Memorial do Convento

José Saramago · Capítulo 23 de 30

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Memorial do Convento

Tão grande fora o sofrimento durante este…

Tão grande fora o sofrimento durante este arrastado dia, que todos diziam, Amanhã

não pode ser pior, e no entanto sabiam que iria ser pior mil vezes. Lembravam-se do

caminho que descia para o vale de Cheleiros, aquelas apertadas curvas, aqueles declives

espantosos, aquelas empinadas encostas que caíam quase a pique sobre a estrada, Como

será que vamos passar, murmuravam para si próprios. Em todo aquele Verão não houve

dia mais quente, a terra parecia uma braseira, o sol uma espora cravada nas costas. Os

aguadeiros corriam a longa fila, levando quartões de água ao ombro, iam buscá-la aos poços

que por ali havia, nas terras baixas, às vezes muito afastados, e tinham de trepar monte

acima por carreiros de pé posto, para encher as dornas, não podem as galés ser piores do

que isto. Perto da hora de jantar chegaram a um alto donde se via Cheleiros, no fundo do

vale. Com isto mesmo é que Francisco Marques vinha contando, quer conseguissem descer

quer não, esta noite em companhia da mulher é que ninguém lha tiraria. Levando consigo

os ajudantes, o vedor desceu até ao ribeiro que lá em baixo passava, foi de caminho

assinalando os lugares mais perigosos, os sítios onde o carro deveria ser encostado para

garantir os repousos e maior segurança da pedra, e finalmente tomou a decisão de mandar

desatrelar os bois e conduzi-los para um espaço desafogado, depois da terceira curva,

bastante afastados para não empatarem a. manobra, suficientemente próximos para serem

trazidos sem maior demora se a mesma manobra o pedisse. Assim, a plataforma ia descer a

pulso. Não havia outra maneira. Enquanto estavam a ser levadas as juntas, os homens,

espalhados pela crista do monte, à torreira do sol, olhavam o vale sossegado, as hortas, as

sombras frescas, as casas que pareciam irreais, tão aguda era a impressão de calma que

irradiava delas. Pensariam isso ou não, talvez apenas esta simplicidade, Se me apanho lá em

baixo, ainda vou julgar que é mentira.

Como foi, digam-no outros que mais saibam. Seiscentos homens agarrados

desesperadamente aos doze calabres que tinham sido fixados na traseira da plataforma,

seiscentos homens que sentiam, com o tempo e o esforço, ir-se-lhes aos poucos a tesura

dos músculos, seiscentos homens que eram seiscentos medos de ser, agora sim, ontem

aquilo foi uma brincadeira de rapazes, e a história de Manuel Milho uma fantasia, que é

realmente um homem quando só for a força que tiver, quando mais não for que o medo de

que lhe não chegue essa força para reter o monstro que implacavelmente o arrasta, e tudo

por causa de uma pedra que não precisaria ser tão grande, com três ou dez mais pequenas

se faria do mesmo modo a varanda, apenas não teríamos o orgulho de poder dizer a sua majestade, É só uma pedra, e aos visitantes, antes de passarem à outra sala, É uma pedra

só, por via destes e outros tolos orgulhos é que se vai disseminando o ludíbrio geral, com

suas formas nacionais e particulares, como esta de afirmar nos compêndios e histórias

Deve-se a construção do convento de Mafra ao rei D. João V, por um voto que fez se lhe

nascesse um filho, vão aqui seiscentos homens que não fizeram filho nenhum à rainha, e

eles é que pagam o voto, que se lixam, com perdão da anacrónica voz.

Descesse a estrada a direito para o vale e tudo se reduziria a um jogo alternado, acaso

divertido jogo, de libertação e retenção deste papagaio de pedra, dar-lhe a guita e enrolá-la,

deixá-lo deslizar enquanto a aceleração não se tornasse indominável, travá-lo a tempo para

que não se precipitasse no vale, de caminho esfacelando os homens que não tivessem

conseguido libertar-se, eles, papagaios destas e doutras guitas. Mas há o pesadelo das

curvas. Enquanto o caminho era plano, foram os bois utilizados consoante se explicou,

puxando alguns lateralmente a dianteira do carro até conseguir alinhá-lo com a recta, breve

ou extensa, em que a curva se prolongava. Era apenas um trabalho de paciência, que de tão

repetido se tornara rotineiro, desatrelar, atrelar, desatrelar, atrelar, dos bois era a maior

fadiga, os homens pouco mais faziam que gritar. Agora gritariam estes de desespero diante

da diabólica combinação de curva e declive que vão ter de vencer muitas vezes, mas gritar,

em tal caso, seria perder o fôlego, e ele já não é muito. Estude-se antes o jeito, deixemos os

gritos para quando puderem ser de alívio. O carro vai descendo até à entrada da curva, tão

encostado à parte interior dela quanto possível, e aí é calçada a roda da frente desse mesmo

lado, porém, não há-de o calço ser tão sólido que por si só trave o carro inteiro, nem tão

frágil que se deixe esmagar pelo peso, se achar que não tem o caso supremas dificuldades é

porque não levou esta pedra de Pêro Pinheiro a Mafra e apenas assistiu sentado, ou se

limita a olhar de longe, do lugar e do tempo desta página. Assim perigosamente travado, o

carro pode ter o demoníaco capricho de ficar tão quieto como se tivesse todas as rodas

cravadas no chão. É o mais comum. Só em raríssimas condições conjuntas de inclinação da

curva para o lado de fora, mínimo atrito do terreno, acentuação conveniente do declive,

tudo na boa conta, só assim a plataforma cederá sem dificuldade ao impulso lateral que será

dado na sua parte de trás, ou, milagre ainda maior, por si própria rodará sobre o seu único

ponto de apoio, lá à frente. A regra é outra, a regra é outra vez a enorme força que vai ser

preciso aplicar nos sítios óptimos, pelo tempo rigorosamente necessário, para que o

movimento não seja demasiado amplo, e portanto fatal, ou, a Deus graças pelo mal menor,

exigindo novo e penoso esforço em sentido contrário. Aplicam-se as alavancas às quatro

rodas posteriores, tenta-se deslocar o carro, meio palmo que seja, para o lado exterior da

curva, os homens que trabalham às cordas ajudam puxando na mesma direcção, é uma balbúrdia, com os das alavancas de fora entre uma floresta de calabres esticados e tensos

como fios de lâmina, com os das cordas às vezes dispostos pela encosta abaixo, não raro

escorregando e rolando, por enquanto sem maior mal. Cedeu finalmente o carro, deslocou-

se um ou dois palmos, mas, lá à frente, pelo tempo que esta manobra durou, a roda do lado

de fora foi sucessivamente calçada e descalçada, para prevenir o perigo de se desmandar a

plataforma no meio de um destes movimentos, naquele segundo em que está como

suspensa e desamparada, e sem homens suficientes para segurá-la, pois os mais deles, com

todas estas confusas operações, nem espaço têm para se mover. Em cima deste valado está

o diabo assistindo, pasmando da sua própria inocência e misericórdia por nunca ter

imaginado suplício assim para coroação dos castigos do seu inferno.

Um dos homens que trabalham aos calços é Francisco Marques. Provou já a sua

destreza, uma curva má duas péssimas, três piores que todas, quatro só se fôssemos doidos,

e por cada uma delas vinte movimentos, tem consciência de que está a fazer bem o

trabalho, por acaso agora nem pensa na mulher, a cada coisa seu tempo, toda a atenção se

fixa na roda que vai começar a mover-se, que será preciso travar, não tão cedo que torne

inútil o esforço que lá atrás estão fazendo os companheiros, não tão tarde que ganhe o

carro velocidade e se escape ao calço. Como agora aconteceu. Distraiu-se talvez Francisco

Marques, ou enxugou com o antebraço o suor da testa, ou olhou cá do alto a sua vila de

Cheleiros, enfim se lembrando da mulher, fugiu-lhe o calço da mão no preciso momento

em que a plataforma deslizava, não se sabe como isto foi, apenas que o corpo está debaixo

do carro, esmagado, passou-lhe a primeira roda por cima, mais de duas mil arrobas só a

pedra, se ainda estamos lembrados. Diz-se que uma desgraça nunca vem só, e costuma ser

verdade, diga-o qualquer de nós, porém, desta vez, o mandador delas achou que era

bastante ter morto um homem. O carro, que bem poderia ter-se precipitado, aos

cambulhões, pela encosta abaixo, parou logo adiante, presa a roda numa cova da calçada,

nem sempre as salvações estão onde deveriam estar.

Tiraram Francisco Marques de debaixo do carro. A roda passara-lhe sobre o ventre,

feito numa pasta de vísceras e ossos, por um pouco se lhe separavam as pernas do tronco,

falamos da sua perna esquerda e da sua perna direita, que da outra, a tal do meio, a inquieta,

aquela por amor da qual fez Francisco Marques tantas caminhadas, dessa não há sinal, nem

vestígio, nem um simples farrapito. Trouxeram um esquife, puseram-lhe o corpo em cima,

enrolado numa manta que ficou logo empapada em sangue, dois homens pegaram aos

varais, outros dois para revezamento os acompanharam, os quatro para dizer à viúva,

Trazemos aqui o seu homem, vão declará-lo a esta mulher que assomou agora ao postigo, que olha o monte onde está seu marido, e diz aos filhos, Vosso pai esta noite dorme em

casa.

Quando a pedra chegou ao fundo do vale, as juntas de bois tornaram a ser atreladas.

Porventura o mandador das desgraças se arrependeu da parcimónia primeira, foi o caso que

a plataforma desandou sobre um afloramento de rocha e entalou dois animais contra a

encosta a pique, partindo-lhes as pernas. Foi preciso acabar com eles, à machadada, e

quando a notícia correu vieram os moradores de Cheleiros ao bodo, ali mesmo foram os

bois esfolados e desmanchados, corria o sangue pela estrada, em regueiros, de nada

serviram os soldados e as pranchadas que deram, enquanto houve carne agarrada aos ossos

esteve o carro parado. Entretanto, anoiteceu. Naquele lugar se armou o acampamento, uns

ainda caminho acima, outros espalhados pela margem da ribeira. O vedor e alguns se

auxiliares foram dormir debaixo de telha, os mais forma do costume, enrolados nas mantas,

extenuados da grande descida ao centro da terra, espantados ainda estarem vivos, uns que

outros resistindo ao sono, com medo de ser isso a morte. Os mais chegados de amizade a

Francisco Marques foram velá-lo, Baltasar, José Pequeno, Manuel Milho, uns tantos

daqueles, Brás, Firmino, Isidro, Onofre, Sebastião, Tadeu, e outro de quem não se chegou

a falar, Damião. Entravam, olhavam o morto, como é possível morrer homem de tão

violenta morte e tão sereno estar, mais do que se dormisse, sem pesadelos nem

apoquentações, depois murmuravam uma oração, aquela mulher ali é que é a viúva, não

sabemos que nome tem, nem adiantaria nada à história ir lá perguntar-lhe, se alguma coisa

adiantou escrever Damião, só por escrever. Amanhã, antes de nascer o sol, recomeçará a

pedra a sua viagem, em Cheleiros ficou um homem para enterrar, fica também a carne de

dois bois para comer.

Não se nota a falta deles. O carro vai ladeira acima, tão devagar como tem vindo, se

Deus houvesse piedade dos homens teria feito um mundo rasinho como a palma da mão,

levariam as pedras menos tempo a chegar. Esta já vai no seu quinto dia, agora por melhor

caminho, quando estiver vencida a encosta, mas sempre em desassossego de espírito, que

do corpo não vale a pena falar, doem todos os músculos dos homens, mas quem se queixa,

se para isto mesmo lhes foram dados. A boiada não argumenta nem se lastima, apenas se

nega, faz que puxa e não puxa, o remédio é deixá-los descansar um migalho, chegar-lhes ao

focinho um manípulo de palha, daí a pouco estão como se folgassem desde ontem,

ondulam as garupas alceiras pelo caminho fora, é um gosto vê-los. Enquanto não aparece

outra descida, outra subida. Então agrupam-se as hostes, repartem-se os esforços, tantos

para aqui, tantos para atém, puxem lá, Êeeeeeüi-ô, berra a voz, taratatá-tá, sopra a corneta,

verdadeiramente isto é um campo de batalha, nem lhe faltam os seus mortos e os seus feridos, não sendo todos da mesma qualidade, como diríamos, quatro cabeças, que é boa

maneira de contar.

À tarde caiu um aguaceiro, e foi bem-vindo. Tornou a chover já quando se fechara a

noite, mas ninguém praguejou. Esta é a melhor sabedoria, não ligar importância ao que o

céu manda, chuva ou sol, salvo se passa a mais, e mesmo assim, que não bastou um dilúvio

para afogar todos os homens, nem a seca é alguma vez tão grande que não se salve um fio

de erva ou a esperança de o encontrar. Choveu assim uma hora, se tanto, depois as nuvens

afastaram-se, até as nuvens se agastam de não lhes ligarem importância. Alargaram-se as

fogueiras, homem houve que se despiu em pelote para secar as roupas, por pouco se diria

ser este um ajuntamento pagão, quando sabemos que é a mais católica das acções, levar a

pedra a Garcia, a carta a Mafra, o esforço avante, a fé a quem a pudesse merecer, condição

sobre a qual infinitamente discutiríamos se não fosse estar Manuel Milho a contar a sua

história, falta aqui um ouvinte, só eu, e tu, e tu, damos pela ausência, outros nem sabiam

quem fosse Francisco Marques, alguns o viram morto, a maior parte nem isso, não se vá

julgar que desfilaram seiscentos homens diante do cadáver em última e comovida

homenagem, são coisas que só acontecem nas epopeias, vamos nós então à história, Um

dia a rainha sumiu-se do palácio, onde vivia com o marido rei e os filhos infantes, e, como

tinham corrido zunzuns de que a conversa na cova não fora como a têm rainhas e ermitões

costumadamente, antes parecera passo de dança e cauda de pavão, entrou o rei em furor

ciumento e foi a correr à cova, já se imaginando enxovalhado na sua honra, que os reis são

assim, têm uma honra maior que a dos outros homens, nota-se logo pela coroa, e quando

chegou não viu ermitão nem rainha, mas isso ainda o deixou mais enfurecido porque seria

certo sinal de terem fugido os dois, posto o que mandou o exército à procura dos fugitivos,

por todo o reino, e enquanto eles procuram vamos nós dormir, que são horas. José

Pequeno protestou, Nunca se ouviu história assim, em bocadinhos, e Manuel Milho

emendou, Cada dia é um bocado de história, ninguém a pode contar toda, e Baltasar ia

pensando, Quem havia de gostar deste Manuel Milho era o padre Bartolomeu Lourenço.

Ao outro dia, que foi domingo, houve missa e sermão. Para ser ouvido com mais

proveito, pregou o frade de cima do carro, tão airoso como se estivesse de púlpito, e não se

dava conta o imprudente de que cometia a maior das profanações, com as sandálias

ofendendo esta pedra de ara, que o é por lhe ter sido sacrificado sangue inocente, o sangue

do homem de Cheleiros que tinha filhos e mulher, o que ficou sem o pé em Pêro Pinheiro,

ainda o préstito não saíra, e os bois, não devemos esquecer os bois, pelo menos não vão

esquecê-los tão cedo os moradores que foram à carniça e que hoje mesmo, domingo, fazem

refeição melhorada. Pregou o frade e disse, como dizem todos, Amados filhos, dos altos céus nos vê Nossa Senhora e o seu Divino Filho, dos altos céus nos contempla também o

nosso padre Santo António, por amor de quem levamos esta pedra à vila de Mafra, é certo

que pesada, mas muito mais pesados são os vossos pecados, e contudo andais com eles no

coração como se vos não carregassem, por isso deveis tomar esta transportação como

penitência, e também amorosa oferta, singular penitência, oferta estranha, pois não só vo-

las pagam com o salário do contrato, como também vo-las remunerará a indulgência do

céu, porque em verdade vos digo que levar esta pedra a Mafra é obra tão santa como foi a

dos antigos cruzados quando partiram a libertar os Santos Lugares, sabei que todos quantos

lá morreram gozam hoje da vida eterna, e juntamente com eles, contemplando a face do

Senhor, já lá está aquele vosso companheiro que morreu anteontem, precioso sucesso que

foi ter sido a sua morte a uma sexta-feira, sem dúvida morreu sem confissão, não houve

tempo de chegar-lhe um confessor à cabeceira, já estava morto quando fostes por ele, mas

salvou-o ser cruzado desta cruzada, como salvos estão os que em Mafra têm morrido nas

enfermarias ou se despenharam das paredes, excepto aqueles irredimíveis pecadores que

foram levados por vergonhosas doenças, e é tanta a misericórdia do céu que se abrem as

portas do paraíso até àqueles que morrem de facadas, nessas brigas em que sempre andais

metidos, nunca se viu gente tão crente e tão desordeira mas vá lá que a obra vai

continuando, Deus nos dê a nós paciência, a vós força e a el-rei dinheiro para a levar a

termo, que muito necessário é este convento para fortalecimento da ordem e alargado

triunfo da fé, ámen. Acabou-se o sermão, baixou o frade à terra, e como era domingo, dia

de guarda e santificado, não havia mais que fazer, uns foram confessar-se, outros

comungaram, não todos, nem seria bastante a reserva de sagradas partículas, salvo se se

desse ali o milagre da multiplicação das hóstias, caso não verificado. Para o fim da tarde

armou-se uma zaragata entre cinco cruzados desta cruzada, episódio que passa sem mais

desenvolvido relato, não passou de murros e algum sangue do nariz. Tivessem morrido que

iam logo direitos ao paraíso.

Nessa noite contou Manuel Milho o fim da história. Perguntara-lhe Sete-Sóis se os

soldados do rei sempre tinham conseguido apanhar a rainha e o ermitão, e ele respondeu,

Não apanharam, correram o reino de ponta a ponta buscaram casa por casa, e não os

encontraram, e tendo dito isto, calou-se. Perguntou José Pequeno, E então, é isso história

que se ande a contar há quase uma semana, e Manuel Milho respondeu, O ermitão deixou

de ser ermitão, a rainha deixou de ser rainha, mas não se averiguou se o ermitão chegou a

fazer-se homem e se a rainha chegou a fazer-se mulher, eu por mim acho que não foram

capazes, senão tinha-se dado por isso, quando uma coisa dessas um dia acontecer não

passará sem dar um grande sinal, mas estes não, foi o caso há tantos anos que já não podem estar vivos, nem um nem outro, e com a morte sempre se acabam as histórias.

Baltasar bateu com o gancho de ferro numa pedra solta. José Pequeno esfregou o queixo,

áspero da barba, e perguntou, Como é que um boieiro se faz homem, e Manuel Milho

respondeu, Não sei. Sete-Sóis atirou o calhau para a fogueira e disse, Talvez voando.

Dormiram ainda outra noite no caminho. Entre Pêro Pinheiro e Mafra gastaram oito

dias completos. Quando entraram no terreiro, foi como se estivessem chegando duma

guerra perdida, sujos, esfarrapados, sem riquezas. Toda a gente se admirava com o tamanho

desmedido da pedra, Tão grande. Mas Baltasar murmurou, olhando a basílica, Tão

pequena.

Desde que a máquina voadora descera no Monte Junto, contavam-se por seis, ou

eram sete, as vezes que Baltasar Sete-Sóis metera pés ao caminho para ver e remediar,

quanto podia, os estragos que o tempo ia causando ali à descoberta apesar da protecção do

mato e dos silvados. Quando deu por que se enferrujavam as lâminas de ferro, levou uma

panela de sebo e untou-as cuidadosamente, renovando a operação de cada vez que lá

voltava. Também se habituara a transportar às costas um molho de vimes, que cortava

numa terra meio alagadiça que lhe ficava em viagem, e com eles remendava as falhas e os

rasgões do entrançado, nem sempre de causa natural, como quando encontrara dentro da

carcaça da passarola uma toca com seis raposinhos. Matou-os como se fossem coelhos,

dando-lhes com o gancho no alto da cabeça, e depois atirou-os para longe, uns aqui, outros

além, ao acaso. O pai e a mãe dariam com os filhos mortos, cheirariam o sangue, o mais

certo era nunca mais tornarem àquele lugar. Durante a noite ouviu-lhes o regougo.

Tinham-lhe sentido o rasto. Quando encontraram os cadáveres fizeram alarido, coitados, e,

como não sabiam contar, ou, sabendo, não tinham a certeza de estarem mortos todos os

filhotes, aproximaram-se do que tinha sido fojo seu e era máquina de voar alheia, ainda que

pousada, prudentemente se vieram chegando, medrosos do cheiro do homem, e enfim

farejaram outra vez o derramado sangue do seu sangue e recuaram, de pêlo eriçado, a

rosnar. Não apareceram mais. Porém, o remate do caso poderia ter sido diferente, se em

vez de ser conto de raposas fosse história de lobos. E por assim pensar é que Sete-Sóis, a

partir desse dia, levava consigo a espada, já basto comida de ferrugem no fio, mas ainda

muito capaz de degolar lobo e loba.

Ia sempre sozinho, sozinho está pensando que novamente irá, mas hoje Blimunda

diz-lhe, em três anos é a primeira vez Vou também, e ele estranhou, A jornada é comprida,

vais-te cansar, Quero conhecer o caminho, se alguma vez tiver de lá ir sem ti. Era uma boa

razão, ainda que Baltasar não esquecesse a probabilidade do lobo, Aconteça o que

acontecer, não vás nunca sozinha, os caminhos são ruins, o sítio ermo, se ainda te lembras, e não estás livre de que te assaltem feras, e Blimunda respondeu, Jamais se diga aconteça o

que acontecer, porque sempre podem primeiro acontecer coisas com que não contávamos

quando dissemos aconteça o que acontecer, Pois sim, até pareces o Manuel Milho a falar,

Quem é esse Manuel Milho, Andava comigo na obra, mas resolveu voltar para a terra, disse

que antes queria morrer afogado numa cheia do Tejo que ficar esborrachado debaixo duma

pedra de Mafra, que ao contrário do que se costuma dizer a morte não é toda igual, o que é

igual é estar morto, e assim ia para a sua terra, onde as pedras são pequenas e poucas, e é

doce a água.

Não quis Baltasar sujeitar Blimunda à grande caminhada a pé, por isso foi alugar um

burro, e, feitas as despedidas, lá seguiram, deixando sem resposta as perguntas de Inês

Antónia e do cunhado, Aonde é que vão, por causa dessa viagem perdes dois jornais, e se

acontecer alguma fatalidade não sabemos para onde havemos de avisar, provavelmente a

fatalidade de que falava Inês Antónia era a morte de João Francisco, que lhe andava a

rondar a porta, dava um passo para entrar, arrependia-se, talvez a intimidasse o silêncio do

velho, como se há-de dizer a um homem, Vem comigo, se ele não pergunta nem responde,

apenas olha, com um olhar assim até a morte se acobarda. Não sabe Inês Antónia, não sabe

Álvaro Diogo, o filho deles está na idade de só querer saber de si próprio, que a João

Francisco foi Baltasar dizer aonde iam, Meu pai, vou com Blimunda à serra do Barregudo,

ao Monte Junto, ver como está a máquina em que voámos de Lisboa, lembra-se, quando aí

se disse que o Espírito Santo tinha passado pelos ares, por cima da obra, não foi Espírito

Santo nenhum, fomos nós, com o padre Bartolomeu Lourenço, lembra-se, aquele padre

que esteve cá em casa quando a mãe ainda era viva, e ela quis matar o galo, mas ele não

deixou, que muito melhor que comer o galo era ouvi-lo cantar, nem seria coisa que se

fizesse às galinhas. Ouviu estas recordações João Francisco, e ele, que costumava não falar,

disse Lembro-me de tudo, e tu vai descansado, que eu ainda não estou para morrer, quando

chegar a ocasião serei contigo onde estiveres, Mas o pai acredita que eu voei, É quando

somos velhos que as coisas que estão para vir começam a acontecer, e uma razão de ser

assim é que já somos capazes de acreditar naquilo de que duvidávamos, e mesmo não

podendo acreditar que tenha sido, acreditamos que será, Eu voei, pai, Filho, eu acredito.

Toque-toque-toque, lindo burriquito, deste não o diria o verso, que tem, o verso não,

não poucas mataduras debaixo do albardão, mas caminha contente o asno a carga é leve e

faz-se ligeira, onde já vai a esbelteza aérea de Blimunda, dezasseis anos passaram desde que

a vimos pela primeira vez, mas- desta maturidade se fariam admiráveis mocidades, não há

nada que conserve tanto a juventude como guardar um segredo. Chegaram ao alagadiço,

Baltasar cortou um molho de vimes, entretanto colhia Blimunda lírios-de-água com eles teceu uma capela que enfiou nas orelhas do burro, e como ficou gracioso, nunca tal festa

lhe haviam feito, parece isto um episódio da Arcádia, o pastor, ainda que manco, a zagala,

guardadora de vontades, o asno que em geral não entra em histórias destas, mas agora veio,

alugado, porque não quis o pastor que se cansasse a zagala, e quem achar que isto é aluguer

comum, é porque não sabe como tantas vezes andam contrariados os burros, com erradas

cargas, por isso lhes crescem as mataduras e atormentam as matações. Enfeixados e atados

os vimes, aumentou a carga, mas quem de gosto carrega não cansa, menos ainda se

Blimunda resolve descer do burro e seguir a pé, são três que vão a passeio, um leva as

flores, os outros acompanham.

O tempo é de Primavera, cobre-se o campo de brancos malmequeres, rasteirinhos, se

para atalhar caminho cortam os viajantes pelo meio deles, rufam as duras cabeças das flores

nos pés descalços de Baltasar e Blimunda, têm um e outro sapatos ou botas, mas vão

guardados no alforge para quando o caminho for de pedras, e do chão sobe um cheiro

acre, é a seiva do malmequer, perfume do mundo no primeiro dia, antes de Deus ter

inventado a rosa. Está um lindo tempo para ir ver uma máquina de voar, passam no céu

grandes nuvens brancas, que bom seria levantar-se a passarola uma vez mais que fosse,

subir pelos ares fora, rodear aqueles castelos suspensos, ousar o que aves não ousam, entrar

por eles gloriosamente, tremer de medo e de frio, e depois sair para o azul e para o sol, ver

a terra formosa e dizer, Terra, que bela é Blimunda. Mas este caminho é pedestre,

Blimunda menos bela, até o burro deixou cair os lírios, mortos murchos de sede, vamos

sentar-nos aqui a comer o duro pão do mundo, comemos e seguimos logo, que ainda

temos muito que andar. Vai Blimunda tomando nota do caminho na sua memória, aquele

monte, aquela mata, quatro pedras alinhadas, seis colinas em redondo, as vilas como se

chamam, foi Codeçal e Gradil, Cadriceira e Furadouro, Merceana e Pena Firme, tanto

andámos que chegámos, Monte Junto, passarola.

Era assim nos contos antigos, dizia-se uma palavra secreta e diante da gruta

maravilhosa levantava-se um bosque de carvalhos, impenetrável para quem não soubesse a

outra palavra mágica, aquela que poria no lugar do bosque um rio e no rio uma barca com

seus remos. Neste lugar também foram ditas palavras, Se tenho de morrer numa fogueira,

fosse ao menos esta, disse-as louco o padre Bartolomeu Lourenço, porventura serão estes

silvados o bosque de carvalhos, este mato florido os remos e o rio, será barca a ave

magoada, que palavra se dirá que dê sentido a isto. Tirou-se a albarda ao burro, deitou-se-

lhe uma peia às mãos para que não se afastasse de mais, e agora coma do que puder e

quiser, se alguma escolha pode encontrar-se no simples possível, e entretanto foi Baltasar

desimpedir a passagem que através das silvas leva à protegida máquina, é um trabalho de todas as vezes feito, porém, mal ele vira costas avançam os rebentos, os enleios, muito

custa defender aqui um espaço de passagem, um túnel, por dentro e ao redor, sem ele

como se restaurariam os entrançados de vimes, como se amparariam as asas que o tempo

afrouxou, a erecta cabeça se descai a sustentação da cauda, a afinação dos lemes, é verdade

que estamos, nós e a máquina, caídos no chão, mas preparados. Laborou Baltasar por

muito tempo, ferindo as mãos nos espinhos, e depois que ficou fácil o acesso chamou

Blimunda, mesmo assim ela teve de avançar rastejando sobre os joelhos, enfim chegou,

estavam imersos numa sombra verde, translúcida, talvez por causa dos braços mais novos

que passavam por cima da vela negra sem a esconderem, tenras folhas que ainda deixavam

coar a luz, e sobre esta cúpula, outra de silêncio, é sobre o silêncio uma abóbada de luz

azul, apercebida em pedaços, rasgões, confidências. Subindo pela asa que se apoiava no

chão, chegava-se ao convés da máquina. Lá estavam o sol e a lua, numa tábua inscritos,

nenhum outro sinal se lhes juntara, era como se não houvesse mais ninguém neste mundo.

Em alguns lugares o soalho apodrecera, outra vez teria Baltasar de trazer algum tabuado da

obra do convento, sarrafos desprezados dos andaimes, de nada valeria cuidar das lamelas

de ferro e do cesto exterior se debaixo dos pés se esboroavam as madeiras. Luziam

mortiças as bolas de âmbar sob a sombra da vela, como olhos que não pudessem fechar-se,

ou resistissem ao sono para não perderem a hora da partida. Mas há em tudo isto um ar de

abandono, as folhas mortas escurecem na água que empoçou e ainda resiste aos primeiros

calores, se não fosse a constância de Baltasar, encontraríamos aqui uma triste ruína, os

ossos de um pássaro morto.

Só as esferas, fabricadas de misteriosa liga, brilham como no primeiro dia, foscas mas

luminosas, nítidas as nervuras, precisos os encaixes, não se acreditaria que estão aqui vai

para quatro anos. Blimunda aproximou-se de uma delas, pôs-lhe a mão em cima, não estava

quente, não estava fria, foi como se tivesse juntado as duas mãos, não sente frio, não sente

calor, apenas que ambas estão vivas, Ainda aqui dentro viverão as vontades, de certeza não

saíram, se vejo inteiras as esferas, incorrupto o metal, coitadas delas, fechadas há tanto

tempo, à espera de quê. Baltasar já estava trabalhando em baixo, ouviu uma parte qualquer

da pergunta, ou adivinhou-a, Se as vontades saíram das esferas, a máquina não serve para

nada, nem valia a pena cá voltar, e Blimunda disse, Amanhã o saberei.

Trabalharam ambos até ao pôr do sol. Com ramos de arbustos, Blimunda fez uma

vassoura para varrer as folhas e os detritos, depois ajudou Baltasar a substituir os vimes

partidos, a untar com sebo as lamelas. Coseu, seu trabalho de mulher, a vela que se

esgarçava em dois lugares, como Baltasar fizera outras vezes, seu trabalho de soldado, e

agora rematava cobrindo de breu a superfície restaurada. Fez-se entretanto noite. Baltasar foi despear o burro para que o coitado não ficasse por ali tão incomodamente travado, e

prendeu-o perto da máquina, .daria sinal se viesse bicho. Já antes tinha inspeccionado o

interior da passarola, descendo por uma abertura do convés, escotilha desta nave aérea, ou

aeronave, nome facilmente formável no futuro, quando for preciso. Não havia sinais de

vida, nem uma cobra, nem a simples lagartixa que em todo o oculto corre, de aranhas nem

fio de teia, que moscas ali viriam. Era como o dentro de um ovo, a casca dele, o silêncio

que lá está. Ali se deitaram, numa cama de folhagem, servindo as próprias roupas despidas

de abrigo e enxerga. Em profunda escuridão se procuraram, nus, sôfrego entrou ele nela,

ela o recebeu ansiosa, depois a sofreguidão dela, a ânsia dele, enfim os corpos encontrados,

os movimentos, a voz que vem do ser profundo, aquele que não tem voz, o grito nascido,

prolongado, interrompido, o soluço seco, a lágrima inesperada, e a máquina a tremer, a

vibrar, porventura não está já na terra, rasgou a cortina de silvas e enleios, pairou na alta

noite, entre as nuvens, Blimunda, Baltasar, pesa o corpo dele sobre o dela, e ambos pesam

sobre a terra, afinal estão aqui, foram e voltaram.

Quando a primeira luz do dia começou a coar por entre os vimes, Blimunda,

desviando os olhos de Baltasar, levantou-se devagarinho, nua como dormira, e passou pela

escotilha. Arrepiou-se ao ar frio da manhã, arrepiou-a talvez mais a já quase esquecida visão

de um mundo feito de transparências sucessivas, por trás da amurada da máquina a rede

dos silvados e das trepadeiras, o vulto irreal do burro, e através dele matos e árvores que

pareciam flutuar, enfim a mais sólida espessura do monte próximo, se ali não estivesse

veríamos os peixes do mar distante. Blimunda aproximou-se de, uma das esferas e olhou.

Lá dentro, circularmente, movia-se uma sombra, como um turbilhão de vento visto a

grande distância. Na outra esfera havia uma sombra igual. Blimunda tornou a descer pela

escotilha, mergulhou na penumbra do ovo, procurou entre as roupas o seu bocado de pão.

Baltasar não acordara, tinha o braço esquerdo meio oculto pela folhagem, à vista homem

inteiro. Blimunda adormeceu outra vez. Era dia claro quando sentiu que despertava com o

contacto instante de Baltasar. Antes de abrir os olhos, disse, Podes vir, já comi o pão, e

então Baltasar entrou nela sem medo, porque ela não entraria nele, assim fora prometido.

Quando saíram do interior da máquina e se vestiam, Baltasar perguntou, Foste ver as

vontades, Fui, respondeu ela, E estão lá, Estão, As vezes penso que devíamos abrir as

esferas, e deixá-las ir, Se as deixarmos ir, será o mesmo que se não tivesse acontecido nada,

será como se não tivéssemos nascido, nem tu, nem eu, nem o padre Bartolomeu Lourenço,

Continuam a parecer-se com nuvens fechadas, São nuvens fechadas.

Pelo meio da manhã acabaram o trabalho. Mais por a terem cuidado homem e

mulher do que por terem sido dois os cuidadores, a máquina parecia renovada, tão esperta como no seu primeiro voo. Puxando e enredando ramagens do silvado, Baltasar tapou a

passagem da entrada. Afinal de contas, isto é mesmo um conto de fadas. Diante da gruta

está um bosque de carvalhos, se o que vemos não é antes um rio sem barca nem remos. Só

do alto se veria o singular tecto negro da gruta, só uma passarola que passasse lá em cima,

mas a única que no mundo existe está aqui derrubada, e as aves comuns, as que Deus fez

ou mandou fazer, passam e tornam a passar, olham e tornam a olhar, e não entendem.

Também o burro não sabe ao que veio. Besta alugada, vai aonde o levam, carrega quanto

lhe ponham no lombo, todas as viagens se equivalem para ele, mas todas as da sua vida

fossem como esta, que o mais do caminho veio escoteiro, de lírios nas orelhas, algum dia

havia de ser a primavera dos burros.

Desceram a serra, tomaram por prudência outros caminhos, Lapaduços e Vale

Benfeito, sempre descendo, e porque quanto mais entre gente menos dariam nas vistas,

ladearam por Torres Vedras, depois para o Sul, ribeira de Pedrulhos, se não houvesse

tristeza nem miséria, se em todo o lugar corressem águas sobre as pedras, se cantassem

aves, a vida podia ser apenas estar sentado na erva, segurar um malmequer e não lhe

arrancar as pétalas, por serem já sabidas as respostas, ou por serem estas de tão pouca

importância, que descobri-las não valeria a vida duma flor. Há também outros simples e

rústicos prazeres, como lavarem Baltasar e Blimunda os pés na água, ela levantando as saias

até à curva da perna, melhor será que as desça, porque para cada ninfa que se banha há

sempre um fauno espreitando, e este está perto e arremete. Blimunda foge da água rindo,

ele agarra-a pela cintura, ambos caem, qual de baixo, qual de cima, nem parecem pessoas

deste século. O burro levanta a cabeça, fitando as orelhas compridas, mas não vê o que nós

vemos, apenas um remexer de sombras, as árvores cinzentas, o mundo de cada um é os

olhos que tem. Baltasar levanta Blimunda ao colo, vai sentá-la no albardão, arre burro,

toque, toque. É a hora da tardinha, não corre vento, nem brisa, nem aragem, sente a pele o

suspiro do ar como outra pele, não se encontra diferença alguma entre Baltasar e o mundo,

entre o mundo e Blimunda que diferença haveria. Em Mafra, é noite quando chegam.

Ardem fogueiras no alto da Vela. Se as chamas se alongam e alargam, vêem-se as paredes

da basílica, irregulares, os nichos vazios, os andaimes, os buracos negros das janelas, mais

ruína que construção nova, é sempre assim quando se ausenta o trabalho dos homens.

Fatigosos dias, mal dormidas noites. Por estes barracões repousam os operários,

passam de vinte mil, acomodados em beliches toscos, para muitos, em todo caso, melhor

cama que a nenhuma das suas casas, só a esteira no chão, o dormir vestido, a capa por

inteiro agasalho, ao menos, em tempo de frio, se aquecem aqui os corpos uns aos outros,

pior é quando vem o calor, com o bichedo de pulga e percevejo a chupar o sangue, e também o piolho da cabeça, o outro do corpo, os torturantes pruridos. E o comichar do

sexo, o engorgitamento dos humores, as descargas seminais do sonho, o vizinho de beliche

resfolgando, se não há mulheres que faremos. É certo que há mulheres, porém não chegam

a todos. Os mais afortunados são os da primitiva, os que se juntaram com viúvas e

abandonadas, mas Mafra é terra pequena, em pouco tempo não ficou mulher devoluta,

agora a preocupação dos homens é defenderem de tentações e assaltos o seu jardim, ainda

que de poucos ou nenhuns encantos. Algumas facadas têm sido trocadas por razões desta

qualidade. Em caso de morte, vem o corregedor do crime, vêm os quadrilheiros, se preciso

a tropa ajuda, vai o matador para a prisão, posto o que, de duas uma, se o criminoso foi o

homem da mulher, em pouco tempo tem sucessor, se da mulher era o homem morto, em

menos tempo ainda sucessor tem.

E os outros, que fazem os outros. Esses rondam por estas ruas sempre lamacentas

das águas despejadas, vão a certos becos onde as casas são também de tábuas, talvez

construídas pela previdência da vedoria, que não ignora o que são precisões de homem,

talvez pela usura de um empreiteiro de bordéis, quem fez a casa vendeu, quem a comprou

alugou, quem alugou alugou-se, mais afortunado foi o burro que Baltasar e Blimunda

levaram, a ele puseram-lhe lírios-de-água na cabeça, a estas mulheres, por trás das suas

meias-portas, ninguém leva flores, apenas um sexo impaciente que às escuras entrou e saiu,

quantas vezes trazendo consigo o princípio da podridão, o gálico, e então gemem os pobres

tão desgraçados como as desgraçadas que os contaminaram, escorre o pus pelas pernas

abaixo em intérmino fluxo, não é doença que os cirurgiões admitam nas enfermarias, o

remédio, se o for, é aplicar nas partes o sumo da consólida, milagrosa e já referida planta

que dá para tudo e não cura nada. Vieram para aqui rapagões que hoje, passados três ou

quatro anos, estão podres dos pés à cabeça. Vieram limpas mulheres que mal acabaram de

morrer tiveram de ser enterradas fundo porque se desfaziam em trampa e envenenavam o

ar. No dia seguinte a casa tem nova inquilina. A enxerga é a mesma, os trapos nem foram

lavados, um homem bate à porta e entra, não há perguntas a fazer nem respostas a dar, o

preço é conhecido, desaperta-se ele, ela levanta as saias, gemeu ele o seu gozo, ela não

precisa fingir, estamos entre gente séria.

Passam de largo os frades do hospício, por aparência de virtude, não tenhamos dó

destes, que jamais se viu congregação tão conhecedora de como se alternam e compensam

as mortificações e as consolações. Vão de olhos baixos, chocalhando as camândulas, as do

rosário que levam à cintura, as do troço que ocultamente dão a rezar às confitentes, e se

algum cilício de crina lhes cinge os rins, ou de puas, em caso extravagante, podemos

apostar que a eles os não cingem os rins silenciosamente, isto se devendo ler com muita atenção para que não escape ao entendimento. Se não acodem a outras obras e obrigações,

vão assistir às dolências do hospital, a soprar e chegar o caldo, a encarreirar os moribundos,

que dias há de se finarem dois e três, sem que lhes valham os santos da invocação das

enfermarias, a saber, S. Cosme e S. Damião, padrons dos médicos, Santo António, tão

capaz de colar ossos como de remendar bilhas, S. Francisco, por saber de estigmas, S. José,

para carpinteirar muletas, S. Sebastião, porque muito resiste à morte, S. Francisco Xavier,

por ser entendido em medicinas orientais, Jesus Maria José, a sagrada família, porém em

tudo apartada a relé das pessoas de distinção e dos oficiais militares, que esses têm

enfermaria à parte, e por esta desigualdade sabendo os frades donde lhe vem o convento,

se podem avaliar as diferenças de tratamento e extrema-unção. Atire-lhes a segunda pedra

quem não caiu nunca em pecados afins, o mesmo Cristo favoreceu a Pedro e amimou a

João, e eram doze os apóstolos. Um dia se averiguará que Judas traiu por ciúme e

abandono.

Em uma hora destas morreu João Francisco Sete-Sóis. Esperou que o filho descesse

da obra, primeiro entrara Álvaro Diogo que tinha pressa de comer e voltar para o telheiro

da pedraria, estava desfazendo pão na sopa quando Baltasar entrou, Boas noites, a sua

bênção, meu pai, parecia esta noite igual às outras noites, só faltava o mais novo da família,

que é sempre o último a aparecer, talvez que já se vá demorando pelas ruas das mulheres,

às escondidas, como se arranjará para pagar o que deve, se tem de entregar ao pai o jornal

inteiro, sem quebra de um real, e é Álvaro Diogo quem justamente está perguntando,

Ainda não chegou o Gabriel, imagine-se, há tantos anos que conhecemos o moço e só

agora lhe ouvimos o nome, foi preciso ter-se feito um homem, e Inês Antónia responde,

encobridora, Não tarda aí, é uma noite igual às outras, são as mesmas palavras, e ninguém

repara no espanto que apareceu na cara de João Francisco, sentado ao pé da lareira apesar

do calor que faz, nem Blimunda, distraída com Baltasar que entrou, deu as boas-noites ao

pai e pediu-lhe a bênção sem reparar se ele lha dava, quando se é filho durante muitos anos

cai-se nestas desatenções foi assim, A sua bênção, meu pai, e o velho levanta devagar a

mão, o devagar de quem só para isso ainda tem forças, é o seu último gesto, não concluído,

não rematado, caiu a mão junto da outra, sobre as dobras da capa, e quando Baltasar enfim

se volta para o pai, vai receber a bênção, vê-o apoiado à parede, com as mãos abertas, a

cabeça derrubada para o peito, Está doente, é uma pergunta escusada, não faltariam agora

assombros se João Francisco respondesse, Estou morto, e esta seria a maior das verdades

ditas. Choraram-se as naturais lágrimas, Álvaro Diogo não foi trabalhar, e quando Gabriel

entrou em casa não teve mais remédio que mostrar-se triste, ele que tão contente vinha do

paraíso, oxalá o não queime o inferno entre as pernas.

João Francisco Mateus deixou um quintal e uma casa velha. Tinha um cerrado no

alto da Vela. Levou anos a limpá-lo de pedras até que a enxada pudesse cavar em terra fofa.

Não valeu a pena, as pedras já lá estão outra vez, afinal para que vem um homem a este

mundo.