Memorial do Convento

José Saramago · Capítulo 12 de 30

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Memorial do Convento

Já o padre Bartolomeu Lourenço regressou de…

Já o padre Bartolomeu Lourenço regressou de Coimbra, já é doutor em cânones,

confirmado de Gusmão por apelativo onomástico e firma escrita, e nós, quem somos nós

para nos atrevermos a taxá-lo do pecado de orgulho, maior bem nos faria à alma perdoar-

lhe a falta de humildade em nome das razões que deu, assim possam ser-nos perdoados os

nossos próprios pecados, esse e outros, que ainda o pior de tudo não será mudar de nome,

mas de cara, ou de palavra. De palavra e cara não parece ele que tenha mudado, para

Baltasar e Blimunda de nome também não, e se el-rei o fez fidalgo capelão de sua casa e

académico da sua academia, são de tirar e pôr essas caras e palavras, que, com o nome

adoptado, ficam ao portão da quinta do duque de Aveiro, e não entram, embora se

adivinhe o que fariam os três se chegassem à vista da máquina, diria o fidalgo que são

trabalhos mecânicos, esconjuraria o capelão a obra diabólica ali manifesta, por ser isto coisa

do futuro se retiraria o académico, para só voltar quando fosse coisa passada. Ora, este dia

é hoje.

Vive o padre nas varandas do Terreiro do Paço, em casa de uma mulher viúva há

muitos anos, cujo marido foi porteiro da maça até acabar morto de estoque numa rixa,

episódio passado em tempo que ainda reinava el-rei D. Pedro II, caso portanto antigo que

só veio a talhe por viver a mulher onde o padre está vivendo, e mal parecer não mencionar

dela ao menos este pouco, nem sequer o nome, que é o mesmo que nada, como foi já

explicado. Mora o padre cerca do paço, e ainda bem, pois muito o frequenta, não tanto por

obrigações firmes do seu título de capelão fidalgo, mais honorífico que efectivo mas por

lhe querer bem el-rei, que ainda não perdeu de todo as esperanças, e já vão onze anos

passados, por isso pergunta, benévolo, Verei voar a máquina um dia, ao que o padre

Bartolomeu Lourenço, honestamente, não pode responder mais do que isto, Saiba vossa

majestade que a máquina um dia voará, Mas estarei cá para ver, Viva vossa majestade nem

tanto quanto viveram os antigos patriarcas do Testamento velho, e não só verá voar a

máquina, como nela voará. Parece ter seu quê de impertinente a resposta, mas el-rei não faz

reparo, ou reparou e usa de indulgência, ou o distrai lembrar-se de que vai assistir à lição de

música de sua filha, a infanta D. Maria Bárbara, isto terá sido, faz um sinal ao padre para

que se junte ao séquito, nem todos se podem gabar destes favores.

Está a menina sentada ao cravo, tão novinha ainda não fez nove anos e já grandes

responsabilidades lhe pesam sobre a redonda cabeça, aprender a colocar os dedinhos curtos

nas teclas certas, saber, se o sabe, que em Mafra se está construindo um convento, muito verdade é o que se diz, pequenas causas, grandes efeitos, por nascer uma criança em Lisboa

levanta-se em Mafra um montanhão de pedra e vem de Londres contratado Domenico

Scarlatti. À lição assistem as majestades, em pequeno estado, umas trinta pessoas, se tanto,

contando os camaristas de semana dele e dela, aias, açafatas várias, mais o padre

Bartolomeu de Gusmão, lá para trás, e outros eclesiásticos. Il maestro vai corrigindo a

digitação fá lá dó, fá dó lá, sua alteza apura-se muito, morde o beicinho, nisto não se

distingue de qualquer criança, em paço nascida, ou noutras passagens, a mãe disfarça uma

certa impaciência, o pai está real e severo, só as mulheres, tenros corações, se deixam

embalar pela música, e pela menina, mesmo tocando ela tão mal, nem admira, que esperaria

D. Maria Ana, milagres, ainda agora está no princípio, il signor Scarlatti só chegou há

poucos meses, e por que hão-de estes estrangeiros tornar os nomes difíceis, se tão pouco

custa descobrir que é Escarlate o nome deste, e bem lhe fica, homem de completa figura,

rosto comprido, boca larga e firme, olhos afastados, não sei que têm os italianos, e então

este, em Nápoles nascido há trinta e cinco anos, É a força da vida, mana.

Terminou a lição, desfez-se a companhia, rei para um lado, rainha para outro, infanta

não sei para onde, todos observando precedências e preceitos, cometendo plurais vénias,

enfim, afastou-se a restolhada dos guarda-infantes e dos calções de fitas, e no salão de

música apenas ficaram Domenico Scarlatti e o padre Bartolomeu de Gusmão. O italiano

dedilhou o cravo, primeiro sem destino, depois como se estivesse à procura de um tema ou

quisesse emendar os ecos, e de repente pareceu fechado dentro da música que tocava,

corriam-lhe as mãos sobre o teclado como uma barca florida na corrente, demorada aqui e

além pelos ramos que das margens se inclinam, logo velocíssima, depois pairando nas águas

agitadas de um lago profundo, baía luminosa de Nápoles, secretos e sonoros canais de

Veneza, luz refulgente e nova do Tejo, já lá vai el-rei, resguardou-se a rainha na sua câmara,

a infanta debruça-se para o bastidor, de pequenina se aprende, e a música é um rosário

profano de sons, mãe nossa que na terra estais. Senhor Scarlatti, disse o padre quando o

improviso terminou e todos os ecos ficaram corrigidos, senhor Scarlatti, não me gabo de

saber dessa arte, mas estou que até um índio da minha terra, que dela sabe ainda menos do

que eu, haveria de sentir-se arrebatado por essas harmonias celestes, Porventura não,

respondeu o músico, porque bem sabido é que há-de o ouvido ser educado se quer estimar

os sons musicais, como os olhos têm de aprender a orientar-se no valor das letras e sua

conjunção de leitura, e os próprios ouvidos no entendimento da fala, São palavras

ponderadas, essas, que emendam as levianas minhas, é um defeito comum nos homens,

mais facilmente dizerem o que julgam querer ser ouvido por outrem do que cingirem-se à

verdade, Porém, para que os homens possam cingir-se à verdade, terão primeiramente de conhecer os erros, E praticá-los, Não saberei responder à pergunta com um simples sim ou

um simples não, mas acredito na necessidade do erro.

O padre Bartolomeu de Gusmão apoiou os cotovelos no tampo do cravo, olhou

demoradamente Scarlatti, e, enquanto não falam, digamos nós que esta fluente conversação

entre um padre português e um músico italiano não será, provavelmente, invenção pura,

mas transposição admissível de frases e cumprimentos que sem dúvida trocaram um com o

outro durante estes anos, no paço e fora dele, como adiante continuará a ver-se. E se

alguém se surpreender de que este Scarlatti, em tão poucos meses, saiba assim falar

português, primeiramente não nos esqueçamos de que é músico, e depois, fique dito que

desde há sete anos lhe é familiar a língua, pois em Roma entrou ao serviço do nosso

embaixador, e em suas andanças pelo mundo, por cortes reais e episcopais, não esqueceu o

que aprendeu. Quanto ao carácter erudito do diálogo, pertinência e arredondado das

palavras, alguém ajudou.

Tendes razão, disse ó padre, mas, desse modo não está homem livre de julgar abraçar

a verdade e achar-se cingido com o erro, Como livre também não está de supor abraçar o

erro e encontrar-se cingido com a verdade, respondeu o músico, e logo disse o padre,

Lembrai-vos de que quando Pilatos perguntou a Jesus o que era a verdade nem ele esperou

pela resposta, nem o Salvador lha deu, Talvez soubessem ambos que não existe resposta

para tal pergunta, Caso em que, sobre esse ponto, estaria Pilatos sendo igual de Jesus,

Derradeiramente, sim, Se a música pode ser tão excelente mestra de argumentação, quero já

ser músico e não pregador, Fico obrigado pelo cumprimento, mas quisera eu, senhor padre

Bartolomeu de Gusmão, que a minha música fosse um dia capaz de expor, contrapor e

concluir como fazem sermão e discurso, Ainda que, reparando bem no que se diz e como,

senhor Scarlatti, se exponham e contraponham, as mais das vezes, fumo e nevoeiro, e se

conclua coisa nenhuma. A isto não respondeu o músico, e o padre rematou, Todo o

pregador honesto o sente quando baixa do púlpito. Disse o italiano, encolhendo os

ombros, Fica o silêncio depois da música e depois do sermão, que importa que se louve o

sermão e aplauda a música, talvez só o silêncio exista verdadeiramente.

Desceram Scarlatti e Bartolomeu de Gusmão ao Terreiro do Paço, aí se separaram, o

músico foi inventar músicas pela cidade enquanto não eram horas de começar o ensaio na

capela real, o padre recolheu a casa, à sua varanda donde se via o Tejo, na outra margem as

terras baixas do Barreiro, as colinas de Almada e do Pragal, por aí fora, até, já invisível, à

Cabeça Seca do Bugio, que dia luminoso, quando Deus andou a criar o mundo não disse

Fiat, se assim fosse teria ficado o mundo todo por igual, uma palavra e basta, mas foi

andando e fazendo, fez o mar e navegou nele, depois fez a terra para poder desembarcar, e em alguns lugares demorou-se, noutros passou sem olhar, aqui descansou, e, não havendo

ninguém da humana espécie a espreitá-lo, tomou seu banho, por ainda se lembrarem disso

é que as gaivotas se reúnem em tão grandes bandos perto da margem, continuam à espera

de que Deus volte a banhar-se nas águas do Tejo, embora outras, uma vez ao menos, em

paga de terem nascido gaivotas. E também querem saber se Deus envelheceu muito. Veio a

viúva do porteiro da maça dizer ao padre que tinha o jantar servido, em baixo passou uma

companhia de alabardeiros rodeando um coche. Desgarrada das suas irmãs, uma gaivota

pairou sobre o beiral do telhado, sustentava-a o vento que soprava da terra, e o padre

murmurou, Bendita sejas, ave, e em seu coração achou-se feito da mesma carne e do

mesmo sangue, arrepiou-se como se estivesse sentindo que lhe nasciam penas nas costas, e,

sumindo-se a gaivota, viu-se perdido num deserto, Caso em que Pilatos estaria sendo igual

de Jesus, isto pensou de repente e regressou ao mundo, transido por se sentir nu, esfolado

como se tivesse deixado a pele dentro do ventre da mãe, e então disse em voz alta, Deus é

uno.

Todo esse dia ficou o padre Bartolomeu Lourenço fechado no quarto, gemendo,

suspirando, fez-se a tarde noite, bateu a viúva do porteiro da maça à porta e disse que

estava a ceia pronta, mas o padre não comeu, parecia que estava preparando o seu grande

jejum, aguçando novos olhos de entendimento, embora não suspeitasse que coisas haveria

mais que entender, depois de haver proclamado a unidade de Deus às gaivotas do Tejo,

supremo arrojo, que seja Deus uno em essência é ponto que nem heresiarcas negam, mas

ao padre Bartolomeu Lourenço ensinaram que Deus, se sim é uno em essência, é trino em

pessoa, e hoje as mesmas gaivotas o fizeram duvidar. Fechou-se a noite por completo, a

cidade dorme, e se não dorme calou-se, apenas se ouve a espaços gritarem alerta as

sentinelas, não venham desembarcar por aí os corsários franceses, e Domenico Scarlatti,

tendo fechado portas e janelas, senta-se ao cravo, que subtil música é esta que sai para a

noite de Lisboa por frinchas e chaminés, ouvem-na os soldados da guarda portuguesa e da

guarda alemã, e tanto a entendem uns como a entendem os outros, ouvem-na sonhando os

marujos que dormem à fresca nos conveses e acordando a reconhecem, ouvem-na os

vadios que se acoitam na Ribeira, debaixo dos barcos varados em terra, ouvem-na os frades

e as freiras de mil conventos, e dizem, São os anjos do Senhor, terra esta para milagres

ubérrima, ouvem-na os embuçados que vão a matar e os apunhalados que, ouvindo, não

pedem mais confissão e morrem absolvidos, ouviu-a um preso do Santo Ofício, no seu

fundo cárcere, e estando perto um guarda lhe jogou as mãos à garganta e o esganou, por

este assassínio não terá pior morte, ouvem-na, tão longe daqui, Baltasar e Blimunda, que

deitados perguntam, Que música é esta, ouviu-a primeiro que todos Bartolomeu Lourenço por morar perto, e levantando-se da cama acendeu o candil e abriu a janela para ouvir

melhor. Também entraram grandes melgões que foram pousar-se no tecto e ali ficaram,

primeiro oscilando nas altas pernas, depois imóveis, como se a luz minúscula não pudesse

atraí-los, talvez hipnotizados pelo ranger da pena, sentara-se o padre Bartolomeu Lourenço

a escrever, Et ego in illo, E eu estou nele, quando amanheceu ainda escrevia, era o sermão

do Corpo de Deus, e do corpo do padre não se alimentaram esta noite as melgas.

Dias passados, estando Bartolomeu de Gusmão na capela real, veio o italiano falar-

lhe. Trocadas as palavras de primeira circunstância, saíram por uma das portas que, debaixo

das tribunas do rei e da rainha, davam para a galeria por onde se entrava no palácio. Para lá

e para cá discorreram, olhando vez por outra os panos de rás suspensos das paredes, a

história de Alexandre Magno, os triunfos da Fé e do Sacramento, segundo os desenhos de

Rubens, a história de Tobias, segundo os desenhos de Rafael, a conquista de Tunes, se um

dia estes panos pegam fogo, nem um só fio de seda se salvará. Em tom que facilmente dava

a entender não ser essa a matéria importante que ali se iria tratar, disse Domenico Scarlatti

ao padre, El-rei tem na sua tribuna uma cópia da basílica de S. Pedro de Roma que ontem

armou na minha presença, foi para mim honra grande, Com que a mim não me distinguiu

nunca, mas não o digo por qualquer sentimento de inveja, antes me louvo de ver honrada

num seu filho a nação italiana, Dizem-me que el-rei é grande edificador, será por causa

disso este seu gosto de levantar com as suas próprias mãos a cabeça arquitectural da Santa

Igreja, ainda que em escala reduzida, Muito diferente é a dimensão da basílica que está a ser

construída na vila de Mafra, gigantesca fábrica que será o assombro dos séculos, Como se

mostram variadas as obras das mãos do homem, são de som as minhas, Fala das mãos,

Falo das obras, tão cedo nascem logo morrem, Fala das obras, Falo das mãos, que seria

delas se lhes faltasse a memória e o papel em que as escrevo, Fala das mãos, Falo das obras.

Parece apenas um gracioso jogo de palavras, um brincar com os sentidos que elas

têm, como nesta época se usa, sem que extremamente importe o entendimento ou

propositadamente o escurecendo. É o mesmo que gritar um pregador para a imagem de

Santo António, clamar na igreja, Negro, ladrão, bêbedo, e, tendo assim escandalizado o

auditório, explica a intenção e o artifício, mostra como toda a apóstrofe foi aparência, agora

sim vai dizer porquê Negro porque tivera a pele tisnada pelo demónio que lhe não

conseguira enegrecer a alma, ladrão porque dos braços de Maria roubara seu divino filho,

bêbedo porque vivera embriagado da divina graça, mas eu te direi, Cuidado, ó pregador,

que quando fazes virar ao conceito os pés pela cabeça estás dando involuntária voz à

tentação herética que dorme dentro de ti e se revolve no sono, e clamas outra vez, Maldito

seja o Pai, maldito seja o Filho, maldito o Espírito Santo, e logo acrescentas, Bradam os demónios no inferno, e dessa maneira julgas escapar à condenação, mas aquele que tudo

vê, não este cego Tobias, o outro para quem não existem as trevas e a cegueira, esse sabe

que disseste duas verdades profundas, e das duas escolherá uma, a sua, porque nem tu nem

eu sabemos qual é a verdade de Deus, muito menos se é verdadeiro Deus.

Parecem jogos de palavras, as obras, as mãos, o som, o voo, Disseram-me, padre

Bartolomeu de Gusmão, que por obra dessas mãos se levantou ao ar um engenho e voou,

Disseram a verdade do que então viram, depois ficaram cegos para a verdade que a

primeira escondeu, Gostaria de entender melhor, Há doze anos que isso foi, desde então a

verdade mudou muito, Repito que gostaria de entender, Que é um segredo, A essa

pergunta responderei que, quanto imagino, só a música é aérea, Então iremos amanhã a ver

um segredo. Estão parados diante do último pano da história de Tobias, aquele onde o

amargo fel do peixe restitui a vista ao cego, A amargura é o olhar dos videntes, senhor

Domenico Scarlatti, Um dia se há-de pôr isso em música, senhor padre Bartolomeu de

Gusmão.

No dia seguinte, cavalgou cada um sua mula e foram a S. Sebastião da Pedreira.

Entre o palácio, de um lado, e o celeiro e a abegoaria, do outro, o pátio apresentava-se

varrido. Corria água numa caleira, ouvia-se girar uma nora. Os canteiros próximos estavam

cultivados, as árvores de fruto tinham sido limpas e podadas, à vista nada havia que

pudesse lembrar a brava selva de há dez anos, quando pela primeira vez Baltasar e

Blimunda aqui entraram. Lá para diante, a quinta continua inculta, por força assim tem de

ser, se para trabalhar a terra só há três mãos, e essas ocupadas, grande parte do tempo, em

obra que da terra não é. De dentro da abegoaria, portas abertas, vêm rumores de oficina. O

padre Bartolomeu Lourenço pediu ao italiano que esperasse fora e entrou. Baltasar estava

sozinho, desbastando com uma enxó um comprido barrote. Disse o padre, Boas tardes,

Baltasar, trouxe hoje comigo um visitante a ver a máquina, Quem é esse, Uma pessoa do

paço, Não pode ser el-rei, Um dia ele virá, ainda há poucos dias me chamou de parte para

me perguntar quando veria voar a máquina, é outra a pessoa que veio, Ficará a saber o que

era de tanto segredo, afinal não foi essa a nossa combinação, para que nos calámos durante

tantos anos, Eu é que sou o inventor da passarola, eu decido do que convém, Mas somos

nós quem a está construindo, se quiser podemos ir-nos embora, Baltasar, não te saberei

explicar, mas sinto que a pessoa que trago é de grande confiança, por ela poria as mãos no

fogo ou deixaria a alma como penhor, É mulher, É homem, italiano de nação, está há

poucos meses na corte, e é músico, mestre de cravo da infanta, mestre da capela real, o

nome dele é Domenico Scarlatti, Escarlate, Não é bem assim que se diz, mas a diferença é

tão pouca que podes chamar-lhe Escarlate, afinal, é como toda a gente lhe chama, mesmo quando julgam estar a dizer certo. Dirigia-se o padre à porta, mas parou para perguntar,

Onde está a Blimunda, Anda na horta, respondeu Baltasar.

O italiano abrigara-se à sombra fresca de um grande plátano. Não parecia curioso do

que o rodeava, olhava tranquilo as janelas fechadas do palácio, a cimalha onde cresciam

ervas, a caleira da água por cima da qual passavam andorinhas rasando, à caça dos insectos.

O padre Bartolomeu Lourenço aproximou-se, trazia na mão um pano que tirara do bolso,

Só de olhos vendados se chega ao segredo, disse, sorrindo, e o músico respondeu, em tom

igual, Quantas vezes assim mesmo se volta dele, Não seja este o caso, senhor Scarlatti,

cuidado com a soleira, essa pedra mais alta, agora, antes de tirar a venda, quero dizer-lhe

que vivem aqui duas pessoas, um homem chamado Baltasar Sete-Sóis, e uma mulher,

Blimunda, a quem, por viver com Sete-Sóis, chamei Sete-Luas, são eles quem está

construindo a obra que lhe vou mostrar, eu explico o que devem fazer, eles executam, e

agora já pode desatar o pano, senhor Scarlatti. Sem precipitação, tão tranquilamente como

antes estivera olhando as andorinhas, o italiano tirou a venda.

Na sua frente estava uma ave gigantesca, de asas abertas, cauda em leque, pescoço

comprido, a cabeça ainda em tosco, por isso não se sabia se viria a ser falcão ou gaivota, É

este o segredo, perguntou, Este é, até hoje de três pessoas, agora de quatro, aqui está

Baltasar Sete-Sóis, e Blimunda não se demora, anda na horta. O italiano fez uma pequena

vénia na direcção de Baltasar, que respondeu com outra mais profunda, ainda que inábil,

sempre era ele o mecânico, e além disso estava sujo, enfarruscado da forja, em todo ele só

brilhava o gancho, do muito e constante trabalho. Domenico Scarlatti aproximou-se da

máquina, que se equilibrava sobre uns espeques laterais, pousou as mãos numa das asas

como se ela fosse um teclado, e, singularmente, toda a ave vibrou apesar do seu grande

peso, cavername de madeira, lamelas de ferro, vime entrançado, se houver forças que

façam levantar isto, então ao homem nada é impossível, Estas asas são fixas, Assim é,

Nenhuma ave pode voar sem bater as asas, A isso Baltasar responderia que basta ter forma

de ave para voar, mas eu respondo que o segredo do voo não é nas asas que está, E esse

segredo não o posso saber eu, Não posso dar mais que mostrar o que aqui se vê, Já isso

basta para que eu agradeça, mas, havendo esta ave de voar, como sairá, se não cabe na

porta.

Baltasar e o padre Bartolomeu Lourenço olharam-se perplexos, e depois para fora.

Blimunda estava ali, com um cesto cheio de cerejas, e respondia, Há um tempo para

construir e um tempo para destruir, umas mãos assentaram as telhas deste telhado, outras o

deitarão abaixo, e todas as paredes, se for preciso. Esta é que é Blimunda, disse o padre,

Sete-Luas, acrescentou o músico. Ela tinha brincos de cerejas nas orelhas, trazia-as assim para se mostrar a Baltasar, e por isso foi para ele, sorrindo e oferecendo o cesto, É Vénus e

Vulcano, pensou o músico, perdoemos-lhe a óbvia comparação clássica, sabe ele lá como é

o corpo de Blimunda debaixo das roupas grosseiras que veste, e Baltasar não é apenas o

tição negro que parece, além de não ser coxo como foi Vulcano, maneta sim, mas isso

também Deus é. Sem falar que a Vénus cantariam todos os galos do mundo se tivesse os

olhos que Blimunda tem, veria facilmente nos corações amantes, em alguma coisa há-de

um simples mortal prevalecer sobre as divindades. E sem contar que sobre Vulcano

também Baltasar ganha, porque se o deus perdeu a deusa, este homem não perderá a

mulher.

Sentaram-se todos em redor da merenda, metendo a mão no cesto, à vez, sem outro

resguardar de conveniências que não atropelar os dedos dos outros, agora o cepo que é a

mão de Baltasar, cascosa como um tronco de oliveira, depois a mão eclesiástica e macia do

padre Bartolomeu Lourenço, a mão exacta de Scarlatti, enfim Blimunda, mão discreta e

maltratada, com as unhas sujas de quem veio da horta e andou a sachar antes de apanhar as

cerejas. Todos eles atiram os caroços para o chão, el-rei que aqui estivesse faria o mesmo, é

por pequenas coisas assim que se vê serem os homens realmente iguais. As cerejas são

grossas, carnudas, algumas já vêm bicadas pelos pássaros, que cerejal haverá no céu para

que também lá possa ir alimentar-se, chegando a hora, este outro pássaro que ainda não

tem cabeça, porém, se vier a ser de gaivota ou falcão podem os anjos e os santos confiar

que comerão as cerejas intactas, pois, como se sabe, aquelas são aves que desprezam o

vegetal.

Disse o padre Bartolomeu Lourenço, Não irei revelar o segredo último do voo, mas,

tal como escrevi na petição e memória, toda a máquina se moverá por obra de uma virtude

atractiva contrária à queda dos graves, se eu largar este caroço de cereja, ele cai para o chão,

ora, a dificuldade está em encontrar o que o faça subir, E encontrou, O segredo descobri-o

eu, quanto a encontrar, colher e reunir é trabalho de nós três, É uma trindade terrestre, o

pai, o filho e o espírito santo, Eu e Baltasar temos a mesma idade, trinta e cinco anos, não

poderíamos ser pai e filho naturais, isto é, segundo a natureza, mais facilmente irmãos, mas,

sendo-o, gémeos teríamos de ser, ora ele nasceu em Mafra, eu no Brasil, e as parecenças

são nenhumas, Quanto ao espírito, Esse seria Blimunda, talvez seja ela a que mais perto

estaria de ser parte numa trindade não terrenal, Trinta e cinco anos é também a minha

idade, mas nasci em Nápoles, não poderíamos ser uma trindade de gémeos, e Blimunda,

que idade tem, Tenho vinte e oito, e sem irmão ou irmã, e isto dizendo levantou Blimunda

os olhos, quase brancos na meia penumbra da abegoaria, e Domenico Scarlatti ouviu ressoar dentro de si a corda mais grave duma harpa. Ostensivamente Baltasar levantou o

cesto quase vazio com o seu gancho, e disse, Acabou a merenda, vamos trabalhar.

O padre Bartolomeu Lourenço foi encostar uma escada à passarola, Senhor Scarlatti,

se quiser ver por dentro a minha máquina de voar. Subiram ambos, o padre levava o

desenho, e lá dentro, andando sobre o que parecia um convés de barco, explicou as

posições e funções das diversas partes, os arames com o âmbar, as esferas, as lamelas de

ferro, repetindo que tudo operaria por atracção mútua, mas não falou do sol nem do que

haveriam de conter as esferas, porém o músico perguntou, Que coisa atrairá o âmbar,

Talvez Deus, em quem toda a força mora, respondeu o padre, O âmbar atrairá que coisa, O

que estiver dentro das esferas, Esse é o segredo Sim, esse é o segredo, É mineral, vegetal ou

animal, Não é mineral, nem vegetal, nem animal Tudo é mineral, ou vegetal, ou animal,

Nem tudo, há coisas que o não são, a música, por exemplo, Padre Bartolomeu de Gusmão,

decerto não quer dizer-me que estas esferas vão conter música, Não, mas quem sabe se

com ela não subiria também a máquina, tenho de pensar nisso, afinal pouco falta para que

me erga eu ao ar quando o ouço tocar no cravo, É um gracejo, Menos do que parece,

senhor Scarlatti.

Entardecia quando o italiano se retirou. O padre Bartolomeu Lourenço passaria ali a

noite, aproveitava a vinda para ensaiar o seu sermão, já poucos dias estavam faltando para a

festa do Corpo de Deus. À despedida disse, Senhor Scarlatti, quando o enfadar o paço,

lembre-se deste lugar, Lembrarei, por certo, e, se com isso não perturbar o trabalho de

Baltasar e Blimunda, trarei para cá um cravo e tocarei para eles e para a passarola, talvez a

minha música possa conciliar-se dentro das esferas com esse misterioso elemento, Senhor

Escarlate, disse Baltasar, tomando bruscamente a palavra, venha quando quiser, se o senhor

padre Bartolomeu Lourenço autoriza, mas, Mas, No lugar da minha mão esquerda tenho

este gancho, ou um espigão em vez dele, sobre o coração uma cruz de sangue, Sangue meu,

acrescentou Blimunda, Sou o irmão de todos, disse Scarlatti, se me aceitarem. Baltasar

acompanhou-o fora, ajudou-o a montar na mula, Senhor Escarlate, querendo que eu ajude

a trazer o cravo, não tem mais que dizer.

Fez-se noite, ceou o padre Bartolomeu Lourenço com Sete-Sóis e Sete-Luas,

sardinhas salgadas e uma fritada de ovos, a infusa da água, pão grosseiro e duro. Duas

candeias mal alumiavam a abegoaria. Nos recantos, a escuridão parecia enovelar-se,

avançando e recuando consoante as oscilações das pequenas e pálidas luzes. A sombra da

passarola movia-se sobre a parede branca. Estava quente a noite. Pela porta aberta, acima

do telhado do palácio fronteiro, viam-se estrelas no céu já côncavo.

O padre saiu para o pátio, aspirou profundamente o ar, depois contemplou a estrada

luminosa que atravessava a abóbada celeste de um lado a outro, caminho de Santiago, se

não teriam sido antes os olhos dos peregrinos que, de tanto fixarem o céu, foram deixando

nele a própria luz, Deus é uno em essência e em pessoa, gritou Bartolomeu Lourenço

subitamente. Vieram Blimunda e Baltasar à porta saber que grito era aquele, não que

estranhassem as declamações do padre, porém assim, fora, a clamar violento contra o céu,

nunca acontecera. Houve uma pausa, mas os grilos não interromperam o seu estrilar, e

depois a voz ergueu-se outra vez, Deus é uno em essência e trino em pessoa. Nada

acontecera primeiro, nada aconteceu agora. Bartolomeu Lourenço voltou para a abegoaria e

disse aos outros que o tinham seguido, Fiz duas afirmações contrárias entre si, respondam-

me qual acham que é a verdadeira, Eu não sei, disse Baltasar, Nem eu, disse Blimunda, e o

padre repetiu, Deus é uno em essência e pessoa, Deus é uno em essência e trino em pessoa,

onde está a verdade, onde está a falsidade, Não sabemos, respondeu Blimunda, e não

compreendemos as palavras, Mas acreditas na Santíssima Trindade, no Padre, no Filho e no

Espírito Santo, falo do que ensina a Santa Igreja, não do que disse o italiano, Acredito,

Então Deus, para ti, é trino em pessoa, Pois será, E se eu te disser agora que Deus é uma

só pessoa, que era ele só quando criou o mundo e os homens, acreditarás, Se me diz que é

assim, acredito, Digo-te apenas que acredites, em quê nem eu próprio sei, mas destas

minhas palavras não fales a ninguém, e tu, Baltasar, qual é a tua opinião, Desde que

comecei a construir a máquina de voar, deixei de pensar nessas coisas, talvez Deus seja um,

talvez seja três, pode bem ser que seja quatro, a diferença não se nota, se calhar Deus é o

único soldado vivo de um exército de cem mil, por isso é ao mesmo tempo soldado,

capitão e general, e também maneta, como me foi explicado, e isso, sim, passei a acreditar,

Pilatos perguntou a Jesus o que era a verdade e Jesus não respondeu, Talvez ainda fosse

muito cedo para o saber, disse Blimunda, e foi com Baltasar sentar-se numa pedra ao lado

da porta, aquela mesma onde às vezes se catavam, agora o libertava ela das correias que

prendiam o gancho, depois pousou-lhe o coto no regaço para o aliviar daquela grande e

irreparável dor.

Et ego in illo, disse o padre Bartolomeu Lourenço dentro da abegoaria, pregoava assim

o tema do sermão, mas hoje não procurava os efeitos da voz, os trémulos rolados que

comoveriam os ouvintes, a instância das injunções, a suspensão insinuante. Dizia as

palavras que escrevera, outras que de improviso lhe surgiam agora, e estas negavam aquelas,

ou duvidavam-nas, ou faziam-nas exprimir sentidos diferentes, Et ego in illo, sim, e eu estou

nele, eu Deus, nele homem, em mim, que sou homem, estás tu, que Deus és, Deus cabe

dentro do homem, mas como pode Deus caber no homem se é imenso Deus e o homem tão pequena parte das suas criaturas, a resposta é que fica Deus no homem pelo

sacramento, claro está, claríssimo é, mas, ficando no homem pelo sacramento, é preciso

que o homem o tome, e assim Deus não fica no homem quando quer, mas quando o

homem o deseja tomar, posto o que será dito que de alguma maneira o criador se fez

criatura do homem, ah, mas então grande foi a injustiça que se cometeu contra Adão,

dentro de quem Deus não morou porque ainda não havia sacramento, e Adão bem poderá

arguir contra Deus que, por um só pecado, lhe proibiu para sempre a árvore da vida e lhe

fechou para sempre as portas do paraíso, ao passo que os descendentes do mesmo Adão,

com tantos outros e mais terríveis pecados, têm Deus em si e comem da árvore da Vida

sem nenhuma dúvida ou impedimento, se a Adão castigaram por querer assemelhar-se a

Deus, como têm agora os homens a Deus dentro de si e não são castigados, ou o não

querem receber e castigados não são, que ter e não querer ter Deus dentro de si é o mesmo

absurdo, a mesma impossibilidade, e contudo Et ego in illo, Deus está em mim, ou em mim

não está Deus, como poderei achar-me nesta floresta- de sim e não, de não que é sim, do

sim que é não, afinidades contrárias, contrariedades afins, como atravessarei salvo sobre o

fio da navalha, ora, resumindo agora, antes de Cristo se ter feito homem, Deus estava fora

do homem e não podia estar nele, depois, pelo sacramento, passou a estar nele, assim o

homem é quase Deus, ou será afinal o próprio Deus, sim, sim, se em mim está Deus, eu

sou Deus, sou-o de modo não trino ou quádruplo, mas uno, uno com Deus, Deus nós, ele

eu, eu ele, Durus est hic sermo, et quis potest eum audire.

A noite refrescava. Blimunda adormecera, com a cabeça apoiada no ombro de

Baltasar. Mais tarde, ele levou-a para dentro, deitaram-se. O padre saiu para o pátio, toda a

noite ali ficou, de pé, olhando o céu e murmurando em tentação.