Memorial do Convento

José Saramago · Capítulo 17 de 30

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Memorial do Convento

Vivemos em tempo que qualquer freira, como…

Vivemos em tempo que qualquer freira, como a mais natural coisa do mundo,

encontra no claustro o Menino Jesus ou no coro um anjo tocando harpa, e, se está fechada

em sua cela, onde, por causa do segredo, são mais corporais as manifestações, atormentam-

na diabos sacudindo-lhe a cama, e assim lhe abalando os membros, os superiores em modo

de lhe agitarem os seios, os inferiores tanto que freme e transpira a fenda que no corpo há,

janela do inferno, se não porta do céu, esta por estar gozando, aquela porque gozou, e em

tudo isto se acredita, porém, não pode Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, dizer, Eu voei de

Lisboa ao Monte Junto, tomá-lo-iam por doido, e vá com muita sorte, por tão pouco não

se inquietaria o Santo Ofício, é o que por aí não falta, loucos varridos em terra que a

loucura varreu. Dos dinheiros do padre Bartolomeu Lourenço tinham vivido Baltasar e

Blimunda até agora, juntando-lhes as couves e o feijão da horta, um pedaço de carne

enquanto foi tempo dela, sardinha salgada quando não chegava fresca, e quanto se gastasse

e comesse era muito menos para sustentar o corpo próprio que para alimentar o

crescimento da máquina voadora, se então realmente acreditavam que ela voaria.

Voou a máquina, se tal se crê, e hoje está reclamando, o corpo o seu alimento, é para

isto que sobem os sonhos alto, nem sequer o ofício de carreiro pode Sete-Sóis tomar, os

bois foram vendidos, partiu-se o carro, não fosse Deus tão descuidado, e os bens dos

pobres seriam eternos. Com junta de bois e carro seus, poderia Baltasar ir à vedoria-geral

oferecer-se para trabalhar, e apesar de manco o aceitariam. Assim, duvidariam que fosse ele

capaz, com uma só mão, de governar os animais de el-rei ou dos nobres e outros

particulares, que, para obterem as boas graças da coroa, os haviam emprestado, Em que

posso então eu trabalhar, irmão, isto perguntou Baltasar a Álvaro Diogo, seu cunhado, na

noite mesma do dia em que chegaram, agora moradores todos na casa paterna, tinham

acabado de cear, mas antes ouviram da boca de Inês Antónia, ele e Blimunda, o

maravilhoso caso da passagem do Espírito Santo por cima da vila, Que com estes olhos

que a terra há-de comer o vi, mana Blimunda, e viu Álvaro Diogo, que estava na obra, pois

não é verdade que viste, meu homem, e Álvaro Diogo, soprando um tição da fogueira,

respondeu que sim, que passara uma coisa por cima da obra, Foi o Espírito Santo, insistiu

Inês Antónia, disseram-no os frades para quem os quis ouvir e tanto foi o Espírito Santo

que se fez a procissão de graças, Pois seria, resignou-se o marido, e Baltasar, com os olhos

em Blimunda que sorria, Ele há coisas no céu que não sabemos explicar, e Blimunda

devolvendo a intenção, Soubéssemo-las nós e as coisas do céu teriam outros nomes. Ao canto da lareira dormitava o velho João Francisco, sem carro nem junta de bois, sem terra

nem Marta Maria, parecia alheado da conversa, mas disse, e logo se ausentou outra vez para

o sono, no mundo só há morte e vida, ficaram todos à espera do resto, porque será que os

velhos se calam quando deveriam continuar falando, por isso os novos têm de aprender

tudo desde o princípio. Há aqui mais quem esteja dormindo, por essa razão não poderia

falar, mas, se acordado estivesse, talvez lho não consentissem, porque só tem doze anos,

pode a verdade estar na boca das crianças, mas para a dizerem têm de crescer primeiro, e

então passam a mentir, este é o filho que ficou, chega à noite morto de dar serventia,

andaime acima, andaime abaixo, acaba de cear e adormece logo, Querendo, há trabalho

para toda a gente, disse Álvaro Diogo, podes ir de servente ou fazer carretos com os carros

de mão, ó teu gancho é quanto basta para amparares o varal, são assim os tropeções da

vida, um homem vai à guerra, volta de lá aleijado, depois voa por artes misteriosas,

confidenciais, e enfim se quer ganhar o pobre pão de cada dia, é o que se vê, e pode gabar-

se da sorte, que há mil anos, se calhar, ainda não se fabricavam ganchetas a fazer de

mãozinha, como será daqui a outros mil.

Manhã cedo, saíram Baltasar e Álvaro Diogo, mais o rapaz, é a casa dos Sete-Sóis,

como antes foi explicado, muito perto da igreja de Santo André e do palácio dos viscondes,

moram aqui na parte mais antiga da vila, ainda se vêem uns restos do castelo que os

mouros levantaram no seu bom tempo, manhã cedo saíram, vão encontrando pelo

caminho outros homens da terra, que Baltasar conhece, vai tudo para a obra, por isso,

talvez, é que estão abandonados os campos, não chegam velhos e mulheres para o amanho,

e, como Mafra está no fundo duma cova, têm aqueles de subir por carreiros que já não são

os de antigamente, cobriu-os o entulho que do alto da Vela vem sendo despejado. Olhando

cá de baixo, o que de paredes se vê não promete nenhuma torre de Babel, e, chegando mais

ao sopé da vertente, de todo a construção se esconde, sete anos há que andam nisto, por

este passo só no dia do juízo, e então não valeu a pena, A obra é grande, diz Álvaro Diogo,

quando estiveres ao pé saberás, e Baltasar, que está desdenhando de canteiros e pedreiros,

mete a viola no saco, não tanto pela pedraria já levantada, mas pela multidão de homens

que cobrem o terreiro, é um formigueiro de gente que acorre de todos os lados, se tudo

isto veio para trabalhar, então mordo a língua, falei antes de tempo. O rapazito já os

deixou, foi ao serviço, acarretar cochos de cal, e os dois homens atravessam o terreiro para

a banda da esquerda, vão à vedoria, dirá Álvaro Diogo que este aqui é meu cunhado,

natural e morador em Mafra, que em Lisboa viveu muitos anos, mas agora voltou de vez à

casa de seu pai, e quer trabalho, não que sirvam de muito recomendações, mas enfim,

Álvaro Diogo está cá desde a primitiva, é operário capaz e cumpridor, uma palavrinha sempre conforta. Baltasar abre a boca de espanto, vem duma aldeia e entra numa cidade,

bem está que Lisboa seja o que é, nem poderia ser de menos a cabeça de um reino senhor

do Algarve, que é pequeno e perto, mas também doutras partes grandes e distantes, que são

o Brasil, África e Índia, mais uns tantos lugares avulsos espalhados pelo mundo, bem está,

digo, que seja Lisboa aquela desmedida e confusão, porém, este ajuntamento enorme de

telheiros e casas de muitos e variados tamanhos, é coisa que só vendo ao perto se acredita,

quando há três dias sobrevoou Sete-Sóis este lugar, levava tão agitada a alma que lhe

pareceu ilusão dos sentidos o casario e arruamentos, e pouco maior que capela a

principiada fábrica da basílica. Se Deus, que lá do alto vê tudo, vê tudo assim tão mal, então

mais lhe valia andar cá pelo mundo, por seu próprio e divino pé, escusavam-se

intermediários e recados que nunca são de fiar, a começar pelos olhos naturais, que vêem

pequeno ao longe o que é grande ao perto, salvo se usa Deus um óculo como o do padre

Bartolomeu Lourenço, quem dera que me esteja olhando agora, se sim ou não me vão dar

trabalho.

Álvaro Diogo já foi à sua vida, por pedra em cima de pedra, se demorasse mais

perderia um quartel, grande prejuízo, agora tem Baltasar de acabar de convencer o escrivão

da matrícula de que tanto vale um gancho de ferro como uma mão de carne e osso, mas o

matriculador duvida, não pode assumir a responsabilidade, e vai perguntar dentro, pena não

poder Baltasar apresentar a sua carta credencial de construtor de aeronaves, quando menos

explicar que andou na guerra, se isso lhe serviria de alguma coisa, passaram catorze anos,

vivemos felizmente em paz, que tem ele que vir para aqui falar de guerras, as guerras que

acabaram é como se nunca tivessem acontecido. Voltou o matriculador, vem de boa cara,

Como é que te chamas, e pega na pena de pato, molha-a na tinta castanha, afinal valeu a

pena ter falado Álvaro Diogo, ou por ser da terra o pretendente, ou por estar ainda na

força da vida, trinta e nove anos, embora com alguns cabelos brancos, ou simplesmente

porque, tendo passado por aqui o Espírito Santo há três dias, havia Deus de ofender-se se

logo fosse recusado trabalho a quem o pede, Como é que te chamas, Baltasar Mateus, de

alcunha o Sete-Sóis, Podes vir trabalhar na segunda-feira, começas a semana, vais para os

carros de mão. Baltasar agradeceu como devia ao matriculador e saiu da vedoria-geral, nem

triste nem alegre, um homem deve ser capaz de ganhar o seu pão de qualquer maneira e em

qualquer lugar, mas se é o caso de esse pão não lhe alimentar também a alma, satisfez-se o

corpo, a alma padece.

Sabia já Baltasar que o sítio onde se encontrava era conhecido pelo nome de Ilha da

Madeira, e bem posto lhe fora, porque, tirando umas poucas casas de pedra e cal, todo o

mais era de tabuado, mas construído para durar. Havia oficinas de ferreiros, bem que podia Baltasar ter mencionado a sua experiência de forja, nem tudo lembra, e outras artes de que

nada sabia, mais tarde se juntarão as dos latoeiros, dos vidraceiros, dos pintores, e quantas

mais. Muitas das casas de madeira tinham sobrados, em baixo acomodavam-se as bestas e

os bois, em cima as pessoas de muita ou alguma distinção, os mestres da obra, os

matriculadores e outros senhores da vedoria-geral, e oficiais da guerra que governavam os

soldados. A esta hora da manhã estavam saindo das lojas os bois e as mulas, outros teriam

sido levados mais cedo, o chão empapava-se de urina e excrementos, e, como em Lisboa,

na procissão do Corpo de Deus, os rapazitos corriam pelo meio da gente e do gado,

empurravam-se com violência, e um deles, querendo fugir a outro, caiu e rebolou para

debaixo duma junta de bois, mas não foi pisado, estava lá o anjo custódio, livrou-se de boa,

sem mais mazela que ficar todo sujo de bosta e mal-cheiroso. Baltasar riu como os outros,

a obra tinha os seus divertimentos. A sua guarda também.

Passavam nesta altura uns vinte soldados de infantaria, armados como para a guerra,

serão manobras, ou irão à Ericeira rechaçar um desembarque de piratas franceses, tantas

vezes hão-de tentar que um dia vêm por aí abaixo, muitos e muitos anos depois de estar

concluída esta babel, entrará Junot em Mafra, onde no convento apenas ficaram uns vinte

frades velhos, a cair da tripeça, e mandando adiante o coronel Dela garde, ou capitão, tanto

faz, quis este entrar no palácio e achou a porta fechada, visto o que foi mandado chamar

frei Félix de Santa Maria da Arrábida, que era o guardião, mas o pobrezinho não tinha as

chaves isso era com a família real, que tinha fugido, e então o pérfido Delagarde, pérfido

lhe chamou o historiador desanda um bofetão no triste frade, cujo, ó evangélica mansidão,

ó lição divina, lhe oferece incontinente a outra face, se quando Baltasar perdeu a mão

esquerda em Jerez de los Caballeros tivesse oferecido a direita, não poderia agora segurar

nos varais do carro. E, por falar de caballeros, também ali passavam cavaleiros armados

como os infantes que já lá vão no terreiro, agora se percebe, a colocar sentinelas, não há

nada como trabalhar com guarda à vista.

Nestas grandes barracas de madeira dormem os homens, não comporta cada uma

menos de duzentos e, aqui onde está, não pode Baltasar contar os barracões todos, chegou

a cinquenta e sete e perdeu-se, sem falar que ao cabo destes anos não melhorou em

aritméticas, o melhor seria ir com um balde de cal e uma brocha, sinal neste, sinal naquele,

para não repetir nem falhar, assim como quem prega cruzes de S. Lázaro nas portas, por

causa do mal de pele. Numa esteira ou num beliche como estes é que Baltasar dormiria se

não tivesse casa em Mafra, e mulher para dormir acompanhado, coitados de tantos, vindos

de longe, diz-se que um homem não é de pau, muito pior e mais custoso de aguentar é

justamente quando se arma o pau no homem, de certeza não vão chegar as viúvas de Mafra para satisfazer tanta precisão, como será. Deixou Baltasar as casas da acomodação e foi ver

o campo militar, aí deu-lhe o coração um salto tantas tendas de campanha, foi como se o

tempo tivesse desandado para trás, talvez pareça impossível, mas há momentos em que um

soldado retirado do serviço pode sentir saudades até da guerra, a Baltasar não é a primeira

vez que tal sucede. Já lhe dissera Álvaro Diogo que estavam em Mafra muitos soldados,

uns a auxiliar nos trabalhos das minas e do rebentamento dos tiros de pólvora, outros para

guardar os trabalhadores e castigar as desordens, e, a julgar pelo número de tendas de

campanha, os muitos eram milhares. Está um pouco azamboado Sete-Sóis, que nova Mafra

é esta, cinquenta moradas lá em baixo, quinhentas cá em cima, sem falar noutras diferenças,

como esta fiada de casas de pasto, barracões quase tão grandes como os dormitórios, com

mesas e bancos corridos, fixados ao chão, e compridos mostradores, agora não se vê por

aqui gente, mas lá para o meio da manhã põem-se ao lume os caldeirões para o jantar do

meio-dia, e, tocando a corneta ao rancho, será uma carreira geral a ver quem chega

primeiro, vêm sujos como estavam na obra, é uma algazarra de ensurdecer, amigos

chamando amigos, senta-te aqui, guarda-me o lugar, mas carpinteiros sentam-se com

carpinteiros, pedreiros com pedreiros, cabouqueiros com cabouqueiros, e a arraia-miúda da

serventia acomoda-se lá à ponta, cada qual com seu igual, ainda bem que Baltasar pode ir

comer a casa, com quem haveria ele de falar, se de carros de mão ainda nada sabe e de

aviões é o único a saber.

Diga Álvaro Diogo o que disser, em abono seu e dos mais operários, a obra não está

adiantada. Baltasar deu-lhe a volta por inteiro, com o vagar de quem observa a casa onde

passará a viver, lá vão aqueles com os carros de mão, outros subindo aos andaimes, uns

levando a cal e a areia, outros, aos pares, transportando as pedras a pau e corda pelas

rampas suaves, e os mestres-de-obra vigiando de bastão em punho, e os olheiros com o

olho na diligência do operário e na perfeição do serviço. As paredes não têm mais que três

vezes a altura de Baltasar, e não abraçam todo o perímetro da basílica, mas são grossas

como muralhas de guerra, não chegam a tanto as que restam do castelo de Mafra, também

eram outros os tempos, sem artilharia, só a pedra que isto leva na largura justifica os

vagares de crescimento na altura. Ali tombado está um carro de mão, quer Baltasar

experimentar se lhe aprende facilmente o jeito, não custa nada, e se com uma goiva cavar

uma meia-lua na parte inferior do varal esquerdo, então poderá medir meças a qualquer par

de mãos.

Enfim, desce pelo carreiro que subiu, por trás da encosta ficam escondidas a obra e a

Ilha da Madeira, se não fosse estarem constantemente rolando do alto pedras e terra solta

poderia pensar-se que não iria ali haver basílica nenhuma, nem convento, nem palácio real, só Mafra outra vez, no seu tamanhinho de tantos séculos, ou pouco mais até hoje, no

tempo dos romanos, que semearam decretos, dos mouros que vieram depois e plantaram

hortas e pomares de que já mal se vê sombra e sítio, até nós, que nos tornámos cristãos por

vontade de quem mandava, que, se Cristo em pessoa andou pelo mundo, aqui não chegou,

porque nesse caso teria sido no alto da Vela o seu calvário, agora andam a fazer lá um

convento, provavelmente é a mesma coisa. E, por pensar com mais afinco nestas coisas de

religião, se em verdade são de Baltasar os pensamentos, mas de que serviria perguntar-lhe,

lembra-se do padre Bartolomeu Lourenço, não é a primeira vez, claro está, a sós com

Blimunda quase não têm outro assunto lembra-se e tem uma dor no coração, arrepende-se

de o ter maltratado com tal brutalidade na serra, naquela terrível noite, foi como se tivesse

batido num irmão doente, bem sei que ele é padre, e eu nem soldado já sou, porém temos a

mesma idade e fizemos a mesma obra. Repete Baltasar, para si próprio, que em dia

favorável voltará à serra do Barregudo e ao Monte Junto, a ver se ainda lá estará a máquina

que bem podia ter acontecido regressar às escondidas o padre e sozinho levantar voo para

terras mais propícias a invenções, como seja, para dar um exemplo, a Holanda, país por

excelência dado a fenómenos aeronáuticos, como virá a comprovar um certo Hans Pfaall,

que, por não ter sido perdoado de alguns insignificantes crimes, continua a viver na lua, até

hoje. Não faltava mais nada que conhecer Baltasar estes acontecimentos futuros, e outros

mais cabais, como já terem ido dois homens à lua, que todos os vimos lá, e não

encontrarem Hans Pfaall, será porque não procuraram bem. Por serem custosos de

encontrar os caminhos.