Memorial do Convento
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José Saramago
Memorial do Convento
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Editorial Caminho, SA. Lisboa, 1982
© Editores Reunidos, Lda., Lisboa,1994, para a presente edição
D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D.
Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa
portuguesa e até hoje ainda não emprenhou. Já se murmura na corte, dentro e fora do
palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de
orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia. que caiba a culpa ao rei, nem
pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim, por isso
são repudiadas tantas vezes, e segundo, material prova, se necessária ela fosse, porque
abundam no reino bastardos da real semente e ainda agora a procissão vai na praça.
Além disso, quem se extenua a implorar ao céu um filho não é o rei, mas a rainha, e
também por duas razões. A primeira razão é que um rei, e ainda mais se de Portugal for,
não pede o que unicamente está em seu poder dar, a segunda razão porque sendo a mulher,
naturalmente, vaso de receber, há-de ser naturalmente suplicante, tanto em novenas
organizadas como em orações ocasionais. Mas nem a persistência do rei, que, salvo
dificultação canónica ou impedimento fisiológico, duas vezes por semana cumpre
vigorosamente o seu dever real e conjugal, nem a paciência e humildade da rainha que, a
mais das preces, se sacrifica a uma imobilidade total.
Depois de retirar-se de si e da cama o esposo, para que se não perturbem em seu
gerativo acomodamento os líquidos comuns, escassos os seus por falta de estímulo e
tempo, e cristianíssima retenção moral, pródigos os do soberano, como se espera de um
homem que ainda não fez vinte e dois anos, nem isto nem aquilo fizeram inchar até hoje a
barriga de D. Maria Ana. Mas Deus é grande.
Quase tão grande como Deus é a basílica de S. Pedro de Roma que el-rei está a
levantar. É uma construção sem caboucos nem alicerces, assenta em tampo de mesa que
não precisaria ser tão sólido para a carga que suporta, miniatura de basílica dispersa em
pedaços de encaixar, segundo o antigo sistema de macho e fêmea, que, à mão reverente,
vão sendo colhidos pelos quatro camaristas de serviço. A arca donde os retiram cheira a
incenso, e os veludos carmesins que os envolvem, separadamente, para que se não trilhe o
rosto da estátua na aresta do pilar, refulgem à luz dos grossíssimos brandões. A obra vai
adiantada. Já todas as paredes estão firmes nos engonços, aprumadas se vêem as colunas
sob a cornija percorrida de latinas letras que explicam o nome e o título de Paulo V
Borghese e que el-rei há muito tempo deixou de ler, embora sempre os seus olhos se
comprazam no número ordinal daquele papa, por via da igualdade do seu próprio.
Em rei seria defeito a modéstia. Vai ajustando nos buracos apropriados da cimalha as
figuras dos profetas e dos santos, e por cada uma fez vénia o camarista, afasta as dobras
preciosas do veludo, aí está uma estátua oferecida na palma da mão, um profeta de barriga
para baixo, um santo que trocou os pés pela cabeça, mas nestas involuntárias irreverências
ninguém repara, tanto mais que logo el-rei reconstitui a ordem e a solenidade que convêm
às coisas sagradas, endireitando e pondo em seu lugar as vigilantes entidades. Do alto da
cimalha o que elas vêem não é a Praça de S. Pedro, mas o rei de Portugal e os camaristas
que o servem. Vêem o soalho da tribuna as gelosias que dão para a capela real, e amanhã, à
hora da primeira missa, se entretanto não regressarem aos veludos e à arca, hão-de ver el-
rei devotamente acompanhando.
O santo sacrifício, com o seu séquito, de que já não farão parte estes fidalgos que
aqui estão, porque se acaba a semana e entram outros ao serviço. Por baixo desta tribuna
em que estamos, outra há também velada de gelosias, mas sem construção de armar, capela
fosse ou ermitério, onde apartada assiste a rainha ao ofício, nem mesmo a santidade do
lugar tem sido propícia à gravidez. Agora só falta colocar a cúpula de Miguel Ângelo, aquele
arrebatamento de pedra aqui em fingimento, que, por suas excessivas dimensões, está
guardada em arca à parte, e sendo esse o remate da construção lhe será dado diferente
aparato, que é o de ajudarem todos ao rei, e com um ruído retumbante ajustam-se os ditos
machos e fêmeas nos mútuos encaixes, e a obra fica pronta. Se o poderoso som, que ecoara
por toda a capela, pôde chegar, por salas e extensos corredores, ao quarto ou câmara onde
a rainha espera, fique ela sabendo que seu marido vem aí.
Que espere. Por enquanto, ainda el-rei está a preparar-se para a noite.
Despiram-no Os camaristas, vestiram-no com o trajo da função e do estilo, passadas
as roupas de mão em mão tão reverentemente como relíquias de santas que tivessem
trespassado donzelas, e isto se passa na presença de outros criados e pagens, este que abre
o gavetão, aquele que afasta a cortina, um que levanta a luz, Outro que lhe modera o brilho,
dois que não se movem, dois que imitam estes, mais uns tantos que não se sabe o que
fazem nem por que estão. Enfim, de tanto se esforçarem todos ficou preparado el-rei, um
dos fidalgos rectifica a prega final, outro ajusta O cabeção bordado, já não tarda um minuto
que D. João V se encaminhe ao quarto da rainha. - O cântaro está à espera da fonte.
Mas vem agora entrando D. Nuno da Cunha, que é o bispo inquisidor, e traz consigo
um franciscano velho. Entre passar adiante e dizer o recado há vénias complicadas,
Eloreios de aproximação, pausas e recuos, que são as fórmulas de acesso à vizinhança do
rei, e a tudo isto teremos de dar por feito e explicado, vista a pressa que traz o bispo e
considerando o tremor inspirado do frade. Retiram-se a uma parte D. João V e o inquisidor, e este diz, Aquele que além está é frei António de S. José, a quem, falando-lhe
eu sobre a tristeza de vossa majestade por lhe não dar filhos a rainha nossa senhora, pedi
que encomendasse vossa majestade a Deus para que lhe desse sucessão, e ele me respondeu
que vossa majestade terá filhos se quiser, e então perguntei-lhe que queria ele significar com
tão obscuras palavras, porquanto é sabido que filhos quer vossa majestade ter, e ele
respondeu-me, palavras enfim muito claras, que se vossa majestade prometesse levantar um
convento na vila de Mafra, Deus lhe daria sucessão, e tendo declarado isto, calou-se D.
Nuno e fez um aceno ao arrábido.
Perguntou el-rei, É verdade o que acaba de dizer-me sua eminência, que se eu
prometer levantar um convento em Mafra terei filhos, e o frade respondeu, Verdade é,
senhor, porém só se o convento for franciscano, e tornou el-rei, Como sabeis, e frei
António disse, Sei, não sei como vim a saber, eu sou apenas a boca de que a verdade se
serve para falar, a fé não tem mais que responder, construa vossa majestade o convento e
terá brevemente sucessão, não o construa e Deus decidirá. Com um gesto mandou el-rei ao
arrábido que se retirasse, e depois perguntou a D. Nuno da Cunha, É virtuoso este frade, e
o bispo respondeu, Não há outro que mais o seja na sua ordem. Então D. João, o quinto
do seu nome, assim assegurado sobre o mérito do empenho, levantou a voz para que
claramente o ouvisse quem estava e o soubessem amanhã cidade e reino, Prometo, pela
minha palavra real, que farei construir um convento de franciscanos na vila de Mafra se a
rainha me der um filho no prazo de um ano a contar deste dia em que estamos, e todos
disseram, Deus ouça vossa majestade, e ninguém ali sabia quem iria ser posto à prova, se o
mesmo Deus, se a virtude de frei António, se a potência do rei, ou, finalmente, a fertilidade
dificultosa da rainha.
D. Maria Ana conversa com a sua camareira-mor portuguesa, a marquesa de Unhão.
Já falaram das devoções do dia, da visita feita ao convento das carmelitas descalças da
Conceição dos Cardais, e da novena de S. Francisco Xavier, que amanhã principiará em S.
Roque, é um falar de rainha e marquesa, jaculatório e ao mesmo tempo lacrimoso quando
proferem os nomes dos santos, pungitivo se houver menção de martírios ou sacrifícios
particulares de padres e madres, mesmo não excedendo uns e outros a simples maceração
do jejum ou a oculta fustigação do cilício. Mas el-rei já se anunciou, e vem de espírito
aceso, estimulado pela conjunção mística do dever carnal e da promessa que fez a Deus por
intermédio e bons ofícios de frei António de S. José. Entraram com el-rei dois camaristas
que o aliviaram das roupas supérfluas, e o mesmo faz a marquesa à rainha, de mulher para
mulher, com ajuda doutra dama, condessa, mais uma camareira-mor não menos graduada
que veio da Áustria, está o quarto uma assembleia, as majestades fazem mútuas vénias, nunca mais acaba o cerimonial, enfim lá se retiram os camaristas por uma porta, as damas
por outra e nas antecâmaras ficarão esperando que termine a função, para que regresse el-
rei acompanhado ao seu quarto, que foi da rainha sua mãe no tempo de seu pai, e venham
as damas a este aconchegar D. Maria Ana debaixo do cobertor de penas que trouxe da
Áustria também e sem o qual não pode dormir, seja Inverno ou Verão. E é por causa deste
cobertor, sufocante até no frio Fevereiro, que D. João V não passa toda a noite com a
rainha, ao princípio sim, por ainda superar a novidade ao incómodo, que não era pequeno
sentir-se banhado em suores próprios e alheios, com uma rainha tapada por cima da
cabeça, recozendo cheiros e secreções.
D. Maria Ana, que não veio de um país quente, não suporta o clima deste. Cobre-se
toda com o imenso e altíssimo cobertor, e assim fica, enroscada como toupeira que
encontrou pedra no caminho e está a decidir para que lado há-de continuar a escavação da
galeria.
- Vestem a rainha e o rei camisas compridas, que pelo chão arrastam, a do rei
somente a fímbria bordada, a da rainha bom meio palmo mais, para que nem a ponta dos
pés se veja, o dedo grande ou os outros, das impudicícias conhecidas talvez seja esta a mais
ousada. D. João V conduz D. Maria Ana ao leito, leva-a pela mão como no baile o
cavaleiro à dama, e antes de subirem os degrauzinhos, cada um de seu lado, ajoelham-se e
dizem as orações acautelantes necessárias, para que não morram no momento do acto
carnal, sem confissão, para que desta nova tentativa venha a resultar fruto, e sobre este
ponto tem D. João V razões dobradas para esperar, confiança em Deus e no seu próprio
vigor, por isso está dobrando a fé com que ao mesmo Deus impetra sucessão. Quanto a D.
Maria Ana, é de crer que esteja rogando os mesmos favores, se porventura não tem
motivos particulares que os dispensem e sejam segredo do confessionário.
Já se deitaram. Esta é a cama que veio da Holanda quando a rainha veio da Áustria,
mandada fazer de propósito pelo rei, a cama, a quem custou setenta e cinco mil cruzados,
que em Portugal não há artífices de tanto primor, e, se os houvesse, sem dúvida ganhariam
menos. A desprevenido olhar nem se sabe se é de madeira o magnífico móvel, coberto
como está pela armação preciosa, tecida e bordada de florões e relevos de ouro, isto não
falando do dossel que poderia servir para cobrir o papa. Quando a cama aqui foi posta e
armada ainda não havia percevejos nela, tão nova era, mas depois, com o uso, o calor dos
corpos, as migrações no interior do palácio, ou da cidade para dentro, donde este bichedo
vem é que não se sabe, e sendo tão rica de matéria e adorno não se lhe pode aproximar um
trapo a arder para queimar o enxame, não há mais remédio, ainda não o sendo, que pagar a
Santo Aleixo cinquenta réis por ano, a ver se livra a rainha e a nós todos da praga e da coceira. Em noites que vem el-rei, os percevejos começam a atormentar mais tarde por via
da agitação dos colchões, são bichos que gostam de sossego e gente adormecida. Lá na
cama do rei estão outros à espera do seu quinhão de sangue, que não acham nem pior nem
melhor que o restante da cidade, azul ou natural.
D. Maria Ana estende ao rei a mãozinha suada e fria, que mesmo tendo aquecido
debaixo do cobertor logo arrefece ao ar gélido do quarto, e el-rei, que já cumpriu o seu
dever, e tudo espera do convencimento e criativo esforço com que o cumpriu, beija-lha
como a rainha e futura mãe, se não presumiu demasiado frei António de S. José. É D.
Maria Ana quem puxa o cordão da sineta, entram de um lado os camaristas do rei, do outro
as damas, pairam cheiros diversos na atmosfera pesada, um deles que facilmente
identificam, que sem o que a isto cheira não são possíveis milagres como o que desta vez se
espera, porque a outra, e tão falada, incorpórea fecundação, foi uma vez sem exemplo, só
para que se ficasse a saber que Deus, quando quer, não precisa de homens, embora não
possa dispensar-se de mulheres.
Ainda que insistentemente tranquilizada pelo confessor, tem D. Maria Ana, nestas
ocasiões, grandes escrúpulos de alma. Retirados el-rei e os camaristas, deitadas já as damas
que a servem e lhe protegem o sono, sempre cuida a rainha que seria sua obrigação
levantar-se para as últimas orações, mas, tendo de guardar o choco por conselho dos
médicos, contenta-se com murmurá-las infinitamente, passando cada vez mais devagar as
contas do rosário, até que adormece no meio duma ave-maria cheia de graça, ao menos
com essa foi tudo tão fácil, bendito seja o fruto do vosso ventre, e é no do seu ansiado
próprio que está pensando, ao menos um filho, Senhor, ao menos um filho. Deste
involuntário orgulho nunca fez confissão, por ser distante e involuntário, tanto que se fosse
chamada a juízo juraria, com verdade, que sempre se dirigira à Virgem e ao ventre que ela
teve. São meandros do inconsciente real, como aqueles outros sonhos que sempre D. Maria
Ana tem, vá lá explicá-los, quando el-rei vem ao seu quarto, que é ver-se atravessando o
Terreiro do Paço para o lado dos açougues, levantando a saia à frente e patinhando numa
lama aguada e pegajosa que cheira ao que cheiram os homens quando descarregam,
enquanto o infante D. Francisco, seu cunhado, cujo antigo quarto agora ocupa, alguma
assombração lhe ficando, dança em redor dela, empoleirado em andas, como uma cegonha
negra. Também deste sonho nunca deu contas ao confessor, e que contas saberia ele dar-
lhe por sua vez, sendo, como é, caso omisso no manual da perfeita confissão. Fique D.
Maria Ana em paz, adormecida, invisível sob a montanha de penas, enquanto os percevejos
começam a sair das fendas, dos refegos, e se deixam cair do alto dossel, assim tornando
mais rápida a viagem.
Também D. João V sonhará esta noite. Verá erguer-se do seu sexo uma árvore de
Jessé, frondosa e toda povoada dos ascendentes de Cristo, até ao mesmo Cristo, herdeiro
de todas as coroas, e depois dissipar-se a árvore e em seu lugar levantar-se, poderosamente,
com altas colunas, torres sineiras; cúpulas e torreões, um convento de franciscanos, como
se pode reconhecer pelo hábito de frei António de S. José, que está abrindo, de par em par,
as portas da igreja. Não é vulgar em reis um temperamento assim, mas Portugal sempre foi
bem servido deles.
Bem servido de milagres, igualmente. Ainda é cedo para falar deste que se prepara,
aliás milagre não tanto, mas simples obséquio divino, descimento de olhar piedoso e
propiciatório para um ventre sáfaro, qual há-de ser o nascimento do infante na hora
própria, mas é justamente tempo de mencionar veros e certificados milagres que, por virem
da mesma e ardentíssima sarça franciscana, bem auguram da promessa do rei.
Veja-se o célebre caso da morte de frei Miguel da Anunciação, provincial eleito que
foi da ordem terceira de S. Francisco, cuja eleição, diga-se de passagem, mas não fora de
propósito, se fez com acesa guerra que contra ela e ele levantou a Paroquial de Santa Maria
Madalena, por obscuros ciúmes, em tal sanha que à morte de frei Miguel ainda corriam
pleitos e não se sabe quando, de vez, seriam julgados, se é que teriam fim, entre sentença e
recurso, entre conselho e agravo, até que a morte viesse encerrar o processo, como veio a
suceder. É certo que não morreu o frade de coração despedaçado, mas de maligna, que
seria tifo ou tifóide, senão outra febre sem nome, remate comum de vida em cidade de tão
poucas fontes de água para beber e onde os galegos não se duvidam de ir encher os barris à
fonte dos cavalos, e assim morrem imerecidamente provinciais. Porém, era frei Miguel da
Anunciação de tão compassiva natureza que, mesmo depois de morto, pagou o mal com o
bem, e se vivo fizera caridades, defunto obrava maravilhas, sendo a primeira desmentir os
médicos que temiam se corrompesse o corpo aceleradamente e por isso recomendaram
abreviada sepultura, que não se corrompeu tal o carnal despojo, antes por espaço de três
dias inteiros embalsamou a igreja de Nossa Senhora de Jesus onde esteve exposto, com
suavíssimo cheiro, e não se lhe enrijeceu o cadáver, pelo contrário, brandamente os
membros todos se deixavam mover, como se vivo estivesse.
Segundas e terceiras maravilhas, mas de valor primeiríssimo, foram os milagres
propriamente ditos tão assinalados e ilustres que acorreu o povo de toda a cidade a
observar o prodígio e a aproveitar dele, pois se autentica que na dita igreja foi dada vista a
cegos e pés a mancos, e era tanta a afluência de mundo que nos degraus do adro se davam
punhadas e punhaladas para entrar, de que alguns perderam a vida, que depois nem por
milagre lhes seria restituída. Ou talvez sim, se, passados três dias, e sendo grande o alarme, dali não tivessem levado o corpo, às ocultas, e às ocultas o enterraram. Privados da
esperança de cura enquanto não constasse o passamento doutro bem-aventurado, no
mesmo lugar se esbofetearam de desespero e fé lograda mudos e manetas, se a estes lhes
sobrava mão, em gritos todos e invocações a quantos santos, até que os padres saíram fora
a benzer o ajuntamento, e com essa suficiência, à falta de melhor, se foram uns e outros.
Mas isto, confessemo-lo sem vergonha, é uma terra de ladrões, olho vê, mão pilha, e
sendo a fé tanta, ainda que nem sempre recompensada, maior é o descaro e a impiedade
com que se salteiam igrejas, como foi ainda o ano passado em Guimarães, também na de S.
Francisco, que, por tão vultosos bens ter desprezado em vida, tudo consente que lhe levem
na eternidade, o que vale à ordem é a vigilância de Santo António, que esse resigna-se mal a
que lhe rapem altares e capelas onde estiver, como em Guimarães se viu e em Lisboa se há-
de ver.
Naquela cidade foram, pois, os ladrões a roubar, subindo para esse efeito a uma
janela, aonde logo o santo lepidamente os veio receber com isso lhes pregando um tal susto
que fez cair desamparado o que mais alto na escada estava, é certo que sem nenhum osso
partido, mas tolhidinho de tal maneira que não se pôde mexer mais, e querendo os
companheiros levá-lo dali, que também entre ladrões não são raros os corações generosos e
abnegados, não o conseguiram, caso aliás não inédito, porque já sucedido a Inês, irmã de
Santa Clara, quando ainda S. Francisco andava pelo mundo, precisamente há quinhentos
anos, em mil duzentos e onze, mas não era de roubo o caso dela, ou de roubo seria, porque
ao Senhor a queriam roubar. Ali ficou o ladrão, como se a mão de Deus o estivesse
espalmando contra o chão ou a garra do Diabo o filasse das profundas, ali ficou até de
manhã, quando deram com ele os moradores e depois o levaram, já sem custo e com o seu
peso natural, ao altar do mesmo santo para que o sarasse, milagre obrado por forma
original, pois se viu suar copiosamente a imagem de Santo António e. durante tanto tempo
que deu para virem juizes e escrivães autenticar juridicamente o prodígio, que foi este de
suar madeira e também de curar-se o ladrão por lhe passarem na cara uma toalha
humedecida do humor bento. E com isto ficou o homem são, salvo e arrependido.
Porém, nem todos os delitos chegam a averiguar-se.
Em Lisboa, por exemplo, não tendo o milagre sido menos notório, ainda hoje está
por apurar quem foi o do assalto, embora sejam permitidas algumas desconfianças,
porventura absolvidas, e quem delas for objecto, pela boa intenção que derradeiramente o
motivou. Foi o caso que no convento de S. Francisco de Xabregas entraram gatunos, ou
gatuno entrou, pela clarabóia de uma capela contígua com a de Santo António, e foi, ou
foram, ao altar-mor, e as três lâmpadas que lá estavam se sumiram pelo mesmo caminho em menos de um credo. Despendurar as lâmpadas dos ganchos, carregar com elas às
escuras por maior cautela, arriscar tropeções, tropeçar mesmo e fazer ruído sem que
ninguém acudisse a indagar do rebuliço, seria suspeito prodígio ou cumplicidade de algum
santo transviado se não fosse estarem, nessa mesma hora, a campa e a matraca em seu
costumado tumulto para se despertarem os frades e irem às matinas da meia-noite. Por isso
pôde o ladrão escapar a seu salvo, e se mais barulho fizera, não lho teriam ouvido, por aqui
se vendo como o assaltante conhecia bem os costumes da casa.
Começaram os frades a entrar na igreja e deram com ela às escuras. Já o irmão
responsável se estava conformando com o castigo que não deixaria de ser-lhe aplicado por
uma falta que não saberia explicar, quando se observou, e confirmou pelo tacto e cheiro,
que não era o azeite que faltava, ali derramado pelo chão, mas sim as lâmpadas, cujas eram
de prata. O desacato ainda estava fresco, se assim se pode dizer, pois as correntes de onde
tinham estado suspensas as roubadas lâmpadas oscilavam devagarinho, dizendo, em
linguagem de arame, Foi por pouco, foi por pouco.
Saíram logo alguns religiosos às estradas de em torno, repartidos em patrulhas, que se
apanham o ladrão não se sabe o que misericordiosa-mente lhe fariam, mas não deram nem
com o rasto dele, ou da quadrilha, se v era, caso que não devemos estranhar, porquanto
passava já então da meia-noite e a lua estava em seu minguante. Esbaforiram-se os frades a
correr as cercanias, a passo de carga, e enfim regressaram ao convento, de mãos a abanar.
Entretanto, outros religiosos, pensando que podia o ladrão, por fina astúcia, ter-se
escondido na igreja, deram-lhe uma volta completa desde o coro à sacristia, e foi quando
andavam neste alvoroçado esquadrinhar, toda a congregação atropelando sandálias e fraldas
de hábito, levantando tampas de arcazes, arredando armários, sacudindo paramentos, que
um frade velho, conhecido por virtuosa vida e brava religião, reparou que o altar de Santo
António não fora tocado pelas gatunas mãos, apesar de ser nele abundantíssima a prata,
rica de peso, lavor e pureza. Estranhou o pio homem, e estranharíamos nós se lá
estivéssemos, porque, sendo manifesto que por aquela clarabóia de além entrou o ladrão e
ao altar-mor foi roubar as lâmpadas, teve de passar diante da capela de Santo António que
ao meio estava. Com mais do que razão se achou então o frade, inflamado em zelo, ao
voltar-se para Santo António, increpando-o como a servo que descuidasse as suas
obrigações, E vós, santo, só guardais a prata que vos toca, e deixais levar a outra, pois em
paga disso não vos há-de ficar nenhuma, e ditas estas violentíssimas palavras, foi-se à capela
e começou a despi-la toda, tirando não só as pratas, mas as toalhas e adornos, e não só à
capela, mas também ao próprio santo, que viu levarem-lhe a auréola de tirar e pôr, e a cruz,
e que ficaria sem o menino ao colo se outros religiosos não tivessem acudido, achando a punição excessiva e advertindo que o deixasse para consolação do pobre castigado.
Meditou um pouco o frade na advertência, e rematou, Pois fique como seu fiador,
enquanto não restituir o Santo as lâmpadas. E como isto já era pelas duas depois da meia-
noite, tempo gasto nas buscas e finalmente no recriminatório lance relatado, recolheram-se
os frades e foram dormir, alguns temendo que viesse Santo António a tirar desforra do
insulto.
Ao outro dia, aí pelas onze horas dele, bateu à portaria do convento um estudante,
cujo convém dizer logo que desde há tempos andava pretendendo v hábito da casa,
frequentando com grande assiduidade os frades dela, e esta informação se dá, primeiro, por
ser verdadeira e sempre servir a verdade para alguma coisa, e, segundo, para auxiliar quem
se dedique a decifrar actos cruzados, ou palavras cruzadas quando as houver, enfim, bateu
v estudante à portaria e disse que queria calar ao prelado. Levaram-no à presença, beijou-
lhe a mão ou v cordão do hábito, se não a fímbria, isto não se averiguou bem, e declarou
ter ouvido dizer na cidade que as lâmpadas estavam no mosteiro da Cotovia, dos padres da
Companhia de Jesus, além no Bairro Alto de S. Roque. Duvidou o prelado, logo pela
manifesta insuficiência do portador da notícia, um estudante que só não era bargante por
tanto aspirar a ser frade. Embora não seja assim tão raro encontrar-se nisto aquilo, e depois
pela inverosimilhança de se ir restituir à Cotovia o que se furtara em Xabregas, sítios tão
opostos e distantes, ordens tão pouco parentes, na distância quase uma légua a voo de
pássaro, e no resto uns de preto, outros de castanho, ainda isso seria o menos, pela casca
não se conhece o fruto se lhe não tivermos metido o dente. Mandava porém a prudência
que se averiguasse o aviso, e assim foi um religioso grave, acompanhado do dito estudante,
de Xabregas à Cotovia, ambos a pé, entrando na cidade pela Porta de Santa Cruz, e se para
completa ciência do caso importa saber que outro caminho tomaram até ao destino, diga-se
então que passaram rente à igreja de Santa Estefânia, depois ao lado da igreja de S. Miguel,
e depois da igreja de S. Pedro entraram a porta que lhe tem o nome, posto o que desceram
na direcção do rio pelo Postigo do Conde de Linhares, depois a direito, pela Porta do Mar,
ao Pelourinho Velho, são nomes e lugares de que só ficou recordação, evitaram a Rua
Nova dos Mercadores por ser grave o religioso e de prática usurária o sítio até hoje, e tendo
passado à ilharga do Rossio, foram dar ao Postigo de S. Roque, e enfim à Cotovia, onde
bateram e entraram, e sendo conduzidos ao reitor disse o frade, Este estudante que aqui
vem comigo foi dizer a Xabregas que estão cá as nossas lâmpadas, ontem à noite roubadas,
Assim é, pelos sinais que me foram dados, eram aí umas duas horas bateram à portaria com
muita força, e perguntando o porteiro de dentro o que queriam, respondeu uma voz que
abrisse logo a porta porque se daria ali uma restituição, e tendo o porteiro vindo a dar-me notícia do insólito caso, mandei abrir a porta e achámos as tais lâmpadas, um tanto
amassadas e partidas nas guarnições, aqui estão, se lhes falta alguma coisa, já estava faltando
quando foram deixadas, E viram quem foi o da chamada, Isso não vimos, ainda foram
padres à estrada, mas não encontraram ninguém.
Regressaram as lâmpadas a Xabregas, e agora pense cada um de nós o que quiser.
Terá sido o estudante, afinal tunante e bargante, que delineou o estratagema para poder
entrar as portas e vestir o hábito franciscano como de facto veio a vestir, e por isso roubou
e foi entregar, com muita esperança. de que a bondade da intenção lhe perdoasse a fealdade
do pecado no dia do juízo final. Terá sido Santo António que, tendo cometido até hoje
tantos e tão variados milagres, também podia ter feito este, ao ver-se dramaticamente
despojado das pratas pelo furor sagrado do frade, que bem sabia a quem intimava, como
igualmente o sabem os barqueiros e marinheiros do Tejo, que quando o santo lhes não
satisfaz as vontades nem lhes premeia os votos o castigam mergu-lhando-o de cabeça para
baixo nas águas do rio. Não será tanto pela incomodidade, porque um santo merecedor
desse nome é tão capaz de respirar a pulmões o ar de nós todos como a guelras a água que
é céu dos peixes, mas a vergonha de saber expostas as plantas humildes dos pés ou o
desânimo de ver-se sem pratas e quase sem Menino Jesus, fazem de Santo António o mais
milagroso dos santos, mormente para encontrar coisas perdidas. Enfim, saia o estudante
absolvido desta suspeita, se não vier a achar-se noutra igualmente duvidosa.
Com tais precedentes, sendo tão favorecidos os franciscanos de meios para
alterarem, inverterem ou acelerarem a ordem natural das coisas, até a matriz renitente da
rainha obedecerá à fulminante injunção do milagre. Tanto mais que convento em Mafra o
anda a querer a ordem de S. Francisco desde mil seiscentos e vinte e quatro, ainda estava
rei de Portugal um Filipe espanhol, que, apesar de o ser e portanto dever dar-lhe só cuidado
mínimo a fradaria de cá, pelos dezasseis anos que conservou a realeza nunca deu
consentimento. Não cessaram por isso as diligências, meteu-se no empenho o valimento
dos nobres donatários da vila, mas parecia que andava exaurida a potência e embotada a
pertinácia da Província da Arrábida, que ao convento aspirava, pois ainda ontem, que tanto
se pode dizer do que apenas há seis anos aconteceu, em mil setecentos e cinco, deu parecer
desfavorável o Desembargo do Paço a nova petição, e com não pequeno atrevimento se
exprimiu, se não desrespeito pelos interesses materiais e espirituais da Igreja, ousando
considerar não ser conveniente a pretendida fundação por estar o reino muito onerado de
conventos mendicantes, e por muitos outros inconvenientes que a prudência humana sabe
ditar. Lá saberiam os desembargadores que inconvenientes ditava a prudência humana, mas
agora vão ter de engolir a língua e digerir o mau pensamento, que já disse frei António de S. José que convento havendo, haverá sucessão. A promessa está feita, a rainha parirá, a
ordem franciscana colherá a palma da vitória, ela que do martírio tantas colheu. Cem anos à
espera não será excessiva mortificação para quem conta viver a eternidade.
Vimos como em instância final saiu absolvido o estudante da suspeita do roubo das
lâmpadas. Agora não se vá dizer que, por segredos de confissão divulgados, souberam os
arrábidos que a rainha estava grávida antes mesmo que ela o participasse ao rei. Agora não
se vá dizer que D. Maria Ana, por ser tão piedosa senhora, concordou calar-se o tempo
bastante para aparecer com o chamariz da promessa o escolhido e virtuoso frei António.
Agora não se vá dizer que el-rei contará as luas que decorrerem desde a noite do voto ao
dia em que nascer o infante, e as achará completas. Não se diga mais do que ficou dito.
Saiam então absolvidos os franciscanos desta suspeita, se nunca se acharam noutras
igualmente duvidosas.