Memorial do Convento

José Saramago · Capítulo 24 de 30

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Memorial do Convento

S. Pedro de Roma não tem saído…

S. Pedro de Roma não tem saído muito das arcas nestes últimos anos. É que, ao

contrário do que geralmente acredita o vulgo ignaro, os reis são tal e qual os homens

comuns, crescem, amadurecem, variam-se-lhes os gostos com a idade, quando por

comprazimento público se não ocultam de propósito, outros por necessidade política se

vão às vezes fingindo. Além disso, é da sabedoria das nações e da experiência dos

particulares que a repetição traz a saciedade. A basílica de S. Pedro já não tem segredos

para D. João V. Poderia armá-la e desarmá-la de olhos fechados, sozinho ou com ajuda,

começando pelo norte ou pelo sul, pela colunata ou pela abside, peça por peça ou em

partes conjuntas, mas o resultado final é sempre o mesmo, uma construção de madeira, um

legos, um meccano, um lugar de fingimento onde nunca serão rezadas missas verdadeiras,

embora Deus esteja em todo o lado.

O que vale, ainda assim, é prolongar-se o homem nos filhos que tem, e se é certo

que, por despeito de velho ou vizinhança desse estado, nem sempre estima ver continuados

actos seus que tenham sido pedra de escândalo ou argueiro por de mais visível, igualmente

sucede deleitar-se o homem quando persuade os filhos a repetirem alguns gestos seus,

alguns passos de vida, palavras até, assim em aparência recuperando novo fundamento o

que ele próprio foi e fez. Os filhos, claro está, fingem. Por outros dizeres, oxalá mais claros,

não sentindo D. João V já gosto que valha o trabalho de armar a basílica de S. Pedro, ainda

encontrou modo indirecto de o reaver, no mesmo movimento provando o seu amor

paternal e real, ao chamar a virem auxiliá-lo seus filhos D. José e D. Maria Bárbara. De

ambos se falou já, de ambos se tornará a falar, agora dela ficando apenas dito que, coitada,

a desfiguraram muito as bexigas, mas têm as princesas tanta sorte que não perdem

casamento por serem bexigosas e feias, assim convenha à coroa do senhor seu pai. Claro

que nisto de armar S. Pedro de Roma não fazem os infantes muita força. Se D. João V

tinha camaristas que o ajudavam a levantar e assentar a cúpula de Miguel Ângelo, a

propósito se recordando como profeticamente ressoou a grande arquitectura na noite em

que o rei foi ao quarto da rainha, maior ajuda necessitam as fracas crianças, ela de dezassete

anos, ele de catorze. Porém, aqui, o que conta é o espectáculo, está meia corte reunida para

assistir ao brinquedo dos infantes, suas majestades sentadas debaixo do dossel, os frades

segredando satisfações conventuais, os fidalgos compondo a expressão para que ela

exprima, ao mesmo tempo, o respeito devido a príncipes, o enternecimento pela pouca

idade que é a sua, a devoção pelo santo lugar que em cópia ali se mostra, tudo isto numa cara só, e tudo isto concordando, não é para admirar que pareçam estar sofrendo duma dor

oculta e talvez imprópria. Quando D. Maria Bárbara leva por suas próprias mãos uma das

estatuazinhas que ornamentam a cimalha, a corte aplaude. Quando por suas mãos próprias

colocar D. José a cruz cimeira do zimbório, pouco falta para que se ajoelhem todos

quantos estão, que este infante é que é o herdeiro. Suas majestades sorriem, depois D. João

V chama os filhos, louva-os pela habilidade e deita-lhes a bênção, que eles recebem de

joelhos. O mundo está de uma tal harmonia, que parece, ao menos nesta sala, reflexo desse

espelho de perfeição que é o céu. Cada gesto aqui feito é nobre, porventura divino na sua

gravidade e pausa, e as palavras dizem-se como partes duma frase que não tem pressa de

acabar nem motivo para acabar-se. Assim falam e procedem os moradores das habitações

celestes quando saem às diamantinas ruas, quando os recebe em audiência o pai dos

universos no seu palácio dourado, quando em corte reunidos assistem ao brinquedo do

filho, que faz, desfaz e torna a fazer uma cruz de pau.

Deu D. João V ordem para que não fosse desarmada a basílica, e assim inteira a

deixaram ficar. A corte saiu, retirou-se a rainha, foram-se os infantes, os frades atrás

ladainhando, agora está el-rei medindo gravemente com o olhar a construção, enquanto os

fidalgos de semana fazem por imitar-lhe a gravidade, é sempre o mais seguro. Não menos

que meia hora permaneceram rei e acompanhantes nesta contemplação. Dos pensamentos

dos camaristas não cuidemos averiguar, sabe-se lá o que estará passando por aquelas

cabeças, a impressão de cãibra numa perna, a lembrança da cadela preferida que deve parir

amanhã, a abertura na alfândega dos fardos vindos de Goa, o súbito apetite de caramelos, a

mãozinha macia da freira à grade do convento, a comichão por baixo da cabeleira, tudo

quando se quiser, excepto a sublimidade do pensamento real, que era este, Quero ter uma

basílica igual na minha corte, por esta não esperávamos nós.

No dia seguinte, D. João V mandou chamar o arquitecto de Mafra, um tal João

Frederico Ludovice, que é alemão escrito à portuguesa, e disse-lhe sem outros rodeios, É

minha vontade que seja construída na corte uma igreja como a de S. Pedro de Roma, e,

tendo assim dito olhou severamente o artista. Ora, a um rei nunca se diz não, e este

Ludovice, que enquanto viveu em Itália se chamou Ludovisi, assim já por duas vezes

abandonando o nome familiar de Ludwig, sabe que uma vida, para ser bem-sucedida,

haverá de ser conciliadora, sobretudo por quem a viva entre os degraus do altar e os

degraus do trono. Porém, há limites, este rei não sabe o que pede, é tolo, é néscio, se julga

que a simples vontade, mesmo real, faz nascer um Bramante, um Rafael, um Sangallo, um

Peruzzi, um Buonarroti, um Fontana, um Della Porta, um Maderno, se julga que basta vir

dizer-me, a mim, Ludwig, ou Ludovisi, ou Ludovice, se é para orelhas portuguesas, Quero S. Pedro, e S. Pedro aparece feito, quando eu o que sei fazer é só Mafras, artista sou, é

verdade, e muito vaidoso, como todos, mas conheço a medida do meu pé, e também o

jeito desta terra, onde há vinte e oito anos vivo, muita rompança, pouca perseverança, o

que é preciso é dar-lhe a boa resposta, aquele não que mais lisonjeia do que o sim

lisonjearia, ainda por cima trabalhoso, que Deus me livre dessa, A vontade de vossa

majestade é digna do grande rei que mandou edificar Mafra, porém, as vidas são breves,

majestade, e S. Pedro, entre a bênção da primeira pedra e a consagração, consumiu cento e

vinte anos de trabalhos e riquezas, vossa majestade, que eu saiba, nunca lá esteve, julga pelo

modelo de armar que aí tem, talvez nem daqui a duzentos e quarenta anos o

conseguíssemos, estaria vossa majestade morta, mortos estariam vossos filho, neto, bisneto,

trineto e tetraneto, o que eu pergunto, com todo o respeito, é se vale a pena estar a

construir uma basílica que só ficará terminada no ano dois mil, supondo que nessa altura

ainda há mundo, no entanto vossa majestade decidirá, De haver ainda mundo, Não,

majestade, de outra vez se fazer S. Pedro em Lisboa, embora a mim me pareça ser mais

fácil chegar o mundo ao seu fim que repetir-se a basílica de Roma, Hei-de então não

satisfazer esta minha vontade, Vossa majestade viverá eternamente na lembrança dos

vossos súbditos, eternamente viverá na glória dos céus, mas a memória não é bom terreno

para nela se abrirem alicerces, antes vão caindo aos poucos as paredes, e os céus são uma

só igreja onde S. Pedro de Roma não faria mais vulto que um grão de areia, Se assim é, por

que construímos nós igrejas e conventos na terra, Porque não compreendemos que a terra

já era uma igreja e um convento, lugar de fé e de responsabilidade, lugar de clausura e de

liberdade, Entendo mal o que estou a ouvir, E eu não entendo bem o que estou a dizer,

mas, para voltar ao caso, se vossa majestade quer chegar ao fim da vida vendo ao menos

levantado um palmo de parede, tem de dar já as necessárias ordens, senão nunca passará

dos caboucos, Tão pouco assim viverei, A obra é longa, a vida é curta.

Podiam ficar a falar o resto do dia, mas D. João V, que em geral não admite

resistências ao seu arbítrio, caiu em melancolia ao ver, na imaginação, o mortuário cortejo

dos seus descendentes, filho, neto, bisneto, trineto, tetraneto, morrendo cada um deles sem

ver a obra acabada, para isto nem vale a pena começar. João Frederico Ludovice disfarça o

contentamento, já percebeu que não haverá S. Pedro de Lisboa, para trabalho bastam-lhe a

capela-mor da Sé de Évora e as obras de S. Vicente de Fora, que são coisas à escala

portuguesa, tudo se quer na sua conta. Estão numa pausa, o rei não fala, o arquitecto não

diz, desta maneira se desvanecem no ar os grandes sonhos, e nunca viríamos a saber que D.

João V quis um dia construir S. Pedro de Roma no Parque Eduardo VII, se não fosse a

inconfidência de Ludovice, que disse ao filho, e este em segredo o transmitiu a uma sua amiga freira de quem era visita, que disse ao confessor, que disse ao geral da ordem, que

disse ao patriarca, que o foi perguntar ao rei, que respondeu que se alguém voltasse a falar

no assunto incorreria na sua cólera, e assim aconteceu todos se calaram, e se hoje vem o

projecto a lume foi porque a verdade caminha sempre por seu próprio pé na história, é só

dar-lhe tempo, e um dia aparece e declara, Aqui estou, não temos outro remédio senão

acreditar nela, vem nua e sai do poço como a música de Domenico Scarlatti, que ainda vive

em Lisboa.

Enfim o rei bate na testa, resplandece-lhe a fronte, rodeia-a o nimbo da inspiração, E

se aumentássemos para duzentos frades o convento de Mafra, quem diz duzentos, diz

quinhentos, diz mil, estou que seria uma acção de não menor grandeza que a basílica que

não pode haver. O arquitecto ponderou, Mil frades, quinhentos frades, é muito frade,

majestade, acabávamos por ter de fazer uma igreja tão grande como a de Roma, para lá

poderem caber todos, Então, quantos, Digamos trezentos, e mesmo assim já vai ser

pequena para eles a basílica que desenhei e está a ser construída, com muitos vagares, se me

é permitido o reparo, Sejam trezentos, não se discute mais, é esta a minha vontade, Assim

se fará, dando vossa majestade as necessárias ordens.

Foram dadas. Mas primeiro se juntaram, em outro dia, o rei com o provincial dos

franciscanos da Arrábida, o almoxarife, e novamente o arquitecto. Ludovice levou os seus

desenhos, estendeu-os sobre a mesa, explicou a planta, Aqui é a igreja, para norte e sul estas

galerias e estes torreões são o palácio real, da parte de trás ficam as dependências do

convento, ora, para satisfazer as ordens de sua majestade teremos de construir, ainda mais

atrás, outros corpos, há aqui um monte de pedra rija que vai ser o cabo dos trabalhos minar

e rebentar, tanto nos custou já morder a falda dele para endireitar o chão. Ao ouvir que

queria el-rei ampliar o convento para tão grande número de frades, de oitenta para

trezentos, imagine-se, o provincial, que fora ali sem ainda saber da novidade, derrubou-se

no chão dramaticamente, beijou com abundância as mãos da majestade, e enfim declarou,

com a voz estrangulada, Senhor, ficai seguro de que neste mesmo momento está Deus

mandando preparar novos e mais sumptuosos aposentos no seu paraíso para premiar quem

na terra o engrandece e louva em pedras vivas, ficai seguro de que por cada novo tijolo que

for colocado no convento de Mafra, uma oração será dita em vossa intenção, não pela

salvação da alma, que vos está garantidíssima pelas obras, mas sim como flores da coroa

com que haveis de apresentar-vos perante o supremo juiz, queira Deus que só daqui por

muitos anos, para que não esmoreça a felicidade dos vossos súbditos e perdure a gratidão

da igreja e ordem que sirvo e represento. D. João V levantou-se da sua cadeira, beijou a

mão do provincial, humildando o poder da terra ao poder do céu, e quando se tornou a sentar repetiu-se-lhe o halo em redor da cabeça, se este rei não se acautela acaba santo. O

almoxarife enxuga os olhos húmidos de boa lágrima, Ludovice conserva a ponta do dedo

indicador da mão direita sobre o lugar da planta que figura o tal monte que tanto vai custar

a arrasar, o provincial levanta os olhos ao tecto, suposto representar aqui o empíreo, e a

todos os três o rei olha sucessivamente, grande, pio, fidelíssimo que há-de ser, isto é o que

se lê no rosto magnânimo, não é todos os dias que se ordena a ampliação de um convento

de oitenta frades para trezentos, o mal e o bem à face vem, diz o povo, neste caso de hoje

veio o melhor.

Retirou-se rasando vénias João Frederico Ludovice para ir reformar os desenhos,

recolheu-se o provincial à província para ordenar os actos congratulatórios adequados e dar

a boa nova, ficou o rei, que está em sua casa, agora esperando que regresse o almoxarife

que foi pelos livros da escrituração, e quando ele volta pergunta-lhe, depois de colocados

sobre a mesa os enormes in-Fólios, Então diz-me lá como estamos de deve e haver. O

guarda-livros leva a mão ao queixo parecendo que vai entrar em meditação profunda, abre

um dos livros como para citar uma decisiva verba, mas emenda ambos os movimentos e

contenta-se com dizer, Saiba vossa majestade que, haver, havemos cada vez menos, e

dever, devemos cada vez mais, Já o mês passado me disseste o mesmo, E também o outro

mês, e o ano que lá vai, por este andar ainda acabamos por ver o fundo ao saco, majestade,

Está longe daqui o fundo dos nossos sacos, um no Brasil, outro na Índia, quando se

esgotarem vamos sabê-lo com tão grande atraso que poderemos então dizer, afinal

estávamos pobres e não sabíamos, Se vossa majestade me perdoa o atrevimento, eu ousaria

dizer que estamos pobres e sabemos, Mas graças sejam dadas a Deus, o dinheiro não tem

faltado, Pois não, e a minha experiência contabilística lembra-me todos os dias que o pior

pobre é aquele a quem o dinheiro não falta, isso se passa em Portugal, que é um saco sem

fundo, entra-lhe o dinheiro pela boca e sai-lhe pelo cu, com perdão de vossa majestade, Ah,

ah, ah, riu o rei, essa tem muita graça, sim senhor, queres tu dizer na tua que a merda é

dinheiro, Não, majestade, é o dinheiro que é merda, e eu estou em muito boa posição para

o saber, de cócoras que é como sempre deve estar quem faz as contas do dinheiro dos

outros. Este diálogo é falso, apócrifo, calunioso, e também profundamente imoral, não

respeita o trono nem o altar, põe um rei e um tesoureiro a falar como arrieiros em taberna,

só faltava que os rodeassem inflamâncias de maritornes, seria um desbocamento completo,

porém, isto que se leu é somente a tradução moderna do português de sempre, posto o que

disse o rei, A partir de hoje, passas a receber vencimento dobrado para que te não custe

tanto fazer força, Beijo as mãos de vossa majestade, espondeu o guarda-livros.

Mesmo ainda antes de terminar João Frederico Ludovice os desenhos do convento

acrescentado, galopou um correio real para Mafra com ordens imperiosas de que

imediatamente se começasse a arrasar o monte, assim se ganhando algum tempo. Apeou-se

o correio à porta da vedoria-geral, mais a escolta, sacudiu-se da poeira, subiu a escada,

entrou pelo salão, O doutor Leandro de Melo, era este o nome do vedor, Eu sou, lhe diz o

tal senhor, Trago cartas de sua majestade em grande velocidade, aqui estão, e passe-me

vossa mercê recibo e quitação, que à corte volto logo, não me tarde.

Assim se fez, foram-se o correio e a escolta, agora a passo, e o vedor abriu as suas

ordens, depois de reverentemente ter beijado o selo, mas quando acabou de as ler

empalideceu, tanto que o subvedor julgou que vinha ali destituição de cargo, com o que

talvez pudesse aproveitar a sua própria carreira, mas logo se desenganou, já o doutor

Leandro de Melo se levantava, já dizia, Vamos à obra, vamos à obra, e em poucos minutos

se reuniram o tesoureiro, o mestre dos carpinteiros, o mestre dos alvenéus, o mestre dos

canteiros, o abegão-mor, o engenheiro das minas, o capitão da tropa, todos quantos em

Mafra tinham vara de mando, e estando reunidos falou-lhes o vedor-geral, Senhores, sua

majestade determinou, em sua piedade e alargada sabedoria, que seja aumentada a lotação

do convento para trezentos frades e que desde logo se comecem as obras de arrasamento

do monte que está a nascente, por ser aí que se levantará o novo corpo de construção,

consoante medidas aproximadas que vêm nestas cartas, e como as ordens de sua majestade

são para se cumprir, vamos todos à obra ver como se há-de pôr mão na empresa. Disse o

tesoureiro que para pagar as despesas subsequentes não precisava avaliar o monte, disse o

mestre dos carpinteiros que o seu ofício era madeira, apara e serradura, disse o mestre dos

alvenéus que para levantar paredes e assentar pavimentos o chamassem, disse o mestre dos

canteiros que só lidava com pedra arrancada, não por arrancar, disse o abegão-mor que os

bois e as bestas lá iriam em sendo precisos, e estas respostas, que parecem de gente

indisciplinada, são só de gente sensata, de que serviria ir todo este pessoal olhar um monte,

quando bem sabiam qual, e quanto ia custar a arrancar de lá. Tomou o vedor por muito

boas as explicações, e enfim saiu levando consigo o engenheiro das minas, que era o da

responsabilidade, e o capitão da tropa, por ser o desmonte, principalmente, tarefa dos

soldados.

Numa parte do terreno por trás das paredes levantadas do lado nascente, já o frade

hortelão do hospício plantara árvores de fruto, e havia canteiros vários, uns legumes, umas

bordaduras de flores, por enquanto apenas promessa de pomar e horta, suspiro de jardim.

Tudo isto iria ser arrancado. Os trabalhadores viram passar o vedor-geral e o espanhol das

minas, depois olharam a avantesma do monte, pois lago havia corrido a notícia de que o convento ia ser aumentado para aquela banda, parece impossível a rapidez com que se

divulgam ordens que deviam ser de alguma confidência, pelo menos enquanto o

destinatário delas as não publicasse. Quase se acredita que, antes de escrever ao doutor

Leandro de Melo, mandou D. João V aviso a Sete-Sóis, ou ao José Pequeno, dizendo,

Tenham lá paciência, veio-me esta ideia de pôr aí trezentos frades em vez dos oitenta

combinados, por outra parte é bom para todos quantos trabalham na obra, ficam com o

emprego garantido por mais tempo, que o dinheiro, ainda há dias mo disse o meu

almoxarife, que é de confiança, esse não falta, fiquem sabendo que somos a nação mais rica

da Europa, não devemos nada a ninguém e pagamos a todos, e com isto não enfado mais,

dá lembranças aos meus queridos trinta mil portugueses que aí andam a fazer pela vida,

tanto se esforçando por dar ao seu rei o supremo gosto de ver alçado aos ares e tempos o

maior e mais formoso monumento sacro da história, que até me disseram já que

comparado com isso S. Pedro de Roma é uma capela, adeus, até qualquer dia, saudades à

Blimunda, da máquina voadora do padre Bartolomeu Lourenço é que nunca mais soube

nada, tanta protecção lhe dei, tanto dinheiro gasto, o mundo anda cheio de gente ingrata,

agora é que é certo, adeus.

O doutor Leandro de Melo está sucumbido ao pé do monte, desmarcado acidente

que se empina mais alto que as paredes que ainda hão-de ser, e sendo de seu ofício apenas

corregedor de Torres Vedras, acolhe-se ao amparo do engenheiro das minas, que, por ser

andaluz e hiperbólico, fala claro, Aún que fuera la Sierra Morena, yo la arrancaria com mis

brazos y la precipitaria en la mar, traduzindo, Deixem o caso comigo, que em pouco tempo

se abrirá neste lugar um rossio que fará inveja ao de Lisboa. Durante todos estes anos, onze

já vão vencidos, se têm sobressaltado os ecos das quebradas de Mafra com os continuados

tiros de pólvora, espaçadamente nos últimos tempos, só quando renitente esporão de pedra

se interpõe no solo já rendido. Um homem nunca sabe quando a guerra acaba. Diz, Olha,

acabou, e de repente não se acabou, recomeça, e vem diferente, a puta, ainda ontem eram

floreios de espada e hoje são arrombações de pelouro, ainda ontem se derrubavam

muralhas e hoje se desmoronam cidades, ainda ontem se exterminavam países e hoje se

rebentam mundos, ainda ontem morrer um era uma tragédia e hoje é banalidade evaporar-

se um milhão, não será bem o caso de Mafra, onde nunca veremos reunida tanta gente,

apesar de muita, mas, para quem se habituara a ouvir uns cinquenta, cem estoiros por dia,

parecia agora o fim do mundo a atroação tremebunda dos mil tiros Que se davam entre o

nascer do sol e a noitinha, em rosários de vinte, com tal violência atirando terras e pedras

ao ar que tinham os trabalhadores da obra que abrigar-se na revessa das paredes ou

acolher-se à protecção dos andaimes, e mesmo assim alguns ficaram feridos, para não falar daquelas cinco minas que rebentaram inesperadamente e fizeram em pedaços três homens

inteiros.

Sete-Sóis ainda não respondeu ao rei, vai adiando sempre, acanha-se de pedir a

alguém que lhe escreva a missiva, mas, se um dia vence a vergonha, assim é que notará,

Meu querido rei, cá recebi a sua carta e nela vi tudo quanto tinha para me dizer, o trabalho

aqui não tem faltado, só paramos quando chove tanto que até os patos diriam basta, ou

quando se atrasou a pedra no caminho, ou quando os tijolos saíram de má qualidade e

ficamos à espera que venham outros, agora anda tudo aqui em grande confusão com a tal

ideia de alargar o convento, é que o meu querido rei nem imagina o tamanho daquele

monte e a soma de homens que requer, tiveram de largar a obra da igreja e do palácio, vai

ser um atraso, até canteiros e carpinteiros andam a acarretar pedra, eu umas vezes com os

bois, outras vezes com o carro de mão, tive foi pena dos limoeiros e dos pessegueiros que

foram arrancados, os amores-perfeitos foi um ar que lhes deu, não valia a pena ter semeado

flores para depois as tratar com tanta crueldade, mas enfim, como o meu querido rei diz

que não devemos nada a ninguém, sempre é uma satisfação, é como a minha mãe que dizia,

paga a dívida bem, não olhes a quem, coitada, já morreu, e não verá o maior e mais

formoso monumento sacro da história, como me disse na sua carta, ainda que, para ser-lhe

franco, nas histórias que conheço nunca se fala de monumentos sacros, só de mouras

encantadas e tesouros escondidos e por falar em tesouros e mouras, a Blimunda está bem,

muito obrigado, já não é tão bonita como foi, mas quem dera a muitas novas estarem como

ela, o José Pequeno manda perguntar quando é o casamento do infante D. José, que lhe

quer mandar um presente, se calhar é por terem ambos o mesmo nome, e os trinta mil

portugueses recomendam-se muito e agradecem, a saúde deles vai assim assim, no outro

dia houve aí uma caganeira tão geral que Mafra fedia três léguas em redor, alguma coisa que

comemos e nos assentou mal, eram os gorgulhos mais que a farinha, ou as varejeiras mais

que a carne, mas teve graça, ver um ror de gente de rabo à vela, com a frescura que vinha

do mar, muito aliviadora, e quando uns acabavam havia logo outros tantos, às vezes era tal

a urgência que onde estavam ali davam de corpo, ah, é verdade, ia-me esquecendo, também

nunca mais ouvi falar da máquina voadora, talvez a tenha levado o padre Bartolomeu

Lourenço para Espanha, quem sabe se a tem agora o rei de lá, que, segundo ouço dizer, vai

ser seu compadre, acautele-se, com isto não enfado mais, lembranças à rainha, adeus, meu

querido rei, adeus.

Esta carta nunca foi escrita, mas os caminhos da comunicação das almas são muitos,

quantos ainda misteriosos, e de tantas palavras que Sete-Sóis não chegou a ditar, algumas

foram ferir o coração do rei, tal como aquela fatal sentença que, para aviso de Baltasar, apareceu gravada a lume numa parede, pesado, contado, dividido, esse Baltasar não é o

Mateus que conhecemos, mas sim aquele outro que foi rei de Babilónia, e que, tendo

profanado, num festim, os vasos sagrados do templo de Jerusalém, por isso veio a ser

punido, morto às mãos de Ciro, que para a execução dessa divina sentença tinha nascido.

As culpas de D. João V são outras, se a alguns vasos profana são os das esposas do Senhor,

mas elas gostam e Deus não se importa, adiante. Aos ouvidos de D. João V, o que soou

como um dobre foi aquela passagem, quando Baltasar, falando da mãe, muito a lastima por

já não poder ver o maior e mais formoso dos monumentos sacros, Mafra. Subitamente, el-

rei compreende que a sua vida será curta, que curtas são todas as vidas, que muita gente

morreu e morrerá antes que se acabe de construir Mafra, que ele próprio poderá amanhã

fechar os olhos para todo o sempre. Recorda-se de que desistiu de edificar S. Pedro de

Roma justamente por tê-lo convencido Ludovice dessa mesma curteza das vidas, e que o

mesmo S. Pedro, palavras ditas, entre a bênção da primeira pedra e a consagração

consumiu nada menos que cento e vinte anos de trabalhos e riquezas. Ora, Mafra já

engoliu. onze anos de trabalho, das riquezas nem se deve falar, Quem me garante que

estarei vivo quando se fizer a sagração, se ainda aqui há uns poucos anos ninguém dava

nada por mim, com aquela melancolia que me ia levando antes de tempo, o caso é que a

mãe do Sete-Sóis, coitada, viu o princípio, mas não verá o fim, um rei não se livra de lhe

suceder o mesmo.

D. João V está numa sala do torreão, virada ao rio. Mandou sair os camaristas, os

secretários, os frades, uma cantarina da comédia, não quer ver ninguém. Tem desenhado na

cara o medo de morrer, vergonha suprema em monarca tão poderoso. Mas esse medo de

morrer não é o de se lhe abater de vez o corpo e ir-se embora a alma, é sim o de que não

estejam abertos e luzentes os seus próprios olhos quando, sagradas, se alçarem as torres e a

cúpula de Mafra, é o de que não sejam já sensíveis e sonoros os seus próprios ouvidos

quando soarem gloriosamente os carrilhões e as solfas, é o de não palpar com as suas mãos

os paramentos ricos e os panos da festa, é o de não cheirar o seu nariz o incenso dos

turíbulos de prata, é o de ser apenas o rei que mandou fazer e não o que vê feito. Vai além

um barco, quem sabe se chegará a porto, Passa uma nuvem no céu, porventura não a

veremos em chuva derramada, Sob aquelas águas, o cardume nada ao encontro da rede.

Vaidade das vaidades, disse Salomão, e D. João V repete, Tudo é vaidade, vaidade é desejar,

ter é vaidade.

Mas o vencimento da vaidade não é a modéstia, menos ainda a humildade, é antes o

seu excesso. Desta meditação e agonia não saiu el-rei para vestir o burel da penitência e da

renúncia, mas para fazer voltar os camaristas, os secretários e os frades, a cantarina viria mais tarde, a estes perguntando se era realmente verdade, consoante julgava saber, que a

sagração das basílicas se deve fazer aos domingos, e eles responderam que sim, segundo o

Ritual, e então el-rei mandou apurar quando cairia o dia do seu aniversário, vinte e dois de

Outubro, a um domingo, tendo os secretários respondido, após cuidadosa verificação do

calendário, que tal coincidência se daria daí a dois anos, em mil setecentos e trinta, Então é

nesse dia que se fará a sagração da basílica de Mafra, assim o quero, ordeno e determino, e

quando isto ouviram foram os camaristas beijar a mão do seu senhor, vós me direis qual é

mais excelente, se ser do mundo rei, se desta gente.

Deitaram reverentemente alguma água na fervura João Frederico Ludovice e o

doutor Leandro de Melo, chamados à pressa de Mafra, aonde o primeiro tinha ido e onde o

segundo assistia, os quais, com a memória fresca do que lá viam, disseram que o estado da

obra não consentia tão feliz previsão, tanto no que tocava ao convento, cujo segundo

corpo se ia levantando lentamente de paredes, como à igreja, por sua natureza de delicada

construção, um assembramento de pedras que não poderia ser feito à ligeira, vossa

majestade o sabe melhor que ninguém, se tão harmoniosamente concilia e equilibra as

partes de que se forma a nação. Carregou-se o sobrecenho de D. João V, porque a cansada

lisonja em nada o aliviara, e indo abrir a boca para responder com secura, preferiu chamar

outra vez os secretários e perguntar-lhes em que data voltaria a cair a um domingo o seu

aniversário, passada esta de mil setecentos e trinta, pelos vistos não bastante prazo.

Trabalharam eles afanosamente as suas aritméticas e com alguma dúvida responderam que

o acontecimento tornaria a dar-se dez anos depois, em mil setecentos e quarenta.

Estavam ali oito ou dez pessoas, entre rei, Ludovice, Leandro, secretários e fidalgos

de semana, e todos acenaram gravemente a cabeça, como se o próprio Hallev tivesse

acabado de explicar a periodicidade dos cometas, as coisas que os homens são capazes de

descobrir. Porém, D. João V teve um pensamento negro, viu-se-lhe na cara, e faz rápidas

contas, mentais, com ajuda dos dedos, Em mil setecentos e quarenta terei cinquenta e um

anos, e acrescentou lugubremente, Se ainda for vivo. E por alguns terríveis minutos tornou

a subir este rei ao Monte das Oliveiras, ali se agoniou com o medo da morte e o pavor do

roubo que lhe seria feito, agora acrescentando um sentimento de inveja, imaginar seu filho

já rei, com a rainha nova que está para vir de Espanha, gozando ambos as delícias de

inaugurar e ver sagrar Mafra, enquanto ele estaria apodrecendo em S. Vicente de Fora,

perto do infantezinho D. Pedro, morto tão pequenino da brutalidade do desmame.

Estavam os circunstantes olhando o rei, Ludovice com alguma curiosidade científica,

Leandro de Melo indignado contra a severidade da lei do tempo que nem as majestades

respeita, os secretários duvidando de terem acertado nos bissextos, os camaristas avaliando as suas próprias probabilidades de sobrevivência. Todos esperavam. E então D. João V

disse, A sagração da basílica de Mafra será feita no dia vinte e dois de Outubro de mil

setecentos e trinta, tanto faz que o tempo sobre como falte, venha sol ou venha chuva, caia

a neve ou sopre o vento, nem que se alague o mundo ou lhe dê o tranglomango.

Tirando as expressões enfáticas, esta mesma ordem já fora dada antes, parece não ser

mais que uma declaração solene para a história, como aquela, tão conhecida, Pai, nas tuas

mãos entrego o meu espírito, ora toma, afinal Deus não é maneta, não senhor, andou aí o

padre Bartolomeu Lourenço em domésticos sacrilégios afastando Baltasar Sete-Sóis do

recto caminho, quando bastaria ter ido perguntar ao Filho, que tem obrigação de saber

quantas mãos o Pai tem, mas, ao que D. João V já disse, se deverá acrescentar agora o que

vem de sabermos nós quantas mãos os filhos sujeitos têm e para que servem eles e elas,

Ordeno que a todos os corregedores do reino se mande que reunam e enviem para Mafra

quantos operários se encontrarem nas suas jurisdições, sejam eles carpinteiros, pedreiros ou

braçais, retirando-os, ainda que por violência, dos seus mesteres, e que sob nenhum

pretexto os deixem ficar, não lhes valendo considerações de família, dependência ou

anterior obrigação, porque nada está acima da vontade real, salvo a vontade divina, e a esta

ninguém poderá invocar, que o fará em vão, porque precisamente para serviço dela se

ordena esta providência, tenho dito. Ludovice acenou a cabeça gravemente, como quem

acabasse de verificar a regularidade duma reacção química, os secretários escrituraram

velocíssimas notas, os camaristas entreolharam-se e sorriram, isto é que é um rei, o doutor

Leandro de Melo estava a salvo desta nova obrigação porque na sua comarca já não havia

quem trabalhasse em ofícios que não servissem o convento, por via directa ou indirecta.

Foram as ordens, vieram os homens. De sua própria vontade alguns, aliciados pela

promessa de bom salário, por gosto de aventura outros, por desprendimento de afectos

também, à força quase todos. Deitava-se o pregão nas praças, e, sendo escasso o número

de voluntários, ia o corregedor pelas ruas, acompanhado dos quadrilheiros, entrava nas

casas, empurrava os cancelos dos quintais, saía ao campo a ver onde se escondiam os

relapsos, ao fim do dia juntava dez, vinte, trinta homens, e quando eram mais que os

carcereiros atavam-nos com cordas, variando o modo, ora presos pela cintura uns aos

outros, ora com improvisada pescoceira, ora ligados pelos tornozelos, como galés ou

escravos. Em todos os lugares se repetia a cena, Por ordem de sua majestade, vais trabalhar

na obra do convento de Mafra, e se o corregedor era zeloso, tanto fazia que estivesse o

requisitado na força da vida como já lhe escorregasse o rabo da tripeça, ou pouco mais

fosse que menino. Recusava-se u homem primeiro, fazia menção de escapar, apresentava

pretextos, a mulher no fim do tempo, a mãe velha, um rancho de filhos, a parede em meio, a arca por confortar, o alqueive necessário, e se começava a dizer as suas razões não as

acabava, deitavam-lhe a mão os quadrilheiros, batiam-lhe se resistia, muitos eram metidos

ao caminho a sangrar.

Corriam as mulheres, choravam, e as crianças acresciam o alarido, era como se

andassem os corregedores a prender para a tropa ou para a Índia. Reunidos na praça de

Celorico da Beira, ou de Tomar, ou em Leiria, em Vila Pouca ou Vila Muita na aldeia sem

mais nome que saberem-no os moradores de lá, nas terras da raia ou da borda do mar, ao

redor dos pelourinhos, no adro das igrejas, em Santarém e Beja, em Faro e Portimão, em

Portalegre e Setúbal, em Évora e Montemor, nas montanhas e na planície, e em Viseu e

Guarda, em Bragança e Vila Real, em Miranda, Chaves e Amarante, em Vianas e Póvoas,

em todos os lugares aonde pôde chegar a justiça de sua majestade, os homens, atados como

reses, folgados apenas quanto bastasse para não se atropelarem, viam as mulheres e os

filhos implorando o corregedor, procurando subornar os quadrilheiros com alguns ovos,

uma galinha, míseros expedientes que de nada serviam, pois a moeda com que el-rei de

Portugal cobra os seus tributos é o ouro, é a esmeralda, é o diamante, é a pimenta e a

canela, é o marfim e o tabaco, é o açúcar e a sucupira, lágrimas não correm na alfândega. E

se para isso tiveram tempo, quadrilheiros houve que se gozaram das mulheres dos presos,

que a tanto se sujeitaram as pobres para não perder os seus maridos, porém desesperadas

os viam depois partir, enquanto os aproveitadores se riam delas Maldito sejas até à quinta

geração, de lepra se te cubra o corpo todo, puta vejas a tua mãe, puta a tua mulher, puta a

tua filha, empalado sejas do cu até à boca, maldito, maldito, maldito. Já vai andando a récua

dos homens de Arganil, acompanham-nos até fora da vila as infelizes, que vão clamando,

qual em cabelo, ó doce e amado esposo, e outra protestando, ó filho, a quem eu tinha só

para refrigério e doce amparo desta cansada já velhice minha, não se acabavam as

lamentações, tanto que os montes de mais perto respondiam, quase movidos de alta

piedade, enfim já os levados se afastam, vão sumir-se na volta do caminho, rasos de

lágrimas os olhos, em bagadas caindo aos mais sensíveis c então uma grande voz se levanta,

é um labrego de tanta idade já que o não quiseram, e grita subido a um valado que é púlpito

de rústicos, Ó glória de mandar, ó vã cobiça, ó rei infame, ó pátria sem justiça, e tendo

assim clamado, veio dar-lhe o quadrilheiro uma cacetada na cabeça, que ali mesmo o

deixou por morto.

Quanto pode um rei. Está sentado em seu trono, alivia-se consoante a necessidade,

na peniqueira ou no ventre das madres, e daí daqui ou dacolá, se o requerem os interesses

do Estado, cujo ele é, despacha ordens para que de Penamacor venham os homens válidos,

ou nem tanto, a trabalhar neste meu convento de Mafra, levantado porque o reclamavam os franciscanos desde mil seiscentos e vinte e quatro, e por enfim ter ocupado a rainha

duma filha, que nem rainha de Portugal vai ser, mas de Espanha, por interesses dinásticos e

particulares. E os homens, que nunca viram o rei, os homens que o rei nunca viu, os

homens, mesmo não o querendo vêm, entre soldados e quadrilheiros, soltos se são de

ânimo pacífico ou já se resignaram, atados como foi explicado, se rebeldes atados sempre

se por malícia viloa mostraram ir de vontade e depois tentaram fugir, pior ainda se algum

conseguiu escapar-se. Atravessam os campos, de terra em terra, pelas poucas estradas reais,

às vezes por aquelas que os romanos fizeram construir, quase sempre por carreiros de pé

posto, e o tempo é o variável, sol de estarrecer, chuva de alagar, frio que gela, em Lisboa

sua majestade espera que cada um cumpra o seu dever.

Às vezes, há encontros. Vinham uns mais do Norte, outros mais do Nascente,

aqueles de Penela, esses de Proença-a-Nova, juntaram-se em Porto de Mós, nenhum deles

sabe que lugares são estes no mapa, nem que forma tem Portugal, se é quadrado, ou

redondo, ou aos bicos, se é ponte de passar ou corda de enforcar, se grita quando lhe

batem ou se se esconde pelos cantos. Das duas levas se faz uma, e tendo já seus requintes a

arte carcereira, emparelharam-se os homens de modo místico, um de Proença, outro de

Penela, assim se dificultando as subversões, com o evidente benefício de dar Portugal a

conhecer aos portugueses, Então como é a tua terra, e enquanto falam disto não pensam

noutra coisa. A não ser que morra algum pelo caminho. Pode cair fulminado por um

ataque, espumando pela boca, ou nem isso, apenas derrubando-se e arrastando na queda o

companheiro da frente e o companheiro de trás, subitamente e em pânico atados a um

morto, pode adoecer no descampado e vai de charola, trangalhando pernas e braços, até

morrer adiante e ser enterrado à beira do caminho, com uma cruz de pau espetada do lado

da cabeça, ou afortunadamente recebe em povoado os últimos sacramentos, enquanto os

degredados esperam sentados no chão que o caso se deslinde, Hoc est enim corpus meum,

este corpo cansado de tantas léguas andadas, este corpo esfolado dos atritos da corda, este

corpo gastado da comida ainda menos que a pouca costumada. As noites são dormidas em

palheiros, em portarias de conventos, em tercenas despejadas, e, querendo Deus e o bom

tempo, ao ar livre, assim se juntando a liberdade do ar e a prisão dos homens, extensas

filosofias aqui se debateriam se tivéssemos tempo para isso. De madrugada, muito antes de

nascer o sol, e ainda bem, porque estas horas são sempre as mais frias, levantam-se os

trabalhadores de sua majestade, enregelados e famintos, felizmente os libertaram das cordas

os quadrilheiros, porque hoje entraremos em Mafra e causaria péssimo efeito o cortejo de

maltrapilhos, atados como escravos do Brasil ou récua de cavalgaduras. Quando de longe

avistam os muros brancos da basílica, não gritam, Jerusalém, Jerusalém, por isso é mentira o que disse aquele frade que pregou quando foi levada de Pêro Pinheiro a pedra a Mafra,

que todos estes homens são cruzados duma nova cruzada, que cruzados são estes que tão

pouco sabem da sua cruzadia. Fazem alto os quadrilheiros, para que desta eminência

possam os trazidos apreciar o amplo panorama no meio do qual vão viver, à direita o mar

onde navegam as nossas naus, senhoras do líquido elemento, em frente, para o Sul, está a

famosíssima serra de Sintra, orgulho de nacionais, inveja de estrangeiros, que daria um bom

paraíso no caso de Deus fazer outra tentativa, e a vila, lá em baixo na cova, é Mafra, que

dizemos eruditos ser isso mesmo o que quer dizer, mas um dia se hão-de rectificar os

sentidos e naquele nome será lido, letra por letra, mortos, assados, fundidos, roubados,

arrastados, e não sou eu, simples quadrilheiro às ordens, quem a tal leitura se vai atrever,

mas sim um abade beneditino a seu tempo, e essa será a razão que tem para não vir assistir

à sagração da bisarma, porém, não antecipemos, ainda há muito trabalho para acabar, por

causa dele é que vocês vieram das longes terras onde vivíeis, não façam caso da falta de

concordância, que a nós ninguém nos ensinou a falar, aprendemos com os erros dos

nossos pais, e, além disso, estamos em ,tempo de transição, e agora que já viram o que vos

espera, sigam lá para adiante, que nós, ficando vocês entregues, vamos buscar mais.

Para chegarem à obra, vindos donde vêm, têm de atravessar a vila, passam à sombra

do palácio do visconde, rasam a soleira dos Sete-Sóis, e tanto sabem de uns como sabem

dos outros, apesar de genealogias e memoriais, Tomás da Silva Teles, bisconde de Vila

Nova da Cerveira, Baltasar Mateus, fabricante de aviões, com o rodar dos tempos veremos

quem vai ganhar esta Querra. As janelas do palácio não se abrem para ver passar o cortejo

dos miseráveis, só o cheiro que deitam, senhora biscondessa. Abriu-se, sim, o postigo da

casa dos Sete-Sóis e veio Blimunda olhar, não é nenhuma novidade, quantas levas já por

aqui passaram, mas, estando em casa, sempre vem ver, é uma maneira de receber quem

chegou, e quando à noite Baltasar regressa, ela diz, Por aqui passaram hoje mais de cem,

perdoe-se a imprecisão de quem não aprendeu a contar rigoroso foram muitos, foram

poucos, é como quando se fala de anos, já passei dos trinta, e Baltasar diz, Ao todo ouvi

dizer que chegaram quinhentos, Tantos, espanta-se Blimunda, e nem um nem outro sabem

exactamente quantos são quinhentos, sem falar que o número é de todas as coisas que há

no mundo a menos exacta, diz-se quinhentos tijolos, diz-se quinhentos homens, e a

diferença que há entre tijolo e homem é a diferença que se julga não haver entre quinhentos

e quinhentos, quem isto não entender à primeira vez não merece que lho expliquem

segunda.

Juntam-se os homens que entraram hoje, dormem onde calhar, amanhã serão

escolhidos. Como os tijolos. Os que não prestarem, se foi de tijolos a carga, ficam por aí, acabarão por servir a obras de menos calado, não faltará quem os aproveite, mas, se foram

homens, mandam-nos embora, em hora boa ou hora má, Não serves, volta para a tua terra,

e eles vão, por caminhos que não conhecem, perdem-se, fazem-se vadios, morrem na

estrada, às vezes roubam, às vezes matam, às vezes chegam.

Porém, ainda se encontram famílias felizes. A real de Espanha é uma. A de Portugal é

outra. Casam-se filhos daquela com filhos desta, da banda deles vem Mariana Vitória, da

banda nossa vai Maria Bárbara, os noivos são o José de cá e o Fernando de lá,

respectivamente, como se costuma dizer. Não são combinações do pé para a mão, os

casamentos estão feitos desde mil setecentos e vinte e cinco. Muita conversa para a

conversa, muito embaixador, muito regateio, muitas idas e vindas de plenipotenciários,

discussões sobre as cláusulas dos contratos de matrimónio, as prerrogativas, os dotes das

meninas, e não podendo estas uniões ser feitas à ligeira, nem à porta do talho, onde

grosseiramente se diz que são combinados os amiganços, só agora, quase um lustro

passado, se fará a troca das princesas, uma a ti, outra a mim.

Maria Bárbara tem dezassete anos feitos, cara de lua cheia, bexigosa como foi dito,

mas é uma boa rapariga, musical a quanto pode chegar uma princesa, pelo menos não

caíram em cesto roto as lições do seu mestre Domenico Scarlatti, que com ela seguirá para

Madrid, donde não volta. Espera-a um noivo que é mais novo dois anos, o tal Fernando,

que será o sexto da tabela espanhola e de rei pouco mais terá que o nome, informação que

apenas de passagem fica, para que não se insinue que estamos interferindo nas questões

internas do país vizinho. Do qual, assim ficando excelentemente feita a ligação à história

deste nosso, do qual, repetimos, virá Mariana Vitória, uma garotinha de onze anos, que,

apesar da pouca idade, já tem uma dolorosa experiência de vida, basta dizer que esteve para

casar-se com Luís XV de França e foi por ele repudiada, palavra que parece excessiva e

nada diplomática, mas que outra se há-de usar se, uma criança, na tenra idade de quatro

anos, vai viver para a corte francesa a fim de se educar para o dito casamento, e dois anos

depois é mandada para casa porque de repente deu a febre ao prometido, ou aos interesses

de quem v orientava, de ter rapidamente herdeiros a coroa, necessidade que a pobrezinha,

por inabilitação fisiológica, não poderia satisfazer antes de decorridos uns oito anos. Veio

devolvida a coitada, magrinha e delicada, um pisco a comer, com v mal inventado pretexto

de visitar os pais, rei Filipe, rainha Isabel, e pronto, ficou em Madrid, à espera de que lhe

arranjassem noivo menos apressado, calhou ser o nosso José, agora com quinze anos, a

fazer. Dos prazeres de Mariana Vitória não há muito que dizer, gosta de bonecas, adora

confeitos, nem admira, está na idade, mas já é habilíssima caçadora, e, crescendo, estimará a

música e a leitura. Há quem governe mais sabendo menos.

A história dos casamentos está cheia de gente que ficou do lado de fora da porta, por

isso, para evitar vexames, se avisa que a boda, e também a baptizado, não vás sem ser

convidado. Convidado não foi, decerto, aquele João Elvas amigo de Sete-Sóis pelo tempo

que este viveu em Lisboa antes de conhecer Blimunda e a ela se juntar, chegou a dar-lhe

abrigo na barraca onde dormia, com outros meio vadios, ali ao convento da Esperança,

como todos estamos lembrados. Já então não era novo, hoje está um velho, sessenta anos

subitamente mordidos pela saudade de voltar à terra onde nasceu e de que havia tomado o

nome, são desejos que justamente dão aos velhos quando já não vão podendo ter outros.

De meter pernas ao caminho é que duvidava, não por se temer da fraqueza delas, ainda

rijíssimas para a idade, mas por causa daqueles grandes descampados de Alentejo, ninguém

está livre de maus encontros, haja vista o que aconteceu a Baltasar Sete-Sóis nos pinheirais

de Pegões, embora neste caso se deva ..dizer que mau encontro foi o do salteador que lá

ficou, exposto aos corvos e aos cães, se depois o não foi enterrar o camarada. Mas, em

verdade, um homem nunca sabe para o que está guardado, que parte de bem e mal o

espera. Quem diria a João Elvas, nos seus antigos tempos de soldadia, e nestes agora de

vadiagem, ainda que pacífica, que havia de chegar-lhe a hora de acompanhar o rei de

Portugal na sua ida ao rio Caia para levar uma princesa e trazer outra, sim, quem diria.

Ninguém lho disse, ninguém previu, só o sabia o acaso que de longe vinha escolhendo e

atando os fios do destino, diplomáticos e dinásticos os das duas cortes, de saudades da

terra e desamparo os do soldado velho. Se um dia chegarmos a decifrar estas malhas

cruzadas, endireitaremos o fio da vida e atingiremos a sabedoria suprema, se na existência

de tal coisa insistimos em acreditar.

Claro está que João Elvas não vai de coche nem a cavalo. Já ficou dito que tem boas

pernas para andar, sirva-se então delas. Mas, ou mais à frente, ou mais atrás, sempre D.

João V lhe fará companhia, como igualmente lha farão a rainha e os infantes, o príncipe e a

princesa, e todo o poder do mundo que na viagem vai. Nunca a suma grandeza destes

senhores suspeitará que vai escoltando um vagabundo, segurando-lhe a vida e os bens tão

perto de se acabarem. Mas, para que não se acabem cedo de mais, sobretudo a vida, bem

precioso, não convém muito a João Elvas que se intrometa no cortejo, sabido como é

terem a mão leve os soldados, e pesada, benza-os Deus, se lhes passa pela cabeça que corre

perigo a também preciosa segurança de sua majestade.

Assim acautelado, largou João Elvas de Lisboa e passou a Aldegalega nos primeiros

dias deste mês de Janeiro de mil setecentos e vinte e nove, e ali se demorou assistindo ao

desembarque das carruagens e cavalgaduras que vão servir no caminho. Para sua ilustração

ia fazendo perguntas, que é isto, donde veio, quem fez, quem vai usar, parecem despropositadas indiscrições, mas a este velho de aspecto venerando, ainda que sujo,

qualquer criado de cavalariça entende dever resposta, e, crescendo a confiança, até do

abegão se colhem informações, basta mostrar-se piedoso João Elvas, que, se de rezas sabe

pouco, conhece de fingimento quanto sobra. E se, em vez de resposta plausível, veio

empurrão, mau modo e soco vesgo, por aí mesmo se adivinhará o que não foi dito, no fim

se acertarão as contas dos erros com que se faz a história. Assim, quando D. João V

atravessou o rio, no dia oito de Janeiro, para principiar a sua grande viagem, havia em

Aldegalega, à sua espera, para cima de duzentas viaturas, entre estufas, caleças, seges de

campo, galeras, carromatos, andas, uns que tinham vindo de Paris, outros feitos de

propósito em Lisboa para a ocasião, sem falar nos coches reais, com as douraduras frescas,

os veludos renovados, as borlas e sanefas penteadas. Da real cavalariça, só em bestas, eram

quase duas mil, não se incluindo nelas os cavalos da guarda do corpo e os dos regimentos

de tropa que acompanham o cortejo. Aldegalega, que, por ser ponto obrigatório de

passagem para o Alentejo, tem visto muito, nunca viu tanto, basta este pequeno rol de

servidores, cozinheiros são duzentos e vinte e dois, archeiros duzentos, reposteiros setenta,

moços da prata cento e três, criados das cavalariças mais de mil, e um ror incontável de

outros criados e escravos de diversos tons de preto. Aldegalega é um mar de gente, e muito

maior seria se aqui estivessem os fidalgos e outros senhores que já lá vão adiante, a

caminho de Elvas e do Caia, nem tinham outro remédio, se todos partissem ao mesmo

tempo casavam-se os príncipes e ainda o último convidado estaria a entrar em Vendas

Novas.

Passou el-rei no seu bergantim, primeiro tinha ido visitar a imagem da Senhora da

Madre de Deus, e com ele desembarcaram o príncipe D. José, o infante D. António, mais

os criados que os serviam, que eram o senhor duque de Cadaval, o senhor marquês de

Marialva, o senhor marquês de Alegrete, um gentil-homem do senhor infante, e outros

senhores, não há que estranhar chamarem-lhes criados, que sê-lo da família real é honra.

João Elvas estava no meio do povo que abria alas e aclamava, real, real, por D. João V, rei

de Portugal, se não era assim que diziam, então seria aquele vozear que só pelo tom

permite distinguir entre o aplauso e o apupo, livrasse-se alguém de lançar um doesto, nem

aliás se imagina que venha a ser possível faltar ao respeito que se deve a um rei, mormente

sendo português. D. João V foi aposentar-se nas casas do escrivão da câmara, João Elvas já

sofrera o seu primeiro desengano quando veio a descobrir que não faltavam pedintes e

outros vadiantes para acompanhar o cortejo, na mira de sobejos e de esmolas. Paciência.

Donde estes comessem, também ele comeria, mas, de todas, era a razão da sua viagem a

mais merecedora.

Madrugada, escuro ainda, eram umas cinco e meia, saiu el-rei para Vendas Novas,

mas primeiro que ele saiu João Elvas, porque queria, com os seus olhos, ver passar a

comitiva em aparato completo, não o confuso arraial da partida, com as viaturas a tomar os

seus lugares, às ordens do mestre-de-cerimónias, entre berros de sotas e cocheiros, gente

pouco travada de língua, como geralmente é conhecido. Não sabia João Elvas que el-rei

ainda ia ouvir missa à Senhora da Atalaia, por isso, tardando-lhe o cortejo, já manhã clara,

abrandou o passo, e enfim parou, onde raio se teriam metido eles, sentou-se num valado,

abrigado da brisa matinal por um renque de piteiras. O céu estava encoberto, com nuvens

baixas, a prometer chuva, o frio cortava. João Elvas enrolou-se melhor no capote, derrubou

as abas do chapéu para as orelhas, e pôs-se à espera. Passou assim uma hora, talvez mais,

na estrada raros passavam, nem parece isto dia de festa.

Mas a festa vem aí. Já se ouvem ao longe toques de trombetas e bumbos de atabales,

acelera-se o velho sangue militar de João Elvas, são emoções esquecidas que de repente

voltam, é como ver passar uma mulher quando delas não há mais que lembranças, e, ou

por um riso, ou por um bandear de saia, ou por um jeito dos cabelos, sente um homem

derreterem-se-lhe os ossos, leva-me, faz de mim o que quiseres, tal qual como se nos

chamasse a guerra. E eis que passa o triunfal cortejo. João Elvas só vê cavalos, gente e

viaturas, não sabe quem está dentro nem quem vai fora, mas a nós não nos custa nada

imaginar que ao lado dele se foi sentar um fidalgo caridoso e amigo de bem-fazer, que os

há, e como esse fidalgo é daqueles que tudo sabem de corte e cargos, ouçamo-lo com

atenção, Olha, João Elvas, depois do tenente e dos trombetas e atabaleiros que já passaram,

mas esses conhecias tu, que foste da arte, vem agora o aposentador da corte com os seus

subalternos, é ele quem tem a responsabilidade dos cómodos, aqueles seis a cavalo são

correios de gabinete, levam e trazem as informações e as ordens, agora passa a berlinda

com os confessores do rei, do príncipe e do infante, não imaginas a carga de pecados que

ali vai, pesam muito menos as penitências, depois aparece a berlinda com os moços do

guarda-roupa, para que é esse espanto, sua majestade não é pobretão como tu, que só tens

o que trazes em cima do corpo, coisa estranha, ter só o que se traz em cima do corpo, e

outra vez não te espantes com essas duas berlindas cheias de clérigos e padres da

Companhia de Jesus, nem sempre galinha, nem sempre sardinha, umas vezes companhia de

Jesus, outras vezes companhia de João, ambos reis, mas estas acolitâncias não são de sabor

menor, e por falar disto, aí tens a berlinda do estribeiro-menor, as três que vêm atrás são do

corregedor da corte e dos fidalgos da casa de el-rei, segue-se a estufa do estribeiro-mor,

depois os coches dos camaristas dos infantes, e agora atenção, agora é que começa a valer a

pena, estes coches e estufas vazios que passam são os coches e estufas de respeito das reais pessoas, a seguir, a cavalo, aparece o estribeiro-menor, enfim, chegou o momento, põe o

joelho em terra, João Elvas, que estão passando el-rei e o príncipe D. José, e o infante D.

António, é o teu rei quem passa, papagaio real que vai à caça, vê que majestade, que

presença incomparável, que gracioso e severo semblante, assim Deus estará no céu, não

duvides, ai João Elvas, João Elvas, por muitos anos que ainda tenhas para viver nunca hás-

de esquecer este momento de felicidade perfeita, quando viste D. João V passando no seu

coche, estando tu de joelhos ao pé destas piteiras, guarda bem na memória estas imagens, ó

privilegiado, e agora podes-te levantar, já passaram, já lá vão, iam também seis moços de

estribeira, a cavalo, estas quatro estufas, aqui, levam a câmara de sua majestade, depois vem

a sege do cirurgião, se vão tantos dos que tratam das almas, alguém havia de vir para cuidar

do corpo, daí para trás é que já não há muito que ver, seis seges de reserva, sete cavalos de

mão, a guarda de cavalaria com o seu capitão, e mais vinte e cinco seges que são do

barbeiro de el-rei, dos copeiros, dos moços de câmara, dos arquitectos, dos capelães, dos

médicos, dos boticários, dos oficiais de secretaria, dos reposteiros, dos alfaiates, das

lavadeiras, do cozinheiro-mor, e do menor, e mais e mais, duas galeras que levam o guarda-

roupa de el-rei e do príncipe, e, a fechar, vinte e seis cavalos de mão, alguma vez viste um

cortejo como este, João Elvas, agora junta-te a esse rebanho de pedintes, que lá é o teu

lugar, e não me agradeças a caridade de te ter explicado tudo, todos somos filhos do

mesmo Deus.

Juntou-se João Elvas à tropa dos vagabundos, mais sabedor de cortes que todos eles,

e não foi muito bem recebido, esmola dividida por cem não é igual a esmola que cento e

um dividam, mas o grosso cajado que leva ao ombro como uma lança, e certa marcialidade

de passo e gesto, acabaram por intimidar a quadrilha. Meia légua andada, todos eram

irmãos. Quando chegaram aos Pegões, já el-rei estava jantando, uma refeição leve, de pé,

umas adéns estufadas com marmelos, uns pastelinhos de tutano, uma olha moura, quanto

bastava para aconchegar a cova dum dente. Entretanto, mudavam-se os cavalos. A falperra

de pedintes ajuntou-se à porta das cozinhas, armou v seu coro de padre-nossos e salve-

rainhas, e enfim manjou do caldeirão. Alguns, só porque comeram hoje, deixaram-se ficar

por ali, a esmoer, imprevidentes. Outros, ainda que fartos, sabendo que o pão de agora não

mata a fome de ontem, muito menos a de amanhã, seguiram a pitança que já lá ia no

caminho. João Elvas, por suas próprias razões, puras e impuras, foi com eles.