Memorial do Convento

José Saramago · Capítulo 20 de 30

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Memorial do Convento

Em seu trono entre o brilho das…

Em seu trono entre o brilho das estrelas, com seu manto de noite e solidão, tem aos

seus pés o mar novo e as mortas eras, o único imperador que tem, deveras, o globo mundo

em sua mão, este tal foi o infante D. Henrique, consoante o louvará um poeta por ora

ainda não nascido, lá tem cada um as suas simpatias, mas, se é de globo mundo que se trata

e de império e rendimentos que impérios dão, faz o infante D. Henrique fraca figura

comparado com este D. João, quinto já se sabe de seu nome na tabela dos reis, sentado

numa cadeira de braços de pau-santo, para mais comodamente estar e assim com outro

sossego atender ao guarda-livros que vai escriturando no rol os bens e as riquezas, de

Macau as sedas, os estofos, as porcelanas, os lacados, o chá, a pimenta, o cobre, o âmbar

cinzento, o ouro, de Goa os diamantes brutos, os rubis, as pérolas, a canela, mais pimenta,

os panos de algodão, o salitre, de Diu os tapetes, os móveis tauxiados, as colchas bordadas,

de Melinde o marfim, de Moçambique os negros, o ouro, de Angola outros negros, mas

estes menos bons, o marfim, que esse, sim, é o melhor do lado ocidental da África, de São

Tomé a madeira, a farinha de mandioca, as bananas, os inhames, as galinhas, os carneiros,

os cabritos, o indigo, o açúcar, de Cabo Verde alguns negros, a cera, o marfim, os couros,

ficando explicado que nem todo o marfim é de elefante, dos Açores e Madeira os panos, o

trigo, os licores, os vinhos secos, as aguardentes, as cascas de limão cristalizadas, os frutos,

e dos lugares que hão-de vir a ser Brasil o açúcar, o tabaco, o copal, o indigo, a madeira, os

couros, o algodão, o cacau, os diamantes, as esmeraldas, a prata, o ouro, que só deste vem

ao reino, ano por ano, o valor de doze a quinze milhões de cruzados, em pó e amoedado,

fora o resto, e fora também o que vai ao fundo ou levam os piratas, claro está que este todo

não é o rendimento da coroa, rica sim, mas não tanto, porém, tudo somado, de dentro e de

fora, entram nas burras de el-rei para cima de dezasseis milhões de cruzados, só o direito de

passagem dos rios por onde se vai às Minas Gerais rende trinta mil cruzados, tanto trabalho

teve Deus Nosso Senhor a abrir as valas por onde as águas haviam de correr e vem um rei

português cobrar portagem gananciosa.

Medita D. João V no que fará a tão grandes somas de dinheiro, a tão extrema

riqueza, medita hoje e ontem meditou, e sempre conclui que a alma há-de ser a primeira

consideração, por todos os meios devemos preservá-la, sobretudo quando a podem

consolar também os confortos da terra e do corpo. Vá pois ao frade e à freira o necessário,

vá também o supérfluo, porque o frade me põe em primeiro lugar nas suas orações, porque

a freira me aconchega a dobra do lençol e outras partes, e a Roma, se com bom dinheiro lhe pagámos para ter o Santo Ofício, vá mais quanto ela pedir por menos cruentas

benfeitorias, a troco de embaixadas e presentes, e se desta pobre terra de analfabetos, de

rústicos, de toscos artífices não se podem esperar supremas artes e ofícios, encomendem-se

à Europa, para o meu convento de Mafra, pagando-se, com o ouro das minhas minas e

mais fazendas, os recheios e ornamentos, que deixarão, como dirá o frade historiador, ricos

os artífices de lá, e a nós, vendo-os, aos ornamentos e recheios, admirados. De Portugal

não se requeira mais que pedra, tijolo e lenha para queimar, e homens para a força bruta,

ciência pouca. Se o arquitecto é alemão, se italianos são os mestres dos carpinteiros e dos

alvenéus e canteiros, se negociantes ingleses, franceses, holandeses e outras reses todos os

dias nos vendem e nos compram, está muito certo que venham de Roma, de Veneza, de

Milão e de Génova, e de Liège, e da França, e da Holanda, os sinos e os carrilhões, e os

candeeiros, as lâmpadas, os castiçais, os tocheiros de bronze, e os cálices, as custódias de

prata sobredourada, os sacrários, e as estátuas dos santos de que el-rei é mais devoto, e os

paramentos dos altares, os frontais, as dalmáticas, as planetas, os pluviais, os cordões, os

dosséis, os pálios, as alvas de peregrinas, as rendas, e três mil pranchas de pau de nogueira

para os caixões da sacristia e cadeiral do coro, por ser madeira muito estimada para esse fim

por S. Carlos Borromeu, e dos países do Norte navios inteiros carregados de tabuado para

os andaimes, telheiros e casas de acomodação, e cordas e amarras para os cabrestantes e

roldanas, e do Brasil pranchas de angelim, incontáveis, para as portas e janelas do

convento, para o solho das celas, dormitórios, refeitório e mais dependências, incluindo as

grades dos espulgadoiros por ser incorrompível madeira, não como este rachante pinho

português, que só serve para ferver as panelas e sentar-se nele gente de pouco peso e

aliviada de algibeiras. Desde que na vila de Mafra, já lá vão oito anos, foi lançada a primeira

pedra da basílica, essa de Pêro Pinheiro graças a Deus, tudo quanto é Europa vira

consoladamente a lembrança para nós, para o dinheiro que receberam adiantado, muito

mais para o que hão-de cobrar no termo de cada prazo e na obra acabada, ele é os ourives

do ouro e da prata, ele é os fundidores dos sinos, ele é os escultores de estátuas e relevos,

ele é os tecelões, ele é as rendeiras e bordadeiras, ele é os relojoeiros, ele é os entalhadores,

ele é os pintores, ele é os cordoeiros, ele é os serradores e madeireiros, ele é os

passamaneiros, ele é os lavrantes do couro, ele é os tapeceiros, ele é os carrilhadores, ele é

os armadores de navios, se a vaca que tão dócil se deixa mungir não puder ser nossa, ou

enquanto nossa não puder vir a ser, ao menos deixá-la ficar com os portugueses, que em

pouco tempo estarão a comprar-nos, fiado, um quartilho de leite para fazerem farófias e

papos-de-anjo, Querendo vossa majestade repetir, é só dizer, avisa madre Paula.

Vão as formigas ao mel, ao açúcar derramado, ao maná que cai do céu, são quê,

quantas, talvez umas vinte mil, todas para o mesmo lado viradas, como certas aves

marinhas que às centenas se reúnem nas praias para adorar o sol, tanto faz que o vento lhes

dê de rabo, ao arrepio das penas, o que lhes importa é seguir o olho viajante do céu, e em

carreirinhas curtas vão passando à frente umas das outras, até que se acaba a praia ou o sol

se esconde, amanhã voltaremos a este mesmo lugar, se não viermos nós, nossos filhos

virão. Dos vinte mil, quase todos são homens, as poucas mulheres ficam na periferia do

ajuntamento, não tanto por causa do costume de se separarem os sexos na missa, mas

porque, perdendo-se elas no meio da multidão, vivas, sim, talvez saíssem, mas violadas,

como hoje diríamos, não tentarás o Senhor teu Deus, e se o tentares não venhas depois

queixar-te de que ficaste grávida.

Já foi dito que é isto missa. Entre a obra e a Ilha da Madeira fica um espaço amplo,

calcado pelo ir e vir dos operários, sulcado pelas rodeiras dos carros que vêm e vão,

felizmente está agora tudo seco, é a virtude da Primavera quando começa a chegar-se aos

braços do Verão, daqui a pouco os homens poderão ajoelhar-se sem temer demasiado pelas

joelheiras dos calções, ainda que esta gente não seja da que mais cuida de limpezas, lavam-

se com o próprio suor. Numa eminência ao fundo está posta uma capela de madeira, se

julgam os assistentes que há milagre capaz de metê-los a todos lá dentro, redondamente se

enganam, mais fácil foi multiplicar os peixes e os pães, ou caberem duas mil vontades num

frasco de vidro, isso não é milagre nenhum, mas sim a mais natural coisa do mundo,

querendo. Então rangem os cabrestantes, com este barulho, ou semelhante, se abrem as

portas do céu e do inferno, cada qual de sua qualidade, cristal a da casa de Deus, bronze a

da casa de Satã, logo se percebe pela diferença que fazem os ecos, porém, aqui, o estridor é

só o da fricção das madeiras, levanta-se lentamente a frontaria da capela, vai-se levantando

até se transformar a parede em alpendre, ao mesmo tempo que as partes laterais se afastam,

é como se mãos invisíveis estivessem abrindo um sacrário, a primeira vez que isto

aconteceu ainda não havia tanta gente na obra, mas sempre foram cinco mil pessoas a fazer

Ah, em todos os tempos há-de haver uma novidade que espante os homens, depois

habituam-se, abriu-se enfim a capela de par em par, mostrando lá dentro o celebrante e o

altar, será esta uma missa como outra qualquer, parece impossível, mas toda esta gente já se

esqueceu de que Mafra foi um dia sobrevoada pelo Espírito Santo, diferentes são as missas

que precedem as batalhas campais, quando se contarem e enterrarem os mortos sabe-se lá

se não estarei entre eles, aproveitemos bem o santo sacrifício, salvo se o inimigo atacar

antes, ou por ter ido à missa mais cedo ou por ser de uma religião que a dispensa. Da sua

gaiola de madeira pregou o celebrante ao mar de gente, se fosse o mar de peixes, que formoso sermão se teria podido repetir aqui, com a sua doutrina muito clara, muito sã, mas,

peixes não sendo, foi a pregação como a mereciam homens e só a ouviram os fiéis que

mais ao perto estavam, porém, se é certo que o hábito não faz o monge, faz sem dúvida a

fé, ouvindo o assistente réu já sabe que foi dito céu, se eterno inferno, se isto Cristo, se

Zeus Deus, e se mais nada se ouve, palavra ou eco, é porque acabou o sermão e podemos

debandar. Espantoso é ter-se acabado a missa e não terem ficado mortos no terreno, não

os matou sequer o sol quando deu em cheio na custódia e faiscou, muito mudadas estão as

eras, já vai tempo que estando os Betsamitas no campo a ceifar o seu trigo, levantaram por

acaso os olhos do trabalho e viram que vinha a Arca da Aliança da terra dos Filisteus, pois

foi quanto bastou para caírem ali redondos cinquenta mil e setenta agora olharam vinte mil,

estavas lá, não dei por ti. É uma religião de grandes lazeres, mormente estando reunidos

tantos fiéis, onde é que se ia arranjar vagar e instalações para se confessarem todos ou

todos comungarem, assim vão ficar por aí ao Deus dará, se der, bocejando muito, entrando

em brigas, umbigando uma mulher atrás dum valado ou em lugares mais ribaldeiros, até

amanhã, que é outra vez dia de trabalho.

Baltasar atravessa o terreiro, há homens que armam inocentes jogos de malha, outros

que el-rei proíbe, como o caras-ou-cruzes, se vem por aí o corregedor na sua volta, não

passam estes sem tronco. Esperam Baltasar, no sítio combinado, Blimunda e Inês Antónia,

e ali irão ter também, ou já lá estão, Álvaro Diogo e o filho. Descem todos juntos ao vale,

em casa espera-os o velho João Francisco que mal pode mexer as pernas, contenta-se com

a missa discreta que o vigário diz na igreja de Santo André, assiste toda a casa do visconde,

provavelmente por isso são os sermões menos aterradores, embora tenham a desvantagem

de se terem de ouvir por inteiro e logo se notarem as desatenções de quem ouve, tão

naturais quando os anos são muitos ou muito fatigaram. Acabam de jantar, Álvaro Diogo

dorme a sesta, o filho vai aos pardais com outros da sua idade, as mulheres remendam e

passajam discretamente, porque este dia é de guarda e portanto não quer Deus Que se

trabalhe, porém, se este rasgão não fosse remendado hoje, amanhã estaria maior, e se é

verdade que Deus castiga sem pau nem pedra, verdade é também que, remendar, só com

agulha e linha, ainda que não seja grande o meu jeito, nem é para admirar, quando Adão e

Eva foram criados, tanto sabia um como sabia outro, e quando os expulsaram do paraíso,

não consta que tenham recebido do arcanjo uma lista de trabalhos de homem e trabalhos

de mulher, a esta só foi dito, Parirás com dor, mas até isso há-de acabar um dia. Baltasar

deixa em casa o espigão e o gancho, vai com o seu coto à fresca, quer ver se volta a sentir

aquelas reconfortantes dores na mão, agora cada vez mais raras, e aquela comichãozinha na

parte interna do dedo polegar, a sensação voluptuosa de o coçar com a unha do dedo indicador, não lhe venham dizer que tudo isso se passa na sua cabeça, ele responderia que

dentro da cabeça não tem dedos, Mas você, ó Baltasar, já não tem a mão, Disso é que

ninguém pode ter a certeza, vá lá uma pessoa discutir com gente desta, capaz até de negar a

própria realidade.

É sabido que Baltasar vai beber, mas não se em briagará. Bebe desde que soube da

morte do padre Bartolomeu Lourenço, triste morte, foi um abalo muito grande como um

terramoto profundo que lhe tivesse rachado os alicerces, deixando embora, à superfície, as

paredes aprumadas. Bebe porque constantemente se lembra da passarola, lá na serra do

Barregudo, numa encosta do Monte Junto, quem sabe se já encontrada por contrabandistas

ou pastores, e só de pensar nisso sofre como se o estivessem a apertar no potro. Mas,

bebendo, sempre chega o momento em que sente pousar sobre o seu ombro a mão de

Blimunda, não é preciso mais nada, está Blimunda sossegada em casa, Baltasar pega no

púcaro cheio de vinho, julga que o vai beber como bebeu os outros, mas a mão toca-lhe no

ombro, é uma voz que diz, Baltasar, e o púcaro volta à mesa intacto, os amigos sabem que

não beberá mais nesse dia. Ficará calado, ouvindo apenas, enquanto o torpor do vinho se

desvanece lentamente e as palavras dos outros refazem um sentido, ainda que seja o da

mesma e repetida história, O meu nome é Francisco Marques, nasci em Cheleiros, que é

aqui perto de Mafra, umas duas léguas, tenho mulher e três filhos pequenos, toda a minha

vida foi trabalhar de jornal, e como da miséria não via jeito de sair, resolvi vir trabalhar para

o convento, que até foi um frade da minha terra o da promessa, segundo ouvi contar, que

nessa altura era eu um rapazito, assim como o teu sobrinho mas vá lá que não tenho muitas

razões de queixa, Cheleiros não é longe, de vez em quando meto pernas ao caminho, as

duas que andam e a do meio, dá como resultado que a mulher está prenha outra vez, o

dinheiro que eu forró lá lho deixo, mas os pobres como nós têm de comprar tudo, não lhes

vem por negócio da Índia ou do Brasil, nem temos empregos ou comendas do paço, que é

que eu posso fazer com os duzentos réis de jornal, tenho de pagar o que como aqui na casa

de pasto e o púcaro de vinho que bebo, a vida vai boa é para os donos das vendas de

comida, e se é verdade que vieram obrigados de Lisboa muitos deles, eu por necessidade

vivo e necessitado continuo, O meu nome é José Pequeno, não tenho pai, nem mãe, nem

mulher que minha seja, nem sei sequer se o nome certo é este, ou se tive algum antes,

apareci numa aldeia ao pé de Torres Vedras, pelo seguro, o vigário baptizou-me, José é o

nome de pia, o Pequeno puseram-mo depois, porque não cresci muito, com esta corcunda

às costas nenhuma mulher me quis para viver, mas todas pedem mais se calha deixarem

que me ponha em cima delas, não tenho outra compensação, chega-te para cá, agora vai-te

embora, se me vejo velho nem para isso sirvo, se a Mafra vim foi porque gosto de trabalhar com os bois, os bois andam emprestados neste mundo, como eu, não somos de cá,

Chamo-me Joaquim da Rocha, nasci no termo de Pombal, lá tenho a família, só a mulher,

filhos tive quatro, mas todos morreram antes de fazerem dez anos, dois de bexigas negras,

os outros de espinhela caída e sangue chupado, tinha lá um cerrado de renda, mas o ganho

não dava para comer, então disse à mulher, vou para Mafra, é trabalho garantido e por

muitos anos, enquanto durar durou, agora há seis meses que não vou a casa, se calhar nem

volto lá mais, mulheres não faltam, e a minha devia ser de má casta para assim ter parido

quatro filhos e deixado morrer todos, O meu nome é Manuel Milho, venho dos campos de

Santarém, um dia os oficiais do corregedor passaram por lá com pregão de haver bom

jornal e bom passadio nestas obras de Mafra, vim eu, e mais alguns, dois que vieram

comigo ficaram naquele aluimento de terras que houve o ano passado, não gosto dos sítios

daqui, e não é por terem cá morrido dois patrícios meus, ao homem não é dado escolher o

lugar onde há-de morrer, salvo se é ele a escolher a sua própria morte, mas porque sinto a

falta do rio da minha terra, bem sei que água tem-na o mar de sobra, vê-se daqui, mas

digam-me o que pode um homem fazer daquela imensidão, sempre a onda a marrar nas

pedras, sempre a bater na areia, ao passo que o rio corre entre duas margens, é como uma

procissão penitente, ele é que vai rasteirinho, e nós, de pé, olhando, somos como os freixos

e os choupos, e quando um homem quer ver como está a sua cara, se envelheceu muito, a

água é o espelho que passa e está parado, e nós que estamos parados é que vamos

passando, donde me vêm estas coisas à cabeça é que eu não sei dizer, O meu nome é João

Anes, vim do Porto e sou tanoeiro, também para construir um convento são precisos

tanoeiros, quem haveria de fazer e consertar as dornas, as pipas e os baldes, se um pedreiro

está no andaime e lhe chegam o cocho da massa, tem de molhar as pedras com a vassoura

para que façam boa presa a pedra que está e a outra que vai assentar, para isso é que lá tem

o balde, e os animais bebem onde, bebem nas tinas, e quem fez as tinas, fizeram-nas os

tanoeiros, não é por me gabar, mas não há ofício como o que eu tenho, até Deus foi

tanoeiro, vejam-me essa grande dorna que é o mar, se a obra não estivesse perfeita, se as

aduelas não estivessem tão bem ajustadas, entrava-nos o mar pela terra dentro, era aí outro

dilúvio, sobre a minha vida não tenho muito que dizer, deixei a família no Porto, lá se vão

governando, há dois anos que não vejo a mulher, às vezes sonho que estou deitado com

ela, mas se sou eu não tenho a minha cara, no dia seguinte corre-me sempre mal o trabalho,

gostava de me ver completo no sonho, em vez daquela cara sem boca nem feição, sem

olhos nem nariz, que cara estará a minha mulher vendo nessa ocasião, não sei, era bom que

fosse a minha, O meu nome é Julião Mau-Tempo, sou natural do Alentejo e vim trabalhar

para Mafra por causa das grandes fomes de que padece a minha província, nem sei como resta gente viva, se não fosse termo-nos acostumado a comer de ervas e bolota, estou que

já teria morrido tudo, é um dó de alma ver uma terra tão grande, só pode saber quem

alguma vez por lá passou, e não é mais que charneca, poucas são as terras fabricadas e

semeadas, o resto mato e solidão, e é um país de guerras, com os espanhóis entrando e

saindo como em casa sua, agora está a paz em sossego, quem adivinhará por quanto tempo,

mas os reis e os fidalgos, quando não é dia de nos fazerem correr e morrer a nós, fazem

correr e morrer a caça, por isso ai do pobre que for apanhado com um coelho na saca,

ainda que o tivesse achado já morto de doença ou velhice, o menos que lhe pode suceder é

levar uma dúzia de vergastadas pelas costas, para aprender que quando Deus fez os coelhos

foi para divertimento e panela dos senhores, só valiam a pena as vergastadas se pudéssemos

ficar com a caça, eu se vim para Mafra foi porque o vigário da minha freguesia apregoava

nas igrejas que quem viesse passava a ser criado de el-rei, não bem bem criado, mas como

se o fosse, e que os criados de el-rei, isto dizia ele, não sofrem privações de boca e andam

com as carnes tapadas, ainda melhor que no paraíso, porque se é certo que Adão, não

tendo quem lhe disputasse a pitança, comia a seu gosto e conforme o apetite, já de vestidos

andava pior, afinal saiu-me tudo mentira, do paraíso não falo, que não sou desse tempo,

mas de Mafra sim, se não consigo morrer de fome é porque gasto tudo quanto ganho, roto

ando como andava, e, quanto a ser criado de el-rei, ainda espero não morrer sem ver a cara

do meu amo, a não ser que me agonie de estar tanto tempo longe da família, um homem,

se tem filhos, também se alimenta de ver a cara deles, bom era que se alimentassem eles de

ver a nossa cara, é o destino, acabar-se a vida a olharmos uns para os outros, quem és tu,

que vieste cá fazer, quem eu seja e o que faça, já perguntei e não tive resposta, não, nenhum

dos meus filhos tem os olhos azuis, mas tenho a certeza de que são todos meus filhos, isto

dos olhos azuis é coisa que aparece de vez em quando na família, já a mãe da minha mãe

tinha os olhos desta cor, O meu nome é Baltasar Mateus, todos me conhecem por Sete-

Sóis, o José Pequeno sabe porque assim lhe chamam, mas eu não sei desde quando e

porquê nos meteram os sete sóis em casa, se fôssemos sete vezes mais antigos que o único

sol que nos alumia, então devíamos ser nós os reis do mundo, enfim, isto são conversas

loucas de quem já esteve perto do sol e agora bebeu de mais, se me ouvirem dizer coisas

insensatas, ou é do sol que apanhei, ou do vinho que me apanhou, o certo é ter nascido

aqui, há quarenta anos feitos, se não me enganei a contar, minha mãe já morreu, chamava-

se Marta Maria, meu pai mal pode andar, acho que lhe estão a nascer raízes nos pés, ou é o

coração à procura de terra para descansar, tínhamos aí um cerrado, como o Joaquim da

Rocha, mas, com tanto mexer de aterros, já lhe perdi o sítio, até eu levei alguma terra dele

no carro de mão, quem haveria de dizer ao meu avô que um neto seu atiraria fora terra que foi, cavada e semeada, agora põem-lhe um torreão em cima, são as voltas da vida, a minha

também não tem dado poucas, enquanto moço cavei e semeei para os lavradores, o nosso

cerrado era tão pequeno que o meu pai dava conta do trabalho em toda a volta do ano e

ainda ficava com tempo para tratar duns bocados que trazia de renda, bem, fome, o que se

chama fome, não passámos, mas fartura ou suficiência nunca soubemos o que era, depois

fui para a guerra de el-rei, ficou-me lá a mão esquerda, só mais tarde é que soube que sem

ela começava a ser igual a Deus, e como deixei de servir para a guerra, voltei a Mafra, mas

estive uns anos em Lisboa, é só isto e nada mais, E em Lisboa, que fizeste, perguntou João

Anes, por ser, de todos, o único oficial de um ofício, Estive no açougue do Terreiro do

Paço, mas era só a acarretar a carne, E quando foi que estiveste perto do sol, isto quis

Manuel Milho saber, provavelmente por ser ele o que costumava ver o rio passando, Essa,

foi de uma vez que subi a uma serra muito alta, tão alta que estendendo o braço tocava-se

no sol, nem sei se perdi a mão na guerra, se foi o sol que ma queimou, E que serra era, em

Mafra não há serras que cheguem ao sol, e no Alentejo também as não há, que Alentejo

conheço eu bem, perguntou Julião Mau-Tempo, Talvez tenha sido uma serra que nesse dia

estava alta e agora está baixa, Se para arrasar um monte destes são precisos tantos mil tiros

de pólvora, para fazer baixar uma serra alta gastava-se toda a pólvora que há no mundo,

disse Francisco Marques, o que primeiro falara, e Manuel Milho teimou, Chegar perto do

sol, só se tivesses voado como os pássaros, lá na lezíria vêem-se às vezes uns milhafres que

vão subindo, subindo, fazendo rodeios, e depois desaparecem, ficam tão pequenos que já

não podem ser vistos, e então vão ao sol, nós é que não sabemos nem o caminho por onde

se chega, nem a porta por onde se entra, mas tu és homem, não tens asas, A não ser que

sejas bruxo, disse o José Pequeno, como uma mulher da terra onde fui achado, que se

untava com unguentos, punha-se a cavalo numa vassoura e ia à noite de um sítio para

outro, isto era o que se dizia, que eu, ver, nunca vi, Eu não sou bruxo, ponham-se a dizer

essas coisas, e leva-me o Santo Ofício, e também ninguém me ouviu dizer que voei, Mas

declaraste que estiveste perto do sol, e ainda outra coisa, que começaste a ser igual a Deus

depois de teres ficado sem a mão, se tal heresia chega aos ouvidos do Santo Ofício, então é

que não te salvas mesmo, Salvávamo-nos todos se nos fizéssemos iguais a Deus, disse João

Anes, Se nos fizéssemos iguais a Deus poderíamos julgá-lo por não termos logo recebido

dele essa igualdade, disse Manuel Milho, e Baltasar explicou enfim, com grande alívio de já

não se estar falando de voar, Deus não tem a mão esquerda porque é à sua direita que senta

os seus eleitos, e uma vez que os condenados vão para o inferno, à esquerda de Deus não

vem a ficar ninguém, ora, se não fica lá ninguém, para que quereria Deus a mão esquerda,

se a mão esquerda não serve, quer dizer que não existe, a minha não serve porque não existe, é só a diferença, Talvez à esquerda de Deus esteja outro deus, talvez Deus esteja

sentado à direita doutro deus, talvez Deus seja só um eleito doutro deus, talvez sejamos

todos deuses sentados, donde é que estas coisas me vêm à cabeça, é que eu não sei, disse

Manuel Milho, e Baltasar rematou, Então sou eu o último da fila, à minha esquerda é que

não se pode sentar ninguém, comigo acaba-se o mundo, Donde vêm tais coisas à cabeça

destes rústicos, analfabetos todos, menos João Anes, que tem algumas letras, é que nós não

sabemos.

O sino da igreja de Santo André, no fundo do vale, deu as trindades. Por sobre a Ilha

da Madeira, nas ruas e terreiros, dentro das tabernas e casas de acomodação, ouve-se um

murmúrio contínuo, como o do mar ao longe. Estariam vinte mil homens dizendo a oração

da tarde, estariam contando uns aos outros as suas vidas, vá lá averiguar-se.