Memória da Água
Capítulo Dez
A fila se arrastava num ritmo lento e agonizante. O sol ardia nos olhos e meu rosto nu estava coberto da areia fina que o forte vento do final do inverno levantava. Estava arrependida de não ter pegado meu capuz antimosquito de manhã. Não havia muitas mutucas, mas as rajadas de poeira e areia eram tão ruins quanto os insetos. Não tirava os olhos do posto de fornecimento de água, mas ele se mantinha distante. Eu tinha outros planos para o dia e não queria gastar meu tempo esperando na fila, mas sabia que precisava mostrar a cara no vilarejo pelo menos duas vezes por semana para evitar suspeitas.
A primeira coisa que fiz naquela manhã foi caminhar até a colina para checar o nível da nascente. Tinha gasto todo o dia anterior podando os arbustos de groselha no jardim ainda sem vida e plantando as sementes de vegetais em vasilhas de barro. Tentar manter a casa do jeito que era quando meu pai ainda estava vivo e minha mãe ainda morava comigo era como querer capturar o vento com as mãos. A poeira se amontoava, cinzenta e teimosa, e as teias de aranha cresciam em todos os cantos. Insetos de pernas longas e asas curtas, que tinham a cor das folhas mortas, vinham atraídos pela luz vacilante de dentro da casa e se perdiam na confusão de paredes e espaços fechados. Ao entrar nos cômodos escuros, meus pés esmagavam os insetos mortos e suas asas se espalhavam pela casa. Nem sempre eu conseguia reunir energia ou tempo suficiente para varrer tudo: pernas para um lado, asinhas para o outro, cabeças sem antena condenadas ao silêncio eterno. A mudança era mais forte e mais rápida do que eu. A casa estava diferente, minha vida estava diferente, e eu tinha que aceitar isso, mesmo desejando de todo coração negar a situação.
Havia se passado apenas uma lua cheia desde que eu cavara a sepultura do meu pai. A grama que cobria a cova estava irregular e montes de terra preta se acumulavam no local. Mesmo tendo de encará-la todos os dias, a morte dele continuava insondável e estranha para mim. Era difícil encaixá-la em todos os lugares que ele tinha passado e aos quais pertencia. A marca do meu pai era tão forte que, para mim, era como se ele ainda estivesse vagando pelo terreno, sem saber como ir embora, caminhando fora de vista e deixando a casa pouco antes de eu abrir a porta. Era uma presença sutil e triste, mas nunca assustadora. Eu chamava o nome deles às vezes, ainda que soubesse que ele não responderia mesmo se pudesse ouvir, ainda que soubesse que não colocaria mais sua mão no meu ombro. Nós habitávamos mundos diferentes agora, e o escuro rio que nos separava só podia ser cruzado em uma única direção.
A fila andou e Sanja empurrou o carrinho no qual estavam as embalagens vazias da sua família e os meus cantis. A poeira se agitou nas rodinhas. Ainda havia pelo menos uma dúzia de pessoas na frente.
— Achei que a encontraria aqui — disse uma voz às minhas costas, enquanto uma mão de dedos miúdos e unhas roídas tocava meu ombro.
Ao me virar, me deparei com Ninia, esposa de Jukara, que acabava de entrar na fila. Ela era uma das poucas pessoas a usar um capuz antimosquito àquela hora da manhã. Por trás da redinha transparente, o rosto redondo parecia cada vez mais pálido e a pele perdia a firmeza. Ninia estava com os lábios pintados num vermelho mais forte do que o habitual. E eu me perguntava onde ela teria encontrado aquele batom e o quanto ele teria custado.
— Oi, Ninia — cumprimentei.
— Sorte que você só precisa de água para você mesma agora — continuou, e suas sobrancelhas esbranquiçadas se arquearam numa expressão aflita. Então Ninia segurou meu braço. Senti um calor crescendo dentro de mim. — Tem notícias da sua mãe?
— As pod-networks não estão funcionando direito — respondi, mas minha voz não parecia segura nem mesmo aos meus ouvidos. Eu vinha mandando muitas mensagens para minha mãe nas últimas semanas, mas só tinha recebido resposta uma vez, logo após o funeral. As notícias que chegavam de Xinjing não eram boas, quando chegavam, e o silêncio dela me assustava mais do que eu estava disposta a admitir. — Como você está?
— Os pequenos estão sofrendo — respondeu Ninia. Ela se referia aos netos. — Fazer a cota de água servir para toda a família não é tarefa fácil. Ainda assim, temos sorte. Jukara tem trabalhado regularmente fazendo reparos em campo, e os oficiais pagam um pouco mais, se é que você me entende. — Ninia pareceu se dar conta de que tinha falado demais. — É duro, é duro. Mas deve ser mais difícil ainda para você, pobrezinha, sem seus pais e só com as cerimônias de chá para gerar renda.
Sanja deve ter antecipado minha reação, porque deu um jeito de interromper a conversa.
— Desculpe, tem uma coisa no seu rosto. Embaixo do olho esquerdo. Não, do outro lado — disse ela para Ninia, que levantou o capuz e passou a mão na bochecha.
— Saiu?
Sanja a observou mais de perto e levantou as sobrancelhas.
— Acho que me enganei. Era apenas uma ruga. Ou talvez tenha sido uma sombra projetada pelo seu novo capuz — acrescentou ela para Ninia, cujas narinas se abriram de indignação.
— Tem razão, hoje em dia é difícil achar um tecido decente para fazer capuzes — respondeu, apertando os lábios.
Olhei para o lado a fim de que Ninia não visse o sorriso que se desenhou no meu rosto apesar da tristeza que apertava meu peito. Eu sabia que o capuz antimosquito de Ninia não era novo. Havia uma mancha de batom permanente na bainha, que ela tentava disfarçar com uma echarpe.
— Como vai sua família, Sanja? — Ninia puxou conversa de novo, embora o tom da sua voz tivesse se tornado vários graus mais frio.
A expressão de Sanja se tornou sombria. Minja estava doente havia semanas e Sanja estava preocupada. A água fornecida aos moradores na praça parecia limpa, mas havia rumores de que nas cidades e outros vilarejos as pessoas tinham ficado doentes depois de bebê-la. Sanja tinha me contado que seus pais sugeriram, entre dentes, que os militares estavam deixando as pessoas doentes de propósito, distribuindo água contaminada. Eu não queria acreditar, mas preferia usar minha cota para lavar a casa ou regar as plantas, e não para matar a sede.
— Nada mal — respondeu ela. — Meu pai tem bastante trabalho, já que foi contratado para transformar aquelas antigas construções nos arredores do vilarejo em moradias para os novos guardas da água.
— E sua mãe e sua irmã?
— Tão bem quanto a senhora — respondeu Sanja.
Ninia ficou em silêncio por um instante.
— Mande lembranças — disse e, em seguida, a expressão de Ninia deixou claro que a conversa tinha terminado.
— Que verme — murmurou Sanja, baixinho.
Enfim chegou nossa vez. Tirei meu message-pod do bolso e coloquei um dos dedos na tela. Meu código de identificação e meu nome apareceram. Entreguei o pod para uma das guardas que administrava as cotas. Ela conectou meu message-pod em seu multi-pod e encheu os cantis. Fiquei observando-a inserir a informação de que minha cota de água da semana fora usada. Cidadã: Noria Kaitio. Próxima cota: dentro de três dias, dava para ler na tela. A guarda me devolveu o message-pod. Eu o desliguei e guardei no bolso.
Coloquei os cantis cheios no carrinho de Sanja enquanto esperava os recipientes dela serem completados e a informação sobre sua família ser checada. Os recipientes de Sanja pareciam terrivelmente pequenos. Eu usava aquele mesmo tanto de água todos os dias sozinha. Só para lavar a louça usava metade do que ela estava levando.
Quando os recipientes já estavam cheios e Sanja tinha recebido seu message-pod de volta, cobriu tudo com as respectivas tampas e começamos a empurrar o carrinho juntas pela praça. Passamos por algumas tendas nas quais as pessoas colocavam utensílios de cozinha, móveis e outros objetos em exibição. Uma senhora de idade estava tentando trocar um par de sapatos por um saco de farinha. O dia estava surpreendentemente frio, dada a época do ano, e eu tremia, apesar do esforço de manobrar o carrinho nas pedras irregulares do chão. Uma parede de nuvens escuras se apresentava no horizonte, como um enorme xale de lã.
— Espero que chova hoje à noite — disse Sanja. — Já coloquei uns barris e uma caixa d’água para fora.
Eu também esperava que chovesse, uma torrente purificadora e apaziguante que pudesse lavar a terra e a mim e que pintasse o mundo de uma cor diferente, ainda que apenas por um breve instante. Mas tinha a impressão de que as nuvens não resultariam em mais do que um chuvisco, e não disse nada.
Havia guardas da água de uniforme azul passando e algumas pessoas voltando para casa com suas cotas, mas, fora isso, as ruas estavam vazias. Após a Festa da Lua, os moradores do vilarejo tinham começado a conversar em tom de voz baixo, enquanto o número de soldados aumentava e cada vez mais moradias eram erguidas para eles nos arredores. Conforme a cota de água ia apertando, o mau cheiro vindo das pessoas e das casas invadia as ruas, se espalhando por todas as partes e grudando no ar como o líquen que cobre as rochas do leito de um rio seco. Toda vez que andava até o centro do vilarejo, eu tinha que tampar o nariz, quase sufocando, até me acostumar com o cheiro.
O fedor parecia se intensificar nas proximidades do centro médico. O antigo prédio tinha uma sala de espera pequena, sempre abarrotada de gente, e dessa vez umas dez mulheres estavam esperando do lado de fora com suas crianças. Dois bebês estavam berrando o mais alto que podiam, enquanto outras crianças mais velhas pareciam cansadas demais até mesmo para protestar. Uma jovem, que não parecia mais velha do que eu, tentava fazer um bebê de lábios rachados e olhos inchados beber de uma garrafa. Uma garota de cabelo escuro e pele clara, de talvez 3 anos, havia se sujado inteira e a mãe estava desesperada tentando limpá-la. Quando nos viu, apanhou um caneco de plástico que estava pendurado em seu cinto e disse:
— Você poderia nos dar um pouco de água? Minha criança está com sede e doente, estamos esperando há horas.
Sanja olhou para mim. Isso era novidade. O vilarejo já havia enfrentado falta de água antes, mas ninguém jamais tinha sido visto mendigando água. A menina tinha um rosto magro e olhos grandes.
— Vamos parar — falei para Sanja.
A mulher estava segurando o caneco. Peguei o cantil e despejei um pouco de água. Ela agarrou meu braço com a mão que lhe sobrava e me apertou.
— Muito obrigada, senhorita! Você é uma pessoa boa. Obrigada, obrigada, que águas limpas lhe sejam ofertadas! — Ela continuou a murmurar agradecimentos, e eu comecei a me sentir constrangida. Tinha acabado de fechar o cantil e colocá-lo de volta no carrinho quando outra mulher se aproximou. Duas crianças pequenas estavam segurando as mãos dela.
— Você teria um pouquinho para nós também, por favor?
Sanja me lançou um olhar firme.
— Temos que ir, Noria.
Minha amiga estava certa. Eu já pressentia todas as pessoas que estavam do lado de fora do centro médico olhando para mim esperançosas, pesando as chances de conseguir alguma coisa. Se eu ficasse, acabaria com a água dos cantis.
— Sinto muito — falei. — Realmente sinto muito, mas não posso. Isso é tudo o que tenho para mim.
Ela me encarou com um olhar de descrença e, em seguida, de algo pior.
— Você é a filha do mestre do chá, não é?
— Vamos, Noria — chamou Sanja.
— Eu devia saber. Os mestres do chá sempre se acharam melhores do que os outros moradores — continuou a mulher.
Senti o sangue subir para o rosto enquanto me afastava, empurrando o carrinho pela superfície rugosa das ruas. Ouvi a multidão praguejando e cheguei a pescar uma palavra que parecia ser meu nome. Não queria ouvir mais nada.
— Simplesmente ignore essa gente — disse Sanja. — Não é sua culpa não poder ajudar todo mundo.
Eu estava com o rosto queimando e a garganta apertada. Não sabia o que dizer. Queria sumir dali. Tentei me concentrar no que me aguardava mais adiante, no real motivo de eu ter ido até o vilarejo. E assim, mesmo em meio ao sentimento de humilhação e confusão, consegui sentir um lampejo de animação.
Viramos uma esquina para fazer um caminho diferente. Mas ainda tive tempo de olhar para a casa cinzenta de teto baixo, com janelas escuras escancaradas e sem nenhum movimento ou sinal de vida por trás delas, a casa em cuja porta um círculo azul tinha sido pintado quatro semanas antes. Nossos pés se afastaram quase que por instinto. Minhas caminhadas pelo vilarejo eram sempre tortuosas porque, conforme as marcas de crimes da água iam reivindicando espaço nas ruas, novos caminhos nasciam dos pactos silenciosos que lentamente substituíam os antigos. Havia dúzias de novas casas carregando o círculo azul. A cinzenta de teto baixo era apenas a mais recente. As formas espectrais mudas dessas residências se impunham na paisagem do vilarejo, cercando tudo em volta de silêncio e fazendo com que todos desviassem a rota sempre que possível. Os moradores das casas vizinhas continuavam com suas vidas, e era como se no lugar da casa marcada houvesse um buraco gravitacional que pudesse atraí-los para dentro, caso ousassem dar sequer uma olhada na direção errada.
Havia rumores no vilarejo de que pessoas que viviam nas casas marcadas pelo crime tinham sido vistas, vez ou outra, apanhando algo na soleira da porta ou paradas em silêncio do lado de fora, jamais indo mais longe do que o jardim e, via de regra, bem cedo de manhã ou com a noite já avançada. Essas histórias eram ouvidas como se fossem lendas sobre fantasmas: com uma mistura de medo e curiosidade que se desvanecia ao amanhecer.
A verdade era que ninguém sabia com certeza o que acontecia com os moradores das casas marcadas. E era fácil não questionar.
Não há necessidade de pedir silêncio a respeito de coisas vergonhosas.
Um forte vento frio que fazia tremer os beirais dos telhados fez com que nos entrincheirássemos num terreno entre as casas em busca de abrigo. Lá, vi um homem miúdo — o reconheci como um professor na escola do vilarejo — que estava esfregando o couro cabeludo com um pó marrom, uma mistura de argila e farinha de casca de árvore, produto vendido nos mercados locais como sabão para ser usado a seco. Eu só conhecia a saponária, uma flor que crescia atrás da casa de chá em tufos grossos e que produzia espuma quando misturada com a água do banho. Pela primeira vez me ocorreu que alguém podia questionar porque eu nunca comprava sabões para lavagem a seco. Eu não fazia ideia de quantas mudanças teria que providenciar para que minha vida parecesse semelhante a dos outros moradores do vilarejo.
Quando estávamos quase chegando à casa de Sanja, não pude me conter.
— Vou escavar. Quer vir comigo?
Sanja suspirou.
— Não posso. Tenho muita coisa para fazer em casa. — Minha amiga olhou de relance para os cantis. — Quer deixar isso lá em casa e pegar mais tarde? Você não vai conseguir ir e voltar do lixão dos plásticos com isso nas costas.
— Pode ficar com eles.
Sanja olhou para mim como se eu tivesse oferecido um voo nas costas de um Dragão-Marinho.
— Não seja tola! Você não vai conseguir pegar água novamente até a próxima semana. Claro que não posso ficar com eles.
— Não preciso dos cantis — insisti. — Tenho água em casa para o resto da semana. Por favor, fique com eles.
Sanja fez uma cara de quem ia recusar, mas deixou as palavras morrerem num profundo suspiro. Depois acrescentou:
— Dessa vez vou aceitar, mas não ouse me oferecer uma coisa dessas novamente.
O cheiro pungente do lixão dos plásticos já se fazia sentir. Quase chegando lá, passei por um local onde algumas pessoas tentavam encher cantis e baldes — um riachinho barrento que corria perto dos limites do lixão. Meus pais tinham me alertado para nunca beber daquele riacho. Diziam que a água era contaminada por toxinas que me fariam ficar doente. As pessoas do vilarejo tinham evitado o riacho no passado, mas, agora, toda vez que eu passava por ali via alguém tentando coletar água. Uma vez alertei uma senhora de que a água não era adequada para beber.
— O que você quer que eu beba, então? — retrucou ela. — Ar ou areia?
Essa foi a última vez que tentei convencer alguém sobre o riacho.
Mas quase parei, contrariando minhas regras, ao reconhecer entre os que buscavam água no riacho um rosto de lábios vermelhos por trás de um capuz. Ninia estava agachada em uma das margens, enchendo um cantil transparente com a água barrenta. Havia um quê de verme na figura atarracada de Ninia, aquelas roupas escuras e aqueles movimentos ensaiados, mas tão logo esse pensamento passou pela minha cabeça, senti uma pontada de vergonha. Ela está apenas tentando sobreviver da melhor forma possível. E não é o que todos estamos fazendo? Imaginei que os empregadores de Jukara não deviam estar pagando tão bem quanto ela havia sugerido. Ninia virou o rosto na direção oposta quando passei. Ou não me viu ou fingiu não me ver.
Passei adiante sem parar.
Como o terreno do lixão de plástico estava sempre mudando, era difícil distinguir pontos de referência, mas eu conhecia a área. Na parte central havia postes de concreto com quase duas vezes a minha altura enfiados na montanha de resíduos. Parei perto dos postes e dei uma olhada geral até localizar a carcaça enferrujada de um veículo do mundo antigo. O lugar onde as rodas tinham estado ainda era visível, assim como o painel do carro, mas os assentos e as partes de metal reaproveitáveis tinham sido levados. Era o tipo de peso morto pelo qual ninguém ia se interessar, até porque seria necessária a força de pelo menos cinco pessoas para mover o carro do lugar, e não parecia haver nada de interessante a ser encontrado por ali. Caminhei até o esqueleto do veículo.
Sem pensar muito, enfiei a mão num dos buracos do painel e fui tateando até tocar a superfície suave de uma caixa de plástico do tamanho de uma tigela. Não era necessário puxá-la para fora: só de tocar já dava para saber que estava ali. Era uma das cápsulas do tempo que Sanja e eu tínhamos escondido num dos nossos lugares favoritos quando éramos crianças. Elas continham coisas como pedrinhas, flores secas, pulseiras de alga feitas à mão e tesouros encontrados no lixão. A gente sempre escrevia a data dentro da tampa de cada uma das cápsulas, depois mergulhávamos os dedos na tinta e deixávamos nossas digitais. Na parte de fora, escrevíamos a data em que a gente poderia abrir a cápsula novamente, em geral, pelo menos dez anos mais tarde. Essa era a última que a gente tinha feito e, por muitos anos, sempre que vínhamos ao lixão, checávamos se ela ainda estava no lugar.
Puxei a mão de volta, limpando-a na calça, e continuei a caminhar a partir de onde estava o carro. Depois de dar vinte passos, cheguei a um buraco raso que eu tinha cavado alguns dias antes. Parecia que ninguém estivera ali desde então.
Peguei na bolsa umas luvas grossas e comecei a remexer nas coisas.
Eu não tinha contado para ninguém, mas o que havia me atraído até o lixão era o disco prateado. Depois da morte do meu pai, a quietude da casa parecia me envolver em sono pesado, como se a terra estivesse me convidando ao descanso eterno. O silêncio não era apenas dos espaços vazios que meus pais tinham deixado, da falta de passos, respiração, palavras. Era também o silêncio de tudo o que não tinha sido dito, tudo o que eu tinha que aprender sozinha, sem eles. Sentia que apenas começava a compreender que sabia muito pouco: a respeito da nascente, dos outros mestres do chá, das estranhas leis que ameaçavam o equilíbrio de secretas alianças, da propina envolvida em tudo, de todas essas coisas do mundo adulto que se estendiam como um deserto sem fim para qualquer direção que eu olhasse, embaralhando o contorno das coisas que eu pensava conhecer. Eu estava irritada por terem me deixado sozinha sem saber de coisas que eu devia saber. Por que vocês não me contaram? Mas meus pais não estavam mais aqui. Agora havia apenas a terra e o vento, e eles não falam por meio de palavras.
Eu não tinha compreendido totalmente por que o disco prateado era tão importante para mim. Ainda não havia conectado as pontas soltas. Se por um lado eu tinha medo de um dia descobrir que a superfície da nascente estava rasa demais que soldados de farda azul tinham invadido a caverna com seus sabres na mão, por outro, tinha uma crescente suspeita, ou talvez uma esperança meio vã, de que houvesse mais a se descobrir da vida fora do vilarejo — em algum lugar sob o céu devia haver razões para acreditar que o mundo não estava tão seco, chamuscado, moribundo e desesperador. Então comecei a ligar as coisas na minha mente e, embora eu ainda não soubesse como colocar meus pensamentos em palavras, sentia a urgência de fazer o possível para recuperar a história toda do disco prateado. Procurei por possíveis conexões nos livros do escritório da minha mãe e nos escombros do passado abandonados no lixão. Sabia que a tarefa poderia ser inglória, mas servia para distrair minha mente do silêncio irreversível da casa e, além disso, tinha um efeito calmante: uma promessa de mudança possível, uma chance de que um segredo enterrado ainda pudesse ver a luz do dia.
O buraco largo e raso que eu vinha cavando havia semanas, desde a morte do meu pai, tinha muitos resíduos de tecnologias do mundo antigo. Eu levara dias para achar o ponto certo, mas agora estava convencida de ter achado o lugar exato onde havia encontrado o disco prateado alguns anos antes. Reconheci alguns equipamentos jogados por ali e lembrei que Sanja tinha dispensado vários deles porque estavam muito quebrados e não poderiam ser consertados. Todas as peças essenciais estavam faltando, não seriam úteis para os experimentos da minha amiga. Até onde me lembrava, eu tinha encontrado o disco perto da superfície, mas o lixão sofrera inúmeras modificações desde então, e se houvesse outros discos, eles poderiam estar bem mais enterrados — ou separados de onde eu tinha encontrado o primeiro. Ainda assim, não havia lugar mais promissor para iniciar a busca.
A sombra dos postes de concreto ia aumentando. As primeiras mutucas da primavera sobrevoavam ao redor com seus corpos gorduchos para depois pousar em alguma pilha de lixo para descansar. Logo eu ia precisar do meu capuz antimosquito.
Meus membros estavam doloridos e as roupas grudavam na pele. E eu não tinha encontrado nada além das porcarias de sempre: partes de utensílios de cozinha, sapatos velhos com saltos quebrados, fragmentos de coisas irreconhecíveis e sacolas plásticas que não acabavam mais. Afastei uma máquina do mundo antigo despedaçada, com alguns fios saindo desencontrados de sua carcaça — uma dessas coisas que Sanja já havia declarado inúteis e que, portanto, eu não fazia ideia de seu propósito original —, e olhei várias sacolas de plástico amarradas. Decidi só ir para casa depois de retirá-las da pilha de resíduos, mesmo sem ter esperança de encontrar nada de interessante.
As sacolas estavam amarradas formando uma longa corda de plástico e com nós muito apertados. O material frágil com que eram feitas se desfazia nas minhas mãos e eu tentava segurar com cuidado. Finalmente, senti o nó principal soltar suavemente e fui puxando os plásticos. Juntei tudo numa enorme bola e joguei para o lado.
No buraco que restava só dava para ver mais sacolas plásticas.
Fechei os olhos. Os músculos do pescoço estavam tensos e eu sentia uma forte dor na parte de trás da cabeça. Era como se a dor puxasse o couro cabeludo para trás, como quando a gente faz um rabo de cavalo apertado demais.
Era hora de ir para casa depois de mais uma busca infrutífera.
Abri os olhos. A máquina quebrada que eu tinha afastado ainda estava perto de mim. Não era grande. Sua carcaça de plástico duro estava quebrada em várias partes, como se tivesse sido destruída de propósito. Na lateral havia vidros circulares que pareciam o fundo de um lampião. O vidro estava rachado. Parte dele tinha caído.
Devo ter visto o mesmo tipo de carcaça de equipamento uma dezena de vezes nas minhas caças ao tesouro. Devo ter segurado um desses nas mãos uma dezena de vezes. Se eu tivesse prestado mais atenção, anos antes, quando Sanja concluiu que não prestava e eu levei o disco para casa, não teria achado nada que valesse a pena.
Mas agora o sol refletia em uma pequena chapa de metal, que não era maior do que metade do meu dedo mindinho, cravada na lateral da máquina.
Olhei com atenção para o que estava gravado, e a palavra fez o tempo parar ao meu redor.
Eu li de novo, e mais outra vez.
M. Jansson.
A máquina quase se desfez na minha mão quando a envolvi com um pano, guardei na bolsa e saí do buraco de lixo. O plástico crepitava, se agitava e murmurava em meus pés enquanto eu atravessava o lixão o mais rápido que podia.
Mesmo que a história do mundo antigo gravada no disco prateado realmente estivesse no lixão de plástico, minhas chances de encontrá-la pareciam inexistentes. Agora, pela primeira vez, eu ousava pensar que havia uma possibilidade real, não importava o quanto fosse pequena, de descobrir a continuação da história do disco. Esse pensamento foi se avolumando em minha cabeça como um galho verde em busca de luz.
Quando voltei para casa, fui direto para o escritório da minha mãe e peguei a máquina na bolsa. Tirei o pano que a envolvia e a coloquei no único canto da mesa que não estava coberto por livros e anotações. Fechei as persianas, porque o sol tinha voltado seus raios para esse lado da casa. Uma sombra azul-acinzentada tomou o cômodo.
Sentei na cadeira e olhei para a pilha de livros. Olhei também para os papéis, nos quais eu tinha escrito em todos os detalhes o que conseguia me lembrar do que estava gravado no disco prateado. Olhei para a máquina do mundo antigo. Muda como um inseto morto. As cores do fim da tarde ardiam entre as frestas da persiana.
Expedição Jansson. Século do Crepúsculo. Terras Perdidas. M. Jansson.
Eu sabia que não tinha todas as peças e que talvez nunca viesse a tê-las. Mas também sabia que ainda sobrava um lugar onde eu não tinha procurado.
A casa estava silenciosa e calma, e a casa de chá, vazia e tranquila. Não havia ninguém lá fora. Se o espírito do meu pai ainda vagava pelos cômodos ou entre as árvores, era um espírito pacífico guardando a terra em que vivera. A luz do message-pod não piscava. Formigas desenhavam caminhos nas pedras do jardim e nos cantos da casa, a madeira das paredes se desgastava, a poeira teimava nas estantes, sem ser notada, e não havia ninguém para me dizer o que fazer. Não havia para quem perguntar o que fazer.
A sala de estar estava sombria. Consegui levantar a tampa do baú com facilidade quando a forcei contra a parede, e um fraco odor de papel antigo e tinta seca invadiu o ar.
As lombadas dos livros não estavam datadas nem traziam o nome dos mestres do chá, então tive que procurar pelo livro certo por um tempo, folheando as primeiras páginas dos volumes encadernados em couro. Finalmente, encontrei o que correspondia aos anos que eu estava buscando, e as informações estavam escritas em uma letra desconhecida.
Virei a página e comecei a ler.