei perto da porta de entrada dos visitantes. Meu pai estava ajoelhado diante dos oficiais e, assim que ambos retiraram os capuzes, fez uma reverência.
— Seja bem-vindo, major Bolin. Tê-lo aqui é um prazer pelo qual venho aguardando há tempos. Muita água rolou desde a última vez em que o senhor nos visitou. — Meu pai estava se comportando estritamente de acordo com a etiqueta, mas pensei distinguir uma nota de afeto em sua voz, reservada somente a clientes muito antigos e amigos.
O major Bolin se inclinou em resposta.
— Mestre Kaitio, também é um grande prazer estar em sua casa de chá novamente. Trouxe um convidado comigo e espero que ele aprecie seu chá tanto quanto eu. — E se voltou para o companheiro. — Este é o comandante Taro. Ele acaba de se mudar para cá, vindo de uma distante província ao sul do Novo Qian. Quis dar as boas-vindas a ele com o melhor chá da União Escandinávia.
Agora que não estavam usando o capuz antimosquito, eu podia ver claramente que Taro era mais jovem que Bolin. A pele era lisa e não havia fios grisalhos na cabeleira preta. A expressão em seu rosto não sofreu alteração quando se inclinou para cumprimentar o mestre do chá.
Depois de dar as boas-vindas a Taro com mais uma reverência, meu pai se levantou para ir até a sala da água e retornou pouco depois carregando o caldeirão. Posicionou-o no centro do cômodo, sobre um bom punhado de turfa, que logo incendiou com um acendedor. As pedras de sílex crepitavam. Pude até ouvir o roçar das roupas do meu pai quando ele foi novamente à sala de água apanhar uma bandeja com duas xícaras e dois bules — um grande, de metal, e o outro pequeno, de barro. Colocou a bandeja perto do centro da sala, no chão, e escolheu se posicionar em um lugar do qual pudesse ver a água dentro do caldeirão. Eu já sabia que o major Bolin tinha preferência pelo chá verde, para o qual a água não deve estar muito quente. “Quando contar dez pequenas bolhas no fundo do caldeirão, é hora de jogar a água no bule”, meu pai havia me ensinado. “Cinco é pouco e vinte é demais.”
Quando a água chegou à temperatura correta, meu pai pegou uma concha para retirá-la do caldeirão e colocá-la no bule maior. Ainda criança, eu tinha tentado repetir os movimentos tantas vezes em frente ao espelho que meus braços e minhas costas chegavam a doer. Nunca atingi o mesmo grau de suavidade e fluidez: meu pai era como uma árvore se inclinando ao vento ou uma mecha de cabelo flutuando na água. Meus movimentos pareciam desajeitados e rígidos comparados aos dele. “Você está tentando copiar o movimento externo”, ele me dissera, certa vez. “A fluidez deve vir de dentro e passar para fora num fluxo constante, como o movimento da vida.” Somente mais tarde, quando comecei a pensar sobre a água, entendi o que ele queria dizer.
A água não tem começo nem fim, e os movimentos do mestre enquanto prepara o chá também são assim. Cada silêncio e cada pausa são parte do fluxo e, se as pessoas em geral pensam haver interrupções nos movimentos, é apenas porque os sentidos humanos não são suficientes para perceber tudo. O fluxo apenas cresce, fenece e muda, como a água no caldeirão de ferro, como a vida.
Ao compreender isso, meus movimentos começaram a mudar, deixando a superfície da pele e a tensão dos músculos para se fixar dentro de mim.
Meu pai derramou a água do bule grande no pequeno, que continha as folhas. Então passou o chá meio ralo e feito às pressas do bule pequeno para as xícaras, apenas para aquecê-las. Como último passo do preparo, encheu o bule pequeno novamente e o ensopou por fora com o chá que estava nas xícaras, encharcando o bule de barro enquanto as folhas que estavam dentro soltavam seu aroma. Os lampiões pendurados no teto lançavam uma luz bruxuleante na água que se espalhava pela bandeja. Respirando fundo, fui mergulhando na cerimônia e nas sensações ao redor: os raios de luz amarela, o doce cheiro das ervas, as rugas do tecido da calça pressionando minha perna, o tinir úmido do bule de metal quando colocado na bandeja. Tudo misturado e fundido numa onda de sensações internas que invadiam meu sangue e me arrastavam cada vez mais profundamente para a cerimônia, até eu sentir que não estava apenas respirando, mas seguindo o fluxo da vida, me conectando ao céu e à terra.
E, então, a sensação foi interrompida.
— Algumas pessoas julgariam isso um desperdício de água. — As palavras vieram do comandante Taro. Sua voz era baixa e surpreendentemente suave. Eu não conseguia imaginar alguém comandando um exército com aquela voz. — É raro encontrar quem possa se dar ao luxo de gastar água em uma cerimônia do chá tão completa.
Embora eu não pudesse ver meu pai, senti que ele tinha congelado, como se uma teia invisível tivesse se tensionado logo abaixo de sua pele.
Uma das regras básicas da cerimônia é que a conversa se limite a comentários sobre a qualidade da água ou do chá, colheitas nas áreas alagadas, clima, origens e matéria-prima das porcelanas ou decoração da casa. Problemas pessoais não entram em pauta e observações críticas não devem ser feitas.
Bolin se remexeu, como se um vaga-lume tivesse entrado em seu uniforme.
— Como eu falei, Taro, o mestre Kaitio é um profissional diferenciado. É uma questão de honra para ele manter o ritual tradicional que temos o privilégio de apreciar — disse, sem se voltar para o companheiro. O olhar de Bolin se mantinha fixo e intenso em meu pai.
— Entendo — retrucou Taro. — É que não pude me conter diante do fato de um mestre do chá de um vilarejo tão afastado poder gastar água de forma tão generosa. E o senhor deve saber, major Bolin, que a cerimônia do chá como a que temos hoje não é mais do que uma tentativa pífia e impura de imitação. As cerimônias como eram feitas no mundo antigo foram há muito esquecidas. Sendo assim, chega a ser um pouco ingênuo imaginar que vale a pena desperdiçar tanta água para conservar a tradição.
O rosto do meu pai parecia feito de pedra, uma pedra capaz de fechar uma represa. Ele argumentou de forma tranquila:
— Senhor, garanto que pratico a cerimônia do chá exatamente como no passado. Já se passaram dez gerações desde que o primeiro mestre do chá se mudou para esta casa. Nem o menor detalhe foi alterado.
— Nem o menor detalhe? — repetiu Taro. — Então sempre foi costume dos mestres do chá aceitar mulheres como aprendizes? — Virou a cabeça na minha direção e senti meu rosto pegar fogo, o que acontece toda vez que algum estranho presta atenção em mim.
— É costume os pais passarem suas habilidades para os filhos, e minha filha aqui vai me dar muito orgulho como mestre do chá — respondeu meu pai. — Noria, por que não serve os doces para o Primeiro Chá?
A primeira xícara de chá, mais conhecida como Primeiro Chá, é vista como a parte mais importante da cerimônia, e qualquer conversa inapropriada nesse momento seria uma grave ofensa, não apenas a meu pai, mas também aos outros convidados. Taro ficou em silêncio enquanto eu pegava uma cestinha feita de algas com os doces que tinha preparado naquela manhã usando mel e flor de amaranto. Enquanto enchia as xícaras e as oferecia, primeiro ao major Bolin e depois ao comandante Taro, o rosto do meu pai continuou plácido e sem expressão. Bolin apreciou o aroma do chá por bastante tempo antes de prová-lo com olhos fechados, deixando o primeiro gole na boca por tempo suficiente para distinguir o sabor. Taro, por outro lado, levou a xícara aos lábios e tomou um gole generoso sem levantar os olhos. Ele tinha um estranho sorriso nos lábios.
— Bolin estava certo — disse Taro. — Sua habilidade é realmente incrível, mestre Kaitio. Nem mesmo os mestres do chá da capital, que recebem água natural fresca vinda de fora da cidade, conseguem preparar um chá de tamanha pureza. Se não soubesse que é impossível, diria que seu chá é feito com água vinda de uma nascente natural, e não com água do mar purificada e dessalinizada.
O ar ficou pesado na sala. Meu pai colocou a bandeja no chão e uma sensação incômoda tomou meu coração. Pensei nas águas secretas que corriam nas profundezas das cavernas da colina.
Eu não sabia quem era aquele homem ou qual a verdadeira razão da visita. Mas já tinha pressentido algo diferente em suas pegadas. No lugar em que seus pés haviam tocado, na pedra ou na grama, eu percebera algo muito sutil, uma espécie de sombra negra que se agarrava aos passos e nos seguia pelo jardim até a varanda da casa de chá. Era uma sombra paciente e incansável. Eu não tivera sequer coragem de encará-la. Também não queria abrir a porta e encontrá-la esperando embaixo das árvores, ou perto da pia de pedra. Não sabia se meu pai havia pressentido a mesma coisa, porque ele não deixava transparecer seus pensamentos.
O major Bolin bebericou o chá e falou:
— Fico feliz de ver que seu chá impressionou o comandante Taro. Ele foi transferido para supervisionar o governo local e estará agora trabalhando ao meu lado.
Taro enxugou a boca.
— Tenho particular interesse em colocar os crimes de água sob controle — disse Taro. — O senhor talvez tenha ouvido falar que eles vêm crescendo na União Escandinávia. — Taro fez uma pausa que encheu a sala. — Estou certo que nos veremos muitas vezes.
— Que boa notícia — disse meu pai, fazendo uma reverência.
Segui o exemplo.
— Taro é muito respeitado na capital — continuou Bolin. — Ousaria dizer que qualquer pessoa que goze da sua proteção é privilegiada, mas não quero sugerir que o Novo Quian não seja um regime igualitário, evidentemente. — Bolin deu uma risada, que meu pai e eu acolhemos com sorrisos submissos.
Meu pai encheu as xícaras de chá outra vez. Ofereci mais doces, prontamente aceitos por Bolin e Taro. Taro se dirigiu de novo a meu pai:
— Não pude deixar de admirar seu jardim, mestre. Não é comum ver tanto verde em regiões tão áridas. Como o senhor consegue fazer com que sua cota de água dê conta não apenas das necessidades da família, mas também das plantas?
— Por conta da atividade profissional, a cota dos mestres do chá é um pouco maior do que a de outros cidadãos — argumentou Bolin.
— Naturalmente — concordou Taro —, mas ainda assim fico me perguntando quanto sacrifício não é necessário para manter um jardim como este. O senhor me revelaria seu segredo, mestre Kaitio?
Antes que meu pai tivesse a chance de dizer alguma coisa, Bolin interveio:
— Já perdemos tempo demais com conversas. Por que não apreciamos nosso chá em silêncio e esquecemos por alguns minutos das mazelas do mundo lá fora? — Bolin não estava olhando diretamente para Taro e, embora sua voz não carregasse um tom de crítica, era possível distinguir uma leve advertência.
Taro o encarou por um momento, em silêncio, até se voltar para meu pai. Então, com o olhar fixo nele, disse:
— Talvez você esteja certo, major Bolin. Talvez eu deva poupar algumas perguntas para uma próxima visita, que espero fazer em breve. — E ficou em silêncio.
Depois disso, apenas algumas frases de conteúdo superficial foram trocadas, e nenhuma delas dizia respeito à água, ao sabor do chá ou ao jardim. Na maior parte do tempo, o silêncio se espalhou pela casa de chá e nos envolveu como a fumaça rala de um incêndio controlado.
Não havia mais doces para servir.
O maior dos bules já estava vazio, e também o caldeirão.
A cerimônia termina quando a água acaba.
Por fim, os convidados nos cumprimentaram e colocaram seus capuzes antimosquito. Fui a primeira pessoa a sair. Lá fora, o suave mormaço do fim de mais uma tarde de verão anunciava a chegada do anoitecer. Os vaga-lumes já começavam a brilhar nos lampiões pendurados nas extremidades do telhado. O major Bolin e o comandante Taro me seguiram até o portão. O motorista do helicarro emergiu da monotonia da sua partida de mahjong, deu um gole em um pequeno cantil e se espreguiçou, preparando-se para partir. Os convidados entraram no veículo e se despediram formalmente.
Voltei para a casa de chá. O sol queimava no horizonte e o céu se estendia para todos os lados, da cor das pequenas campânulas que cresciam em nosso jardim. O ar estava parado e a grama serenava para a chegada da noite.
Lavei e guardei cuidadosamente xícaras, bules e outros utensílios. Depois ajudei na limpeza da casa de chá. Já estava sem fôlego quando finalmente esvaziamos os lampiões. Os vaga-lumes desapareceram nos arbustos, onde ainda se podia distinguir seu brilho entre as folhas. Meu pai saiu da casa de chá em sua roupa de cerimônia, carregando o capuz antimosquito na mão. A luz fugidia do céu noturno mostrava apenas parte do seu rosto.
— Acho que você aprendeu bastante sobre o que é ser um mestre do chá na cerimônia desta tarde. — Foi tudo o que me disse antes de se afastar em direção a nossa casa. Embora eu tenha ficado muito surpresa, o silêncio que se seguiu foi mais desconfortável do que qualquer palavra que ele pudesse ter dito.
Levei os lampiões vazios de volta para a casa de chá, embrulhei-os em tecidos um por um e os guardei dentro do baú de madeira no qual eram mantidos. Depois, passei os vaga-lumes do último lampião da cerimônia para um lampião comum, para mim mesma.
Caminhei entre as árvores ao redor da casa de chá por um bom tempo. O orvalho da noite suavizava as picadas doloridas e ardidas nos tornozelos. Não conseguia ver a presença escura e esguia embaixo dos pinheiros, nem no jardim, nem na varanda. Mas talvez eu não estivesse procurando direito.