Memória da Água

Emmi Itäranta · Capítulo 20 de 22

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Memória da Água

Capítulo Dezoito

 

A lâmina arranhava a pintura e revelava uma superfície de madeira clara. A linha que eu tinha acabado de marcar começava a sexta coluna. Guardei a faca numa bainha não muito adequada, mas era melhor do que nada, e a coloquei no bolso, como vinha fazendo todas as manhãs nas últimas cinco semanas.

Eu não havia falado com mais ninguém desde o dia em que o filho do padeiro tinha me dado as costas e caminhado portão afora sem olhar para trás. A cada manhã, encontrava a bandeja nos degraus e, vez ou outra, percebia com o canto do olho um uniforme azul. Mas não tinha coragem de me dirigir aos soldados.

Somente quando as fronteiras da vida se tornam estreitas e frágeis, a necessidade e o desejo de se apegar a alguma coisa se tornam evidentes.

Todas as manhãs e todas as tardes, eu ligava os dois message-pods. Não há nada mais persistente do que a esperança. Mesmo quando imaginava que tinha banido completamente o desejo de que a luz de um dos aparelhos piscasse, ele voltava. Tentei guardar esse desejo num lugar escuro do meu ser, onde ele não pudesse viver nem respirar.

Toda vez que as luzes dos message-pods não piscavam, meu coração batia um pouco mais triste. Mas isso durava apenas um momento, porque minha condição de cativa continuava incerta, e eu tinha que dar um passo por vez, sem saber quando tudo ficaria mais claro e enfim poderia entender o que me aguardava no futuro próximo.

Meus dias iam se consumindo em tentativas de achar comida no jardim e estocar água. As torneiras da casa se tornaram imprevisíveis: algumas vezes havia água, outras, não. Quando não estava tentando desenterrar vegetais ou encher os cantis e vasilhas, ficava imaginando o que estaria acontecendo no mundo lá fora. Não fazia ideia do que se passava no vilarejo, se batalhas estariam sendo travadas no continente, se as rotas para Xinjing tinham sido reabertas. Xinjing podia ter desaparecido em chamas e a notícia não chegaria até mim. Talvez até mesmo o vilarejo não existisse mais. Talvez só houvesse minha casa, o jardim, as árvores balançando ao vento, a poeira da estrada fluindo em direção ao vilarejo, o corte irregular da colina e o céu.

Talvez minha mãe nem existisse mais. Talvez não houvesse mais Sanja.

Havia momentos em que o silêncio da casa, a imobilidade da vida, presa entre paredes que ameaçavam sufocar meus passos para sempre, parecia estar me transformando em pedra. Imaginava que, primeiro, seriam meus pés a perder a flexibilidade, a pele pouco a pouco ia se tingindo de cinza e endurecendo, aí viriam os joelhos ou tornozelos. Sem poder dar um passo sequer, ficaria observando o pó se acumular em mim como uma doença, solidificando meu quadril, a lateral do corpo, o peito, derramando chumbo nos dedos, nas palmas da mão, até tirar o movimento dos punhos e cotovelos. A última coisa a se petrificar seria meu rosto: as pálpebras continuariam abertas e eu iria, lentamente, sentir os olhos ficando secos, sem que pudesse piscar, ouvindo o eco do coração em sua concha de pedra, até que o som dele também começasse a desaparecer.

Tinha que evitar esses pensamentos que me paralisavam. Não podia me entregar, ainda não.

Fui pegar a bandeja diária de comida nos degraus e a levei para a cozinha, onde transferi tudo para a mesa. Os suprimentos eram modestos dessa vez: um punhado de amaranto, um pote de sementes de girassol. Os soldados tinham se dado conta de que as verduras e frutas do jardim estavam amadurecendo. Depois de um café da manhã simples, levei a bandeja de volta para a varanda e fui ao banheiro me lavar. Fiquei nua e entrei no chuveiro. Mas em vez de um jato de água fria, apenas poucas gotas caíram. Esperei um pouco, desliguei a torneira e a liguei novamente. O encanamento fez um ruído e um leve guincho metálico ecoou em algum lugar profundo, como se o cano estivesse sendo torcido. Enfim, a água jorrou pelo chuveiro. Rapidamente apliquei espuma de saponária por todo o corpo, porque já sabia que o fornecimento de água estava irregular. Pensei na superfície da nascente e na marca branca que já estava aparecendo da última vez em que estive na colina, mas comecei a me sentir mal de novo e afastei o pensamento. Pelo menos ainda tinha água disponível. Mesmo sendo uma criminosa, não precisava andar com roupas sujas ou passar semanas sem tomar banho. Presa, eu tinha mais regalias do que a maioria dos moradores do vilarejo em liberdade.

E eu ainda não entendia a razão disso.

Depois de me vestir, varri o caminho de pedras que levava à casa de chá. O orvalho da noite, agarrado à grama, invadia meus pés pelos vãos da sandália.

O dia estava nublado, mas sem chuva. Juntei as folhas caídas numa pilha no canto da casa de chá, selecionei um punhado para espalhar sobre as pedras e carreguei o resto para transformar em adubo na parte de trás da casa de chá, tomando o cuidado de não chegar perto demais dos limites da prisão invisível.

As frutas silvestres amadureciam e os galhos da groselheira estavam pesados, vergando com o peso das frutas. Peguei uma tigela na varanda. As groselhas tamborilavam contra o plástico, calmas como a chuva. Seu suco explodia doce na boca, e as sementes eram esmagadas pelos meus dentes. Quando estava carregando minha reserva de groselhas para dentro da casa, com os dedos machucados de arrancar frutas, ouvi um helicarro se aproximando. Num primeiro momento, não dei muita atenção. Soldados iam e vinham em torno da casa, normalmente a pé, mas ocasionalmente um helicarro os trazia e os levava embora. A troca de guardas era, via de regra, imperceptível: algumas vezes eu podia mesmo fingir que não havia nada de diferente acontecendo na minha vida, porque os soldados se mantinham praticamente invisíveis, desde que eu não ultrapassasse os limites.

Esse helicarro, porém, parou embaixo do abrigo de algas construído para visitantes, o que nenhum dos outros jamais tinha feito. Coloquei a tigela de groselha no chão, no canto da varanda. Um homem alto saiu do veículo. Passou pelo portão, atravessou o jardim, parou na minha frente e assentiu, me cumprimentando.

Não respondi o cumprimento.

— Comandante Taro — falei —, o que eu fiz para merecer essa honra inesperada?

Taro se aproximou, tão perto que eu podia ver meu reflexo nos seus olhos negros, apesar de ele estar usando um capuz antimosquito. Meus músculos tensionaram, pedindo que eu me afastasse, mas me forcei a ficar onde estava. Ele me avaliou de cima a baixo. Não desviei o olhar.

— Vejo que não mudou nada desde nosso último encontro, senhorita Kaitio. — Os cantos da boca do comandante insinuavam um sorriso que me fez pensar em facas e sabres e talvez alguma coisa ainda mais afiada. — Está nos achando hospitaleiros? — E fez um movimento com a mão, como se capturasse a casa e o jardim no punho. — Penso que temos sido extraordinariamente gentis: há bastante espaço para se exercitar, água e comida são entregues regularmente. Poucos prisioneiros gozam de tamanho luxo.

— Não entendo o porquê de tais privilégios — respondi. — Presumo que o senhor esteja aqui para esclarecer a situação.

Taro pareceu se divertir, mas sua expressão era como uma fina máscara escondendo o verdadeiro rosto. Nada se movia diante dos seus olhos.

— Seria uma pena inutilizar suas habilidades especiais, senhorita, digo, mestre Kaitio. Sugiro que tenhamos essa conversa diante de uma xícara de chá. A senhorita faria a gentileza de preparar uma cerimônia em honra da minha visita?

Apesar da formalidade das palavras, eu sabia que não era um pedido.

— Me dê quinze minutos, comandante Taro, para que eu possa organizar tudo. Não há nenhum doce — observei, sem tentar suavizar o tom de voz. — O senhor aceitará minhas desculpas, presumo.

— Como queira, mestre Kaitio — replicou.

Deixei Taro no gramado e entrei em casa. Depois de me assegurar de que as cortinas estavam totalmente fechadas, peguei a roupa de cerimônia e a vesti. Estava mais macia e caía melhor em mim do que quando a coloquei pela primeira vez, naquela distante Festa da Lua, que agora pertencia à outra vida. Ainda assim, havia alguma coisa estranha, como se estivesse vestindo uma pele que não era minha, uma pele emprestada. Colocar a roupa de cerimônia era uma coisa irracional e inútil: eu sabia que Taro não esperava isso de mim. Mas o rigor imutável das cerimônias de chá era a única coisa tangível que me ligava à linha de mestres, a única coisa que podia me mover da minha vulnerabilidade para a inviolabilidade de um mestre de chá. A roupa oferecia um escudo por trás do qual eu poderia assumir o controle.

Havia vários conjuntos de chá à disposição e eu os mantinha limpos diariamente, chegava até a lavar o chão algumas vezes. Então, só precisava carregar a água para dentro do chalé. Dez minutos depois, saí da casa de chá vestindo meu traje e com um cantil que tinha enchido na pia da cozinha.

Não vi Taro imediatamente. Então, percebi que ele estava do outro lado da casa de chá, salpicando a grama com a água da pia de pedra que ficava ali. Umedecer a grama era uma atividade que simbolizava a purificação da casa de chá e seus arredores. Ninguém, além dos mestres do chá e seus aprendizes, tinha permissão para fazer isso. A raiva subiu pela minha garganta e chegou aos olhos, mas as solas das sandálias pisavam suaves nas pedras conforme eu me aproximava.

— Temo que o senhor tenha que entrar ajoelhado pela porta dos visitantes. Não mudamos isso nem mesmo depois dos reparos feitos na casa de chá.

Taro secou as mãos no tecido grosso da calça e abriu seu irônico sorriso. O movimento dos olhos negros era como o reflexo de um espelho em uma sala escura.

— Imaginei.

Nenhum de nós fez reverência. Entrei na casa de chá pela entrada dos mestres.

Depois de ter acendido o fogo, colocado a água no caldeirão para esquentar e arrumado o conjunto de chá, deslizei a porta de visitantes. Um instante depois, Taro entrou ajoelhado. Ele tinha deixado o capuz do lado de fora. Sem pensar no que estava fazendo, obedecendo simplesmente à memória dos músculos, fiz uma reverência. Um sorriso se espalhou por seu rosto novamente. O gesto exagerado com que me cumprimentou pareceu sugerir certo escárnio, mas eu não tinha certeza. Fiquei corada. Respirei fundo e pensei na água: a água que havia me carregado e me acorrentado, a água que me separava do pó, a água que não tinha me desertado, ainda não.

Havia dez bolhas no fundo do caldeirão.

Preparei o chá e ofereci uma xícara a Taro. Ele a pegou sem pressa, sentiu o aroma, mas não tomou, porque ainda estava muito quente. Apenas colocou a xícara no chão.

Taro me observava firmemente, e eu sabia que estava sendo avaliada. O peso e a frieza do seu intento me horrorizavam. Ele tinha vindo aqui com um objetivo em mente. Eu ainda não sabia qual, mas enquanto ele permanecia sentado ali, imóvel e quieto, eu sentia que nada poderia atrapalhá-lo, nada poderia sequer arranhar sua superfície dura e polida. Ele não estava com pressa. Podia procurar meu ponto fraco até achá-lo.

Finalmente, depois de um longo silêncio, falou:

— Você não tem medo de mim, Noria. Por quê?

Ele tinha deixado os títulos de lado e usado meu primeiro nome, o que era uma deliberada quebra de etiqueta, uma forma desrespeitosa de se dirigir a um mestre do chá durante uma cerimônia. Não respondi, e ele não tirou os olhos de mim.

— Sabe que eu poderia machucar você se quisesse — continuou. A expressão do rosto de Taro não tinha mudado. — Ou poderia ordenar que outra pessoa o fizesse para ficar apenas assistindo.

Eu sabia, claro. Todo mundo sabia do tipo de coisa que vinha acontecendo na escuridão, aquelas coisas às quais ninguém queria assistir. Eu tinha pensado nisso, muito. Tinha pensado em minha mãe, nos muros ao seu redor, talvez mais finos e estreitos que os que me cercavam, uma lâmina de metal que poderia estar arranhando sua pele frágil e delicada. Tinha pensado em Sanja. Mas afastara minha amiga da mente de novo, porque os fatos começavam a se embaralhar e eu não podia deixar isso acontecer. Não agora.

— Ainda assim você fala de forma desafiadora e não me reverencia — disse Taro. — Por quê?

Eu falei a única coisa que podia dizer naquela situação e, quando as palavras saíram da minha boca, soube que elas eram verdadeiras:

— Não há mais nada que você possa fazer que realmente me importe.

Taro levou a xícara aos lábios, sentiu o aroma do chá mais uma vez e deu um gole.

— Nada mesmo? — perguntou. O mesmo olhar inquisidor ainda estava presente nos olhos escuros. — E se eu dissesse que posso devolver a sua vida?

— Eu não acreditaria em você.

— Sei tudo sobre a nascente — disse Taro. — Mas tenho certeza de que você sabe disso. Teria sido mais inteligente me contar a respeito. Sei que o seu pai era teimoso quando se tratava do assunto e que transferiu a mesma teimosia para você. As velhas tradições dos mestres do chá são tediosas, do meu ponto de vista. Mas é claro que era apenas uma questão de tempo para minhas suspeitas se confirmarem. — Taro passou um dos dedos na borda da xícara. Minha mãe tinha me ensinado a produzir sons usando copos com esse mesmo movimento: quando você passa o dedo úmido na borda da xícara, consegue produzir um som agudo, estridente, que enche o coração de inquietação, como um pensamento que, embora se tente segurar, vai embora. Minha mãe tinha me dito que se fizer esse som no copo por tempo demais, ele pode quebrar. E nunca mais tentei passar o dedo na borda de um copo desde então.

— Muitos mestres do chá já esqueceram essas tradições — continuou Taro —, porque viveram nas cidades por muitas gerações. Mas o grande segredo da profissão é que os mestres do chá são guardiões das nascentes. Seu pai confiou demais na sorte. Um mestre do chá de um vilarejo sem importância que resistiu à tentação das cidades, cujo jardim é mais florido, e o chá, mais saboroso do que aqueles que podem comprar as águas de melhor qualidade? O segredo que ele estava guardando era óbvio.

Os dedos de Taro pararam de acariciar a borda da xícara. Eu o ouvia falar com uma crescente inquietação e não conseguia mais me controlar.

— O que você sabe sobre a aliança entre os mestres do chá e a água? — perguntei, mas acaloradamente do que gostaria.

O sorriso de Taro era como o som dos dedos na borda da xícara.

— Não precisa ficar tão preocupada. Seu pai não estava mentindo quando disse que isso era um segredo. É verdade. Apenas aqueles que foram treinados para ser mestres do chá sabem disso.

Quase perguntei quantos mestres ele havia torturado para conseguir acesso a essa informação secreta, mas as palavras morreram em meus lábios e uma coisa se agitou na minha memória.

Desde o começo, houve uma intenção deliberada muito distinta na forma como Taro feria a etiqueta das cerimônias. Conheci convidados que cometiam gafes porque não estavam familiarizados com a etiqueta ou porque esqueciam como deviam se comportar. Esses erros eram causados por confusão ou ignorância, e essas pessoas ficavam constrangidas e tinham medo de que sua falta de educação se revelasse nessas pequenas gafes. Outros nem sequer sabiam que existia uma etiqueta precisa a ser seguida e pouco se importavam. Mas Taro, logo em sua primeira visita, deu a impressão de que, se quisesse, poderia seguir a etiqueta sem qualquer esforço, mas a feria de propósito porque tinha esse poder. Ele conhecia o ritual da cerimônia do chá em todos os detalhes e, por isso mesmo, sabia precisamente como ofender o mestre do chá e seus convidados.

Cada lembrança que eu tinha de Taro agora se revelava numa luz completamente diferente: a forma como transformara sua primeira visita em um interrogatório; como ordenara que a casa de chá fosse saqueada, mesmo sabendo que nenhuma reforma a deixaria exatamente como antes; como confiscara nossos livros dos mestres do chá, embora possivelmente soubesse que nenhum deles revelaria o segredo da nascente. Como tinha salpicado água na grama, embora essa fosse uma tarefa reservada apenas aos mestres do chá e seus aprendizes, e que isso significaria contaminar a cerimônia se ela fosse realizada por qualquer outra pessoa.

Ele ficou me observando e esperou. Esperou até eu compreender.

— Você é um mestre do chá.

Taro virou levemente o rosto para o lado. E eu não consegui distinguir sua expressão.

— Fui. Ou, para ser mais preciso, deveria ter sido. Aprendi com meu pai, que foi um observador da água, um dos últimos. Ele desprezava os mestres das cidades, considerava-os traidores da profissão.

A umidade que se elevava do caldeirão flutuava pela casa de chá, concentrando-se nas janelas e no meu rosto.

— Mas você não a pratica — falei.

Taro terminou a xícara, colocou-a no chão e a empurrou na minha direção. Eu a enchi novamente.

— Eu revelei a localização da nascente do meu pai aos militares. E também deixei claro que estava interessado em uma carreira no exército. Assim, eles me favoreceram bastante. Ouça, somos sonhadores. Como já disse antes, posso devolver sua vida se você quiser. — Taro levou a xícara aos lábios, mas o líquido ainda estava muito quente e ele a colocou no chão novamente. — Talvez não exatamente como era, mas em grande parte.

Eu mantinha as mãos nos joelhos, embora minha vontade fosse limpar a umidade da testa. Não disse nada.

— Você não sabe, não é? Sobre a sua mãe?

Eu sabia que não deveria aceitar qualquer tipo de acordo com ele, mas tinha ficado dias demais encarando o message-pod vazio, e meus pensamentos tinham construído histórias que eu não tinha como saber se eram reais. Não consegui conter a língua.

— Você tem notícias dela?

A expressão de Taro permaneceu imutável.

— Houve uma rebelião em Xinjing. Sua mãe está desaparecida há um mês — disse. — Acreditam que ela esteja morta.

Eu temera ouvir isso, mas agora que confrontava o fato não sentia mais nada. O luto viria mais tarde, então simplesmente deixei as palavras assentarem e se dissiparem no vazio.

— Não posso trazer os mortos de volta — falou. — Mas o que você me diz daqueles que ainda estão vivos? — Ele percebeu meu susto, e vi o contentamento em seu rosto. — Não tem mais alguém que você salvaria se pudesse?

Minha garganta apertou e meu coração disparou.

— Onde ela está? — perguntei.

Taro balançou a cabeça e sua expressão ficou contemplativa.

— Ela me pediu para entregar uma mensagem. Pediu para você aceitar minha oferta.

Eu engoli em seco.

— Qual é a oferta?

— Ambas podem ter suas vidas de volta e continuar vivendo como antes, em paz, protegidas pelos militares. Podem até mesmo usar a nascente mais livremente do que o resto dos moradores.

Pensei nas semanas em que a nascente tinha sido só nossa. Os cantos da boca de Taro se elevaram, e eu sabia que ele tinha percebido a mudança na minha expressão. Fiz um esforço para encará-lo.

— Quais são as condições?

— Você só precisa consentir que a nascente pertença aos militares de agora em diante, e vocês duas precisam trabalhar para mim. — Ele fez uma pausa, deixando as palavras pesarem. — Vocês cometeram alguns erros cruciais, claro, mas também demonstraram inteligência e astúcia. Até cheguei a acreditar por um tempo que não havia nenhuma nascente. Muromäki teve que espioná-la por bastante tempo e fazer vários inquéritos antes de descobrir de onde a água estava vindo e como estava sendo contrabandeada para o vilarejo. Espiãs com as habilidades de vocês poderiam ser úteis.

Pela segunda vez durante a conversa, imagens se embaralhavam na minha memória e detalhes que não tinham sido considerados apareciam sob uma nova perspectiva. A visita de Muromäki no dia errado, sua passagem pela casa de Sanja, a conversa com ela. E uma imagem quase perdida, mas que veio à tona, aparecia mais clara do que as outras: o convidado loiro no funeral do meu pai, o rosto que parecia familiar, mas que eu não conhecia. Todo esse tempo eu não tinha compreendido como a rede estava se fechando ao meu redor.

O cômodo ficou em silêncio. Eu não conseguia decidir que caminho tomar por conta da névoa que se formara sobre minha vida nas últimas semanas, as fendas no mundo, o espelho escuro no qual eu podia ver meu próprio rosto.

— E Sanja pediu que eu aceitasse isso?

— Ela disse que aceitaria se vocês pudessem se reencontrar.

Pensei em Sanja e percebi que estava inclinada a aceitar. Estava exausta. “Sim” era uma palavra fácil nos meus lábios. A imagem que aparecia por trás dos meus olhos não queria sumir: a mão de Sanja segurando a minha na nascente, a corrente inquieta da água pressionando nossos corpos, guardando para sempre nossa marca na memória do mundo e da água.

Fechei os olhos e respirei fundo.

— Ela acreditou que valeria a pena — continuou Taro suavemente. — Foi por isso que nos procurou.

Abri os olhos. As palavras me abandonaram, assim como as imagens e todo o resto que eu queria que fosse verdade mas não era.

—Você está mentindo.

O rosto de Taro se contraiu numa expressão que não era exatamente um sorriso e alguma coisa se perdeu, uma máscara, um plano cuidadosamente elaborado — eu não tinha certeza de qual era o caso. Apenas percebi que uma fenda apareceu em sua intenção tão sólida e, antes que ele pudesse retomar a expressão de paisagem, eu soube que estava certa.

— Eu poderia admitir que estou. Mas você não teria certeza. Só o que tem é minha palavra, e você não confia em mim. — Ele ficou em silêncio. Olhamos um para o outro, e a única coisa a se mover na sala eram os nossos pensamentos e a nossa respiração. — E se eu disser que Sanja não veio nos procurar por sua causa, mas, sim, para proteger a própria família? Acharia mais fácil de aceitar?

Sombras envolviam Sanja e a afastavam cada vez mais de mim, até eu não conseguir mais acessá-la. Não disse nada. Não falei uma única palavra que pudesse desaboná-la. Sanja se afastou e não olhou para trás.

Eu estava só. Falei a única coisa que poderia:

— Nada vai me fazer aceitar a oferta.

Taro levou a xícara aos lábios, tomando o chá lentamente, depois enxugou a boca e colocou a xícara de volta no chão.

— É sua decisão final? Pense bem. Não haverá outra chance.

— Sim.

Taro assentiu. E o significado do seu gesto ecoou pelas paredes da sala estreita. Ele ficou de pé e sua sombra recaiu sobre mim. Por um momento, ela se misturou ao meu corpo como se fosse minha.

Caminhei até a porta dos visitantes e a abri lentamente. Taro se ajoelhou de novo e já estava pronto para ir para a varanda quando parou e se virou para mim.

— Estou curioso — disse, e pela primeira vez percebi nele algo que parecia um interesse genuíno. — Por quê? Você acha que existe algum prêmio esperando por você em outra vida se fizer o que imagina que seja a coisa certa?

— Não — respondi. — Acredito que é preciso fazer escolhas difíceis todos os dias apesar de saber que não existirá recompensa.

— Por quê?

— Porque se isso aqui for o fim de tudo, a única forma de deixar uma marca de sua vida é tentando fazer a diferença.

Taro não assentiu, não sorriu, não zombou. Apenas olhou para mim, depois se virou novamente para sair.

— Eu também estou curiosa — falei, e ele parou. — Se você não acredita em recompensas, se sabe que mesmo seu poder terá um fim, por que continua acumulando ações terríveis que sabe que não são corretas?

Taro não se agitou com a pergunta. Ficou em silêncio. Eu podia ouvir sua respiração no ar úmido da casa de chá e pensei ter visto um frêmito praticamente imperceptível em sua expressão, mas devo ter imaginado. Ele estava olhando para alguma outra parte, e quando se voltou para mim, vi somente a expressão de pedra e vidro.

— Porque se a coisa acaba aqui — ele disse, enfim —, vou aproveitar enquanto é tempo.

Estávamos ambos de joelhos, um diante do outro, e nada nos separava, nada nos unia tampouco. As escolhas de Taro poderiam ter sido as minhas. No escuro, todas as sombras compartilham a mesma cor.

— Adeus, comandante Taro — falei, por fim. — Não há mais nada que eu possa fazer pelo senhor.

Não fiz a reverência de despedida. Taro, porém, me cumprimentou, e dessa vez não havia escárnio ou zombaria no gesto, embora também não houvesse respeito. Esperei até que ele tivesse saído do chalé e até não poder mais ouvir os passos de suas botas na varanda ou no caminho de pedras.

Naquela noite, contei as linhas que tinha desenhado na porta — porque já fizera as contas, a partir das outras casas do vilarejo, do tempo que se passava entre a marca do círculo azul e a execução.

Quando saí para encher o lampião com vaga-lumes, vi uma presença esguia e escura no canto da casa de chá, onde as sombras eram mais espessas. Não podia ver seu rosto, ainda não. Mas senti que a presença olhou diretamente para mim antes de se virar e desaparecer atrás da casa de chá, para além dos limites que me tinham sido impostos.