Memorial do Convento

José Saramago · Capítulo 28 de 30

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Memorial do Convento

Desce Baltasar ao vale, vai para casa,…

Desce Baltasar ao vale, vai para casa, é certo que o trabalho ainda não despegou na

obra, mas, vindo ele tão esforçadamente de longe, desde Santo António do Tojal em um só

dia não esqueçamos tem direito a recolher mais cedo, depois de descangados e pensados os

bois. O tempo, às vezes, parece não passar, é como uma andorinha que faz o ninho no

beiral, sai e entra, vai e vem, mas sempre à nossa vista, julgaríamos, nós e ela, que iríamos

ficar assim a eternidade, ou metade dela, o que já não seria mau. Mas, de repente, estava e já

não está, mesmo agora a vi, onde é que se meteu, e se temos à mão um espelho, Jesus,

como o tempo passou, como eu me tornei velho, ainda ontem era a flor do bairro, e hoje

nem bairro nem flor. Baltasar não tem espelhos, a não ser estes nossos olhos que o estão

vendo a descer o caminho lamacento para a vila, e eles são que lhe dizem, Tens a barba

cheia de brancas, Baltasar, tens a testa carregada de rugas, Baltasar, tens encorreado o

pescoço, Baltasar, já te descaem os ombros, Baltasar, nem pareces o mesmo homem,

Baltasar, mas isto é certamente defeito dos olhos que usamos, porque aí vem justamente

uma mulher, e onde nós víamos um homem velho, vê ela um homem novo, o soldado a

quem perguntou um dia, Que nome é o seu, ou nem sequer a esse vê, apenas a este homem

que desce, sujo, canoso e maneta, Sete-Sóis de alcunha, se a merece tanta canseira, mas é

um constante sol para esta mulher, não por sempre brilhar, mas por existir tanto,

escondido de nuvens, tapado de eclipses, mas vivo, Santo Deus, e abre-lhe os braços,

quem, abre-os ele a ela, abre-os ela a ele, ambos, são o escândalo da vila de Mafra,

agarrarem-se assim um ao outro na praça pública, e com idade de sobra, talvez seja porque

nunca tiveram filhos, talvez porque se vejam mais novos do que são, pobres cegos, ou

porventura serão estes os únicos seres humanos que como são se vêem, é esse o modo

mais difícil de ver, agora que eles estão juntos até os nossos olhos foram capazes de

perceber que se tornaram belos.

À ceia, Álvaro Diogo disse que as estátuas ficarão onde foram descarregadas, não há

tempo para as colocar nos nichos respectivos, a sagração é já no domingo e todos os

cuidados e trabalhos serão poucos para dar à basílica um ar composto de obra acabada, está

concluída a casa da sacristia, mas sem reboco nas abóbadas, e, como ainda conservam o

simples, se mandarão cobrir com pano de brim engessado, a fingir de guarnição de cal, para

aparecer com mais asseio, e à igreja, como falta o zimbório, do mesmo modo se disfarçará

a ausência. Álvaro Diogo sabe muito destas miudezas, de comum pedreiro passou a

canteiro, de canteiro a lavrante, e bem visto pelos oficiais e mestres-de-obra, sempre pontual, sempre diligente, sempre cumpridor, tão habilidoso de mãos como dócil de

palavras, nada parecido com essa malta dos boieiros, arruaceira quando calha, cheirando a

esterco e suja dele, em vez desta brancura do pó do mármore que cobre os pêlos das mãos

e das barbas, e se agarra à roupa para toda a vida. Assim será com Álvaro Diogo,

precisamente para toda a vida, porém curta, que em breve tempo cairá duma parede aonde

não tinha que subir, não lho exigia já o ofício, foi lá para ajeitar uma pedra que das suas

mãos saíra e só por isso não podia estar mal talhada. Quase trinta metros de altura será a

queda, e dela morrerá, e esta Inês Antónia, por ora tão orgulhosa do favor de que goza o

seu homem, tornar-se-á numa viúva triste, ansiosa se lhe cairá agora o filho, não se acabam

as ralações do pobre. Diz mais Álvaro Diogo que antes da sagração se mudarão os noviços

para duas casas já construídas por cima da cozinha, e, a propósito desta informação,

lembrou Baltasar que, estando os rebocos ainda tão húmidos e correndo tão fria a estação,

não iriam faltar doenças aos frades, e Álvaro Diogo respondeu que já havia braseiros

ardendo noite e dia dentro das celas acabadas, mas que, mesmo assim, a humidade escorria

pelas paredes, E as estátuas dos santos, Baltasar, deram muito trabalho a trazer, Nem por

isso, o pior foi carregar, depois, com jeito e força, mais a paciência dos bois, viemos

andando. A conversa esmorecia, esmorecia o lume na lareira, Álvaro Diogo e Inês Antónia

foram-se deitar, de Gabriel não falemos, que já estava a dormir quando mastigava o último

bocado da ceia, então Baltasar perguntou, Queres ir ver as estátuas, Blimunda, o céu deve

estar limpo e a lua não tarda aí, Vamos, respondeu ela.

A noite estava clara e fria. Enquanto subiam a ladeira para o alto da Vela, a lua

nasceu, enorme, vermelha, recortando primeiro as torres sineiras, os alçados irregulares das

paredes mais altas, e, lá para trás, o testo do monte que tantos trabalhos trouxera e tanta

pólvora consumira. E Baltasar disse, Amanhã vou ao Monte Junto ver como está a

máquina, passaram seis meses desde a última vez, como estará aquilo, Vou contigo, Não

vale a pena, saio cedo, se não tiver muito que remendar estarei cá antes da noite, melhor é

ir agora, depois são as festas da sagração, se adrega de chover ficam os caminhos piores,

Tem cuidado, Descansa, a mim não me assaltam ladrões nem mordem lobos, Não é de

lobos ou ladrões que falo, Então, Falo da máquina, Dizes-me sempre que me acautele, eu

vou e venho, mais cuidados não posso ter, Tem-nos todos, não te esqueças, Sossega,

mulher, que o meu dia ainda não chegou, Não sossego, homem, os dias chegam sempre.

Tinham subido ao grande terreiro diante da igreja, cujo corpo rompia do chão, céu

acima, isolado da restante obra. O que havia de ser palácio era ainda, e apenas, o piso

térreo, para um lado e para o outro, sobre ele se vendo umas construções de madeira para

servirem às cerimónias que ali se iam dar. Parecia impossível que tantos anos de trabalho, treze, fizessem tão pouco vulto, uma igreja inacabada, um convento que, em duas alas, está

levantado até ao segundo andar, o resto pouco mais que a altura dos portais do primeiro,

ao todo quarenta celas acabadas, em vez das trezentas que vão ser precisas. Parece pouco e

é muito, se não demasiado. Uma formiga vai à eira e agarra numa pargana. Dali ao

formigueiro são dez metros, menos que vinte passos de homem. Mas quem vai levar essa

pargana e andar esse caminho, é a formiga, não é o homem. Ora, o mal desta obra de

Mafra é terem posto homens a trabalhar nela em vez de gigantes, e, se com estas e outras

obras passadas e futuras se quer provar que também o homem é capaz de fazer o trabalho

que gigantes fariam, então aceite-se que leve o tempo que levam as formigas, todas as

coisas têm de ser entendidas na sua justa proporção, os formigueiros e os conventos, a laje

e a pargana.

Blimunda e Baltasar entram no círculo das estátuas. O luar ilumina de frente as duas

grandes figuras de S. Sebastião e S. Vicente, as três santas no meio deles, depois para os

lados começam os corpos e os rostos a encher-se de sombras, até ao completo negrume em

que se escondem S. Domingos e Santo Inácio, e, injustiça grave, se já o condenaram, S.

Francisco de Assis, que merecia estar em luz plena, ao pé da sua Santa Clara, prouvera não

se veja nesta insistência nenhuma insinuação de comércio carnal, e depois, se o tivesse

havido, que é que tinha, não é por isso que as pessoas deixam de ser santas, e com isso é

que os santos ficam pessoas. Blimunda vai olhando, tenta adivinhar as representações,

umas sabe-as só de olhar uma vez, outras acerta após muito teimar, outras não chega a ter a

certeza, outras são como arcas fechadas. Compreende que aquelas letras, aqueles sinais, na

base em que assenta S. Vicente, estão explicando, claramente para quem souber ler, que

nome ele tem. Com o dedo acompanha as curvas e as rectas, é como um cego que ainda

não aprendeu a decifrar o seu alfabeto relevado, Blimunda não pode perguntar à estátua,

Quem és, o cego não pode perguntar ao papel, Que dizes, só Baltasar, em seu tempo, pôde

responder, Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, quando Blimunda quis saber, Que nome é o seu.

Tudo no mundo está dando respostas, o que demora é o tempo das perguntas. Uma nuvem

solitária veio do mar, sozinha em todo o claro céu, e por um longo minuto cobriu a lua. As

estátuas tornaram-se vultos brancos, informes, perderam o contorno e as feições, estão

como blocos de mármore antes de as ir procurar e achar o cinzel do escultor. Deixaram de

ser santo e santa, são apenas primitivas presenças, sem voz, nem sequer aquela que o

desenho dá, tão primitivas, tão difusas na sua massa, como parecem as do homem e da

mulher que, no meio delas, se diluíram na escuridão, pois estes não são de mármore,

simples matéria viva, e, como sabemos, nada se confunde mais com a sombra do chão do

que a carne dos homens. Sob a grande nuvem que, devagar, ia passando, distinguia-se melhor o brilho das fogueiras que acompanhavam a vigília dos soldados. A distância, a Ilha

da Madeira era uma massa confusa, um gigantesco dragão deitado, respirando por quarenta

mil foles, tantos os homens que ali dormem, mais os míseros das enfermarias onde não há

um catre vago, salvo se estão os enfermeiros retirando alguns cadáveres este que rebentou

por dentro, este que tinha uma nascida, este que deitava sangue pela boca, este que um

estupor paralisou e, segundando, matou. A nuvem afastou-se para dentro da terra, maneira

de dizer, pela terra dentro, para o interior dos campos, embora nunca se possa saber que

faz uma nuvem quando deixamos de olhar para ela, ou quando se esconde por trás daquele

monte, pode muito bem ter-se metido para dentro da terra ou sobre ela descido para

fecundar quem adivinhará que estranhas vidas, que raros poderes, Vamos para casa,

Blimunda, disse Baltasar.

Saíram do círculo das estátuas, outra vez iluminadas, e, quando iam começar a descer

para o vale, Blimunda olhou para trás. Fosforesciam como sal. Apurando o ouvido,

percebia-se daquele lado um rumor de conversação, seria um concílio, um debate, um juízo,

talvez o primeiro desde que partiram de Itália, metidos em porões, entre ratos e humidades,

atados violentamente nos conveses, porventura a última fala geral que poderiam ter, assim à

luz da lua, porque não tarda que sejam metidos em seus nichos, alguns nunca mais tornarão

a olhar-se de olhos nos olhos, outros só de revés, e outros vão continuar a olhar o céu,

parece castigo. Disse Blimunda, Devem ser infelizes os santos, assim como os fizeram,

assim ficam, se isto é à santidade, que será a condenação, São apenas estátuas, Do que eu

gostava era vê-las descer daquelas pedras e ser gente como nós, não se pode falar com

estátuas, Sabemos nós lá se não falarão quando estão sozinhos, Isso não sabemos, mas, se

só uns com os outros falam e sem testemunhas, para que precisamos deles, pergunto eu,

Sempre ouvi dizer que os santos são necessários à nossa salvação, Eles não se salvaram,

Quem te disse tal, É o que eu sinto dentro de mim, Que sentes tu dentro de ti, Que

ninguém se salva, que ninguém se perde, É pecado pensar assim, O pecado não existe, só

há morte e vida, A vida está antes da morte, Enganas-te, Baltasar, a morte vem antes da

vida, morreu quem fomos, nasce quem somos, por isso é que não morremos de vez, E

quando vamos para debaixo da terra, e quando Francisco Marques fica esmagado sob o

carro da pedra, não será isso morte sem recurso, Se estamos falando dele, nasce Francisco

Marques, Mas ele não o sabe, Tal como nós não sabemos bastante quem somos, e, apesar

disso, estamos vivos, Blimunda, onde foi que aprendeste essas coisas, Estive de olhos

abertos na barriga da minha mãe, de lá via tudo.

Entraram no quintal. O luar já era cor de leite. Mais nítidas ainda do que se as

marcasse o sol, as sombras eram negras e profundas. Havia ali uma velha barraca coberta de bunho apodrecido, onde, em tempos de maior abono, uma burra descansava dos seus

trabalhos de levar e trazer. Na fala familiar era a barraca da burra, apesar de a proprietária

ter morrido há muitos e muitos anos, tantos que nem Baltasar conservava lembrança, andei

montado nela, não andei, e, assim duvidando, ou dizendo, Vou guardar o ancinho na

barraca da burra, estava dando razão a Blimunda, era como ver aparecer o animal com os

seus ceirões ou com o rijo albardão, e a mãe dizendo lá de dentro da cozinha, Vai ajudar o

teu pai a descarregar a burra, ainda não era ajuda que valesse a pena, tão pequenino, mas ia-

se habituando aos trabalhos pesados, e, como todo o esforço deve ter seu prémio,

escarranchava-o depois o pai no lombo húmido do animal e passeava-o pelo quintal, afinal

sempre fui cavaleiro daquele cavalo. Para dentro da barraca o levou Blimunda, não era a

primeira vez que ali entravam a horas nocturnas, ora por vontade de um, ora por vontade

do outro, faziam-no quando a necessidade da carne se anunciava mais expansiva, quando

adivinhavam que não poderiam sufocar o gemido, o estertor, talvez o grito, com escândalo

dos discretos amplexos de Álvaro Diogo e Inês Antónia, e alvoroço insuportável do

sobrinho Gabriel, forçado pela urgência a conciliar-se pecadoramente. A antiga e larga

manjedoura, que nos tempos da sua utilidade estivera fixada aos prumos da barraca, a altura

conveniente, estava agora no chão, meio desconjuntada, mas confortável como um leito

real, afofada de palha, com duas mantas velhas. Álvaro Diogo e Inês Antónia sabiam que

serventia tinham estas coisas, mas fingiam ignorá-lo. Nunca lhes deu o capricho de

experimentar a novidade, são espíritos quietos e carnes desambiciosas, só Gabriel aqui virá

ter encontros depois de mudadas estas vidas, tão perto isso já vem e ninguém o adivinha.

Talvez alguém, talvez Blimunda, não por ter puxado Baltasar para a barraca, sempre foi

mulher para dar o primeiro passo, para dizer a primeira palavra, para fazer o primeiro

gesto, mas por uma ânsia que lhe aperta a garganta, pela violência com que abraça Baltasar,

pela sofreguidão do beijo, pobres bocas, perdida está a frescura, perdidos alguns dentes,

partidos outros, afinal o amor existe sobre todas as coisas.

Contra o costume, dormiram ali. Quando amanheceu, Baltasar disse, Vou ao Monte

Junto, e ela levantou-se, entrou em casa, na meia escuridão da cozinha procurou e

encontrou algum alimento, ainda dormiam lá para dentro os cunhados e o sobrinho, depois

saiu, cerrando a porta, trazia também o alforge de Baltasar, dentro dele meteu a comida e as

ferramentas, sem esquecer o espigão de ferro, de maus encontros ninguém está livre.

Saíram ambos, Blimunda acompanhou Baltasar até fora da vila, viam-se ao longe as torres

da igreja, brancas sobre o céu encoberto, ninguém o esperaria, depois da clara noite que foi.

Abraçaram-se os dois no recato duma árvore de ramos baixos, entre as folhas douradas do

Outono, pisando outras que já se confundiam com a terra, alimentando-a, para reverdeceram de novo. Não é Oriana em seu traje de corte que se está despedindo de

Amadis, nem Romeu que, descendo, colhe o debruçado beijo de Julieta, é somente Baltasar

que vai ao Monte Junto remediar os estragos do tempo, não é mais que Blimunda

impossivelmente tentando que o tempo pare. Com as suas vestes escuras, são duas sombras

inquietas, mal se separam, logo se aproximam, não sei que adivinham estes, que outros

casos se preparam, porventura tudo será obra da imaginação, fruto da hora e do lugar, de

sabermos que o bem não dura muito, não demos por ele quando veio, não o vimos quando

esteve, damos-lhe pela falta quando partiu, Não tardes por lá, Baltasar, Dorme tu na

barraca, posso chegar já de noite, mas, se houver muito que consertar, só venho amanhã,

Bem sei, Adeus Blimunda, Adeus Baltasar.

Não vale a pena narrar segundas viagens, se foram explicadas as primeiras. De

quanto variou quem as faz, já se disse o bastante, de como mudam os lugares e as paisagens

basta saber que por lá passam os homens e as estações, de cada vez um poucochinho eles,

casa, telheiro, courela, muro, palácio, ponte, convento, sebe, calçada, moinho, de vez,

radicalmente, elas, como se fosse para sempre, Primavera, Verão, Outono que é agora,

Inverno que não tarda. Baltasar conhece estes caminhos como a palma da sua mão direita.

Descansou na margem da ribeira de Pedrulhos, onde um dia folgou com Blimunda, em

tempo de flores, de malmequeres nos incultos, de papoulas nas searas, de surdas cores nos

matos. Pelos caminhos vai encontrando gente que desce para Mafra, magotes de homens e

mulheres que rufam tambores e bombos, que sopram gaitas, às vezes levando à frente um

padre ou um frade, não raro um entrevado em andas, porventura será o dia da sagração

assinalado por um ou mais milagres, nunca se sabe quando quer Deus exercer as suas

medicinas, por isso devem os cegos, os coxos, os paralíticos andar em permanente romaria,

Virá hoje Nosso Senhor, quem sabe se me enganei na esperança, se calhar vou eu a Mafra e

é dia de ele descansar, ou mandou a mãe à Senhora do Cabo, como é que uma pessoa se

há-de entender nesta distribuição de poderes, porém, a fé nos há-de salvar, Salvar de quê,

perguntaria Blimunda.

Ao princípio da tarde, chegou Baltasar às primeiras elevações da serra do Barregudo.

Ao fundo erguia-se o Monte Junto, todo iluminado pelo sol que acabara de romper as

nuvens. Sobre a serra vogavam sombras, eram como grandes animais escuros que

percorriam as colinas, arrepiando-as ao passar, depois a luz aquecia as árvores, fazia brilhar

os charcos. E o vento soprava contra os braços parados dos moinhos, assobiava nas

cantarinhas, são coisas em que só repara quem vai de caminho sem pensar noutras

ponderações da vida, apenas este passar e estar passando, a nuvem no céu, o sol que vai

começar a descer, o vento que nasce aqui e além morre, a folha sacudida ou que esmorecendo cai, se para tais contemplações tem olhos um antigo e cruel soldado com

morte de homem às costas, crime porventura resgatado por outros acidentes da sua vida,

ter sido crucificado com sangue sobre o coração, ter visto como a terra é grande e tudo

nela tão pequeno, ter falado aos seus bois com voz branda e descansada, parece pouco,

alguém saberá se é suficiente.

Meteu-se já Baltasar pelos contrafortes do Monte Junto, procura o quase invisível

caminho que por entre mato o levará à máquina de voar, é sempre com o coração apertado

que se aproxima, por temor de que a tenham descoberto, talvez destruído, talvez roubado,

e de cada vez se surpreende de a ver como se tivesse acabado agora mesmo de pousar,

ainda fremente da veloz descida, no seu regaço de arbustos e miríficas trepadeiras, miríficas

se lhes há-de chamar porque não é isto terra onde costumadamente cresçam. Não foi

roubada, destruída também não, lá está, no mesmo lugar, de asa descaída, o seu pescoço de

ave confundido com as ramagens mais altas, a cabeça escura como um ninho suspenso.

Baltasar aproximou-se, largou o alforge para o chão, sentou-se a descansar um pouco, antes

de se pôr ao trabalho. Comeu duas sardinhas fritas sobre um pedaço de pão, usando a

ponta e o fio da navalha com a arte de quem abre miniaturas em marfim, quando terminou

limpou a lâmina às ervas, a mão ao calção, e dirigiu-se à máquina. O sol brilhava com força,

o ar estava quente. Por cima da asa, pisando cautelosamente para não ofender o

revestimento de vime, Baltasar entrou na passarola. Algumas tábuas do convés estavam

apodrecidas. Teria de substituí-las, trazer os materiais necessários, demorar-se aqui uns dias,

ou então, só agora lhe ocorria a ideia, desmontar a máquina peça por peça, transportá-la

para Mafra escondê-la debaixo duma parga de palha, ou num dos subterrâneos do

convento, se pudesse combinar com os amigos mais chegados, confiar-lhes metade do

segredo, consigo mesmo se espantava de nunca ter pensado nesta solução, quando voltasse

falaria com Blimunda. Ia distraído, não reparou onde punha os pés, de repente duas tábuas

cederam, rebentaram, afundaram-se. Esbracejou violentamente para se amparar, evitar a

queda, o gancho do braço foi enfiar-se na argola que servia para afastar as velas, e, de

golpe, suspenso em todo o seu peso, Baltasar viu os panos arredarem-se para o lado com

estrondo, o sol inundou a máquina, brilharam as bolas de âmbar e as esferas. A máquina

rodopiou duas vezes, despedaçou, rasgou os arbustos que a envolviam, e subiu. Não se via

uma nuvem no céu.