Memorial do Convento

José Saramago · Capítulo 4 de 30

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Memorial do Convento

Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens,…

Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Blimunda

respondeu, Dezanove anos, mas já então se tornara muito mais velha. Correu algum sangue

sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador humedecidos nele, Blimunda

persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltasar, sobre o coração. Estavam ambos nus.

Numa rua perto ouviram vozes de desafio, bater de espadas, correrias. Depois o silêncio.

Não correu mais sangue.

Quando, de manhã, Baltasar acordou, viu Blimunda deitada ao seu lado, a comer pão,

de olhos fechados. Só os abriu, cinzentos àquela hora, depois de ter acabado de comer, E

disse, Nunca te olharei por dentro.

Levar este pão à boca é gesto fácil, excelente de fazer se a fome o reclama, portanto

alimento do corpo, benefício, do lavrador, provavelmente maior benefício de alguns que

entre a foice e os dentes souberam meter mãos de levar e trazer e bolsas de guardar, e esta

é a regra. Não há em Portugal trigo que baste ao perpétuo apetite que os portugueses têm

de pão, parece que não sabem comer outra coisa, por isso os estrangeiros que cá moram,

doridos das nossas necessidades, que em maior volume frutificam que sementes de

abóbora, mandam vir, das suas próprias e outras terras, frotas de cem navios carregados de

cereal, como estes que entraram agora Tejo adentro, salvando à torre de Belém e

mostrando ao governador dela os papéis do uso, e desta vez são mais de trinta mil moios

de pão que vêm da Irlanda, e é a abundância tal, fome que finalmente deu em fartura,

enquanto em fome se não tornar, que, achando-se cheias as tercenas e também já os

armazéns particulares, andam por aí a alugar depósitos por todo o dinheiro, e põem

escritos nas portas da cidade para que conste às pessoas que os tiverem para alugá-los, com

que desta vez se vão arrepelar os que mandaram vir o trigo, obrigados pelo excesso a

baixar-lhe o preço, tanto mais que se fala em próxima chegada de uma frota da Holanda

carregada do mesmo género, mas desta virá a saber-se que a assaltou uma esquadra

francesa quase na entrada da barra, e assim o preço, que ia baixar, não baixa, se for preciso

deita-se fogo a um celeiro ou dois, mandando em seguida apregoar a falta que o trigo

ardido já está fazendo, quando julgávamos que havia tanto e de sobra. São mistérios

mercantis que os de fora ensinam e os de dentro vão aprendendo, embora estes sejam

ordinariamente tão estúpidos, de mercadores falamos, que nunca mandam vir eles próprios

as mercadorias das outras nações, antes se contentam com comprá-las aqui aos estrangeiros

que se forram da nossa simplicidade e forram com ela os cofres, comprando a preços que nem sabemos e vendendo a outros que sabemos bem de mais porque os pagamos com

língua de palmo e a vida palmo a palmo.

Porém, morando o riso tão perto da lágrima, o desafogo tão cerca da ânsia, o alívio

tão vizinho do susto, nisto se passando a vida das pessoas e das nações, conta João Elvas a

Baltasar Sete-Sóis o formoso passo bélico de se ter armado a marinha de Lisboa, de Belém

a Xabregas, por espaço de dois dias e duas noites, ao mesmo tempo que em terra tomavam

posições de combate os terços e a cavalaria, porque correra a nova de que vinha uma

armada francesa a conquistar-nos, hipótese em que qualquer fidalgo, ou plebeu qualquer,

seria aqui outro Duarte Pacheco Pereira, e Lisboa uma nova praça de Diu, e afinal a armada

invasora transformou-se em uma frota de bacalhau, que boa falta estava fazendo, como não

tardou a ver-se pelo apetite. De riso murcho souberam os ministros a notícia, de riso

amarelo largaram os soldados ás armas e os cavalos, mas foram altas e estrepitosas as

gargalhadas do vulgo, assim desforrado de não poucas vexações. Enfim, pior que a

vergonha de esperar o francês e ver chegar o bacalhau, seria contar com o bacalhau e entrar

o francês.

Sete-Sóis concorda, mas imagina-se na pele dos soldados que esperavam a batalha,

sabe como bate então o coração, que irá ser de mim, se daqui a pouco ainda estarei vivo,

apura-se um homem à altura da possível morte e depois vêm dizer-lhe que estão a

descarregar fardos de bacalhau na Ribeira Nova, se os franceses vêm a saber do engano,

ainda se rirão mais de nós. Vai Baltasar para ter outra vez saudades da guerra, mas lembra-

se de Blimunda e lança-se a querer averiguar de que cor são os olhos dela, é uma guerra em

que anda com a sua própria memória, que tanto lhe lembra uma cor como outra, nem os

seus próprios olhos conseguem decidir que cor de olhos estão vendo quando os têm

diante. Desta maneira se esqueceu das saudades que ia sentir, e responde a João Elvas,

Devia era haver maneira certa de saber quem vem e o que traz ou quer, sabem-no as

gaivotas que vão pousar nos mastros, e nós, a quem mais importaria, não sabemos, e o

soldado velho disse, As gaivotas têm asas, também as têm os anjos, mas as gaivotas não

falam, e de anjos nunca vi nenhum.

Atravessava o Terreiro do Paço o padre Bartolomeu Lourenço, que vinha do palácio

aonde fora por instância de Sete-Sóis, desejoso de que se apurasse se sim ou não haveria

uma pensão de guerra, se tanto vale a simples mão esquerda, e quando João Elvas, que da

vida de Baltasar não sabia tudo, viu aproximar-se o padre, disse em continuação da

conversa, Aquele que ali vem é o padre Bartolomeu Lourenço, a quem chamam o Voador,

mas ao Voador não cresceram bastante as asas, e assim não poderemos ir espiar as frotas

que querem entrar e as intenções ou negócios que trazem. Não pôde Sete-Sóis responder porque o padre, parando arredado, lhe fez sinal para que se aproximasse, assim ficando

João Elvas na grande estupefacção de ver o seu amigo bafejado pelos ares do Paço e da

Igreja, e já pensando se disto poderia vir a tirar proveito um soldado vadio. E para que

alguma coisa se fosse adiantando entretanto, estendeu a mão à esmola, primeiro a um

fidalgo que de boa maré lha deu, depois, por distracção, a um frade mendicante que

passava exibindo uma imagem e oferecendo-a ao ósculo devoto, com o que João Elvas

acabou por largar o que tinha recebido. Não me cair um raio em cima, será pecado

praguejar, mas alivia muito.

Disse o padre Bartolomeu Lourenço a Sete-Sóis, Falei com os desembargadores

destas matérias, disseram-me que iam ponderar o teu caso, se vale a pena fazeres petição,

depois me darão uma resposta, E quando será isso, padre, quis Baltasar saber, ingénua

curiosidade de quem acaba de chegar à corte e lhe ignora os usos, Não te sei dizer, mas,

tardando, talvez eu possa dizer uma palavra a sua majestade, que me distingue com a sua

estima e protecção, Pode falar com el-rei, espantou-se Baltasar, e acrescentou, Pode falar a

el-rei e conhecia a mãe de Blimunda, que foi condenada pela Inquisição, que padre é este

padre, palavras estas últimas que Sete-Sóis não terá dito em voz alta, só inquieto as pensou.

Bartolomeu Lourenço não respondeu, apenas o olhou a direito, e assim ficaram parados, o

padre um pouco mais baixo e parecendo mais novo, mas não, têm ambos a mesma idade,

vinte e seis anos, como de Baltasar já sabíamos, porém são duas diferentes vidas, a de Sete-

Sóis trabalho e guerra, uma acabada, outro que terá de recomeçar, a de Bartolomeu

Lourenço, que no Brasil nasceu e novo veio pela primeira vez a Portugal, de tanto estudo e

memória que, sendo moço de quinze anos, prometia, e muito fez do que prometeu, dizer

de cor todo Virgílio, Horácio, Ovídio, Quinto Cúrcio, Suetónio, Mecenas e Séneca, para

diante e para trás, ou donde lhe apontassem, e dar a definição de todas as fábulas que se

escreveram, e a que fim as fingiram os gentios gregos e romanos, e também dizer quem

foram os autores de todos os livros de versos, antigos e modernos, até ao ano de mil e

duzentos, e se alguém lhe dissesse uma poesia, logo responderia a propósito com dez

versos seus ali mesmo compostos, e prometia também justificar e defender toda a filosofia

e os pontos mais intricados dela, e explicar a parte de Aristóteles, ainda que extensa, com

todos os seus embaraços, termos e meios termos, e responder a todas as dúvidas da

Sagrada Escritura, tanto do Testamento Velho como do Novo, repetindo de cor, quer a fio

corrido quer salteado, todos os Evangelhos dos quatro Evangelistas, para trás e para diante,

e o mesmo das epístolas de S. Paulo e S. Jerónimo, e os anos de profeta a profeta e quantos

de vida teve cada um deles, e o mesmo de todos os reis da Escritura, e o mesmo, para

baixo e para cima, para a esquerda e para a direita, dos Livros dos Salmos, dos Cantares, do Exodo e todos os Livros dos Reis, e que não são canónicos os dois Livros dos Esdras,

como afinal não parecem muito canónicos, diga-se aqui para nós e sem outras

desconfianças, este sublime engenho, estas prendas e memória nascidas e criadas em terra

de que só temos requerido o ouro e os diamantes, o tabaco e o açúcar, e as riquezas da

floresta, e o mais que nela ainda virá a ser encontrado, terra doutro mundo, amanhã e pelos

séculos que hão-de vir, sem contar com a evangelização dos tapuias, que só ela nos faria

ganhar a eternidade.

Agora me disse aquele meu amigo João Elvas que tendes apelido de Voador, padre,

por que foi que vos deram tal nome, perguntou Baltasar. Começou Bartolomeu Lourenço a

afastar-se, o soldado foi atrás dele, e, distantes dois passos um do outro, seguiram ao longo

do Arsenal da Ribeira das Naus, do palácio do Corte Real, e adiante, nos Remolares, onde a

praça se abria para o rio, sentou-se o padre numa pedra, fez sinal a Sete-Sóis para que se

acomodasse ao lado dele, e enfim respondeu, como se agora mesmo tivesse ouvido a

pergunta, Porque eu voei, e disse Baltasar, duvidoso, Com perdão da confiança, só os

pássaros voam, e os anjos, e os homens quando sonham, mas em sonhos não há firmeza,

Não tens vivido em Lisboa, nunca te vi, Estive na guerra quatro anos e a minha terra é

Mafra, Pois eu faz dois anos que voei, primeiro fiz um balão que ardeu, depois construí

outro que subiu até ao tecto duma sala do paço, enfim outro que saiu por uma janela da

Casa da Índia e ninguém tornou a ver, Mas voou em pessoa, ou só voaram os balões,

Voaram os balões, foi o mesmo que ter voado eu, Voar balão não é voar homem, O

homem primeiro tropeça, depois anda, depois corre, um dia voará, respondeu Bartolomeu

Lourenço, mas logo se pôs de joelhos porque estava passando o Corpo de Nosso Senhor

para algum doente de qualidade, o padre debaixo do pálio sustentado por seis pessoas, à

frente os trombetas, atrás os irmãos da confraria, de opas encarnadas e círios na mão, mais

as coisas necessárias à administração do Santíssimo Sacramento, alguma alma impaciente

por voar, apenas à espera de que a aliviassem do lastro corporal e a pusessem de frente para

o vento que vem do mar largo, ou do fundo universo, ou do último lugar de além. Sete-

Sóis também se ajoelhara, tocando o chão com o seu gancho de ferro enquanto se

persignava.

Já não se sentou o padre Bartolomeu Lourenço, devagar aproximou-se da beira do

rio, com Baltasar atrás, e ali, estando a um lado uma barca a descarregar palha em grandes

panais que os mariolas transportavam às costas correndo equilibrados sobre a prancha, e a

outro lado chegando-se duas escravas pretas a despejar para a água os calhandros de seus

amos, o mijo e a merda do dia ou da semana, entre o natural cheiro da palha e o cheiro

natural do excremento, disse o padre, Tenho sido a risada da corte e dos poetas, um deles, Tomás Pinto Brandão, chamou ao meu invento coisa de vento que se há-de acabar cedo, se

não fosse a protecção de el-rei não sei o que seria de mim, mas el-rei acreditou na minha

máquina e tem consentido que, na quinta do duque de Aveiro, a S. Sebastião da Pedreira,

eu faça os meus experimentos, enfim já me deixam respirar um pouco os maldizentes, que

chegaram ao ponto de desejar que eu partisse as pernas quando me lançasse do castelo,

sendo certo que nunca eu tal coisa prometera, e que a minha arte tinha mais que ver com a

jurisdição do Santo Ofício que com a geometria, Padre Bartolomeu Lourenço, eu destas

coisas não entendo, fui homem do campo, soldado deixei de ser, e não creio que alguém

possa voar sem lhe terem nascido asas, quem o contrário disser, entende tanto disso como

de lagares de azeite, Esse gancho que tens no braço não o inventaste tu, foi preciso que

alguém tivesse a necessidade e a ideia, que sem aquela esta não ocorre, juntasse o couro e o

ferro, e também estes navios que vês no rio, houve um tempo em que não tiveram velas, e

outro tempo foi o da invenção dos remos, outro o do leme, e, assim como o homem, bicho

da terra, se fez marinheiro por necessidade, por necessidade se fará voador, Quem põe

velas num barco está na água e na água fica, voar é sair da terra para o ar, onde não há chão

que nos ampare os pés, Faremos como as aves, que tanto estão no céu como pousam na

terra, Então foi por querer voar que conheceu a mãe de Blimunda, por ser de artes subtis,

Ouvi dizer que ela tinha visões de ver pessoas voando com asas de pano, é certo que visões

não falta por aí quem diga tê-las, mas havia tal verosimilhança no que me contavam, que

discretamente a fui visitar um dia, e depois ganhei-lhe amizade, E chegou a saber o que

queria, Não, não cheguei, compreendi que o saber dela, se realmente o tinha, era outro

saber, e que eu deveria perseverar contra a minha própria ignorância, sem ajudas, prouvera

não me engane, Parece-me que estão na verdade aqueles que disseram que essa arte de voar

se entendia mais com o Santo Ofício que com a geometria, se eu estivesse no vosso caso

dobraria de cautelas, olhai que cárcere, degredo e fogueira costumam ser a paga desses

excessos, mas disto sabe um padre mais do que um soldado, Tenho cuidado e não me

faltam protecções, Lá virá o dia.

Tornaram sobre os passos, voltaram aos Remolares. Sete-Sóis fez menção de falar,

retraiu-se, o padre deu pela hesitação, Queres-me dizer alguma coisa, Queria saber, padre

Bartolomeu Lourenço, porque é que Blimunda sempre come pão antes de abrir os olhos

pela manhã, Tens dormido com ela, Vivo lá, Repara que estão em pecado de concubinato,

melhor seria casarem-se, Ela não quer, eu não sei se quereria, se um dia destes volto para a

minha terra e ela prefere ficar em Lisboa, para quê casar, mas o que eu tinha perguntado,

Porque come Blimunda pão antes de abrir os olhos de manhã, Sim, Se o vieres a saber um dia, será por ela, por mim não, Mas sabe a razão, Sei, E não ma diz, Só te. direi que se trata

de um grande mistério, voar é uma simples coisa comparando com Blimunda.

Andando e conversando, chegaram à estrebaria de um alquilador, na porta do Corpo

Santo. O padre alugou uma mula, subiu para o albardão, Vou a S. Sebastião da Pedreira ver

a minha máquina, queres tu vir comigo, a mula pode com os dois, Irei, mas a pé, que é o

caminho da infantaria, És um homem natural, nem cascos de mula nem asas de passarola,

É assim que se chama a sua máquina, perguntou Baltasar, e o padre respondeu, Assim lhe

têm chamado por desprezo.

Subiram a S. Roque, e depois, contornando o alto morro das Taipas, desceram pela

Praça da Alegria até Valverde. Sete-Sóis acompanhava sem dificuldade a andadura da mula,

só em terreno plano se deixava atrasar um pouco, para logo recuperar na próxima encosta,

tanto a descer como a subir. Apesar de não ter caído pinga de água desde Abril, sendo já

passados quatro meses, estavam viçosos todos os campos para cima de Valverde, por via

das muitas fontes perenes, encaminhados os mananciais ao cultivo das hortaliças, que ali

eram abundantes, às portas da cidade. Passado o convento de Santa Marta e adiante o de

Santa Joana Princesa, alargavam-se terras de olival, mas mesmo aí se implantavam as

culturas hortenses, e se por lá não rebentavam as fontes naturais, supriam a falta as

cegonhas de tirar água, erguendo os seus pescoços compridos, e circulavam burros à nora,

de olhos tapados para terem a ilusão de caminhar a direito, não sabendo, como não sabiam

os donos, que andando realmente a direito também acabariam por vir parar ao mesmo

lugar, porque o mundo. é ele uma nora e são os homens que, andando em cima dele, o

puxam e fazem andar. Mesmo já cá não estando Sebastiana Maria de Jesus para ajudar com

as suas revelações, é fácil ver que, faltando os homens, o mundo pára.

Quando chegaram ao portão da quinta, onde não está o duque nem criados seus,

pois os bens dele foram reunidos aos da coroa, e agora estão a correr autos de processo

para se restituírem à casa de Aveiro, porém são lentas as justiças, e então voltará o duque,

da Espanha onde vive e onde duque também é, mas de Banhos, quando chegaram,

dizíamos, o padre apeou-se, tirou uma chave do bolso e abriu o portão, como se estivesse

em casa sua. Fez entrar a mula, que levou para uma sombra, enfiou-lhe no focinho uma

alcofa de palha e fava, e ali a deixou aliviada da carga, sacudindo com o rabo farto os tavões

e as moscas, excitados pelo manjar que lhes chegava da cidade. Todas as portas e janelas do

palácio estavam fechadas, a quinta abandonada, sem cultivo. A um lado do pátio espaçoso

ficava um celeiro, ou abegoaria, ou adega, estando vazio não se podia saber que serventia

fora a sua, pois para celeiro lhe faltavam tulhas, para abegoaria onde estariam as argolas, e

adega não a há sem tonéis. Esta porta tinha um cadeado onde entrava uma chave tão recortada como escrita arábica. O padre retirou a tranca, empurrou a porta, afinal não

estava vazia a grande casa, viam-se panos de vela, barrotes, rolos de arame, lamelas de

ferro, feixes de vimes, tudo arrumado por espécies, em boa ordem e, ao meio, no espaço

desafogado, havia o que parecia uma enorme concha, toda eriçada de arames, como um

cesto que, em meio fabrico, mostra as guias do entrançado.

Baltasar entrou logo atrás do padre, curioso, olhou em redor sem compreender o que

via, talvez esperasse um balão, umas asas de pardal em maior, um saco de penas, e não teve

mão que não duvidasse, Então é isto, e o padre Bartolomeu Lourenço respondeu, Há-de

ser isto, e, abrindo uma arca, tirou um papel que desenrolou, onde se via o desenho de uma

ave, a passarola seria, isso era Baltasar capaz de reconhecer, e porque à vista era o desenho

um pássaro, acreditou que todos aqueles materiais, juntos e ordenados nos lugares

competentes, seriam capazes de voar. Mais para si próprio do que para Sete-Sóis, que do

desenho não via mais que a semelhança da ave, e ela lhe bastava, o padre explicou, em tom

primeiramente sereno, depois animando-se, Isto que aqui vês são as velas que servem para

cortar o vento e que se movem segundo as necessidades, e aqui é o leme com que se

dirigirá a barca, não ao acaso, mas por mão e ciência do piloto, e este é o corpo do navio

dos ares, à proa e à popa em forma de concha marinha, onde se dispõem os tubos do fole

para o caso de faltar o vento, como tantas vezes sucede no mar, e estas são as asas, sem elas

como se haveria de equilibrar a barca voadora, e destas esferas não te falarei, que são

segredo meu, bastará que te diga que sem o que elas levarão dentro não voará a barca, mas

sobre este ponto ainda não estou seguro, e neste tecto de arames penduraremos umas bolas

de âmbar, porque o âmbar responde muito bem ao calor dos raios do sol para o efeito que

quero, e isto é a bússola, sem ela não se vai a parte alguma, e isto são roldanas, servem para

largar ou recolher as velas, como nos navios do mar. Calou-se alguns momentos, e

acrescentou, E quando tudo estiver armado e concordante entre si, voarei.

A Baltasar convencia-o o desenho, não precisava de explicações pela razão simples

de que não vendo nós a ave por dentro, não sabemos o que a faz voar, e no entanto ela

voa, porquê, por ter a ave forma de ave, não há nada mais simples, Quando, limitou-se a

perguntar, Ainda não sei, respondeu o padre, falta-me quem me ajude, sozinho não posso

fazer tudo, e há trabalhos para que a minha força não é suficiente. Calou-se outra vez, e

depois, Queres tu vir ajudar-me, perguntou. Baltasar deu um passo atrás, estupefacto, Eu

não sei nada, sou um homem do campo, mais do que isso só me ensinaram a matar, e

assim como me acho, sem esta mão, Com essa mão e esse gancho podes fazer tudo quanto

quiseres, e há coisas que um gancho faz melhor que a mão completa, um gancho não sente dores se tiver de segurar um arame ou um ferro, nem se corta, nem se queima, e eu te digo

que maneta é Deus, e fez o universo.

Baltasar recuou assustado, persignou-se rapidamente, como para não dar tempo ao

diabo de concluir as suas obras, Que está a dizer, padre Bartolomeu Lourenço, onde é que

se escreveu que Deus é maneta, Ninguém escreveu, não está escrito, só eu digo que Deus

não tem a mão esquerda, porque é à sua direita, à sua mão direita, que se sentam os eleitos,

não se fala nunca da mão esquerda de Deus, nem as Sagradas Escrituras, nem os Doutores

da Igreja, à esquerda de Deus não se senta ninguém, é o vazio, o nada, a ausência, portanto

Deus é maneta. Respirou fundo o padre, e concluiu, Da mão esquerda.

Sete-Sóis ouvira com atenção. Olhou o desenho e os materiais espalhados pelo chão,

a concha ainda informe, sorriu, e, levantando um pouco os braços, disse, Se Deus é maneta

e fez o universo, este homem sem mão pode atar a vela e o arame que hão-de voar. Mas

tem cada coisa seu tempo. Por enquanto, faltando ao padre Bartolomeu Lourenço o

dinheiro para comprar os ímanes que, na sua ideia, hão-de fazer voar a passarola, cujos,

ainda por cima, terão de vir do estrangeiro, está Sete-Sóis no açougue do Terreiro do Paço,

por empenho do mesmo padre, transportando ao lombo peças de carne variada, quartos de

boi, leitões às dúzias, carneiros aos pares, que passam de um gancho para outro gancho, e

no trânsito deixam toalhas de sangue na serapilheira que lhe cobre as costas e a cabeça, é

um ofício sujo, vá lá que compensado por algumas sobras, um pé de porco, uma franja de

dobrada, e, querendo Deus e o humor do açougueiro, a apara de vazia, de alcatra ou

pojadouro, embrulhados numa crespa folha de couve, para que Blimunda e Baltasar se

alimentem um pouco melhor que o vulgar, quem parte e reparte, mesmo não sendo

Baltasar o da partição, para alguma coisa aproveitaria a arte.

Para D. Maria Ana é que lhe vem chegando o tempo. A barriga não aguenta crescer

mais por muito que a ele estique, é um bojo enorme, uma nau da Índia, uma frota do

Brasil, de vez em quando manda el-rei saber como vai a navegação do infante, se já se

avista ao longe, se o traz bom vento ou sofreu assaltos, como aqueles que sofrem as nossas

esquadras, que ainda agora, na altura das ilhas, tomaram os franceses seis naus mercantes

nossas e uma de guerra, que tudo isto e muito mais se podia esperar dos cabos que temos e

dos comboios que armamos, e agora parece que vão os ditos franceses esperar o resto dos

nossos barcos à entrada de Pernambuco e da Baía, se é que não estão já à espreita da frota

que há-de ter saído do Rio de Janeiro. Tantas foram as descobertas que fizemos quando

houve que descobrir, e agora nos passam os outros à capa como a inocentes touros, sem

artes de marrar, ou não mais que por acaso. A D. Maria Ana chegam também estas más

notícias, coisas que sempre aconteceram há um mês, dois meses, quando o infante ainda era no seu ventre uma gelatina, um girino, um troço cabeçudo, é extraordinário como se

formam um homem e uma mulher, indiferentes, lá dentro do seu ovo, ao mundo de fora, e

contudo com este mundo mesmo se virão defrontar, como rei ou soldado, como frade ou

assassino, como inglesa em Barbadas ou sentenciada no Rossio, alguma coisa sempre, que

tudo nunca pode ser, e nada menos ainda. Porque, enfim, podemos fugir de tudo, não de

nós próprios.

Porém, nem tudo é assim tão deplorável para as navegações portuguesas. Chegou há

dias a nau de Macau que se esperava, tendo partido daqui há vinte meses, onde isso vai,

ainda Sete-Sóis andava na guerra, e fez feliz jornada apesar de ser larga a viagem, que fica

Macau muito para lá de Goa, terra de tantas bem-aventuranças, a China, que excede a todas

as outras nos regalos e riqueza, e os géneros todos quanto pode ser baratos, e tem de mais

o favorável e sadio do clima, tanto que de todo se ignoram achaques e doenças, por isso

não há nela médicos nem cirurgiões, e morre cada um só de velho e desamparado da

natureza, que não nos pode garantir sempre. Carregou a nau na China tudo rico e precioso,

passou pelo Brasil a fazer negócio e meteu açúcares e tabacos, mais muita abundância de

ouro, que para tudo isto deram os dois meses e meio que esteve no Rio e na Baía, e em

cinquenta e seis dias de viagem veio de lá aqui, e houve causa milagrosa para que em

jornada tão perigosa e dilatada nem adoeceu nem morreu um só homem que fosse, que

parece que aproveitou a missa quotidiana que cá se ficou dizendo por intenção da viagem a

Nossa Senhora da Piedade das Chagas, e nem errou o caminho, ignorando-o o piloto, se tal

é crível, com o que já se vai dizendo que negócios bons são os da China. Mas, para não ser

tudo perfeito, chegou a notícia de estar acesa a luta entre os do Pernambuco e os do Recife,

todos os dias ali se dão batalhas, algumas muito sanguinolentas, e foram ao ponto de deitar

fogo aos matos, queimando todos os açúcares e tabacos, que para el-rei é perda muito

considerável.

Dão, se calha, estas e outras notícias a D. Maria Ana, mas ela está flutuando,

indiferente, no seu torpor de grávida, dizerem-lhas ou calarem-lhas tanto faz, e até da sua

primeira glória de ter fecundado não resta mais que uma ténue lembrança, pequena brisa do

que foi vento de orgulho, quando nos primeiros tempos se sentia como aquelas figuras que

à proa das naus se põem e que, não sendo as que mais longe observam, para isso lá está o

óculo e lá está o gajeiro, são as que mais fundo vêem. Uma mulher grávida, rainha ou

comum, tem um momento na vida em que se sente sábia de todo o saber, ainda que

intraduzível em palavras, mas depois, com o inchar excessivo da barriga e outras misérias

do corpo, só para o dia de parir têm pensamentos, nem todos alegres, quantas vezes

aterradas por agoiros, mas neste caso vai ser de grande ajuda a ordem franciscana, que não quer perder o prometido convento. Andam ao despique todas as congregações da

Província da Arrábida, dizendo missas, fazendo novenas, promovendo orações, por

intenção geral e particular, explícita e implícita, para que nasça bem o infante e numa boa

hora, para que não traga defeito visível ou invisível, para que seja varão, com o que alguma

mazela menor poderia desculpar-se, senão ver nela especial distinção divina. Mas,

sobretudo, porque um infante macho daria maior contentamento a el-rei.

D. João V vai ter de contentar-se com uma menina. Nem sempre se pode ter tudo,

quantas vezes pedindo isto se alcança aquilo, que esse é o mistério das orações, lançamo-las

ao ar com uma intenção que é nossa, mas elas escolhem o seu próprio caminho, às vezes

atrasam-se para deixar passar outras que tinham par tido depois, e não é raro que algumas

se acasalem, assim nascendo orações arraçadas ou mestiças, que não são nem o pai nem a

mãe que tiveram, quando calha brigam, param na estrada a debater contradições, e por isso

é que se pediu um rapaz e veio uma rapariga, vá lá saudável e robusta, e de bons pulmões,

como se percebe pela gritaria. Mas o reino está gloriosamente feliz, não só porque nasceu o

herdeiro da coroa e pelas luminárias festivas que por três dias foram decretadas, mas

porque, havendo sempre que contar com os efeitos secundários que têm as preces sobre as

forças naturais, podendo até acontecer que dêem em grandes secas, como esta que há oito

meses durava e só essa causa podia ter, nem se via que outra fosse, acabadas as orações deu

em chover, enfim, que já se diz que o nascimento da infanta trouxe auspícios de felicidade,

pois agora chove tanto que só Deus a pode estar mandando, por alívio seu da

importunação que lhe fazíamos. Já andam os lavradores lavrando, vão para o campo

mesmo debaixo de chuva, a leiva cresce da terra húmida como saem as crianças lá donde

vêm, e, não sabendo gritar como elas, suspira ao sentir-se rasgada pelo ferro, e deita-se de

lado, luzidia, oferecendo-se à água que continua a cair, agora muito devagar, quase poalha

impalpável, para que não se perca a forma do alqueive, terra encrespada para o conchego

da seara. Este parto é muito simples, mas não se pode fazer sem aquilo que os outros

primeiro requereram, a força e a semente. Todos os homens são reis, rainhas são todas as

mulheres, e príncipes os trabalhos de todos.

Porém, não convém perder de vista as diferenças, que são muitas. Foi a princesa a

baptizar, em dia de Nossa Senhora do Ó dia por excelência contraditório, pois já está a

rainha despejada da sua redondez, e logo se observa que, finalmente, nem todos os

príncipes são príncipes por igual, como com muita clareza está mostrando a pompa e

solenidade com que se dará o nome e o sacramento a este, ou esta, com todo o paço e

capela real armados de panos e ouros, e a corte ajoujada de galas, que mal se distinguem as

feições e os vultos debaixo de tanto adereço de franças e bandarras. Saiu o acompanhamento da câmara da rainha para a igreja, passando pela sala dos Tudescos, e

atrás dele o duque de Cadaval, com a sua opa roçagando o chão, sob o pálio vai o duque, e

às varas pegam, por distinção, títulos de primeira grandeza e conselheiros de Estado, e nos

braços do duque, quem vai, vai a princesa, enfaixada de linhos, franzida de laços, escorrida

de fitas, e atrás do pálio a nomeada aia, que é a condessa de Santa Cruz velha, e todas as

damas do paço, as formosas e as não tanto, e enfim meia dúzia de marqueses e o duque

filho, que trazem as insígnias da toalha, do saleiro, do óleo, e o resto, que para todos havia.

Sete bispos a baptizaram, que eram como sete sóis de ouro e prata nos degraus do

altar-mor, e ficou a chamar-se Maria Xavier Francisca Leonor Bárbara, logo ali com o título

de Dona adiante, apesar de tão pequena ainda, está ao colo, baba-se e já é dona, que fará

em crescendo, e leva, por começo, uma cruz de brilhantes que lhe deu seu padrinho e tio, o

infante D. Francisco, cuja custou cinco mil cruzados, e o mesmo D. Francisco mandou à

rainha sua comadre, de presente, uma pluma de toucar, estou que por galantaria, e uns

brincos de diamantes, esses. sim, de superlativo valor, perto de vinte e cinco mil cruzados, é

obra, mas francesa.

Para este dia baixou el-rei da sua grandeza e majestade e assistiu, não por trás das

rótulas, mas público, e não na sua tribuna, mas na da rainha, em mostra do muito respeito

que lhe merecia, assim posta a feliz mãe ao lado do feliz pai, ainda que em cadeira mais

baixa, e à noite houve luminárias. Sete-Sóis baixou com Blimunda do alto do castelo para

ver as luzes e os adornos, o paço armado de colgaduras, os arcos mandados levantar pelos

ofícios. Está mais cansado que de costume, talvez por ter carregado tanta carne para os

banquetes que festejaram o nascimento e vão festejar o baptizado. Dói-lhe a mão esquerda

de tanto puxar, içar e arrastar. O gancho descansa no alforge que leva ao ombro. Blimunda

segura-lhe a mão direita. Em um qualquer destes meses que passaram, morreu de santa

morte frei António de S. José. Salvo se vier a aparecer em sonhos a el-rei, já não poderá

recordar-lhe a promessa, porém sosseguemos, a pobre não emprestes, a rico não devas, a

frade não prometas, e D. João V é rei de palavra. Haveremos convento.