Memória da Água

Emmi Itäranta · Capítulo 5 de 22

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Memória da Água

Capítulo Quatro

 

Fiquei deitada na cama, ouvindo o barulhinho ocasional que os vaga-lumes produzem ao se chocar contra as paredes de vidro do lampião. Não que o lampião fosse realmente necessário àquela hora, já que o sol ainda era uma bola laranja e dourada pendurada no horizonte, cada vez mais pesada. O céu estava translúcido e a luz penetrava no quarto através das telas de proteção contra insetos na janela. Do outro lado da casa, meus pais murmuravam palavras perdidas, sufocadas, obscurecidas pela distância. Depois da visita do major Bolin e do comandante, passei a ouvir meus pais sussurrando todas as noites, e minha mãe começou a dormir bem mais tarde do que de costume. Ela procurava não fazer barulho, mas eu ouvia os passos indo do escritório para a cozinha, e podia ver o suave brilho do lampião por baixo da porta quando ela passava.

Peguei um dos livros antigos que tínhamos em casa. Contava a história de uma aventura de inverno. Eu a conhecia de cor, e as palavras flutuavam de forma difusa na página diante dos meus olhos, dispersando pensamentos.

Eu não estava pensando na história. Estava pensando no mundo no qual ela fora escrita.

Inúmeras vezes tentava imaginar como teriam sido os invernos do mundo antigo.

Eu conhecia a escuridão: todo outono, perto da Festa da Lua, a noite encontrava o dia para que trocassem de lugar e o inverno tivesse início. Durante os seis meses de crepúsculo, grandes lampiões ficavam acesos nas casas o tempo inteiro, e lâmpadas solares eram ativadas durante as tardes escuras como breu. Do alto da colina dava para ver o brilho das cidades: o distante, porém distinto, halo de luz formado por Kuoloyarvi, no leste, onde ficavam as áreas alagadas e o mar; e, a sudeste, o brilho quase invisível no horizonte vinha de Kuusamo. Durante esse período, o verde da grama se perdia totalmente. E o jardim esperava pelo retorno do sol, desnudo e seco.

Imaginar o frio, por outro lado, não era tarefa fácil. Eu estava acostumada a vestir mais camadas de roupas durante a estação escura, e também costumava carregar turfa apanhada nos pântanos secos para fazer fogueiras quando a luz solar não podia ser usada, e isso acontecia pouco antes das celebrações do Solstício de Inverno. Mas, mesmo nessas ocasiões, a temperatura raramente caía para menos de dez graus e, nos dias mais amenos, eu chegava a andar de sandálias, como no verão.

Quanto tinha 6 anos, li um livro do mundo antigo sobre a neve e o gelo e perguntei para minha mãe o que eram essas coisas. Ela pegou do alto da estante, numa prateleira lá de cima que eu não conseguia alcançar, um daqueles livros grossos com cara de sério e me mostrou as figuras: formas arredondadas ou pontudas, todas cobertas de branco brilhante, localizadas em paisagens estranhas, luminosas como a luz cristalizada. Contou que aquilo era água que tomava formas distintas quando em baixas temperaturas, circunstâncias que só podiam ser atingidas artificialmente no nosso mundo, mas que em outros tempos tinham feito parte da mudança de estação na vida das pessoas.

“O que aconteceu com eles?”, perguntei. “Por que não temos mais gelo e neve?”

Minha mãe me encarou, mas seu olhar se perdia num outro ponto qualquer. Como se tentasse atravessar o pensamento, abandonar as palavras e voltar nos séculos para passear em invernos havia muito desaparecidos.

“O mundo mudou”, ela respondeu. “Muitos acreditam que mudou por si só. Mas como uma enorme quantidade de conhecimento foi perdida durante o Século do Crepúsculo, alguns acreditam que foram as pessoas que mudaram o mundo, com ou sem a intenção de fazê-lo.”

“E no que você acredita?”, perguntei.

Ela ficou em silêncio por um tempo, depois disse: “Acredito que o mundo não seria o que é hoje se não fosse pelas pessoas.”

Na minha imaginação, a neve produzia um brilho claro e delicado, como se bilhões de vaga-lumes tivessem tirado suas asas para cobrir o chão. A escuridão se tornava menos sombria e opaca quando eu pensava na luz branca e prateada de outrora, e eu sentia saudades de um mundo que nunca conheci. Imaginava as luzes da aurora boreal no céu que cobria a neve radiante e, por vezes, em meus sonhos, os invernos eram mais claros que o verão.

Certa vez realizei um experimento. Enchi um balde com água e joguei lá dentro todo o gelo que tínhamos no freezer. Então corri para o quarto e tranquei a porta. Coloquei a mão dentro do balde gelado, fechei os olhos e me transportei para o inverno do mundo antigo, sobre o qual eu tanto tinha lido. Imaginei os flocos de neve caindo e enfeitando os caminhos que meus pés conheciam tão bem, cobrindo minha casa que, antiga como era, detinha a memória do frio em suas paredes e alicerces. Imaginei uma nevasca sob as montanhas, transformando suas formas duras em paisagens fofas, onde dava até para afundar. Vi o gelo transparente cobrir o jardim e cristalizar o verde da grama, senti a água congelar nos baldes e nos canos. Imaginei o barulho que os galhos congelados faziam, e também o som dos cantis congelados no varal batendo uns nos outros.

Pensei na água, em suas mudanças de estado, e pensei na possibilidade de uma pausa total, um momento congelado num cristal de neve ou num pedaço de gelo. Imóvel, silencioso. Um fim, ou talvez um começo.

O gelo, cortante como uma lâmina, invadiu minha pele. Abri os olhos. O calor do lado de fora da casa fazia o dia arder como fornalha, transformando a terra lentamente em cinzas e pó. Tirei a mão do gelo. A pele ficou vermelha e dormente, e os dedos doíam, mas o resto do corpo ainda estava quente — o que me fez rapidamente perder contato com o inverno do mundo antigo. Eu não tinha como imaginar um frio tão imenso, tão avassalador. E, no entanto, ele tinha existido, talvez ainda existisse em alguma parte. Certo dia, minha mãe me contou que no meio do Oceano do Norte, onde havia claridade por apenas seis dias e a escuridão governava o resto do ano, lá onde as batalhas mais sangrentas por petróleo tinham acontecido, talvez ainda existissem pequenas ilhas de gelo flutuando no mar deserto, tranquilas e sem vida, carregando o segredo inacessível das memórias do mundo antigo, lentamente perdendo espaço e se derretendo no abraço impiedoso do mar. Eram as últimas remanescentes de uma enorme calota de gelo que, havia muitos anos, existira no extremo do planeta — uma vasta faixa de terra gelada que, imóvel, vigiava os continentes.

Conforme fui crescendo, comecei a acessar com mais frequências as prateleiras altas da estante de livros, faminta por qualquer informação que me ajudasse a entender os invernos do mundo antigo. Passava dias, semanas até, estudando mapas estranhos, figuras e calendários que mediam o tempo pelos ciclos do sol e não da lua. Alguns livros falavam sobre clima, estações do ano, temperaturas, porções de terras cujo litoral fora inundado, oceanos que tinham tomado continentes, e todos falavam sobre a água, mas nem sempre concordavam entre si. Perguntei por que não havia unanimidade. Minha mãe se dizia uma cientista. “Se os cientistas não concordavam entre si”, perguntei a ela, “isso significava que, na verdade, ninguém sabia de nada com certeza?” Ela pensou sobre a pergunta e respondeu que existem diferentes formas de explicar um mesmo fenômeno, e que às vezes é impossível dizer qual é a mais confiável.

Pouco a pouco aprendi que, embora apresentassem diagramas e explicações detalhadas com palavras estranhas, os livros não revelavam tudo o que eu queria saber. Continuava a tentar imaginar qual seria a sensação de segurar neve na mão pouco antes de ela virar água, ou de ver uma paisagem de inverno na qual o gelo refletisse o brilho do sol e o contorno das sombras fosse um desenho impecável — mas isso eu teria que procurar em outros livros. Os livros da prateleira alta, que tanto prometiam, ignoravam o mais importante. Para quê saber a composição de um cristal de neve se não era possível ressuscitar a sensação do frio na pele e a visão do seu brilho?

As conversas dos meus pais se tornaram um pouco mais altas. Minha mãe usava um tom de voz lamentoso, e as respostas do meu pai eram cortantes. Levantei para fechar a porta do quarto. A madeira estalou sob meus pés. Pude sentir a brisa que trazia o perfume dos pinheiros entrar pela janela. Uma enorme mutuca zumbia entre o vidro e a tela de proteção.

Quando já estava com a porta quase fechada, o message-pod apitou com meu toque de identificação lá no corredor. Caminhei até o aparelho e vi a luz piscar em vermelho. Para: Noria, estava escrito na tela. Levantei o aparelho da parede e pressionei a digital na tela, para fazer log in. O sobrenome de Sanja apareceu: Valama. Fiquei um pouco surpresa. Sanja raramente usava o message-pod. A família toda dela compartilhava a mesma conta e o aparelho tinha sido adquirido de segunda mão. Fora isso, o equipamento vivia estragando, apesar dos esforços persistentes dela em arrumá-lo, ou talvez justamente por isso. Escolhi a opção Ler na tela e esperei a mensagem, escrita na caligrafia irregular de Sanja, aparecer. Venha amanhã, escreveu, e traga todas as TDKs com você. Possível DESCOBERTA!

“Descoberta” era uma das expressões mais importantes do vocabulário de Sanja. E normalmente significava que ela havia compreendido a utilidade de alguma coisa encontrada no lixão dos plásticos. Eu nem sempre me convencia de que a utilidade que ela inventava coincidia com o propósito original do aparelho, mas, de qualquer forma, estava curiosa para ver o que Sanja tinha em mente dessa vez. Peguei a pod-pen da parede, escrevi Depois do almoço e enviei.

De onde estava agora, ouvia mais claramente a voz dos meus pais. Tudo o que nos separava era a porta da cozinha. Um leve aroma de alga queimada parecia ter tomado o ar. Já virava as costas para voltar ao quarto quando as palavras da minha mãe me chamaram a atenção.

— ... e se você contasse para eles agora, quando ainda não é tarde demais?

Não consegui captar a resposta sussurrada pelo meu pai.

— Ele cuidaria para que nos deixassem em paz — continuou ela. — Se os militares souberem... — E sua voz sumiu, sem que eu pudesse ouvir o fim da frase.

Dava para escutar os passos do meu pai indo e vindo na cozinha. Quando ele respondeu, sua voz era firme e precisa:

— Confio em Bolin apenas o tanto que se pode confiar em um soldado.

A frase era típica do meu pai. Ele acreditava que a maioria dos oficiais eram ladrões, e eu concordava. Portanto, a resposta da minha mãe é que me surpreendeu:

— Você já confiou nele antes.

Meu pai ficou em silêncio por um momento e depois retrucou:

— Isso foi há muito tempo.

Mal tive tempo de digerir o que eles acabavam de dizer e uma menção ao meu nome, em voz murmurada, chamou minha atenção.

— É nela que estou pensando — argumentou ele. — Você prefere que ela se torne uma mestre do chá em alguma cidade grande? Eles são uns vendidos, são como bichos de estimação dos militares. Além disso, muitos são contra ensinar as artes do chá a mulheres. O lugar dela é aqui.

— Ela podia aprender a fazer outra coisa.

E quanto a mim, alguém pretende me perguntar o que eu gostaria de fazer?

— Você está sugerindo que a gente interrompa a tradição de mestres do chá da minha família? — A voz do meu pai estava carregada de ressentimento.

Não consegui entender o que minha mãe disse a seguir, mas o tom parecia ser bem duro.

— Você não está preocupada nem com Noria nem com a nascente. — E a voz do meu pai era raivosa agora. — Está preocupada com a sua pesquisa. Com o patrocínio deles.

Dei um passo largo em direção à cozinha, tomando todo o cuidado para não fazer barulho. Aquilo estava ficando interessante.

— Não estou do lado deles. Mas acho que preciso que eles acreditem que estou — respondeu minha mãe. — As fontes de água das Terras Perdidas não foram investigadas direito desde o desastre. Este projeto, se desse certo... — E suas palavras se perderam mais uma vez. Só ouvi o final da frase: — ... acha isso menos importante do que suas crenças antigas e tradições vazias?

Minha respiração estava tão pesada que tive medo de que eles ouvissem. Tentei me concentrar para respirar mais devagar e sem fazer barulho.

— Elas podem parecer vazias para você, porque você não é mestre do chá — respondeu meu pai, baixinho, e cada palavra ficou suspensa no ar. — Algumas coisas são tão poderosas que não é possível interromper o fluxo. É uma ignorância pensar que a terra e a água podem ser propriedade de alguém. A água não pertence a ninguém. Os militares não podem tomar posse dela, por isso, o segredo deve ser mantido.

O silêncio pesado cresceu até chegar em mim, atravessando a porta que nos separava. Quando minha mãe falou novamente, havia um tremor na voz sempre tão firme:

— Se a água não pertence a ninguém, que direito você tem de mantê-la escondida para uso exclusivo, enquanto famílias inteiras do vilarejo se arriscam construindo canos ilegais de água para a mera sobrevivência? No que você é diferente dos militares do Novo Qian, se faz exatamente o mesmo que eles fariam?

Meu pai não respondeu. Ouvi os passos da minha mãe e corri até a parede do message-pod bem na hora em que ela abriu a porta da cozinha. Quando me viu, parou de imediato.

— Eu estava lendo uma mensagem e vendo algumas notícias no pod-news — falei.

Sem olhar para ela, caminhei até o quarto e fechei a porta. Lá fora, o sol varria o horizonte com raios dourados que riscavam o céu azul-acinzentado. Eu mal tinha deitado quando ouvi as tábuas do corredor rangerem e, em seguida, alguém bater na porta. Minha mãe apareceu, mas aguardou minha autorização para entrar. Eu assenti, e ela se achegou.

— Não precisa fingir que não ouviu nada, Noria — falou, suspirando. — Talvez a gente devesse ter incluído você na conversa desde o início. Não sei. — Ela parecia exausta. — Você sabe sobre o que a gente estava falando, não sabe? — E puxou o banquinho de madeira da escrivaninha para se sentar.

— Era sobre a nascente — respondi.

Ela assentiu.

— Os tempos estão cada vez mais difíceis. Mas aconteça o que acontecer, seja qual for a decisão que a gente tomar, você sempre deve lembrar que fizemos isso por você.

Eu não conseguia olhar nos olhos dela. Fingi procurar uma página específica no livro que estava lendo. Mas as páginas eram como pedras duras e relutantes.

— Você gostaria de morar numa das cidades grandes? — perguntou ela. — Num lugar como New Piterburg ou Mos Qua, ou até num lugar mais distante como Xinjing?

Pensei nas duas únicas cidades grandes que conhecia: Kuoloyarvi, no leste, e Kuusamo, no sul. Lembrei que tinha ficado animada diante das ruas lotadas de gente, dos prédios enormes, abobadados, cheios de painéis solares e com coberturas transformadas em lampiões gigantes com paredes de vidro transparente, cheias de verde por dentro. Tinha sido fascinante andar pelas barraquinhas do mercado qianese, vagar pelas ruas onde se vendiam comidas e bebidas estranhas, onde o cheiro dos temperos fortes e apimentados se fazia sentir a distância. Eu tinha caminhado com minha mãe pelos quarteirões finlandeses em Kuusamo, comprando sacos de doces para trazer para casa e, no dia que prestei o vestibular, meu pai me levou num restaurante caro que tinha uma seleção de águas naturais importadas de várias partes do mundo.

Primeiro fiquei empolgada com a proposta, mas logo pensei nos muros altos e nos pontos de checagem que se erguiam sobre as ruas, dos soldados onipresentes e dos toques de recolher. Pensei na exaustão que tinha me invadido depois de alguns poucos dias na cidade grande, da necessidade de procurar abrigo da multidão, do desejo de um pouco de espaço, silêncio e vazio. Adoraria visitar as cidades grandes, mas não conseguia me imaginar vivendo numa delas.

— Não sei — falei, enquanto minha mãe olhava muito atenta para mim.

— E o que você acha de não se tornar mestre do chá? Você poderia estudar línguas, ou matemática, ou ser uma assistente na minha área de pesquisa.

Pensei um pouco no assunto e respondi a verdade:

— Eu conheço a cerimônia do chá. Estudei a cerimônia durante toda a vida. Não posso fazer outra coisa.

Minha mãe ficou em silêncio por um tempo, e eu podia ver que seus pensamentos estavam fervilhando — ela não tinha a mesma facilidade do meu pai para controlar sentimentos. Por fim, quebrei o silêncio:

— Você já viu uma casa do vilarejo que está com uma marca de crime de água na porta?

— Com um círculo azul? — E ela teve uma espécie de tremor interno. Levei alguns minutos para perceber que era medo. — O que tem isso?

— O que aconteceu com as pessoas que moravam lá?

Ela me encarou. Vi que estava lutando para achar as melhores palavras.

— Ninguém sabe. — E se aproximou de mim, segurando minha mão. — Querida Noria — disse, e ficou novamente em silêncio, como se tivesse desistido do que ia dizer. — Queria que a gente pudesse lhe oferecer um mundo diferente. — Passou a mão pelos meus cabelos. — Tente dormir agora. Ainda não chegou a hora de decidir.

— Boa noite — falei.

E ela sorriu. Um sorriso rápido. Um sorriso infeliz.

— Boa noite, Noria — respondeu e saiu do quarto.

Quando minha mãe deixou o quarto, pulei da cama e me ajoelhei diante da estante de livros. Peguei uma caixa de madeira da prateleira mais baixa. Podia sentir nos dedos as fibras da madeira correndo sob a fina camada de verniz. Virei a chave e abri a tampa.

Dentro da caixa ficava minha coleção aleatória de coisas do mundo antigo, todas coletadas no lixão dos plásticos. No alto da pilha havia um punhado de pedras polidas coloridas e uma pequena chave de metal trabalhado, já quase sem dentes. Mais abaixo, três retângulos de plástico parcialmente translúcido com cantos levemente arredondados e dois furos circulares no meio. As mesmas três letras eram visíveis em todas as peças: TDK.

Uma fita fina e escura, que se desenrolava do mecanismo, saía do canto quebrado de um dos retângulos. Sempre gostei de sentir a fita de TDK entre os dedos: era leve e suave como uma mecha de cabelo, como ar, como água. Eu não fazia a menor ideia do que Sanja queria com as TDKs. Nenhuma de nós sabia para que tinham sido usadas no mundo antigo, e eu só as mantinha comigo porque gostava de brincar com a fita.

Bem no fundo da caixa brilhava um disco fino prateado que eu havia pegado e trazido para casa simplesmente porque era um objeto bonito. Só para admirá-lo. O lado brilhante estava levemente riscado, mas ainda dava para ver meu reflexo. Quando eu aproximava o disco da luz do lampião, ele refletia todas as cores do arco-íris. No lado opaco, ainda dava para adivinhar algumas combinações de letras que um dia tinham sido gravadas ali: COM CT D SC.

Tranquei as TDKs e o disco novamente na caixa e a coloquei na minha bolsa de algas, pendurada no gancho da parede, perto da escrivaninha. Queria deixar tudo pronto para de manhã.

Ao fechar os olhos, pensei na distância que separava nossa casa do resto do vilarejo, e daquela casa em especial. Aquela casa tão mais surrada do que a nossa. Aquela casa cuja porta trazia um círculo azul que se destacava na noite branca. Aquela casa manchada com uma tinta tão forte que machucava os olhos. A distância entre aquela casa e a minha não parecia mais tão grande. E quanto mais eu pensava naquela casa, mais ela se aproximava, até que eu quase pudesse tocar a porta, quase pudesse ouvir os movimentos por detrás.

Ou o silêncio.

Tentei afastar a imagem da minha cabeça, mas sabia que seria difícil fazer tudo aquilo desaparecer.